(SITTIN' ON) THE DOCK OF THE BAY, uma das grandes canções composta por Otis Redding e Steve Cropper gravada na versão original, em 7 de Dezembro de 1967, três dias antes da morte de Otis Redding juntamente com a sua banda The Bar-Keys, num desastre de avião, no Wisconsin. "(Sittin' On) the Dock of the Bay" só viria a ficar famosa um ano após a sua morte (1968), tornando-se uma canção emblemática e inesquecível.
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
domingo, 10 de janeiro de 2010
sábado, 9 de janeiro de 2010
Os americanos são de Itália e os europeus do Japão
Hans Werner Sinn
Os americanos são de Itália e os europeus do Japão
O modelo de negócio norte-americano desmoronou-se. Nos últimos anos, os Estados Unidos pediram emprestado ao resto do mundo elevados montantes de dinheiro. Só em 2008, as importações líquidas de capital excederam 80 mil milhões de dólares. Grande parte deste dinheiro veio da venda de produtos de titularização de crédito hipotecário e das obrigações da dívida que apresenta colaterais como garantia, das reivindicações contra uma cadeia de reivindicações cujo último elo é o proprietário imobiliário norte-americano (ou, para ser preciso, as próprias casas, já que os proprietários beneficiam da protecção de carência de recursos).
Agora, o mercado destes activos desapareceu. Enquanto, em 2006, o volume de novas emissões foi de 1,9 biliões de dólares, em 2009 foi de apenas 50 mil milhões de dólares, de acordo com as mais recentes estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). O mercado caiu 97%. Nenhum número revela, como este, a verdadeira catástrofe do sistema financeiro norte-americano.
Como o fluxo de fundos de todo o mundo para os proprietários norte-americanos foi interrompido, o preço das casas caiu 30% e a construção de novas casas mais de 70%. A recessão era inevitável. Os trabalhadores do sector da construção que foram despedidos e os proprietários tiveram que apertar o cinto. Alguns fizeram-no porque se sentiam pobres. Outros porque os bancos, afectados pelo colapso da securitização, pararam de conceder empréstimos ao consumo.
Nos últimos anos antes da crise, o fluxo de novas hipotecas era 60% superior ao valor da construção de habitações. Agora está 150% abaixo.
Os primeiros onze meses de recessão que se seguiram foram tão severos como os primeiros onze meses da Grande Depressão que começou em 1929. Mas gigantescos pacotes de estímulo económico keynesianos, no valor de 1,4 biliões de dólares, em conjunto com resgates de bancos no valor de 8 biliões de dólares, tiveram o seu efeito. Pararam a queda na Primavera e início do Verão de 2009, interrompendo a recessão, espero eu, mais do que temporariamente.
A subutilização da capacidade continua, no entanto, a ser enorme. Vai demorar anos até que a economia mundial regresse ao normal, em particular devido às perspectivas de crescimento pouco prometedoras e ao aumento do desemprego nos Estados Unidos e na Europa.
A dívida governamental foi o tratamento que ajudou e que continua a ser necessário. Os governos absorvem o excesso de poupanças privadas "over private investment" e injectam-no na economia, estabilizando a procura agregada e o sistema financeiro.
Como resultado, os défices públicos estão a disparar. Quase todos os países da União Europeia vão violar o limite de 3% do PIB definido no Pacto de Estabilidade e Crescimento e muitos deles vão ter défices iguais ou superiores a 10% do PIB, como a Espanha (10%), o Reino Unido (14%) e a Irlanda (16%).
Os Estados Unidos, o epicentro da crise, enfrentam enormes dificuldades. O rácio da dívida deverá ter fechado o ano nos 87%, após ter atingido os 73% em 2008, e, com o défice deste ano a chegar aos 11%, é quase certo que irá superar os 100% em 2011. O país que costumava ser o símbolo da força e da estabilidade do capitalismo mostra agora semelhanças alarmantes com os países em desenvolvimento que sofreram com a crise da dívida mundial no início dos anos 80.
Apesar dos países poderem ficar insolventes, há muitas formas de reduzir a dívida soberana antes que isso aconteça. Os Estados Unidos estão a ponderar a possibilidade de aplicar um imposto sucessório sobre as acções norte-americanas que sejam adquiridas no estrangeiro, e muitas pessoas acreditam que o país vai tentar seguir a estratégia italiana: subir a inflação para reduzir a dívida pública e desvalorizar a moeda para manter a competitividade internacional.
É difícil elevar a taxa de inflação quando as taxas de juro de curto prazo estão perto do zero - e não podem sofrer novas reduções sem provocar uma acumulação maciça de liquidez. No entanto, os investidores de todo o mundo receiam este cenário, e isto pode criar uma profecia auto-realizável, porque leva a uma queda do dólar, aumenta a procura de exportações e torna as importações norte-americanas mais caras.
Ironicamente, as taxas de câmbio flexíveis ajudaram o país a causar esta crise. Não existe justiça nos mecanismos económicos.
O contrário acontece na Europa, onde o Banco Central Europeu também usou o seu poder e não pode criar inflação mesmo que quisesse (o Tratado de Maastricht define a estabilidade de preços como o único objectivo do BCE).
Mas a subida do euro reduz os preços das importações e a procura de exportações, o que provoca a queda dos preços. O mais provável é que a Europa não siga a estratégia italiana. Em vez disso, a Europa vai enfrentar grandes dificuldades para se libertar da estagnação actual. O risco para a Europa é seguir o exemplo japonês, em vez do italiano.
Após a crise bancária de 1987-1989, o Japão viveu décadas de estagnação e deflação com uma elevada dívida governamental. Evitar um cenário semelhante é o principal desafio dos decisores políticos europeus durante os próximos anos.
Hans-Werner Sinn é professor de Economia e Finanças Públicas na Universidade de Munique e presidente do Instituto Ifo.
Artigo de Opinião publicado no "Jornal de Negócios" de 8 de Janeiro de 2010
© Project Syndicate, 2009.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Luísa Marques
Yvonne Elliman, I don't know how to love him, 1973
De Jesus Christ Superstar, a inconfundível voz de Yvonne Elliman em "I don't know how to love him".
I don't know how to love him.
What to do, how to move him.
I've been changed, yes really changed.
In these past few days, when I've seen myself,
I seem like someone else.
I don't know how to take this.
I don't see why he moves me.
He's a man. He's just a man.
And I've had so many men before,
In very many ways,
He's just one more.
Should I bring him down?
Should I scream and shout?
Should I speak of love,
Let my feelings out?
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Don't you think it's rather funny,
I should be in this position.
I'm the one who's always been
So calm, so cool, no lover's fool,
Running every show.
He scares me so.
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Yet, if he said he loved me,
I'd be lost. I'd be frightened.
I couldn't cope, just couldn't cope.
I'd turn my head. I'd back away.
I wouldn't want to know.
He scares me so.
I want him so.
I love him so.
I don't know how to love him.
What to do, how to move him.
I've been changed, yes really changed.
In these past few days, when I've seen myself,
I seem like someone else.
I don't know how to take this.
I don't see why he moves me.
He's a man. He's just a man.
And I've had so many men before,
In very many ways,
He's just one more.
Should I bring him down?
Should I scream and shout?
Should I speak of love,
Let my feelings out?
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Don't you think it's rather funny,
I should be in this position.
I'm the one who's always been
So calm, so cool, no lover's fool,
Running every show.
He scares me so.
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Yet, if he said he loved me,
I'd be lost. I'd be frightened.
I couldn't cope, just couldn't cope.
I'd turn my head. I'd back away.
I wouldn't want to know.
He scares me so.
I want him so.
I love him so.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade in " O Sal da Língua",1995
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Cantar as Janeiras
José Afonso - Natal dos Simples
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
A PALAVRA MÁGICA
Certa palavra dorme na sombrade um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'
domingo, 3 de janeiro de 2010
O MITO E A REALIDADE

Albert Camus (Mondovi, 7 de Novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de Janeiro de 1960)
Entre as maiores manifestações da consciência crítica do século XX, a presença de Camus é certamente uma das mais generosas. Sobretudo agora,(...)quando tantas das suas reflexões podem ser redescobertas como advertências ou ‘diagnósticos’ de espantosa acuidade e rigor intelectual. Não há como duvidar de que o homem dos nossos dias tem tudo para abrigar conflitos ainda mais intensos — e mais devastadores, ou mais fecundos — que os de todas as outras épocas. É certo que ele contou com enormes precursores, mestres que foram ao fundo do desenvolvimento moderno de suas emoções — e suas razões — como Nietzsche, Dostoiévski, Proust, Kierkegaard, Kafka (para só ficarmos em alguns dos nomes mais caros a Camus), e chega, hoje em dia, aos desdobramentos efectivos e consistentes das revoluções de Darwin, Marx, Freud, Einstein. Mas, até mesmo por isso tudo, ‘os homens presentes’, n’ “a vida presente”, estão ainda mais sós e dilacerados. Há uma busca desesperada — mas persistente — de novos valores. Como toda possibilidade dos sistemas mágicos ou metafísicos se encontra pulverizada, como só insiste ou resmunga nos desvãos do medo, nos laboratórios da psicopatologia ou em sinistros desvios de igreja e dissimulação, esse homem presente só pode contar consigo mesmo, seu cérebro, seus sentidos, suas mãos, seus meios. Daí o encontro — cada vez mais frequente — com o absurdo. E face a face com a sua condição, esse homem tem muito poucos amigos. Um deles, de extraordinária inteligência e lealdade, é Albert Camus.
Particularmente neste caso de O mito de Sísifo, livro de terrível beleza com a sua aguda apreensão do horror nas armadilhas do quotidiano, seu reforço ao inconformismo e à recusa a todas as fugas, seu empenho intransigente em valorizar e enriquecer as lutas da lucidez. Camus escreveu -o no começo da Segunda Guerra Mundial. É extremamente curioso — mas de toda coerência com o seu pensamento — que ele não se detenha no problema da guerra e a rejeite radicalmente nas entrelinhas, fazendo do “homem absurdo” o último a poder aceitá-la ou a compactuar com as suas aberrações. Quem coloca em primeiro plano a revolta, o discernimento, a discussão da morte voluntária, a oposição às esperas e esperanças infundadas, a realidade física ou a repulsa a qualquer tipo de servidão está plasmado indirectamente a atitude do antiautoritarismo e, em conseqüência, propondo uma paz insubmissa, guiada ao mesmo tempo pela razão e pela paixão amorosa (especialmente em seus “modelos” do “homem absurdo” — quando trata de Don Juan, dos comediantes e dos conquistadores). Mesmo neste último caso, mobilizado como todo o mundo, o filósofo passa a opção pela luta e pela resistência, mas também o desprezo pela guerra e seus ingredientes: “A grandeza mudou de campo. Ela está no protesto e no sacrifício sem futuro”.
Mais especificamente, Le mythe de Sisyphe (1942) — que, não vamos esquecer, o autor publicou aos vinte e nove anos — é a primeira formulação teórica da noção de absurdidade, isto é, da tomada de consciência, pelo ser humano, da falta de sentido (ou, portanto, do sentido absurdo) da sua condição. Situando a questão nos planos da sensibilidade e da inteligência, Camus trabalha com designações que muitas vezes se confundem, na base de estímulo e resposta assumidos com o mesmo nome. Assim, o “homem” é o que enfrenta lucidamente a condição — e a humanidade — absurda. Antecedido intuitiva e literariamente (como reconhece e aplaude no último ensaio do livro) pelo génio de Franz Kafka, Camus é o primeiro a descrever objectivamente as situações e conseqüências da absurdidade, compreendendo a sua lógica e propondo a sua moral.
De lá para cá, ao mesmo tempo que o “homem absurdo” se exprimiu em toda a sua verdade na literatura, no teatro e em outros campos ou vertentes da arte e do pensamento (de Jorge Luis Borges à dramaturgia de autores como Beckett, Ionesco, Genet, Pinter, Albee, Arrabal — e tantos escritores contemporâneos), a absurdidade do humano se estendeu, fez metástases por toda parte, prosperou. Como, nos seus rumos políticos, o autoritarismo já não anda de braçadeiras ou suásticas às claras, a humanidade absurda também adoptou disfarces e novos colarinhos para as respectivas coleiras. Os esquemas burocráticos de falso paternalismo e servidão, a estéril, mas afanosa vaidade de hierarquias inteiras que superpõem andróides às voltas com obrigações e incumbências inúteis mostram-nos hoje como viu longe a actividade crítica e criativa de homens em corpo inteiro como Franz Kafka (muitas vezes chamado “profeta do absurdo”) e Albert Camus — inclusive em suas obras posteriores, principalmente La peste (1947) e L’homme revolté (1951). Por todos esses motivos, a actualidade e oportunidade de O mito de Sísifo são absolutamente exemplares. Estão aqui os antídotos certos, a palavra certa para uma rara humanidade que ainda merece continuar a se distinguir dos insetos e dos ratos. Como se depreende do ensaio-título deste livro, pode-se até rolar a pedra até o alto da montanha, de onde ela desce de novo: desde que, nos intervalos, se mantenha e se renove a consciência do processo. A grande maioria, no entanto, já prefere naqueles momentos tão-somente rolar também de volta, ladeira abaixo. E já consegue chegar um pouco antes da pedra.
Introdução à Edição original de "O MITO DE SÍSIFO",(Ensaio sobre o Absurdo), de Albert Camus por Mauro Gama
Tradução e Apresentação de Mauro Gama, "Le Mythe de Sisyphe", Copyright by Éditions Gallimard, 1942
Entre as maiores manifestações da consciência crítica do século XX, a presença de Camus é certamente uma das mais generosas. Sobretudo agora,(...)quando tantas das suas reflexões podem ser redescobertas como advertências ou ‘diagnósticos’ de espantosa acuidade e rigor intelectual. Não há como duvidar de que o homem dos nossos dias tem tudo para abrigar conflitos ainda mais intensos — e mais devastadores, ou mais fecundos — que os de todas as outras épocas. É certo que ele contou com enormes precursores, mestres que foram ao fundo do desenvolvimento moderno de suas emoções — e suas razões — como Nietzsche, Dostoiévski, Proust, Kierkegaard, Kafka (para só ficarmos em alguns dos nomes mais caros a Camus), e chega, hoje em dia, aos desdobramentos efectivos e consistentes das revoluções de Darwin, Marx, Freud, Einstein. Mas, até mesmo por isso tudo, ‘os homens presentes’, n’ “a vida presente”, estão ainda mais sós e dilacerados. Há uma busca desesperada — mas persistente — de novos valores. Como toda possibilidade dos sistemas mágicos ou metafísicos se encontra pulverizada, como só insiste ou resmunga nos desvãos do medo, nos laboratórios da psicopatologia ou em sinistros desvios de igreja e dissimulação, esse homem presente só pode contar consigo mesmo, seu cérebro, seus sentidos, suas mãos, seus meios. Daí o encontro — cada vez mais frequente — com o absurdo. E face a face com a sua condição, esse homem tem muito poucos amigos. Um deles, de extraordinária inteligência e lealdade, é Albert Camus.
Particularmente neste caso de O mito de Sísifo, livro de terrível beleza com a sua aguda apreensão do horror nas armadilhas do quotidiano, seu reforço ao inconformismo e à recusa a todas as fugas, seu empenho intransigente em valorizar e enriquecer as lutas da lucidez. Camus escreveu -o no começo da Segunda Guerra Mundial. É extremamente curioso — mas de toda coerência com o seu pensamento — que ele não se detenha no problema da guerra e a rejeite radicalmente nas entrelinhas, fazendo do “homem absurdo” o último a poder aceitá-la ou a compactuar com as suas aberrações. Quem coloca em primeiro plano a revolta, o discernimento, a discussão da morte voluntária, a oposição às esperas e esperanças infundadas, a realidade física ou a repulsa a qualquer tipo de servidão está plasmado indirectamente a atitude do antiautoritarismo e, em conseqüência, propondo uma paz insubmissa, guiada ao mesmo tempo pela razão e pela paixão amorosa (especialmente em seus “modelos” do “homem absurdo” — quando trata de Don Juan, dos comediantes e dos conquistadores). Mesmo neste último caso, mobilizado como todo o mundo, o filósofo passa a opção pela luta e pela resistência, mas também o desprezo pela guerra e seus ingredientes: “A grandeza mudou de campo. Ela está no protesto e no sacrifício sem futuro”.
Mais especificamente, Le mythe de Sisyphe (1942) — que, não vamos esquecer, o autor publicou aos vinte e nove anos — é a primeira formulação teórica da noção de absurdidade, isto é, da tomada de consciência, pelo ser humano, da falta de sentido (ou, portanto, do sentido absurdo) da sua condição. Situando a questão nos planos da sensibilidade e da inteligência, Camus trabalha com designações que muitas vezes se confundem, na base de estímulo e resposta assumidos com o mesmo nome. Assim, o “homem” é o que enfrenta lucidamente a condição — e a humanidade — absurda. Antecedido intuitiva e literariamente (como reconhece e aplaude no último ensaio do livro) pelo génio de Franz Kafka, Camus é o primeiro a descrever objectivamente as situações e conseqüências da absurdidade, compreendendo a sua lógica e propondo a sua moral.
De lá para cá, ao mesmo tempo que o “homem absurdo” se exprimiu em toda a sua verdade na literatura, no teatro e em outros campos ou vertentes da arte e do pensamento (de Jorge Luis Borges à dramaturgia de autores como Beckett, Ionesco, Genet, Pinter, Albee, Arrabal — e tantos escritores contemporâneos), a absurdidade do humano se estendeu, fez metástases por toda parte, prosperou. Como, nos seus rumos políticos, o autoritarismo já não anda de braçadeiras ou suásticas às claras, a humanidade absurda também adoptou disfarces e novos colarinhos para as respectivas coleiras. Os esquemas burocráticos de falso paternalismo e servidão, a estéril, mas afanosa vaidade de hierarquias inteiras que superpõem andróides às voltas com obrigações e incumbências inúteis mostram-nos hoje como viu longe a actividade crítica e criativa de homens em corpo inteiro como Franz Kafka (muitas vezes chamado “profeta do absurdo”) e Albert Camus — inclusive em suas obras posteriores, principalmente La peste (1947) e L’homme revolté (1951). Por todos esses motivos, a actualidade e oportunidade de O mito de Sísifo são absolutamente exemplares. Estão aqui os antídotos certos, a palavra certa para uma rara humanidade que ainda merece continuar a se distinguir dos insetos e dos ratos. Como se depreende do ensaio-título deste livro, pode-se até rolar a pedra até o alto da montanha, de onde ela desce de novo: desde que, nos intervalos, se mantenha e se renove a consciência do processo. A grande maioria, no entanto, já prefere naqueles momentos tão-somente rolar também de volta, ladeira abaixo. E já consegue chegar um pouco antes da pedra.
Introdução à Edição original de "O MITO DE SÍSIFO",(Ensaio sobre o Absurdo), de Albert Camus por Mauro Gama
Tradução e Apresentação de Mauro Gama, "Le Mythe de Sisyphe", Copyright by Éditions Gallimard, 1942
sábado, 2 de janeiro de 2010
2010 Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social
2010 é o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão SocialA Comissão Europeia declarou 2010 o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social. Com uma dotação de 17 milhões de euros, a campanha visa reafirmar o empenho da UE em tomar medidas decisivas para erradicar a pobreza até 2010.
Há três meses, o inquérito Eurobarómetro revelava que 62 por cento dos portugueses diziam ter alguma dificuldade em viver com o rendimento doméstico mensal, enquanto 15 por cento consideravam ser difícil.
Por outro lado, o inquérito europeu refere que em Portugal 88 por cento dos inquiridos consideram que a pobreza é um problema internacional. As estimativas no país apontam para dois milhões de pobres.No Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza e Exclusão Social, Portugal gastará 700 mil euros para colocar o tema na agenda.
«O combate à pobreza e à exclusão social é um dos objectivos centrais da UE. A nossa abordagem comum do problema tem-se revelado um importante instrumento para guiar e apoiar a acção dos Estados-Membros», afirmou Vladimír Špidla, Comissário Europeu dos Assuntos Sociais. «O Ano Europeu irá ainda mais longe na sensibilização da opinião pública para a forma como a pobreza continua a assolar a vida quotidiana de tantos europeus.»
Na UE, há 78 milhões de pessoas – o correspondente a 16% da população – que vivem em risco de pobreza.
O Ano Europeu de 2010 pretende chegar aos cidadãos da UE e a todos os intervenientes públicos, sociais e económicos. São quatro os seus objectivos específicos:
Reconhecer o direito das pessoas em situação de pobreza e exclusão social a viver com dignidade e a participar activamente na sociedade.
Reforçar a adesão do público às políticas e acções de inclusão social, sublinhando a responsabilidade de cada um na resolução do problema da pobreza e da marginalização.
Assegurar uma maior coesão da sociedade, onde haja a certeza de que todos beneficiam com a erradicação da pobreza.
Mobilizar todos os intervenientes, já que, para haver progressos tangíveis, é necessário um esforço continuado a todos os níveis de governação.
Dados recentes dos inquéritos Eurobarómetro revelam que os europeus têm uma percepção da pobreza enquanto problema generalizado. Na UE, os cidadãos consideram que à sua volta uma em cada três pessoas (29%) vive em situação de pobreza e que uma em cada 10 sofre de pobreza extrema. Em todos os Estados-Membros, parte da população está sujeita à exclusão e a privações, enfrentando frequentemente restrições no acesso aos serviços básicos. 19% das crianças estão em risco de pobreza e uma em cada 10 vive em agregados familiares onde ninguém trabalha.
A solidariedade é uma imagem de marca da União Europeia. Os modelos europeus de sociedade e de previdência têm por objectivo intrínseco fazer com que as pessoas beneficiem do progresso económico e social e para ele contribuam. A construção de uma Europa mais inclusiva é vital para a consecução do objectivo do crescimento económico sustentável, de mais e melhores empregos e de maior coesão social.
O processo europeu de protecção social e de inclusão social apoia os Estados-Membros nos seus esforços em prol de maior coesão social na Europa, através do método aberto de coordenação. No período compreendido entre 2007 e 2013, serão distribuídos cerca de 75 mil milhões de euros provenientes do Fundo Social Europeu e destinados aos Estados-Membros e às regiões.
A edição de 2010 do Ano Europeu coincide com a celebração dos dez anos da estratégia de crescimento e emprego da UE. As acções empreendidas durante o Ano Europeu reafirmarão o empenho político inicial da UE quando foi lançada a estratégia de Lisboa, em 2000, no sentido de produzir um «impacto decisivo no que respeita à erradicação da pobreza» até 2010. O Ano Europeu marca também o lançamento de um processo que foi anunciado na Agenda Social 2005-2010.
Publicado no Jornal “Público” de 1 de Janeiro de 2010 e no site da UN
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