quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mariano Melgar, poeta libertário



Mariano Melgar: o primeiro peruano na literatura indigenista
Por Manoel de Andrade
"Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e que foi fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Contudo sua celebridade literária, coroada com o Nobel o ano passado, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto, dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa, apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta libertário, combatente pela independência do Peru, com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana e, tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre igualmente aos vinte e quatro anos.
Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nasceu em Arequipa em 10 de Agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e escrevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus versos compostos em forma de yaravís, género musical de origem incaica, de composição breve e com um carácter elegíaco, amoroso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví:
¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero!

¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
José Carlos Mariátegui, em "Sete ensaios de interpretação da realidade peruana", ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urbano”, e acrescenta:
"(...)Por culpa dessa hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não se pode nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital crioula depois. E sua literatura teve essa marca.
O sentimento indígena não careceu totalmente de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com categoria foi Mariano Melgar. (...)"
É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois lados com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente preconceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáticas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opiniões tão diversas sobre a imagem literária de Melgar:
“Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de "um momento curioso da literatura peruana". Retifiquemos esse julgamento, dizendo que é o primeiro peruano dessa literatura.”.
Comenta Mariátegui o desdém com que a crítica limenha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atingiria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de fazê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e libertária reconhecida oficialmente pelo governo peruano somente em Junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse antigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia intelectual, em detrimento dos valores literários das províncias.
Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela potencialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande despojamento do jovem poeta pela causa libertária, comparando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 se tornou um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.
“Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha oficialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artística. Já se disse que se deve à sua morte heroica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desdenhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória provável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro.(...)"
Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na linguagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem académica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge num estudo sobre a literatura argentina, a poesia popular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título, adquiriram substância imortal”.
Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais abalizado estudioso europeu da literatura hispanoamericana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que: “Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular quechua y a la naturaleza, antecipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX."
Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é aprisionado e mantido em cativeito até ao amanhecer do dia 12 de Março de 1815 quando é executado. Ante o pelotão de fuzilamento Melgar escreveu num bilhete aos oficiais espanhóis:
"Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!”
E assim aconteceu. Em 9 de Dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispanoamericanos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul."

Manoel de Andrade (Curitiba-Brasil), in " O Bardo Errante", obra memorialista em construção

terça-feira, 19 de junho de 2012

Lançamento de Livros de Fernando Pessoa


A Actualidade em Cartoon


"Le lundi 18 juin. Le PS a remporté un succès historique, Ségolène Royal battue à La Rochelle. " Cartoon de Ranson, Le Parisien
Ranson, Le Parisien 

Ranson, Le Parisien
The Daily Cartoon, The Independent
Saúde poupadinha 
  Humoral de Rodrigo, Expresso 
Cartoon de António, Expresso
Cartoon  Elias o Sem Abrigo de R. Reimão e Anibal F., JN
The Daily Carton, The Independent

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cimeira Rio+20


 
“Sob impacto do rascunho do documento da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), representantes da sociedade civil intensificaram os debates, na tentativa de incluir temas considerados prioritários no texto final. Os participantes dos debates paralelos  concentram-se nos esforços para que suas recomendações cheguem às mãos dos 115 chefes de Estado e de Governo, nos próximos dias 20 a 22.
Para a sociedade civil, é preciso redefinir os caminhos trilhados pelos governos para garantir que o desenvolvimento sustentável seja um instrumento de combate à pobreza. Nas sugestões, os grupos da sociedade civil querem estabelecer propostas para os novos padrões de consumo e produção nos vários países e medidas que assegurem a preservação das florestas.
Esses são alguns dos temas, apontados como prioritários, da agenda internacional de sustentabilidade da Rio+20, que integram os Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável. Os debates estão divididos em dez painéis, que tratam de dez diferentes assuntos, e vão até terça-feira (19).
As discussões são conduzidas por representantes de vários países, que falam em nome de universidades, comunidades científicas e movimentos sociais. Os grupos definem três propostas para cada tema, e essas recomendações serão apresentadas aos chefes de Estado e de Governo.
A porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), na Rio+20, Pragati Pascale, considerou inovador esse modelo de debate que estimula a mobilização da sociedade civil. “É fundamental que exista participação, e é um traço importante da conferência”, disse ela. Apesar de exaltar a iniciativa, Pascale alertou que “provavelmente será tarde demais para que as recomendações feitas pelos grupos produzam alguma alteração no documento final da conferência”.
As recomendações da sociedade civil deverão ser agregadas ao documento, que está sendo finalizado pelos negociadores em reuniões, e que deve ser concluído até dia 18. O texto preliminar já aponta alguns pontos de convergência, mas os principais debates ainda dependem de negociações para superar divergências principalmente entre os países mais ricos e as nações mais pobres.
Os diálogos ocorrem paralelamente às negociações das delegações. Em cada grupo, os participantes têm a tarefa de transformar em três as dez propostas que foram sugeridas e votadas, para cada tema, em uma plataforma na internet que funcionou até poucos dias antes da conferência. Mais de 60 mil pessoas, de 193 países, participaram do processo de consulta digital.
No caso do debate sobre florestas, por exemplo, o tópico que recebeu maior adesão dos participantes foi o que recomenda a restauração, até 2020, de150 milhões de hectares de terras desmatadas ou degradadas.
Em relação ao um novo padrão de consumo e produção, a expectativa é pela criação de mecanismos fiscais verdes, que estimulem essas práticas. A educação em nível global foi o que os participantes elegeram como principal ferramenta para erradicar a pobreza e atingir o desenvolvimento sustentável.” Agência Brasil

Cinema


Um grande cineasta europeu: o húngaro Béla Tarrr. " O Cavalo de Turim" , filme da sua autoria, teve estreia em Portugal. Na Sic, João Lopes comenta esta obra, bem como outras novidades do cinema. 

domingo, 17 de junho de 2012

Ao Domingo Há Música

"Mais de um mês depois do primeiro acto eleitoral, que culminou sem que nenhum partido conseguisse a maioria parlamentar necessária para formar Governo, os gregos voltam às urnas. O cenário é hoje diferente do que se vivia a 6 de Maio. A Espanha pediu um resgate financeiro disfarçado de “linha de crédito” para recapitalizar o sector da banca e adensam-se os sinais de que restam poucas hipóteses de os espanhóis saírem da crise sem o recurso a um verdadeiro resgate à economia do país. No meio, surge ainda a Itália, o último do PIIGS a oferecer resistência ao “bailout”, mas que não tem escapado à pressão dos mercados e à subida dos juros."RTP

Portugal continua a aplicar as pesadas e asfixiantes normas  de um memorando que tem tido efeitos dolorosos. O desemprego atingiu médias intoleráveis e a miséria bate à porta de tantos e tantos portugueses. O impensável tornou-se realidade. E a Europa das civilizações , a Europa  da cultura, helénica de nascença, é hoje um puzzle onde as peças não encaixam. A União Europeia nunca foi uma realidade . Nasceu para se unir  e apenas o fez em inacabados Tratados que traduzem os  reflexos hegemónicos de alguns países. 
O devir da história das civilizações tem curvas de traços imprevistos e inéditos. Os homens descobrem e criam. As obras que produzem têm a marca da genialidade e , por vezes, da vulgaridade. Contudo o deslumbramento e a surpresa são sempre provocados pela improbabilidade  do acontecimento. Assim acontece no novo Álbum de David Byrne em parceria com St. Vincent  intitulado "Love This Giant", a sair no próximo dia 11 de Setembro.
Neste Domingo de tantas incertezas, fica o  primeiro single  já  lançado que tem o sugestivo título  "Who". 

sábado, 16 de junho de 2012

Inventa a eternidade


“Inventa a eternidade na simples comoção de olhar uma estrela. Basta que a olhes pela primeira vez, depois de a teres olhado inúmeras vezes. E, então, não precisarás de nenhum deus que te ponha a mão no ombro e diga estou aqui. Uma estrela espera-te desde toda a eternidade. Procura-a. E vê se a não perdes durante a vida inteira. A tua estrela pode não estar no céu. Põe-na lá." Vergílio Ferreira, in "Pensar", Livraria Bertrand, 1992

Cinema português em Nova Iorque




António Reis e Margarida Martins Cordeiro, Gonçalo Tocha, Pedro Costa - cinema português em Nova Iorque

"Num momento em que o cinema de autor português, defendido apaixonadamente pelo circuito internacional de críticos e de festivais, enfrenta em Portugal dificuldades que põem em causa a sua sobrevivência, há boas notícias. É na Terra Não é na Lua de Gonçalo Tocha vai chegar em Julho à exibição comercial em Nova Iorque, na sala dos Anthology Film Archives criada por Jonas Mekas e Stan Brakhage em 1969 e que se tornou num ardente reduto da cinefilia. E a mesma sala vai, em Junho, receber a homenagem a António Reis e Margarida Cordeiro, The School of Reis, e a curta de Pedro Costa O Nosso Homem.
Para É na Terra Não é na Lua é o mais recente passo numa carreira iniciada com a menção em Locarno e que já valeu prémios no DocLisboa, DocumentaMadrid, festival de São Francisco e BAFICI (Buenos Aires). Com uns honrosos 3500 espectadores em Portugal (carreira que continua), é a vez dos Anthology Film Archives agendarem o filme entre 13 e 19 de Julho. Será exibido com a anterior obra de Tocha, Balaou, a 18 e 19 de Julho. Antes, entre 22 e 28 de Junho, fala-se de cinema português com The School of Reis (A Escola de Reis), dedicado à obra de António Reis (1927-1991) e Margarida Cordeiro. Erguidos a mestres por uma geração que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema, assinaram uma obra citada como exemplar por nomes como Jean Rouch ou Joris Iven mas que continua insuficientemente conhecida entre nós. O programa traça uma genealogia do que o comissário do Harvard Film Archive Haden Guest define como "a tradição portuguesa de cinema radical". Cruza os quatro filmes assinados por Reis e Margarida Cordeiro - Jaime (1974), Trás-os-Montes (1976), Ana (1985) e Rosa de Areia (1989) - com filmes importantes para a formação de Reis (Acto da Primavera de Oliveira e Verdes Anos de Paulo Rocha) e obras assinadas por cineastas que reivindicam a sua influência (João Pedro Rodrigues, Vítor Gonçalves, Pedro Costa, Manuela Viegas e Joaquim Sapinho, cujo Deste Lado da Ressurreição deverá chegar às salas portuguesas em Setembro). Segundo informa a Rosa Filmes, produtora do filme de Sapinho, há já marcações futuras para a University of California em Los Angeles e para o Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive.
Finalmente, a 29 e 30 de Junho o Anthology Film Archives recebe o programa de curtas Site & Sound (Blackout/Blockout), comissariado por David Phelps, onde O Nosso Homem de Costa partilha "tempo de antena" com curtas de "companheiros de viagem" como Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Luc Moullet e Jean-Claude Rousseau. "Jorge Mourinha , em Ypsilon, publicado em  15.06.2012 -