sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Morreu Nelson Mandela

"Ter convicções fortes é o segredo para sobreviver às dificuldades" Mandela
Morreu Nelson Mandela. Com ele desaparece o símbolo da  redenção  da era moderna. Resgate de um povo , resgate de  um mundo  incrédulo na capacidade de perdão de um dos homens mais perseguidos pelo tenebroso apartheid sul africano. Redimiu-nos a todos nós. Assombrou-nos com a sua inteligência . Inspirou-nos com a sua dignidade.
Madiba para os seus e Mandela para todos nós, representa o herói que cada um sonhou : livre,impoluto, justo.
Até sempre, Mandela.
“Ao longo de sua trajectória política, uma das principais armas do líder sul-africano Nelson Mandela foram suas próprias palavras, frases que tiveram grande importância não apenas na luta contra o apartheid, como na vida de várias pessoas ao redor do mundo, pela sua grande influência e carisma.
A BBC seleccionou algumas frases ditas por Mandela ao longo de sua vida.
Luta política
"Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Porque eu promovi o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas possam viver em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver mas, se necessário for, é um ideal para o qual estou preparado para morrer".
(Conclusão do discurso de três horas de Mandela durante seu julgamento, em 1964, em que foi acusado de sabotagem e traição).
Prisão"O aspecto mais perturbador da vida na prisão é o isolamento. Não há começo e nem fim, apenas sua própria mente, que às vezes engana.
Foi um sonho ou realmente aconteceu? A pessoa começa a questionar tudo. Eu tomei a decisão certa? Valeu a pena o meu sacrifício? Na solidão, não há nada para distraí-lo dessas perguntas pesadas.
Mas o corpo humano tem uma enorme capacidade de se adaptar às circunstâncias difíceis. Descobri que se pode suportar o insuportável, quando se é capaz de manter o espírito, mesmo quando o corpo te põe à prova."
"Ter convicções fortes é o segredo para sobreviver às dificuldades. O seu espírito pode ficar cheio, mesmo quando seu estômago está vazio".
"Um homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, está preso atrás das grades do preconceito e da incapacidade de ver além... Os oprimidos e os opressores são privados de sua humanidade da mesma forma."
(Sobre o seu tempo na prisão Robben Island, no trecho de sua autobiografia Um longo caminho para a liberdade, de 1994).
'Voltarei'
"Em nome da lei, fui tratado como um criminoso. Não pelo que eu fiz, mas pelas coisas que defendi, por minha consciência.
Ninguém em perfeito juízo iria escolher esse tipo de vida. Mas aí chega um momento em que a um homem é negado o direito de viver uma vida normal. Ele só pode viver a vida de um criminoso, porque o governo decretou que assim deve ser a lei".
"A questão que resta a ser feita é se é politicamente correcto continuar pregando a paz e a não-violência quando se trata de um governo cujas práticas trouxeram tanto sofrimento e miséria para os sul-africanos. Não posso e não vou dar o meu braço a torcer enquanto vocês, o povo, não forem livres. Sua liberdade e a minha não podem ser separadas. Eu voltarei."
(Mensagem lida por Zinzi, filha de Mandela, em uma reunião no subúrbio de Soweto, em 1985).
“Liberdade"
Os cliques das câmaras fotográficas começaram a ressoar como se fossem uma manada de animais metálicos. Levantei o punho direito e escutei um alarido. Não tinha conseguido fazer isso em 27 anos e aquilo me encheu de força e alegria."
(Descrevendo seu primeiro dia de liberdade em 1990, no trecho de sua autobiografia Um longo caminho para a liberdade, de 1994).
“Paternidade"
Talvez eu estivesse cego para certas coisas em virtude da dor causada por minha incapacidade de cumprir meu papel como marido e pai dos meus filhos.
Parece que o destino dos que lutam pela liberdade é ter a vida pessoal instável. Ser o pai de uma nação é uma grande honra, mas ser o pai de uma família é uma grande alegria. Um trabalho que exerci muito pouco."
(Extraído da autobiografia “Um longo caminho para a liberdade”, em 1994).
Prémio Nobel
"O valor da nossa recompensa  partilhada deve ser medida e a paz triunfará. Porque a humanidade que une negros e brancos em uma só raça dirá a cada um de nós que devemos viver como filhos do paraíso.
Mas ainda há gente em nosso país que erroneamente acredita que se contribui para a Justiça e à paz aderindo a esses dogmas que só trouxeram desastre.
Esperamos que eles possam ser abençoados com o raciocínio, o suficiente para perceber que a história não pode ser negada e que uma nova sociedade não pode ser criada a partir da reprodução de um passado desagradável, por mais que se tente disfarçá-lo ou reconstruí-lo".
(Discurso ao receber o Prémio Nobel da Paz,  partilhado com o presidente sul-africano F.W. de Klerk, em 1993)
“Posse"
Nunca, nunca, nunca esta bela terra voltará a experimentar a opressão de um sobre o outro. Que o sol nunca se ponha diante de tão gloriosa conquista humana. Vamos deixar a liberdade reinar. Que Deus abençoe a África."
(Discurso de posse, em 10 de maio de 1994).
“Copa da África do Sul"
O povo da África aprendeu a lição da paciência e da perseverança em sua longa luta pela liberdade. Que a Copa do Mundo mostre que a longa espera por sua chegada em terra africana valeu a pena. Ke Nako (chegou o momento)."
(Abertura da Copa do Mundo na África do Sul, 2010).
“Imagem pública"
Uma questão que me preocupava profundamente na prisão era a minha imagem falsa projectada ao mundo exterior, sendo considerado um santo que nunca foi".
(Extraído da segunda autobiografia de Mandela, Conversas que tive comigo mesmo, 2010).BBC ( Brasil)
Leia mais:

Primeira entrevista de Nelson Mandela,
em 1961 (em inglês
)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

"Nós, os de Orpheu"

Revista Orpheu e modernismo português recordados em Lisboa
"O artista plástico Júlio Pomar, o ensaísta José-Augusto França e o musicólogo Mário Vieira de Carvalho participarão, hoje, quinta-feira, num colóquio em Lisboa sobre o início do Modernismo em Portugal, com a revista Orpheu.
 "Nós, os de Orpheu", com coordenação de Teresa Rita Lopes, acontecerá, hoje, quinta-feira, na Academia das Ciências, em Lisboa, associando-se ainda aos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros.
O colóquio abordará diferentes perspectivas, artes plásticas, poesia, ficção, música, do movimento cultural desencadeado com a revista Orpheu, no início do século XX, tendo Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, entre os seus protagonistas.
Teresa Rita Lopes, investigadora da obra de Pessoa, abordará precisamente aquele "triângulo de Orpheu", com o poeta de "A Mensagem", Sá-Carneiro e Almada Negreiros.
Eugénio Lisboa falará de "Orpheu em África", Júlio Pomar sobre os artistas plásticos presentes naquela revista, como Amadeo de Souza Cardoso e Santa Rita Pintor, e Mário Vieira de Carvalho, sobre a música dos modernistas.
Anabela Almeida, Ana Rita Palmeirim, João Bigotte Chorão, António Valdemar e José-Augusto França, que recordará o centenário da publicação de "A engomadeira" (1915), texto de Almada Negreiros, são outros dos convidados deste colóquio, que incluirá ainda uma exposição iconográfica e um almoço "orphaico".
A Orpheu foi uma revista luso-brasileira de literatura nascida em 1915, um ano depois do começo da primeira guerra mundial, e da qual foram publicados apenas dois números, dirigidos por Luiz de Montalvor, para Portugal, e Ronald de Carvalho, para o Brasil - o 1.º volume -, e por Fernando Pessoa, com Mário de Sá Carneiro, o segundo.”Lusa

Música do nosso contentamento

Nem sempre o que observamos é agradável. E o que tem acontecido em Portugal é exactamente aquilo que rejeitávamos.  Vivemos num país onde os noticiários, medidas e desmedidas governamentais,  visões e vivências  tomam o nosso quotidiano  para o ajustar a uma realidade onde o sonho  de um futuro diferente  se esvaeceu.
Quando se quebram as amarras que suportam os sonhos , há outras que surgem vindas dos lugares onde a resistência dá seiva à vida.  E se não constroem vidas novas, pelo menos alentam-nas. É essa a proposta  que sempre traz a Música ao remeter-nos para um exercício transformador. Que a  taciturnidade que nos persegue dê lugar a um firmamento matizado pelas cores quentes que fazem aquecer o coração. E porque todos o desejamos, apresenta-se uma lista variada de  ligeiras composições  que ficaram nos registos da música  soul, rock e afins. Seleccione, sirva-se e consuma.

"Watching and Waiting" é uma canção dos Mooddy Blues de  1969, composta por Justin Hayward e  Ray Thomas, membros da Banda. Foi gravada como single em Outubro de 1969 e  integrada, posteriormente, no Álbum "To Our Children's Children's Children", em Novembro de 1969. 


"Brilliant Disguise" na voz inconfundível de Bruce Springsteen acompanhado por Patti Scialfa , num espectáculo ao vivo.

Justin Hayward,  em " I Dreamed Last Night" , canção que faz parte do Álbum" Blue Jays "

A voz mítica de Jim Morrison dos Doors, em " When the Music's Over" num espectáculo ao vivo, em 1968.

The Seegers Session Band  com o "boss" Bruce Springsteen ,em " O Mary don't you weep", na BBC.
Sting, Tracy Chapman, Bruce Springsteen,  Peter Gabriel e  Youssou N´Dourl  numa grande interpretação de "Chimes Of Freedom" de Bob Dylan  para a Amnistia Internacional, em 1988.

" I got Dreams To Remenber" pelo longínquo e sempre revisitado Otis Redding .

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Consciência democrática

A moral de desobedecer
Por Baptista Bastos
 “Salazar afastou-nos da política. Alegava que percebíamos pouco ou nada dos enredos que determinavam o processo histórico. Para cumprir o projecto serviu-se do sarrafo e do cantochão: da violência e do servilismo cúmplice da Igreja católica. Calafetou-nos com a censura, a polícia, uma escola com esquadrias implacáveis, o temor religioso que nos imbecilizava, a criação de uma clique paralisante e ignara; e a colocação, nos postos de comando e de poder, de serventuários inescrupulosos. Leitor de Maurras, de Sorel e de Gobineau, cujo Les Plêiades absorvera, entusiasmadíssimo, na juventude, conhecia muito bem o que desejava. "Sei o que quero e para aonde vou", dissera, num tom ameaçador que passou despercebido, mesmo aos homens da Seara Nova.
A arteirice do seu comportamento possuía qualquer coisa de irónico. Quando Alfredo da Silva, o grande industrial, fundador da CUF, se lhe foi queixar da mediocridade do ministro da Economia, Salazar respondeu: "Olhe que o outro será pior." Promovia a ascensão dos ambiciosos, sobretudo dos que abjuravam dos ideais, e a história dos seus governos está repleta dessa gente. Alguns, mantinham uma relativa ética republicana, de onde procediam, e do ideário maçónico, do qual se não tinham completamente dissociado.
Esta caracterização tem semelhanças, nada abusivas, com o político actualmente no poder. É apenas uma verificação histórica. Acontece um porém: Salazar era culto e bom manejador da língua. Frequentador, com mão diurna e mão nocturna, dos padres António Vieira e Manuel Bernardes, consumia pelo menos 36 horas a redigir os discursos mais importantes. O que nos calhou agora é aquilo que tem provado à exaustão. Mas a consciência antidemocrática é comum aos dois. Por muito que este encha a boca com a palavra "democracia", ele e sua prática são quase um sacrilégio, enquanto o outro só a proferia raramente e, claro!, para a escarmentar.
Somos responsáveis por um e por outro. Muito respeitadores por quem nos desrespeita, nos violenta e nos agride com mentiras e omissões, os nossos protestos quedam-se na obediência à estrutura "orgânica", por natureza cumpridora e legalista. Cito Cornelius Castoriadis (ao qual voltarei, em breve, porque estou a relê-lo): "...a honestidade, o serviço de Estado, a transmissão do saber, a obra feita (...) vivemos em sociedades nas quais estes valores se tornaram, com pública notoriedade, irrisórios e em que apenas importa a quantidade de dinheiro que se mete no bolso, de qualquer maneira, ou o número de vezes que se aparece na televisão."
Os episódios ocorridos na escadaria do Parlamento, e na "invasão" de quatro ministérios, representam veementes censuras ao recalcamento que este Governo nos aplica. O direito à desobediência impõe-se, quando o poder cria formas e estimula métodos contrários aos princípios das próprias noções de convivência social.” Baptistas Bastos, em Artigo de Opinião,publicado no Diário de Notícias de 4/12/13

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A CONSTRUÇÃO DE UM POEMA

Poder apresentar  a prosa e a poesia de Eugénio Lisboa, num ímpar  acto de criação,  é um privilégio que nunca poderemos agradecer.
 A Eugénio Lisboa, expoente maior  da   nossa Literatura, a nossa sempre desassossegada  e total  rendição.


A CONSTRUÇÃO DE UM POEMA
                                                        Para Giulia Lanciani

"Em Dezembro de 1976, saí definitivamente de África, rumo à Suécia, via Lisboa. Em África começava por essa altura o verão, quente, espesso, húmido, envolvente e propício a uma lassidão prolongada: anunciador de vida, sol, alegria, languidez e algum perigo. O Norte, a Escandinávia, para onde ia e onde cheguei em princípios de Janeiro de 1977, era outro mundo: frio, coberto, fechado – a neve tudo tapava com a sua beleza branca e anestesiante. Saía do fulgor da vida para uma espécie de sanatório confortável, bem organizado e vagamente entorpecedor. Saía um pouco de uma vida intensa para  uma espécie de morte agradável porque o era sem bem o ser. O contraste foi tão violento que quase obliterou a minha memória de tantos anos em que estivera tão feliz e tão vivo. Aquela neve branca, aquele conforto bem arranjado, aqueles alunos bem tratados e vagamente entediados, toda aquela ordem, todo aquele frio exterior exactamente compensado por um tão eficaz aquecimento interior, toda aquela facilidade de ir vivendo embora vivendo pouco – deixavam para trás, num apagamento súbito, radical e inevitável, todo um passado de aprendizagens, aventuras, leituras, amizades e paixões: era como se nada daquilo tudo – que era tanto – tivesse alguma vez existido. A neve, o conforto, a calma – eu ia dizer: a apatia – de tal modo contrastavam com os tempos de vida, calor, criação e perigo que vinha de viver, que corria claramente o risco de me esquecer de toda uma parte importante da minha vida. A vivência desse contraste violento e a consciência dolorosa e forte desse iminente esquecimento desencadearam em mim uma vontade irresistível de registar, de imediato, tudo isso: podia, eventualmente, desaparecer, em mim, dentro de mim, mas o texto ficaria para outros. Mesmo que eu próprio, que tão fortemente o vivera, mais tarde, ao lê-lo, já o não reconhecesse, ou o não reconhecesse com toda a força e evidência que em mim tivera, no momento de o viver – e de o escrever.
Que forma dar-lhe?, foi a pergunta que a mim próprio fiz. Uma carta a um amigo? Uma página de diário? Um pequeno ensaio? Um conto? Mais ambiciosamente: um romance? Um poema? Logo se impôs, como quase inevitável, a ideia de um poema; com a sua linguagem concentrada, intensa, alusiva, metafórica, um pouco (mas só um pouco) enigmática, de algo que se vela mesmo quando se desvela, opaco e transparente, provocador e sedutor. E logo me ocorreu um personagem com quem convivera em Moçambique e que, para mim, personificava esse mundo de “húmida, vegetal espessura” de que vinha para a “neve que faz mal”: José Craveirinha, de quem fora (e ainda sou) amigo, com quem conversara quase quotidianamente e sobre quem escrevera (e, na Voz de Moçambique, publicara o primeiro texto de fundo que, sobre a sua poesia se publicou). Craveirinha seria a referência, a imagem humana que me sustentaria na elaboração do poema e, mais ostensivamente, aquele a quem o poema seria dedicado para que melhor se descodificasse, no poema, o sentido um pouco secreto.
No mesmo momento em que tudo isto congeminava, lia, um pouco ao acaso, textos de Pessoa recolhidos por David Mourão-Ferreira no livro O Rosto e as Máscaras. Muito em particular, o poema “O último sortilégio”, de que um ou outro verso serviu, para mim, de motor de arranque. Pessoa perturba-me, às vezes repele-me, mas frequentemente estimula-me. Quem tem um verso (que provoca) e uma vontade irresistível de “fixar” qualquer coisa – tem um poema. A angústia de ter de escrever, que precede o acto de realmente escrever começou a ser rapidamente substituída pela convicção (forte) de que o poema estava garantido. Uns versos propiciadores (ou fracções de versos) – os de Pessoa -, uma vivência forte e quase intolerável, que se não podia perder nas fragilidades da memória, uma referência aglutinadora e simbólica (José Craveirinha), eis os principais fermentos de que dispunha para consumar a alquimia do poema. Enquanto o não realizasse não teria paz. A neve de um lado a e a verde espessura do outro criavam um diferencial propiciador que o medo do esquecimento (obliteração) ajudava a mover-se em direcção ao poema. Começava a sentir-me melhor, por outras palavras, quase indiscretas, começava a sentir que estava quase salvo. Certas palavras começaram a impor-se: “neve”, “mineral”, “gelado”, para simbolizarem o exílio, a emigração arrefecedora que me caíra em sorte; ou, do outro lado, a “chuva” que “fecundava” a “terra de ouro” e propiciava a “vegetal espessura” de um mundo que ficara para trás... Com esta vontade forte de me salvar, de me não deixar esquecer, apoiado no arranque que  me propiciavam um ou dois versos de Pessoa (também, para mim, símbolo de um certo frio de que  às vezes fujo), munido de alguns vocábulos que na minha cabeça e na minha sensibilidade se impunham obsessivamente, o poema, dentro de mim, construía-se. Construía-se no sentido de lhe faltar só o que era realmente importante: uma linguagem articulada capaz de produzir, nas palavras de Valéry, “algo de novo e de capital importância” (nem que só para mim). E construía-se com uma estranha pressa, como se tivesse receio de se desvanecer pelo caminho se rapidamente se não deixasse agarrar. E foi assim que, numa tarde branca mas sem luz, numa Estocolmo onde lambia feridas arranjadas num paraíso que acabava de perder, foi assim, digo, que, numa espécie de transe e com uma rapidez improvável, compus o poema que abaixo transcrevo e mais tarde (oito anos mais tarde) viria a incluir no meu primeiro livro de poesia. Parecia-me que tinha encontrado, para a minha obsessão, uma articulação necessária e a música adequada, uma espécie de balanço inevitável capaz de me salvar e salvar um pouco de um passado intenso que aquela peculiar e fria latitude ameaçara obliterar.

NO TEMPO EM QUE, FERNANDO

Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.

Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.

Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.

Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.

Estocolmo, 31.l.77 
                                                      Eugénio Lisboa 

P.S. - Quando falo em “salvar-me”, estou consciente da modesta relatividade da minha salvação. Salvar-se, na memória dos outros, salvam-se, de facto, muito poucos. Os prodígios não estão ao alcance de todos. Já Borges lembrava, com o acerado da sua lucidez, que “A arte é essa Ítaca/De verde eternidade, não de prodígios”.. Conseguir, a modéstia de uma “verde eternidade”, que só muito de vez em quando viesse a ser capaz de captar a atenção momentânea e errática de algum vasculhador de bibliotecas num futuro remoto e nebuloso seria já compensação que bastasse para o esforço urgente de registo a que me senti chamado naquele dia de inverno branco, não demasiado longe do Polo Norte." Eugénio Lisboa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

To Night

IR

A minha intenção
 se a tivesse
 Era interromper de vez em quando as vossas falas
 E fazer-vos voltar a cabeça silenciosos
 Na única direcção em que os versos existem

Alberto de Lacerda, in “Poemas Portugueses,  Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, Porto Editora


To Night
Esta noite vou embebedar os meus navios
Rasgar os meus poemas
e as minhas raras (raríssimas)
Cartas de amor

Esta noite vou ser horrível
Pior do que o costume
Vou desabobadar os céus da minha esperança
Viga por viga, estrela por estrela

Esta noite vou embebedar os meus navios
Vou deixar de falar a imensa gente
Vou encontrar um sábio chinês
Que me recitará poemas muito simples
Insuportáveis de tão belos

Esta noite vou destruir mapas antigos
Abrir certas janelas e quebrar
A possibilidade de alguém mais entrar na minha vida

Esta noite vou pedir perdão aos meus amigos
E escrever uma última carta sem a mínima sombra de sentimentalismo

Esta noite vou embebedar os meus navios
Alberto de Lacerda, in “ Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama”,organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores

Morreu uma grande mulher, Annie Salomon

                 “ Muda-se pouco a vida, mas a vida  muda por nós. “ Eduardo Lourenço

"Morreu este domingo à tarde em Lisboa, aos 85 anos, Annie Salomon de Faria, casada com  Eduardo Lourenço. Tradutora dos ensaios publicados em francês pelo autor de O Labirinto da Saudade, como Montaigne ou la Vie Écrite ou L’Europe Introuvable, entre muitos outros, teve um papel determinante na divulgação da obra de Eduardo Lourenço em França.
Nascida em Côte du Nord, na Bretanha francesa, no dia 11 de Agosto de 1928, fez os estudos primários em Rennes, licenciou-se na Faculdade de Bordéus em Línguas Hispânicas e aí passou o concurso de agregação em 1955.
No ano anterior casara-se com Eduardo Lourenço e, acompanhando o percurso profissional do marido, foi professora nos Liceus de Montpellier e Grenoble. Em 1964 foi convidada para assistente da Faculdade de Letras de Nice, onde veio a terminar a sua carreira académica como maître de conférences, tendo-se jubilado em 1988.
(…)Pouquíssimo dada a intervenções públicas, Annie Salomon abriu uma excepção para participar na inauguração desta biblioteca,(Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda) em Novembro de 2008. Observando que a sua formação universitária parecia destiná-la a dedicar-se ao mundo hispânico, explicou então que essa era “uma previsão demasiado lógica”, que “ignorava o papel do destino que levou um jovem português a cruzar o [seu] caminho na Universidade de Bordéus”.
Esse Eduardo Lourenço acabado de aterrar em Bordéus no final dos anos 40 descreveu-o Annie a quem a ouviu na Guarda, 60 anos mais tarde, como um “filósofo” que “falava mal francês”, mas que nem por isso deixava de “intervir com veemência nos debates de vários círculos culturais da cidade”. E que “era fascinante”. A tal ponto que um dia, contou, atreveu-se a dizer-lhe: “Vous êtes un bavard sympathique.” E concluiu: “Uma frase fatal, que selou o meu destino: casei-me com Eduardo Lourenço em 1954.”
E à medida que ia descobrindo através do marido a cultura portuguesa e, mais tarde, a brasileira, tornou-se também a sua interlocutora natural. “Chegou a ser mesmo um verdadeiro partage, em momentos privilegiados de cumplicidade e identidade”, recordou Annie, acrescentando que “sentia isso particularmente quando traduzia os seus livros”.
Terça-feira será realizada uma missa de corpo presente às 15h30 na Igreja de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. A esta altura, ainda não há informação sobre o local onde se irá realizar o funeral.” Luís Miguel Queirós, Público,1/12/13


domingo, 1 de dezembro de 2013

Ao Domingo Há Música

"Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos  e canções,
E os ventos lhes farão mil edições. "
José Régio, in " Grande Guerra, A Chaga do Lado ", Portugália Editora, 3ª edição: 1970
.  
Dezembro, último mês do ano. Mês de reencontros e de despedidas.   Prenúncio de um novo tempo português. Tempo expropriado da  esperança que desenha os dias promissores
Inextinguível, Dezembro está aí.  E com ele, a poesia maior de José Régio e a  música genial de Mozart .  
"Ruhe Sanft" , uma bela  ária  da ópera "Zaide," de Wolfgang Amadeus Mozart, na voz jovem de Mojca Erdmann,  no início de uma carreira de sucesso, em 2006, no Festival Mozart de Salzburg .
Celebre-se,  assim,  Dezembro.