quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A língua portuguesa que aprendi

 

A língua portuguesa que aprendi não é a língua em que agora se escreve
por Eugénio LIsboa
 
A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
 nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares.
Hipócrates
 
"A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.
Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?
Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!
Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês,  o marido da falecida rainha do Reino Unido.
O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.”
Eugénio Lisboa, em 30.08.2023

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Interlúdio Musical





 Intervalo

Vida em câmara lenta
Oito ou oitenta
Sinto que vou emergir
Já sei de cor todas as canções de amor,
Para a conquista partir,


Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes...


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto aonde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...


Vida á média rés,
Levanta os pés
Não vás em futebóis, apesar...
Do intervalo,que é quando eu falo,
Para não me incomodar.


Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto aonde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...

Perfume e Rui Veloso em Intervalo
O tema "Intervalo", com a participação muito especial de Rui Veloso, foi o primeiro single do disco de estreia do novo projecto de alguns ex-membros dos grandes Ornatos Violeta e dos Blunder, os Perfume.
 
 Rui Veloso, em  Porto sentido, ( Cidade do Porto ).
   
Dulce Pontes & Banda da Armada, em  O Amor a Portugal
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Pensamento para o dia

"O  mundo deve hoje escolher entre o pensamento político anacrónico e o pensamento utópico. O pensamento anacrónico está em vias de nos matar. Por mais desconfiados que sejamos (e que eu seja), o espírito da realidade logo nos reconduz a esta utopia relativa. Quando essa utopia entrar na História, como sucedeu com muitas outras utopias do mesmo género, os homens chamar-lhe-ão realidade. É assim que a História não é senão o esforço desesperado dos homens para dar forma aos seus sonhos mais clarividentes."
Albert Camus, Actuais

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Sermão da Montanha

Manoel de Andrade

Manoel  de Andrade é um profícuo poeta de Curitiba , Brasil. Tem uma vasta obra publicada, iniciada no tempo das lutas estudantis no Brasil, de que se tornou simbólica  A Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, no tempo da ditadura . Obrigado a exilar-se , correu a América Latina, que definhava sob o jugo de governos autoritários. Durante o tempo da diáspora, escreveu empenhados poemas que se condensaram em dois aplaudidos livros de poesia. Após o regresso ao Brasil, publicou as memórias desse tempo de exílio, de bardo guerreiro, que são um poderoso e rico documento da história da América Latina na luta contra a tirania.
Acabamos  de receber, o que nos torna muito honrados,  um novo poema deste extraordinário poeta que confidencia o seguinte: 
“ Há alguns dias fiz um poema sobre o Sermão da Montanha.
   Escrevi algures que
Esta passagem, constante dos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso.
 
O SERMÃO DA MONTANHA
 
Seguido da multidão
Jesus abre o coração
pra dizer sua Verdade.
Aos vindos da Galileia,
aos da Síria e da Judeia,
e pra toda a humanidade.
 
E com uma graça tamanha,
lá do alto da montanha,
todos fomos consolados.
Na humildade e a mansidão,
e os puros de coração,
como os bem-aventurados.
 
E com Seu verbo divino,                  
fez do amor o seu hino                    
pelo amparo e a compaixão.                       
Consolou os perseguidos            
pelos insultos sofridos
e aos que choram de aflição.
 
Abençoou quem tem fome,
e aos que sofrerem em seu nome,
com a divina recompensa.
Bendisse a paz e a concórdia,
o amor e a misericórdia
com as mais sublimes sentenças.
 
Aos doze que o seguiam,
ante as missões que viriam,
deu a pureza e o sabor.
Chamo-os de “o sal da terra”,
 pois o insosso não tempera,
o divino ágape do amor.
 
E no seu saber profundo,
Disse: “Sois a luz do mundo”,
tal qual brilha uma cidade.
Pois não se acende o lampião,
pra se cobrir com um tampão,
mas pra iluminar a Verdade.
 
Veio pra dar cumprimento,
 da Lei, nos Dez Mandamentos,
e nada fique esquecido.
E quem ante a Lei for réu,
passe a Terra e passe o Céu,
tudo há de ser cumprido.
 
 
Ante a lei do Talião
Jesus propôs o perdão.
Nem por olho, nem por dente.
Se te ferirem a direita,
torne a ofensa desfeita
com a esquerda sorridente.
 
Mestre da filosofia,
disse com sabedoria:
Amai vossos inimigos.
Fazei o bem ao rival
ora por quem te fez mal
pra ter a paz como abrigo.
 
No momento da oração,
é no altar do coração
que Deus ouve  teu pedido.
Sem debulhar um rosário,
pede apenas o necessário
e o que for merecido.
 
Jesus no alto do Monte
Fez do Pai Nosso uma ponte
pra buscar o Criador.
Santificando o seu nome,
dando o pão pra nossa fome
e o perdão ao ofensor.
 
Não junte aqui teu tesouro,
que a ferrugem rói o ouro
e onde te rouba o ladrão.
Pela pratica do bem,
faz teu tesouro no Além
e guarda no coração.
 
Nunca descuides de crer
que Deus te há de prover
do que te falta na vida.
Seu amor não deixa ao léu
nem mesmo as aves do céu
às quais não falta a comida.
 
Na poesia do Mestre
 os puros lírios campestres
não conhecem a fiação.
Mas disse que a natureza
as vestem com mais beleza
que o manto de Salomão.
 
Esse é o Sermão do Monte,
tão belo como o horizonte.
Uma canção do humanismo.
É o saber mais profundo
que se conhece no mundo
pela voz do Cristianismo.
          Curitiba, 10 de janeiro de 2026
Manoel de Andrade, poema inédito

A Origem do Conto do Vigário

Fernando Pessoa
UM GRANDE PORTUGUÊS
por Fernando Pessoa
"Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.
Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.
Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as cousas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax."
1926

Fernando Pessoa, in Ficção e Teatro. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 

 - 95.
1ª publ. in Sol, nº1. Lisboa: 30-10-1926; 2ª publ. in Notícias Ilustrado , 2ª série. Lisboa: 18-8-29, com o título “A Origem do Conto do Vigário”

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ao Domingo Há Música

África minha

A África tem isto: é enorme:
ali, nunca se fica apertado.
Mesmo quando parece que ela dorme,
há nela um grande fogo agastado!

A diferença entre ser grande e pequeno
é a mesma que entre oceano e rio:
um ruge e o outro corre ameno,
o rio, manso, o oceano, bravio.
        Eugénio Lisboa,  Soneto modo de usar


África. Quem a quer ama-a pela sua singularidade. 
África que bate em ritmo cadenciado que se repercute pelos espaços abertos que a têm sempre cativa. África dos sons quentes que se insinuam e exalam o fragor da sedução. África é apenas África. Um continente grandioso  que se impõe sem  se  interpor. Não rivaliza , não concorre, não se sobrepõe, não comanda , não se subjuga. É.  Ao ser, África é tempo, espaço, movimento, ritmo, gente . Acalenta e deixa-se acalentar numa imponência discreta que embala e se move em movimento distinto de qualquer outro. Cria , em quem a visita, memórias imperecíveis tão intensas que,  por vezes, se tornam inenarráveis. E, como a memória é um veículo que nos transporta quando o desejamos, decidimos   voltar a África para (re)fruir alguns dos sons que sempre nos surpreendem pela sua beleza natural e genuína melodia. 
África é um imenso , belo e diverso continente que convida a ficar para regressar . A grandiosidade da sua dimensão permite uma enorme riqueza de sons que nos chegam ainda impregnados da largueza das savanas e do doce marulhar dos mares.


Stromae - Papaoutai Official Music @stromae (Afro soul cover video by Khalifa).
   
N’Bala Soro – Epic African Spiritual Chant Music | Cinematic Emotional Soundtrack 
"N’bala Soro é um cântico épico  africano para cinema  que combina ritmo tribal, vocais emotivos e atmosfera sagrada — um hino de luz, perda e renascimento. Composto por Astral Dimensions, capta a profunda essência espiritual de África, onde cada batida de tambor ecoa o pulsar da terra e cada voz carrega uma história de força e união."
 
Echoes of Freedom – Epic African Cinematic Music
   
"Echoes of Freedom é uma peça instrumental africana para cinema, inspirada no espírito de libertação, na memória ancestral e na profunda ligação entre a terra, o ritmo e a identidade. Construída em torno de percussão africana orgânica, texturas tribais subtis e elementos melódicos minimalistas, esta composição permite que o espaço e o silêncio desempenhem um papel central. "
 
Dununba Kɔnɔ | African Ritual Deep Cinematic Music 
"Dununba Kɔnɔ é uma peça musical cinematográfica ritualística africana inspirada nas cerimónias ancestrais com tambores, ritmos sagrados e na ligação espiritual entre a terra, o povo e a memória. Enraizada nas tradições Mandinga, a composição centra-se no dununba, o grande tambor utilizado nos rituais de força, transição e energia coletiva. A música desenrola-se lenta e cerimonialmente, guiada por pulsações profundas do tambor, cantos repetitivos e texturas ambientais amplas. As vozes são utilizadas como um elemento ritualístico, e não como um cântico, formando um diálogo hipnótico que evoca a presença ancestral, a proteção materna e a oração comunitária.  Dununba Kɔnɔ convida o ouvinte a um espaço sagrado onde o ritmo se torna linguagem e a repetição se torna significado."

sábado, 17 de janeiro de 2026

Novidades Literárias e Eventos Culturais


Planeamento Editorial Não-Exaustivo, JAN-JUN 2026


Janeiro

Embaixada a Calígula, de Agustina Bessa-Luís (Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins)

Ciência Pop, de Carlos Fiolhais e João M. Santos

Ensaios, de Thomas Mann

As Confissões de Felix Krull, de Thomas Mann

American Foreign Policy and Palestine, de Hannah Arendt

Eurotrash, de Christian Kracht (nomeado para o International Booker Prize 2025)


Fevereiro

A Universidade, de Maria Filomena Mónica

Onde Queremos Viver, de Djaimilia Pereira de Almeida e Humberto Brito

Aquela Que Esquece, de Ana Teresa Pereira

O Céu em Desordem, de Slavoj Zizek

Espanto, de Zeruya Shalev

Vai e Põe Uma Sentinela, de Harper Lee


Março

The Land in Winter, de Andrew Miller (finalista do Booker Prize 2025)

To Tell a Story, de John Berger e Susan Sontag

O Terceiro Reino, de Karl Ove Knausgård

The Fall of Hyperion, de Dan Simmons

Franny e Zooey, de J. D. Salinger

The Favourite Game, de Leonard Cohen

As Alegres Comadres de Windsor, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)


Abril

Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman's Open AI, de Karen Hao

Longos Dias Têm Cem Anos. Presença de Vieira da Silva, de Agustina Bessa-Luís

Submundo, de Don DeLillo

Henrique VI, Parte I, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)

Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald 

A Perfect Day to Put Your Head in the Oven, de Lee Chia-ying


Maio

Carne, de David Szalay (Vencedor Booker Prize 2025)

The Collected Prose, de Sylvia Plath

Henrique VI, Parte II, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)


Junho

Terra, de Maggie O’Farrell

Pure, de Andrew Miller (autor finalista do Booker Prize 2025)

FILME

A minha noite em casa de Maud

Dom, 25 jan, 16:00, Grande Auditório

 

O segundo momento do ciclo O Poder e a Glória começa com a transmissão de A minha noite em casa de Mauduma comédia romântica de Éric Rohmer, que levanta questões sobre amor, religião e a complexidade das relações humanas. O filme é antecedido de uma conversa entre o curador do ciclo, Pedro Mexia, e o realizador Joaquim Sapinho.
SABER MAIS

CANDIDATURAS ABERTAS

Apoio à criação artística

 

Até 06 mar

Estão abertas as candidaturas ao concurso de Apoio à Criação Artística, dirigidas a artistas com projetos nas áreas de Artes Performativas, Artes Visuais, Cinema e Cruzamentos Disciplinares. Na Delegação em França também decorre um concurso para promover artistas portugueses em vários países europeus.

 

SABER MAIS

VISITA

Zineb Sedira. Cultura e Resistência

 

Sáb, 17 jan, 15:00, Espaço Projeto – CAM

 

Esta será a última visita orientada à exposição em que a artista franco-argelina radicada em Londres, Zineb Sedira, explora as utopias dos anos de 1960 no contexto das novas independências e das lutas de libertação africanas.

 

SABER MAIS

CENTRO DE ARTE MODERNA

Aniversário

 

Sáb, 17 jan, 15:00, Espaço Engawa – CAM, Entrada gratuita

Encontros inesperados, música, leituras, workshops, dança no Bosque (a instalação criada para a exposição Carlos Bunga. Habitar a Contradição), cacau quente para partilhar, entre outras atividades, é o que encontrará, em vários espaços do CAM, neste dia de celebração inspirado no histórico 1.000.011.º Aniversário da Arte (1973), de Ernesto de Sousa, a partir da ideia de Robert Filliou. Um dia de festa, para celebrar a Arte e a Vida.

SABER MAIS

TRANSMISSÃO EM DIRETO

Grande Missa em Dó menor

 

Sex, 23 jan, 19:00, Online


Assista à transmissão em direto da grande Grande Missa em Dó menor de Mozart, com Coro e Orquestra dirigidos por Sofi Jeannin.

 Un manoir. Une famille d'aristocrates. Un passé houleux


« Elle a épuisé ses réserves de chagrin, ne lui reste que ce vide nouveau à l'intérieur – un espace dont elle ne connaît pas encore pleinement les contours. Elle sait seulement que quelque part, au fond de son être brûle une flamme minuscule, si petite qu'elle ne peut la nommer, de crainte que cela ne suffise à l'éteindre.
– Anna Hope, Nos héritages
 « Anna Hope dit avec une rare finesse nos attentes et nos blessures. Notre besoin de consolation parfois impossible à rassasier. » Lire Magazine
« Roman riche, habilement construit jusqu'au coup de théâtre final. » Le Monde
« Hope est une romancière de la nuance, qui excelle à se glisser dans les interstices de l'existence, entre les apparences et ce qui nous hante, nos attentes et nos espoirs déçus. » ELLE
 Le richissime Philip Brooke vient de mourir, laissant derrière lui un patrimoine grandiose : le plus beau manoir du Sussex, datant du XVIIIᵉ siècle et comprenant pas moins d’une vingtaine de chambres, entouré d’un domaine luxuriant de centaines d’hectares. Mari volage et père absent, il n’est regretté ni de sa femme ni de ses trois enfants. En revanche, sa vaste fortune déclenche des conflits galopants dans la famille car chacun veut mettre la main sur cette succession hors norme. Le clan Brooke réussira-t-il à ne pas voler en éclats avant le jour de l’enterrement ?
 Drame familial haut en couleur et en tensions, Nos héritages nous plonge dans les arcanes fascinants d’une famille d’aristocrates britanniques tiraillée par l’argent et les secrets du passé. Anna Hope signe ici son grand retour au roman, qui comblera les lecteurs de Nos espérances.
disponible en livre audio !Lu par Lara Suyeux, Nos héritages explore les liens familiaux, la transmission et les secrets qui traversent les générations. Un roman sensible et profond, porté par une lecture juste et immersive.
À écouter pour se laisser emporter par l’histoire et les émotions des personnages.

Découvrez les premières pages de Nos héritages

Le jour n’est pas encore levé. Frannie est allongée dans la pénombre de la chambre, sa fille Rowan à ses côtés dans le lit. Quelque chose l’a réveillée. Peut-être que le vent a tourné, brassant les feuilles nouvelles, ou peut-être que Rowan a remué dans son sommeil. Sa fille, qui dort si bien maintenant, le souffle lent et régulier, les bras étendus en travers du matelas, mais qui a encore traversé le palier hier soir, perturbée par un cauchemar, en larmes et effrayée. Frannie regarde l’heure sur son téléphone – presque quatre heures. Elle ne dormira plus, c’est une certitude, alors elle se glisse hors des couvertures et attrape le tas de vêtements abandonnés la veille – un jean et un vieux sweat à capuche.
Rowan ne bronche pas quand Frannie s’assoit au bord du lit pour s’habiller, ni quand elle traverse la pièce avec précaution, se frayant un chemin entre les cartons ouverts, les valises et les cadres entassés contre le mur. Une fois sur le palier, elle referme doucement derrière elle, descend l’escalier, emprunte le couloir du fond jusqu’au vestiaire où elle enfile son bonnet, sa veste de travail, trouve dans le noir ses bottes en caoutchouc, les chausse.

Dehors, derrière la masse obscure de la maison, il fait froid et son haleine forme de petits nuages dans l’air immobile. Le ciel est bleu marine, avec une lune jaune à l’ouest. Elle emprunte l’allée qui traverse le potager puis soulève le loquet du portail et pénètre dans le parc. Vers le sud, au creux de la vallée, un tapis de brume flotte sur la rivière et le lac, s’accroche aux broussailles qui bordent le plan d’eau. Frannie hésite sur la direction à prendre, puis se lance à l’assaut de la colline, grimpant à travers les hautes herbes – les tiges ploient sous la rosée, chargées de bouse, de fleurs, de crachats de coucou, masse épaissie de chardons, d’oseille et de séneçon.

Rencontrez Anna Hope, l'autrice de Nos héritages
Anna Hope sera en tournée pour présenter Nos héritages. Plusieurs rencontres sont programmées en librairies, ainsi qu’un rendez-vous en festival : une occasion privilégiée d’échanger avec l’autrice et de faire dédicacer vos exemplaires !


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A 16 de Janeiro de 1605 ...


16 de Janeiro de 1605, publicada em Madrid a obra de Miguel Cervantes , “Dom Quixote “
"Em 16 de Janeiro de 1605, Miguel de Cervantes, então próximo dos 60 anos, publicou em Madrid a primeira parte de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Naquele dia, os romances de cavalaria e a mentalidade medieval como um todo receberam um golpe mortal. No livro, que é considerado a obra fundadora da literatura espanhola, Cervantes narra a saga de um nobre que sonhava com aventuras incríveis de cavalaria mas não conseguia ver a miséria da realidade que o cercava.
A história começa num  vilarejo da região de Castela-La Mancha, vasta planície localizada ao sul da capital espanhola, Madrid. Ali, vivia um Alonso Quijanotambém escrito Alonso Quixano, o verdadeiro nome do fidalgo D. Quixote, tão apaixonado por romances de cavalaria que perdeu o juízo. Certo dia, abandonou a sobrinha, a governanta e os empregados domésticos e partiu, montado num cavalo  de nome  Rocinante, armado unicamente com uma espada e tendo sobre a cabeça uma bacia de fazer a barba como capacete. Providenciados o cavalo e  a armadura, resolve lutar para provar o seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. 
Quixote mistura fantasia e realidade, como se estivesse  num romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.
Inspirado por alucinações, Quijano tomou uma estalagem por castelo, onde se fez armar cavaleiro. Acabou convencendo o seu ambicioso vizinho, Sancho, a se tornar seu escudeiro. Tendo cismado em defender os pobres e oprimidos, não faltariam a ele aventuras reais ou imaginárias: lutar contra moinhos de vento, libertar presos das galés e fazer penitência na cordilheira de Serra Morena. 
É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.
Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.
O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele actua. Cem anos antes, Quixote teria sido um herói a mais nas crónicas ou romances de cavalaria, mas  enganara-se no século. A sua loucura residia no anacronismo. Isso permitiu ao autor fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começava a duvidar de si mesma.
No capítulo VIII do livro, há um episódio emblemático em que Dom Quixote, ao chegar a uma planície, confunde cerca de trinta moinhos de vento com gigantes, decidindo enfrentá-los sozinho. Sancho, o  seu escudeiro, ainda tenta alertá-lo da ilusão, mas Quixote insiste e parte para o ataque a um dos moinhos, sendo derrubado juntamente com o seu cavalo Rocinante por uma das pás.
Em seguida, Sancho vai ao socorro do seu mestre e  questiona-o  sobre como pôde cometer tamanho engano. Quixote responde, insistindo na ilusão, que aquilo era obra do mago Friston, que tinha transformado os gigantes em moinho para impedir a sua glória.
Esse episódio é a origem da expressão "lutar contra moinhos de vento", que acabou por se tornar um termo universal, usado até hoje para descrever situações onde se cria uma percepção errada de um adversário ou de um cenário. O que poderia ser um mero moinho de vento pode ser erradamente ampliado em algo gigantesco, surreal. Traduzindo isto para os tempos modernos, todos nós devemos saber escolher as batalhas que merecem o nosso tempo e a nossa energia. Talvez a chave seja ser um pouco mais como o Sancho Panza e menos como o “cavaleiro da triste figura”, e compreender o que faz andar a mó do moinho.

— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.

Dom Quixote é considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas europeias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola, apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram
As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros)
Em princípios de Maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional."
Fonte "Cais da Memória" e outros.