O primeiro livro e o regresso a Lourenço Marques
por Eugénio Lisboa
por Eugénio Lisboa
“Publiquei o meu primeiro livro, há 50 anos. Vivia então na cidade da Beira (ainda hoje se chama assim), em Moçambique. O livro, diga-se de passagem, não foi publicado na Beira, nem sequer em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde vivera a maior parte da minha vida até então vivida. Também não foi publicado em Lisboa, onde tirara o meu curso de engenharia (como se vê, a minha vocação para eterno “outsider” é impecável). Viu a luz no Porto, onde nunca vivi, editado pela Livraria Tavares Martins, que o acolheu numa colecçãozinha intitulada “Poetas de Ontem e de Hoje”, dirigida por João Gaspar Simões, que eu não conhecia pessoalmente, e que me não conhecia a mim, nem pessoalmente, nem de maneira nenhuma: eu nunca publicara nada, nem em livro, nem em revista, nem em jornal e não tinha por costume andar atrás de escritores, mesmo dos que admirava. A responsabilidade do livro foi-me simplesmente cometida, de forma algo escandalosa, por um dos tais escritores que eu muito admirava – José Régio - , cuja obra conhecia como os meus dedos, mas sobre a qual não escrevera, nem sonhava escrever uma única linha. Uma noite, em Portalegre, regressando com ele do Café Central – hoje assassinado - , comunicou-me que, na sua recente visita ao Porto, o Tavares Martins lhe pedira autorização (e colaboração) para incluir na supra dita colecção, logo a seguir ao tomo dedicado a Garrett, uma antologia de poesia do autor de Poemas de Deus e do Diabo. Régio respondera-lhe que sim, com a condição de ser ele – e não Simões – a escolher o ensaísta que organizaria a antologia e para ela escreveria um estudo crítico introdutório. E que o escolhido seria um oficial miliciano chamado Eugénio Lisboa, que conhecera em Portalegre e ali se encontrava, a cumprir serviço. O Tavares Martins aceitara e, pelos vistos, o Simões também. (…) Portalegre serviu, também, para me apresentar o Alentejo, que ainda hoje é a minha província favorita num Portugal a que pertenço e não pertenço, visto encontrar-me maravilhosamente tripartido entre Moçambique, a Inglaterra e Portugal, minhas três pátrias de que não abdico: não sou um desenraizado, o que tenho é muitas raízes – em suma, sou rico. De qualquer modo, só para conhecer uma cabeça como a do Régio e um coração como o do Dr. Falcão, valeu a pena ir cumprir a pena de degredo, em Portalegre.
(…)Comecei por gaguejar com a honra que surpreendentemente me visitava e por dizer ao Régio que, sim senhor, me tocava muito o convite, mas que nunca publicara nada (embora rabiscasse um “diário” errático para a gaveta) e que, portanto, não fazia sentido aceitar a oferta. Mas o Régio sabia-a toda. E foi por ali fora, alegando isto e aquilo e ainda que, nas nossas alongadas conversas de café, eu mostrara um conhecimento, em profundidade, da obra dele, como nunca vira em ninguém, que, acrescentava ele, a escrever, é que se aprende a escrever, e que, em suma, ele não tinha qualquer dúvida quanto ao serviço asseado que sairia das minhas mãos. Mas eu iria, poucos meses depois, para África, atirei-lhe, a ver se o dissuadia... Que não fazia mal: acabava o trabalho antes de partir e ele, Régio, comprometia-se a rever, em Portugal, as provas, com todo o cuidado que punha nas suas próprias coisas.
(…)Parti para Lisboa em fim de Fevereiro de 1955, envaidecido e apavorado. Parecia-me cada vez mais uma enorme loucura ter-me rendido ao desafio do grande escritor. De qualquer modo, pus-me ao trabalho, aboletado, em república, na casa do Rui Serrão, colega e amigo de batalhão, que também se fizera amigo do Régio e do Dr. Falcão e deixara, por acaso, o coração em Portalegre, nas mãos gentis da “bela Helena”, com quem viria a casar. De dia, fazia os estágios e ia preparando os relatórios e, à noite, relia o Régio, tomava notas, escrevia períodos que me pareciam dignos de, mais tarde, se irem encaixar no mítico ensaio-a-haver. E tinha cada vez mais medo de não ser capaz de escrever coisa com coisa. Mas sempre ia descobrindo, na obra do autor de A Velha Casa, recantos que, até então, só mal entrevira: dava-me um estranho gozo interior sentir, às vezes, que acertara, que tocara em algo de profundamente revelador, mas sufocava-me a angústia de ainda não ver o texto em que tudo aquilo se iria inserir. Foi um trabalho longo, minucioso, lento, angustiado, que durou de Março a Maio: três meses suados e bem suados. Acabei, com uma alegria que não há palavras para contá-la, por descortinar o guião geral em que as minhas pérolas singulares se iriam incrustar. Aqueles átomos de descoberta não iriam ficar pendurados, sem se articularem num todo que fizesse sentido. Finalmente eu via o argumento. Mas havia em tudo aquilo um defeito contra o qual não me apetecia lutar: era o meu primeiro livro, mais, era o meu primeiro texto, e era-o sobre um escritor que eu conhecia bem e que me “agarrara” aos quinze ou dezasseis anos, com um livro que nunca mais saíra de mim: Uma Gota de Sangue, primeiro volante de uma vasta e ambiciosa soma romanesca, que viria a ficar incompleta. Como acontece com os primeiros livros, eu queria meter “tudo” logo no primeiro parágrafo: tal era o medo de que se “perdesse” se o não registasse logo ali... Um ou outro período corria assim o risco de sair, não propriamente “rico”, mas sim “atafulhado”...
Escrevia à mão, com letra bem desenhada e, no fim, copiei o texto num caderno de trinta e cinco linhas (salvo erro, não juro, branco), que enviei ao Régio, em Portalegre. Passara as duas últimas noites a escrever, sem dormir, à custa de anfetaminas, de que, depois, nunca mais abusei. E fiquei à espera.
Pelo meio, acabei os estágios, amanhei à pressa e sem grande convicção, os relatórios e recusei, com desenvoltura e alguma leviandade, um bom emprego que me fora lisonjeiramente oferecido, para Alverca: decidira mesmo regressar a África, à minha África, onde tinha espaço, recordações, família, o Nero já enterrado e, quem sabe, amores à espera. Estava farto de Lisboa, de Portugal, da Europa, da pequenez disto tudo. Ir-me-ia embora – o Régio não aprovava – no princípio de Agosto. Entretanto, no meio da agitação que precedia a partida, chegaria a reacção do poeta aos meus trabalhos de Hércules. E, com efeito, com data de 22 de Maio (três dias antes do meu aniversário) veio por fim a carta acusando a recepção do meu manuscrito. Abri-a a tremer. Entre outras coisas, dizia o seguinte, começando com as “cautelas” do protocolo: “Ao fazer um juízo sobre o seu trabalho, tenho de ser muito sóbrio: isto porque – numa certa medida – louvando-o, quase teria a impressão de me estar louvando a mim próprio(...) Só quis dizer que Você é muito amável com as minhas coisas. As restrições também lá estão, por certo, e ainda bem! Mas os meus inimigos dirão que certos aspectos apologéticos excedem em muito as observações restritivas, Mais uma vez passemos adiante. O que não pode ser louvar-me, - é reconhecer eu a penetração, a densidade, o encadeamento lógico, visíveis (e creio que, felizmente, não só a mim!) em todo o seu estudo, e que, aliás, eu já esperava de Você. A forma nem sempre é lapidar, e até possível é que Você não tenha propensão especial para o lapidarismo. Ainda se não vê bem, perante certos seus longos períodos, o que é devido a uma inexperiência natural num jovem escritor, ou o que deriva de uma personalidade. Mas o emprego do termo próprio, justo, já é notável na sua prosa; e devo confessar que, se já esperava de Você as qualidades de inteligência e sensibilidade patentes num estudo tão completo e aprofundado a dentro dos seus limites de extensão, não sabia, por ainda não ter lido nada seu, quais seriam as suas possibilidades de expressão verbal. Vejo que tais possibilidades de expressão já não desmerecem da coisa exprimível. Estou, portanto, e em suma, verdadeiramente satisfeito com o ter escolhido, se me permite falar assim. Quando o livro saia, e me pedir alguém de fora (como já tem sucedido) um estudo que dê uma ideia da minha obra – terei, finalmente, um pequeno volume em que já se diz muito sobre ela.” O elogio, vindo do cauteloso Régio, era de monta. Mas fui particularmente sensível ao facto de ele ter percebido o “encadeamento lógico” do meu texto: sofrera angústias, com o receio de não vir a dar uma articulação de enredo ao conjunto de observações que a obra regiana me suscitara. Temera, sobretudo, produzir um amontoado de “pérolas” sem fio de ligação – e, sem fio, como nota Ortega y Gasset, não há “colar”. A carta de Régio vinha sossegar-me.”
Eugénio Lisboa, Texto lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

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