

O vento enchia
o Mundo. Mal deixava
lugar para a
tremenda voz das ondas.
Mas era o Mar
apenas que se ouvia.
Sebastião da Gama
Todos os verões
passávamos uma grande temporada na Praia. O mês de Setembro fazia sempre parte
dessa temporada, além de largos dias do mês de Agosto.
Enquanto vivi na
Quinta, era a Póvoa do Varzim a nossa praia. Os meus pais tinham os amigos que,
com eles, se acertavam para passarem o mesmo período na praia. Era uma longa
fila de barracas ocupada por famílias
conhecidas ou/e amigas. Alinhava-se em frente ou junto ao Diana Bar. Para nós
crianças, era o tempo do reencontro e do convívio. O tempo que nos trazia os
amigos e o Mar. Um tempo que nos marcaria de diferente vivência. Estar na casa
da praia, não era comparável a tempo algum passado na Quinta. Todos os encantos
e ritos eram, em tudo, diferentes, ou apenas outros. E como nos atraíam e nos faziam
sentir seres ainda mais felizes.
Fui , este ano de
2017, à Povoa do Varzim a um evento literário, Correntes d’Escritas, que penso
ser considerado o festival literário mais importante da cidade , talvez do país.
Homenageava-se o maior crítico literário da actualidade, Eugénio Lisboa, que lançava
um novo volume complementar aos cinco tomos das suas valiosas Memórias, “Acta
Est Fabula”. Transcrevo um excerto dos textos que compunham a Revista do
Festival que era dedicada a este grande escritor, que me dá o privilégio do ser
meu amigo:
“(…) Eugénio Lisboa, desde cedo, manteve uma
relação com a Póvoa de Varzim, tendo em conta a sua ligação a José Régio que,
como se sabe, escreveu grande parte da sua obra poética no Diana Bar.
Foram muitas as correspondências trocadas entre
ambos, desde cedo.
Foi o próprio poeta que escreveu a Eugénio
Lisboa, em carta de 19 de Fevereiro de 1968: «De manhã, depois das dez horas,
ou estou em casa (...) ou no Diana-Bar da Póvoa, onde nos encontrámos da última
vez. No Diana-Bar, de manhã, estou em baixo, no primeiro piso. À tarde,
geralmente no segundo piso, que a gente chama a Galeria. Dessa última vez, foi
aí que nos encontrámos».
O anterior encontro tivera lugar no Verão de 1963
e incluíra uma visita conjunta à Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide. Eugénio
Lisboa há-de recordar tais momentos, em carta de 4 de Agosto de 1964: «Tenho
imensas saudades dos dois escassos dias que passei em Vila do Conde/Póvoa, o
ano passado». E há-de celebrar, anos mais tarde, o apaixonado camilianismo dos
dois visitantes, num luminoso ensaio a que deu o saboroso e evocativo título de
«‘Coisas Nossas’. José Régio e Camilo: a love for all seasons», ensaio hoje
disponível no seu Ler Régio.
No Diana-Bar, edifício modernista do final dos
anos trinta, plantado no areal da Póvoa de Varzim e virado para a antiga Praia
de Banhos, funciona desde 2002 um dos pólos daquele modelar equipamento
cultural que é a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto onde, em recente sessão
comemorativa dos seus 25 anos, tive oportunidade de tratar o tema «Livros:
difícil é lê-los». Todavia, durante seis décadas, o velho e belo Diana-Bar foi
um lugar selecto de encontros estivais e de tertúlias intelectuais, onde José
Régio escreveu muitas das suas páginas, como ainda hoje é recordado no próprio
local. (in “Música no Diana Bar” texto de Jorge M. Martins publicado na Revista
Correntes D’ Escritas 2017, cujo dossiê é dedicado a Eugénio Lisboa)
Fui à Povoa.
Já, por lá, passara, ocasionalmente, em variadas épocas. Nesta viagem, queria
ter tempo para uma romaria da saudade. Pretendia calcorrear as ruas da cidade,
em busca do tempo que fora meu, ali. Vã esperança. Apenas o areal e o mar permaneciam
na infância da minha vida. Souberam manter-se indiferentes às falácias do progresso. A geografia da
cidade alterara-se com a invasão de um betão armado que fizera da vila um
aglomerado turístico e balnear igual a muitos outros que proliferam pelo
país e por esse mundo fora. A bela Avenida dos Banhos
estava, agora, delimitada por uma muralha gigantesca de edifícios em série ,
irmanados na mesma linha arquitectónica que
faz deles objecto de rendimento financeiro. O turismo de massas , a
grande aspiração que transformou muito dos nossos mais belos recantos do
litoral em grandes metrópoles de consumo social.
Sobre essa transformação,
retiro, do meu Diário de Bolso, excertos
de duas entradas de Fevereiro, quando
fui à Póvoa:
21.02.2017
(…) Lanço-me, um tanto
confusa, em viagem de reconhecimento pela Avenida dos Banhos. Junto ao areal,
onde criança passei alguns verões memoráveis, existe ainda o Diana Bar. É agora
propriedade da Câmara Municipal.
Tudo o que compõe esta
avenida é novo. Betão armado dando forma a uma fila interminável de prédios
iguais a muitos outros que despersonalizaram a costa portuguesa. A política de
massificação generalizou-se partout, tornando as nossas praias em
lugares fantasmas no Inverno e gaiolas lotadas e insuportáveis no Verão. Resta
o Mar, impassível e sobranceiro à
mudança.
22. 02. 2017
Pela manhã, em romaria
de saudade, tento descobrir a Póvoa de Varzim da minha infância. Quase tudo
mudou, impedindo reconhecer a casa que sempre nos acolheu. Foi demolida, bem
como o jardim que compunha um largo fronteiro. A Póvoa é uma nova povoação que,
como muitas outras cidades costeiras, sofreu uma mudança radical.
Mas a Póvoa do
Varzim era bela e diferente. Mal passávamos Vila do Conde, onde vivia o Tio
Eduardo, a vontade de chegar ao nosso destino tornava o tempo uma eternidade.
Nem sei explicar como era agradável a viagem para lá. Apenas os últimos
momentos nos excediam pelo desespero, que só as crianças sentem. Queríamos já
ter chegado. E quando a maresia começava a entrar forte e intensa pelas janelas
abertas do automóvel, sabíamos que
faltava muito pouco. Impacientes, lançávamos os olhos em jeito de
reconhecimento e de júbilo renascido.
A chegada era sempre
saudada com intensa alegria, embora disciplinados obedecêssemos às instruções
que nos eram dadas. Mas não havia quem nos sustivesse, assim que entrávamos na
casa da praia. A corrida era sempre a mesma, repetia-se : verificar cada
divisão, olhar cada grande ou pequeno objecto que identificava aquele espaço e
chegar ao quarto para nos reapropriarmos de um lugar que nos pertencia, que era
nosso.
Nesse dia, nunca havia
tempo para ir a banhos, à praia. Quando já estávamos instalados, os nossos pais
levavam-nos a dar um passeio pela Avenida dos Banhos e Passeio Alegre , onde
estavam o Grande Hotel da Póvoa e o Casino. No Largo fronteiriço, havia uma improvisada
loja de aluguer de bicicletas de todos os tamanhos e feitios. Ficavam–me sempre
presos os olhos naquelas bicicletas . Foi ali que dei as primeiras pedaladas.
Quando deixámos de ir para a Póvoa já sabia andar de bicicleta, com perícia e
desenvoltura.
Ganhei também, ali,
a minha primeira bicicleta. Quem ma ofereceu foi um dos amigos do meu pai, que
acabara de ganhar à roleta no Casino, e se deparou comigo e com o meu pai, no
Largo, junto às bicicletas.
Magnânimo,
considerou ser o momento de repartir com a filha do amigo um prémio que lhe
coubera em dia de sorte, nos ditos jogos
de azar. Como sabia do meu fascínio pelas bicicletas , obsequiou-me sem
qualquer hesitação.
Exultei de alegria e
fui recebida, com verdadeira estupefacção por todos, quando cheguei a casa , a pedalar na bicicleta.
Passou a ser um dos
objectos mais cobiçados até ao dia em que duas novas bicicletas vieram aumentar
o espólio velocípede da casa.
Nos registos
escritos do século XIX, a Póvoa do Varzim aparece como uma estância onde o jogo
da roleta já se praticava e vitimava muitos curiosos. Era uma vila que crescera
e ganhara notoriedade pelas suas águas , ricas em iodo, e também pelas diversões e comércio que oferecia.
Alberto Pimentel, em “O que anda no ar”, obra publicada em 1881, pela Empreza
litteraria de Lisboa, escreve o seguinte:
“Povoa
de Varzim. A mais movimentada de todas as praias que eu conheço. Parece uma
peça de Sardou. Ha lojas cheias de gente e gente para encher as lojas.
Falla-se, descute-se, joga-se, dança-se. Há animação. A noite, a villa enche-se
de luz e de murmúrios. Tem um aspecto venesiano, vista do mar. O amor faz ali
cincoenta casamentos por anno; mas as victimas da roleta são em muito maior
numero. Alguns namorados sahem de lá com lagrimas nos olhos—como os batoteiros.
Por terem perdido muito ou por terem ganho demasiadamente .. . N'este ultimo
caso, as lagrimas são de remorso.” (Nota – o jogo praticava-se no Café
Chinês e no Café David)
Também O Occidente n.º 119 de 11 de Abril
de 1882, acompanhando uma gravura da “praia do Pescado”:
“Esta villa, qua ainda não ha muitos annos, era
de pouca importancia, tem tomado nos ultimos tempos um grande desenvolvimento,
já pelo augmento da sua industria de pesca, já porque é hoje uma das melhores
praias de banhos procurada por nacionaes e estrangeiros.”
Para nós, a vida na praia
orquestrava-se melodicamente. Quero eu dizer, que tudo era uma celebração
harmoniosa. Um tempo que corria célere e que nos deixava uma saudade que se
consumia o ano inteiro. Apesar das inúmeras visitas que fazíamos à Praia , ao
longo do ano, não existia qualquer termo
de comparação com esses meses de autêntico festim .
Maria José Vieira de Sousa, in O Livro que Já escrevi, pp.39-43