segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O valor de uma Obra de Arte

As 10 telas mais caras de sempre
"Ver e apreciar uma obra de arte num museu é o caminho mais acessível ao comum dos cidadãos. Porém, há quem possua enormes fortunas e a vantagem de poder desembolsar alguns milhões para as adquirir. São essas pessoas que contam com a companhia diária de Picasso, Van Gogh ou Gustav Klimt, por exemplo. Mas quanto tiveram que pagar por estas pinturas? Conheça mais ao pormenor os dez quadros mais caros de sempre e o valor pelo qual foram vendidos.
Quem nunca ouviu dizer que a qualidade se paga? E bem? Neste caso, paga-se com muitos milhões. Ter uma obra de um dos grandes pintores da história pendurada na nossa sala é um privilégio de que poucos podem gozar.
O Guiness refere a "Mona Lisa" de Leonardo Da Vinci como o quadro com o maior seguro de sempre. Em 1963, foi avaliado em 100 milhões de dólares americanos, valor não pago. Sendo assim, depois de percorrer os Estados Unidos por diversas exposições, o Louvre decidiu aplicar o dinheiro na sua segurança. Apelidada como a obra mais conhecida e reproduzida de sempre, já foi, entretanto, ultrapassada por outras vendas históricas.
E quanto mais anos passam, mais valorizadas ficam as obras. Investir em arte pode seguramente trazer retornos financeiros a longo-prazo. É o que sucede no caso das seguintes pinturas:
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Número 10: O Massacre dos Inocentes, de Peter Paul Rubens
Pintada em 1611, esta obra de Rubens representa uma passagem Bíblica tal como é descrita no Evangelho segundo Mateus. Nela encontram-se influências e aprendizagens do tempo que passou em Itália nos anos de 1600 e 1608. É presente a inspiração na arte barroca de Caravaggio através da emotividade da pintura, assim como das cores e do contraste claro-escuro.
Foi vendida num leilão na Sotheby's de Londres em 2002 por 76,7 milhões de dólares (91,9 milhões ao valor actual do dólar) a uma família austríaca.
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Número 9: Retrato do artista sem barba, de Vincent Van Gogh 
Os auto-retratos sempre foram uma constante de Van Gogh. Existem inúmeros quadros imortalizados pelo artista com a sua imagem. Este data de finais de Setembro de 1889 e foi pintado logo após ter feito a barba. Nesse mesmo ano, cortou parte da orelha numa das suas manifestações de grave depressão, que o levaria a suicidar-se mais tarde. Em vida apenas vendeu um quadro, mas actualmente as suas obras estão entre as mais procuradas e valiosas de sempre. O “retrato do artista sem barba” foi vendido na Christie's, em Nova York por 71,5 milhões de dólares (94,6 milhões ao valor actual do dólar) em 1998.
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Número 8: Dora Maar com gato, de Pablo Picasso 
Dora Marr, amante de Picasso, numa cadeira com um pequeno gato sobre os ombros, foi pintado em 1941, durante a invasão nazi em França. Este foi um dos muitos retratos que o artista lhe dedicou. Com 29 anos de idade (menos 26 que Picasso), Dora esteve com ele por mais de uma década. Os detalhes e as cores vibrantes dominam a tela. Ao contrário de Van Gogh, a sua arte foi reconhecida e prestigiada ainda em vida. Juntamente com ele, faz parte do grupo de pintores mais caros dos últimos anos. Este quadro foi vendido em 2006 na Sotheby's de Nova Iorque por 95, 2 milhões de dólares (101,8 milhões ao valor actual do dólar) à família Gidwitz.
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Número 7:  Iris, de Vincent Van Gogh (iris) 
Iris foi pintado apenas um ano antes da morte de Van Gogh em 1890. Nesta altura, já estava internado num asilo em Saint-Rémy-de-Provence, França. Chamou-lhe o “pára-raios da minha doença”, pois acreditava que continuando a pintar evitaria ficar doente. As influências japonesas estão muito presentes na obra. Uma pincelada de luz e cor que contrastava com a sua saúde. Foi vendida em 1987 na Sotheby's de Nova Iorque por 53, 9 milhões de dólares (102, 3 milhões ao valor actual do dólar).
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Número 6: Menino com cachimbo, de Pablo Picasso
Picasso tinha 24 anos quando pintou esta obra, em 1905. Em óleo sobre tela, retrata um menino que segura um cachimbo na mão esquerda e usa uma grinalda de flores no cabelo. Picasso vivia em Montmartre, Paris, e retratou muitos habitantes locais que trabalhavam no espectáculo como acrobatas ou palhaços. É o quadro mais caro do pintor. Foi vendido na Sotheby's de Nova Iorque, em 2004, por 104,2 milhões de dólares (118,9 milhões ao valor actual do dólar).
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Número 5: Bal au moulin de la Galette, Montmartre, por Pierre-Auguste Renoir
Pintado em 1876, retrata uma típica tarde de domingo passada em Moulin de la Galette, no bairro de Montmartre, em Paris. Em pleno século XIX, era comum os trabalhadores vestirem-se a rigor e passar por lá para beber, comer e conviver durante o dia. Uma das obras mais representativas do impressionismo, mostrando o momento da vida real, numa enorme riqueza de formas, fluidez e luzes. Comprado na Sotheby's de Nova Iorque por Ryoei Saito (presidente de uma importante empresa de papel japonês e coleccionador de arte) em 1990 por 71,8 milhões de dólares (128,8 milhões ao valor actual do dólar).
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Número 4: Retrato do Dr. Gachet, de Vincent Van Gogh 
O Dr. Gachet foi quem cuidou de Van Gogh nos seus últimos meses de vida. O pintor dedicou-lhe dois retratos. Ambos o mostram na mesma posição: sentado numa mesa e inclinando a cabeça sobre o braço direito. Variam nas cores, sendo que este foi realizado com tons mais claros. Foi vendido no mesmo ano que o de Renoir e comprado pela mesma pessoa. É o quadro do artista mais caro até hoje: 82,5 milhões de dólares (136,1 milhões ao valor actual do dólar)
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Número 3: Retrato de Adele Bloch-Bauer, de Gustav Klimt
Data de 1907 e demorou três anos a estar finalizado, já que é feito de petróleo, prata e ouro sobre tela. Foi pintado em Viena e encomendado por Ferdinand Bloch-Bauer, grande apreciador de arte e fã do trabalho de Klimt. Adele, sua mulher, foi o único modelo pintado por duas vezes. Uma obra de grande dimensão vendido na Christie's de Nova Iorque por 135 milhões de dólares (144,4 milhões ao valor actual do dólar) em 2006.
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Número 2: Mulher III, de Willem de Kooning
Mulher 3 faz parte de uma colecção de seis obras pintadas por Kooning entre 1951 e 1953. Esta pintura do expressionismo abstracto foi concluída já em 1953. Durante vários anos fez parte do Museu de Arte Contemporânea de Teerão, tendo depois sido retirada por ordem do governo: não cumpria todas as normas e desrespeitava a moralidade. Foi vendida em 2006 por David Geffen, por 137,5 milhões de dólares (147 milhões ao valor actual do dólar), o que a faz a segunda compra de obras de arte mais cara.
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Número 1: No. 5, 1948, de Jackson Pollock 
Esta pintura de Jackson Pollock é o quadro mais caro da história. O pintor americano terminou-o em 1948. Pollock ficou conhecido pelas suas influências no movimento do expressionismo abstracto. Esteve exposto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque antes da sua venda por David Geffen em 2006. O novo proprietário adquiriu-o na Sotheby’s de Nova Iorque por 140 milhões de dólares (149, 70 milhões ao valor actual do dólar)."  publicado em Artes e Ideias por Diana Ribeiro

domingo, 6 de setembro de 2015

Ao Domingo Há Música


" Diz-me (...), não reparaste , ao passeares  por esta cidade, que  de entre os edifícios que a povoam, uns são mudos, outros falam e outros, enfim, mais raros , cantam?" Paul Valéry, in " Eupalinos ou o Arquitecto", Ed.Cavalo de Ferro

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
(...)
23-5-1932
Fernando Pessoa, in "Poesias", (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942, (8ª ed. 1970, pg.144 )
Richard Wright ( 28.07.1943-15.09.2008) e David Gilmour, duas vozes raras, dois talentos que partilharam muitos palcos para engrandecer a música .A actualidade das suas  produções deram-lhes o estatuto da intemporalidade. Permanecem no repertório musical da nossa memória.
A mensagem, que se transcreve, foi publicada por David Gilmour no seu site oficial, no dia da morte de Richard Wright:
"Ninguém pode substituir Richard Wright. Ele era meu amigo e parceiro musical.
No meio da discussão sobre quem foi o PINK FLOYD e o que a banda representou, a gigantesca contribuição do Rick foi constantemente esquecida.
Ele era amável, modesto e reservado, mas a sua voz e o modo de tocar comoventes eram essenciais, componentes mágicas do som mais identificável do Pink Floyd.
Nunca toquei com alguém como ele. A combinação da sua voz e da minha, assim como a nossa telepatia musical, floresceram pela primeira vez em 1971, em 'Echoes'. A meu ver, os maiores momentos da banda aconteceram quando ele estava no auge. Afinal, sem 'Us and Them' e 'The Great Gig In The Sky', que ele compôs, o 'Dark Side Of The Moon' não teria funcionado. Sem o seu toque de subtileza, o 'Wish You Were Here' não teria sido tão bem sucedido.
Nos anos seguintes, por diversas razões, Rick perdeu-se em alguns momentos, mas no início dos anos 90, com o 'The Division Bell', a sua vitalidade, o seu brilho e senso de humor retornaram. Quando apareceu na minha tournée em 2006, a recepção do público foi muito edificante, e o seu enorme espanto quando aplaudido de pé (aplausos que não nos surpreenderam) é uma marca de sua modéstia.
Tal qual o Rick, não acho fácil expressar os meus sentimentos na forma de palavras, mas eu o amava e sentirei tremendamente a sua falta.
David Gilmour
segunda, 15 de Setembro de 2008". 
Richard Wright e David Gilmour, em " Breakthrough", gravado no Meltdown Festival, no Royal Festival Hall , em 2002.
I can take or leave it
Won't be the woebegone
Don't need a model universe
To hang your pictures on
You hide somewhere you die somewhere
And then this senseless thought
By hating more, you're feeling more
And that's how you get caught...
They're never gonna make it easy
Of this you can be sure...
I greet you from your wildereness
I'll stay inside your door
There is no cage or prison
They have no fence too tall
You die more times than anyone
And there's still no place to fall
They're never gonna make it easy
This comes down from above
I have no realm, no secret realm
I dream to be at the heart of love
A part of love...

I bet you can't conceal it
But its just the dead end track
I'll cover you like the driving snow
and then I'll bring u back

You see, you feel... you feel like a
unfurled and gently blown
and there before ur opening eyes
the self u never know
they're never gonna make it easy
of this you can be sure!
you feel alive
your heart untied
and loved forever... moree.......
they're never gonna make it easy
this comes down from above
you eel alive
your heart untied
and loved forever... moree.......
Richard Wright e David Gilmour, em "Wearing The Inside Out", num espectáculo ao vivo, em 2006.

From morning to night  I stayed out of sight
Didn't recognize I'd become
No more than alive I'd barely survive
In a word...overrun


Won't hear a sound
(he's curled into the corner)
From my mouth
(but still the screen is flickering)
I've spent too long
(with an endless stream of garbage to)
On the inside out
(...curse the place)
My skin is cold
(in a sea of random images)
To the human touch
(the self-destructing animal)
This bleeding heart's
(waiting for the waves to break)
Not beating much


I murmured a vow of silence and now
I don't even hear when I think aloud
Extinguished by the light I turn on the night
Wear its darkness with an empty smile


I'm creeping back to life
My nervous system all awry
I'm wearing the inside out

Look at him now
He's paler somehow
But he's coming around
He's starting to choke
It's been so long since he spoke
Well he can have the words right from my mouth


And with these words I can see
Clear through the clouds that covered me
Just give it time then speak my name
Now we can hear ourselves again


I'm holding out
(he's standing on the threshold)
For the day
(caught in fiery anger)
When all the clouds
(and hurled into the furnace he'll)
Have blown away
(...curse the place)
I'm with you now
(he's torn in all directions)
Can speak your name
(and still the screen is flickering)
Now we can hear
(waiting for the flames to break)
Ourselves again

               Richard Wright

sábado, 5 de setembro de 2015

Eventos e novos livros

Livros: As novidades 
 
A Opera Omnia editará, em Outubro, o livro Acta Est Fabula - Memórias V - Regresso a Portugal (1995-2015), um novo  volume das Memórias de Eugénio Lisboa.
Doze editoras revelam as apostas para a nova estação
Uma grande variedade de livros que vai "dos grandes romances clássicos e contemporâneos, da poesia à psicologia infantil, dos livros de receitas à historiografia", é a proposta das editoras para a rentrée. 
Dom Quixote
O Tímido e as Mulheres, de Pepetela
Novo romance que desenha uma paisagem imparcial e objectiva da actual sociedade angolana, fruto de muitas mutações culturais e políticas resultantes da sua história recente.
Índice Médio de Felicidade, de David Machado
Romance recomendado por João Tordo que no site agendalx.pt o define como “um livro que tem, entre outras coisas, um narrador muito particular e um sentido de humor refinadíssimo”.
Antologia Poética, de Natália Correia
Organizada, seleccionada e prefaciada por Fernando Pinto do Amaral.
Coimbra Nunca Vista, de Manuel Alegre
Terceira edição de um livro marcante na obra do poeta, agora com prefácio de Abílio Hernandez Cardoso.
O Jogo do Reverso e Pequenos Equívocos Sem Importância, de Antonio Tabucchi
 A totalidade dos contos do autor reunida em dois volumes
Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie
Romance sobre dois adolescentes nigerianos que se apaixonam, mas que são forçados à separação pelo fenómeno da imigração, sob o jugo de uma sombria ditadura militar.
A Infância de Jesus, de J.M. Coetzee
História de uma criança excepcional, um rapaz inteligente e sonhador, com ideias muito invulgares sobre o mundo.
Mosquitos, de William Faulkner,
O segundo romance de Faulkner, originalmente publicado em 1927.
O Lobo das Estepes, de Herman Hesse
Retrato acelerado de um homem que se sente ele próprio meio-humano, meio-lobo que se tornou a bíblia da contracultura da década de 60.

- Casa das Letras
O Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta
Viagem pela última grande tertúlia de Lisboa – que marcou cultural e politicamente várias décadas portuguesas –  que teve lugar no Botequim, bar do Largo da Graça criado e projectado por Natália Correia.

- Oficina do Livro
A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva
Romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança – e também sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças – se é que existem – entre o teatro e a vida real.

- Asa
 Relatório do Interior, de Paul Auster
Retrato vivido do autor e do meio que o rodeava: episódios marcantes da infância, adolescência e início de idade adulta, os livros, filmes e acontecimentos que acompanharam o seu crescimento e um vislumbre das primeiras tentativas de escrita.

- Porto Editora
A Desumanização, o novo romance de Valter Hugo Mãe, o primeiro na Porto Editora.
A Sentinela, o novo romance do Richard Zimler, o primeiro na Porto Editora.
A Liberdade de Pátio, de Mário de Carvalho, publicado por ocasião da homenagem que é prestada ao autor no “Escritaria”, em Penafiel.
Poupe com Jamie, de Jamie Oliver, um livro de receitas adequado aos tempos de crise que vivemos.
Trocado por Miúdos, um livro onde especialistas e figuras de relevo da cultura portuguesa dão resposta às perplexidades de crianças com idades entre os 6 e os 12 anos.

- Saída de Emergência
A Sagração da Primavera, de Alejo Carpentier
Uma história de amor entre dois refugiados políticos – um arquitecto cubano e uma bailarina russa - dá origem a um romance monumental no qual o autor expressa, com espantosa erudição, as suas concepções sobre os grandes movimentos históricos, políticos, artísticos e culturais do século XX.

- Sextante Editora 
Ara, a estreia de Ana Luísa Amaral no romance.
Mystic River, de Dennis Lehane
Adaptado ao cinema por Clint Eastwood, este livro catapultou Lehane para a categoria de um dos melhores escritores americanos da actualidade, tornando-se também um autor best-seller da lista do The New York Times. 

 - Assírio & Alvim
Inicia a publicação da obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen na Assírio, com quatro livros: Poesia, Coral, No Tempo Dividido e Mar Novo.
O Senhor Pina, de Álvaro Magalhães, com ilustrações de Luiz Darocha, é uma obra dedicada ao poeta Manuel António Pina.

- Caminho
Diário dos Tempos de Crise, de Daniel Sampaio
Colectânea de artigos publicados na revista dominical do jornal Público que trata uma vasta variedade de temas. Neste conjunto, a  crise actual está quase sempre presente, porque ela de facto afecta todos os aspectos da vida
Na Esfera do Mundo -  História de Portugal – Vol. IV –, de António Borges Coelho 
Volume inteiramente dedicado ao século XVI português. Por aqui, um texto ao mesmo tempo rigoroso e de grande plasticidade, poderá o leitor ficar a conhecer as grandezas e misérias do século de ouro da história nacional.
 O Lago Avesso. Uma Hipótese Biográfica, de Joana Bértholo 
Ella Bouhart, coreógrafa consagrada, vive num sexagésimo quarto andar, no centro de uma metrópole, de onde avista um enorme jardim. A cada dia observa as diferentes tonalidades de um lago. Esse lago representa o seu horizonte, até onde não é capaz de ir, os territórios da sua vida que se sente incapaz de ocupar. Isso, e o seu avesso.

- Quetzal
Ficções, de Jorge Luis Borges
Um dos livros mais apreciados de um dos nomes maiores do conto ou da narrativa breve.

- Bertrand
 A História de uma Serva, de Margaret Atwood
O famoso e multipremiado Handmaid’s Tale é um romance distópico sobre uma tirania religiosa de extrema-direita que condena uma mulher fértil à escravatura sexual numa sociedade do futuro minada pela poluição e reduzida à esterilidade. Já considerado uma alegoria política digna de Huxley e de Orwell.

- Relógio D’Água
Assim para Nós Haja Perdão, de A. M. Homes, tradução de Miguel Serras Pereira
Romance vencedor do Women's Prize for Fiction 2013 que lança um olhar sombrio e cómico à vida doméstica do século XXI — vida de indivíduos em descontrolo, reunidos pela família e pela história.
Enxaqueca, de Oliver Sacks, tradução de Miguel Serras Pereira
Pnin, de Vladimir Nabokov, tradução de Telma Costa
O Desconhecido do Norte-Expresso, de Patricia Highsmith, tradução de Rogério Casanova
O Ano em Que Sonhámos Perigosamente, de Slavoj Zizek 
Até ao final do ano a Relógio D’Água anuncia um importante conjunto de publicações, entre as quais:
Ulisses, de James Joyce, tradução de Jorge Vaz de Carvalho
Antologia Poética, de Emily, Anne e Charlotte Brontë, tradução de Ana Maria Chaves
Guerra e Paz, de Lev Tolstoi, tradução de António Pescada
Antigo Testamento (Êxodo, Génesis, e Cântico dos Cânticos) com ilustrações de Marc Chagall
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Feira do Livro do Porto. Um grande evento cultural de 4 a 20 de Setembro. 
"A Feira vai contar com 130 pavilhões, que incluem 62 editoras e 19 livrarias, segundo informações da organização.
Sob o tema da Felicidade, a Feira do Livro do Porto de 2015  decorre até dia 20 deste mês, nos jardins do Palácio de Cristal, onde haverá debates, exposições, cinema e outras actividades.
Pelo segundo ano consecutivo com organização a cargo da Câmara Municipal do Porto, a Feira do Livro vai contar com 130 pavilhões, que incluem 62 editoras e 19 livrarias, segundo informações da organização dadas na apresentação do evento, esta semana.
"Esgotámos a nossa capacidade e esperemos que as pessoas gostem. Esperamos que o tempo ajude, se bem que na feira do livro há uma tradição de chuva. Mas estamos convencidos de que este é um caminho muito interessante para a cidade", afirmou aos jornalistas, no começo da semana, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.
No sábado, às 18:00, Mónica Baldaque, Isabel Ponce de Leão e Zita Seabra vão conversar sobre a obra de Agustina Bessa-Luís, escritora a quem vai ser atribuída uma tília na avenida que já no ano passado recebeu algo idêntico para Vasco Graça Moura.
Este ano, à semelhança do que existe no Hyde Park, de Londres, a Feira do Livro do Porto vai ter um ‘speaker's corner', "onde quem quiser, durante 15 minutos, pode falar sobre livros e felicidade", de acordo com o vereador da Cultura da autarquia, Paulo Cunha e Silva.
O vereador ressalvou que quem escolher usar da palavra não deve fazê-lo "mais do que 15 minutos e importa também que o espírito da campanha eleitoral que se vive não contamine demasiado o ‘speaker's corner'".
A feira do livro vai abrir às 15:00 entre segunda e sexta-feira, encerrando às 22:00 de domingo a quinta-feira, enquanto às sextas-feiras e sábados vai fechar às 23:00."Lusa


A festa do Avante. Um grande acontecimento  do PCP que atrai milhares de visitantes.  Apresentação do extenso programa.
A Arte Interior. Siza Vieira e o desenho de objectos
  • Até 15 nov/15
    "Exposição temporária composta por mais de uma centena de peças criadas pelo Arquitecto Álvaro Siza Vieira, englobando exemplares de cerâmica, vidro, ourivesaria, mobiliário e tapeçaria, com particular destaque para a azulejaria.
    O Museu Nacional do Azulejo, em parceria com o IADE-U, no âmbito do Projecto de investigação PTDC/EAT-HAT/121601/2010 Design em Portugal (1960-1974), financiado pela FCT e cofinanciado pelo COMPETE, apresenta A Arte Interior. Siza Vieira e o desenho de objectos”, exposição temporária que procura dar a ver como o arquitecto Álvaro Siza Vieira complementa os espaços que projecta com a criação de objectos, em sintonia com os princípios de um processo projectual que reflecte o conceito de Obra de Arte Total.
    Do olhar à imaginação, da mão ao desenho, os percursos que se estabelecem no processo criativo dos artefactos presentes nesta exposição pretendem demonstrar como não são determinados apenas pelas propriedades físicas da matéria e/ou pela função, mas também como representação de uma cultura imaterial, com os seus valores semânticos e simbólicos.
    Um dos elementos chave da exposição é a presença da azulejaria, aspecto muitas vezes ignorado da obra do autor e que terá neste espaço um lugar de destaque e a reflexão que merece. "ACL

    Lúcia Afogada

    Teatro › Espectáculos
    4 a 13 set/15
    Quarta a sábado, às 21h30 | domingo, às 19h
    • Dalila Carmo / ©Alipio Padilha
                         Dalila Carmo / ©Alipio Padilha
    Nova Companhia/Blue Week Lisbon 2015. Martim Pedroso, direção; Dalila Carmo e Duarte Grilo, interpretação.
    "O novo espectáculo de Martim Pedroso cruza a dramatização de História da Gata Borralheira com a poesia do livro Dia do Mar, ambos de Sophia de Mello Breyner Andersen. É uma viagem de vida que começa na terra e acaba no fundo do mar. Um delírio dramático e poético sobre a frugalidade, sobre como é fácil ser-se corrompido e levado a escolher o outro caminho menos essencial."

    sexta-feira, 4 de setembro de 2015

    O sentido da Música no momento que passa

    «Tudo foi dito. Sem dúvida. Se as palavras não tivessem mudado de sentido; e o sentido, de palavras» Jean Paulhan

    A Música tem a capacidade de traduzir todos os sentimentos. São o Evento, o objecto de Arte do seu autor, mas apropriam-nos e tomam-nos quando a descobrimos. Para cada momento,  hora, dia ou época, ela está apta a legendar o nosso coração. Nela, as palavras não estão gastas. Têm, ainda, a forma exacta para o que sentimos. Inteiras e cheias, dilaceram-nos quando a morte tem o rosto de uma criança.  

    "Marcha Fúnebre de Chopin", na versão para Orquestra por Edward Elgar. A interpretação é da  London Philharmonic Orchestra regida pelo Maestro Sir Adrian Boult.

    quinta-feira, 3 de setembro de 2015

    Era uma vez um país chamado Europa

    Once upon a time  there was a country called Europe
    ‘We cannot aim at anything less than the Union of Europe as a whole, and we look forward with confidence to the day when that Union will be achieved’
    It may sound inconceivable today that a statement such as the above could be made by a British Prime Minister and even more so by the leader of the Conservative Party. Yet, this is an extract from a speech delivered by Winston Churchill at the Congress of Europe in The Hague on 7 May 1948. It is just an example of numerous similar statementsand activities supporting European integration and union. These were part of wider efforts and actions by the people of a continent shattered by war towards a common purpose and future, which have been imaginatively ‘narrated’ by a member of Europe’s next generation in an award-winning video ‘We are Europe’ – see below. These efforts have been steadily leading towards a Europe United in Diversity and to the formation of a European identity underpinned by common values and ideals such as the establishment of democratic institutions, the respect of human rights and the protection of minorities, as well as solidarity and social cohesion.

    However, Europe has now reached a critical crossroads after several years of a severe economic crisis and austerity measures that have disproportionately and brutally hit the most disadvantaged. There has also been an apparent revival of old nationalisms and divisions coupled with the rise of extremist far right and populist parties.

    The performance of such parties in last month’s European parliament elections has highlighted the need for reform and change. But there are very different perspectives taken with regards to what the response to the rise of Eurosceptic parties should be. On the one hand, there are Eurosceptic calls for a stop or even a reversal of the plans for further integration and political union. In contrast, there are also strong voices of support for changes that are “needed to keep the European dream alive”, shifting the focus from austerity towards supporting “investment on jobs and on growth” and for a new radical manifesto for Europe calling for “less Europe on issues where member countries do very well on their own, and more Europe when union is essential”.As three European geographers whose first languages are Greek, English and German respectively, we hope that our book The Social Atlas of Europe can be used to enhance the perception of European identity and solidarity. The Atlas, which includes all countries that have shown a clear and strong commitment to a common European future, not only shows how different are the separate countries, regions and great cities of this continent, but also how often they are so similar. There are a huge number of ways in which people living in different parts of Europe have so much in common. Often the real differences are not found across national borders but between villages and cities or between rich and poor quarters of a town. And the rich quarters of Europe are all more similar to each other than to the poorer areas that are nearer to them. Looking at the maps in this atlas you can begin to believe that you are looking at the geography of a single large group of people. You can see what happens to all the people of Europe collectively and have a better grasp of their collective hopes, fears and lives.In The Social Atlas of Europe we offer a new human geography and human cartography perspective and contribution to debates about the above issues by bringing together a great many maps and facts about Europe and its people. Our approach is underpinned by the view that Europe is something much more than just a world region and a collection of nation states and by the idea that we are hopefully moving more towards the belief that so many of us are a “European people” instead of a “Europe of nations”. We argue that the EU needs to be thought of as an entity that is more than just a union of member states, more than just a common market or just a potential monetary or fiscal union. What does it mean to be European today? To what extent do the citizens of EU member states feel that they are citizens of something larger than their own country?One way of moving towards a “European people” instead of a “nation-state” mentality and of bolstering European identity further is to think of Europe and its economy, culture, history and human and physical geography in terms of a single large land mass. This is already happening to some extent, especially in the minds of the rapidly increasing numbers of Europeans who live in a member state other than their country of birth perceiving Europe and its people in a more fluid way.In The Social Atlas of Europe we highlight the notion of Europe in these terms by looking at its physical and population geography whilst simultaneously utilising the latest available demographic, social, and economic data on a wide range of topics. Using state-of-the-art geographical information systems and new cartography techniques we reveal beautiful versions of Europe shaped by its social values, culture, education, employment, environmental footprints, health and well-being, and social inequalities and cohesion. The Social Atlas visualises and maps Europe in a way that makes it more likely for Europeans to make more sense of their local area’s physical and human geography and also to think of Europe as one place: the place they belong to or their “home” (which is perhaps the way in which the next generation of Europeans will think when asked ‘where do you come from?’).

    Overall, The Social Atlas of Europe offers a fresh perspective and a new way of thinking about Europe as a continent of cities rather than states, a continent of people rather than power and one of hope rather than decline, reminding its people how much they have in common and highlighting that there is now, more than ever, a need to carry on working together rather than pulling apart." Views Of the World,published 
    The Social Atlas of Europe
    by Dimitris Ballas, Danny Dorling, Benjamin Hennig
    Published by Policy Press
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    Como escapar à confusão política
    por Serge Halimi
    "Afirmando que Marine Le Pen «fala como um panfleto comunista da década de 1970», François Hollande contribuiu para a confusão das referências políticas em França. A multiplicação das alianças entre Estados que a priori em tudo se opõem torna também mais delicada a compreensão das relações internacionais. E a informação tem um ritmo cada vez mais acelerado, o que aumenta a confusão reinante. Neste contexto caótico, como afastar as derivas identitárias e clarificar o que está em jogo?

    Mais de quatro anos após o início das revoltas árabes e das manifestações planetárias contra a escalada das desigualdades – dos «indignados» ao Occupy Wall Street –, a ausência de resultados imediatos e a perda de referências claras desencorajam os ardores de transformação da sociedade e do mundo. O desencantamento exprime-se em frases como esta: «Tanta coisa para isto?»… Velhos partidos decompõem-se ou mudam de nome. Alianças insólitas multiplicam-se, o que sacode as categorias políticas habituais. A Rússia denuncia os «fascistas de Kiev» mas acolhe em São Petersburgo uma reunião da extrema-direita europeia; a França alterna proclamações virtuosas sobre a democracia e a laicidade com um apoio redobrado à monarquia saudita; a Frente Nacional (FN) finge regozijar com o triunfo eleitoral de uma esquerda radical e internacionalista em Atenas.
    A máquina mediática amplifica este ruído tanto mais naturalmente quanto o seu ritmo se acelera e quanto já só sabe produzir temas ofegantes que possam reter a atenção e suscitar o voyeurismo, a compaixão embrutecida e o medo. A extrema-direita e o fundamentalismo religioso aproveitam muitas vezes a desordem geral e o protagonismo quase sistemático dos temas que lhe são caros. Combatentes rivais do «choque das civilizações», propagam a nostalgia de um regresso a um universo de tradições, de obediência, de fé. Defendem uma ordem social moldada e petrificada pelo culto da identidade, da terra, da guerra e dos mortos.
    Aqui e ali, tentativas de evasão, de belas escapatórias, como na Grécia, embatem num bloco compacto de malevolência e de interditos. Os interesses em jogo são poderosos; a batalha, forçosamente desigual. Sair da armadilha exigiria uma visão clara das forças sociais a pôr em movimento, dos aliados a conquistar para a causa, das prioridades sobre as quais assentar a acção [1]. Ora, às referências que armaram os combates emancipadores do passado – a direita e a esquerda, o imperialismo e o progressismo, a etnia e o povo – parece aplicar-se melhor do que nunca uma observação do escritor Jean Paulhan: «Tudo foi dito. Sem dúvida. Se as palavras não tivessem mudado de sentido; e o sentido, de palavras» [2].
    França é um exemplo singular disto mesmo. Desde que a FN se tornou um dos principais partidos do país, o termo «tripartidarismo» reencontrou uma segunda juventude. Não fora um minúsculo detalhe: originalmente (1944-1947), o termo remetia para dois partidos que se reclamavam do marxismo e para um terceiro de centro-esquerda [3]…
    O actual jogo a três desencadeou um concurso de amálgamas, com cada protagonista a pretender que os dois outros se uniram, pelo menos tacitamente, contra ele. «UMPS», repete a FN. «FNPS», objecta Nicolas Sarkozy. «UMPFN», corrigem muitos dirigentes de esquerda. O nevoeiro parece ser tanto mais impenetrável quando nenhuma das três imputações é completamente infundada. «Em matéria económica, a política de François Hollande é a mesma que a de Nicolas Sarkozy» [4], admite por exemplo Arnaud Montebourg, antigo ministro socialista, cuja perspicácia duplicou desde que foi afastado do governo, em Agosto último. União para um Movimento Popular (UMP) e Partido Socialista (PS) dão a impressão de se afrontarem em França, mas nenhum põe em causa os grandes parâmetros económicos e financeiros fixados pela União Europeia, parâmetros esses de que depende quase tudo o resto. (...)
    domingo 10 de Maio de 2015, " Le Monde Diplomatique
    Notas
    [1] Ler «Estratégia para uma reconquista», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2013.
    [2] Jean Paulhan, Enigmes de Perse, Babel, Paris, 1992.
    [3] O Partido Comunista Francês (PCF), a Secção Francesa da Internacional Operária (SFIO) e o Movimento Republicano Popular (MRP).
    [4] Les Échos, Paris, 1 de Abril de 2015.

    quarta-feira, 2 de setembro de 2015

    Um quadro verbal

    «Achei, enfim.
    Estava folheando o diário de K.M. à procura de um pequeníssimo quadro, de que me lembrava e me parecia falso, benévolo, fantasista.
    Apraz-me rectificá-lo.
    São poucas as frases de lá. É um quadro verbal. Suponhamos que é isto:
    Vim, diz ele.
    E ela: sim?
    Para isto... diz ele ainda, e puxa-a para si.
    Ela, impressionada, sente-se desfalecer.
    A minha rectificação pode vir a ter um ar tão gratuito como a fantasia de K.M., mas para mim é a minha... aquilo que sobre o facto admito ou penso. Enfim, anulo a precipitação dele e o pronto desfalecimento dela.
    Ele chega, sobre as escadas. Nestas escadas não há espécie de mistério, nem tão pouco na terra nem na rua. Em parte nenhuma se manifesta, se respira aquela atmosfera pesada e excitante, que costuma animar a literatura irrealista.
    Ele chega, ela espera-o. Espera-o sem feliz inquietação nem consolo. É uma mulher desconsolada. Pensa que ele não venha, que já não apareça; espera-o sempre sem confiança.
    Mas para ele foi preparando uma infinidade de pequenas coisas graciosas, de que ele nunca se aperceberá. Deu-se a tarefas sucessivas, como as noivas. Espera-o com indiferença e tenacidade, é curioso! E despreza-o. Como o não conhece muito tem a impressão de que ele é caprichoso e também venal. Mas apesar da insegurança que sente, e da sua resistência, acha que ele representa muito para ela, que representa o mistério... É a luz e ela a borboleta cega.
    Enfim, ele chega. O seu toque com os nós dos dedos à porta surpreende-a. Abre-lhe a porta e ele entra, mas de repente. Tão furtivamente, porquê? Ela pensava que lhe havia de ir abrir a porta em baixo (o fecho estava escangalhado), que não acenderia a luz, que ele a beijaria na escada... Tudo fatalidades, preconcebidas e agradáveis, como as do pequeno quadro de K.M.
    Mas não! Ele entra rapidamente, embora sem intimidade, mostrando-se desde logo intruso. Depois apertam-se as mãos e sentam-se. A casa é pequena e faz frio. Os joelhos dele tocam os dela. Ela faz-lhe perguntas sem importância nenhuma, de amabilidade. Ele pouco fala. Vem de longe... Ri. É engraçado, realmente, um pouco estranho, um pouco esquivo. Ela sente-se desconcertada. Ele olha-a, diz-lhe coisas soltas sem pensar, e chega-se mais. Afinal viera... o coração dela mirra. Sente-se tão pouco desenvolta! Aceita tudo, desconsolada. Um abismo os separa, um abismo! E nem ele nada quer dela, mas beija-a. E beijando-a se excita.
    Mas como se tinham beijado já? Nunca assim. Como se tinham beijado naquelas noites de Outono... sobretudo numa tão formosa, tão longa e tão estrelada, que ainda lhe parecia desgarrada, única? Nunca assim...Sem se importarem com o tempo! Com gosto perfeito ou imperfeito, sincero ou iludido, mas com uma sensação tão empolgante de desejo! Uma sensação tão rara de ânsia e de sofreguidão! Não se tinham dado um ao outro, ele negara-se, mas tinham-se doidamente beijado e desejado. Embriagado de enervamento e de cansaço.
    E agora? Ele ali estava, mas como um desconhecido. Era um imoral, um céptico. Por fim ela põe-lhe levemente as mãos na cara. Fita-o muito de perto. Os olhos assim vistos fascinam. Parecem presos e mais largos, dominados... Os olhos dela, tristes, seguem o movimento vagaroso dos dele, a sua expressão ora paciente, ora maliciosa. Por fim uns e outros se cansam.
    Mas se uma pequena palavra, um pequeníssimo acordo de intimidade se estabelecesse...
    Ele sempre fala. E que lhe diz?
    Umas coisas tão mesquinhas e tão calculadas! Tão inúteis, e mesmo tão vexatórias!
    Ela, pisada, arrefecida, ouve-as.
    Para aquilo viera... Há cobardia na sua atitude. Mas para quê ter vindo? Só para a ofender e humilhar?
    O cálculo dos homens! As suas desculpas! Sempre e só o cálculo...
    Aquela amargura que ela sentia não era nova. Não, não era. Ela conhecia-a, parecia-lhe que já desde a eternidade... Os homens abusavam dela, da sua real inocência.
    E chorou. Caíram-lhe as lágrimas pela cara abaixo. Mas logo uma súbita secura a impassibilizou. Envergonhou-se de ser fraca.
    E ele voltou a beijá-la. Talvez que a desculpar-se. Por fim beijaram-se com teima. E ele ficou.»
    Irene Lisboa,in «Solidão», I volume, Editorial Presença, pág. 39-41 

    terça-feira, 1 de setembro de 2015

    Abrir a Europa

    Crise dos Refugiados 
    Abrir a Europa
    Por Gian Paolo Accardo, VoxEurop
    "Após algumas semanas, o VoxEurop juntou-se ao projeto #OpenEurope, que reúne vários meios de comunicação, ONGs e associações europeias e que visa “contar as solidariedades concretas que se constroem para ajudar os imigrantes e defender um projecto europeu fiel aos seus valores do acolhimento”.
    Na verdade, pensamos que a crise ligada ao número inédito de imigrantes e de refugiados que estão a chegar à Europa desde há vários meses não é um fenómeno passageiro e que requer que os governos, as instituições europeias e os cidadãos europeus forneçam respostas à altura do desafio humanitário, social e económico que este representa.
    Se a Europa, no seu momento de terra de emigração, foi durante décadas um destino privilegiado para todos os que, começando pelos nacionais das suas antigas colónias, procuravam um futuro melhor, agora é procurada por pessoas como os sírios, líbios, eritreus e iraquianos que fogem à perseguição e à guerra. Guerras nas quais os países europeus tiveram – através da sua intervenção ou indiferença – um papel. Desta forma, têm uma responsabilidade, se não legal, moral, se é que este termo tem algum significado na política. É por isto que deveriam mostrar mais preocupação e generosidade na hora de analisar as solicitações de asilo dos refugiados.
    Entre as dezenas de milhares de pessoas que batem às portas da Europa, muitos deles são, sem dúvida, imigrantes económicos à procura de trabalho e de uma situação melhor para si e para a sua família. Não devem ser confundidos com os refugiados, mas deveriam beneficiar de procedimentos de acolhimento simplificados, através das antenas da UE nos países afectados. Deveriam sobretudo beneficiar de uma melhor imagem no seio da opinião pública. Para tal, os responsáveis políticos europeus deviam deixar de transmitir a ideia de que a imigração económica é uma ameaça para o nosso bem-estar e o nosso Estado-providência: várias estudos demonstram o contrário. Que tipo de ameaças colocam à nossa civilização e à nossa cultura? Estas estão bem enraizadas e, além disso, exportam-se bastante bem.
    Talvez não seja fácil em tempos de crise económica, mas, por definição, cabe aos líderes dirigir os seus concidadãos e não seguir os impulsos da multidão. No entanto, para defender o que é correcto, é necessária uma estatura e uma visão política, algo que falta aos nossos líderes actuais. As negociações sobre as quotas de refugiados foram, muito recentemente, prova disso. Não se trata de dar as boas-vindas a “toda a miséria do mundo”, como alguns gostam de repetir, pois a maior parte dos habitantes deste planeta aspiram a viver tranquilamente no seu país, mas de encontrar um espaço para os que precisam de protecção ou que tem qualquer coisa para oferecer.
    Porém, tal como demonstram as várias iniciativas que circulam um pouco por toda a Europa, os valores que caracterizam o nosso continente – a solidariedade, o humanismo, a empatia, a generosidade – continuam a ser populares. São estes que impulsionaram a união europeia deixando de lado o rancor e os interesses particulares após a carnificina da Segunda Guerra Mundial, para criar uma união que se converteu a primeira potência económica e um modelo para todo o mundo e que assegurou a paz entre os seus membros. Não os atraiçoemos."Gian Paolo Accardo * (Voxeurop)
    *Gian Paolo Accardo é um jornalista italo-holandês, nascido em Bruxelas em 1969. Trabalhou como redactor no Internazionale e no Courrier International e como correspondente da […]

    Imigração:
    Um mapa que mostra a atitude dos europeus face à imigração
    "Este mapa, elaborado com dados do Eurostat recolhidos por Tableau Public, mostra a percentagem de europeus que expressam, em geral, uma opinião positiva face à imigração de países fora da UE. Quanto mais elevada a percentagem, mais positiva é a opinião da população."Voxeurop