Vigésima sexta carta a M.M.
Eu não quero saber. Não quero mais palavras. Só quero um espaço
que seja tão verdadeiro
como o das adolescentes que amam seus corpos deslumbradas.
Que sejam filhas do vento folhas do sol
e a apaixonada lucidez do silêncio
de uma velha sala clara com amplas janelas sobre um rio.
Espaços
espaços
entre as árvores ou nuvens
sobre o mar ou sobre as dunas.
Que uma mulher dance e ria
toda de branco
sobre um terraço branco
e se dispa depois
e continue a dançar e a rir.
E quando desaparecer
numa nuvem resplandecente
o espaço será tão claro e novo
que eu sentirei que o poema começou
na página branca na mesa onde eu ainda não estou.
António Ramos Rosa, in " Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira", Livros do Mundo
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
segunda-feira, 19 de março de 2012
Eu, eu mesmo
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
Álvaro de Campos, in " Poesias de Álvaro de Campos", Obras completas de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa, 1964
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
Álvaro de Campos, in " Poesias de Álvaro de Campos", Obras completas de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa, 1964
domingo, 18 de março de 2012
Ao Domingo Há Música
"A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo." Oscar Wilde
Há momentos que nos marcam pela transcendência que provocam. Aquele em que Aretha Franklin faz uma surpreendente interpretação de Nessun Dorma da ópera "Turandot" de Puccini é de uma tal intensidade que se transforma num grandioso acontecimento. Revivê-lo é o convite para este Domingo.
Há momentos que nos marcam pela transcendência que provocam. Aquele em que Aretha Franklin faz uma surpreendente interpretação de Nessun Dorma da ópera "Turandot" de Puccini é de uma tal intensidade que se transforma num grandioso acontecimento. Revivê-lo é o convite para este Domingo.
sábado, 17 de março de 2012
O sonho do semeador
Já não se pode falar de amor
sem sonhar com uma colheita melhor para esses povos
e sentir a semente palpitante da esperança
germinando novos frutos sobre a terra americana.
Redescobrir a vida nas espigas madurando,
na certeza de uma deslumbrante primavera
e de que haverá um campo de trigo à espera de ser pão.
Já não se pode falar de amor
sem caminhar com a expectativa destes povos oprimidos
pressentindo uma aurora de luz para nós todos
e a carícia do rocio numa madrugada em marcha
porque a América, irmãos,
está prestes a ser reconstruída em cada punho.
Vamos pois, camaradas
há pouco tempo para a vida
e é urgente compreender
que não foi em vão haver nascido um homem.
Além da noite
além do impasse
há um tempo chegando em nossos passos
e já são muitos os que carregam seu sonho como um fuzil clandestino.
Nos punhos que se fecham
nos corações que se abrem
e em cada gesto partilhado
é preciso reconstruir o mundo.
Tudo é preciso agora....
é preciso sonhar
crer incondicionalmente no amanhã
e aguardar que os clarins anunciem o novo dia.
É preciso fazer do sonho a última trincheira
porque já não é mais possível viver sem uma fé
e um compromisso.
Mas é preciso esperar ainda
resistir um pouco mais
é preciso conspirar, fingir
morrer se for preciso
A qualquer preço
e ainda que passo a passo
tudo é preciso agora
para conquistar um dia o chão da liberdade.
Poetas da América...
mais que nunca é preciso cantar
é preciso fazer com que as palavras sejam uvas
é preciso embriagar os homens
para que todos conheçam o sabor da vida.
É preciso alistar nosso lirismo
desertado das fileiras dessa luta.
Desertado pelos que não comprometem a estesia do seu canto...
que falam de flores
indiferentes aos campos calcinados da pátria,
que declamam seus versos de amor
cegos aos transeuntes da fome e do abandono
e é missão dos poetas cantar seus olhos de súplica
denunciar que a morte ronda seus ventres
e que eles são milhares nas barriadas
tugúrios e calhampas das vossas cidades
nas favelas do meu país
na verdade eles são milhares em todas as nacionalidades
e é preciso que eles sejam celebrados na beleza da poesia
é preciso decantar seu desencanto
e reconstruir, para eles, a esperança.
E por isso,
quando me perguntam de que vale um poeta no mundo
eu respondo com meu canto de filho proletário
com minha infância descalça e sem brinquedos
com todas as crianças do mundo que fui em meu estômago de água...
e só assim posso ouvir meu coração de povo
sentir meu canto nascer como um grito de combate
e eis porque deve nascer uma canção na América
para que possamos semear o sonho no coração dos homens
para que possamos metralhar com um punhado de palavras.
Poetas da América...
nós que herdamos a canção continental de Whitman,
e o homem sincero nos versos de Martí.
Nós que escutamos ainda próximo
o eco colombiano de Gaitan,
e a sinfonia altiplânica no verso maior de Vallejo.
Nós que hoje cantamos com Guillén, com Neruda e Benedetti
e que daqui evocamos a Otto René Castilho,
poeta e combatente,
martirizado na fogueira acesa por Méndez Montenegro.
Salve hermano, memória heróica na massacrada Guatemala,
eu te saúdo hasta siempre com o lirismo dos meus versos
e digo contigo:Vámonos, todos com a patria a caminar.
E eis porque eu canto...
canto para pronunciar os nomes da bravura ...
e para cuspir na face dos tiranos.
Canto para denunciar o sangue dos caídos,
para escrever com asco o nome dos Stroessners, dos Somozas, dos Duvaliers
e todos seus comparsas mais discretos.
Vamos pois, companheiros...
quando se vive numa pátria amordaçada
quando se canta com os gritos dos companheiros torturados
com o silêncio dos compatriotas assassinados
e com a face ensanguentada da pátria.
Quando se canta sob pena de morte
e com o pânico de um povo inteiro,
então temos que cantar mais forte
ainda que esta seja nossa última canção...
nossa ternura de poetas
desenhada em palavras de sangue.
E eis porque é também tão dolorosa a missão de um poema,
porque um poema é também um gesto imenso de amargura
um grito de dor que lacera o coração de um justo.
Venham... esse é o tempo das sementes...
vamos cantar os grãos e as espigas
as flores e os frutos.
Vamos abrir com lirismo nossas almas
e lavrar a terra com as promessas da esperança.
Vamos declamar com coragem os nossos sonhos
e acreditar numa humanidade feita de irmãos e companheiros.
Não importa se tivermos que morrer às vésperas desse alvorecer
mas o nosso canto há de sobreviver na alma
e nos lábios do homem novo.
Venham todos...
vamos partir daqui,
desta canção.
Ela é apenas um primeiro passo...
oh... venham por favor...
é preciso que cada um faça sua parte
porque é imprescindível acreditar no amanhã.
Oh! eu sei..., eu sei...,
é tão pouco...
é quase nada o que pode a poesia no mundo dos homens,
mas é ela que fermenta o sonho
que contém a chave do coração e o segredo da beleza.
Grande e humilde
a poesia é tão misteriosa como uma semente...
e a semente é um sonho alucinante
porque promete a flor,
o fruto, a sombra
e a floresta deslumbrante.
Manoel de Andrade, Cochabamba, Outubro de 1969, in " Poemas para a Liberdade", Edição bilíngue, Escrituras Editora,S. Paulo, Brasil
sexta-feira, 16 de março de 2012
Novas leituras
Neste mês de Março, algumas editoras já colocaram novos livros, nas Livrarias . A Quetzal e a Leya vão lançar dois romances na última quinzena .
“Às Cegas”, romance do escritor e ensaísta italiano Claudio Magris, será lançado a 23 de Março pela Quetzal .
Sinopse: «Aclamado como obra-prima quando da sua publicação em Itália, "Às Cegas" é um romance de grande originalidade e intensidade poética. A sua forma inovadora – um caudal, uma torrente, um oceano de palavras que fluem livremente – serve na perfeição a narrativa de um louco sobre a sua viagem no tempo e no espaço, e que se polariza nas duas categorias antagónicas dos que fazem a revolução e dos seus perseguidores.
Claudio Magris trabalha aqui também motivos recorrentes na sua obra: o das vidas afundadas – que é preciso “resgatar para a literatura”; ou o da figura de proa que, à imagem do Homem, tendo perdido o rumo, continua a desbravar os mares, às cegas, num acto único de esperança.
"Às Cegas" de Claudio Magris é uma miríade de lugares, situações, símbolos, coincidências e reflexos, que atravessam continentes e séculos – e um retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva.»
Claudio Magris trabalha aqui também motivos recorrentes na sua obra: o das vidas afundadas – que é preciso “resgatar para a literatura”; ou o da figura de proa que, à imagem do Homem, tendo perdido o rumo, continua a desbravar os mares, às cegas, num acto único de esperança.
"Às Cegas" de Claudio Magris é uma miríade de lugares, situações, símbolos, coincidências e reflexos, que atravessam continentes e séculos – e um retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva.»
A 31 de Março, o romance galardoado com o Prémio Leya 2011 “O Teu Rosto Será o Último” de João Ricardo Pedro será distribuído pelo grupo Leya .
Sinopse: «Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos – e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 –, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde.»
Sinopse: «Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos – e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 –, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde.»
O jogo de pensar
O ritmo é um constrangimento
«Quando se deixou o ritmo penetrar no discurso — essa violência que reordena todos os átomos da frase, que manda escolher as palavras com cuidado, que dá novas cores aos pensamentos, tornando-os mais obscuros, mais estranhos, mais remotos — sem dúvida que se obedeceu a uma utilidade supersticiosa! (…) A prece ritmada deveria chegar mais perto dos ouvidos dos deuses. Acima de tudo, porém, os homens desejavam tirar proveito desse efeito elementar e poderoso que experimentamos quando ouvimos música: o ritmo é um constrangimento; ele suscita um desejo irresistível de cedência, de adesão (…) »
F. Nietzsche, A Gaia Ciência, trad. Maria Helena R. Carvalho, e outros, Relógio D’ Água, Lisboa, 1998
O querer-dizer
« Eu tento escrever (no espaço onde se põe a questão do dizer e do querer-dizer. Tento escrever a questão: (o que é) que querer-dizer? Portanto é necessário que, num tal espaço e guiada por uma tal questão, a escrita à letra não-queira-dizer-nada. Não que seja absurda, dessa absurdidade que fez sempre sistema com o querer-dizer metafísico. Simplesmente ela tenta-se, tende-se, tenta realizar-se no ponto de sufocação do querer-dizer. Arriscar-se a não-querer-dizer-nada é entrar no jogo (…)» Jacques Derrida, “Implicações”, Posições, Semiologia e Materialismo, trad. Maria Margarida C. C. Barahona, Plátano Editora, 1975
quinta-feira, 15 de março de 2012
A transcendência é a única alternativa à extinção
"Heureux sont ceux qui peuvent habiter un monde qu’ils portent en eux-mêmes..." Elsa Triolet, “La vie privée”, in "Le premier accroc coûte deux cents francs"
Num tempo em que a Europa deixou de ser o ponto de convergência de uma singular ideia de pluralidade para passar a ser a ausência de qualquer pluralidade singular, continuar a reflectir sobre esta fracassada realidade impõe-se como exigência permanente.
Assim, uma série de reflexões tem sido publicada neste espaço com diversas e diferentes abordagens ao tema . No seguimento dessa prática transcreve-se o artigo de opinião de Anselmo Borges que traduz um diferente e peculiar olhar sobre uma Europa em extinção.
Secularização e destino da Europa
Por Anselmo Borges
"Aí está um tema fundamental. Mas, quando se reflecte, é necessário perceber que há vários sentidos de secularização.
1. O primeiro sentido - secularização vem do latim saeculum (mundo) - tem a ver com a autonomia das realidades terrestres. A Bíblia é essencialmente dessacralizadora da natureza, da história e da política, precisamente porque a criação ex nihilo por Deus, pessoal e transcendente, criando, não por necessidade, mas livremente e por amor, implica a autonomia das criaturas.
Este sentido de secularização é particularmente importante para a política, que deve estar separada da religião. O Estado deve ser laico e não confessional. Jesus tinha dito: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mas também as ciências, a economia, a filosofia, a própria moral são autónomas, com as suas próprias leis, sem pedir legitimação à religião.
2. Há um segundo sentido de secularização. Tem a ver com aquele processo mediante o qual, concretamente na modernidade, se pretendeu realizar no mundo o Reino de Deus. A modernidade ainda era teológica, na medida em que queria, pela razão, pela ciência, pela técnica, pelo progresso ilimitado, trazer para a imanência, realizando-as, ideias religiosas da fé cristã: messias, salvação, consumação da história - o Além deveria realizar-se no aquém. Pense-se em Feuerbach, Marx, Condorcet, Bloch... O seu ateísmo era de algum modo "positivo", no sentido de que não negava Deus pura e simplesmente: o que queria era realizá-lo no mundo e na história intramundana.
3. Que sucedeu no nosso tempo? As grandes esperanças da modernidade ruíram. O "socialismo real" faliu, o progresso científico-técnico põe problemas graves, sobretudo por causa da ecologia, a razão já se não encontra divinizada, assiste-se ao fim das meta-narrativas - só há pequenas histórias, o pensamento é débil (il pensiero debole, de G. Vattimo). Assiste-se assim a uma crise geral de Deus, na medida em que a descrença parece normal - pelo menos na Europa, já não se sabe se Deus existe ou não, e reina a indiferença, numa sociedade que já é, em grande parte, pós-cristã."
Consequências: encontramo-nos cada vez mais inseguros e assiste-se ao aumento do consumo de drogas e antidepressivos. A perspectiva é cada vez mais pragmática - o que interessa é o aquém sem Além: a vida depois da morte já não parece sequer ser problema. Continua a festa do consumo, mas os europeus andam cada vez mais insatisfeitos. Não há filhos nem futuro. É a desorientação e a consumação do niilismo.
A actual situação é fruto do terceiro sentido de secularização: secularização da secularização, isto é, fim da secularização moderna e secularismo radical. Deste modo, a questão essencial é precisamente a crise dos valores e do sentido. Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa.
Isto tem, evidentemente, repercussões também na economia e na democracia. Para quê poupar, por exemplo, e investir no futuro? Václav Havel, um dos europeus mais lúcidos do século XX, preveniu: "Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos". "A transcendência é a única alternativa à extinção." E o agnóstico M. Gauchet disse: "O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões, e o cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia."
Consequências: encontramo-nos cada vez mais inseguros e assiste-se ao aumento do consumo de drogas e antidepressivos. A perspectiva é cada vez mais pragmática - o que interessa é o aquém sem Além: a vida depois da morte já não parece sequer ser problema. Continua a festa do consumo, mas os europeus andam cada vez mais insatisfeitos. Não há filhos nem futuro. É a desorientação e a consumação do niilismo.
A actual situação é fruto do terceiro sentido de secularização: secularização da secularização, isto é, fim da secularização moderna e secularismo radical. Deste modo, a questão essencial é precisamente a crise dos valores e do sentido. Como viu o filósofo Georges Gusdorf, "Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência de sentido". Não colocando sequer a questão de Deus enquanto questão, que é a questão do sentido último, a Humanidade europeia sucumbe ao imediatismo, a uma visão fragmentária do aqui e agora, sem horizonte de ultimidade. Aí está então a falta de força anímica, de projecto, de futuro. Thanatos toma conta da Europa.
Isto tem, evidentemente, repercussões também na economia e na democracia. Para quê poupar, por exemplo, e investir no futuro? Václav Havel, um dos europeus mais lúcidos do século XX, preveniu: "Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos". "A transcendência é a única alternativa à extinção." E o agnóstico M. Gauchet disse: "O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões, e o cristianismo em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia."
Anselmo Borges, Padre e Professor de Filosofia, in artigo de opinião publicado no DN de 14/01/2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
Desejo
como desejo de existir.
E este desejo
É todo o nosso ser...
Não mais do que um esboço,
Ou fumo ou névoa...
E em si contém
O Céu e a Terra,
Que os nossos pés
Pousam no chão
E no ar andamos
Com a cabeça.
E o nosso pensamento
Deixa atrás dele as últimas estrelas...
Teixeira de Pascoaes, in "Últimos versos" 1953, Obras completas de Teixeira de Pascoaes, Livraria Bertrand
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