terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Livros e cinema

Livros para 2014
"Só a escritora Lídia Jorge publicará um romance, 'Os Memoráveis', nesta 'rentrée' literária de 2014. Todos os outros autores portugueses consagrados não têm livros novos ou foram afastados das escolhas que as editoras fizeram para o início deste ano.
As principais apostas das editoras vão para as efemérides do centenário da Grande Guerra e para os 40 anos do 25 de Abril, sendo que a Revolução dos Cravos serve de pretexto para se publicarem duas importantes biografias. A do polémico dirigente comunista Pavel, de autoria de Edmundo Pedro, e a do homem da propaganda de Salazar, António Ferro, de Orlando Raimundo.
Sobre a Revolução será também polémico o livro de memórias do escritor português que vive na Holanda, J. Rentes de Carvalho, que editará em Março 'A Flor e a Foice', um acerto de contas com o 25 de Abril. Segundo o autor revela ao DN, o seu livro "não vai ocultar a versão menos folclórica do 25 de Abril e os que do folclore retiraram grande honra e proveito".
Segundo Rentes de Carvalho, o seu relato "trará à tona os nomes de pessoas que até hoje nunca vi mencionadas, mau grado o papel que discreta e eficientemente desempenharam. É um relato fiel do que testemunhei e do que ouvi, acrescentado de informações, documentação a que tive acesso, e também de muito interesse e algum estudo".DN
Associação de Faro quer reaver livros confiscados pelos ingleses
por Lusa, texto publicado por Paula Mourato

A associação de defesa do património de Faro quer reaver para a cidade uma colecção de livros confiscada por tropas inglesas, em 1596, quando a cidade foi saqueada e incendiada sob o comando do conde de Essex.
Constituída por 65 títulos (de um total de 91 volumes), a então biblioteca que pertencia ao bispo do Algarve está depositada na Bodleian Library da Universidade de Oxford desde 1602, explicou à agência Lusa Bruno Lage, presidente da associação Faro 1540.
"Decidimos reclamar o que é da cidade através de uma moção votada pela nossa Assembleia Geral e da qual foi dado conhecimento ao governo britânico e à Universidade de Oxford", disse aquele responsável.
De acordo com Bruno Lage, apesar de nunca se ter conseguido confirmar que o exemplar do Pentateuco (livro religioso), que se encontra na British Library, também foi confiscado na mesma ocasião, a associação aproveitou para pedir também a sua devolução à cidade.
Aquela é alegadamente a única cópia conhecida do Pentateuco, que terá sido o primeiro livro impresso em Portugal, pelo editor judeu Samuel Gacon, operador da primeira oficina tipográfica em solo português, situada em Faro.
"Nós daríamos inevitavelmente muito mais valor a isso [ter o Pentateuco] do que a própria biblioteca onde está, que deve ter milhares de livros e com certeza muito mais importantes do que este", sublinhou.

O filme 'A propósito de Llewyn Davis', de Joel e Ethan Coen, foi eleito pela sociedade de críticos de cinema dos Estados Unidos da América como o melhor filme de 2013.
"Os irmãos Coen também receberam o prémio de melhor realização enquanto Oscar Isaac foi considerado o melhor actor do ano passado pela sua interpretação de um cantor folk em busca de sucesso no início dos 1960.
Além destes, os críticos americans premiaram Cate Blanchett como melhor atriz em Blue Jasmin, o filme de Woody Allen.
O prémio de melhor argumento foi para Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke. A associação de críticos elegeu como melhores atores secundários Jennifer Lawrence, em American Hustle (Golpada Americana, que se estreia em Portugal no próximo dia 23), e James Franco, em Spring Breakers: Viagem de Finalistas.
Sem grande surpresa, A Vida de Adèle, o filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes, foi considerado o melhor filme estrangeiro."DN

As ondas de Neptuno furibundo

"Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Bóreas,Áquilo queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos raios em que o Pólo todo ardia!"
Luís de Camões, in " Os Lusíadas - Canto VI , est.76"  

Multiplicam-se os alertas e avisos pelas autoridades para as zonas costeiras de Portugal Continental. A forte agitação marítima levou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a colocar toda a costa sob aviso vermelho. As autoridades aconselham prudência e que sejam evitadas as zonas próximas do mar.


De norte a sul do país, nos Açores e na Madeira, são vários os vídeos que correm na internet com as ondas invulgares registadas ontem.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Crónica de viagem

Crónica de viagem
Finnis Terre!
Por Frederico Füllgraf 
"Debaixo das asas do avião, o continente sul-americano vai adelgaçando até o encontro do Atlântico e da Cordilheira, na Terra do Fogo; encontro que provoca o grande choque dos elementos. 
Em Ushuaia o tempo pode mudar oito vezes ao dia. Terra de extremos, a Patagónia fueguina só conseguiu atrair e fixar a colonização europeia no final do séc. 19. Até lá, o fim do mundo estava na lista negra da Igreja e da antropologia etnocêntricas. Conta-se que após a divulgação da descoberta por Fernão de Magalhães do estreito que leva o seu nome, a Igreja em Roma proscreveu os índios fueguinos, pois homens que viviam numa terra onde as árvores cresciam "para baixo" e a chuva e a neve caíam "para cima" (o “mapa mundi” invertido na cabeça dos clérigos, tão criativamente ironizado no mapa "de pernas para o ar", do artista uruguaio, José Torres-Garcia) não poderiam, em hipótese alguma, ser admitidos como descendentes dos primeiros pecadores, Adão e Eva – provavelmente sequer tinham alma... O reforço desta maldição veio pela boca de Sir Charles Darwin, autor da frase sem nenhum rigor científico, e por isso tristemente famosa: "A maldição e a esterilidade pesam sobre este país, e a água que desliza sobre seu leito de pedras, é parte da mesma maldição". 
Ushuaia é cenário de experiências que vão da surpresa ao grotesco, passando pelo desconcertante. Por acaso existe experiência mais hilariante que chegar ao próprio “fim do mundo”? E lá este ele, sinalizado em todas as esquinas: Café do Fim do Mundo, World's End - a boutique do fim do mundo, o Museu do Fim do Mundo, o amor feito no fim do Mundo... Desconcertante não é apenas esta permanente simultaneidade da génese e do apocalipse do espaço continental, planetário, mas também da concomitância dos tempos, onde convivem a paisagem mesozóica com o Cyber-Café.
Uma atracção risível são as casas de Ushuaia: imensas casinhas-de-boneca de latão colorido, desafiando o céu, quase sempre encoberto. Exibem influências de estilo britânico e italiano, que o viajante já conhece da Boca, em Buenos Aires. As mais antigas, são construídas em madeira, com isolamento externo de latão, liso. Suas paredes internas são de madeira, isolada com papel de jornal, e coberta com papel de parede. Revelação insólita: a explosão demográfica ocorre até no fim do mundo. O "Plano de Promoção" do governo argentino, que na década de 70 atraiu dezenas de indústrias (desactivadas após a extinção dos incentivos fiscais dos anos 90), fez Ushuaia inchar de 5.600 para 29.500 habitantes. 
A (suposta) cela de Gardel
Na Prisão do Fim do Mundo, pécie de "Alcatraz finnis terre", construída pelos próprios prisioneiros no início do século 20, desactivada na década dos anos 40, e reciclada como museu vivo, testemunhei a morte cruel dos meus dois maiores heróis argentinos: Eva Perón e Carlos Gardel. Primeiro, porque Alan Parker e Madonna assassinaram "Evita" no "Cine del Fin del Mundo", uma gigantesca tenda metálica intra-muros da ex-penitenciária, parecida com as cabanas das bases científicas da Antárctida. Quando Evita-Madonna, apelou, moribunda, "Não chores por mim, Argentina", o público respondeu com desdém, e subitamente a maldição de Darwin parecia virar-se contra o próprio "império do mal"; o britânico... Depois, uma placa espúria (mas genuinamente argentina) fulminaria Gardel à entrada de um cubículo húmido e escuro, com a seguinte insinuação: "¿Uruguayo o francés ? ¿ Estuvo o no, preso en esta cárcel ?" 
Era tarde demais para sussurrar "No habrá pena ni olvido": minha imagem de Carlitos jazia no chão de paralelepípedos puídos pela História. Aproximei-me do infame sumário e li boquiaberto: entre as versões sobre os motivos da prisão de Gardel em Ushuaia, constam "envolvimento com mulheres, política e alcagüetagem", confusões que culminaram em tiroteio. Daí, sua prisão no fim do mundo. E lá, sua redenção. Na prisão, Gardel reinventou-se como payador (milongueiro gauchesco) antes de decolar sua carreira de tanguero e ter as Américas a seus pés. Autos, sentenças e prontuários enviados de Ushuaia a Buenos Aires, "perderam-se" nos porões da antiga Penitenciária, na esquina das avenidas Coronel Díaz e Las Heras, em tempo para evitar embaraços à carreira de Gardel. Aliás, Charles Romuald Gardés: ídolo nacional argentino, nascido no Uruguai, de pai supostamente francês, e morto em acidente aéreo na Colômbia. Assim é Ushuaia: o fim do mundo é um demolidor de mitos - ou será que ele é seu arquitecto, dando-lhes corpo e sabor? 
Na "Estação do Fim do Mundo", em Ushuaia, sobe-se a bordo do trenzinho com a bitola mais estreita ainda que a do "Viejo Expreso Patagónico", de Esquel, e durante uma hora passeia-se por um cenário hilariante: um século atrás, a floresta austral foi derrubada pelos prisioneiros para a construção da penitenciária e das primeiras casas de Ushuaia. "O que não foi derrubado, foi queimado pelas fagulhas do próprio trem", explica, resignado, o guia turístico. Depois, o último trecho do parque é feito por ónibus, que faz uma parada como se fosse para alardear um "SOS Mata Fueguina!". Ansiosa em re-povoar suas florestas do fim do mundo com fauna de clima frio, no princípio do séc. 20 a Argentina precipitou-se, comprando gato por lebre: importou castores norte-americanos, que não encontrando seu predador natural - o puma ou jaguar pardo, virtualmente extinto - estão devastando o bosque austral com sua fúria de construtores de diques, para isso juntando toras e galhada, onde alojam suas tocas. Desinteressados, até mesmo os zorros, os cachorros do mato patagónicos, pelos simpáticos e aplicados roedores, não restará outra alternativa à autoridade finismundi, que declarar aberta a temporada de caça ao castor, transformando-a em insólita mas incontestável atracção eco-turística internacional: "Mate um castor, salve a floresta e ganhe o Troféu Finisterre!" – é o fim do mundo! ...
Última parada antes do transbordo para um barco na Bahia de Lapataia, um lago provoca um choque estético. Recortado de sonhos, emergindo dos labirintos do inconsciente, lá está o perfeito cartão postal hiperreal, imobilizando a imaginação: o Lago Roca.
O farol de Jules Verne
A esta altura, chegamos ao Canal de Beagle, e nevegá-lo significa experimentar outra emoção desconhecida. Escoltado à direita e à esquerda pelas últimas formações montanhosas do continente, o Beagle acompanha a Cordilheira dos Andes até sua morte no mar. Morte é uma palavra que ganha muito sentido neste lugar, pois muito sangue juntou-se às águas de cor esmeralda do Canal desde que o homem branco aportou por aqui, 120 anos atrás. A cultura dos índios-canoeiros, Ona, extinguiu-se em menos de duas gerações, porque a Europa depredou sua principal dieta alimentar; os leões marinhos. Destroços e fotos de navios baleeiros, no Museu do Fim do Mundo, também documentam um dos capítulos mais sinistros do saque biológico das Américas pela Europa: a caça inclemente e economicamente burra à Baleia Franca Austral. 
Na saída do Canal de Beagle para o nada, está Les Eclaireurs, o "farol da luz no fim do mundo". Como Jules Verne nunca frequentou estas derradeiras paragens, sua novela "O Farol do fim do Mundo" certamente se inspirou no relato de algum marinheiro viajado. Les Eclaireurs é o ícone da solidão. Silêncio e solidão são as grandes aprendizagens da alma do viajante neste fim de mundo. E o silêncio e aquele desconcertante sentimento de pertença ancestral, são os temas do romance Mundo del Fin del Mundo, do chileno Luis Sepúlveda, cujo personagem-narrador traduz a universalidade destes sentimentos, nada boçais, apenas demasiadamente humanos, quando escreve:
"Agora eu sentia que eu também era de algum lugar. Finalmente sentia o chamado mais poderoso que o convite da tribo; este, que a gente ouve ou crê escutar, ou o inventa, como paliativo da solidão (...) Sob a abóbada de milhares de estrelas, que testemunhavam a frágil e efémera existência humana, eu soube, finalmente, que era dali, e que ... levaria sempre comigo os elementos daquela paz, terrível e violenta, precursora de todos os milagres e de todas as catástrofes. Naquela noite, sentado no convés do Finisterre, chorei sem dar-me conta. Não era pelas baleias. Chorei, porque estava de novo em casa (...)."
Gauchito Gil, Defunta Correa e as árvores petrificadas
Na estrada rumo a Esquel é possível ter um encontro intrigante, não marcado, com um ícone da religiosidade popular. Plantado desafiadoramente em pleno deserto, está um misto de altar e oratório, composto por capelinhas de madeira, de cor vermelha, e cheias de votos (garrafas d'água, velas, ervas), ladeadas por três bandeirolas fincadas no chão, de trapos esgarçados pelo vento, também vermelhos, e uma cruz com uma tabuleta - sempre vermelhas - ofertados ao "Gauchito Gil", a quem seus devotos pedem protecção. Minha cabeça tenta entender, mas o resto do meu corpo apenas sente. E eis a dúvida: será mesmo uma forte energia que emana deste lugar sincrético, ou é a imensa solidão que me invade sob forma de percepção "religiosa"? É uma experiência que evoca imediata associação aos surtos místicos descritos por Isabelle Eberhardt, a filha de Rimbaud, enquanto atravessava o Magreb, montada em corcovas de camelo, travestida de homem. Já este culto patogónico originou-se em Cuyo, noroeste da Argentina, em homenagem à "Defunta Correa". Segundo a lenda que a declara santa, a personagem teria conseguido amamentar seu filho durante vários dias após sua morte por sede, no deserto. 
Em Sarmiento, no coração do deserto, 130 milhões de anos do planeta Terra parecem codificados no "Bosque Petrificado", localizado à entrada do tenebroso (sim, ensolarado, mas tenebroso!) "Vale da Lua". Gravado a cores em estratificações de idade geológica embasbacante, um inquietante criptograma de arenito e rocha magmática apresenta-se aos olhos assombrados. Este contacto com os proto-elementos, sua pétrea beleza e a incomensurabilidade do tempo, potenciam o estupor psicológico, experimentado no contacto com o silêncio do deserto. Feito peixes fora d´água, agonizantes, troncos jurássicos estraçalhados pelas intempéries, jazem no chão de cinza vulcânica. Sua escamação quer indicar que só agora ingressaram em estágio de demorada morte mineral, até sua pulverização. Na saída do Vale são quase nove horas da noite: sol de fogo, a oeste, e lua pálida de susto, a leste, surpreendem-se, cara a cara – o espectáculo é ambivalente, mas a alma entrega-se a ambos.
Um cavalo heróico, e um escritor mentiroso
Esquel é a porta de entrada do Parque Nacional de los Alerces, a poucos quilómetros de Trevelin, o bastião avançado da colonização galesa ao pé dos Andes. Aqui é fácil entender uma antiga, mas falsa indignação do Chile. Foi graças a um plebiscito realizado entre os galeses, no final do séc. 19, que toda esta região, povoada, sobretudo, por índios araucanos, do Chile, que fugiram à expansão do império Inca, atravessando os Andes, foi incorporada à Argentina, depois de espertamente "anexada" por estancieiros chilenos, que seguiam as pegadas dos nativos exilados. Só mediante a convocação de uma comissão internacional de arbitragem é que o Chile reconheceu finalmente que as terras argentinas eram as que se localizavam a leste das nascentes andinas, correspondendo-lhe apenas as localizadas a oeste, na face do Pacífico.
Mas a atracção imperdível de Trevelin é a "Tumba do Cavalo Malacara". Sepultado ao lado de seu dono, o pioneiro galês, John Daniel Evans, a quem serviu durante trinta anos, o Malacara é venerado como atracção turística por Clery Evans, neta do pioneiro. Recebendo seus visitantes na casa do avô, transformada em museu particular, Clery reconstitui o drama dos quatro bravos galeses, que em 1879 cavalgaram de Rawson, na costa atlântica, até os Andes, e que na volta foram emboscados por índios, que os confundiram com soldados do Gen. Roca. O único que se salvara foi John D. Evans, porque o Malacara teve a audácia de saltar de um precipício com quase 20m de altura e escapar – vivo!. Inteirado da morte dos três companheiros de Evans, o cacique Tehuelche veio ter com Evans, desculpar-se. Só depois deste incidente o governo argentino enviou seu primeiro destacamento militar aos Andes, e deu posse de terra, até então “chilena”, aos galeses. Moral da estória: não fosse um cavalo, e o mapa da América do Sul teria outro traçado.
Outra nota de rodapé da História, desta vez do crime, foi escrita em Cholila, povoado do sector nordeste do parque. Há lá uma atracção só recentemente incorporada aos roteiros turísticos, da qual anteriormente o país preferia não vangloriar-se: uma cabana que de 1901 a 1907 serviu como sede da fazenda comprada pelo "Wild Bunch", o quarteto mais procurado pela justiça norte-americana na virada do séc. 19. Após memoráveis assaltos a trens e bancos, nos EUA, Robert Parker (aliás Butch Cassidy), Harry Longabaugh (aliás Sundance Kid, já imortalizado por Robert Redford), e a bela pistoleira, digo professora, Etha (Ethel) Place, fugiram para a Argentina, fixando-se em Cholila. Harvey Logan, o quarto elemento do bando, ainda cumpria pena nos EUA, chegando a Cholila somente em 1905. 
Afirma-se que com a chegada de Logan o bando retomara sua trajectória criminosa, assaltando bancos no sul da Patagónia. Num desses assaltos, Logan teria baleado mortalmente o gerente de um banco, violando o código de ética da quadrilha, que rejeitava mortes. E este teria sido o fim do breve interregno de paz do Wild Bunch, que novamente caçado, teria cruzado a Cordilheira dos Andes, em direcção ao Chile, onde suas pistas foram engolidas, em 1907. O ex-general boliviano, René Barrientos, matador de Che Guevara e estudioso obsessivo do género western, mas descrente da lenda, segundo a qual o bando teria sido morto em 1909, durante um assalto à mina de zinco San Vicente, na Bolívia, realizou uma investigação que confirmaria as suspeitas da agência de detectives, Pinkerton, dos EUA: "foi tudo armação!", afirma Barrientos. Segundo Pinkerton e Barrientos, pelo menos Cassidy, e antes dele, Etha Place, teriam conseguido salvar sua pele, retornando clandestinamente aos EUA. Ainda segundo a irmã de Cassidy, viveram incólumes, e suas carreiras tiveram um happy end. 
Mas esta é apenas uma de várias versões desencontradas, cujo objectivo é pintar o ocaso da quadrilha com vernizes de glamurização. No início do novo milénio, estudiosos da aventura de Cassidy e do Sundance Kid, reuniram-se em barulhento congresso internacional, no sul da Patagónia. E nesta oportunidade fizeram um enérgico acerto de contas com o finado Chawin, ao qual, segundo o pesquisador Negro Suárez, "a única coisa que lhe importava ao escrever era que sua estória fosse eficaz”. Juárez confirma que aqueles túmulos encontrados em Río Pico, não são, como afirmou Chatwin, as tumbas de Butch e Sundance. Como de resto, aliás, Chatwin tomou ousadas liberdades poéticas, estacionando na paisagem patagónica múltiplos objectos de sua imaginação. "Frederico Füllgraf, in,  fuellgrafianas.blogspot.pt

domingo, 5 de janeiro de 2014

Ao Domingo Há Música

4
"Entrem ventos, luar, sol, chuva , estrelas,
No palácio abandonado, 
Sem telhas no telhado ,
Sem vidros nas janelas...
Que os vidros se estilhaçaram,
O telhado me voou,
E, pelos mil caminhos que ante mim se desdobraram,
sob as bençãos e as cóleras do céu,
Parti!, lá vou
Entre ventos, luar, sol, chuva, estrelas..."
( Assim cantava eu,
Com vozes enfunadas como velas,
E audácias e garbo, herdados
Do tempo das caravelas...)
Ai! há que séculos foi!
Vida! vida sarcasta,
Brutal, terrível madrasta
Dos filhos que mais te querem!:
Que fizeste daquele pobre herói
Que sonhava os reptos de Hércules,
E sorria com olhos de veludo?
Que fizeste daquele pobre herói?
-Fi-lo herói a valer...: tirei-lhe tudo:"

José Régio, " O Fértil Desespero ,in  As Encruzilhadas de Deus" ,
 in "José Régio por Eugénio Lisboa", Colecção Poetas de Ontem e de Hoje, 
Livraria Tavares Martins, Porto /1957

No primeiro Domingo de 2014, as propostas fundem-se em harmoniosa parceria: a Poesia de um poeta maior, José Régio, e a Música do grande Wolfgang Amadeus Mozart, em Horn Concerto nº 4,  in E- flat major K. 495 ( 1786),  com a excelente interpretação do virtuoso  trompetista russo, Sergei Nakariakov.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Notícias da Cultura, em Janeiro



O filme "48" de Susana de Sousa Dias será o ponto de partida para mais um fim de semana do Harvard na Gulbenkian. Num momento em que o cinema português é celebrado internacionalmente, o Harvard Film Archive propõe um programa de encontros internacionais com projecções e debates, trazendo a Lisboa alguns dos mais relevantes autores do cinema actual ao encontro dos cineastas portugueses. As sessões terão lugar na Sala Polivalente do CAM, Fundação Gulbenkian (Lisboa), até ao Verão de 2014.
"Pedimos aos Canto Hondo para desenharem um encontro inesperado e especial com as obras da colecção do CAM e com isso criar um outro espaço de fruição e de relacionamento com a exposição Sob o Signo de Amadeo – Um Século de Arte. O resultado deste encontro inesperado tem a forma de dois breves concertos, diálogos musicais e poéticos entre o universo musical (com fortes ligações à cultura popular) destes dois músicos – Tânia Cardoso e Rodrigo Crespo - e as obras e o imaginário de Amadeo de Souza-Cardoso e de Helena Vieira da Silva Nos dias 14 de Dezembro e 11 de Janeiro (16h) os Canto Hondo apresentam Do alto do peito às campainhas da garganta - Um Diálogo Musical com as Vanguardas Modernistas para voz, guitarra e adufe. Convidando a um mergulho nas paisagens e costumes populares de Manhufe, universo pictórico de Amadeo, traduzindo essa ligação à terra e ao seu imaginário em música inspirada nos cantos tradicionais portugueses. Na sua última apresentação, a 19 de Janeiro (16h) os Canto Hondo inspiram-se na obra de Vieira da Silva, abrindo as portas da sua Biblioteca em chamas e deixando entrar no museu outros poetas contemporâneos, composições melódicas, cores e crónicas antigas, contando para isso com a contribuição especial de um terceiro músico o percussionista João Luís."Fundaçaõ Calouste Gulbenkian
Estão abertas até 31 de Janeiro as inscrições nos concursos de apoio à criação de projectos de Cinema, Dança e Teatro que se distingam pelo seu carácter inovador e impulsionador de novas abordagens artísticas.
Mais informações
Norberto Rosa, Manuel Baganha, Emanuel dos Santos e Luis Morais Sarmento debatem a Lei de Enquadramento Orçamental na próxima sessão do ciclo Sextas da Reforma (10 de Janeiro, às 16h.) Os seminários decorrerão, uma vez por mês, numa sexta-feira, à tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Em cada sessão, especialistas farão apresentações e comentários sobre os temas em análise, alargando-se a discussão ao público presente. A Comissão Organizadora pode dirigir convites a especialistas sobre temas concretos ou seleccionar as apresentações submetidas (call for papers)
“A Confissão da Leoa”, editado o ano passado é o livro mais recente de Mia Couto
"Em entrevista ao Bairro Alto, com José Fialho Gouveia, afirma que o seu grande prazer é ir descobrindo enquanto escreve a história…“(…)Às vezes penso que não quero regressar da escrita, e então não regresso. É um mundo de ilusão. A realidade é uma das grandes ditaduras e acabamos por ficar numa coisa que não existe.”
Mia Couto tem uma ligação especial com os sítios por onde passa, e sobre Lisboa deixa escapar um sorriso dizendo “(…) a luz que toca Lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nós” mas “O momento da despedida é um momento que eu não sei resolver. Os lugares são um encontro e a relação que temos com eles” (Passagem do livro “Jesusalém” citada pelo apresentador do Bairro Alto).
No entanto, o escritor assume que tem momentos em que não consegue escrever, que tem de haver uma pré-disposição que o transporta para outros lugares e outras vivências."
“Quando escrevo não penso que existe um público real (…) Há momentos em que é preciso pensar o texto. Mas quando se está no texto o verbo já não é pensar. É como se eu tivesse que ficar embriagado para ficar disponível para que os ecos de outras vozes, do material que vem da minha infância, possam conversar comigo. (…) A escrita acaba por ser, no meu caso, um processo pouco racional.”


 «Holocausto Brasileiro», da repórter Daniela Arbex, foi considerado o melhor livro-reportagem do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), no Brasil. Vai chegar  a Portugal, em Abril de 2014, pela Editora  da Guerra e Paz..
“Não poderia estar mais honrada em ver meu trabalho sendo recebido pelo povo português. A minha expectativa é que a obra possa, do outro lado do oceano, continuar a consciencializar as pessoas para a necessidade de humanização desses modelos de atendimento. Que o «Holocausto Brasileiro» ajude a sociedade a transformar segregação em acolhimento em qualquer parte por onde ele passe”, afirma a jornalista, feliz com a edição em conjunto com a Guerra e Paz.No Brasil, «Holocausto Brasileiro» já conta com oito edições e vendeu mais de 55 mil exemplares.“Independentemente de termos ficado mais de dez semanas no ranking dos dez livros mais vendidos do país, o que me emociona é o facto de a obra permitir que o Brasil conheça uma de suas piores tragédias”, realça Daniela Arbex.“Mais do que isso, a dor provocada pelo Hospital Colónia poderá ser compreendida em qualquer país ou língua, porque as condições sub-humanas impostas a pacientes psiquiátricos se repetem em outros lugares do mundo. O prémio da crítica só chancela ainda mais a qualidade da história, aumentando a minha responsabilidade como jornalista que busca a transformação social”.
Todos os anos, os Prémios APCA, atribuídos por 52 críticos, elegem os melhores nas categorias de Arquitectura, Artes Visuais, Cinema, Dança, Literatura, Música Popular, Música Erudita, Rádio, Teatro, Teatro Infantil e Televisão. A cerimónia de entrega dos prémios irá decorrer em Março de 2014.
«Holocausto Brasileiro», de Daniela Arbex, resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da História: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante os anos 60 e 70, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colónia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ali foram mortas, criminosamente, 60 mil pessoas." Um registo a não perder.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Estamos tocando o fundo

La Poesia es un arma cargada de Futuro
de Gabriel Celaya ("Poesía urgente")


Cuando ya nada se espera personalmente exaltante
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades:

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quienes somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica, qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: Poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: Lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra, son actos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2380 ANO CAMÕES


"Ele assoma à paisagem antiga: aqui onde os cristais se declinam ao vento, por entre vultos que o não vêem, que não é deles o olhar. «Há quatrocentos anos, os lagos e as planícies e os rios e as florestas e os mares sobre este rosto de velho pergaminho' o nosso, o do chão por onde vamos.» «Os caminhos estão juncados de lanças partidas/ O cabelo espalha-se por toda a parte/ As casas estão sem telhado/ De paredes avermelhadas./ Os vermes pululam nas ruas e praças/ E as paredes acham-se salpicadas de miolos./ As águas estão vermelhas, como que pintadas./ E quando bebemos/É como se bebêssemos salitre.» Levantam-se colunas de fogo à sua passagem; as cidades solidificam, de incessantes escadarias, terraços que nenhum pássaro sobrevoa. Ele prossegue, de folhas cingido, cada vez mais de arame e cobalto, por desnudos fantoches escoltado, a poeira lhe descendo sobre os vidros, esse instante odor a borracha derretida. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. À sombra de um escasso ramo branco de coral, o homem faz desandar os parafusos da esquerda; os torrões esboroam-se a seus passos, aqui e além uma fenda se descerra para as salas liminais. Os indicadores mudam-lhe a rota, comunicam-lhe a última decisão, enquanto as nuvens lentas se acastelam nos longes. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. As hélices perpassam num enorme fragor; ele parece hesitar um pouco; faz rodar, apressado, o manípulo de baixo. E a noite ou são as nuvens que avançam?
Contra as rochas se dilaceram os seios dessas tágides: aqui onde os cristais se declinam ao vento. Solicitas, as que circulavam entre a música e o esplendor das vitrinas, esquecidas de seu fado, vagueiam agora pela terra estendida sobre os jazigos do sémen. «Em farrapos, gritam-me pragas, testemunhas do silêncio em que sigo: Francisca Gomes, Isabel Nunes, Antónia Brás, Isabel Barbosa.» Outra vai subindo, de algas paramentadas, os degraus de pórfìro. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. Ele continua, por decreto reduzido ao ultra-som em seus ouvidos. Um diagrama se lhe desenha e apaga no peito; um hálito de néon lhe vai definindo a boca. «À direita, uma figura de perfil posa rigidamente, uma lança na mão, sob um rolo de nuvens; na parte inferior de seu rosto, vê-se uma espécie de cobertura, enquanto ao seu toucado se prende uma tira que o ata ao queixo. Em frente, há duas estelas de glifos, consistindo os da direita em pouco mais do que cartuchos vazios, possivelmente destinados a serem pintados.» A erva ardida, onde os pés nus decorreram, perde-se-lhe da vista acertada para os infinitos possíveis. «Falava convosco, partilhávamos os mesmos lençóis, os sexos se uniam sob o halo da candeia presa da trave do tecto.» Ninguém o persegue, a ninguém procura. Aperta só um pouco a terceira válvula; recobra a coragem, mas sem que se aperceba do sentido que leva. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. Avista a fímbria das praias, os cactos, o delicado esqueleto inabitado. A memória lhe volta, à medida que o ar se vai saturando de águas e fuligem. «Era pelo tempo das maçãs...» Mas quem lhe pede contos?
Como se não houvera mais do que este horizonte: aqui onde os cristais se declinam ao vento. «Em Macau, junto ao Grande Templo, os escribas transpiravam o dia todo, afadigando-se sobre cartas sem resposta; os condenados sentavam-se, mendigando, a cabeça enfiada num jugo de ferro; os mercadores benziam-se, partiam e regressavam; os juncos afastavam-se, as largas velas de caracteres enfunadas.» «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. Ele esforça-se em sua estrada de negros calhaus semeada. Vai sem mapas nem agulhas-de-marear, num vácuo onde as galáxias o envolvem por todos os lados. Nem das entranhas da baleia ele precisa, nem das asas de cera. A cada esguicho da chaminé em sua narina esquerda, o universo o conhece, ele o conhece, num milímetro o percorrendo, em muitos outros o ultrapassando. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. Em braças mede a distância dos lábios ao coração, ansioso do fogo-de-santelmo, perdido entre amarras de zinco e oceanos que o escavam por dentro. Não há nome que lhe fique na memória, vindo do cesto-da-gávea. Só o simum zumbe em seus fios soltos, as rodas dentadas dão de girar em falso, o olho cego emite a luz intensa e gelada dos séculos sem crónica.
Quais os livros que este limite descrevem: aqui onde os cristais se declinam ao vento, sem texto nenhum mais que os registe? Ele recorda, no intervalo dos versos de Petrarca no gravador do esófago, amigos que o levam por esta ainda selva escura: o que sabia do amor como os bichos, o que dissera de uma rainha se dilacerando entre cortinas em frente do mar. «As cenas e hieróglifos eram pintados em superfícies, revestidas de cal, de longas e estreitas fitas produzidas a partir da fibra da figueira brava. Essas fitas eram pintadas de ambas as faces e dobradas como as pregas de um leque. Os três livros sobreviventes tratam de astronomia, adivinhação, aritmética, mas sabe-se terem existido livros de história.» Caminha, desamparado, através de inumeráveis páginas virgens, um pisco de galena em cada ombro. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio. Mas tudo ignora, menos este vocativo sem sequência, liberto enfim da fala dos outros e da sua, no cárcere do medo. «Foi pelo fim da tarde, em Goa: passeavam sob os pálios, os vestidos soltos, uma pulseira de guizos nos artelhos. Eu levantava os olhos da leitura.» Mas o freio de seus lemes enlouquece, e o tempo corre e se prolonga, e um relâmpago lhe rasga o baixo-ventre. «Luís» – repete o relógio; «Luís» – o relógio.
De si eis o que se desprende: reis e poetas, aias e pastoras, nautas e ninfas. E enquanto a última caravela se desconjunta numa chuva de enxofre, o quadrante lhe revela o código: «Tudo o que muda se muda; a mudança permanece».
Mário Cláudio, in "Itinerários", Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993
Referências: León Portilla – Visión de Los Vencidos; Michael D. Coe – The Mayas; J. Eric Thompson – The Civilization of the Mayas.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014

Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond Andrade,  (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987), in" Receita de Fim de Ano" Record, 2011

Que venha 2014. Esperamo-lo com sons e esplendorosos movimentos. 
FELIZ ANO NOVO.

Kathleen Battle  na excelente e  sempre bela valsa "Frühlingsstimmen,  Voices of Spring" de Johann Strauss II , composta  em  1882. O registo foi extraído  do concerto de Ano Novo, realizado em Viena , no ano de  1987. Orquestra e cantora conduzidas  pelo famoso Maestro Herbert von Karajan.

Dançar uma valsa é um dos grandes prazeres de qualquer  bailarino. Alina Cojocaru e Johan Kobborg fazem-no na perfeição , num majestoso " pas de deux " em  " The voices of Spring".