quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A MARGEM DO PÂNTANO




Para Jorge de Sena


Tudo me dói como se fora medo
ou ânsia de ficar aquém da morte
brincando na ilusão de estar vivendo
medos perdidos, pélagos selados.
Sonhos não chegam para tamanha sorte
ou chegam, mas são fúria lá no centro
de um mundo onde não vivo, iluminado
por mão intemerata já sem norte.
Acaso quebro lages, desço fundo,
laços desfaço de invisível corda.
Ao centro que me foge e que não quero
logo deslizo como quem se avilta
no lixo temporal muro fechado.
Enquanto o dia não chega a febre aumenta.
Vozes insistem pela madrugada.
Lanço de mim o grito inesperado:
eu vivo, sou, e sonho, ou desespero!
realidade és medo, a dor é nada!

RUY CINATTI, in "Conversa de Rotina ", 1973

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vai-te, Poesia!


Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!

Poesia - José Gomes Ferreira

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Muro da vergonha

Este muro caiu ao fim de vinte e oito longos e infames anos. E os outros que se ergueram sem memória deste ultraje? E as paredes que nos vão separando, cerradas sem janelas, cavando miséria, divisão e ostracismo?
Que mundo o nosso de tantos muros e de tanto esquecimento.

domingo, 8 de novembro de 2009

Canto...

Orfeu Rebelde

(...)Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Letreiro

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

Miguel Torga, in "Orfeu Rebelde", 1958

sábado, 7 de novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A relação ética de Alteridade em Lévinas

A partir da constatação de que a compreensão de metafísica, que emergiu com os
pré-socráticos e se efectivou no desenvolvimento histórico do pensamento ocidental teve como preocupação fundamental constituir um saber sobre o ser, procuramos, na nossa tese, afirmar a possibilidade da ética como metafísica da alteridade. Na contemporaneidade, Husserl preocupa -se em incluir a alteridade na constituição do sentido da objectividade. Na sua tentativa de constituir o sentido do outro, emerge um nós constituinte. A intencionalidade egológica e solitária transforma-se em intencionalidade intersubjectiva. Heidegger fez uma crítica veemente à metafísica, acusando-a de ter esquecido de considerar o ser como a questão mais fundamental. Enunciou que a possibilidade do pensar ético seria viável à medida que se tornasse o agir na procura da verdade do ser, que garantiria ao homem, na sua existência, realizar sua essência. Levinas percebe que a prioridade do pensamento na procura de estabelecer a verdade como o ser resultou na configuração de uma ontologia, uma gnosiologia e uma forma de racionalidade, que se identificaram com os próprios temas investigados, a coerência das relações lógicas e as formas objectivas abstractas. Esse modelo de pensamento não ignorou a dimensão antropológica, mas, na obsessão pela síntese e pela objectividade, terminou nivelando as coisas e a interioridade subjectiva das pessoas, igualando e diluindo suas particularidades numa generalização neutra e abstracta. O humano tornou-se um ente entre outros entes, um ser anónimo, impessoal, apreendido pelo sujeito pensante e expresso num conceito. A corporeidade, a sensibilidade, os desejos, a dinâmica de relação com os outros, o nascer, o viver, o sofrer, o morrer do humano transformaram-se em conteúdo objectivo, sintetizado e representado num sentido puramente racional. Em vez da relação teórica abstracta na determinação inteligível do ser, Levinas prioriza a busca do sentido do humano, onde se verifica a possibilidade da relação metafísica do mesmo com o outro, sem que o outro se reduza ao mesmo, nem o mesmo se absorva na identidade do outro, mantendo, cada um, a condição de separação e a verdadeira relação de alteridade. A relação ética de alteridade torna-se lugar originário da construção do sentido e provocação eminente à racionalidade. O rosto do outro apresenta-se como apelo irrecusável de responsabilidade para com ele, que tem como medida, a des-medida do infinito. O rosto não é um ente objectivo que possa ser abordado de modo especulativo. O rosto fala e, ao proferir sua palavra, invoca o interlocutor a sair de si e entrar na relação do discurso. A linguagem tem a excelência de assegurar a relação entre o mesmo e o outro, que é transcendente em absoluto respeito à sua alteridade. O infinito se mostra na subjectividade vivente na história, que pode desejar outrem para além do sentido racional, objectivo e abstracto. Na relação com o outro, efectiva-se a possibilidade do infinito dar-se sem padecer os horrores da violência do modo de pensar entificante e totalizador. Ela faz reluzir o seu brilho como verdadeira alteridade metafísica, que nos convoca a desejar aquilo que sabemos nunca poder saciar, o desejo.

JOSÉ TADEU BATISTA DE SOUZA, in "ÉTICA COMO METAFÍSICA DA ALTERIDADE EM LÉVINAS ", UCRGS, 3 de Agosto de 2007

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)


O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss morreu sábado, 31 de Outubro, aos 100 anos.

«Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei, tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu.»

domingo, 1 de novembro de 2009

DESENCANTO DOS DIAS


DESENCANTO DOS DIAS

Não era afinal isto que esperávamos
Não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente

Ruy Belo