terça-feira, 30 de junho de 2026

 
 Abruzos

Inverno nos Abruzos
por Natalia Ginzburg

Deus nobis haec otia fecit
“Nos Abruzos há só duas estações: o Inverno e o Verão. A Primavera é nevada e ventosa como o Inverno, e o Outono é quente e límpido como o Verão. O Verão começa em Junho e termina em Novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e abrasadas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças acabam e o Inverno começa. As pessoas deixam então de viver nas ruas: os rapazes descalços desaparecem das escadas da igreja. Na aldeia de que falo, os homens desapareciam quase completamente após as últimas colheitas: iam trabalhar para Terni, para Sulmona, para Roma. Era uma aldeia de pedreiros: e algumas das casas eram construídas com graça, tinham terraços e colunazinhas como pequenas villas, e era surpreendente encontrar nelas, ao entrar, grandes cozinhas sombrias onde havia presuntos pendurados e grandes quartos desolados e vazios. O lume estava aceso nas cozinhas e havia lumes de várias espécies, havia grandes lumes de azinho, lumes de ramadas e folhas, lumes de galhos apanhados do chão um a um. Era fácil distinguir os pobres dos ricos vendo que lume acendiam; mais fácil do que vendo as casas e as pessoas, as roupas e o calçado, que eram sempre mais ou menos iguais. Quando cheguei à aldeia de que falo, nos primeiros tempos todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam umas às outras, ricas e pobres, novas e velhas. Tinham quase todas a boca desdentada: as mulheres ali perdiam os dentes aos trinta anos, devido às fadigas e à má alimentação, aos esforços dos partos e dos aleitamentos, que se seguiam sem trégua. Mas depois comecei pouco a pouco a distinguir a Vincenzina da Secondina, a Annunziata da Addolorata, e também a entrar em todas as casas e a aquecer ‑me aos seus diferentes lumes. Quando a primeira neve começava a cair, apoderava ‑se de nós uma lenta tristeza. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e estavam longe os livros, os amigos, as coisas várias e volúveis de uma verdadeira existência. Acendíamos a nossa estufa verde, com o seu tubo comprido que atravessava o tecto: reuníamo‑nos todos na divisão onde estava a estufa, e aí cozinhávamos e comíamos, o meu marido escrevia sentado à grande mesa oval, as crianças espalhavam os seus brinquedos pelo chão. No tecto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a água e pensava que era aquilo o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que zumbia, era o campo silencioso e vasto e a neve imóvel. Às cinco soavam os sinos da Igreja de Santa Maria, e as mulheres iam à bênção, com os seus xailes pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes o meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braço dado, enterrando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga: e todos apareciam à porta e nos diziam: “Que tenham boa saúde.” Por vezes alguém perguntava: “Mas quando é que voltam para a vossa casa?” O meu marido dizia: “Quando a guerra acabar.” “E quando é que guerra acaba? Sabes tudo e és professor, quando é que ela acaba?” Chamavam ao meu marido “o professor”, não sabendo pronunciar o nome dele, e vinham de longe consultá‑lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época do ano para se tirarem os dentes, sobre os subsídios concedidos pelo município e sobre as contribuições e os impostos. De Inverno uma pneumonia levava algum velho, os sinos de Santa Maria dobravam a finados, e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e levaram ‑na para o manicómio de Collemaggio, e a aldeia falou do caso durante algum tempo. Era uma mulher nova e asseada, a mais asseada de toda a aldeia: e disseram que aquilo lhe acontecera por causa do seu grande asseio. A Gigetto di Calcedonio nasceram duas gémeas, além dos dois gémeos que já tinha em casa, e ele armou um escândalo no município porque não queriam dar ‑lhe o subsídio, por ter já muitas terras e um pomar do tamanho de sete cidades. Uma vizinha cuspiu no olho de Rosa, a porteira da escola, e esta começou a andar com uma venda no olho para que lhe pagassem uma indemnização. “O olho é delicado, o cuspo é salgado”, explicava ela. E também do seu caso se falou durante algum tempo, até mais nada haver a dizer sobre ele. A nostalgia crescia em nós de dia para dia. Por vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de casamentos e de mortes que nos excluíam. Por vezes a nostalgia fazia ‑se aguda e amarga, e tornava ‑se ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos escondido, porque o reconhecíamos injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha pedir favores e que vinha oferecê‑los. Por vezes a costureira vinha fazer ‑nos sagnoccole. Atava um pano à cintura e batia os ovos, e mandava Crocetta procurar na aldeia alguém que pudesse em prestar ‑nos um caldeirão bem grande. O seu rosto vermelho tinha uma expressão absorta e os olhos resplandeciam ‑lhe de uma vontade imperiosa. Teria sido capaz de deitar fogo à casa para que as sagnoccole lhe saíssem bem. Ficava com a roupa e os cabelos brancos de farinha, e, em cima da mesa oval onde o meu marido escrevia, iam sendo depositadas as sagnocolle. Crocetta era a nossa mulher a dias. A verdade é que não era uma mulher porque tinha catorze anos. Fora a costureira quem no ‑la descobrira. A costureira dividia o mundo em dois campos: os que se penteiam e os que não se penteiam. Devem evitar ‑se os que não se penteiam, porque natural mente têm piolhos. Crocetta penteava ‑se: e por isso ficou a servir ‑nos, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino a quem a mãe morreu. O pai arranjou outra mulher e a madrasta não gostava do menino. Por isso matou ‑o enquanto o pai estava nos campos e fez com ele um cozido. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado de comer, os ossos que tinham ficado no prato põem ‑se a cantar:
Minha madrasta a maldita
cozeu ‑me numa marmita 
e depois de me cozer 
deu ‑me ao meu pai a comer.
Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”
Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas. Havia quem se deitasse na cama com um guarda ‑chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que aquilo era castigo de algum pecado. Foi assim durante mais de uma semana: os últimos rastos de neve desapareceram por fim dos telhados, e Aristide reparou as caleiras. O fim do Inverno despertava em nós uma espécie de desassossego. Talvez viesse alguém visitar ‑nos: talvez acontecesse finalmente alguma coisa. Alguma vez o nosso exílio teria de acabar. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos; o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras se iam curando lentamente. Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. As nossas existências desenvolvem ‑se segundo leis antigas e imutáveis, segundo um seu ritmo uniforme e antigo. Os sonhos nunca se tornam verdade, e no momento em que os vemos despedaçados compreendemos de súbito que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. A nossa sorte corre nesta alternância de esperanças e de nostalgias. O meu marido morreu em Roma na Prisão de Regina Coe li, poucos meses depois de termos deixado a aldeia. Perante o horror da morte solitária, perante as alternativas cheias de angústia que precederam a sua morte, pergunto ‑me se isto nos aconteceu a nós, a nós que comprávamos laranjas na loja de Girò e passeávamos na neve. Então eu tinha fé num futuro fácil e alegre, cheio de desejos satisfeitos, de experiências e de iniciativas comuns. Mas esse tempo era o melhor da minha vida, e só agora que me fugiu para sempre, só agora o sei.”
Natalia Ginzburg , in As Pequenas Virtudes, Relógio D’Água Editores, 22/06/2021, pp 23-28

Descrição completa:
Entre 1944 e 1962, Natalia Ginzburg escreveu um conjunto de onze ensaios de pendor autobiográfico. São textos essenciais, o legado de uma das mais importantes escritoras do século XX, que viveu retirada no campo com o marido durante o governo de Mussolini e nos anos 60 se deslocou para Londres.
Por eles, passam as suas impressões sobre a juventude e a idade adulta, as consequências da guerra, o medo, a pobreza e a solidão, as recordações de Cesare Pavese e a experiência de ser mãe e mulher quando se é escritora.
São páginas de uma perturbadora beleza, lúcidas, plenas de sabedoria, testemunho de uma escrita capaz de transformar objectos e experiências quotidianos em assuntos de grande significado sobre os quais o tempo parece não passar.
 
SOBRE A AUTORA:
Natalia Levi, que viria a adoptar o apelido Ginzburg do seu primeiro marido, nasceu em Palermo a 14 de Julho de 1916. Passou grande parte da vida em Turim, para onde o pai, professor universitário de Anatomia, foi transferido em 1919. Tanto ele como os irmãos de origem judaica foram presos e acusados devido às suas ideias antifascistas. Apesar de a sua mãe ser católica, Natalia teve como toda a família uma educação laica. Estudou no liceu Alfieri, e publicou o seu primeiro livro de contos, I bambini, aos dezassete anos. Cinco anos mais tarde casou com Leone Ginzburg, professor de Literatura Russa. O casal manteve relações de amizade com Cesare Pavese e Carlo Levi, entre outros escritores. Em 1940, exilaram-se em Pizzoli. Sob o pseudónimo Alessandra Tornimparte, Natalia publicou, em 1942, O Caminho da Cidade, que seria reeditado em 1945 já com autoria assumida.
O marido foi detido e torturado até à morte na Prisão de Regina Coeli em 1944. Depois de libertada, nesse mesmo ano, Natalia deslocou-se para Roma, começando a trabalhar na editora Einaudi, aí publicando os seus livros. Em 1947, surgiu o seu segundo romance, Foi assim, que obteve o Prémio Tempo. Em 1950, casa com Gabriele Baldini, especialista em literatura inglesa, de quem terá dois filhos. Em 1961, publica As Vozes da Noite, que será adaptado ao cinema. Dois anos depois, sai Léxico Familiar, uma novela autobiográfica. Interpreta o papel de Maria de Betânia em Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. A partir do final da década de sessenta, publica vários livros, todos eles abordando relações familiares. Natalia Ginzburg foi também autora de várias comédias teatrais e tradutora de Proust, Flaubert e Maupassant. Foi eleita para o parlamento italiano em 1983. Morreu a 7 de Outubro de 1991.

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