quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Morituri Te Salutant


Ave Caesar, Morituri te Salutant, pintura de Jean-Léon Gérôme (1859)
                             
MORITURI TE SALUTANT
 
Nem o sol nem a morte se encaram
de frente, disse-o um moralista.
Quando todas as esperanças se apagaram
e nada já ofusca a nossa vista,
 
o sol e a morte não amedrontam
e os que vão morrer vos saúdam:
há muito tempo – os anos não se contam - ,
dizendo: “Morituri te salutant”,
 
os gladiadores olhavam a morte
de frente e caíam, olhando o sol.
Havia que dar ao morrer um porte
 
que desse, a gente de um pequeno escol,
a arte de morrer bem levantado,
mesmo sendo o gesto desperdiçado.
                                   01.09.2022
Eugénio Lisboa 

Gato que dorme na praia

Foto de Onésimo Teotónio Almeida

Um gatinho deitado na praia,
tendo em fundo o mar azul sossegado,
impede que o universo descaia
e saia do seu rumo calculado.
 
O sossego do gato é agulha
de bússola que nunca se engana:
a dormir, tranquilo, o gato patrulha
a paz universal, doce nirvana.
 
Um gato que dorme cuida tão bem
do estado saudável do mundo,
que se torna óbvio que não convém
 
retirá-lo do seu sono profundo.
O gato que dorme, a tudo alheio,
mitiga, com beleza, nosso anseio.
                               28.08.2022
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

O Mar , a Praia, a Póvoa do Varzim

 


O vento enchia o Mundo. Mal deixava

lugar para a tremenda voz das ondas.

Mas era o Mar apenas que se ouvia.

                                                                                Sebastião da Gama


Todos os verões passávamos uma grande temporada na Praia. O mês de Setembro fazia sempre parte dessa temporada, além de largos dias do mês de Agosto.
Enquanto vivi na Quinta, era a Póvoa do Varzim a nossa praia. Os meus pais tinham os amigos que, com eles, se acertavam para passarem o mesmo período na praia. Era uma longa fila de barracas ocupada por  famílias conhecidas ou/e amigas. Alinhava-se em frente ou junto ao Diana Bar. Para nós crianças, era o tempo do reencontro e do convívio. O tempo que nos trazia os amigos e o Mar. Um tempo que nos marcaria de diferente vivência. Estar na casa da praia, não era comparável a tempo algum passado na Quinta. Todos os encantos e ritos eram, em tudo, diferentes, ou  apenas outros. E como nos atraíam e nos faziam sentir  seres ainda mais felizes.
Fui , este ano de 2017, à Povoa do Varzim a um evento literário, Correntes d’Escritas, que penso ser considerado o festival literário mais importante da cidade , talvez  do país. Homenageava-se o maior crítico literário da actualidade, Eugénio Lisboa, que lançava um novo volume complementar aos cinco tomos das suas valiosas Memórias, “Acta Est Fabula”. Transcrevo um excerto dos textos que compunham a Revista do Festival que era dedicada a este grande escritor, que me dá o privilégio do  ser meu amigo:

 

“(…) Eugénio Lisboa, desde cedo, manteve uma relação com a Póvoa de Varzim, tendo em conta a sua ligação a José Régio que, como se sabe, escreveu grande parte da sua obra poética no Diana Bar.

Foram muitas as correspondências trocadas entre ambos, desde cedo.

Foi o próprio poeta que escreveu a Eugénio Lisboa, em carta de 19 de Fevereiro de 1968: «De manhã, depois das dez horas, ou estou em casa (...) ou no Diana-Bar da Póvoa, onde nos encontrámos da última vez. No Diana-Bar, de manhã, estou em baixo, no primeiro piso. À tarde, geralmente no segundo piso, que a gente chama a Galeria. Dessa última vez, foi aí que nos encontrámos».

O anterior encontro tivera lugar no Verão de 1963 e incluíra uma visita conjunta à Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide. Eugénio Lisboa há-de recordar tais momentos, em carta de 4 de Agosto de 1964: «Tenho imensas saudades dos dois escassos dias que passei em Vila do Conde/Póvoa, o ano passado». E há-de celebrar, anos mais tarde, o apaixonado camilianismo dos dois visitantes, num luminoso ensaio a que deu o saboroso e evocativo título de «‘Coisas Nossas’. José Régio e Camilo: a love for all seasons», ensaio hoje disponível no seu Ler Régio.

No Diana-Bar, edifício modernista do final dos anos trinta, plantado no areal da Póvoa de Varzim e virado para a antiga Praia de Banhos, funciona desde 2002 um dos pólos daquele modelar equipamento cultural que é a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto onde, em recente sessão comemorativa dos seus 25 anos, tive oportunidade de tratar o tema «Livros: difícil é lê-los». Todavia, durante seis décadas, o velho e belo Diana-Bar foi um lugar selecto de encontros estivais e de tertúlias intelectuais, onde José Régio escreveu muitas das suas páginas, como ainda hoje é recordado no próprio local. (in “Música no Diana Bar” texto de Jorge M. Martins publicado na Revista Correntes D’ Escritas 2017, cujo dossiê é dedicado a Eugénio Lisboa)

Fui à Povoa. Já, por lá, passara, ocasionalmente, em variadas épocas. Nesta viagem,  queria ter tempo para uma romaria da saudade. Pretendia calcorrear as ruas da cidade, em busca do tempo que fora meu, ali. Vã esperança. Apenas o areal e o mar  permaneciam  na infância da minha vida. Souberam manter-se indiferentes  às falácias do progresso. A geografia da cidade alterara-se com a invasão de um betão armado que fizera da vila um aglomerado turístico e balnear igual a muitos outros que proliferam pelo país  e por esse   mundo fora. A bela Avenida dos Banhos estava, agora, delimitada por uma muralha gigantesca de edifícios em série , irmanados na mesma linha arquitectónica que  faz deles objecto de rendimento financeiro. O turismo de massas , a grande aspiração que transformou muito dos nossos mais belos recantos do litoral em grandes metrópoles de consumo social.

Sobre essa transformação, retiro, do meu Diário de Bolso,  excertos de duas  entradas de Fevereiro, quando fui à Póvoa:

 

21.02.2017

(…) Lanço-me, um tanto confusa, em viagem de reconhecimento pela Avenida dos Banhos. Junto ao areal, onde criança passei alguns verões memoráveis, existe ainda o Diana Bar. É agora propriedade da Câmara Municipal. 

Tudo o que compõe esta avenida é novo. Betão armado dando forma a uma fila interminável de prédios iguais a muitos outros que despersonalizaram a costa portuguesa. A política de massificação generalizou-se partout, tornando as nossas praias em lugares fantasmas no Inverno e gaiolas lotadas e insuportáveis no Verão. Resta o Mar, impassível e sobranceiro à  mudança.

 

 

22. 02. 2017

Pela manhã, em romaria de saudade, tento descobrir a Póvoa de Varzim da minha infância. Quase tudo mudou, impedindo reconhecer a casa que sempre nos acolheu. Foi demolida, bem como o jardim que compunha um largo fronteiro. A Póvoa é uma nova povoação que, como muitas outras cidades costeiras, sofreu uma mudança radical.

 

Mas a Póvoa do Varzim era bela e diferente. Mal passávamos Vila do Conde, onde vivia o Tio Eduardo, a vontade de chegar ao nosso destino tornava o tempo uma eternidade. Nem sei explicar como era agradável a viagem para lá. Apenas os últimos momentos nos excediam pelo desespero, que só as crianças sentem. Queríamos já ter chegado. E quando a maresia começava a entrar forte e intensa pelas janelas abertas do automóvel,  sabíamos que faltava muito pouco. Impacientes, lançávamos os olhos em jeito de reconhecimento e de júbilo renascido.
A chegada era sempre saudada com intensa alegria, embora disciplinados obedecêssemos às instruções que nos eram dadas. Mas não havia quem nos sustivesse, assim que entrávamos na casa da praia. A corrida era sempre a mesma, repetia-se : verificar cada divisão, olhar cada grande ou pequeno objecto que identificava aquele espaço e chegar ao quarto para nos reapropriarmos de um lugar que nos pertencia, que era nosso.
Nesse dia, nunca havia tempo para ir a banhos, à praia. Quando já estávamos instalados, os nossos pais levavam-nos a dar um passeio pela Avenida dos Banhos e Passeio Alegre , onde estavam o Grande Hotel da Póvoa e o Casino. No Largo fronteiriço, havia uma improvisada loja de aluguer de bicicletas de todos os tamanhos e feitios. Ficavam–me sempre presos os olhos naquelas bicicletas . Foi ali que dei as primeiras pedaladas. Quando deixámos de ir para a Póvoa já sabia andar de bicicleta, com perícia e desenvoltura.
Ganhei também, ali, a minha primeira bicicleta. Quem ma ofereceu foi um dos amigos do meu pai, que acabara de ganhar à roleta no Casino, e se deparou comigo e com o meu pai, no Largo, junto às bicicletas.
Magnânimo, considerou ser o momento de repartir com a filha do amigo um prémio que lhe coubera em dia de  sorte, nos ditos jogos de azar. Como sabia do meu fascínio pelas bicicletas , obsequiou-me sem qualquer hesitação.
Exultei de alegria e fui recebida, com verdadeira estupefacção por todos, quando cheguei  a casa , a pedalar na bicicleta.
Passou a ser um dos objectos mais cobiçados até ao dia em que duas novas bicicletas vieram aumentar o espólio velocípede da casa.

Nos registos escritos do século XIX, a Póvoa do Varzim aparece como uma estância onde o jogo da roleta já se praticava e vitimava muitos curiosos. Era uma vila que crescera e ganhara notoriedade pelas suas águas , ricas em iodo, e também  pelas diversões e comércio que oferecia.  
Alberto Pimentel, em “O que anda no ar”, obra publicada em 1881, pela Empreza litteraria de Lisboa, escreve o seguinte:
 “Povoa de Varzim. A mais movimentada de todas as praias que eu conheço. Parece uma peça de Sardou. Ha lojas cheias de gente e gente para encher as lojas. Falla-se, descute-se, joga-se, dança-se. Há animação. A noite, a villa enche-se de luz e de murmúrios. Tem um aspecto venesiano, vista do mar. O amor faz ali cincoenta casamentos por anno; mas as victimas da roleta são em muito maior numero. Alguns namorados sahem de lá com lagrimas nos olhos—como os batoteiros. Por terem perdido muito ou por terem ganho demasiadamente .. . N'este ultimo caso, as lagrimas são de remorso.” (Nota – o jogo praticava-se no Café Chinês e no Café David)
 
Também O Occidente n.º 119 de 11 de Abril de 1882, acompanhando uma gravura da “praia do Pescado”:
“Esta villa, qua ainda não ha muitos annos, era de pouca importancia, tem tomado nos ultimos tempos um grande desenvolvimento, já pelo augmento da sua industria de pesca, já porque é hoje uma das melhores praias de banhos procurada por nacionaes e estrangeiros.”
 
Para nós, a vida na praia orquestrava-se melodicamente. Quero eu dizer, que tudo era uma celebração harmoniosa. Um tempo que corria célere e que nos deixava uma saudade que se consumia o ano inteiro. Apesar das inúmeras visitas que fazíamos à Praia , ao longo do ano, não existia qualquer  termo de comparação com esses meses de autêntico festim .
Maria José Vieira de Sousa, in O Livro que Já escrevi, pp.39-43 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Até sempre


Livres Pensantes vai fazer uma pausa. Em jeito de despedida, apresenta uma  colectânea de temas musicais de John Barry que tão bem ilustrou muitas das telas de cinema que nos encantaram. 
Até sempre!

 
John Barry (1933 - 2011), natural da  cidade de York, norte da Inglaterra, foi um compositor e maestro britânico que compôs  bandas sonoras  para mais de 100 filmes e programas de televisão. Foi ele o autor da banda sonora de onze filme , com o icónico espião de Ian Fleming, James Bond: Dr. No, From Russia with Love, Goldfinger, Thunderball, You Only Live Twice, On Her Majesty’s Secret Service, Diamonds Are Forever, The Man with the Golden Gun, Moonraker, Octopussy, A View to a Kill, and The Living Daylights. 
Durante a sua  carreira de compositor,   conquistou cinco Oscars por Born Free ( melhor partitura e melhor música); The Lion in Winter, Out of Africa (1985) e Dances with Wolves (1990), além de indicações para Mary Queen of Scots (1971) e Chaplin (1992).As outras bandas  sonoras incluem Zulu (1964), The Ipcress File (1965), Midnight Cowboy (1969), Somewhere in Time (1980), Body Heat (1981), Peggy Sue Got Married (1986) e Enigma (2001). Também compôs para o teatro, incluindo os musicais de sucesso moderado Passion Flower Hotel (1965) e Billy (1974). Ganhou  quatro prémios Grammy, o de  melhor performance instrumental de jazz, big band, pela banda  sonora do filme The Cotton Club (1984). ). Em 1998, John Barry foi inscrito no Songwriters Hall of Fame; em 1999 , nomeado Oficial da Ordem do Império Britânico (OBE), no Palácio de Buckingham por serviços à música, e recebeu o Prémio de Bolsa da Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA), em 2005. Também em 2005, o American Film Institute classificou a pontuação de John Barry para Out of Africa com o  No.15 , na  lista das maiores pontuações de filmes.

Temas desta colectânea:
-The John Dunbar Theme (From “Dances with Wolves"). Performed by the Royal Philharmonic Orchestra 
-Main Theme (From "Out of Africa"). Performed by the City of Prague Philharmonic -Orchestra Instrumental Suite Theme Performed by the City of Prague Philharmonic Orchestra 
-Theme (From "Somewhere in Time"). Performed by the City of Prague Philharmonic Orchestra 
-Give me a Smile .Performed by the English Chamber Orchestra
-Flying over Africa. Performed by the London Symphony Orchestra Richard Kaufman, Conductor
- Lullabying. Performed by the English Chamber Orchestra 
- Chaplin: Smile (From the Original Motion Picture Soundtrack)
-The Old Woman (From “Somewhere In Time”). Performed by the City of Prague Philharmonic Orchestra
- Winning. Performed by the English Chamber Orchestra

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Noruega - Terra do Sol da Meia-Noite

 

Noruega - Terra do Sol da Meia-Noite, por Man and Drone (4K) 
"Tendo construído uma autocaravana durante o confinamento, garanti que a Noruega fosse um dos primeiros grandes testes para isso. Escolhi a rota mais desafiadora, apanhando a balsa de 'Hirtshals' na Dinamarca para 'Kristiansand' na Noruega, depois ziguezagueando pela área de Fjordland até Lofoten Isles e, em seguida , Nordkapp (o ponto mais distante da Europa). A viagem foi principalmente para testar a minha van e voltar à natureza após um hiato de quase 3 anos. Os vídeos do drone foram meramente complementares. 
Do sul do Reino Unido, a distância total percorrida  foi de aproximadamente 6.000 milhas. A viagem de volta de Nordkapp (não filmada) foi pela Finlândia e toda a extensão da Suécia, em seguida, seguindo pela ponte Øresund de Malmo a Copenhague, pelo resto da Dinamarca e norte da Alemanha, Holanda, Bélgica e França. Dunkirk Ferry de volta para Dover, Reino Unido.
Filmado durante 24 dias em Maio no drone Mavic 2 Pro. 
Maio é uma boa altura para visitar a Noruega, mas tenha em atenção que muitas estradas de montanha ainda estão fechadas, pelo que alguns locais não estarão acessíveis até ao final de Maio e início de Junho. 
Em Maio / Junho e Julho terão 24 horas de sol nas regiões mais ao norte." Man and Drone 

domingo, 7 de agosto de 2022

Morreu Ana Luísa Amaral

 
 Ler Mais Ler Melhor: Vida e Obra de Ana Luísa Amaral

"A poetisa , ensaísta ,  tradutora Ana Luísa Amaral morreu na sexta-feira à noite, ( 5 de Agosto), aos 66 anos, vítima de cancro.
A cerimónia fúnebre está marcada para domingo no Tanatório de Matosinhos. O velório realiza-se este sábado, a partir das 17 horas, na Capela do Corpo Santo, em Leça da Palmeira, onde a poetisa residia, segundo um comunicado da Universidade do Porto (UP). Autora de mais de trinta obras de poesia, teatro, ficção e literatura infantil, publicadas em vários países, Ana Luísa Amaral era também investigadora e professora aposentada da Faculdade de Letras da UP.
Numa nota de pesar, o Reitor da Universidade do Porto recorda a docente e escritora como "uma autora extraordinária, uma académica distinta e uma cidadã empenhada". "A sua obra literária irá certamente garantir que o nome de Ana Luísa Amaral perdurará para todo o sempre, mas quem teve o privilégio de a conhecer de perto terá a memória de uma pessoa generosa e uma ativista dedicada às causas da igualdade e da solidariedade social", referiu António de Sousa Pereira.
Foi a figura homenageada na edição deste ano da Feira do Livro do Porto, numa cerimónia que decorreu nos jardins do Palácio de Cristal, no mês passado. Na ocasião, disse estar "felicíssima" com a distinção - que somou à Medalha de Ouro da Cidade do Porto - e não poupou elogios a Rui Moreira. "Tenho muita pena que nos vá deixar, com o tanto que eu o admiro", disse. E acrescentou: "As pessoas com alguma visibilidade têm obrigação cívica de se empenhar do ponto de vista político, e também com as questões das mulheres e com os retrocessos como o que está a acontecer nos Estados Unidos".
Ana Luísa Amaral teve uma carreira literária distinguida e premiada, em Portugal e no estrangeiro, onde os seus livros foram publicados, em países como Brasil, França, Espanha, Suécia, Itália, Holanda, Colômbia, Venezuela, México e Estados Unidos da América, estando ainda representada em diversas antologias. Foi distinguida, entre outros com o Prémio Literário Casino da Póvoa (2007), o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi (2007), o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (2008), o Prémio Rómulo de Carvalho/António Gedeão (2012), o Premio Internazionale Fondazione Roma: Ritratti di Poesia (2018), o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho (2018), o Prémio Literário Guerra Junqueiro (2020), o Prémio Vergílio Ferreira (2020), o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, ou o Prémio Literário Francisco de Sá de Miranda (2021).
Licenciada em Germânicas e doutorada em Literatura Norte-Americana pela FLUP, Ana Luísa Amaral era investigadora nos campos da Literatura e Cultura Inglesa e Americana. Foi estudiosa da obra de Emily Dickinson e distinguiu-se como referência internacional nos Estudos Feministas, com o importante ensaio realizado em coautoria com Ana Gabriela Macedo "Dicionário da Crítica Feminista".
Estando atualmente aposentada, exercia as funções de membro da Direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, no âmbito do qual dirigia o grupo internacional de pesquisa Intersexualidades." JN,06.08.202 

 

Ao Domingo Há Música

Eu ouço música
como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...
              Mário Quintana

Agosto é o mês dos festivais, dos grandes convívios musicais e de muitos concertos populares. Por aqui, há o Festival da Sardinha que lança na cidade, à noite, os sons dos artistas convidados. A zona ribeirinha da cidade passa a ser o ponto central e difusor da música que nos entra pela casa, sem permissão prévia.  
A peça musical deste domingo traz em si a capacidade de amenizar  e de nos transportar , em suavidade,  para outras galáxias musicais.
Concerto para Piano nº 2 em Fá Maior II. Andante,  de Dimitri Shostakovich,  pela virtuosa pianista  Yuja Wang, acompanhada pela  Orquestra Sinfónica de Londres, sob a batuta do Maestro  Michael Tilson Thomas. O concerto realizou-se no LSO St Luke's (Londres, GB) no dia 2 de Junho de 2021, com produção do registo por C Major.

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MATER SEMPER DOLOROSA


Um filho que se perde de-repente,
na confusão brutal de uma guerra,
é algo tão bizarro, tão demente,
que abre ferida que nunca mais encerra.
 
Perder um filho viola a ordem
da natureza: inverte o verdadeiro
rumo da vida, instala a desordem
num mundo que se torna traiçoeiro.
 
Perder um filho abre chaga eterna
e dor de inconcebível dimensão,
mas do tamanho do amor materno.
 
Nesta dor, descarrila a razão,
tudo carece de algum sentido,
num mundo onde tudo foi mentido.
                                        06.08.2022
Eugénio Lisboa