"Mis dibujos no son imágenes, sino una escritura privada", Franz Kafka.
A editora espanhola Sexto Piso lançou em Espanha, no mês de Julho, "Dibujos de Kafka" que dão a conhecer uma outra faceta deste grande escritor checo , o desenho. Franz Kafka revela como concebia e definia as suas ilustrações e a sua vertente artística; aquela que o acompanhou desde criança, e para sempre, mas que preteriu em beneficio da literatura.O interesse e a paixão pela criação de imagens e pela Arte em geral eram tão intensos que dificultaram a escolha. Desenhos dispersos, alguns mais ou menos conhecidos, que nunca tinham sido reunidos e vistos, surgem agora todos compilados numa edição especial.
El pensador
Os desenhos vêm associados a fragmentos ou obras escritas do próprio autor. Assim, "El pensador" convida , como tantas interpretacões dos seus escritos, a concebê-lo como um auto retrato. Outro excelente registo de seu traço é Tres corredores.
"Uma obra que brinda uma dupla leitura, cada desenho tem o texto original que o acompanhava, o local onde Kafka o desenhou, ou alguma passagem da sua obra literária ou pessoal escolhida pelo editor. O conjunto ilumina ainda mais o universo do grande autor checo. Mais mistério, mais enigma, mais arte. Uma espécie de retrospectiva artística de 40 ilustrações do criador de obras como " A metamorfose" e " O processo", romance onde se inclui o desenho "Dos que esperan" . Apesar de não se saber onde se encontra grande parte do espólio desenhado pelo escritor checo - suspeita-se que parte dele esteja em bancos de Zurique e Tel Aviv. Niels Bokhove e Marijke van Dorst reúnem a totalidade dos desenhos conhecidos e publicados por Kafka num só volume.
Dos que esperan
Os autores apresentam uma selecção heterogénea, associando os 41 exemplares desenhados que compõem o livro a fragmentos literários de obras escritas, cartas, diários, apontamentos em cadernos, postais ou outras notas soltas que o seu amigo e biógrafo Max Brod foi conservando.
Os desenhos aparentam ter sido feitos de forma espontânea, sem grande rigor perfeccionista, e revelam-se uma interessante forma de avaliar esteticamente o imaginário do autor. O facto de não se saberem as datas de cada um deles não nos permite avaliar a evolução de Kafka enquanto desenhador.
Kafka tinha interesse assumido em expressar-se desta forma, mas terá demonstrado a Max Brod o seu desejo de que todo este conjunto de desenhos fosse destruído logo após a sua morte. Pedido expresso que acabaria por ser (felizmente) desrespeitado. "Babelia" através do blog "Papeles perdidos " e "EL PAÍS.com", ofereceram em 1ª mão esta novidade literária, que chegou às livrarias de Espanha,em Julho.
“la vita è solo un sogno
è una partenza o un ritorno
non lo so
tanti anni in un secondo
un lampo e tutto torna con lo sconto”
Canta Andrea Bocelli numa voz inconfundível e profunda. A vida é apenas um sonho. Uma partida ou um retorno …tantos anos num segundo. A fatalidade ou a volatilidade do tempo. Passa e repassa incessante , irresistível. No princípio vai linear, no meio já curvilíneo e quando gasto e desgastado ziguezagueia indomável. Ora célere, ora lento, o tempo é o devir que se faz e nos leva. Arrasta, empurra, embala, acaricia, alegra ,ri, bate, chora e não esmorece. Continua e resiste sempre porque o tempo comanda todo o tempo do nosso tempo.
"Há um Sol que não se vê Brilhando intenso, sem saber porquê,
Vive em nosso olhar, no céu e no mar,
Todos somos um." Dulce Pontes
"One World" ou " Todos somos um" é o nome da canção que Dulce Pontes compôs e que, juntamente com José Carreras, interpretou magistralmente, protagonizando a abertura oficial da eleição das Novas 7 Maravilhas do Mundo, num solene espectáculo televisivo, em 2007. Dulce Pontes é uma excepcional cantora, versátil, heterógenea e detentora de um talento singular. Neste registo, não cessa de voltar a surpreender-nos com a exuberante musicalidade e amplitude vocálica que tão transcendentemente domina e lhe possibilita derrubar as fronteiras dos diferentes géneros musicais.
Hoje, também, Há um Sol que não se vê, pelo que talvez o Mundo fosse diferente se num Domingo como este , a irredutível verdade fosse apenas: Todos somos um.
O realizador chileno Raúl Ruiz morreu ontem, anunciou a produtora cinematográfica Clap Filmes, responsável pela última obra do cineasta, rodada em Portugal, "Mistérios de Lisboa".
Raúl Ruiz, nascido no sul Chile, em 1941, filmou grande parte da sua obra, composta por mais de uma centena de filmes, na Europa. Vivia em França, onde procurou asilo político, após o golpe militar de 1973, liderado por Augusto Pinochet, que derrubou Salvador Allende.
Em Paris, Ruiz conheceu Paulo Branco, que produziu 15 dos filmes do cineasta. A relação entre ambos prolongou-se desde 1982 até aos nossos dias e levou a que Ruiz filmasse por 9 vezes em Portugal.
"Em 1983, Serge Toubiana escrevia no "Le cas Ruiz", o seu texto de apresentação dos Cahiers du Cinéma N°345, especial Raúl Ruiz: o cineasta mais prolífico da nossa época, aquele cuja filmografia é «quase» impossível de definir tal é a sua diversidade, esplendor e multiplicidade de formas de produção há mais de vinte anos (…).Desbravando o seu caminho através das suas características imagens e sons afiados, Ruiz, é um guerrilheiro que, descomprometidamente, assalta os pré‐conceitos da arte cinematográfica. Esta quase assustadora prolífica figura ‐ fez mais de 100 filmes em 30 anos ‐ não aderiu ao estilo de filmar de ninguém. Tem trabalhado em 35mm, 16mm e vídeo, para estreias em cinema e para as televisões Europeias, e no documentário e obras de ficção.
A carreira de Ruiz começou no teatro da vanguarda, onde, de 1956 a 1962, escreveu mais de 100 peças. Em 68 acaba o seu primeiro filme – “Três Tristes Tigres” – que lhe valeu de imediato o Leopardo de Ouro em Locarno.
Ao apoiar o Governo de Salvador Allende, Ruiz foi forçado a abandonar o seu país durante o golpe fascista de 1973. Vivendo, em exílio, em Paris desde essa época, Ruiz passou, desde logo, a ser considerado o enfant terrible da vanguarda parisiense e, em 1983, a mítica revista «Cahiers du Cinema» dedica‐lhe um número especial, exclusivo, honra recebida por poucos cineastas na história do Cinema Mundial, elegendo o seu filme “L’hypothese du Tableau Volé” como um dos dez melhores do mundo, realizados na década de 70 e elegendo‐o a ele como o cineasta “francês” mais importante desde Rohmer, Bresson e Godard.
Ao trabalhar com directores de fotografia inovadores como Diego Bonancia, Sacha Vierny, Henri Alekan e Ricardo Aranovitch, trouxe, novamente, a magia da poesia realista francesa, ao explorar o mundo da manipulação, da impotência e da violência. A forma como utiliza a luz, jogando com filtros e espelhos, recria a realidade fílmica, numa espécie de caleidoscópio, que nos introduz no labirinto das suas representações e que nos familiariza com o seu exoterismo fantástico.
Raúl Ruíz é considerado um híbrido único na história do cinema, reconhecido como um dos principais cineastas, um defensor do cinema de ideias, em que ele é o protótipo do artesão que cria imagens em movimento. Para Ruiz o Cinema é uma invenção, uma alquimia em que o realizador reúne todos os elementos com que se depara e os constrói através dos planos que cria, das imagens que regista no momento, dos conceitos que reinventa. A estética de um projecto é inerente à própria obra, é conseguida através da realização. E a admiração pela obra deste Mestre do Cinema prende‐se também com a genialidade com que aceita e concretiza, com reconhecido mérito, desafios cinematográficos que pareciam impossíveis para muitos. Um dos exemplos mais significativos na carreira de Ruiz acontece em 1999, quando decide adaptar ao Cinema, no seu filme, quase de culto, “Le Temps Retrouvé”, a obra de Proust, uma das mais prestigiadas obras literárias mundiais, que já Joseph Losey e Visconti tinham tentado adaptar, mas sem sucesso. Ruiz rodeou‐se de actores como Catherine Deneuve, John Malkovich, Emmanuelle Béart, Chiara Mastroianni, e do produtor Paulo Branco, e fez uma das obras mais conhecidas do cinema mundial, tendo sido vendido para 22 países e passado, em prime‐time nas maiores televisões internacionais e tendo feito em sala mais de 670.000 espectadores.
Mas Ruiz sempre manifestou a sua intimidade com alguns dos maiores escritores/pensadores de sempre, levando, ao longo da sua carreira, aos ecrãs de cinema, e para além de PROUST, adaptações de Jean GIONO com “Les Ames Fortes”; P. Calderon DE LA BARCA com “La Vie est un Songe; Robert Louis STEVENSON com “l’Îlle au Trésor”; RACINE com “Berenice”; Pieree KLOSSOWSKI com “La Vocation Suspendue” e “L’Hypothese du Tableau Volé”e ainda KAFKA com “La Colónia Penal” – todos referências absolutas na história do Cinema. Ruiz é, assim, reconhecido e aclamado no mundo inteiro, tendo marcado presença, nos últimos 30 anos, nos maiores festivais de cinema do mundo ‐ nomeado 4 vezes para a PALMA DE OURO (Cannes), onde foi também júri em 2002, tendo arrecadado o LEOPARDO DE OURO (Locarno), o URSO DE PRATA (Berlim), o CÉSAR, sendo candidato ao LEÃO DE OURO (Veneza), ganhando 2 vezes o PRÉMIO FIPRESCI em Montréal, sendo homenageado em ROTERDÃO (2004) ‐ “Raul Ruiz: An Eternal Wanderer” e no Festival de ROMA (2007), com a exibição de 46 dos seus filmes." In Clap Filmes
Paulo Branco ficou associado aos melhores momentos da carreira de Ruiz, nomedamente através da produção de "Genealogias de Um Crime" (1997), premiado com o Urso de Ouro em Berlim, e "O Tempo Reencontrado", a ambiciosa adaptação da obra de Marcel Proust.
Ambos colaboraram em "Mistérios de Lisboa", o fresco romanesco de quatro horas e meia integralmente rodado em Portugal e que se tornou num dos maiores sucessos internacionais do cineasta.
O filme, baseado na obra de Camilo Castelo Branco e com argumento de Carlos Saboga, foi exibido em França (onde continua em exibição, tendo sido visto por 100 mil espectadores), Estados Unidos, Espanha, Taiwan, Suíça e Bélgica e tem estreia assegurada noutros países, como Japão, Brasil, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.
"Mistérios de Lisboa" foi galardoado com a Concha de Prata no Festival de San Sebastian, em Espanha, com o Prémio Louis Delluc, com o Prémio da Crítica na Mostra de São Paulo e com três Globos de Ouro nacionais.
Paulo Branco lembra-o como "uma das pessoas mais extraordinárias com quem convivi durante estes mais de 30 anos. É das pessoas que, em termos não só pessoais mas artísticos, mais me surpreendeu".
Em declarações à Antena 1, Paulo Branco acrescentou que teve um "prazer enorme" em todas as colaborações com o cineasta, que totalizam 15 filmes.
O produtor português define Raoul Ruiz como "absolutamente surpreendente", uma pessoa "de uma humanidade e de um humor que raramente se conseguem encontrar".
Ruiz não resistiu a uma infecção pulmonar e o seu estado de saúde suscitava frequentes cuidados desde que lhe foi diagnosticado um tumor cancerígeno no decorrer das filmagens de "Mistérios de Lisboa".
Muitos especularam que esse seria o seu derradeiro filme. Mas depois de "Mistérios" concluiu, no decorrer deste ano, uma adaptação da novela "La Noche de Enfrente", do escritor francês Jean Giono, e tinha iniciado a pré produção de "As Linhas de Torres", cujas filmagens estão marcadas para começar em Setembro.
Paulo Branco já assumiu que pretende concretizar o filme histórico "As Linhas de Torres", uma produção com orçamento de 4,5 milhões de euros sobre a resistência anglo-portuguesa às invasões napoleónicas, com elenco internacional liderado por Mathieu Amalric e John Malkovich.
De acordo com a nota da produtora Clap Filmes, a cerimónia fúnebre realizar-se-á a 23 de agosto, às 10h30, na Igreja Saint-Paul, em Paris. O corpo do cineasta será sepultado no Chile.in Cinemax,RTP com Lusa e AFP - 20 agosto '11
World Press Photo 2011 é um acontecimento mundial que reúne imagens de fotógrafos de muitos países. Para assinalar o Dia Mundial da Fotografia é também uma óptima aposta visitar essa exposição. Este ano e citando a Revista Visão «…foram distinguidos 56 fotógrafos, escolhidos entre 5.847 participantes e com o número recorde de 108.059 fotografias a concurso.»
A exposição está em Portugal e pode ser visitada em:
PORTIMÃO - Museu de Portimão: de 05-08-2011 a 28-08-2011
MAIA - Fórum da Maia: de 17-11-2011 a 13-12-2011
Saiba quais as fotografias distinguidas no World Press Photo 2011, clique aqui.
Para comemorar o Dia Mundial da Fotografia em 2011 o Instituto Português de Fotografia organizou um programa de 24 horas, com 8 eventos fotográficos na cidade do Porto, subordinados ao tema1 cidade, 1000 imagens.
O Dia Mundial da Fotografia celebra-se a 19 de Agosto, dia em que foi apresentado em Paris, em reunião conjunta das Academias das Ciências e das Belas Artes, o processo "fotográfico" denominado daguerreotipia.
O programa do evento foi concebido a pensar em públicos diversificados: fotógrafos amadores e profissionais, críticos de arte, galeristas, produtores culturais, entusiastas e apaixonados pela Fotografia em geral.
As actividades previstas desenvolvem-se das 0h00 às 24h00 horas e incluem os seguintes eventos fotográficos:
00:00 Noite da fotografia, no Bar Plano B
04:00 Workshop Fotografar o Amanhecer, no IPF Porto
09:30 Workshop Fotografia em família - Atelier de Produção de Fotogramas, no IPF-Porto
09:30 Workshop de Fotografia de Arquitectura, no IPF Porto
14:00 Avaliação de portefólios, no IPF-Porto
14:00 Exposição de fotografia livre, na Av. dos Aliados (frente ao Guarani)
19:00 Cocktail no IPF Porto (entrada por convite)
21:00 Projecção de Rua, no Coreto do Jardim da Cordoaria
Assim, no dia 19 de Agosto a população da cidade do Porto é convidada a contribuir com a sua presença e as suas imagens para a comemoração do Dia Mundial da Fotografia criando convívios em ambiente de festa com a motivação comum do GOSTO PELA FOTOGRAFIA.
Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto, em Ferradas, Município de Itabuna, Sul do Estado de Baía, Brasil. No mês em que completaria 99 anos, é com as palavras de outro escritor , registadas logo após a sua morte, ocorrida a 6 de Agosto de 2001, que lhe prestamos homenagem. A grandeza e a extraordinária riqueza da sua obra têm merecido inúmeros estudos, reflexões, análises e variados artigos em múltiplas línguas. João Ubaldo Ribeiro relembra o homem , o amigo , o inconformado, o resistente, o génio que transformou a literatura brasileira em literatura universal.
Jorge Amado e Eu
por João Ubaldo Ribeiro
Em 60 anos de vida, fiquei órfão três vezes. A primeira foi quando Glauber Rocha, nem dois anos mais velho do que eu, morreu e me deixou desarvorado em Portugal, onde convivêramos em seus últimos dias. A segunda foi quando meu pai, Manoel Ribeiro, morreu e perdi de vez o tapinha nas costas dado por ele, nas raras ocasiões em que sua severidade lhe permitia agradar-se de algo que eu tinha feito.
A terceira vez foi na noite de segunda-feira passada, quando morreu Jorge Amado e estou aqui, desnorteado novamente, agora que nunca mais vou poder ouvir seu bom humor, às vezes brincalhonamente irónico, manifestar-se nas muitas lições que me deu, na paciência e generosidade que sempre foram marca de seu temperamento.
Com quem vou conversar agora, na mais desarmada confiança que se pode ter, a quem mais vou contar minhas dúvidas e hesitações, de quem mais vou ouvir macetes e perclços desta vida de contador de histórias, quem mais me olhará –como olhava para todos nós, os jovens de quem, sem o menor paternalismo, mas como uma espécie de irmão mais velho, se tornou amigo e infatigável incentivador — com o orgulho ancho e benevolente de um técnico de futebol, diante da equipe que conseguiu formar? Para quem vou telefonar e pedir juízo, conselhos e sensatez? Por que se vão todas as minhas referências, me deixando cada vez mais só neste mundo, onde tudo indica que ficarei mais um tempo?
Talvez pareça presunçoso eu querer falar no universo que foi e é Jorge Amado através de meu ponto de vista. Mas para falar na persona literária, política e social dele, haverá quem fale melhor do que eu. De especial no que tenho a dizer existe somente a amizade e o amor fraterno que nos uniu durante uns 40 anos e é disso que posso falar. Posso testemunhar sobre a grandeza e a generosidade de seu gênio. Pois o chamo de gênio, no sentido que esta palavra tinha antigamente, antes de enfraquecer-se pelo uso descomedido.
Quem mais, senão um gênio, teria criado toda uma nação, teria dado forma, expressão e identidade a uma terra e uma cultura como a Bahia, assim legando aos baianos e aos brasileiros em geral, pois a Bahia pertence a todos os brasileiros, um patrimônio inestimável? A Bahia não pode ser compreendida — e, por via de conseqüência, o Brasil não pode ser inteiramente compreendido — sem Jorge Amado e Dorival Caymmi, esse outro gênio de quem só podemos também ter orgulho. Dois fortíssimos pilares da cultura nacional residem na obra deles e, agora que eles já abriram caminho, tudo parece fácil e até óbvio. É como na história de um ignorante que foi assistir a uma apresentação de “Hamlet” e depois comentou, decepcionado, que não passava de um apanhado de lugares-comuns: ser ou não ser, eis a questão; o resto é silêncio; há algo de podre no Reino da Dinamarca; há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua filosofia; e assim por diante. A Bahia desabrochou sob as mãos de artesãos amorosos e de insuperável sensibilidade, como Jorge e Caymmi. Pela primeira vez os negros, os pobres, os humildes, os marginalizados foram trazidos maciçamente, através de uma singularíssima empatia e uma riqueza narrativa incomparável, para o proscênio das nossas artes — e nunca mais a cultura nacional foi a mesma.
Nós aprendemos a nos menosprezar e vivemos treinando isso o tempo todo. Há quem não veja, quem não consiga quase glandularmente não ver, que Jorge Amado não foi um dos mais importantes escritores do Brasil, mas um dos maiores autores do século, sob todos os títulos, a começar pelo fato de que, para o mundo culto e, de certa forma, para o grande público de muitos países, praticamente encarnava o Brasil e bem poucos escritores podem aspirar a esse tipo de galardão. Ele, com altivez e dignidade, nos representava, era como um símbolo da afirmação nacional, era o nosso escritor.
Mas isso tudo é e será visto, pois o patrimônio que Jorge nos deixou é perene e indelével, entrou na nossa alma, e a perspectiva histórica ainda lhe dará o relevo que efetivamente merece e que alguns ainda lhe negam, estreitando e tentando apequenar a estatura indestrutível de sua obra e sua vida, cujos ideais o levaram a quatro prisões, ao exílio e à incompreensão. Sempre disse que seu personagem era o povo e por isso, com mal-disfarçado desdém, há quem o chame de populista. Mas vá lá que fosse, ele mesmo não dava nenhuma pelota para isso, até gostava. Eu estava na Bahia para sua despedida e vi o povo nas ruas, aplaudindo seu escritor com emoção. Muitos entre eles nem lêem, mas todos sabem que perderam algo de muito importante, que felizmente viverá sempre na obra que aí está.
Acabei me alongando mais do que queria, em seara que outros explorarão muito melhor do que eu. Queria mesmo falar sobre aquilo em que tenho autoridade: nossa amizade. Cacá Diegues disse à imprensa que nós todos somos produto do que ele inventou, queremos ser o projeto que sua obra representa para o Brasil. No avião em que voltávamos da Bahia, Caetano Veloso me disse a mesma coisa. Heródoto escreveu que o Egito é um dom do Nilo e nós somos um dom de Jorge. De minha parte, eu sei bem. Foi ele quem primeiro acreditou em mim, desde os meus 17 anos, foi ele que, me vendo registrar-me num hotel, olhou o item onde eu declarava timidamente que minha profissão era jornalista, pegou a ficha, rasgou-a e disse:
— Jornalista é muito bom, mas não é o que você é. Bote aí “escritor”, você é escritor.
Foi ele que me acompanhou durante todo esse tempo, enchendo minha bola onde quer que chegasse ou a que veículo de imprensa falasse. Foi ele quem me chamou a atenção, sempre carinhosamente, para meus erros, minhas decisões mal pensadas, até para meu descuido com a saúde. A sabedoria e o bem-querer com que sempre me orientou não me deixarão nunca, sou um privilegiado maiúsculo, com essa convivência acima de tudo enriquecedora e enobrecedora. Não posso avaliar tudo o que devo a Jorge, direta e indiretamente. Só sei que tenho saudades dele e das muitas horas que passamos juntos e sei que vou atravessar o resto da vida com estas saudades.
João Ubaldo Ribeiro em Artigo publicado no jornal "O Globo", em 12/08/2001.
Nota:A editora brasileira Companhia das Letras, que processa a reedição da obra completa de Jorge Amado, criou um site para este grande escritor brasileiro. Consulte-o aqui: http://www.jorgeamado.com.br/