"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
quarta-feira, 25 de março de 2026
Vamos Ler
domingo, 22 de março de 2026
Ao Domingo Há Música
| Colombo (Sri Lanka) |
| Jardins do Palheiro ( Ilha da Madeira) |
Hanging Garden , Bombaim ( Índia)
Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro , Poesia de Fernando Pessoa (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109
sábado, 21 de março de 2026
Poemas no dia Mundial da Poesia
Liberdade
O poema é
A liberdade
Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Assírio & Alvim
Escrevo o que já pensei.
Em arte , se sofro, minto:
registo o que já não sei.
Fazer é ter já sofrido
o que hoje não é sofrer.
já não faz nenhum sentido,
a dor dita no escrever.
Eu finjo que já sofri,
com arte que sou capaz,
aquilo que eu vivi,
no tempo de ser rapaz.
Viver é um luxo passado,
perdido, já sem sentido,
que eu terei recuperado
no texto agora mentido.
O poeta é um fingidor:
finge tão completamente,
que finge de fingidor,
no momento em que mente.
Londres, 15.05.82
Na primavera tu voltaste de mansinho
finda a tempestade, surgiste na bonança
me conjugando o verbo da esperança
num íntimo gesto de lírico carinho.
Tu foste meu fuzil, o meu canto guerreiro
a voz peregrina acesa no meu peito,
ensina-me a cantar agora de outro jeito
para entoar amor e paz ao mundo inteiro.
Combatente e amordaçada em meu destino
silenciados e por atalhos clandestinos
trinta anos se passaram, dia-a-dia.
Depois a liberdade chegou para o meu povo
mas só agora eu te encontrei de novo
para nunca mais perder-te... ó poesia.
Curitiba, dezembro de 2002
Senti passar um vento misterioso
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.
Todas cousas ermas, que irradiam
como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente
Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério
E tanto me perturba e me extasia!
Estranho vento, em fúria, sem tocar
Na mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!
Vento que só encontras resistência,
numa invisível sombra... Um arvoredo,
Ou bruta pedra, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.
E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates, de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.
Vento que me levou, nem sei por onde,
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!
E vi também a luz indefinida
Que , nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.
E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva nos andrajos de mendiga.
E fui num grande vento; e fui; e vi:
Vi a sombra de Deus. E, alvoroçado,
Deitei--me àquela sombra, e, em mim, senti
Teixeira de Pascoaes, in As Sombras, Círculo de Leitores, Março de 1973, pp.18,19
Viagem
É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
Miguel Torga, in Diário XII, Círculo de Leitores
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.
Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim
quinta-feira, 19 de março de 2026
Poesia em voz maior
Liberdade
— Liberdade, que estais no céu...Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga, in 'Diário XII', Círculo de Leitores
INSTRUÇÃO PRIMÁRIA
Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.
Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...
Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...
Miguel Torga,in Diários- Diário IX, Circulo de Leitores
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!
Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga, Antologia Poética, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 1999
quarta-feira, 18 de março de 2026
Viajar pelo Equador
Talvez seja nos grandes espaços naturais que descobrimos o indício mais venerável e mais excelente de tudo quanto nos ultrapassa.Alain de Botton, A Arte de Viajar
Equador
domingo, 15 de março de 2026
Viajar para além da Taprobana: O estreito de Ormuz
Ao Domingo Há Música
A Grande Montserrat Caballé a cantar “Pace pace mio Dio”, da ópera La Forza Del Destino de Verdi, ao vivo, numa transmissão televisiva a partir de Nova Iorque em 1981, sob a direcção de James Levine.
sábado, 31 de janeiro de 2026
A Particular Tristeza das Ruínas
Tudo isto parece vir muito a despropósito – mas veremos que não vem – do texto que hoje pretendo trazer aqui à vossa atenção: o conto extraído da colectânea, Histórias de Mulheres, de José Régio, e que se intitula «Menina Olímpia e sua criada Belarmina». (Régio, 1978)
Quando se fala em ruínas, pensa-se normalmente em coisas materiais e inanimadas: um palácio, uma casa, um castelo, uma ponte, uma estrada, uma escultura, uma pintura – que já tiveram o seu período de áureo esplendor para passarem, por abandono, descuido e esquecimento e por acção da erosão dos elementos ou da guerra, a um estado de decrepitude e decomposição que a um tempo convocam a nossa pena e a nossa imaginação. O que está por detrás disto? O que levou a isto? Como se passa da glória à inércia da morte e ao oblívio? Foi este tipo de desassossego precipitado no espírito de Gibbon pela contemplação das ruínas romanas que pôs em movimento os rodízios da sua imaginação – e o levou a reconstituir, com trabalho e angústia, o que se terá “realmente” passado para acontecer aquilo a que hoje se chama «o declínio e queda do império romano». Mas há uma outra espécie de ruína, mais quotidiana mas não menos pungente, que normalmente não associamos à dos bens materiais inanimados, mas que não é menos classificável como ruína e que não desencandeia menos em nós o comportamento e a curiosidade arqueológica que costumam incitar as ruínas convencionais: refiro-me às ruínas humanas, isto é, àqueles seres humanos que já tiveram o seu período de esplendor e que depois decaem, não só pelo processo irrecusável da velhice, mas, acrescido a ele, por razões de uma gradativa destituição de meios que acelera e grotescamente apimenta – no pior sentido – o processo de degradação e decomposição. A grande literatura, a grande pintura e a grande escultura dão disso abundante testemunho.
Peço me perdoem a longa citação, mas confesso que perante a exaustiva eloquência argumentativa de Régio, sinto inútil o recurso a quaisquer paráfrases.
Nos contos de Histórias de Mulheres e, em especial, “Sorriso Triste”, “Maria do Ahú” e “Menina Olímpia e sua Criada Belarmina”, a funda empatia de Régio com os “desgraçados”, com os “miseráveis”, com os “repelidos”, com os “ignorados”, com os “malfadados” – revela-se com uma força artística e um teor de funda autenticidade que se nos impôem, não nos deixando dúvidas de que se trata de uma das mais notáveis colecções de ficção curta que regista a nossa história literária.
É à última das ficções acima referidas – “Menina Olímpia e sua Criada Belarmina” – que vamos dedicar alguma atenção. Menina Olímpia – uma ruína que já foi património sumptuário. Uma glória festejada que tombou.
A história que Régio conta é simples, quotidiana e atroz. O narrador – que será também o cicerone-arqueólogo da ruína que dá pelo nome de menina Olímpia – começa a sua narrativa por nos pôr brutalmente em frente do objecto das suas pesquisas, ao sol crú da actualidade: «Passeia-se, às vezes, pelas ruas centrais do Porto, ao cair da tarde, uma estranha figura. A bem dizer, duas estranhas figuras. Porque menina Olímpia nunca deixou de ter criada (aliás sempre a mesma) e a sua criada a acompanha nessas lentas digressões. Lentas? Não só lentas: lentas e solenes, majestosas, sistematizadas, rituais, - quer pelo ar de menina Olímpia quando passeia, quer pela ordem a que submete esses passeios.» (Régio, 1978:125) O narrador, de seguida, compraz-se a dar-nos, com minúcia, o roteiro de menina Olímpia, iluminando-a como se ilumina um monumento assente na eternidade e no hábito, que o passeante espera encontrar, todos os dias, no seu habitat natural: «Na verdade», diz-nos o narrador-arqueólogo, «menina Olímpia nem passeia: passeia-se. Desce a Rua dos Clérigos, depois duns premeditados vagares pela Praça Carlos Alberto, pelas Carmelitas. Ao fundo da Rua dos Clérigos, pára. Olha em redor, quase grave, distante. Passa um ou outro dos seus velhos ou mais recentes admiradores. Menina Olímpia tem admiradores de todas as idades, e em quantidade mais que suficiente. Ergue largamente o seu chapéu, (sobretudo se está bem disposto) saúda-a com uma familiaridade que não exclui o respeito: - “Boa tarde, menina Olímpia!” Ela baixa quase nada a cabeça , com um doairo de rainha embalsamada. Para os preferidos, abre os longes de um sorriso; mas sem descerrar os lábios, porque (nem ela sabe explicar tal contratempo) lhe caíram já alguns dentes mesmo na frente: o que ela acha inútil dar a conhecer.» (Régio, 1978: 125 – 126) O narrador, logo nesta primeira apresentação, vai-nos dando sinais inequívocos, quase tendenciosos, de que estamos diante da inconfundível majestade de uma ruína venerável: o ar «quase grave, distante» de menina Olímpia; os seus «premeditados vagares»; a falta «de alguns dentes»; o seu baixar de cabeça «com um doairo de rainha embalsamada»... Mais adiante, dirá que os passeantes que observam, de soslaio, menina Olímpia, notam, na sua divagação majestosa, «uma espécie de exibição teatral». Ao que o narrador comenta, irónico: «E por certo, menina Olímpia é muito digna de se exibir.» (Régio, 1978: 127)
Falei propositadamente de narrador-arqueólogo, por certo um conceito que não ireis encontrar nos dicionários de narratologia nem nas celebradas Figures, de Gérard Genette. Mas já se disse de Freud que «o [seu] gosto pela Antiguidade jamais o deixará e [que] a psicanálise será ela própria concebida como uma forma de arqueologia: na presença das ruínas o investigador pode de facto contentar-se com examinar o que se encontra a descoberto, “mas pode também proceder de outro modo (...), afastar o entulho e, a partir dos restos visíveis, descobrir o que está escondido”». (Blain, 2006: 30) É precisamente o que faz o narrador do conto de Régio: vai, aos poucos, “afastar o entulho”, descobrindo, para nós, a história patética daquela ruína ambulante, que já «[fora] linda, por altura dos seus vinte e cinco.» (Régio, 1978: 129) O “entulho” são aqueles trapos grotescos que menina Olímpia desenterrara dos seus baús velhos de quase quarenta anos, trapos fora de moda e já carcomidos, mas que ela teima em ver nimbados com o esplendor que outrora tiveram e com os quais «se passeia» pelas ruas do Porto, exibindo-se fora do tempo e da realidade. Menina educada e amimada, filha de um juiz e namoradeira, embora inocente, menina Olímpia perdera o pai, por morte, e a mãe que dera, vagamente, «um mau passo». (Régio, 1978: 134) O noivo, enciumado, partira para uma África das patacas e nunca mais regressara: «a derrocada sobreveio», nota o narrador-arqueólogo, «quando todo o belo recheio da casa foi roubado, empenhado, vendido ao desbarato, perdido, - ficaram uns baús cerrados com esses restos do antigo esplendor. Talvez previdência de Belarmina, velha criada na casa. Depois, os próprios baús foram vendidos. Mas, ainda bem!, salvaram-se os vestidos, os sapatos, os chapéus, até leques e luvas, até capinhas, bichos para o pescoço, - e o lindo livro de missa que menina Olímpia ainda hoje leva ao Carmo...Que, sem isso, como pudera continuar menina Olímpia a vestir decentemente? Verdade se diga que também dessas coisas foram algumas vendidas, mais tarde, à Beatriz Malandra, que faz negócio de roupas usadas, trastes velhos, objectos em segunda mão. Graças a Deus, ainda tinham ficado roupas e adornos de sobra!» (Régio, 1978: 134 – 135) Menina Olímpia fora envelhecendo desfasada do tempo – quando a narrativa se inicia anda pelos sessenta e a sua criada Belarmina, pelos setenta. Porque «é evidente», sublinha o narrador, «nunca mais terem passado os anos, para menina Olímpia, depois dos seus vinte e cinco.» ((Régio, 1978: 129) Envelhecer é todo um programa e envelhecer bem é um programa ainda mais complicado. «Poucas pessoas sabem ser velhas», dizia La Rochefoucauld (La Rochefoucauld, 1950: 306). Com menina Olímpia – do alto dos seus improváveis sessenta anos – não se tratava sequer de saber ser velha: ela sabia que não era velha. Por isso desenterrava do passado – que, para ela, continuava a ser presente – os ingredientes particulares com que alimentava, diz o narrador, «o capricho do seu gosto e o imprevisto arrojo das suas toilettes». (Régio, 1978: 127) De tais ingredientes, dá-nos o nosso Gibbon portuense um gostoso inventário, que só um arqueólogo treinado na observação atenta de minúcias poderia agenciar: «Plumas esgarçadas, com raminhos de flores que mais parecem das coroas dos defuntos, - não fora melhor substituí-los por qualquer mantazinha mesmo coçada, até por um lenço? E aqueles sapatos cambões, de cetim safado; aquelas guarnições já não muito limpas; aqueles vestidos claros usados em qualquer estação¸ aquelas esburacadas luvas de renda; aqueles bichos e peles sem pêlo; aquelas golas e capinhas doutras modas, - pois não fora melhor vendê-los ao homem dos trapos, (de certo, já nem a Beatriz Malandra os quereria) e, agora que a menina ia tendo mais idade, usar antes uma saia vulgar, um casaquito, mesmo em segunda mão, uma coisa de lã para o inverno...?» (Régio, 1978: 135) Nesta reserva feita ao bom senso de menina Olímpia – peço-vos que não vejais uma imperdoável quebra de neutralidade desejável num cientista-arqueólogo, guardando-se, tanto quanto possível, de juízos de valor. Mas neste «pois não fora melhor vendê-los ao homem dos trapos», o narrador está apenas a transmitir-nos aquilo que pensava a dedicada Belarmina e «o que toda a gente mais ou menos pensa(va) na Ilha.» (Régio, 1978: 135 – 135)
É verdade: menina Olímpia, aquele ambulante património cultural do Porto, recolhia, à noite, à sua miserável espelunca no mais degradado bairro nortenho: a Ilha. Mas, ainda assim alheada desse ridículo pormenor – a espelunca em que vivia – menina Olímpia pura e simplesmente não compreendia a bondade dos reparos de Belarmina ou, sequer, de que estava ela a falar. «Fora preciso», nota o arqueólogo-narrador, quase com embaraço, «[fora preciso] Belarmina expressar-se o mais claramente possível...» (Régio, 1978: 136) Ruína que se não vê como ruína – virada que está sempre para o seu passado de esplendor – instalada no conforto da sua alienação, a velhice, como observou o sage Oliver Wendell Holmes, «é como um sonho provocado pelo ópio: nada parece real a não ser o irreal.» Menina Olímpia, apinocada nos trastes carcomidos de há quase quarenta anos, bebe irreal, respira irreal, alimenta-se de irreal. Tal como as ruínas que Gibbon visitou se vestem de uma aura que já lá não está mas exigem a nossa admiração e cumplicidade, assim a carcomida e engelhada menina Olímpia sabia que era mais do que aquilo que parecia e exigia dos que a cercavam a vénia que a grandeza naturalmente convoca. Para ela, o quotidiano era festa ambulatória: passeava, passeava-se, exibia-se, colhia cumprimentos como quem colhe tributos e ignorava as chufas porque “sabia” que a grandeza sempre segrega a troça. Menina Olímpia, envolvida por uma bola de irreal, de certo modo, divertia-se. O escritor latino Publilius Syrus, contemporâneo de Cícero e autor de cerca de 700 versos parodísticos de 6 a 7 pés de medida, observou, com humor saturnino, que «a morte se ri enquanto as velhas senhoras se divertem». Podia ser que a morte andasse por ali perto, mas menina Olímpia, por um lado, sabia-se de certo modo imortal, por outro, havia nela como que um dever de se mostrar, de se exibir: pois não sabia muito bem os deveres que se tem para com a sua própria grandeza? Por isso reagiu mal aos conselhos de Belarmina no sentido de se vestir com um pouco mais de discrição: «Quando compreendera,» diz-nos o narrador, sempre escrupuloso e minucioso, mesmo em momentos de grande delicadeza, «[quando compreendera], menina Olímpia esganiçara umas risadas de escárneo, tivera uns gestos frenéticos, falara – pela primeira vez – na diferença de condição que as separava, nivelara as suas opiniões dela, Belarmina, com as dos garotos da rua e gente de baixa estirpe, sem a mínima educação nem compreensão... Felizmente! Felizmente, ainda havia cavalheiros capazes de entenderem esta coisa simples: que uma menina de boas famílias, criada na melhor sociedade, se não sinta obrigada a apresentar-se miseravelmente pelo facto de a família ter sido infeliz, e os amigos da família se terem portado como vilões. Reparasse ela ao menos, bruta! (chegara a chamar-lhe bruta!) reparasse ela ao menos, bruta!, como a cumprimentavam respeitosamente os cavalheiros capazes de compreenderem tais casos... Vá que fizessem comentários as tristes criaturas da vizinhança, - gente que nada sabia da sua vida, nem nunca tivera princípios. Agora ela, Belarmina, ela, que servira em casa de seus pais, e sabia como tudo se passara. De ela não esperara tal estupidez, não esperara! E até era arrastada a falar-lhe como nunca julgara ter de lhe falar.» (Régio, 1978: 136)
Repare-se que menina Olímpia perdoa tanto menos a incompreensão de Belarmina quanto esta «sabia como tudo se passara», isto é, conhecia bem o passado de esplendor de menina Olímpia. A vocação da ruína presente é desviar – e fazer desviar – os olhos do presente, focando-os no passado. O presente é apenas um ponto de partida, um pretexto – para uma viagem ao tempo em que tudo era sol. O Capitólio carcomido é apenas um chamariz – que levou Gibbon a uma frutuosa viagem à Roma de outros tempos. Para uma Belarmina «que sabia» não havia desculpa para o facto de se associar aos ignaros – aos que ainda não sabiam – na troça que faziam ao modo de vestir-se de menina Olímpia. O arqueólogo que se depara com restos humanos soterrados em Pompeia não troça – exulta. O mesmo não fará uma criança ignorante ou um vagabundo boçal. Saber – não convoca a troça. «Sem dúvida,» nota o narrador, «fora menina Olímpia magoada num daqueles pontos melindrosos, profundos, complexos, como todos temos, e mais intimamente se relacionam com os nossos sonhos e particularidades.»(Régio, 1978: 136) Por outras palavras, as ruínas não aceitam os que não sabem. A ruína está ali para os que sabem ou para os que querem saber. Numa bela passagem da sua ficção, A Ruína, Gomes Fernandes, falando de um prédio em ruínas, observa: «No seu estatuto de prédio em ruínas, de passado que já não despertava interesse e cavername abandonado, ele sofria em silêncio, porque isto do sofrimento não é só uma prerrogativa dos humanos, ou mesmo de outros animais bafejados pela atenção do homem. Sofria com uma dimensão de resistência a que poucos davam importância, distraídos como andamos todos pelo nervoso ritmo do quotidiano e pela alienante indiferença para que ele remete.» (Fernandes, 2004:11) Este sofrimento da ruína que se sente alienada está na origem daquela melancolia a que alude Camilo, num dos seu mais belos romances, o Romance dum Homem Rico: «A tristeza das ruínas» diz ele, «é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conta isto mesmo no semblante das pessoas que foram comigo a visitar um palácio derrocado, ou as alpendradas dum convento, ou algum lanço empenado de muro de castelo.» (Branco, 1992: 23)
A tragédia da alienação de menina Olímpia é uma tragédia a que nós assistimos mas de que ela se desvia por não querer ver. Mas faz-nos lembrar, parafraseando Wilde, o Maupassant que escrevia simultaneamente tragediazinhas em que toda a gente é ridícula e comédias amargas de que não podemos rir-nos por termos os olhos encharcados de lágrimas. Entre o trágico ridículo e o cómico amargo se move este singular património portuense, sustentado, aqui e ali pela solenidade irónica, mas compassiva, do estilo do narrador.
Gerir e acarinhar o património de ruínas é necessário mas dispendioso e é muitas vezes necessário recorrer às esmolas monetárias dos mecenas de serviço: todo o património construído que os portugueses semearam pelas sete partidas do mundo tem sido retocado e re-solidificado graças à bolsa omnipresente da Gulbenkian. Também a gestão da ruína que dá pelo nome de menina Olímpia exige de Belarmina – fiel curadora daquele património – que se humilhe até ao ponto de ir às escondidas da ama, mendigar, nas ruas do Porto, as moedas necessárias para sustentar o que resta de aparato no escombro ambulante que é menina Olímpia, esplendor de tempos passados. Neste preciso ponto, o narrador atinge um ponto culminante de expressividade narrativa que faz, desta obra de José Régio, uma das mais notáveis ficções curtas de toda a nossa história literária: «[Belarmina]», conta ele, «procurava as esquinas das ruas circunvizinhas, os recantos, os portais; e, afoitando-se com as sombras que vinham descendo ou as névoas que se erguiam dos lados do rio, lamuriava umas palavras tímidas, embaraçadas, estendendo a mão à caridade pública. O seu casaquito preto já verde, o seu ar humilhado e aflito, a sua visível falta de prática na mendicidade, (pois quem alguma vez diria a Belarmina que teria de descer àquilo?) não deixavam de lhe conquistar a simpatia dos transeuntes.» (Régio,1978: 147) Mas logo o narrador salta do pathos dilacerante para a iluminada ironia, indiciadora de uma espantosa capacidade de sobrevivência que a manutenção empenhada de Belarmina propiciava: «Às vezes, aquilo rendia. Várias dessas noites, menina Olímpia e ela tinham os seus goles de vinho fino, pão, queijo, figos passados, até biscoitos doces. Tasquinhavam as duas, felizes, encolhidas no canto menos húmido do cubículo; e menina Olímpia falava, falava...» (Régio 1978: 147) Menina Olímpia falava, menina Olímpia fala, continua a falar para nós. O conto de Régio não se fecha, não tem conclusão, suspende-se. O narrador deixa-nos com menina Olímpia, no acto de ela falar, de ela sonhar, de se reinstalar, pelo império da alienação, num passado que já não é mas que, para ela, continua a ser. Menina Olímpia permanece. Do alto de sua majestade esfarrapada, menina Olímpia desassossega-nos e a sua ruína eternamente presente incendeia a nossa imaginação e o que em nós resta de simpatia humana, propulsando-as para esplendores antigos que o tempo gastou; tal como a majestade esburacada do Capitólio e do templo de Júpiter ateavam fogo ao espírito acolhedor de Gibbon e o incitavam a uma viagem de exploração grandiosa pelo declínio que se sucedeu ao esplendor do império romano. Menina Olímpia, fisicamente degradada e embrulhada em vestes carcomidas, é tanto património arqueológico do Porto quanto o Coliseu carcomido o é de uma Roma que lhe corresponde. A arqueologia do humano tem o mesmo direito de cidade que tem a arqueologia do construído. A carne macerada de Olímpia contém tanta história decifrável quanto a pedra martirizada da civitas romana. É tudo uma questão de fazermos um bom e ousado uso da nossa imaginação."
GIBBON, Edward (1948 [1796]). Autobiography. London: Everyman’s Library / J. M. Dent & Sons Ltd.
BRANCO, Camilo Castelo (1992 [1861] ). Romance dum Homem Rico. Lisboa: Cotovia.
FERNANDES, Gomes (2004). A Ruína. Porto: Caixotim
FLEISCHER, Alain (2001). «As ruínas do tempo». In As Ruínas – ciclo e catálogo comissariados por Dominique Païni. Lisboa: Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, 53-58.
LA ROCHEFOUCAULD (1950 [1665] ). «Réflexions ou Sentences et Maximes Morales», In Œuvres Compl`tes. Paris : Bibliothèque de la Pléiade, NRF, Gallimard, 241-320
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Sobre Mona Lisa ou Gioconda , a obra de Leonardo da Vinci
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Um passeio por Lisboa no século XVIII
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Poesia em voz alta
domingo, 25 de janeiro de 2026
Ao Domingo Há Música
Neste domingo, os registos musicais são um conjunto de êxitos que marcaram uma geração. Canções de vozes diversas que, no mesmo universo, tinham a capacidade de acordar a alegria , a fantasia, a vontade de viver ou seja a celebração da vida. Uma extensa compilação que trará a memória desse tempo em que todos ainda sonhavam com um mundo melhor.
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