quinta-feira, 11 de maio de 2017

A voz de Dulce Pontes

 
                O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo. 
                                                     Machado de Assis

Ao longo do tempo, Dulce Pontes tem construído uma notável carreira. Detentora de uma voz extraordinária, descobriu-nos , em bom tempo,  o talento da arte de composição com que tem tecido magníficas canções.
Apresentamos algumas faixas do seu  último Álbum.

Dulce Pontes, em "Maria de Buenos Aires" do novo Álbum Peregrinação de 2017. A Música é de  Astor Piazzoll, a Letra de Horacio Ferrer. Acompanha-a a Orquestra Roma Sinfonietta,  dirigida pelo Maestro Paolo Silvestri


Dulce Pontes,  em "Alfama" do  Álbum Peregrinação, com Letra do poeta   Ary dos Santos e Música de Alain Oulman.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Em memória de Baptista-Bastos


    Nos jornais e nos livros , a ambição do autor tem sido a de exigir      respeito e compaixão pela condição humana.
                                                       Baptista-Bastos

Armando Baptista-Bastos , jornalista e escritor ,  morreu esta terça-feira em Lisboa, aos 83 anos. Nasceu, em Lisboa, em 1933. 
Estava internado há várias semanas no Hospital de Santa Maria. 
Baptista-Bastos  era uma voz forte e clara  que nos acompanhou ao longo da vida, ora para a iluminar , ora para a defender. Homem de convicções, nunca deixou de as expor e de as defender . Culto e prosador de fina escrita, tecida num português límpido e rico, Baptista-Bastos lega-nos  uma extensa obra variada. Recordá-lo-emos como uma das grandes figuras que deu valor à justa condição humana , num empenho efectivo pela Democracia onde sempre conjugou a palavra Liberdade. 
Publicámos muitas das suas Crónicas.  Textos que serão relidos e  farão parte do espólio que comporá a brilhante memória  deste português.
Em jeito de homenagem ,  transcrevemos a  Crónica que  encerra o livro  "Tempo de Combate".
Até sempre, Baptista-Bastos.
Crónica da meia-noite
Por Baptista-Bastos
«Lojas de bairro fechadas, apartamentos para venda, uma soturnidade que nos tolhe, nos embaraça e entristece quando passamos pelas ruas de Lisboa. Parte da minha juventude decorreu aqui e ali, conheço a cidade como poucos. Até pelo cheiro eu sabia onde estava. Anos substanciais, que me marcaram definitivamente, passei-os neste bairro, outrora de jornais, agora de bares e de lojas de modas. Há algo de absurdo nestas alterações, algo que nos diz da dolorosa impressão que estoutro tempo nos causa. Perguntava, há dias, um leitor de jornal: "Mas as coisas estão melhores?" Digo sempre que o nosso tempo é aquele em que vivemos, mas não é bem assim; sorrio para mim próprio, mas não é bem assim. 
Cá em casa, todos dormem. Escrevo na meia-noite e em minha frente estão os retratos dos que me são queridos e que, de uma forma ou de outra, iluminaram a minha vida. Agora, é o meu neto, o Francisco, que me olha com malícia e atenção. Digo-lhe, dizendo para mim: força, miúdo, isto é difícil, ah!, tão difícil, mas vale a pena. O dia foi a rotina vulgar: comprei os jornais, sentei-me na leitaria a lê-los, a leitaria possui uma enorme vitrine e vêem-se as pessoas caminhar para os seus destinos certos. Às vezes, escrevo nesta mesa. As pessoas olham-se, discretas, quando reparo cumprimentam-me com um gesto e sorriem. 
Em tempos, o Augusto Abelaira vinha para aqui escrever. Já estava muito mal, perdera o cabelo quase todo, mas mantinha aquele ar decente e bondoso que o acompanhou até ao fim. "Fui apanhado de lado", disse-me certa tarde. Respondi-lhe que, de um modo ou de outro, todos somos apanhados de lado, e que a vida é, como diz a Isaura, um constante processo de reconstrução. A doença espreita-nos e todos padecemos de qualquer coisa que nos aflige.
Ontem, fui gravar um depoimento sobre o Alves Redol, que fez cem anos, como o Manuel da Fonseca, sobre a data do seu nascimento (A frase não está muito correcta, mas é assim que a quero, desculpem). O realizador do documentário marcara o Jardim da Estrela como local de encontro. Acabámos por filmar no terraço da casa de um amigo dele, uma beleza de casa, com uma panorâmica do Tejo como há muito não via. Fui de táxi. O homem do táxi, largos ombros, cabeça teutónica, falou das coisas do mundo. "Que idade tem o senhor?" Disse-lhe a minha idade. Ele sorriu todo feliz. "A idade do condor." Percebeu que eu não percebera. Esclareceu: "Com dor; com dor todo o dia e por todos os lados. Com dor." Rimos. O homem pusera-me quase jubiloso. Pensei: "um dia destes tenho de escrever o episódio." 
Agora, é meia-noite e sinto o respirar pausado da minha gente. Doem-me um pouco as pernas. Nestes últimos tempos fatigo-me com irremediável facilidade. A idade do condor. Não é relevante. Fiz sempre o trabalho que quis fazer. Batuco prosa há um ror de anos, e creio, modestamente creio, que algumas vezes acertei. Acertei e fiquei muito feliz. Direi, mesmo, que sou um homem feliz. Casado, bem casado, três filhos, e há meses, este neto sorridente, rodeado de amor e de ternura. É muito bom ser avô. Você verá, quando o for. 
Numa entrevista recente perguntaram-me se a morte me assustava, tendo em conta a minha idade. Não é pergunta que se faça; ou é? Não sei bem, mas a verdade é que não me molestou.
Respondi que não pensava nessas coisas porque sentia que iria viver muitos mais anos. E iria viver muitos mais anos porque trabalhava, trabalhei quase sempre, num trabalho de que gosto e que me preenche. 
Por exemplo: se nunca me cansei com o que escrevo, nunca me cansei com o que leio. Sou um leitor permanentemente acicatado pela curiosidade. E aprecio indicar títulos de livros e nomes de autores que me estimulam. Porém, quando leio depoimentos nos jornais acho as pessoas que falam muito anchas de si mesmas, e dizem coisas absurdas e tolas, presumindo que são importantes. Depois, penso: sempre foi assim: os mais novos a pensar que descobriram o mundo. É assim e ainda bem que assim é e assim sempre será. As rotações são iguais à de sempre, as ideias de salvação do mundo animam os melhores de todas as juventudes, uma geração vai e uma geração vem, como ensina o Eclesiastes e A Isaura está postada no umbral: 
"Vem deitar-te. É tarde." »
Baptista-Bastos, in Tempo de Combate, Edições Parsifal, Janeiro de 2014, pp 202-204

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Evasão

A Evasão
por José Régio
"O gigantesco desenho da ponte se lhe debuxava agora à esquerda, com o seu arco imenso meio afogado no nevoeiro, que adensara. O vento caíra. E como o crescente da lua se desvanecia no céu brumaceiro, de luar não havia senão uma frialdade semiluminosa, muito vaga, esparsa. Na grande mancha negra, lodosa, que era agora o Douro, retorciam-se como longos parafusos em brasa as luzes de Vila Nova de Gaia. Reflectiam outras luzes espalhadas aqui, ali, além, pequeninas, ao mesmo tempo esfumadas e nimbadas pela névoa. Junto ao cais, quase aos pés de Lélito, mais se adivinhava do que distinguia na faixa tenebrosa uma complicação de vultos de barcos. Mas havia aí lume, vozes abafadas, e de vez em quando um gorgolejo ou chape-chape de água.
Depois das vielas por onde se encafuara, já tudo isto daria a Lélito uma quase favorável impressão de largueza, companhia, (pois não havia gente nesses barcos? não era o que ainda o reanimava, sentir a proximidade humana de vez em quando?) se a dupla inquietação de se achar afastado do centro da cidade, e sem ver onde poderia esperar a manhã, o não enchesse de cruéis incertezas. Como se encaminhara, sequer, tão naturalmente, para estes lugares pouco tranquilizadores?
Não poderia ter ido parar às vias mais concorridas? Decerto haveria aí algum café aberto, qualquer lugar onde ficasse. Dir-se-ia que um obscuro desígnio do destino (ou uma impulsão secreta) não só aqui o atraíra, a tais paragens, mas até nelas o retinha; e que, não obstante os seus terrores, uma curiosidade ansiosa, doentia, e um desespero e um desleixo de todo o ser – o guiavam nesta inútil e inesperada peregrinação. Lélito suspeitou que se lhe revelava o gosto das aventuras perigosas, e que era uma expectativa delas que o dirigia...
Ao cabo de uns momentos verificara não ser o único vadiando à margem do rio. Um ou outro pequeno grupo se demorava, ainda, nas sombras daquelas portas escondidas sob antigos arcos; umas abaixo do empedrado negro, ao fundo de quaisquer degraus, outras rasgadas numa espécie de muralha sobre que se erguiam prédios estreitos como torres, com varandas de velhas madeiras, ou casarões imundos e sólidos. Não obstante a amplidão do horizonte em frente, um cheiro igualmente nauseabundo envolvia todas essas portas, penetrara para sempre essas pedras; mas aqui cheirava ainda a frutas podres (que iam ficando do mercado diário), pó de carvão, águas chocas e comidas azedas. Eram, decerto, moradores ou frequentadores retardatários destes antros, os raros vultos que ainda por ali.
Demoravam.
Ora enquanto, perante estas misérias que pela primeira vez se lhe revelavam tão completamente, sentia um acre gosto de humilhação atraí-lo aos seus semelhantes mais infelizes, (aliás nem a sua infelicidade se lhe revelara ainda, ele é que a estava imaginando) muito bem sentia Lélito que uma particularidade qualquer nos seus modos, no seu andar, no seu ar – qualquer coisa que, tanto por temor como por solidariedade com a miséria, procurava agora esconder – irremediavelmente o apontaria à desconfiança, à hostilidade, ao sarcasmo desses miseráveis.
Com efeito, um vulto que de repente apareceu a seu lado deu-lhe um encontrão. Era um homem gordo, com olhos agudos que procuraram os seus de perto, como a perguntarem-lhe o efeito de tal familiaridade. Parecia ter surgido de qualquer alçapão.
– Desculpe! – disse com uma espécie de insolência na voz rouca.
– Não faz mal... – balbuciou Lélito involuntariamente.
E logo o outro, estendendo a mão para o seu braço:
– Escute lá...
Mas Lélito desandara; acabara por desatar a correr como uma criança apavorada e perseguida. Quando parou, reconheceu que não pensara em escolher caminho. De novo metera por uma dessas ruas infaustas que bem quisera evitar. Com um alvoroço, lembrou-se de levar a mão ao bolso em que tinha toda a sua fortuna.
«Meu Deus!» apelou do fundo de si. Mas a sua fortuna lá estava: duas notas miúdas, alguns trocos. «Obrigado!» bradou em pensamento. Nestas situações, (posto nunca Lélito se houvesse achado em nenhuma idêntica) logo entre ele e o seu Deus mais familiar se estabelecia uma rápida comunicação: pedidos, agradecimentos, queixas, acusações... Era ridículo, com as suas dúvidas e as suas pretensões filosóficas! Era ridículo! era ridículo.
Embora semelhante às outras na desoladora aparência das casas, no empedrado primitivo, a rua em que se achava tinha a vantagem de ser um pouco mais larga; também a de ser uma ladeira. Lélito sabia que, subindo, se aproximaria do centro da cidade. Chegou a um terreiro com aspecto arcaico e a fachada, ao fundo, de uma igreja em ruínas. À primeira vista, era um pequeno largo sem saída. Julgando que seria obrigado a retroceder, Lélito sobressaltou-se. Avançou, porém, em direcção à igreja, cuja fachada se erguia na penumbra como um cenário fantástico; tanto mais que, propriamente, ela quase não tinha senão fachada. Descobriu ao lado quaisquer escadinhas estreitas que subiam.
Uma figura de mulher, embrulhada num xale, se despegou, então, direita a ele, da parede da igreja. Tinha qualquer coisa de espectral ou fatal, como se ali o estivera esperando há anos! há séculos; ou, então, como se pertencera àquelas mesmas pedras, ou delas nascera. Galgando as escadinhas íngremes, Lélito ainda pôde perceber que o fantasma o chamava...
Era tempo! era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido.
Os seus nervos começavam a desafinar; a sua imaginação a trabalhar em excesso; de modo que já nele se manifestava com uma intensidade premente, ameaçadora, aquele senso do estranho que torna medonhas e secretas as próprias coisas mais triviais. Qualquer ser, ou até um simples objecto, uma árvore, um pormenor de paisagem, – poderiam nesses momentos apavorar Lèlito, revelando o seu segredo.
Isto é: revelando-se, fulgurantemente, misteriosos. Então, as pessoas tomavam a seus olhos um doairo de aparições (seria real, por exemplo, a mulher que se despegara da igreja arruinada?) e, o que não era menos perturbante, as próprias coisas manifestavam fragmentos de seres vivos e desconhecidos, como se nelas ofegassem pequenos monstros forcejando por se libertarem...
Bem era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido!
Felizmente, Lèlito acabava de reconhecer a velha Sé naquela grande massa pesada, escura, diante de que viera ter. Para lá do muro, lá em baixo, muito vagamente nascia do nevoeiro e da noite um baralhado casario da cidade salpicado de halos luminosos. Lèlito não ignorava que, descendo pelo lado oposto ao que o trouxera, se aproximaria das ruas mais concorridas, mais modernas... Assim se valia agora de algumas deambulações empreendidas quando faltava às aulas, enganando a vigilância do senhor Bento Adalberto. Mas, ao cabo de ter hesitado uns passos, aflitivamente se agarrou à primeira haste de candeeiro. É que tivera a impressão de que o chão desatara a correr, e se despenhava sob os seus pés.
Sentiu, então, uma infinita moleza nas pernas, e um arripio que lhe corria o corpo, e recomeçava, se multiplicava em pequenas arripios consequentes como breves, repetidas ondulações...
Fora sua intenção chegar à larga praça onde estava o homem de bronze, a cavalo, (não lhe lembrava agora o nome, – um nome tão conhecido!) e que lhe era o centro mais familiar do Porto. Aí descansaria um pouco, e poderia tomar uma decisão. Talvez ainda encontrasse qualquer café aberto, ou lhe valesse a pena procurar uma pensão, um hotel... Até já pensara em alugar um automóvel (mas encontrar automóveis, a esta hora?!) que o levasse a Azurara. Afinal, em breve poderia estar diante de casa. Bateria, acordaria os que há muito dormiam no profundo aconchego dos velhos quartos familiares; e deixar-se-ia cair de joelhos no pátio de entrada, (oh, o que ele tinha era vontade de se deixar cair!) quando o pai, alarmado, viesse descendo as escadas de pedra... O pai não havia de o pôr fora; – e sem dúvida pagaria ao motorista. De momento, é que nem forças tinha para chegar à praça da estátua equestre, que aliás nem sabia se era longe.
E ali estava amparado àquele candeeiro, como um bêbedo, e outra vez gritando aflitivamente do fundo de si: «Meu Deus! meu Deus!» Em razão, talvez, não tanto do seu estado como da inquietação que lhe ele inspirava, tinha um vazio pesado na cabeça, uma dor ao fundo da órbita direita, enquanto o angustiava a sensação agónica de ir vomitar a cada instante. Sobretudo o aterrava a perspectiva de ali cair, nessa rua deserta, onde só o pudesse encontrar um polícia, um vadio nocturno, ou um desses desgraçados que andam varrendo ruas a desoras...
Fechara os olhos por segundos, a testa contra o candeeiro. Foi quando ouviu a seu lado:
– Boa noite, amorzinho.
Vagamente reconheceu aqueles olhos vidrados, grandes, como de quem tem febre, naquela face muito chupada e vermelha de tintas. Era a mulher do vestido claro, que já o saudara com a mesma fórmula.
Relanceou, então, à roda, pela rua deserta, pelos velhos prédios, os olhos enevoados. Compreendeu que já passara naquela rua; diria ele que há muitas horas! Mas essa mulher de vestido claro, leve, numa noite assim fria, lá continuava no seu passeio profissional: Ainda não seduzira ninguém; ou já seduzira, e recomeçara a tentar a sorte. A complexa impressão que da primeira vez lhe produzira – receio do desconhecido, pudor da virgindade tentada, repulsa física por tal género de mulheres, curiosidade e atracção precursoras do desejo – a complexa impressão que da primeira vez lhe produzira, e de que nem ele chegara bem a dar conta, é que já lha não podia produzir: Agora, Lèlito estava simplesmente esgotado; exausto! Precisava de uma cama e do socorro, ao menos da companhia, de qualquer ser humano; até daquele.
– Bebeste... – disse a mulher, inclinando-se um pouco a examiná-lo. Como ele nada dizia, limitando-se a olhá-la com os mesmos olhos enevoados e tristes, acrescentou:
– Sei de um quarto aqui perto, muito em conta...
– ...Perto? muito em conta...? – repetiu Lèlito inconscientemente, como num eco.
– São dois passos – respondeu ela, animando-se imediatamente. E logo lhe pousou a mão no braço, apertando-lho de leve, num movimento quase natural de carinho. A esperança de ganhar a noite vibrara na sua voz um pouco rouca.
Decerto ainda não seduzira ninguém.
Com um esforço para se desencostar do candeeiro, Lèlito murmurou, à laia de desculpa:
– Senti-me mal... estou doente...
– Ora! – fez ela - sei o que isso é: bebeste.
Depois de hesitar um segundo, perguntou:
– Tens dinheiro?
– Algum... – balbuciou ele baixando ainda a voz, de modo que mal se ouvia; e dir-se-ia que, na verdade, receava ser ouvido. – Mas tenho de seguir para Azurara.
Preciso de guardar para o comboio... o comboio parte cedo... de madrugada...
– Bem! o comboio pouco é. E há necessidade de ires assim tão cedo? Simpatizo contigo, palavrinha. Gosto de um rapazinho novo como tu. Quem te mandou beber de mais? Não deves estar muito habituado... Que idade tens? Mas vais ver que sei tratar de ti! Sou boa rapariga, acredita; não julgues lá que por andar nisto...
Isto é um modo de a gente viver!
Agarrara-se-lhe ao braço, era ela quem o ia levando. Lèlito deixava-se levar. E era-lhe agradável não só descansar o corpo sobre o dela, mas também sentir-lhe na voz um pouco rouca e áspera, de tísica, inflexões quase maternais."
José Régio,  in "Uma Gota de Sangue - A velha casa 1",Ed.Portugália, Lisboa, 1961

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Aquela praia extasiada e nua

                                          De todos os cantos do mundo
                                          Amo com um amor mais forte e mais profundo
                                          Aquela praia extasiada e nua,
                                          Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
                                           Sophia de Mello B. Andresen, Poesia, 1944















 




domingo, 7 de maio de 2017

Ao Domingo Há Música

Fica proibido
Fica proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer,
Ter medo das tuas recordações

Fica proibido não sorrir ante os problemas,
Não lutar pelo que queres,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar em realidade teus sonhos

(...)
Fica proibido não fazeres as coisas para ti mesmo,
Não fazeres o teu destino,
Ter medo da vida e dos teus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse o último.
                              
O poeta decreta algumas proibições que deveriam ser cumpridas. Outras, que nem ele sonhou, poderiam ser decretadas. O mundo  seria muito melhor se a voz dos poetas se deixasse ouvir. Diz-se que são os melhores legisladores do mundo.
Neste domingo, há vozes que, também,  cantam  diferentemente. Vozes e sons que se conjugam em harmonia para que  a tristeza fique proibida de assolar o dia que , em Portugal, celebra a maternidade. 
Anna Maria Jopek e Pat Metheny, em Are You Going With Me.

sábado, 6 de maio de 2017

Vivo entre formas luminosas e vagas

Elogio da sombra
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto  ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante de outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Jorge Luis Borges, Elogio da sombra, 1969, Ed. Globo
A Utilidade da Visão
Platão, 360 a.C.
"À imagem da figura do universo, que é esférica, as divindades prenderam as órbitas divinas, que são duas, num corpo esférico: este a que chamamos cabeça, que é a parte mais divina, e domina todas as outras partes que há em nós; a ela os deuses entregaram todo o corpo, como servo, ao qual a juntaram, percebendo que tomaria parte em todos os movimentos e em tudo quanto ele tivesse. Para que não rolasse sobre a terra, que tem altos e depressões de todo o tipo, e não tivesse dificuldade em transpor umas e sair de outras, deram-lhe este veículo para fácil deslocação; daí que o corpo seja comprido, e tenha por natureza quatro membros extensíveis e flexíveis, fabricados pelo deus para a deslocação. Recorrendo a eles para se apoiar e se agarrar, era capaz de se deslocar por todos os locais, enquanto transportava no topo a morada daquilo que em nós é mais divino e sagrado. Foi por este motivo e deste modo que a todos foram anexadas pernas e mãos.
Considerando que a parte da frente é mais nobre e própria para governar do que a de trás, os deuses deram-nos a capacidade de caminhar melhor nesse sentido. Portanto, era preciso que a parte da frente do corpo humano fosse distintiva e dissemelhante. Foi por isso que, em primeiro lugar, estabeleceram neste lado da parte exterior da cabeça o sítio do rosto, e em seguida firmaram os instrumentos relacionados com todas as capacidades de providência da alma, e estabeleceram que, de acordo com a natureza, seria na parte anterior que ficariam situados os órgãos que tomam parte na governação.
Entre os instrumentos, fabricaram em primeiro lugar os olhos, portadores da luz, tendo-os ali fixado pela seguinte razão: essa espécie de fogo que não arde, antes oferece uma luz suave, os deuses engendraram-no, de modo a que a cada dia se gerasse um corpo aparentado. O fogo puro que há dentro de nós, irmão do outro, fizeram com que ele corresse pelos nossos olhos com suavidade e de modo contínuo, pelo que comprimiram ao máximo o centro dos olhos, de tal forma que sustivesse a outra espécie mais espessa, na sua totalidade, e filtrasse apenas esta espécie pura. Deste modo, quando a luz do dia cerca o fluxo da visão, o semelhante recai sobre o semelhante, tornam-se compactos, unindo-se e conciliando-se num só corpo ao longo do eixo da visão; o que acontece onde quer que aquele fogo que sai do interior contacte com o que vem do exterior. Assim, gera-se uma homogeneidade de impressões, pois o todo é muito semelhante; se esse todo tocar em algo ou se algo tocar nele, distribui os seus movimentos por todo o corpo até à alma, e produz a sensação a que nós chamamos “ver”. Quando o fogo se afasta ao cair da noite, separa-se do fogo de que é congénere; por cair sobre algo que lhe é dissemelhante, ele altera-se e extingue-se, pois a sua natureza não é congénere à do ar que o rodeia, já que este não tem fogo. Então, a visão acaba e gera-se o convite ao sono. 
De facto, quando se cerra a protecção que os deuses engendraram para a visão ― as pálpebras ―, essa protecção sustém o poder do fogo interno. Este dispersa-se e acalma os movimentos do interior. Uma vez acalmados, gera-se o sossego, e, uma vez gerado um sossego profundo, abate-se um sono com poucos sonhos; mas quando restam alguns movimentos fortes, conforme a sua natureza e os locais onde ficam, produzem no interior simulacros que se assemelham, quanto à natureza e ao número, ao exterior e que serão recordados ao acordar. Assim, já não é difícil perceber a formação de imagens em espelhos e em todas as superfícies reflectoras e lisas. Por causa da relação recíproca que o fogo interior e o fogo exterior mantêm entre si, cada vez que um deles encontra uma superfície lisa, mudando constantemente de forma, todas estas imagens aparecem, por necessidade, graças à conjunção entre o fogo que circunda o rosto e o fogo que circunda a visão, quando se deparam com uma superfície lisa e brilhante. Aquilo que está à direita aparece à esquerda, porque é com as partes contrárias da visão que as partes contrárias do fogo exterior estabelecem contacto, em oposição ao que habitualmente acontece quando chocam entre si. Pelo contrário, a direita está à direita e a esquerda à esquerda, quando a luz muda de direcção por se fundir com o objecto com que se funde; o que acontece sempre que a superfície lisa dos espelhos, por adquirir uma saliência de um lado e de outro, empurra para o lado esquerdo da visão a luz que vem do lado direito e vice-versa. Mas, se o espelho for redondo transversalmente, em relação ao rosto, fará com que tudo apareça invertido, porque empurra para cima a luz que vem de baixo e para baixo a que vem de cima.
Todas estas são causas acessórias que um deus utiliza como auxiliares para cumprir o que lhe compete, conforme pode, a ideia do melhor. No entanto, a maioria considera que não são causas acessórias mas sim as causas de tudo, visto que produzem o arrefecimento e o aquecimento, a solidificação e a fusão e efeitos desse tipo. Mas não é possível que tais causas possuam razão ou intelecto em relação ao que quer que seja. Temos que dizer que, entre todos os seres, o único ao qual é adequado possuir intelecto é a alma ― pois esta é invisível, enquanto que o fogo, a água, a terra e o ar foram todos gerados como corpos visíveis ― e que o amante da intelecção e do saber persegue, por necessidade, as causas primeiras do que na natureza é racional; aquelas que são movimentadas por outros seres e que, por necessidade, transmitem o movimento a outras, essas são causas secundárias. Também nós devemos fazer isso; devemos falar de ambos os géneros de causas, distinguindo as que fabricam coisas belas e boas com o intelecto das que, isentas de intelecção, cada vez que produzem algo, o fazem ao acaso e sem ordem. Coube-nos então falar das causas acessórias, pelas quais os olhos obtiveram o poder que agora têm. Da obra mais importante, do ponto de vista da sua utilidade, razão pela qual o deus no-la ofereceu, é sobre ela que nós devemos falar.
Em meu entender, a visão foi gerada como causa de maior utilidade para nós, visto que nenhum dos discursos que temos vindo a fazer sobre o universo poderia de algum modo ser proferido sem termos visto os astros, o Sol e o céu. Foi o facto de vermos o dia e a noite, os meses, o circuito dos anos, os equinócios e os solstícios que deu origem aos números que nos proporcionam a noção de tempo e a investigação sobre a natureza do universo. A partir deles foi-nos aberto o caminho da filosofia, um bem maior do que qualquer outro que veio ou possa vir alguma vez para a espécie mortal, oferecido pelos deuses. Afirmo que este foi o maior bem facultado pelos olhos. Por que razão havemos de celebrar os outros que são inferiores a estes, pelos quais só um não-filósofo choraria, se ficasse cego, com lamentos em vão?

Quanto a nós, declaremos que esse bem nos foi dado pelo seguinte motivo: o deus descobriu e concedeu-nos a visão em nosso favor, para que, ao contemplar as órbitas do Intelecto no céu, as aplicássemos às órbitas da nossa actividade intelectiva que são congéneres daquele, ainda que as nossas tenham perturbações e as deles sejam imperturbáveis. Só depois de termos analisado aqueles movimentos, calculando-os correctamente em conformidade com o que se passa na natureza, e de termos imitado esses movimentos do deus, absolutamente impassíveis de errar, podemos estabilizar os que em nós são errantes. [...]"
Platão,in Timeu – Crítias [44D-47C] pp 123-128, tradução do grego, introdução e notas: Rodolfo Lopes , editor: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011 ,Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aceitar ou não aceitar o novo

Le Rêve (The Dream) , Pablo Picasso , 1932
Aceitar ou não aceitar o novo
Por Eugénio Lisboa       
“As obras de arte – literária ou outra – trazem sempre algum desassossego, ao tentarem inserir-se na hierarquia mais ou menos estável do universo a que supõem pertencer. Mas não é fácil – ou não costuma ser fácil – fazer-se essa inserção. O génio inovador, pela sua singularidade, pelas diferenças que acarreta consigo, por uma iluminação nova que dá ao aparentemente percebido, torna-se incómodo e provocador. Dizia Goethe que “é um grande triunfo do génio fazer com que o comum pareça ser novo.” E o filósofo americano William James punha o problema, por outras palavras, de sentido não muito diferente: “O génio significa pouco mais do que a faculdade de apreender o real de um modo inabitual.” É este modo “inabitual” de apreender o real, é este mostrar novo o que parece velho, que insinua, aos desprevenidos, a perigosidade desse mesmo génio e do novo que consigo acarreta. Não é por isso de estranhar que os grandes escritores, ao aparecerem, tenham sofrido tratos de polé, mesmo às mãos de grandes críticos ou mesmo de outros grandes escritores (seus pares). Neste aspecto, Sainte-Beuve bateu o recorde do mau acolhimento prestado aos seus grandes (e emergentes) contemporâneos. Falando, por exemplo, de Stendhal, num dos seus famosos Lundis ( o de 4 de Janeiro de 1854), dizia isto: “Os seus personagens não são seres vivos, mas, antes, autómatos engenhosamente construídos.” E o grande Flaubert não fez melhor figura: “Quanto a Beyle, nunca compreendi o entusiasmo de Balzac por tal escritor, após ter lido o Rouge et Noir” (sic, carta a Louise Colet, 1852). O próprio Balzac não teve melhor sorte, nem às mãos de Sainte-Beuve, nem às de Flaubert. O primeiro – em Portraits Contemporains – debita esta jóia: “Ele [ Balzac ] tem todo o ar de estar ocupado a acabar como começou...por cem volumes que ninguém vai ler.” E o segundo cuspinhou um veneno não menos pérfido: “Que homem teria sido Balzac se tivesse sabido escrever!” Proust também encontrou “resistências” de não pequeno porte: a começar pelo eminente André Gide, que nunca lhe perdoou os tics mundanos nem o passar o melhor do seu tempo a cheirar o rabo às marquesas (sem falar no, para ele, pecado maior, de ter transformado um Albert numa Albertina...) E Paul Souday, eminente e influente crítico do Temps, caçoava, abundantemente, com a falta de gramática do autor da Recherche: “Acrescentai que as correcções pululam, que os particípios do Sr. Proust têm, como dizia um personagem de Labiche, um hábito lixado, por outras palavras, que eles concordam mal; que os conjuntivos não são mais conciliantes nem mais disciplinados, e não sabem mesmo defender-se contra a invasão do indicativo.” Paul Souday até era capaz de ter razão, gramaticalmente falando (pela mesma altura, embirrava também com os conjuntivos de outro grande romancista francês, então no começo da sua carreira: Roger Martin du Gard). O problema é que a grandeza de um escritor não se resolve apenas nas baias estreitas de uma gramática certinha. Ainda sobre Proust, este testemunho vergonhoso (já mais de vinte anos após a sua morte): “Proust é judeu, a sua arte é essencialmente talmúdica e traz as marcas da decadência e da deliquescência da raça eleita.” E ainda isto: “Esse sábio borboletear e esses subtis eflúvios literários são bem feitos para fazer pasmar os snobs, representantes de uma burguesia envilecida e arruinada, que se compraz na « vidência total», mas não são alimento, não podem sê-lo, de espíritos sãos, fortes e puros. Não é com estupefacientes que se forja uma raça.” (Au Pilori, 11.3.1943, sob a Ocupação). Esta denúncia feita também para benefício do exército alemão de ocupação mostra até que limites da infâmia pode chegar a chamada “resistência à mudança”. Ela é lamentável, mas deve dizer-se, querendo ser realista, que é normal. O romancista D. H. Lawrence, autor do celebrado romance Sons and Lovers não encontrou melhor maneira de demolir o filósofo Bertrand Russell (cujo cérebro fulgurante o indignava), do que dizer ao ficcionista William Gerhardie: “Já o viu em fato de banho? Pobre Bertie Russell! É um espírito sem corpo.” Russell devolver-lhe-ia a farpa, nestes termos acutilantes: “Lawrence insere-se numa longa linha de gente, que começa em Horácio e acaba em Hitler, gente cujo motor é o ódio derivado da megalomania, e arrependo-me de já ter acertado tão pouco ao avaliá-lo.” Nenhum deles era sensível aos valores de inovação do outro.
Em todos os sectores, não só no campo (de areias movediças e certezas poucas) da arte, se verifica este fenómeno muito humano de resistência à mudança. Mesmo em domínios de resultados mais verificáveis (as ciências, as tecnologias), a resistência à mudança é corrente e os futurologistas fizeram, com frequência, figura de parvos (incluindo cientistas eminentes, que disseram os mais rotundos disparates).
Em Portugal, no passado, foi como em todo o lado. Porém, de há poucas décadas para cá, as nossas elites (e por aí abaixo) passaram a revelar-se de um acolhimento à mudança e à inovação verdadeiramente surpreendente: acolhem sempre, com uma grande fluência, rapidez e entusiasmo, a inovação, mesmo a mais bizarra. Basta que um “clerc” de grande prestígio (merecido ou não) declare uma obra “genial” ou apenas “deslumbrante” ou “estimulante”, para que toda a arraia miúda se derrame em orgasmos de admiração, que invadem mestrados, doutoramentos e pós doutoramentos. Absorver a inovação já não requer tempo, meditação, estudo, paciência, leitura obstinada... Damos ao mundo, como se diz por aí (e os brasileiros também, parece...), um exemplo histórico de não resistência à mudança. Seria belo, se fosse sincero e profundo. Mas sê-lo-á? Dar, perante o novo e o diferente, saltos imediatos de contentamento e palmas prematuras de adesão – o entusiasmo aprovador antes da reflexão – parece-me suspeito. Andar-se-á a ser cândido ou simplesmente a “faire semblant”? A nossa república das letras estará a transformar-se num exemplo edificante ou, antes, numa feira de vaidades ocas? Ver-se-á."
Eugénio Lisboa, em artigo publicado na rubrica “Pro Memoria” do  JL 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Estou Vivo e Escrevo Sol

TEU CORPO PRINCIPIA

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

Ó vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz. 

António Ramos Rosa, in "Estou Vivo e Escrevo Sol", Lisboa: Editora Ulisseia, 1966