segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Todos nós dependemos de Listas

LISTAS
Por Eugénio Lisboa

                                                    O animal humano difere dos primatas
                                                    inferiores, na sua paixão pelas listas dos
                                                   dez Melhores.  
                                                                                       H. Allen Smith

"Todos nós dependemos, na nossa vida quotidiana, de listas, que nos permitem vivermos um pouco mais organizadamente. Listas de compras, de endereços, de números de telefone, de tarefas a realizar ao longo do dia, da semana, do mês, de livros a consultar, de medicamentos a tomar… Sem listas, a vida torna-se uma anarquia e um inferno. Como lembram os organizadores dos vários volumes do famoso The Book of Lists – David Wallechinsky, Irving Wallace e Amy Wallace - , “enttre 1792 e 1750 A. C., Hammurabi, rei da Babilónia, deu ao mundo uma lista de 282 leis – um código de leis dizendo respeito ao casamento, ao roubo, à escravatura e a outras matérias civilizadas. Depois”, acrescentam, “cerca de 1200 A. C. Moisés conduziu os israelitas para fora do Egipto, em busca de uma pátria. Do topo do Monte Sinai, «Moisés falou e Deus respondeu-lhe com uma voz» e, quando Moisés desceu, tinha uma lista – os 10 Mandamentos, venerados até hoje por judeus, cristãos e muçulmanos.”
As listas são, repito, essenciais à vida. As listas informam, esclarecem, ajudam. Há listas para tudo e para todos os gostos: de grandes corredores, de grandes amantes, de grandes fumadores, de grandes escritores, de grandes músicos, de grandes drogados, de grandes solteiros. As listas entram pela vida dentro e são, elas próprias, vida.
Os organizadores de The Book of Lists – em vários volumosos tomos – não se pouparam a esforços para saberem o que certos notáveis deste nosso mundo “escolhiam”: os dez (ou vinte ou trinta) melhores escritores de todos os tempos, os 12 escritores que escreviam de pé, os autores que não usavam pontuação, os mais interessantes, os mais chatos e por aí fora. Por exemplo, num levantamento feito, em 1950, pelo Boletim da University Press, da Universidade de Columbia, listou-se uma quinzena dos “clássicos mais chatos do mundo”, entre os quais figuravam o romance Moby Dick, de Herman Melville, o poema Paradise Lost, de John Milton, a Life of Samuel Johnson, de James Boswell, o romance Silas Marner, de George Eliot, o Ivanhoe, de Walter Scott, o Dom Quixote, de Cervantes, o Fausto, de Goethe, a Guerra e Paz, de Tolstoi, a Recherche du Temps Perdu, de Proust, o Das Kapital, de Karl Marx, a Vanity Fair, de Thackeray e o romance famoso, também de George Eliot, The Mill on the Floss (O Moínho à beira do Floss). A grande George Eliot teve a honra única de aparecer duas vezes, nesta lista de chatos. E Karl Marx, que aqui aparece como chato emérito, surge, porém, numa outra lista de “obras que mudaram o mundo”. Incluir a Guerra e Paz e o Dom Quixote entre os chatos mais egrégios do mundo deve fazer solevar-se mais do que uma sobrancelha.
Ainda em clave de chatice, o volume 2 da Book of Lists publica uma escolha dos “dez autores mais chatos de todos os tempos”, organizada pelo grande jornalista e humorista americano H. L. Mencken. Querem saber quem são? Segurem-se: Dostoiewsky, George Eliot, D. H. Lawrence, James Fenimore Cooper, Eden Phillpots, Robert Browning, Selma Lagerlöf, Gertrude Stein, Björnstorne  Björnson e J.W. Goethe. Para os menos metidos nestas coisas, informaria que Eden Phillpots foi um romancista e dramaturgo inglês, da região de Dartmoor, que publicou 18 romances sobre essa região e que era muito admirado por Agatha Christie e por Jorge Luis Borges, que várias vezes se lhe refere, tendo publicado recensões críticas de romances seus e tendo-o incluído na sua "Biblioteca Pessoal”. Quanto a Björnson, cujo nome nada dirá à maioria dos leitores de hoje, foi um famoso dramaturgo norueguês que roubou a Ibsen o Prémio Nobel.
As listas dizem, muitas vezes, mais sobre os autores delas do que sobre os listados. É, por exemplo, um pouco estranha a lista que Henry Miller congeminou para “os dez maiores escritores de todos os tempos”: Lao-Tzu, Rabelais, Nietzsche, Rabindranath Tagore, Walt Whitman, Marcel Proust, Élie Faure, Marie Corelli, Dostoiewsky e Isaac Bashevis Singer. Além das escandalosas omissões, pode estranhar-se, quase tanto, a inclusão, nesta lista, de uma escritora como Marie Corelli, que só terá a recomendá-la ter sido a ficcionista mais vendida do seu tempo (segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX), batendo, inclusivamente, Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes. Misturando cristianismo com reincarnação, astrologia e toda uma sinistra parafernália mística, a escritora foi, por muitos, alçada aos cornos da lua. James Agate dizia, contudo, dela, que combinava “a imaginação de Poe, com o estilo de Ouida e a mentalidade de uma criada de crianças.” Por outro lado, a inclusão de um historiador de arte, como Élie Faure, poderá, igualmente, causar admiração. Outras escolhas de Miller são também bizarras, sobretudo por se tratar de “os maiores escritores de todos os tempos”, que não pelo valor intrínseco de cada um dos escolhidos.
Como disse, há listas para todos os gostos, como, por exemplo, a lista de 12 escritores que escreviam de pé. Nela – que não inclui o nosso Eça de Queirós, o qual também escrevia de pé – encontram-se, entre outros, os seguintes autores: Lewis Carroll (o autor de Alice no País das Maravilhas), Benjamin Disraeli, Ernest Hemingway, Horace McCoy, Vladimir Nabokov, William Saroyan (o do Rapaz do trapézio Voador), Thomas Wolfe e Virginia Woolf.
Como disse, há listas para tudo, até uma lista de autores que não pontuavam de todo ou usavam pouquíssima pontuação (Saramago não inventou nada): Guillaume Apollinaire, Gertrude Stein e E. E. Cummins (poeta modernista americano), entre outros. Lembro-me de, aliás, no início da minha adolescência, ter lido uma romancista americana, Helen Grace Carlisle, que também não pontuava: há pólvora que foi descoberta há muito tempo.
Somerset Maugham foi um romancista e contista de enorme êxito internacional, além de um homem de grande frontalidade. Quando lhe perguntaram quais “os dez melhores romances do mundo”, deu esta resposta que profusamente documentou: Guerra e Paz, de Tolstoi; Le Père Goriot, de Balzac; Tom Jones, de Henry Fielding; Pride and Prejudice, de Jane Austen; Le Rouge et le Noir, de Stendhal; Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), de Emily Bronte; Madame Bovary, de Flaubert; David Copperfield, de Charles Dickens; Os Irmãos Karamazov, de Dostoiewsky e Moby Dick, de Herman Melville. Poderia, é claro, perguntar-se por que não La Cousine Bette, de Balzac ou La Chartreuse de Parme, de Stendhal, em vez dos escolhidos por Maugham, mas cada um escolhe como pode e sabe.
No The British Book of Lists, podemos também encontrar alguns factos interessantes. Por exemplo, se consultarmos a rubrica “percentagem de pessoas que fazem leituras diárias na Europa de 1974”, verificaremos que o Reino Unido vem à cabeça, com 21%, seguido pela Suécia e Dinamarca, com 20%. Em último lugar fica a Espanha, com 7%. Portugal nem sequer aparece.
Outra consulta interessante é a dos postais que mais se vendem, na National Gallery, em Londres: muito à cabeça vem o famoso Cartoon de Leonardo (A Virgem, Santa Ana e o Menino), que é, por acaso, a minha escolha pessoal do quadro mais belo do mundo. Vendeu 37000 exemplares em 1979. O segundo da lista foi um Renoir (Os guarda-chuvas).
Em número de bibliotecas públicas, o Reino Unido ganha também a grande distância, seguido, de muito longe, pela Itália.
Poderia dar aqui um infindável número de exemplos de listas, mas tenho espaço limitado. Vejamos só mais um, para terminar de modo um bocadinho acintoso: colho, de uma longa lista de “graffiti” ingleses, dos anos setenta, algumas amostras significativas: 1) Prepara-te para te encontrares com Deus (trajo de noite, facultativo); 2) As mulheres gostam das coisas mais simples da vida – por exemplo, os homens; 3) A morte é o modo de a natureza dizer que abrandemos; 4) Conserva a energia – faz amor devagar; 5) Quando Deus fez o homem, estava apenas a ensaiar; 6) A realidade é só para as pessoas que não conseguem lidar com as drogas; 7) Mantém a Grã-Bretanha limpa – mata um turista."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL nº1222, Agosto 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Ao Domingo Há Música

Pensa no sul.
Verás o mar em todas as ilhas do mundo. Ouvirás de novo os teus passos quando ainda crescias, a serenidade dos embondeiros, teu pai voltava com uma túnica de sol, tua mãe colhia  nas águas do rio os cânticos do coração.
                Eduardo Bettencourt Pinto, in Tango, nos Pátios do Sul

Angélique Kidjo  traz  o cântico no coração. Angélique  é uma famosa cantora , natural do Benim , que celebra a música africana pelo mundo. Com  os sons e tradições desse grande continente do Sul, não cessa de derrubar fronteiras através da força e musicalidade da sua voz.
"Malaika ", por Angélique Kidjo , no Youssou N' Dour's Africa Live Roll Back Malaria Festival, em  Dakar, 2005. 

Angélique Kidjo , em "Blewu", ao vivo , no KCRW
Angélique Kidjo, em "Fifa" , acompanhada pela Luxembourg Philharmonic Orchestra, em 2015.

sábado, 5 de agosto de 2017

Um espírito devotado à arte

Os Cegos - Karl Hofer, 1948
A Colecção Invisível
Por Stefan Zweig
«Não foi difícil encontrar a sua residência. Ele morava no segundo andar de um daqueles sóbrios edifícios provincianos que um construtor especulador devia ter erguido às pressas sem bons alicerces por volta dos anos 1860. No primeiro andar vivia um respeitável alfaiate; à esquerda, no segundo andar, brilhava a placa de um chefe dos correios; à direita, finalmente, a plaqueta em porcelana com o nome do conselheiro florestal.
Ao meu hesitante toque de campainha, abriu de imediato a porta uma senhora muito idosa com os cabelos brancos cobertos por uma esmerada touquinha preta. Apresentei-lhe o meu cartão de visita e indaguei se o conselheiro me poderia  receber. Admirada e de certo modo desconfiada ela olhou primeiramente para mim, depois para o cartão: naquela cidadezinha perdida e na modesta residência uma visita forasteira parecia ser um acontecimento extraordinário. Mas ela me pediu cordialmente para aguardar um instante, pegou o cartão e seguiu ao cómodo contíguo. Ouvi  cochichos, e logo em resposta uma expansiva voz masculina exclamou em alto e bom som:
— Ah! O Sr. R. de Berlim, da conhecida loja de antiguidades, pois que entre, que entre! É um prazer!
A boa velhinha retornou com passos miúdos e  pediu-me para a acompanhar à sala de estar. Tirei o agasalho e entrei. No centro da modesta sala, um homem de idade, mas ainda robusto, com espesso bigode, enrolado num roupão como um soldado no uniforme, mantinha-se de pé aprumado e me estendia ambas as mãos com cordialidade. Esse gesto claramente hospitaleiro de franca e afável saudação contrastava porém com uma estranha rigidez da postura. Ele não se adiantou ao meu encontro, e um pouco surpreendido tive que me aproximar dele para apertar-lhe a mão. Quando quis alcançá-la, porém, vi que as mãos imóveis na horizontal não buscavam as minhas, mas as esperavam. Naquele momento entendi tudo: o homem era cego.
Desde minha infância sempre experimentei uma sensação desagradável ao lidar com um cego. Nunca conseguia reprimir uma espécie de perturbação e constrangimento por sentir a pessoa viva que por sua vez não me sentia como eu a ela. Nessa ocasião, eu me dominava com calafrios olhando esses olhos apagados que fitavam o vazio sob as sobrancelhas brancas e hirsutas. Mas o cego não me deixou muito tempo para a surpresa, pois mal minha mão tocou a sua, ele sacudiu a minha com vigor e me repetiu as boas-vindas com seu jeito efusivo e agradavelmente expansivo.
— Uma visita excepcional — disse ele sorrindo para mim. — É incrível que um dos importantes homens de Berlim se aventure por nossas paragens… É preciso ficar de sobreaviso quando um cavalheiro berlinense se dá ao trabalho de vir até aqui. Em casa ,dizemos sempre que é necessário trancar as portas se os ciganos chegam. É, eu posso logo imaginar por que o senhor vem à minha procura. Os negócios vão de mal a pior no momento em nossa pobre e arruinada Alemanha, não há mais compradores, e assim os comerciantes que se prezam reconsideram novamente sua velha clientela e saem no seu encalço como ovelhinhas. Temo que no meu caso o senhor não terá sorte, pobres de nós, idosos aposentados, já nos damos por contentes quando conseguimos o pão de cada dia. Em virtude dos preços absurdos que vocês cobram hoje em dia, não podemos comprar nada. Pessoas como nós estão definitivamente fora do circuito.
Apressei-me a esclarecer que ele me entendera mal. Eu não viera vender coisa alguma, estava simplesmente de passagem pelas imediações e não quis perder a oportunidade de render visita a um dos nossos mais antigos clientes, e um dos maiores coleccionadores da Alemanha.
Nem bem eu pronunciara as palavras ‘um dos maiores coleccionadores da Alemanha’, uma estranha metamorfose se operou no rosto do velho senhor. Ele continuava aprumado, imóvel no centro da sala, no entanto uma expressão súbita de iluminação e orgulho interior o animou. Virou -se na direcção onde supunha encontrar a mulher, como se quisesse lhe dizer ‘Ouviu isso?’. E, renunciando ao rígido tom militar que usara a princípio,  voltou-se para mim com suavidade:
— Isso é realmente muito amável de sua parte. Asseguro que o senhor não terá feito a viagem em vão. Há de admirar algo que não se pode ver todo dia, nem mesmo na sua opulenta Berlim, algumas estampas como nem no Albertina ou na maldita Paris se encontrará mais belas. É. Quando se colecciona sessenta anos a fio acaba-se seleccionando objectos que não se encontra em qualquer esquina. Louise,  dê -me a chave do armário!
Foi quando sucedeu algo inesperado. A velha senhora, que se encontrava ao lado dele e assistira com polidez e um sorriso discreto à nossa conversa, levantou de repente ambas as mãos para mim num gesto suplicante e ao mesmo tempo fez com a cabeça um movimento violento de negação, sinal que de início eu não estava entendendo. Logo em seguida ela chegou mais perto do esposo e lhe pousou amavelmente as mãos sobre os ombros:
— Mas Herwarth — advertiu —, você nem perguntou ao cavalheiro se ele está com tempo para ver agora a colecção. Já é quase meio-dia. Após o almoço  deve repousar por uma hora, foi o que o médico prescreveu expressamente. Não seria melhor se  lhe mostrasse todas as coisas depois do almoço, e então nós poderíamos tomar juntos o café? A Annemarie estará aqui, ela está mais a par de tudo para ajudá-lo!
De novo, mal dissera essas palavras, ela repetiu o insistente gesto de súplica por sobre os ombros do marido, sem que ele suspeitasse de nada. Enfim a entendi. Eu deveria recusar ver a colecção naquele momento, então aleguei sem demora um compromisso para o almoço. Seria um prazer e uma honra poder conhecer a colecção, mas isso não seria possível antes das três horas, quando eu certamente poderia retornar com gosto.
Contrariado como uma criança de quem se toma o brinquedo predilecto, o velho replicou:
— Naturalmente — resmungou —, os homens de Berlim nunca têm tempo para coisa alguma. Dessa vez, porém, o senhor precisa arranjar algum tempo, pois não se trata de três ou cinco peças, mas sim de 27 pastas, cada uma reservada a um artista, e todas bem recheadas. Portanto, nos vemos às três horas, mas seja pontual, senão não chegaremos ao fim.
De novo ele estendeu a mão a esmo na minha direcção.
— Devo adiantar que ou o senhor vai se alegrar, ou se aborrecerá. Quanto mais se aborrecer, mais me alegrará. Nós coleccionadores somos sempre assim: tudo para nós mesmos e nada para os outros!
E ele voltou a  apertar-me a mão vigorosamente.
A senhorinha conduziu-me à porta. O tempo todo eu havia reparado nela certa inquietação que expressava uma angústia dissimulada. No instante em que eu estava prestes a sair, ela balbuciou com voz embargada:
— Será que… Será que nossa filha Annemarie poderia ir buscá-lo ao hotel e trazê-lo até aqui? Isso seria bom por várias razões… O senhor almoçará no hotel, não é mesmo?
— Claro, por que não? Será um prazer! — respondi.
De facto, uma hora mais tarde, eu acabara de terminar minha refeição no pequeno hotel da praça do Mercado, quando uma moça mais velha vestindo roupas simples se adiantou pela sala de jantar com ar de quem procura alguém. Apresentei-me e declarei que estava pronto a ir com ela para conhecer a colecção do seu pai. Mas, enrubescendo subitamente, e com o mesmo constrangimento que sua mãe demonstrara, ela indagou se antes ela não poderia conversar um pouco comigo. Vi logo que lhe era difícil abordar o assunto. Toda vez que ela tomava fôlego e tentava falar, o rubor subia pelo seu rosto até a testa e as mãos se crispavam na bainha da roupa. Até que finalmente ela começou, titubeante e sempre perturbada:
— Minha mãe  pediu-me que viesse. Ela  contou-me tudo e… nós gostaríamos de lhe pedir um favor… Nós gostaríamos de informar, antes que o senhor se encontre com nosso pai… O pai quer evidentemente mostrar-lhe  a coleção, e a colecção… a colecção… ela não está mais completa… Falta uma série de gravuras… infelizmente uma parcela bem numerosa…
Mais uma vez precisou tomar fôlego, então ela olhou-me de súbito e disse rapidamente:
— Preciso ser franca com o senhor… o senhor sabe o tempo em que vivemos, compreenderá tudo. Logo após a eclosão da guerra, o pai perdeu completamente a visão. Já antes disso ele tinha muitas vezes problemas de vista, mas a agitação acabou cegando-o de todo. Não obstante seus setenta e seis anos de idade, ele ainda quis partir para a França. Constatando que o exército não avançava tão bem como em 1870, foi tomado por grande agitação e com isso a sua visão declinou num ritmo vertiginoso. Afora isso, a saúde dele está perfeita. Até há pouco tempo caminhava ainda durante horas, inclusive ia às suas adoradas caçadas. Mas agora acabaram-se os passeios e a única alegria que lhe resta é a colecção que ele todos os dias revê… Ou, melhor dizendo, não vê mais, nada mais ele vê, mas todas as tardes ele reabre todas as pastas para pelo menos tocar as gravuras, uma após outra, ordenadas na mesma sequência que ele conhece há décadas de cor e salteado. Nada mais lhe interessa  e hoje em dia, preciso estar sempre lendo-lhe os anúncios no jornal sobre leilões, e quanto mais ele ouve sobre a alta dos preços mais se alegra, pois… Isso é o mais terrível: o pai não entende mais os preços e a situação actual. Ele ignora que perdemos tudo e que com o valor de sua pensão não poderíamos sobreviver senão dois dias do mês. Isso não é tudo! O marido de minha irmã morreu na guerra e ela ficou com quatro crianças pequenas. O pai, como o senhor vê, ignora nossas dificuldades materiais. No início nós economizamos, economizamos mais do que já economizávamos antes, mas em vão. Em seguida começámos a vender; não tocávamos na estimada colecção. Vendemos as poucas jóias que possuíamos. Meu Deus! Não era grande coisa, se durante sessenta anos o pai gastara até a última moeda de nossas economias na compra das gravuras. Nós não tínhamos mais recursos, e assim a mãe e eu vendemos uma das estampas. O pai não teria permitido, ele não sabe como a vida está difícil, não tem noção da dificuldade de se conseguir no mercado negro o parco alimento, ele não sabe que perdemos a guerra e a Alsácia-Lorena. Nós não lhe lemos mais  essas notícias, para evitar que se agite.
Foi uma obra preciosa a que vendemos, uma água-forte de Rembrandt. O antiquário nos ofereceu milhares de marcos e tínhamos a esperança de que nos sustentaria por alguns anos. Mas o senhor sabe como o dinheiro se esvai. Depositámos o banco, e dois meses depois já não restava nada. Logo foi necessário vender mais uma obra, e mais uma. O comerciante atrasava tanto o pagamento que quando o recebíamos tinha perdido muito o  seu valor. Tentámos então participar nos leilões, mas também nesse caso nos ludibriaram, apesar dos preços milionários. Quando os milhares por fim nos chegavam , não passavam de papéis sem valor. Assim aos poucos foi desaparecendo o melhor da colecção, salvo uma ou duas peças, unicamente com o fito de nos permitir sobreviver de modo precário, e nosso pobre pai nada sabe disso.
Por isso minha mãe se assustou hoje quando o senhor se apresentou. Se ele lhe mostrasse as pastas, então tudo teria vindo à tona. Pois nós inserimos nos velhos passe-partouts, que ele reconhece pelo tacto, reproduções ou folhas com texturas semelhantes àquelas imagens vendidas, de maneira que ele não nota quando passa a mão. Mesmo que só possa tocá-las e conferi-las (ele se recorda perfeitamente da sequência de sua classificação),  experimenta a mesma satisfação de antigamente, quando as via com seus próprios olhos. Em geral não há ninguém nesta cidade a quem o pai tenha julgado digno de mostrar seus tesouros. Ama cada uma das gravuras com um amor tão entusiasmado que seu coração certamente se partiria de dor se suspeitasse que aquilo que crê entre seus dedos há muito se evaporou. O senhor é o primeiro em todos esses anos, desde que o antigo director do Gabinete de Gravuras de Dresden morreu, a quem ele acredita ter a honra de mostrar a sua colecção. É por isso que lhe suplico…
De súbito, a jovem envelhecida ergueu as mãos, seus olhos cintilavam húmidos.
— … nós lhe pedimos que não o faça infeliz, não nos faça infelizes, destruindo essa última ilusão; ajude-nos a fazê-lo acreditar que todas essas folhas que ele descreverá de facto correspondem ao que diz. Ele não sobreviveria se duvidasse disso. Talvez tenhamos agido mal com ele, mas não tinha outro jeito; é preciso viver… e as vidas humanas de quatro crianças órfãs como as de minha irmã são mais importantes que xilogravuras… Até hoje nós nunca o privamos das suas alegrias; ele está contente de poder folhear as pastas todas as tardes durante três horas, conversar com cada uma das gravuras como com um amigo. E o dia de hoje poderia ser para ele o mais glorioso, pois há anos ele espera a oportunidade de mostrar o seu tesouro a um perito. Por favor, peço de mãos juntas, não o prive dessa alegria!
Tudo isso foi dito com uma voz bastante emocionada, de um modo que minhas palavras não são capazes de recontar. Meu Deus, como negociante, encontrei muitas dessas pessoas vergonhosamente pilhadas, enganadas vilmente pela inflação, cujo precioso património ancestral foi surripiado por um pedaço de pão. Mas nesse caso o destino confrontava-me com uma situação especial que me tocava profundamente. Claro que prometi à menina que guardaria o segredo e faria o melhor que pudesse.
Dirigimo-nos juntos para a casa deles. A caminho ainda me inteirei indignado da bagatela que tinham pago pelas obras a essas pobres mulheres ignorantes, o que no entanto somente veio reforçar meu propósito de fazer o máximo por elas. Subimos a escadaria, nem sequer tínhamos entrado e já ouvíamos vindo da sala de estar a voz amigável e ruidosa do ancião:
— Entrem! Entrem!
Com os seus sensíveis ouvidos de cego ele deve ter escutado os nossos passos desde a escadaria.
— Herwarth não pôde pregar os olhos de tanta ansiedade para lhe mostrar os seus tesouros — disse a velha senhora sorrindo.
Uma simples troca de olhares entre mãe e filha bastou para sossegá-la quanto à minha aquiescência. Em cima da mesa estavam espalhadas as pilhas de pastas e, tão logo sentiu minha mão, o cego me puxou pelo braço e me fez sentar na poltrona.
— Bem, e agora vamos começar, é muita coisa para se ver, e os senhores de Berlim nunca têm tempo. Essa primeira pasta aqui é de Dürer e, como haverá de se convencer, está bem completa: cada exemplar mais lindo que o outro. Julgue por si mesmo! Vamos lá.
Ele abriu a pasta na folha denominada O grande cavalo. Com o extremo cuidado com que se toca um objecto frágil, retirou da pasta um passe-partout no qual uma folha amarelada de papel em branco estava emoldurada e, delicadamente, com as pontas dos dedos, ergueu entusiasmado até à frente dos olhos apagados o papel sem valor. Contemplou-o por alguns instantes sem o ver de facto, mas segurando extasiado a folha branca na mão esticada à altura dos olhos, o rosto exprimindo o êxtase do encantamento. E em seus olhos que fitavam como estrelas de luz extinta perpassou de repente — teria sido o reflexo do papel ou um brilho interior? — uma cintilação luminosa, uma luz omnisciente.
— Bem — disse ele orgulhoso —, o senhor algum dia viu uma reprodução tão primorosa? Como é nítida, com que clareza os mínimos detalhes se destacam. Comparei essa cópia com o exemplar de Dresden que, ao contrário, me pareceu impreciso e fosco. E repare na proveniência aqui no canto.
E ele virou a folha e indicou com a unha os pontos precisos no verso do papel em branco, de sorte que involuntariamente procurei, para ver se as marcas não estariam mesmo ali.
— Eis o carimbo da colecção Nagler, bem como o de Rémy e Esdaile. Meus ilustres predecessores não poderiam jamais imaginar que tal obra viria um dia parar num apartamento simples como este.
Um calafrio me percorreu a espinha enquanto ele enaltecia assim animado um papel completamente em branco. E era fantasmagórico acompanhar como ele apontava com a unha do indicador, numa precisão milimétrica, todos os invisíveis carimbos dos coleccionadores que continuavam a existir apenas em sua imaginação. Com a garganta apertada pelo horror, eu não sabia o que responder. Mas quando, confuso, olhei para ambas as mulheres trémulas e ansiosas, percebi de novo as suas mãos suplicantes erguidas. Contive-me e comecei a desempenhar meu papel.
— Impressionante! — consegui finalmente balbuciar. — Uma cópia magnífica.
E logo todo o seu semblante irradiou de orgulho. Ele triunfava:
— Isso é apenas o começo! O senhor ainda há de ver a Melancolia e até mesmo a Paixão, um exemplar iluminado quase singular em qualidade. Veja por si mesmo — e mais uma vez os dedos tacteavam os contornos imaginários — o frescor e o calor da textura. Seria um alvoroço entre os senhores antiquários e directores de museu de Berlim!
E assim prosseguiu esse triunfo deslumbrado e loquaz durante umas boas duas horas. Não, não sou capaz de lhe descrever quão assustadora foi essa apresentação de cem ou duzentas folhas de papel em branco ou reproduções miseráveis, as quais na lembrança daquele trágico homem que de nada suspeitava, porém, eram tão incrivelmente reais que ele as descrevia e as elogiava nos  mais minuciosos detalhes sem equívocos, na perfeita sequência de cada uma. A colecção invisível há muito tempo disseminada pelos quatro cantos do mundo ainda existia intacta para aquele cego, para aquele homem enganado de modo comovente. E a paixão visionária tinha algo de impressionante que quase me levava a acreditar nela. Uma única vez o risco da terrível revelação ameaçou a segurança  de seu entusiasmo alucinado. Ele elogiara novamente o refinamento da Antíope, de Rembrandt (sem dúvida essa obra devia ter um valor inestimável), e nisso seus dedos acurados roçaram com amor as linhas da gravura, mas sem que através do tacto pudessem perceber as nervuras primorosas daquele papel estranho. Então uma nuvem toldou por um instante  seu semblante, a voz titubeou:
— Essa é mesmo a Antíope? — murmurou um pouco embaraçado.
Ao que imediatamente me apressei a tomar-lhe das mãos a folha emoldurada e a descrever em todas as suas possíveis nuances a gravura naquele momento também para mim bem presente na lembrança. As feições nubladas de cego desanuviaram-se novamente aliviadas. Quanto mais eu elogiava, mais os traços endurecidos e enrugados daquele homem adquiriam uma cordialidade jovial, uma profunda satisfação. Virando-se para as duas mulheres, exclamou:
— Eis alguém que entende do negócio. Enfim vocês também ouvem uma voz confirmando o valor inestimável desses papéis. Vocês sempre me repreenderam com desconfiança por eu ter investido todo o dinheiro nessa colecção. É verdade, durante sessenta anos, nada de cerveja, vinho, tabaco, viagens, teatro ou livro, somente economizando, economizando para as gravuras. Mas verão, quando eu não estiver mais aqui, como ficarão ricas, mais ricas que a cidade inteira, e ricas como os mais afortunados de Dresden. Então ficarão gratas pela minha extravagância. Enquanto eu viver, no entanto, nenhuma dessas obras sai de nossa casa. Primeiro levam-me para fora, só depois a colecção.
Ao mesmo tempo, acariciava docemente, como se fossem seres vivos, as pastas há muito esvaziadas. Cena horrível e ao mesmo tempo tocante para mim, pois em todos esses anos de guerra nunca vira um rosto alemão se iluminar em tão pura expressão de felicidade.
A seu lado estavam as duas mulheres, misteriosamente semelhantes às figuras femininas daquela água-forte do mestre alemão que, indo visitar o túmulo do Salvador, quedam-se paralisadas diante da sepultura aberta e vazia com expressão mesclada de profundo assombro e de êxtase místico e alegre. Assim como nessa imagem as santas mulheres são iluminadas pela intuição celeste, da mesma maneira aquelas duas pobres pequeno-burguesas envelhecidas e fatigadas o eram pela alegria infantil ditosa do velho coleccionador, ora rindo, ora chorando, um espectáculo comovente como eu nunca vivenciara antes.
Ele, porém, não se dava por satisfeito com a minhas louvações, não cessava de buscar e revirar as páginas, sorvendo avidamente cada palavra. Portanto, suspirei aliviado quando por fim as pastas enganadoras foram deixadas de lado e ele, contrariado, precisou libertar a mesa para o café. Mas que importava o meu suspiro cheio de remorso em face da exuberância esfuziante e impetuosa daquele homem como que trinta anos rejuvenescido! Ele contava milhares de anedotas sobre as suas compras e bons negócios. Inebriado e enlevado, como se pelo efeito do vinho, tacteava, recusando qualquer tipo de ajuda, para sempre e mais uma vez procurar uma e outra gravura. Quando eu por fim disse que precisava me despedir, eassustou-se, amuou como criança teimosa e bateu os pés dizendo que não era possível, eu não vira nem a metade da colecção. As duas mulheres tiveram muito trabalho para vencer o seu pesar, argumentando que não poderia prender-me  mais, ou eu perderia o comboio.
Quando depois de desesperada resistência, ele enfim se resignou a me deixar partir, a voz suavizou-se. Tomou-me ambas as mãos, com os dedos acariciando-as com toda a expressividade de um homem cego, como se eles quisessem saber mais de mim e me falar com mais amor do que as palavras são capazes. Com uma emoção perturbadora que jamais esquecerei, disse:
— O senhor me proporcionou uma imensa alegria com a sua visita. Foi mesmo um reconforto finalmente passar em revista minhas preciosas gravuras em companhia de um especialista. Mas esteja certo de que não veio em vão à casa deste velho cego. Eu lhe faço uma promessa, tendo minha mulher como testemunha, de que acrescentarei uma cláusula a meu testamento, dispondo que a sua respeitável casa ficará encarregada da venda de minha colecção. O senhor terá a honra de administrar esse tesouro desconhecido!
A essas palavras ele apoiou a mão com amor sobre as pastas deslapidadas.
— Administrará tudo até o dia em que a colecção se dispersar pelo mundo. Prometa-me que fará um belo catálogo. Ele será a pedra do meu túmulo, não poderia haver melhor lápide.
Olhei para a  esposa e  filha; as duas permaneciam de pé bem juntas, uma vez ou outra um arrepio as percorria como se não formassem mais que um único corpo que vibrava em unânime emoção. Quanto a mim, ressentia algo solene ouvindo desse homem patético e desavisado a promessa de me atribuir como uma preciosidade a administração de sua colecção invisível há muito desaparecida. Comovido, prometi -lhe o que jamais poderia cumprir: novamente em seus olhos apagados perpassou um brilho. Senti a sua íntima esperança procurando se exprimir pela ternura e pelo carinho dos dedos que retinham os meus num gesto de gratidão e promessa.
As mulheres  conduziram-me à porta. Não ousavam falar, porque os apurados ouvidos do ancião teriam escutado o mínimo sussurro, mas quão cálidos, entre lágrimas, quão transbordantes de gratidão brilhavam os seus olhares que me contemplavam cheios de reconhecimento Completamente aturdido, desci os degraus da escada. No fundo estava envergonhado: chegara como um anjo de conto de fadas à casa daquela pobre gente. Durante uma hora permitira que um velho cego enxergasse, nada fazendo além de mentir e endossar um engodo falacioso. Pois eu, na verdade, viera como mesquinho negociante para arrancar dele, com vantagem, um punhado de peças de valor. O que agora levava comigo era mais que isso: fora-me  concedido viver ainda uma vez, num tempo sórdido e triste, a vibração do entusiasmo puro, uma espécie de êxtase pelo espírito inteiramente devotado à arte, como nossos contemporâneos parecem ter esquecido há muito tempo.
E não posso dizer de outro modo, uma veneração respeitosa me invadia, não obstante a vergonha que insistia, sem que eu soubesse exactamente a razão. Já chegara à rua quando no alto uma janela se abriu com estardalhaço e em seguida ouvi meu nome. Realmente o velho homem não conteve o gosto de dirigir seus olhos apagados para mim, na direcção em que me supunha. Ele pendia tanto para fora que as duas mulheres tiveram de segurá-lo por precaução, agitava no alto o lenço e gritava com a voz revigorada de um menino:
— Boa viagem!
Inesquecível para mim esse quadro! O semblante alegre do ancião de cabelos grisalhos lá no alto, à janela, planando acima dos transeuntes ocupados, inquietos e mal-humorados da rua, levemente transposto de nosso mundo real abjecto pela branca nuvem de uma benfazeja loucura. E tive de me lembrar de novo do antigo dito, tão sábio, de Goethe, creio: ‘Os coleccionadores são pessoas felizes.’ »
Stefan Zweig, in Medo e outras novelas, Ed. Record

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pelo Norte de Portugal




Viana do Castelo
"Existem testemunhos do povoamento do território a que hoje corresponde o concelho de Viana do Castelo, já desde os tempos do Paleolítico até a Idade do Bronze. Contudo, pode considerar-se como seu antepassado remoto a citânia de Santa Luzia, situada no alto do monte do mesmo nome, tratando-se de uma povoação castreja que sentiu as influências da romanização e ainda era habitada no século IV da nossa era.
Póvoa marítima que se desenvolve a partir do reinado de D.Manuel I, com o comércio do ciclos dos panos ingleses e do sal, do ferro com Astúrias e Biscaia, e o ciclo do Bacalhau na Terra Nova. O seu período áureo dá-se com o ciclo do açúcar brasileiro; em 1590 são 70 navios da frota vianense que se ocupam do transporte de açúcar. 
Cidade recheada de edificios de elevada qualidade arquitectónica, autênticas esculturas em granito. Entre 1510-1630 foram criados nada menos do que 6 conventos. No interior das Igrejas temos azulejos originais de várias épocas, talha dourada de qualidade, onde se pode apreciar os trabalhos de André Soares, e João Lopes entre outros artistas nortenhos.
Ao notável património edificado ao longo de sete séculos e meio de história, ao Município acresce um rico e variado património natural, com destaque para as praias atlânticas - nove delas já distinguidas com o galardão Bandeira Azul e duas Praias Douradas - que se estendem por 24 quilómetros de costa. Assim, e pela sua localização privilegiada na foz do rio Lima, o Município desfruta de uma frente marítima que, nos últimos anos, tem vindo a ser substancialmente qualificada, tornando-se num dos principais pólos de atracção turística do concelho."
Norte de Portugal : O Minho
Alguns Locais a Visitar:
Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo)

Esta igreja singular do século XVIII é composta por uma ilustre combinação de arcadas romanas, varandas renascentistas e pilares com gravações intrincadas. A decoração do interior apresenta influências barrocas e rococó, como as gravuras douradas, as esculturas e as pinturas. Nesta igreja encontram-se ainda alguns dos painéis de azulejos portugueses mais belos do país, representando passagens bíblicas.


Citânia de Santa Luzia (Viana do Castelo)
As ruínas de uma aldeia fortificada da Idade do Ferro podem ser encontradas nos arredores de Viana de Castelo, no cimo da colina de Santa Luzia. As escavações puseram a descoberto casas poligonais singulares, que comprovam que os Romanos ocuparam esta aldeia até ao século V. Esta citânia também está classificada como monumento nacional.

Parque Nacional da Peneda-Gerês 
A beleza selvagem do único parque nacional de Portugal estende-se por mais de 70 000 hectares. Os visitantes podem caminhar pela paisagem selvagem e admirar os cenários naturais, que incluem montes elevados e vales florestados, quedas de água e rios tranquilos ideais para a prática de desportos aquáticos. O parque abriga pequenas aldeias remotas e uma diversidade de espécies de fauna e flora.

Termas de Peso (Melgaço)
Situadas num verdejante vale florestado, inundado pelo som da água corrente, estas termas são um local tranquilo com reconhecido potencial terapêutico. As águas minerais começaram a ser usadas no tratamento de diversas doenças desde finais de 1800, incluindo a diabetes, a obesidade e o colesterol elevado. Estendendo-se por mais de 2 hectares, as termas integram também um parque de campismo, bungalows, um campo de mini golfe, campo de ténis e um café.

Castelo de Melgaço (Melgaço)
Um dos mais importantes bastiões militares junto à fronteira norte de Portugal, este castelo romano foi construído no século XII e mais tarde protegido por uma muralha que o liga à cidade. Os únicos vestígios das fortificações medievais são a guarda do castelo, parte do forte, três torres e as portas norte e oeste. O castelo foi classificado como monumento nacional em 1910 e a guarda foi transformada num museu.

Centro Tesal Termas de Monção (Monção)
Este luxuoso e moderno spa dedica-se a tratamentos termais tradicionais, possuindo instalações com mais de 5000 m2. Crê-se que as águas quentes e sulfurosas contêm propriedades curativas relativamente a inúmeras doenças. Com fantásticos circuitos de hidroterapia, massagens e tratamentos específicos, focados no relaxamento, no alívio do stress e na perda de peso, os visitantes poderão desfrutar da bela localização em plena natureza.

Núcleo Megalítico do Mezio (Arcos de Valdevez)
Este local pré-histórico é composto por uma dezena de monumentos megalíticos que foram usados como locais tumulares na Idade do Ferro. Também conhecido como Antas da Serra do Soajo, o Núcleo Megalítico do Mezio é importante não só pelos seus artefactos arqueológicos, mas por serem também um exemplo único de local fúnebre pré-histórico.

Castelo de Santa Cruz (Arcos de Valdevez)
Sobranceiro à Vila Fonche, este castelo romano estrategicamente posicionado foi uma das primeiras infra-estruturas a apoiar os aldeamentos humanos nesta zona. Os arqueólogos descobriram funcionalidades defensivas, incluindo a existência de muralhas e das fundações de uma guarda. O castelo terá sido abandonado cerca de meados do século XIII.

Mosteiro de Ermelo (Arcos de Valdevez)
Situado junto ao rio Lima, este antigo mosteiro beneditino foi construído no século XIII e mais tarde usado por freiras e monges cistercienses. O templo terá sido posteriormente convertido numa igreja paroquial. Apesar dos danos sofridos ao longo dos séculos, a arquitectura ímpar deste mosteiro e o seu património cultural foram reconhecidos, tendo sido classificado como monumento nacional em 1977.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

No princípio era o nada


SILÊNCIO

No principio era 
o silêncio
onde o nada se dizia

embora o fragor
imenso
que no cosmo se movia

No princípio era
o nada
onde só nada existia

a transgredir 
o negrume
mudando a noite em dia

Foi o início, a poesia.
Maria Teresa Horta, in VI Evocação-Poesis, Publicações D. Quixote, 2017, p.205

ASAS  DE NAVEGAR

Há um escrever de sonhar
de camélia e de sumir 
em paixão de magoar

Poemas de resistir
quando a poesia é de luz

de afirmar a liberdade
com asas de navegar

Maria Teresa Horta, in III Avocação- Poesis,  Publicações  D. Quixote, 2017, p.99

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Rui Knopfli

Rui Knopfli. Há uma cadeira vazia à mesa do poeta
Diogo Vaz Pinto 28/07/2017 13:53
"Duas décadas depois do desaparecimento de Knopfli, uma pequenísima editora de Coimbra traz de volta do exílio e da morte um poeta desta língua que Moçambique não quis e Portugal não soube merecer
Habitante das escassas memórias ou testemunhos daqueles que com ele conviveram, do retrato tremido que nos chega de Rui Knopfli percebe-se essa “figura prematuramente frágil”, onde a ira se apaziguou  pelo desgaste. É difícil dizer exactamente onde, mas o mesmo banco de pedra que um dia ergueu nos versos, ainda lá está, sujeito à vaga inclinação das lembranças. E nele o poeta, “pendurado num eterno cigarro”, fazendo do castigo um gosto, ainda que lhe pese a própria voz. E se o acento lírico não cedeu  à ferrugem, em consequência da sua “linguagem castigada com desvelo de amante”, transparece dolorosamente “uma mágoa de naufrágios, e derrotas cruéis, que impõem o exílio do espaço habitado e bem amado”.
Nascido em plena savana de Moçambique, Rui Knopfli viveu a oclusão do período colonial, e acabaria “colhido na engrenagem da contradição histórica”, mesmo se assumiu desde sempre uma postura muito crítica face aos desmandos da administração colonial. Nada disso impediu que viesse a sentir-se escorraçado do seu país – já em 1959, o seu primeiro livro, “O País dos Outros”, recortava esse sentimento –, em 1975: “Quando a FRELIMO tomou conta do poder, o inimigo era o português, estou convencido disso. Claro que havia um certo racismo, aliás compreensível mas, mesmo aí, os brancos eram identificados com os portugueses”, disse o poeta numa entrevista à revista “Ler”, um ano antes de morrer.
Knopfli perfila-se assim na galeria dos poetas que nenhum território sente a obrigação ou o orgulho de reivindicar. Mas essa é uma desafeição sentida de parte a parte, uma vez que ele próprio nunca sentiu grandemente o apelo de uma pátria. “Eu nunca reivindiquei a nacionalidade moçambicana, só reivindiquei um facto, que ainda hoje reivindico, de ser africano”, registou num testemunho no volume “Vozes Moçambicanas”, organizado por Patrick Chabal (Vega, 1994). De resto, e em linha com o que Pessoa viera afirmar, num dos seus versos também foi avisando: “pátria é só a língua em que me digo”.
Este poeta cuja apresentação a Portugal só veio tardiamente – sendo que, depois da independência das colónias, culturalmente o país não soube evitar uns amuos de dondoca ofendida, rejeitando até o que ainda era seu, ou lhe dizia respeito –, teve de admirar-se muito, em 1982, quando a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) recolheu a sua obra em “Memória Consentida”. Este foi um dos mais primorosos volumes de poesia portuguesa da segunda metade do século XX, e o poeta veria distinguido com o prémio de Poesia Pen Clube, “O Corpo de Atenas”, em 1984. Antes, portanto, de esta instituição ser tomada por uma pandilha que não faz outra coisa senão utilizá-la para insinuar-se lá fora, indo os próprios em viagem a tudo o que é festival para fazer o país representado pelos seus versos, que nem para lixo dos que cá dentro vão dando continuidade ao diálogo milenário desta língua.
Além do eco que sempre recobra forças nesta obra, tão prenhe das vozes que, solitária e arrastadamente se respondem entre épocas e neste balanço do fulgor à ruína, enquanto perseguem o alvo em movimento que as “coloca no trilho seguro e exigente da autodescoberta”, Knopfli ganhou com aquela edição um estudo que, sendo breve, é um dos grandes actos de justiça feito por um poeta tão desirmanado na experiência e cultura de uma época, na difusa rede da sensibilidade e consciência que uma língua tece.
Luís de Sousa Rebelo, ensaísta que dirigiu uma cátedra no King’s College – tendo ali trabalhado ao longo de quase quatro décadas, antes de vir morrer, em 2010, a este cemitério de elefantes em que Lisboa se tornou, pela ignorância em relação às figuras que podiam ter coroado uma elite por haver –, assina um prefácio que só precisa de ser lido para deixar-nos absolutamente convencidos da tão peculiar grandeza de Knopfli: “O seu lirismo antilírico, a sua ironia comovida, o seu sarcasmo – bem menos iconoclasta do que, à primeira vista, poderá parecer – aparentam-no, umas vezes, com João Cabral de Melo Neto ou Carlos Drummond de Andrade. Outras vezes, no apuro torturado da forma, Knopfli lembra essoutro maneirista, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), o que o não faz menos poeta do seu tempo do que este o foi do dele, e é e continuará ainda a ser do nosso. A poesia de Rui Knopfli é uma poesia dramática, de alusão maliciosa e de ritmos subtis, sinuosa e sedutora na sondagem dos fundões da psique, e deve ser lida sem prevenções de leituras anteriores (...)”.
Agora, 35 anos após aquela edição, coube a uma editora de Coimbra – um desses tão discretos como decentes projectos que, fora de Lisboa, têm sido o sal da terra depois dos consórcios editoriais terem varrido a autonomia e diversicadas espécies no campo das letras – fazer-nos recordar Rui Knopfli, trazê-lo de volta e ao seu ofício de mil cerimónias com a linguagem e nenhumas com a vida: “eu trabalho, dura e dificilmente,/ a madeira rija dos meus versos,/ sílaba a sílaba, palavra a palavra”.
Do lado esquerdo, a editora de Maria Sousa e Nuno Abrantes, publicou já uma série de originais de poetas portugueses, e, ao mesmo tempo, leva a língua muito além do bilhar grande, com traduções de autores de outras línguas – Pablo García Casado, Hal Sirowitz, Jesús Jiménez Domínguez entre outros – que, sem dificuldades, chegam à nossa e envergonham as associações de bairro e os clubes recreativos em que se divide hoje o mapa da nossa poesia, mostrando-lhes que para “melhores do mundo” ainda lhes falta terem mundo. Ainda assim, tem sido votada ao geral desinteresse (no que também nos penitenciamos) e ao silêncio a que se condena tudo o que se faz do outro lado da cerca, numa estratégia que, ao invés de procurar alargar a caderneta cultural e incitar as trocas, se vale do sufoco para fazer passar por ícones aqueles cromos mais repetidos. A este respeito, será curioso comparar as atenções que serão dadas a uma antologia de Knopfli que, logo depois desta, começou a ser elaborada para sair na colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia para a Tinta-da-China.
“Uso Particular” é uma selecção pessoal dos editores da do lado esquerdo que, feita a partir da edição da INCM, e que, sem se ater muito a critérios de representatividade, é extensa o bastante para nos dar uma visão da globalidade da obra poética de Knopfli. A pecha da edição é o seu lado material, o objecto. Os livros desta editora denunciam excessivamente a sua modesta condição, e é a própria imagem da capa – uma fotografia de João Francisco Vilhena que, reproduzida em melhores condições, revela uma poderosíssima carga evocativa, mostrando “as mãos aracnídeas” do poeta segurando um caderno manuscrito – que vê esbaterem-se excelentes intenções. A fazer as vezes de prefácio, o depoimento de António Cabrita não chega de apresentação para quem não conheça já Knopfli, mas dá um lamiré que cumpre a função, se a ideia era somente lançar umas coordenadas e abrir o apetite.
Quanto ao resto, e superando os aspectos gráficos, a selecção revela uma pontaria danada, dá a sensação de que não lhe escapou nenhum dos poemas que figurariam nas listas que cada um de nós faríamos, fazendo um rapto feroz de uma obra que, já de si, soube esperar e esperar pelos versos, e, por isso, não fez lixo. (“Como fazer versos?/ Sentar/ numa cadeira à secretária,/ papel à frente, caneta em punho./ Esperar. Esperar em vão. Esperar./ Esperar mais ainda. Esperar sempre./ Se é fumador, fumar então/ antes, depois ou no decurso./ Se não, continuar a esperar./ Se ao fim de um certo tempo/ o dito tempo exceder o tempo/ que se achou ser justo esperar,/ desistir.”) 
“Poeta êxul em terras africanas, onde bebe os ares da cultura europeia e sonha esse Norte longínquo, enquanto escreve uma poesia sem os exotismos gratos ao gosto do leitor metropolitano, ele começa um novo exílio no dia em que vagueia pelas ruas das grandes cidades cosmopolitas, ao ar frio desse Abril em que se ‘engendram flores’”, refere Sousa Rebelo no prefácio de “Memória Consentida”. Esta poesia, que se demarcou dos “discursos poéticos vigentes na língua portuguesa”, não estava por outro lado alheada dos sinais de fumo que eram trocados, não entre grupos e grandes movimentações, mas entre os que desenham as fugas ao pelotão, e encontrou, assim, na tradição anglo-americana e, particularmente, na poesia e nos ensaios de T.S.Eliot, um correlegionário tão mais instigante quanto radical face aos entusiasmos que Lisboa, então, ainda ia decalcando de Paris. Note-se que, se pôde falar-se de um certo ânimo cosmopolita gozado em Lourenço Marques, isto deveu-se à proximidade das colónias anglófonas, e em especial da África do Sul.
Hoje, é natural que Rui Knopfli surja como um poeta tão original no quadro da poesia portuguesa, pelo modo como a sua poesia não ficou à espera que certas noções que capturaram e deram caminho à sua intuição se tornassem assunto nos cafés onde a tristeza provinciana portuguesa ia pôr-se em dia. Se a “vaga e subliminal resistência” à sua obra nunca foi inteiramente vencida, pode ser este um momento propício, não só pela dispersão de influências que têm alargado o horizonte dos novos poetas portugueses (que como se sabe estão em maior número entre os leitores de poesia), como pelo afrouxamento da guarda pretoriana que, até há uns anos, dominava a crítica. Esta, além de recomendar a dieta literária, obrigava os poetas que quisessem o nome no jornal a formar na linha, batendo a continência, ou beijando a mão, o pé, quando não outras coisas. Ninguém fala disso, mas muitos ouviram as histórias de um distinguido crítico e professor universitário que, aqui há não muitos anos, não poucas vezes prometia fazer deste ou daquele efebo o Rimbaud da sua geração se... pois. 
Na sua “subjectividade lúcida e autovigiada”, Knopfli não foi só um poeta desinteressado das questiúnculas que fazem a intriga nas pequenas messes da literatice. Os que com ele conviveram recordam que aparecia sempre com um livro novo, algum autor recém-descoberto, era também um magnífico fotógrafo, um apaixonado do jazz, e o seu empolgamento era infeccioso, de tal modo que Eugénio Lisboa, o seu grande cúmplice na dinamização da cultura de Lourenço Marques, reconhece o quanto ele e outros lhe ficaram a dever essa e outras iniciações.
No capítulo das lembranças, onde hoje podemos recolher as impressões necessárias para pôr a carne sobre os ossos que os versos nos dão, vale a pena abrir aqui espaço ao retrato que Eugénio Lisboa deixa de Knopfli no terceiro volume das suas Memórias, “Act Est Fabula” (Opera Omnia, 2013), referentes ao período entre 1955 e 1976. “Foi nessa altura que afinei contactos com os amigos do ‘Kremlin’ (‘Café Nicola’). Um deles, foi o Rui Knopfli, que aparecia com ar de pássaro predador, boné nada proletário e palavra afiada e maldosa. Adorava dizer coisas que ofendiam a ortodoxia do ‘Kremlin’, mas tudo lhe era perdoado. Gostava de praticar um humor ultrajante, com uma espécie de grosseria de grand seigneur. Se alguém elogiava muito as qualidades de carácter e de trabalho de um bonzo qualquer, o Knopfli interrompia, brutal: ‘Toma pouco banho!’ Se alguém embasbacava, liricamente, para os filmes de Chaplin, o Knopfli cortava, rente: ‘Prefiro, de longe, o Bucha e Estica.’ Adorava ferroar os neo-realistas, sobretudo em dias de missa de esquerda bem pensante. O cúmulo do gozo era, para si, destoar.”
Vale a pena, ainda, citar mais uma passagem, em que um desses episódios servem de testemunho simples e onde o fantasma mostra a raça que o faz perambular distintamente daqueles que se esbatem no fundo das memórias que se compõem sem esforço: “Para os esquerdistas burros, e bem-intencionados, o Knopfli afectava uma indomável intolerância. Um dia, estávamos sentados no Nicola, em conversa desataviada, aparece, pesadote e opaco, o notário Camilo Sequeira. Era um oposicionista inofensivo, e quase inocente, e um implacável purista da língua. Chato como a potassa. O Knopfli não tinha paciência. Quando o Camilo fez menção de se sentar, junto a nós, o Rui avisou: ‘Ó Camilo, se V. se senta, vou-me eu embora...’ O Camilo sorriu, com ternura: ‘Este Rui é um brincalhão...’ Sentou-se e o Knopfli levantou-se, de rompante, e, muito sério: ‘Eu avisei. Adeus, meus senhores!’ E largou a grande velocidade, desaparecendo porta fora.”
Também na sua poesia Sousa Rebelo sinaliza “uma estratégia da desfiguração do discurso instituído”, e é fácil dar com o homem nas coisas que diz de si, nos lugares a que ainda regressa, onde ainda encontra os outros e convive com a mesma impaciência, um desejo de que a vida furasse o tédio, mesmo com o risco de cair tantas vezes do lado da amargura, da fatal tristeza que, mesmo se não tem razão, aparece como esses “restos de inverno mordendo o ar primaveril”. 
Eis um “Fim de tarde no cáfe: Na tarde cor de azebre/ falávamos de coisas amargas./ Ali, na mesa triste do café/ com moscas adejando/ sobre restos de açúcar/ e um copo de água/ morna de esquecida,/ falávamos da amargura das coisas,/ entre rostos graníticos e enxovalhados,/ entre estranhos e estranhos/ de estranhos e com os que,/ nada tendo de estranhos,/ cuidam de cuidar/ o que se passa entre estranhos./ Na tarde comprida e silenciosa/ tecíamos gestos inúteis/ e palavras entre dentes,/ mergulhados na paisagem geométrica/ do café. Do café tão cheio de gente/ e fumo e moscas e caras tristes/ e afinal tão profundamente,/ tão desesperadamente     vazio.”
Esta é uma poesia que não tem da vida uma grande opinião, o que lhe dá para servir a angústia na pele de poderosos exercícios de sarcasmo, aliviado pela ironia. Knopfli, como recordou o diplomata Francisco Seixas da Costa, que com ele se cruzou, em 1990, quando o poeta cumpria os anos do exílio “eternizado em posto em Londres”, recorda um tipo que, aos 58 anos, estava no fio: “Vergado e cansado, pendurado num eterno cigarro, tinha o mais caótico gabinete de que tenho memória. Homem de vícios que o foram debilitando, mantinha uma ironia cáustica e, sendo de trato fácil, era de condução diária difícil, pelos corredores da rotina diplomática a que nunca se acomodara verdadeiramente.”
De resto, essa fraca opinião que a vida lhe merecia já antes levara o poeta a declarar que padecia de uma certa “Mania do Suicídio: Às vezes tenho desejos/ de me aproximar serenamente/ da linha dos eléctricos/ e me estender sobre o asfalto/ com a garganta pousada no carril polido./ Estamos cansados/ e inquietam-nos trinta e um/problemas desencontrados./ Não tenho coragem de pedir emprestados/ os duzentos escudos/ e suportar o peso de todas as outras cangas./ Também não quero morrer/ definitivamente./ Só queria estar morto até que isto tudo/ passasse./ Morrer periodicamente./ Acabarei por pedir os duzentos escudos/ e suportar todas as cangas./ De resto, na minha terra/ não há eléctricos.”
“Uso Particular” é uma excelente senha para que nos tentemos sentar àquela mesa, incorrendo no risco de o poeta se levantar e desaparecer ou, inversamente, de ficar ali, e se dar a entender. E é aqui que a poesia de Knopfli tem algo mais para nos oferecer do que as energias do sublime a lançar os dardos, a tentar prender alguma borboleta a qualquer que seja o alvo. Há uma respiração que consome o ar inteiro, um não ter lugar nenhum onde ir, nenhuma outra pá para escavar uma saída do exausto quotidiano senão o convívio. Essas palavras trocadas sobre uma mesa, e que têm uma experiência e um peso, o de um poeta que disse que todos os seus poemas eram, afinal, poemas de amor. As suas palavras não são ditas por acaso, existem dentro de um pacto e, como notou Sousa Rebelo, “dessa cinza diluída, vão emergir com geométrica nitidez os traços de um rosto, de uma mão ou de um ombro”. E mais à frente, sublinha como estes poemas se organizam “numa recuperação de cariz alquímico, que restitui o gesto ao acto, o movimento à forma e o amor à vida”.Diogo Vaz Pinto, Jornal i , 27.06.2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Jeanne Moreau

Jeanne Moreau, l'interview vérité
Morreu Jeanne Moreau, actriz, cantora e realizadora francesa,de 89 anos. Ontem , segunda-feira de manhã , foi encontrada morta na sua casa, no bairro da Place des Ternes, em Paris. A informação foi avançada pelo seu agente à Agência France Presse.
Bela e talentosa, Jeanne Moreau trabalhou com alguns dos mais célebres realizadores de cinema, como Louis Malle, François Truffaut, Wim Wenders, Orson Welles ou Michelangelo Antonioni. O seu penúltimo trabalho no cinema foi com Manoel de Oliveira, , em  O Gebo e a Sombra, em 2012.

Mas Jeanne Moreau tocava-nos por tudo, mas principalmente pela sua voz inconfundívelmente sedutora. "Jeanne Moreau, c’était d’abord une voix. Au début de sa carrière, son ton maniéré, jusqu’à la fausseté parfois, choqua les tenants du bon goût. Plus âgée, son timbre rauque, presque masculin, volontiers parodié par ses imitateurs, contrastait avec son élégance en toutes circonstances. Jusqu’au bout, la voix de Jeanne Moreau incarna sa modernité, sa farouche indépendance de femme et d’artiste. Evoquer sa carrière, c’est aller de Jean Gabin à Etienne Daho en passant par Gérard Philipe, Louis Malle, Miles Davis, Truffaut, Demy, Bunuel, Antonioni, Welles, Duras, Godard, Losey, Burt Lancaster, Bertrand Blier, Téchiné, Elia Kazan, Lee Marvin, Fassbinder, Mocky, Besson, Wenders, Angelopoulos, Varda, Vanessa Paradis, Ozon, Amos Gitaï, Tsai Ming-Liang, Edouard Baer et Josée Dayan."
Nascida a 23 de Janeiro de 1928, em Paris, filha do dono de uma cervejaria e de uma bailarina britânica, a actriz participou em mais de 130 filmes. Estudou no Conservatório Nacional de Arte Dramática e, aos 20 anos, tornou-se o membro mais novo da Comédie-Français, estreando-se no drama de Turgenev A Month in the Country. Apesar de ter dado os seus primeiros passos no teatro, foi com Jules et Jim que alcançou o estrelato. Em 1960 recebia o prémio de Melhor Actriz, no Festival de Cannes, pelo seu trabalho em Moderato Cantabile, de Peter Brooke e, nos anos de 1975 e 1995, presidia ao júri.
Na década de 90 recebeu um prémio César de melhor atriz pelo desempenho em La vieille qui marchait dans la mer, de Laurent Heynemann." Imprensa escrita
Jeanne Moreau en dix citations
L'actrice alliait la sensualité à l'intelligence. Dix phrases pour se souvenir d'une icône, décédée ce lundi 31 juillet à l'âge de 89 ans.
Publié le 31/07/2017 à 19:17 | Le Point.fr
Elle était libre, affranchie, insoumise... Autant avec les hommes qu'avec les convenances. La comédienne ne faisait pas mystère d'avoir souvent confondu sa vie avec ses films, à l'image des plus grands du métier : « L'amour que j'éprouve dans la vie, mes déchirements, mon bonheur, tout passe dans les films, s'y intègre... Quand je vois un film après l'avoir fait, j'y reconnais ma vie », a-t-elle raconté un jour lors d'entretiens accordés à Marguerite Duras. La rencontrer était souvent un moment privilégié, tant elle s'est nourrie de sa carrière, des acteurs ou des réalisateurs... Et aux questions plus intimes, elle répondait toujours avec impertinence. La preuve.
Amour
« L'amour, c'est comme le potage : les premières cuillères sont trop chaudes, les dernières trop froides. »
La vie
« La vie est une recherche secrète. On n'a pas envie de déplaire, mais il faut résister à cette obsession de la séduction. »
Liberté
« Je suis une dissidente, j'ai vécu librement, comme un garçon. »
Désir
« Coucher avec quelqu'un est sans doute un des meilleurs moyens de faire connaissance. »
Homosexualité
« Homosexualité ou hétérosexualité, ça ne veut rien dire. On est sexuel ou on ne l'est pas. »
Les hommes
« Le point commun entre tous les hommes que j'ai aimés ? Moi ! »
Les rôles
« Un personnage, c'est comme une peau qu'on jette mais qui vous laisse des traces. C'est donc une façon merveilleuse d'apprendre à connaître l'humanité. »
Richesse
« J'ai tourné plein de films pour rien. Quand j'ai fait Falstaff, Orson Welles m'a payée avec une valise pleine de couverts en argent. En fait, c'était du vermeil ! La voilà ma carrière ! »
Vieillesse
« La peur de vieillir abîme plus que l'âge. »
Mort
« J'ai envie de vivre jusqu'au moment où cela ne sera plus supportable. »
Sources : France Inter, TéléObs, Madame Figaro, Le Temps, Le Figaro, TéléStar...
À lire : Jeanne Moreau, Marianne Gray, éd. Nouveau Monde.
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