segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Golden Globes

"Nos Golden Globes, Três Cartazes à Beira da Estrada foi o grande (e surpreendente!) vencedor da noite nas categorias de Cinema enquanto Big Little Lies e The Handmaid's Tale cumpriram o seu destino nas categorias de Televisão.
A 75ª Edição dos Golden Globes bem pode ficar conhecida por um dos seus vários cognomes: a Queda dos Gigantes (favoritos como The Post, Dunkirk e Chama-me Pelo Teu Nome vieram para casa de mãos vazias).
Numa noite onde não faltaram as devidas ferroadas às recentes acusações de assédio na indústria, a audiência vestiu-se quase inteiramente de negro para bater o pé perante os diversos tipos de desigualdades e desrespeitos praticados à porta fechada em Hollywood.
À parte disto, a noite fez-se dos momentos do costume. Vencedores inesperados, vencidos graciosos, e um novo apresentador do certame que acabou por trazer alguma energia renovada à noite mais descontraída que dá o pontapé de saída oficial para a temporada de prémios 2017-2018.
Três Cartazes à Beira da Estrada foi o grande e relativamente inesperado vencedor da noite, concretizando quatro das suas seis nomeações - incluindo Melhor Argumento, Filme e Actriz Principal. Logo depois seguiu-se Lady Bird com duas estatuetas principais e A Forma da Água com dois galardões técnicos. No campo televisivo, o anunciado domínio de Big Little Lies e The Handmaid's Tale fez-se sentir sem grandes surpresas mas com o devido reconhecimento.
Outro dos grandes momentos da noite viveu-se antes e durante o inspirador e entusiasmante discurso de Oprah Winfrey que nesta madrugada recebeu o prémio carreira Cecille B. DeMille tornando-se assim a primeira mulher negra da história a merecer esta distinção. Como seria de esperar, Winfrey envolveu e estimulou a audiência que em diversos momentos interrompeu o discurso com aplausos e ovações."
Eis a lista completa dos vencedores da edição de 2018 dos Golden Globes:

MELHOR FILME – Drama

MELHOR FILME – Comédia ou Musical

  • Um Desastre de Artista
  • Foge
  • O Grande Showman
  • I, Tonya
  • Lady Bird [VENCEDOR]

MELHOR ACTRIZ – Drama

  • Jessica Chastain, Jogo da Alta Roda
  • Sally Hawkins, The Shape of Water
  • Frances McDormand, Três Cartazes à Beira da Estrada [VENCEDOR]
  • Meryl Streep, The Post
  • Michelle Williams, Todo o Dinheiro do Mundo

MELHOR ACTRIZ – Comédia ou Musical

  • Judi Dench, Vitória & Abdul
  • Helen Mirren, Leisure Seeker
  • Margot Robbie, I, Tonya
  • Saoirse Ronan, Lady Bird [VENCEDOR]
  • Emma Stone, Battle of the Sexes

MELHOR ACTOR – Drama

  • Timothée ChalametChama-me Pelo Teu Nome
  • Daniel Day-Lewis, Linha Fantasma
  • Tom Hanks, The Post
  • Gary Oldman, A Hora Mais Negra [VENCEDOR]
  • Denzel Washington, Roman J. Israel, Esq.

MELHOR ACTOR  – Comédia ou Musical

  • Steve Carell, Battle of the Sexes
  • Ansel Elgort, Baby Driver - Alta Velocidade
  • James Franco, Um Desastre de Artista [VENCEDOR]
  • Hugh Jackman, O Grande Showman
  • Daniel Kaluuya, Foge

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO

  • Willem Dafoe, The Florida Project
  • Armie Hammer, Chama-me Pelo Teu Nome
  • Richard Jenkins, The Shape of Water
  • Christopher Plummer, Todo o Dinheiro do Mundo
  • Sam Rockwell, Três Cartazes à Beira da Estrada [VENCEDOR]

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA

  • Mary J. Blige, Mudbound - As Lamas do Mississípi
  • Hong Chau, Pequena Grande Vida
  • Allison Janney, I, Tonya [VENCEDOR]
  • Laurie Metcalf, Lady Bird
  • Octavia Spencer, The Shape of Water

MELHOR REALIZADOR

  • Guillermo del Toro, The Shape of Water [VENCEDOR]
  • Martin McDonagh, Três Cartazes à Beira da Estrada
  • Christopher Nolan, Dunkirk
  • Ridley Scott, Todo o Dinheiro do Mundo
  • Steven Spielberg, The Post

MELHOR ARGUMENTO

  • The Shape of Water
  • Lady Bird
  • The Post
  • Três Cartazes à Beira da Estrada [VENCEDOR]
  • Jogada de Alta Roda

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

  • "Home", Ferdinando
  • "Mighty River", Mudbound - As Lamas do Mississípi
  • "Remember Me", Coco
  • "The Star", A Estrela de Natal
  • "This is Me", O Grande Showman [VENCEDOR]

MELHOR BANDA-SONORA

  • Três Cartazes à Beira da Estrada
  • The Shape of Water [VENCEDOR]
  • Linha Fantasma
  • The Post
  • Dunkirk

MELHOR FILME – Animação

  • The Boss Baby
  • The Breadwinner
  • Coco [VENCEDOR]
  • Ferdinando
  • A Paixão de Van Gogh

MELHOR FILME – Estrangeiro

  • Uma Mulher Fantástica
  • Primeiro, Mataram o Meu Pai
  • Aus dem Nichts [VENCEDOR]
  • Nelyubov
  • O Quadrado

MELHOR SÉRIE – Drama

  • The Crown
  • Game of Thrones
  • The Handmaid’s Tale [VENCEDOR]
  • Stranger Things
  • This is Us

MELHOR SÉRIE – Comédia ou Musical

  • Black-ish
  • The Marvelous Mrs. Maisel [VENCEDOR]
  • Master of None
  • SMILF
  • Will and Grace

MELHOR ACTRIZ – Drama

  • Caitriona Balfe, Outlander
  • Claire Foy, The Crown
  • Maggie Gyllenhaal, The Deuce
  • Katherine Langford, 13 Reasons Why
  • Elisabeth Moss, The Handmaid’s Tale [VENCEDOR]

 MELHOR ACTRIZ – Comédia ou Musical

  • Pamela Adlon, Better Things
  • Alison Brie, GLOW
  • Rachel Brosnahan, The Marvelous Mrs. Maisel [VENCEDOR]
  • Frankie Shaw, SMILF
  • Issa Rae, Insecure

MELHOR ACTOR – Drama

  • Jason Bateman, Ozark
  • Sterling K. Brown, This Is Us [VENCEDOR]
  • Freddie Highmore, The Good Doctor
  • Bob Odenkirk, Better Call Saul
  • Liev Schreiber, Ray Donovan

MELHOR ACTOR – Comédia ou Musical

  • Anthony Anderson, Black-ish
  • Aziz Ansari, Master of None [VENCEDOR]
  • Kevin Bacon, I Love Dick
  • William H. Macy, Shameless
  • Eric McCormack, Will and Grace

MELHOR MINI-SÉRIE OU TELEFILME

  • Big Little Lies [VENCEDOR]
  • Fargo
  • Feud: Bette and Joan
  • The Sinner
  • Top of the Lake: China Girl

MELHOR ACTOR – Mini-série ou Telefilme

  • Robert De Niro, The Wizard of Lies
  • Jude Law, The Young Pope
  • Kyle MacLachlan, Twin Peaks
  • Ewan McGregor, Fargo [VENCEDOR]
  • Geoffrey Rush, Genius

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO em série, mini-série ou telefilme

  • David Harbour, Stranger Things
  • Alfred Molina, Feud
  • Christian Slater, Mr. Robot
  • Alexander Skarsgård, Big Little Lies [VENCEDOR]
  • David Thewlis, Fargo

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA em série, mini-série ou telefilme

  • Laura Dern, Big Little Lies [VENCEDOR]
  • Ann Dowd, The Handmaid’s Tale
  • Chrissy Metz, This Is Us
  • Michelle Pfeiffer, The Wizard of Lies
  • Shailene Woodley, Big Little Lies

MELHOR ACTRIZ – Mini-série ou Telefilme

  • Jessica Biel, The Sinner
  • Nicole Kidman, Big Little Lies [VENCEDOR]
  • Jessica Lange, Feud
  • Susan Sarandon, Feud
  • Reese Witherspoon, Big Little Lies
PRÉMIO CARREIRA Cecille B. DeMille
Oprah Winfrey

domingo, 7 de janeiro de 2018

Ao Domingo Há Música

Só a música pode criar uma cumplicidade indestrutível entre dois seres. Uma paixão é perecível, degrada-se como tudo aquilo que participa da vida, enquanto que a música pertence a uma ordem superior à vida e, certamente, à morte.
                      E.M. Cioran,  Aveux et anathèmes

E há vozes que nos trazem essa ordem superior , numa tessitura de grande harmonia , talento e humildade.
Barbara Hendricks, em "Deborahs Theme", do filme   "Once upon a time in America". Um tributo  a Ennio Morricone, em 2010,  na cerimónia do Polar Music Prize.

Barbara Hendricks,  em I have a dream, dos  ABBA, no tributo que lhes foi prestado em  2002.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Numa casa de espelhos

Numa casa de espelhos
Por Desidério Murcho

As Vidas dos Animais, de J. M. Coetzee
Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Temas e Debates, 2000, 134 pp.

“Esta é uma obra intrigante que se parece um pouco com uma casa de espelhos. Convidado pela Universidade de Princeton para proferir uma série de conferências, Coetzee subverte a ideia de conferência e em lugar de apresentar uma série de ensaios literários, como é habitual, apresenta uma ficção: um pequeno conto dividido em duas partes, respectivamente intituladas "Os Filósofos e os Animais" e "Os Poetas e os Animais". Mas — e é aqui que o jogo de espelhos começa — o conto é sobre uma romancista que é convidada por uma universidade para proferir uma conferência. Mas a conferencista, ao invés de proferir uma conferência sobre literatura, como seria de esperar, escolhe o tema dos direitos dos animais, apresentando duas conferências. Estas duas conferências são-nos apresentadas na íntegra, com interlúdios que relatam a difícil relação que a romancista tem com o seu filho (professor na universidade em questão) e com a nora, que é especialista em filosofia da mente e extremamente crítica em relação às ideias da romancista quanto aos direitos dos animais.
O jogo de espelhos não se fica por aqui. O pequeno conto de 56 páginas é complementado com 4 reflexões de outros tantos especialistas em diversas áreas do conhecimento, que discutem a forma e o conteúdo da história da romancista inventada por Coetzee. Assim, na sua totalidade, As Vidas dos Animais não é apenas uma narrativa dentro de uma narrativa, é uma narrativa dentro de uma narrativa que inclui críticas diversificadas a ambas. Mais surpreendente ainda é o texto de um dos especialistas — o filósofo Peter Singer — que resolve subverter uma vez mais os géneros e em vez de apresentar um ensaio sobre as questões filosóficas dos direitos dos animais presentes no conto de Coetzee, apresenta… um pequeno e excelente conto em que ele discute com a sua filha as ideias da romancista inventada por Coetzee. Magnífico!
A romancista apresentada por Coetzee é uma mulher idosa que exibe uma amargura resignada relativamente ao modo como os seres humanos tratam os animais, matando-os e fazendo-os sofrer, como se fossem objectos inanimados que podemos usar para satisfazer os nossos prazeres mais egoístas e irrelevantes — como um bife tenro ou uns sapatos macios de cabedal. Ela tem a sensação de que os argumentos filosóficos são insusceptíveis de fazer as pessoas mudar de hábitos, e de as levar a deixar de fazer sofrer os animais e de os usar como se fossem objectos inanimados. Curiosamente, esta ideia é contrariada pela própria história do movimento de libertação dos animais, que recebeu um impulso decisivo em 1975, aquando da publicação do livro Libertação Animal, de Peter Singer. Por outro lado, a romancista de Coetzee está cada vez mais convencida de que são gritantes as semelhanças entre o que fazemos aos animais e o que os nazis fizeram e teriam continuado a fazer aos judeus caso tivessem ganho a guerra. Muitas pessoas acham esta ideia insultuosa e um dos personagens do conto de Coetzee recusa-se precisamente a participar no jantar oferecido à romancista pela universidade precisamente por se sentir ofendido com a analogia.
Através da sua personagem, Coetzee discute ideias de filósofos como Descartes, Thomas Nagel, Bernard Williams, Mary Migdley e Aristóteles, entre outros. A literatura faz muitas vezes incursões na filosofia — e ainda bem — mas infelizmente, regra geral, essas incursões são pouco mais do que patéticas. E é o que acontece neste caso. Ler o que Coetzee pensa acerca de Nagel ou Descartes é pouco diferente de ler o que um mau aluno do ensino secundário pensa: muita confusão, pensamentos irreflectidos, non sequiturs e a incompreensão básica que as pessoas sem uma formação adequada em filosofia normalmente têm dos problemas, das teorias e dos argumentos da filosofia. Fez-me lembrar os disparates de Jorge Luís Borges sobre George Berkeley, que o interpreta de forma tão tola que é risível. É pena.
O conto de Coetzee é complementado com discussões do filósofo Peter Singer, como já referi, mas também de uma especialista em teoria da literatura, uma primatóloga e uma especialista em estudos religiosos. Os melhores textos são os da primatóloga e de Peter Singer, pela inteligência, pertinência e elegância. O conto é precedido de uma introdução de Amy Gutman, que relata as circunstâncias que lhe deram origem, fazendo também uma sinopse das ideias da romancista apresentada por Coetzee, assim como das quatro discussões incluídas no volume.
Estamos perante uma obra que transgride as fronteiras entre romance e ensaio, integrando os romancistas no debate internacional de ideias — e retirando-os do solipsismo bacoco em que o romantismo alemão os deixou, preocupadinhos com a sua alminha e as suas angustiazinhas de trazer por casa. Apesar das fragilidades que Coetzee revela na compreensão da filosofia, trata-se de um volume de leitura obrigatória, quer pela forma inovadora, quer pelo conteúdo que faz pensar. A tradução tem a marca da qualidade de Maria de Fátima St. Aubyn."
Desidério Murcho, em artigo publicado na revista Livros, n.os 11/12, Julho de 2000.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Citando

"Não há nada que traduza  melhor a ignorância do mundo do que alegar como uma prova dos merecimentos  e do valor dum homem o facto  de ter  muitos amigos : como se os homens concedessem  a amizade consoante  o valor  e o merecimento! como se não fossem semelhantes  aos cães que estimam aquele que os afaga ou lhes dá apenas ossos, sem maior  solicitude . - Aquele que melhor  sabe afagar os homens, embora fossem os animais mais horrendos, é esse que tem muitos amigos." Artur Schopenhauer, in " Dores do Mundo", Editores Santos & Vieira , Empresa  Literária Fluminense, Lisboa, pp.201, 202

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Notícias e curiosidades

Estrela mais misteriosa do Universo tem poeira e não estrutura extraterrestre
"Tabby", a estrela mais misteriosa do Universo, está rodeada de poeira e não de uma estrutura extraterrestre, como se pensava. A estrela é maior e mais brilhante do que o sol.
A estrela mais misteriosa do Universo tem em seu redor nuvens de poeira que podem explicar as suas variações de luminosidade, admitem cientistas, afastando a tese de que “Tabby” tem à sua volta uma estrutura extraterrestre gigante.
A tese, sustentada em 2015 por um astrónomo norte-americano, foi refutada por mais de 200 astrofísicos num artigo divulgado esta quarta-feira na publicação da especialidade The Astrophysical Journal Letters.
Segundo o artigo, a poeira é a causa mais provável para as variações de luminosidade da estrela, que tem a designação científica de “KIC 8462852”.
Em outubro de 2015, o astrónomo Jason Wright, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sugeriu que as variações de luz, repentinas e prolongadas, da “Tabby” se deviam a uma esfera de Dyson, uma megaestrutura que orbitaria a estrela e capaz de capturar a sua energia.
O físico britânico Freeman John Dyson teorizou a possibilidade de construção de uma estrutura tecnologicamente muito avançada, ainda fora das capacidades tecnológicas atuais, capaz de envolver e capturar energia diretamente de uma estrela.
A “Tabby”, considerada pelos cientistas como a estrela mais misteriosa do Universo, está a mais de mil anos-luz da Terra, na constelação do Cisne, sendo maior e mais quente do que o Sol.
A estrela, descoberta pelo telescópio espacial Kepler, foi estudada com mais detalhe entre Março de 2016 e Dezembro de 2017."
Doze filmes para vermos em 2018 até os Óscares chegarem
Eurico de Barros seleccionou uma dúzia de filmes que se estreiam em Janeiro e Fevereiro, vários dos quais estarão na lista dos nomeados aos Óscares, que serão entregues no próximo dia 4 de Março.
Prémio Vasco Graça Moura atribuído ao professor Vítor Aguiar e Silva
3/1/2018
"O júri escolheu por maioria Vítor Aguiar e Silva, antigo vice-reitor da Universidade do Minho, referindo que é um "exemplo de cidadania cultural". A data de entrega dos prémios não é ainda conhecida.
O Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural foi atribuído ao escritor, professor e investigador Vítor Aguiar e Silva, autor de “Camões: Labirintos e Fascínios” e “Teoria da Literatura”, anunciou esta quarta-feira a Estoril-Sol, que patrocina o galardão.
O júri, que foi presidido por Guilherme d’Oliveira Martins, escolheu por maioria Aguiar e Silva, antigo vice-reitor da Universidade do Minho, referindo que é um “exemplo de cidadania cultural, que liga a dimensão didáctico-científica à pedagógica”, segundo a mesma fonte.
Em ata, o júri destacou o “percurso incomum” de Aguiar e Silva, “nos domínios da Teoria Literária, instrumento fundamental na formação de gerações, da Literatura Portuguesa e na fixação e estudo de parte relevante da obra camoniana, num brilhante exercício de intervenção pública, quer pelo seu magistério universitário, quer pelas altas missões no campo da política da Língua e da Educação”.
O Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, no valor de 40 mil euros, foi instituído pela Estoril-Sol, em parceria com a Editora Babel, tendo sido atribuído pela primeira vez em 2016 ao ensaísta Eduardo Lourenço. No ano passado, o distinguido foi o jornalista e escritor José Carlos Vasconcelos.
Vítor Manuel Aguiar e Silva, de 78 anos, tem-se dedicado à investigação da Literatura Portuguesa dos períodos maneirista (século XVI), barroco (século XVIII) e modernista (primeira metade do século XX), e ao estudo da Teoria da Literatura, “área em que o seu trabalho como professor e investigador tem sido nacional e internacionalmente reconhecido”, realça a Estoril-Sol
O investigador publicou, entre outros livros, “Camões: Labirintos e Fascínios” (1994), que lhe valeu o Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários e o da Associação Portuguesa de Escritores.
Entre as suas obras contam-se “A Lira Dourada e a Tuba Canora”, editada em 2008, “Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia”, em 2009, e “Teoria da Literatura”, obra de referência do autor, publicada originalmente em 1967, primeiro em fascículos, e desde então reeditada regularmente num só corpo, tendo sido profundamente revista e actualizada a partir de 1981.
Além de ter estado na génese do Instituto Camões, Vítor Aguiar e Silva também coordenou a Comissão Nacional de Língua Portuguesa (CNALP), tendo sido ainda membro do Conselho Nacional de Cultura. O laureado foi um dos signatários da petição “Em Defesa da Língua Portuguesa contra o Novo Acordo Ortográfico”, ao lado de Vasco Graça Moura (1942-2014).
Aguiar e Silva, natural da freguesia de Real, no concelho de Penalva do Castelo, distrito de Viseu, recebeu várias distinções, entre as quais o Prémio Vergílio Ferreira, atribuído em 2002 pela Universidade de Évora, e o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, em 2007.
A obra “A Lira Dourada e a Tuba Canora: Novos Ensaios Camonianos” valeu-lhe, em 2009, o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus, atribuído por um júri do qual fazia parte Vasco Graça Moura.
Vítor Manuel Aguiar e Silva licenciou-se em Filologia Românica, na Universidade de Coimbra, onde se doutorou em Literatura Portuguesa e foi professor catedrático.
Transferiu-se, em 1989, para a Universidade do Minho, onde foi catedrático do Instituto de Letras e Ciências Humanas e onde fundou e dirigiu o Centro de Estudos Humanísticos, assim como a revista Diacrítica.
O júri do prémio, ao qual presidiu Oliveira Martins, foi também constituído pelos autores, professores e investigadores Maria Alzira Seixo, José Manuel Mendes, Manuel Frias Martins, Maria Carlos Gil Loureiro, Liberto Cruz e, ainda, por José Carlos Seabra Pereira, em representação da Babel, e Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, pela Estoril-Sol.
O Prémio Vasco Graça Moura “visa distinguir um escritor, ensaísta, poeta, jornalista, tradutor ou produtor cultural que, ao longo da carreira — ou através de uma intervenção inovadora e de excepcional importância –, haja contribuído para dignificar e projectar no espaço público o sector a que pertença”, segundo o regulamento.
A cerimónia de entrega do Prémio, cujo distinguido é conhecido esta quarta-feira, no dia em que Graça Moura completaria 75 anos, “será anunciada oportunamente”, adiantou a Estoril-Sol." Observador



É hora de fazer balanços. Muitos balanços. Para o ajudar a gerir os "best of" que o têm inundado, o Observador criou a Lista das Listas. Da literatura à música, estas são as 55 que importam.
Leia Aqui

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A pessoa mais honesta que conheci

O meu velho
Por António Lobo Antunes
"Desprezava o dinheiro mas era teso que se fartava, o meu velho, de uma coragem que alguns dos meus irmãos herdaram. Eu nem por isso, tenho dias. Portanto, no meio dos seus inúmeros defeitos, possuía umas qualidadezitas e nunca o vi gabar-se fosse do que fosse. Mesmo assim, em Santa Maria, ainda deu porrada num ou noutro colega que ele considerava desonesto
O meu pai, que tinha um feitio difícil, foi a pessoa mais honesta que conheci. Desprezava profundamente o dinheiro e portanto, com seis filhos, não havia muito em casa. Médico, professor da Faculdade de Medicina, não cobrava aos doentes do consultório se simpatizava com eles: trazia-os para jantar em casa, o que complicava a vida à minha mãe que era quem administrava as poucas finanças que havia. O Mestre dele, o Professor Egas Moniz, postulava que não se devia aceitar fosse o que fosse de artistas e o meu pai seguia escrupulosamente essa regra. Como, na sua opinião, toda a gente era artista, aparecia muitas vezes com desconhecidos que sentava à nossa mesa do jantar, obrigando a uma constante multiplicação bíblica dos pães e dos peixes. Uma ocasião perguntou-me, perplexo

– Como posso eu aceitar dinheiro de uma pessoa que sofre?

Lembro-me, por exemplo, de ter ido ao seu Serviço em Santa Maria na ideia de apanhar uma boleia de carro para o almoço. O meu pai estava a examinar um camponês já de certa idade

(os doentes eram as únicas pessoas para quem ele, geralmente bruto e em não poucas ocasiões violento, mostrava uma inesperada ternura)
quando acabou de medicá-lo o camponês perguntou-lhe quanto lhe devia, o meu pai respondeu

– Nada

o camponês olhou-o com espanto primeiro, depois começou a vasculhar as algibeiras, depois tirou de lá uma moeda de vinte e cinco tostões, depois enfiou a moeda no bolso da bata do meu pai, depois disse-lhe

– Tome lá para uma cerveja, senhor doutor

o meu pai, que nunca vi beber cerveja, agradeceu imediatamente, eu, que sempre fui parvo, perguntei, quando ele se foi embora

– Não tem vergonha de aceitar dinheiro de um pobre?

o meu pai olhou o idiota de dezoito ou dezanove anos que eu era

– Achas que ia ofendê-lo recusando?

e claro que me calei, consciente da minha idiotice. Acho que foi das raras ocasiões em que olhei o meu pai com amor, ele que, geralmente rugoso, tratava os doentes com uma suavidade imensa, inalteravelmente paciente, ele que para os familiares dos doentes era muitas vezes brusco, como era para nós e para o mundo em geral. Lembro-me, por exemplo, de no seu Serviço estar internada a filha de um ministro importante, de o ministro dizer ao meu pai

– Ó Senhor Professor eu acho que

e do meu velho, de quarenta e tal anos, lhe cortar a palavra

– Aqui quem acha sou eu e se o senhor quiser achar vai achar para casa

como me lembro de o chamarem para ver Salazar e ele contar à mesa à minha mãe

– Eu sempre detestei o homem mas estava cheio de pena dele

o meu pai que tivera no Serviço, Henrique Galvão, o homem que raptou o paquete Santa Maria para chamar a atenção do mundo para a ditadura, a quem inventou uma doença para o manter fora da cadeia, e embora o Serviço estivesse cheio de polícias políticos ajudou-o a fugir e ninguém, sei lá porquê, lhe foi à mão. O que mandava nos pides protestou

– Ó senhor professor, ó senhor professor

o meu pai, impávido

– No meu lugar você fazia o mesmo

e nem sequer lhe estendeu a mão. Desprezava o dinheiro mas era teso que se fartava, o meu velho, de uma coragem que alguns dos meus irmãos herdaram. Eu nem por isso, tenho dias. Portanto, no meio dos seus inúmeros defeitos, possuía umas qualidadezitas e nunca o vi gabar-se fosse do que fosse. Mesmo assim, em Santa Maria, ainda deu porrada num ou noutro colega que ele considerava desonesto. Lembro-me de ter aplicado um enxerto no jardineiro do meu avô, pai dele, homem enorme conhecido, no Colégio Militar, pelo Arranca Cabeças, que lhe ralhou à minha frente

(o único que vi ralhar com ele e o meu pai calado) a olhar-lhe os dedos cheios de sangue:

– Soube-te bem, não soube? A mim na tua idade também me sabia

e saiu sem mais palavras, com o meu pai caladinho de respeito, sem se justificar. Aqui para nós acho que o meu avô estava todo orgulhoso, ele cujas cenas de pancadaria eram lendárias, chegou a andar à trolha, sozinho, com a Filarmónica de Benfica que se atreveu a uns piropos à minha avó, e com um primo também enorme a quem acabou a quebrar-lhe o guarda-chuva na cabeça, sentado em cima da barriga do outro. Felizmente que o meu pai e o meu avô já cá não estavam quando me deram o Prémio Camões: é que o Presidente da República demorou a chegar e o primeiro ministro, Sócrates, passou meia hora a falar comigo. Era um sujeito sem interesse nenhum, mas ainda bem que eles não viram. Já estou daqui a escutar os comentários – Não tens vergonha, tu, de falar com esse?

e embora, nesse tempo, não se lhe conhecessem as proezas, a cara não enganava e eu ia fatalmente ouvir o comentário, para ele, mais desdenhoso do mundo:

– Camelo

e claro que não me atreveria a protestar. Em geral a razão estava do lado deles. É que a honestidade, percebem, a honestidadezinha era a coisa mais importante desta vida. Aqui há meses telefonei a um fulano a preveni-lo que nunca se atrevesse a aparecer-me à frente. Ainda não apareceu mas continuo à espera. Como dizem os jogadores de futebol a esperança é a última coisa a morrer. Se por acaso ele ler isto fica a saber que eu não esqueço. Ainda não perdi as minhas qualidades de pedagogo e o meu pai havia de, secretamente, ficar contente comigo. Nunca utilizei com ele a palavra paizinho. Vou usá-la agora: Tenho muito orgulho em ser seu filho, paizinho.”

Antonio Lobo Antunes, em Crónica publicada na revista Visão , em 21.12.2017 às 8h32

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Memória dos Livros

"Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos — a livre propriamente dita e a incerta.
(...)Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos. Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:
— Este não pode! Está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!
Na área proibida, não pode deixar de ser feita uma menção aos pais de meu pai, meus avós João e Amália. João era português, leitor anticlerical de Guerra Junqueiro e não levava o filho muito  a sério intelectualmente, porque os livros que meu pai escrevia eram finos e não ficavam em pé sozinhos."Isto é merda",dizia ele,sopesando com desdém uma das monografias jurídicas de meu pai. "Estas tripinhas que não se sustentam em pé não são livros, são uns folhetos". Já minha avó tinha mais respeito pela produção de meu pai, mas achava que, de tanto estudar altas ciências, ele havia ficado um pouco abobalhado, não entendia nada da vida. Isto foi muito bom para a expansão dos meus horizontes culturais, porque ela não só lia como deixava que eu lesse tudo o que ele não deixava, inclusive revistas policiais oficialmente proibidas para menores. Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai ficava preocupado.
— D.Amália — dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo —, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição. A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado,cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.
— Senhor doutor — respondia minha avó —,sou avó deste menino e tua mãe.Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem.Levo o menino sem condição nenhuma e,se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes,que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor.
E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abestalhado para a vida,e meu avô,que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler — Amália tinha razão, se o menino queria ler que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que ficava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:
— Uma de cada?
— Uma de cada — confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não-proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós.
— Mande levar. E agora aos livros!"
João Ubaldo Ribeiro, in "Um Brasileiro em Berlim", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1995 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Em 2018

Cada coisa
Cada coisa tem o seu fulgor
a sua música.
Na laranja madura canta o sol, 
na neve o melro azul. 
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz com que durem ainda . 
Assim o coração.
Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua, APE

DAVID GILMOUR, em  Red Sky At Night (HQ Sound, HD-4K) d46b's do Álbum "On an Island".