terça-feira, 14 de abril de 2015

Circular em Luanda

" O meu poema anda por aí vadio
 no mato ou na cidade
 na voz do vento 
 no marulhar do mar
 no Gesto e no Ser"
António Jacinto ( poeta angolano),"Poema da alienação - Poemas",CEI

"A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?"
Luandino Vieira,(escritor angolano),in"Canção para Luanda"


Da velha Luanda, cidade mãe, aos novos bairros e povoações que a incorporam nos subúrbios, há um povo  que se movimenta num labor diário. 
Intenso, diversificado, caótico, original , improvisado, rudimentarmente organizado e nunca finalizado ou institucionalizado assim é o sistema de transportes que vigora e impera  na capital angolana.
Uma variedade, um mistério que se vai desvendando à medida que se enxerga a cidade. Impossível não captar toda esta singularidade viária que se nos apresenta  em espantosa e nítida realidade.
Tudo tem correlação com a hora e o local de partida. Embora haja um serviço residual  de transportes , autocarros públicos,  com algumas carreiras, é no privado que está a maioria da oferta.
Viver no centro  da cidade é uma situação que abrange poucos. Deslocar-se para esse centro é, porém, uma realidade que confina muitos. Há um vai-vém  interminável que se inicia de madrugada. Quem vive nos bairros novos para chegar ao centro tem de sair de casa às cinco horas da manhã ou  mais cedo , conforme a hora de entrada.
E é um rodopiar de transportes numa oferta constante . Os candongueiros, agora designados por " quadradinhos" , funcionam como autocarros  em carrinhas van, veículos comercais  ligeiros, que transportam cerca de 14 a 15 pessoas quase enlatadas , quando cheios. Pintados de azul e branco, enchem as estradas luandinas. Filas e filas em movimento ou em paragens específicas para servir uma vasta população. Todos eles tem uma rota específica que foi definida e divulgada. 

A mais recente novidade são os moto-taxis. Motociclos que fazem de meio de transporte entre as paragens dos " quadradinhos" e os bairros ( musseques  e condomínios) para quem lá vive ou trabalha. Baptizados como " cupapatas" (Kupapatas) estão em profusão,  à espera de quem lhes lance  o sonoro  e desejado pedido: " Me leva só, cupapata!".


Nesta cidade, existem também taxis. Os clássicos táxis assinalados com a cor oficial , sinal luminoso identificador,  taxímetro e demais requisitos impostos. Mas os particulares , não convencionais , espreitam-nos . Estacionam junto aos passeios  ou junto às bermas das estradas . Tomámo-los , nós os inexperientes, por qualquer automóvel particular em movimento. Enxame de cor  e de marcas , ei-los por toda a parte em serviço regular de transporte.  O povo atribuiu-lhes um nome:"turismo". É um turismo que chega e vai parando quando mais alguém lhe faz sinal, até preencher os quatro lugares em oferta. Quem entra paga  tal como   fizesse a viagem sozinho.


Circular em Luanda , (dentro, em redor de ou fora) , é uma aposta heróica. Quem vence é o tempo. Toma e enreda  quem se mete nas malhas do trânsito.
Para quem não tem pressa, o tempo permite  descortinar um mundo anacrónico e singular que emerge através das estradas , ruas, ruelas, caminhos  ou picadas que bordejam esta metrópole.
Mas Luanda tem Mar. Um mar que  se estende pela longa costa que lhe pertence. Circular por mar foi a melhor decisão que se tomou nestes últimos anos. Em expansão por outras paragens, há uma excelente linha marítima composta por barcos catamarãs que ligam algumas zonas periféricas  da capital à  bela Marginal , junto ao Porto  da cidade. 
Entrar na cidade,  com a maresia no coração, é um bom começo para qualquer dia em qualquer parte do mundo. Assim acontece em Luanda.



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Protesto no Brasil

Ontem, 12 de Abril, as ruas do Brasil encheram-se. Manifestações intensas onde a criatividade foi soberana. Eis algumas imagens retiradas da revista brasileira "Veja". 









As frases da semana

As frases da semana publicadas pela revista Veja- Brasil
frases-da-semana-11-4-2015
Por Geraldo Samor

Um mundo diferente

O Fórum Social Mundial tem vindo a demonstrar que, mesmo se alguns duvidam de que um outro mundo é possível, um outro mundo é urgentemente necessário 

Outro mundo é necessário
Por 

"Escrevo de Tunes, onde participo no Fórum Social Mundial (FSM), uma semana depois do atentado terrorista que matou 21 pessoas. O primeiro facto notável é que mais de 50 mil participantes, vindos de 121 países, não se deixaram intimidar pelos extremistas e mantiveram a sua participação como testemunho de solidariedade para com o povo tunisino, o país do Magreb onde se iniciou a Primavera Árabe e que realizou com mais êxito a transição da ditadura para a democracia. Um país pobre em recursos naturais, cuja maior indústria é o turismo, está no centro de uma região que serviu de berço ao capitalismo e sempre foi dominada pelo comércio de recursos estratégicos, do ouro no século XIV ao petróleo nos nossos dias.
A riqueza da sua diversidade cultural é impressionante, e está presente tanto na arte e na política como na sociedade e no quotidiano. Aqui se amalgamaram ao longo de séculos a cultura cartaginesa (povos berberes e fenícios), romana, cristã, árabe-muçulmana (do Médio Oriente e da Península Ibérica), otomana, francesa. Aqui nasceu e escreveu um dos fundadores das ciências sociais modernas, Ibn Khaldun (1332-1406). Dez séculos antes, bem perto daqui, na Hipona romana (hoje a cidade de Annaba, na Argélia) nascera Santo Agostinho, para além de tudo o mais um precursor do modernismo utópico e da crítica anticolonial. Hoje, e talvez para surpresa de muitos, na Tunísia as mulheres são 31% dos deputados e, segundo os observadores mais atentos, são quem tem defendido melhor a transição democrática no país.
Tal como no primeiro encontro do FSM aqui realizado, em 2013, o tema central foi a dignidade, um conceito amplo e de vocação intercultural, onde cabem os Direitos Humanos de raiz ocidental e as concepções de respeito pelo ser humano, suas comunidades e a própria natureza concebida como um ser vivo e fonte de vida próprias das cosmovisões indígenas e camponesas, bem como do Islão corânico. 
Dentro deste tema geral couberam os mais diversos debates sobre as três fontes principais da dominação e da opressão no nosso tempo - capitalismo, colonialismo (racismo, xenofobia e islamofobia) e patriarcado -, debates que ora se centraram na denúncia ora na proposta de alternativas. Ao longo dos 15 anos do FSM, alguns temas foram ganhando mais centralidade: o avanço aparentemente irresistível da versão mais antissocial do capitalismo (o neoliberalismo assente no capital financeiro), atingindo agora a Europa, que se julgava protegida; a escandalosa concentração de riqueza - segundo dados da respeitada Oxfam, as 85 pessoas mais ricas do mundo têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre da Humanidade (3,5 mil milhões de pessoas); a destruição ambiental devido à exploração sem precedentes dos recursos naturais; a expulsão de camponeses das suas terras ancestrais para dar lugar à agricultura industrial e ao açambarcamento de terra em larga escala que ela envolve; a crescente invasão de sementes transgénicas e de produtos geneticamente modificados (da fruta ao eucalipto), que retira aos agricultores o controlo das sementes, destrói a biodiversidade, mata as abelhas e causa danos à saúde humana; o crescimento da violência política e a necessidade de denunciar tanto o terrorismo como o terrorismo de Estado, que sempre tem recorrido a extremistas para prosseguir os seus fins; o trágico agravamento das condições de vida dos palestinianos sujeitos à forma mais violenta e selvagem de colonialismo por parte de Israel; a luta heróica do povo saharaui pela sua independência e libertação do colonialismo marroquino.
Quinze anos depois do primeiro encontro do FSM, é tempo de fazer um balanço. ?O Fórum permitiu aos movimentos sociais de todo o mundo conhecerem-se melhor e articularem as suas lutas, de que são bons exemplos a Via Campesina e a Marcha Mundial da Mulheres. Mas a verdade é que o mundo está hoje mais violento, mais injusto e mais desigual, e muitos (eu próprio incluído) pensam que o FSM se devia ter renovado ao longo destes anos e tornado mais interventivo na formulação de propostas e de políticas. Uma coisa é certa, o Fórum tem vindo a demonstrar que, mesmo se alguns duvidam de que um outro mundo é possível, um outro mundo é urgentemente necessário."Ensaio publicado na VISÃO 1152, de 2 de Abril de 2015.

domingo, 12 de abril de 2015

Ao Domingo Há Música

"Et c'est toujours de même, et c'est ainsi toujours!
On s'adore! On se hait! On maudit ses amours!
On s'adore! On se hait! On maudit ses amours!
Adieu Myrtille, Eglé, Chloé, démons moqueurs!
Adieu donc et bons jours aux tyrans de nos coeurs!
Et bons jours!" 

Robert de Montesquiou , in "Pavane" 

Não com estas palavras; não com a mesma arte; não com a musa de Verlaine   , mas o Amor sente-se , vive-se  e exprime-se  com mais ou menos  intensidade por todos aqueles que com ele partilham  um ou infindos momentos. As mais célebres  produções artísticas nasceram sob o efeito do Amor. Encontramo-las na Pintura, Música, Literatura, Cinema  e até  nos murais de rua.  
Pavane,  Op. 50 é uma composição para orquestra e coro opcional, do compositor francês Gabriel Urbain Fauré (Pamiers, Ariège, 12 de Maio de 1845 — Paris, 4 de Novembro de 1924 ), escrita em 1887. Esta magnífica e elegante obra pretende evocar a pavane que era dançada na corte espanhola. Leve e harmónica é um excelente convite para um aprazível Domingo de Abril. 
Et Bonjour!
"Pavane, Op. 50 foi inicialmente escrita, no ano de 1886, apenas para orquestra. Mais tarde foi incorporada a parte coral  para que a obra, dedicada à condessa Élisabeth Greffulhe, fosse também coreografada  tendo como objectivo uma grande apresentação. A parte coral tem letra de Robert de Montesquiou, primo da condessa Elisabeth Greffuhle. A estreia ocorreu no dia 25 de Novembro de 1888, nos Concerts Lamoureux dirigida por Charles Lamoureux. A versão coral foi apresentada três dias depois pela orquestra da Sociedade Nacional de Música.
A influência do trabalho de Fauré sentiu-se nas obras dos  compositores que o seguiram tal como em Passepied da Suite bergamasque de Claude Debussy, assim como na Pavane pour une infante défunte de Maurice Ravel, escrita quando este ainda era aluno de Fauré no Conservatório de París."

sábado, 11 de abril de 2015

Manoel de Oliveira e o Amor de Perdição

Eugénio Lisboa foi Conselheiro Cultural  da Embaixada de Portugal, em Londres, durante dezassete anos. No IV volume das suas Memórias, "Acta est fabula. IV. Peregrinação: Joanesburgo . Paris . Estocolmo . Londres – 1976-1995", narra  uma parte do vasto e riquíssimo labor que desenvolveu,  nessa época, em prol da Cultura Portuguesa. 
A propósito  do filme "Amor de perdição",  Eugénio Lisboa oferece-nos páginas de intenso interesse onde se descobre a personalidade forte e delicada de Manoel de Oliveira, recentemente falecido.
Amor de Perdição
"Em Março, o Amor de Perdição, romance de Camilo, que já li vezes sem conta e é uma jóia tão perfeita, que não cabe em qualquer classificação de género, período ou escola, entrou na minha vida, de modo enviesado. Eu conto, que tenho muito que contar. No dia 6 de Março (1980), enviei para Lisboa uma Informação de Serviço, a coberto de um ofício assinado pelo embaixador, sobre o filme de Manoel Oliveira, baseado naquele romance de Camilo. Rezava assim:
O director artístico do “National Film Theatre”, Sr. Wlaschin, fez-nos saber que terá o maior interesse em que o filme de Manoel Oliveira, Amor de Perdição, seja apresentado no próximo “Festival Internacional de Cinema”, em Londres, a ter lugar em Novembro próximo. O Sr. Wlaschin teve recentemente contactos com colegas seus que estiveram no “Festival de Cinema”, em Berlim, onde o filme foi excepcionalmente bem recebido, os quais lhe afirmaram a excelente qualidade dele, razão por que manifestou a sua estranheza perante a nossa indiferença relativa à apresentação da obra no Reino Unido. Queremos informar de que, já em 1979, e a pedido insistente do “National Film Theatre”, tentámos por todos os meios obter uma cópia do filme, preferivelmente legendada em inglês. Não foi possível ao IPC arranjar essa cópia e a única existente em França (cremos que legendada em francês) não nos foi facultada em termos viáveis pelo agente comercial em Paris, porquanto nos eram dados dez dias para a viagem de ida e volta e mais o tempo necessário à exibição no “Festival”. A escassez de recursos do IPC aliada à manifesta falta de vontade do agente em França, mau grado as amáveis e prontas diligências do Sr. Dr. Liberto Cruz, Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal, em Paris, causaram o malogro da apresentação de um filme português que já vários países conhecem, mas que ainda não foi possível mostrar aos britânicos. Em vista do exposto acima, gostaríamos que fossem, desta vez, feitas diligências no sentido de, este ano, se ter uma cópia do filme Amor de Perdição, com legendas em inglês, disponível para ser apresentada, em Novembro, em Londres, no “Festival Internacional de Cinema”.
A reacção do IPC a esta minha Informação de Serviço foi característica: era como se eu estivesse a apropriar-me de território que era deles. Remeteram ao director do “Gabinete de Relações Culturais Internacionais” da Secretaria de Estado da Cultura um ofício, que me acabaria por chegar às mãos, via Ministério dos Negócios Estrangeiros. Dizia assim, em estilo educado, comedido, mas reivindicativo de território que fora, alegadamente, trespassado:
Em referência ao ofício 988/GCACE/80, temos o prazer de informar estar o Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal, em Londres, ao corrente da participação de Amor de Perdição no “Festival Internacional de Cinema”, de Londres”. Agradecendo e reconhecendo o “Instituto Português de Cinema” a preocupação pela confirmação desta presença, não pode o mesmo deixar de assinalar que tem, como é sua obrigação, contactos directos com direcções de festivais e organismos congéneres, e bem assim, desde há quatro anos, com o Sr. Ken Wlaschin, estranhando por isso a avaliação do empenho referido pelo Sr. Conselheiro Cultural, a quem tem o “Instituto Português de Cinema” dado sempre o maior apoio. houve, aliás, durante o último “Festival de Cannes”, encontros entre o “Instituto Português de Cinema” e o director do “Festival de Londres”, não restando quaisquer dúvidas de ambas as partes quanto à presença de Amor de Perdição no referido “Festival”.
A este civilizado “remoque” respondi, nestes termos, por Informação de Serviço minha, apensada ao ofício do embaixador, com data de 2.09.1980:
Com referência ao ofício CLT/3473, Proc. 84,4 de 19.08.80, cobrindo o envio de fotocópia de um ofício d’A Comissão Administrativa do “Instituto Português de Cinema”, gostaria de responder a uma observação contida no segundo parágrafo deste último ofício. O “Instituto Português de Cinema” simultaneamente “agradece”, “reconhece” e “estranha” a nossa preocupação com o envio do filme de Manoel Oliveira ao “Festival de Londres”, o que parece um conjunto de atitudes difíceis de se reconciliarem umas com as outras. Passando de alto o agradecimento e o reconhecimento (que, de resto, agradecemos), estranhamos, ainda assim, a estranheza. A nossa preocupação é apenas natural, por mais contactos directos que o IPC possa ter – e é bom que tenha – com organizações internacionais. Estes não impedem que as ditas organizações, sabendo da existência, em Londres, de um Conselheiro Cultural e de uma Embaixada lhes façam saber do seu empenho em que se “siga” de perto o assunto, tudo se fazendo para que o mesmo tenha o resultado desejado. Acontece, neste particular, que, em 1979, apesar dos repetidos pedidos feitos pelo Sr. Ken Wlaschin, no sentido de o filme “Amor de Perdição” se fazer apresentar no “Festival Internacional de Londres” e apesar dos esforços por nós desenvolvidos e da boa vontade manifestada pelo funcionário do IPC, com quem repetidamente falámos, a presença do filme no dito “Festival” não pôde ter lugar. Portanto, quando, na minha Informação de Serviço, de 13 de Maio deste ano, apensa ao ofício n.º 360 da mesma data, afirmava que se o filme de Manoel Oliveira estiver este ano presente no “Festival”, “isso se ficará a dever mais ao empenho que nisso estão a pôr os britânicos do que a nós próprios”, prestava, por um lado, homenagem à contínua e lisonjeira insistência que o Sr. Wlaschin tem posto no caso, por outro, incluía-me a mim próprio na incapacidade de se corresponder, de facto, àquele empenho (os esforços, do nosso lado, não corresponderam a resultados palpáveis, e desse fracasso nem sequer nos excluímos). Ao redigirmos a Informação de Serviço que acima referimos, procurámos apenas corresponder ao pedido que implicitamente se continha no facto de o Sr. Wlaschin nos ter enviado cópia da carta por ele remetida ao IPC. De facto, o envio de tal cópia só podia significar um pedido de empenho nosso para que a vinda do filme se não gorasse de novo. O que tudo é muito natural e não parece ofensivo de maior e para ninguém. “No mesmo ofício do IPC, afirma-se que esta organização sempre nos tem dado o seu apoio, o que é verdade e muito apreciamos e agradecemos. A esta instituição só devemos serviços e até amabilidades. O que não põe nem tira a que mostremos o mais vivo empenho, como é nosso dever, em fazer o que esteja ao nosso alcance para que o “Amor de Perdição” esteja presente no “Festival” de 1980. Como o IPC afirma que isso acontecerá, mesmo sem a nossa intervenção, por uma vez nos damos por felizes por sermos inúteis, sem prejuízo dos resultados. Mas seria interessante que se pensasse que os pelouros culturais não são propriedade privada de ninguém e que, por isso mesmo, o cinema português não é propriedade do IPC, razão por que até um Conselheiro Cultural pode ter interferência construtiva na divulgação de uma obra representativa desse cinema.
Bem está o que bem acaba, diz o provérbio e diz o Bardo. E o filme de Manoel Oliveira, seguindo meticulosamente o texto camiliano, foi apresentado ao público – críticos, distribuidores, realizadores, gente interessada, em geral – no “London Film Festival”, em 16 de Novembro de 1980. Dada a extensão da obra, a sessão começou às 13,30 horas. Mas eu prefiro transcrever a Informação de Serviço, que, com data de 20.11.80, enviei para Lisboa:
No passado domingo, dia 16 de Novembro, teve lugar no “National Film Theatre”, com começo às 13,30 horas, a exibição do filme Amor de Perdição, de Manoel Oliveira, no contexto do “London Film Festival” de 1980. Este ano o “Festival” tinha como participantes vários grandes nomes da realização cinematográfica: Kurosawa, A. Wajda, James Ivory, Delvaux, Franju, Scorsese, Ken Loach e, last but not least, a que se julga ser a versão final e integral do famoso Napoleão, de Abel Gance. Como se sabe, este “Festival de Londres” não tem carácter competitivo, não havendo pois a distribuição de prémios, por categorias. Trata-se de um acontecimento que tem apenas por fim mostrar uma série de filmes pré-seleccionados, com vista a interessar eventuais distribuidores dos circuitos de distribuição do Reino Unido. O filme de Manoel Oliveira fora escolhido pelo crítico John Gillet [...] que se mostrou, em conversa connosco, um grande admirador do cineasta português [...]. John Gillet, que irá, em Fevereiro, assistir, em Berlim, a uma retrospectiva dos filmes de Manoel Oliveira, prometeu organizar, de acordo com o Sr. Ken Wlaschin, director do “Festival”, uma idêntica retrospectiva em Londres, em 1981, a pretexto de uma eventual exibição do filme Francisca, que Manoel Oliveira espera ter pronto em Julho [...]
Amor de Perdição seria depois – a seguir ao “Festival” – exibido aos alunos de português e brasileiro do “King’s College”, em Londres. John Gillet, em conversa, disse-me que os organizadores do “Festival  tinham por Oliveira uma elevada consideração devido à sua seriedade e ao seu profissionalismo. Com efeito, o autor de Douro, Faina Fluvial não aproveitava, como quase todos os outros realizadores, o pretexto de vir aos festivais, para andar a fazer turismo: estava sempre presente e disponível, onde quer que fosse necessária a sua presença. Em suma, suava, honestamente, a sua camisola. Quando o Amor de Perdição foi apresentado, Gillet e os outros elementos da organização do “Festival” estavam apreensivos, devido à invulgar duração do filme. Temiam, ao fim de duas horas, uma debandada em massa. Mas o crítico inglês teve uma boa inspiração, que acabou por resolver o problema. Pouco antes de as cortinas abrirem, subiu ao palco e disse mais ou menos isto: “Meus amigos, o filme que vai ser projectado é belíssimo, mas muito longo. Por isso, sugiro que se instalem confortavelmente nas cadeiras, relaxem os músculos e deixem-se penetrar lentamente pela história que o filme vai contar. Prometo que vão gostar.” O público presente assim fez e julgo que não houve uma única deserção…No final, descobri o “espectador privilegiado”: um rapaz polaco, que me apareceu, olheirento, devastado, como se tivesse, ele próprio, acabado de sair do filme de Oliveira. O filme atingira-o até às profundezas abissais do seu coração ardente de polaco: chorava como uma Madalena, com a tragédia de Teresa, Mariana e Simão. Colou-se a nós, portugueses, como se fôssemos um resto ou prolongamento daquele mundo que Camilo congeminara. Queria conhecer o Oliveira, falar com o Oliveira, tocar na carne do Oliveira, possuir o Oliveira. Eu disse-lhe que ia ter o Oliveira em nossa casa, para jantar e conversa com alguns amigos. Ele perguntou logo, sofregamente, se podia ir também. Ir, como?, perguntei eu. Morava longe e já tinha o carro cheio. Ele resolveu logo: iria de motocicleta e seguiria o meu carro, como nos filmes (sempre estávamos num festival de cinema…) E assim se fez, mas teve pouca sorte. O Oliveira acabara de saber que a sua secretária fizera borrada com a marcação do regresso. Em vez de ser no dia seguinte, era ao fim dessa mesma tarde… Saiu do “Festival” a correr para o aeroporto, mas nós fizemos o jantar à mesma, menos o Oliveira e mais o polaco. Porque ele insistiu em vir. À falta de Oliveira, nós éramos o que havia de mais parecido: sempre éramos lusos, sempre vivíamos amores de perdição e bordoada, e talvez, ao jantar, falássemos do Amor de Perdição. Durante o jantar, muito intenso, devorava tudo quanto dizíamos, não fosse perder uma migalhinha de amor de perdição… Camilo entrara finalmente na Polónia, e pela porta grande: com sangue, suor e lágrimas! Já no final do jantar, o telefone tocou: era o Oliveira, já aterrado no Porto e já em sua casa. Fez logo as perguntas meticulosas que gostava de fazer: se estava tudo bem, se o jantar tinha corrido a contento, se já tinha acabado e se tínhamos cálices de vinho do Porto à mão de semear. Disse-lhe que sim a tudo, incluindo os cálices. Então, disse ele, como se estivesse a preparar uma cena para filmagem, eu que enchesse um cálice, para mim, e pedisse à Antonieta que enchesse um, para ela, e que se aproximasse do telefone, para fazermos os três um brinde telefónico. Erguemos os cálices e desejámo-nos mutuamente muita saúde (deu resultado, pelo menos no que diz respeito ao Oliveira, que tem andado de saúde, desde então, e já passou folgadamente dos cem… Ficam os meus leitores finalmente a saber como é que isso se conseguiu). Era (é) assim o Manoel Oliveira: atento aos pormenores e às pessoas, cavalheiro dos pés à cabeça. De uma das vezes que veio a Londres e lhe demos o apoio do costume, ele, uma manhã, foi à Embaixada, sem eu saber, e pediu ao embaixador que lhe dispensasse, por umas horas, uma secretária que conhecesse bem a Antonieta. Levou-a com ele e passou a manhã a fazer-lhe toda a espécie de perguntas: que vestidos vestia a Antonieta, que cores preferia, se gostava de música e que música, se lia livros e que livros, se gostava de filmes e que filmes… Enfim, torturou a pobre rapariga (a Fernanda Borralho) com perguntas de todos os formatos, para ver se, das respostas, deduzia, com alguma probabilidade de acerto, o ramo de flores de que a Antonieta talvez gostasse. O ramo, contou a Fernanda, foi meticulosa e lentamente construído, flor a flor, e levou quase tanto tempo a ficar concluído como a Muralha da China. No fim, lá encontrou o conjunto que era, pensava ele, o corolário provável de todo aquele interrogatório. E foi oferecê-lo, ufano, à Maria Antonieta, que ainda hoje jura nunca ter recebido um ramo de flores de que tanto gostasse! Só mais tarde viemos a saber como tinha sido concebido: milímetro a milímetro como as cenas dos seus filmes… Repito, era – é – assim o Manoel Oliveira: sempre atento ao pormenor… E é que não largava a presa, enquanto não levava a água ao seu moinho. Gostava – gosta! – de agradecer, em grande! A mim, ofereceu-me, entre outras coisas, belamente encadernado, o dáctilo-escrito do guião do Amor de Perdição. O ferro que isto faria ao polaco, se ele o soubesse! Espero que nunca leia estas memórias: seria capaz de assassinar para ter este memento do Oliveira…" 
Eugénio Lisboa, in "Acta est fabula IV. Peregrinação: Joanesburgo . Paris . Estocolmo. Londres – 1976-1995", pags.270-276, Editora Opera Omnia, Outubro de 2014

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cachoeiras da Binga (Angola)

"      Quem?
Quem ousa negar
O verde dos muxitos,
Os longes das anharas,
O ritmo das canções que os rios cantam
A cair de rocha em rocha, 
O silêncio verdadeiro dos desertos amarelos?"
Aires de Almeida Santos ( poeta angolano), "Quem" , in" Meu Amor da Rua 11", Clássicos da Literatura Angolana, Ed.Grecima, Luanda, 2014

As Cachoeiras da Binga,  no rio Queve (Keve), encontram-se na província do Kwanza Sul de Angola. Quando se apresentam, num primeiro recanto da estrada, o olhar procura-as até as descobrir em assombroso espectáculo  de água. A neblina, que resulta das múltiplas gotículas que se soltam  no ar, mistura-se no verde da frondosa vegetação circundante, formando um quadro natural de rara e intensa beleza. África densa, majestosa e tropical converte-se aqui  num intenso oásis de frescura e de singular amenidade.
Quem ousa negar?
 




 






quinta-feira, 9 de abril de 2015

Cantar

“Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem Dói”

«“Lágrimas Negras” (Jorge Mautner – Nelson Jacobina) é um grande momento do disco Cantar de 1974 de Gal Costa. Canção melancólica, triste, visceral, de uma beleza ímpar. 1973 tinha sido o ano do fim do milagre brasileiro, da grande crise mundial do petróleo. Não se falava em outra coisa naquele ano a  não ser no “ouro negro”. Num paradoxo poético, recheado de eufemismos, a música dá às lágrimas a cor e densidade do petróleo. Lágrimas negras inundavam o mundo, o fim dos sonhos flower power. Como num cortejo fúnebre, a voz de Gal Costa esvai-se da melancolia da letra, dando um tom triste, definitivo, que contrasta com a leveza de várias faixas. Se ela começou “contente” com “Barato Total”, ela termina triste, densa, com “Lágrimas Negras”; são nestes contrastes que a Gal Costa tropicalista sobressai à Gal Costa bossanovista." in Virtuália


Cantar apresentou uma Gal Costa mais amadurecida e sofisticada nas interpretações, distanciada dos arroubos juvenis e dos cabeludos de então. E para quem ainda duvidava até onde ela poderia chegar, o coro da canção “O Céu e o Som” professava claramente:
“Quem foi que disse que essa mulher não voa?”»