"Não é bem uma newsletter, é mais o tampo de uma mesa com petiscos, uns copos de vinho, e uma catrefa de amigos debruçados à conversa.
De que outra coisa falaríamos senão de livros. Obrigado por se sentarem a esta mesa.
Manuel S. Fonseca, Editor da Guerra & Paz e da Gradiva
Os meus livros de Junho
Épicos e contos de fadas nas noites de Junho
Há um épico que nunca deixará de nos lamber o ouvido com a sua língua defumada e a sua luz ultramarina. Falo de Os Lusíadas. E com vontade que o comecem a ler, o poeta António Carlos Cortez reescreveu-o para que rapazes e raparigas das escolas não só o leiam, mas aprendam a delicada arte de o degustar. Por isso, Uma estória de Os Lusíadas, de António Carlos Cortez, livro de iniciação, é o primeiro dos meus dez livros de Junho. A poesia flui e reflui entre equinócios e solstícios. Pedro Rapoula é um poeta novo. Revela-nos Coisas que me ensinaram a calar, uma escrita que não foge a dores de infância, ao frio da casa e do afecto. É poesia, essa coisa que de nada serve por tanto lá estar tudo. Mês de Feira do Livro, mês de prémios. O Sal e a Ferida, de Diana Teixeira, é Prémio Nacional de Literatura do Lions e mostra-nos que as feridas abertas no Andes não ficam apenas no Andes, desaguando mesmo à nossa porta, e Antologia Brutalista, do italiano Ricardo Rao, com autênticos episódios da guerra social brasileira, mereceu o Prémio de Revelação Literária UCCLA/CML. Aos meus leitores ofereço agora os Contos de Fadas Turcos, na mesma colecção em que já publiquei contos de fadas japoneses e chineses. Façam o favor de entrar no maravilhoso turco povoado de dervixes, pássaros cor-de-laranja, mitos xamânicos, um maravilhoso pintado a ilustrações que combinam cores e tradições persas e otomanas, alegria dos olhos e felicidade dos dedos que desatam a correr de página a página. Ponho, agora, o meu melhor ar circunspecto. Falemos de pensamento. De René Girard, filósofo maior das últimas cinco décadas, publico uma antologia póstuma, Desejo de Tirania, cuja primeira jóia nos assombra: «É o medo de ser morto que faz do soberano um tirano. E é o nosso medo de morrer que faz com que nos deixemos tiranizar». É da colecção Os Livros Não se Rendem e os meus fabulosos parceiros, a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações encerram aqui um apoio de quatro anos, que se traduziu na doação de cerca de nove mil livros à rede nacional de bibliotecas públicas. Figura destacada da Judiciária e do universo policial, José Lopes apresenta uma proposta sedutora: falar do sistema (mas será que é mesmo um «sistema») de organização das nossas polícias. Quantas são, o que fazem, que redundâncias? Com um prefácio diligente e reflectido de António Araújo, O Sistema Policial Português, Onde Nasceu, Como Cresceu, No Que Deu, vai incomodar algumas almas mais dadas a uma certa paz dos cemitérios, perdão, gabinetes. O sistema policial era outro quando Carolina Loff, sereia do seu tempo, foi presa e torturada na polícia política. Eis que, frente a frente, ficaram uma comunista e um Pide. Dos antecedentes e da sua teia de espionagem e clandestinidade nos conta este emotivo A Comunista e o PIDE, de Felícia Cabrita. Não vos vou dizer que é uma história de amor, não se vá dar o paradoxo de acreditarem em mim. Ah, é verdade, a Felícia Cabrita autorizou-me a escrever um posfácio. Fecho com um extraterrestre chamado Cristiano Ronaldo. Um jornalista do grande L’Équipe, Régis Dupont, mergulhou na vida, mas sobretudo na prodigiosa carreira desportiva do já lendário goleador e escreveu Cristiano Ronaldo, 25 anos no topo do futebol. Para ler antes que comece um Mundial de que só queremos sair campeões. São os meus dez livros de Junho, dez golos e ainda nem o jogo começou.
duas euforias
A minha luminosa Rita Fonseca continua a mergulhar os milhares de leitoras da sua euforia nas ínvias sombras do dark romance. A portuguesa Inês Valadas teve arranque eufórico com Onze Minutos e Sara Cate põe as personagens de Elogia-me a fazer coisas sem sexo. Ou será com?
Os livros de Junho são estrelas que descem dos céus
Dessa raposa – não, não era um ouriço! – chamada Isaiah Berlin, cujos conceitos de liberdade positiva e liberdade negativa marcaram o pensamento recente, vamos publicar Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade. São seis os filósofos dissecados: todos eles a roerem o pão e queijo da liberdade individual. Peçam um romance sobre a «diferença»: Estranha Sedução, de Ian McEwan, dá logo um passo em frente. A acção decorre numa cidade sem nome e as traves da perversidade seguram o «conforto dos estranhos» que é a chave de uma história arrepiante: o clímax assusta. Acendam velas: chegou a edição comemorativa dos 50 anos de O Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Um livro de viragem na história da ciência e do evolucionismo darwinista: o «gene» está no centro de tudo. O prefácio é do genial Robert Trivers. Do espaço interior para o cosmos, a Gradiva, fazendo justiça à sua vocação de «ciência aberta», quer provar que O Céu é o Máximo, e fá-lo com este livro de Máximo Ferreira, que nos põe a olhar lá para o alto entre as estrelas. E os pais que queiram converter os filhos à contemplação das galáxias têm, do mesmo autor, Neil deGrasse Tyson, um livrinho infantil, Olha para o Céu Comigo: uma vida entre as estrelas, que Jennifer Berne adaptou e Lorraine Nam ilustrou com delicadeza. Fechamos este mês em que a Gradiva se passeia pelos astros com um livro do Prémio Nobel da Física, Alain Aspect, Einstein e as Revoluções Quânticas. As experiências de Aspect mostram que partículas entrelaçadas, mesmo se separadas por grandes distâncias, permanecem ligadas, comportando-se de forma idêntica. Começa aqui a física do futuro.
Onze livros Gradiva: a entrelaçar o fundo da história com a imensidão galáctica."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva.
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