quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Apresentação do último volume das Memórias de Eugénio Lisboa

"Acta Est Fabula - Memórias II - Lisboa (1947-1955)"

"Lançamento do livro da autoria de Eugénio Lisboa, dia 19 de Outubro pelas 18h00 na Galeria Fernando Pessoa do CNC.


Segundo volume das memórias de Eugénio Lisboa, uma das mais marcantes personalidades da vida cultural portuguesa, este livro leva-nos numa viagem de cerca de dez anos, os anos em que Eugénio Lisboa vive em Lisboa enquanto estudante e também em Portalegre, onde conhece uma figura marcante da sua vida: José Régio.
Continua assim o relato iniciado no primeiro volume, como se de um romance se tratasse, de uma vida recheada de encontros e aprendizagens com algumas das mais marcantes personalidades da cultura  nacional e internacional. "

CNC | Galeria Fernando Pessoa
Largo do Picadeiro, n.º 10 – 1º (ao lado do Café No Chiado) 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Mensagem


Vós que aguardais a vida no ventre dos  séculos,
vós que sois a gestação da grande raça ainda por vir,
gerações futuras,
hoje é para vós que eu canto
porque hoje nós vivemos num tempo de mártires
granadas desabrochando  velozes
mil panteras famintas rondando nosso ventre
punhais atiçados em todos os punhos.

Homens do  futuro 
é para vós minha esperança
minha certeza ardente
as rosas rubras dos meus lábios.
Vós que sois as  uvas
e o pão da justiça em nossos sonhos calcinados.
Vós que vireis para justificar o nosso  sangue 
e a nossa dor.

Vai meu verso, vai... 
porque hoje é triste demais cantar nas trevas
cantar com os gritos do meu povo
com o murmúrio dos oprimidos...
e com minha fala feita em prantos,
feita de pássaros torturados,
cantar com os corpos dos que tombam,
e sentir que morro tantas vezes
e saber que tantos já morreram
para que vós  piseis um dia  o chão da liberdade.

Vai veleiro, vai... 
meus versos transformados num solitário barco
a vos buscar além de muitas luas.
Vou-me daqui
para não ver minha canção murchando.
Vou-me daqui
porque o  poeta tem que mendigar por uma rosa infinita
por um subúrbio qualquer da eternidade.

Gerações futuras
Hoje é para vós que eu canto
para um tempo de irmãos e camaradas.
Vou-me  daqui 
para morar convosco na imortalidade da vida.

Vai veleiro, vai...
e não  encalhes a poesia nas águas rasas destes anos
porque aqui os poetas já não são ouvidos.
Navega em busca dos que virão  ainda,
leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,
leva-me para bem longe das minhas lágrimas.

                                        Curitiba, Novembro de 1968
Manoel de Andrade, in  "Poemas para a Liberdade", Edição Bilingue, Ed. Escrituras,S.Paulo, Brasil, pp 54,55

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um mau uso da linguagem

"Chove.  Antigos dirigentes do partido explicam-se na televisão. " Acreditavam " no partido. " Acreditavam" que tinha havido  "erros", faltas , mas " acreditavam", por exemplo,  que  "Estaline não sabia" nada disso. Etc. . Mas não se pense que não misturavam  estes lugares-comuns com factos reais, a chamada "fé" com pensamentos  ou sentimentos reais.  A lição que podemos extrair: estes homens dedicaram a vida a um mau uso da linguagem. Mas também, o que já é  mais grave, promoveram esse mau uso  da linguagem à categoria  de consenso.  E, com a partida, deixaram  para trás estropiados no mau uso da linguagem, que requerem , agora, urgente socorro linguagem , e , quais  farrapos de papel dispersos, subitamente pusessem a nu as suas feridas morais. Para onde quer que olhe, estalam próteses morais, chocam muletas morais, rolam cadeiras morais. Não se trata de esquecer uma época como se esquece um qualquer pesadelo: porque eles foram esse pesadelo e deviam esquecer-se de si mesmos,  se quiserem viver. E, na realidade, ainda ninguém procurou saber se, após uma longa morte, é possível, é sedutor, viver de novo.  Quem é que já ressuscitou - não, claro, para proclamar o milagre mas tão-somente para vegetar , para , essencialmente, fazer a mesma coisa que antes  ( para nada ), e sem se dar conta da experiência da ressurreição? É possível imaginar Lázaro no papel de Chaplin?"
Imre Kertész, in " Um Outro - Crónica de uma metamorfose", Editorial Presença , pp. 11,12

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mythodea

"Music for the nasa mission 2001 mars odyssey" foi um memorável concerto construído e concebido por Vangelis, no Temple de Zeus , em Atenas , ( Grécia).

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As distopias na Literatura




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Detalhe da capa de "A Revolução dos Bichos" (edição da Penguin)

A Literatura da Distopia
"Foram necessários romances que mostravam bárbaros regimes totalitários, fábulas com porcos, gangues violentos, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros para finalmente entendermos como era impraticável o modelo de utopia construído há alguns séculos atrás. Por isso são tão importantes os autores de "1984", "Laranja Mecânica", "Admirável Mundo Novo" e "Farenheit 451".
Como vimos no já publicado A Literatura da Utopia, as tentativas de adequação do presente para alcançar uma sociedade perfeita acabaram por desencadear uma desordem na organização racional do mundo. Muitas vezes, fizeram-nos viver submetidos a valores distorcidos e no risco de uma eterna aceitação de factores hostis que são meio para um fim que parece justificá-los: a perfeição.
Ao perceberem isso, autores como Aldous Huxley e George Orwell resolveram desconstruir os conceitos de utopia existentes. Segundo eles, a moralidade humana não conseguiria seguir uma evolução tão ligeira e, mesmo nos casos em que as sociedades perfeitas são alcançadas, a personalidade corrompida do homem colocaria tudo a perder.
As chamadas distopias podem ser entendidas filologicamente como "utopias negativas". Este neologismo foi cunhado por Gregg Webber e John Stuart Mill num discurso ao Parlamento Britânico em 1868: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamar-lhes utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos, ou caco-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável."
literatura distopia cinema utopia
Admirável Mundo Novo (fotograma do filme)
Na literatura, as utopias sempre possuem raízes no presente e são taxadas como o caminho ideal a ser seguido - mesmo que impraticável. Nas distopias, não há qualquer ligação com o presente: partem da utopia já alcançada. Nelas, os problemas actuais seguiram como que camuflados pela perfeição aparente e, a certo momento, eclodem da forma mais bruta. Estes romances geralmente são contados do ponto de vista de uma personagem consciente imersa na estupidez colectiva. São explorados recursos como a coerção física e moral, o uso de drogas e robots e o monopólio do conhecimento, todos agindo de forma directa na contenção social
A actual idolatria ao género literário pode ser explicada pela crescente visibilidade da política de esquerda no âmbito contemporâneo. Vários dos autores desta "escola" foram activistas políticos da oposição e deixaram claros seus fundamentos no pensamento Marxista. George Orwell, por exemplo, conviveu muito tempo com pobres e operários. Apesar de odiar os conflitos entre os partidos de esquerda, dizia-se socialista e simpatizante de partidos anarquistas. Conseguiu se tornar um crítico de sua própria ideologia:as suas magnum opus são 1984 e A Revolução dos Bichos (O Triunfo dos Porcos, em Portugal); na primeira retrata um regime totalitário que, através de constante supervisão e monopólio da História, constrói uma sociedade colectivista auto-punitiva; no segundo, uma sátira directa ao stalinismo mostra que o governo do Estado sempre será susceptível às fraquezas humanas, desmembradas pelo carácter sedutor do poder.
literatura distopia cinema utopia
                                       Admirável Mundo Novo (fotograma do filme)
Outros autores também levantaram questões que hoje se mostram mais presentes do que nunca. Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo - escrito num período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial -, descreveu um futuro hipotético onde estaríamos aprisionados pela obrigação de bem-estar, seja através da divisão social, do uso indiscriminado de drogas reguladoras ou do controle biológico - uma espécie de eugenia. Isso numa época onde tentativas de clonagem e fertilização in vitro não passavam de experiências fracassadas.
Anthony Burguess, em Laranja Mecânica (obra imortalizada no cinema por Stanley Kubrick, em 1971), via, num futuro indeterminado, que a predisposição humana à violência não acompanharia o ritmo da evolução intelectual, o que resultaria num colapso da sociedade e esdrúxulos e impositivos métodos de contenção psicológica desta característica "primitiva" baseado no Método Ludovico, uma espécie de behaviorismo radical levado ao extremo.
literatura distopia cinema utopia
Laranja Mecânica (fotograma do filme de Kubrick)
literatura distopia cinema utopia
Laranja Mecânica (fotograma do filme de Kubrick)
Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451 (adaptado com louvor por François Truffaut, em 1966) formula um futuro onde a principal arma de opressão utilizada pelo Estado é a censura dos livros, o que faz da televisão o único (e manipulado) instrumento de informação e diversão. É um ensaio sóbrio (ainda que fantástico) sobre a censura e os limites entre entretenimento e alienação que meios de comunicação em massa devem respeitar.
Discutir os problemas sociais actuais através de romances satíricos muito bem elaborados foi o recurso que muitos autores utilizaram para chamar a atenção para os problemas que a eterna busca pela sociedade perfeita encara. Os já considerados clássicos da literatura moderna revolucionaram a forma como pensamos, enxergamos e lidamos com o destoamento da utopia para onde a sociedade caminhava. Há quem diga, inclusive, que já estamos inseridos em distopias tais quais nos livros."
literatura distopia cinema utopia
Fahrenheit 451 (fotograma do filme de Truffaut)
Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7.

© obvious:publicado em artes e ideias por 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Terra, casa de todos os homens"

O poder da palavra
Por Adriano Moreira
“Tenho frequentemente chamado a atenção para dois pressupostos da Carta da ONU e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que são os conceitos do "mundo único" e a "terra casa de todos os homens". Tratou-se de conseguir a unidade coordenada das diferentes parcelas dos povos diferentemente separadas pela etnia, pela cultura, pela religião, pela história conflituosa determinada por conceitos estratégicos contraditórios quanto às ambições políticas de cada unidade.
A caminhada das contradições até este século XXI sem bússola, ficou marcado por duas guerras mundiais travadas na mesma geração, com um passivo de destruições de vidas e patrimónios apenas comparável com o que a imaginação pode antever qual será a dimensão de um novo conflito que utilize os avanços da ciência e da técnica aplicados com o perigoso amparo da estratégia do saber.
Contra esta vertente da história global dos povos que, com ou sem decisão própria, se consideram na posição de dominadores ou obrigados à submissão de vencidos e dominados, o único instrumento que pôde ser usado, obtendo lentos progressos, foi a palavra. O poder da palavra muitas vezes vencendo a palavra dos poderes, impondo a força dos valores contra a violência das armas, construindo solidariedades que aprofundam as identidades institucionais e desenvolvendo, pela pluralidade das línguas, as parcelas que hoje procuram a governança unitária que respeita as diferenças a partir dos paradigmas comuns.
A maldição da Torre de Babel tende a ser ultrapassada por este sentimento da comunidade de afectos, que ele também exige meios de comunicação que superam a diversidade das línguas, longamente muro de separação entre as comunidades diferenciadas, procurando substituir a tolerância pelo respeito, o conflito pelo diálogo, as diferenças pela conciliação. É certo que o avanço da ciência e da técnica fortaleceu o agravamento dos conflitos que recorrem às formas de guerra que se multiplicam, mas também é evidente que desenvolveram os meios da compreensão recíproca das comunidades diferenciadas.
A ONU, que foi orientada na origem pelos paradigmas da mudança que ficaram apontados, entre as estruturas que criou, a começar pela UNESCO prestadora de serviços inestimáveis, também fortaleceu o avanço do entendimento das línguas diferentes utilizando um número crescente de idiomas no seu sistema de comunicação.
A língua portuguesa está entre as seleccionadas, entre mais razões porque, no desabar do império euromundista que a Carta da ONU decidiu, conseguiu organizar a única instituição que substituiu a articulação colonial pela vontade comum de conservar os afectos, que é a CPLP, apoiada pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Foi a língua o instrumento de preservação da solidariedade salva, sem exemplo em relação a outras soberanias que retiraram, não tendo coincidência com o modelo da Comunidade Britânica que se vai reduzindo aos Estados de povoamento anglo-saxónico. Não é desculpável que a evolução da CPLP e do Instituto se faça em termos de a participação construtiva portuguesa ser descurada, designadamente porque se trata de uma parcela de liberdade e igualdade do pequeno país que somos na Comunidade das Nações.
Devendo acrescentar-se ao património que a língua representa a presença da memória, dos costumes, do ordenamento das sociedades civis das comunidades que, não sendo independentes como aconteceu em Malaca, em Goa, em Macau, no Havai, embora esquecendo a língua, até mudando de religião, não perdem a relação cultural com a origem histórica. Que a ONU tendo incluído o português nas oito línguas que utiliza no seu site, que a China tenha hoje, salvo erro, umas 15 escolas a ensinar português, que o ensino universitário japonês inclua a língua portuguesa, agrava o descuido para com esta nossa participação no que é o património comum da humanidade.
O processo de integração da Guiné Equatorial na CPLP pode não ser passivo de censura, mas exige servir de exemplo e chamada de atenção, que foi mais de uma vez feita, para a evolução de instituições portuguesas no Brasil, com destaque para o Real Gabinete Português de Leitura, que perderam a presença portuguesa nas direções. Pode estar de acordo com a evolução e ritmo da renovação das emigrações, mas está em desacordo com a importância da força da relação luso-brasileira: porque é a primeira na ordem das independências políticas do ainda então reino, porque é um património comum que exige desvelo, porque é uma trave mestra de solidariedade da CPLP, e esta uma janela de liberdade portuguesa. Porque a pertença à União Europeia, e antes disso à NATO, não suprime a liberdade de cultivar e fortalecer estas ligações que ajudam a fortalecer as raízes e a formular um novo futuro.” Adriano Moreira , artigo de opinião publicado no DN de 16.03.2016

domingo, 9 de outubro de 2016

Ao Domingo Há Música

                
                      Pois não era só memória. Memória era só a metade disso...
                                                                      William Faulkner

Falar de Música é falar de sentimentos. Passam e tomam-nos desde o início dos primeiros acordes. Explodem vitoriosos ou acomodam-se no fundo do coração. São manipuladores e totalitários. Exigem e entregam-se . E,  num instante, o mundo transforma-se  à medida do momento que se constrói.

Adagio for Strings de Samuel Barber é o momento deste domingo. Sob a direcção do Maestro  Leonard Bernstein, a Los Angeles Philharmonic Orchestra revela a  força e a preciosa beleza  desta obra.