quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Interlúdio Musical

'The Unbending Chinese Tree'. composição de Havasi ,com a excelente interpretação de Havasi , da Dohnányi Orchestra Budafok e os artistas chineses: Ling Peng - Erhu, Xu Ming Li- Bawu, Ying Xiao - Guzheng , no HAVASI Symphonic Arena Show, em 21 de Dezembro de 2013.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pseudónimos Literários

Vítor Leal, no traço de Gustavo Hastoy
 para a Gazeta de Notícias, em 15 de Março de 1890
Pseudónimos Literários
por Jacinto Rego de Almeida
"Vi há dias um pequeno livro no fundo de uma estante, uma colectânea de contos em edição brasileira, que custei a identificar. Mas reconheci de que livro se tratava pela dedicatória. O autor é um antigo executivo de uma grande empresa portuguesa instalada em S. Paulo (Brasil), oriundo da política e conhecedor da literatura clássica e contemporânea, no período áureo do governo de António Guterres. Uma edição de autor sob pseudónimo, “tenho um nome a preservar, apareço todos os dias na Gazeta Mercantil”, o mais importante diário económico do país, justificou-se na altura.
Lembrei-me de um velho amigo, Jorge Valadas, antigo oficial da Armada, vive em França desde que desertou em meados dos anos 60, que assinava os seus livros traduzidos em vários países com o pseudónimo Charles Reeve, em homenagem a um dos fundadores do primeiro clube anarquista da Austrália. “Pensas em homenagear alguém com o teu pseudónimo?”, “Não, não”, respondeu-me o executivo. Ponderei que o uso de pseudónimos estava fora de moda, os editores não consideram um bom negócio e “já há décadas que se perdeu o preconceito contra a ficção, mesmo a ficção comercial ou os chamados géneros menores”. Ele parou para pensar. “Eu pago a edição”, respondeu-me de forma categórica. “Pseudónimo?”, sussurrei.
O uso de pseudónimos literários, muito usual até aos anos 50 do século passado, é normalmente associada à preocupação com a reputação ou a posteridade. Mas nem sempre foram estes os motivos. O autor de O que diz Molero - “um livro-chave do nosso tempo”, como referiu Eduardo Lourenço -, Dinis Machado, usou o pseudónimo Dennis McShade para escrever livros policiais de apelo popular, cuja receita lhe foi muito útil por ocasião do nascimento de uma filha. Marcello Mathias (1903-1999), ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1958 e 1961, e embaixador de Portugal em Paris durante 24 anos durante o Estado Novo, editou em 1973 o livro Lusco-Fusco com o pseudónimo Pablo La Noche por motivos que desconheço. O livro teve um extraordinário acolhimento por parte da crítica (tendo sido galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros e publicado e premiado em França com o "Rayonnement Français"), em 1976, já com o verdadeiro nome do autor e o título Pablo la Noche, o mesmo acontecendo depois no Rio de Janeiro (Ed. Civilização Brasileira) nos anos 90 e em 2008 pela Ed. Quetzal (Lisboa) com o mesmo título.
O imperador Dom Pedro I do Brasil usou os pseudónimos “Duende” ou “Inimigo dos marotos” em jornais para insultar inimigos políticos; Anne Rice (1941), conhecida escritora norte-americana, assina A. N. Roquelaure para se debruçar sobre temas eróticos; o também norte-americano Michael Crichton (1942) assinou John Lange para editar romances de espionagem que o ajudaram a pagar a faculdade de medicina; Machado de Assis (1839-1908) para editar crónicas ou defender opiniões políticas usou os pseudónimos Lélio e Sousa Barradas, entre outros, e às vésperas da abolição da escravatura no Brasil criticava severamente os grandes agricultores com o nome “Boas Noites” (só descoberto 50 anos após a sua morte); Jorge Luís Borges (1899-1986) usou o nome Bustos Domecq para publicar novelas policiais junto com o seu amigo escritor Adolfo Bioy Casares; Olavo Bilac (1865-1918) usou os nomes Arlequim, Pierrô, entre outros para participar de polémicas em jornais e editar folhetins, entre 1890 e 1893.
Já Victor Leal publicou O esqueleto, A mortalha de Alzira e Paula Matos ou o Monte de Socorro, no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, com um enorme êxito, textos românticos contra a dominante escola naturalista da ficção narrativa da época. A sua figura desenhada por um ilustrador, mostrava um homem magro, de monóculo, chapéu de abas largas e um comprido nariz, que não era encontrada nos cafés e meios literários. Ele não existia. Tratava-se do pseudónimo de quatro escritores, o romancista Aloísio Azevedo, Olavo Bilac, o dramaturgo Coelho Neto e o jornalista Pardal Mallet.
George Eliot e George Sand, na verdade a inglesa Mary Ann Evans e a francesa Amandine Dupin, respectivamente, em meados do século XIX, impuseram-se com os seus pseudónimos masculinos e outras os usaram para defender a causa feminista. Stephen King, especialista em livros “de terror”, criou o pseudónimo Richard Bachman para explorar a literatura de entretenimento. Enfim, o uso de pseudónimos na literatura constitui um universo que merece um estudo aprofundado.
Estávamos a almoçar em um dos mais caros restaurantes de S. Paulo e, a dado momento, recordo que ele, o executivo, disse-me em tom de brincadeira: “Não foi por teres desertado de uma fragata na cidade da Beira que Portugal perdeu a guerra colonial, mas sinto que deste uma pequeníssima ajuda moral ao êxito da Frente de Libertação de Moçambique, não achas? Uma borboleta bate as asas na China e provoca uma tempestade em… ”, e sorrimos.
Pu-lo em contacto com um editor, o livro foi publicado alguns meses depois com pseudónimo e recebi um exemplar autografado pelo correio. “És a única pessoa que sabes que o autor desse livro sou eu”, disse-me com evidente alegria alguns dias depois, pelo telefone.
A escrita de ficção é uma experiência intensa que aborda o que não queremos que esteja presente na vida, as emoções que nos governam nos momentos mais importantes, o fracasso, a dor, a morte, a mentira (um bom mentiroso só diz meias verdades), o destino de todos nós (ricos ou pobres vamos ser esquecidos), pensei, enquanto folheava o livro dele quando o redescobri no fundo de uma estante.
Dias depois, li alguns dos contos, inspirados na violência diária na cidade de S. Paulo, na literatura urbana brasileira, narrados na primeira pessoa com linguagem popular. Pensei em procurar contactá-lo. Será que iria reconhecê-lo depois de tantos anos? Dir-lhe-ia que relera o livro que ele editara no Brasil nos anos 90 do século passado, o que provocou um chuvisco em mim, não uma tempestade, certamente alguma borboleta cansada batera com pouca força as asas na China…e iríamos rir bastante, estou certo disso."   Jacinto Rego de Almeida ,JL,5.03.2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Aniversário do Xavier

                   
                          Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras.
                                                         Eduardo Galeano

Traz  sempre  um sorriso  aberto nos olhos largos de um castanho profundo. Nasceu há onze anos. Não foi o primeiro desta prole que encheu, de novo, a casa. Esperavam-no  outros dois meninos. O Xavier é, porém, o menino do momento. É o dia do seu aniversário. Sensível, alegre e doce , celebra a vida , enchendo a nossa  com a sua presença.  
É para ele , amigo da leitura,  este pequeno texto de Eduardo Galeano, em jeito de celebração.
Parabéns, Xavier.

O Mundo
" Um homem da povoação de Neguá, na costa da Colômbia, conseguiu subir às alturas do céu.
À volta , contou. Disse que, lá de cima, contemplara a vida humana. E disse  que éramos um mar de foguinhos.
- O mundo é isso -  revelou. - Um montão de gente, um mar de foguinhos.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não há dois fogos iguais. Há fogos grandes, fogos pequenos e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem se apercebe do vento; e gente de fogo enlouquecido , que enche o ar de faíscas.  Alguns fogos, fogos tolos, não iluminam nem queimam; mas outros ardem a vida com tal vontade , que não se podem olhar sem pestanejar, e quem se aproxima arde."
 Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços,  Editora Antígona, p.7

domingo, 2 de setembro de 2018

Ao Domingo Há Música

 
                                     
                                       Olha à direita e à esquerda  do tempo, 
                                       e que o teu coração aprenda a estar tranquilo.
                                                               Frederico Lorca

O tempo não apaga a memória. Ela resiste. Permanece. É a réstia do passado que nos fez . Tem diferentes recantos que se interligam  e compõem um repositório que aflora quando o convocamos . A música presidiu a muitos momentos das vidas de todos nós. Esteve connosco em dias de alegria, de tristeza, de ganhos , de perdas, de espanto, de desânimo, de êxtase ou de simples contemplação. Cresceu connosco . Tem Passado. Revivemo-la porque nos fez viver .
Há grupos e cantores que marcaram gerações. A minha teve alguns que se tornaram imortais. Permanecem para lá do tempo.
E porque recordá-los é reacender os sons que nos fizeram, vamos invocar, hoje, os Pink Floyd. Têm atravessado gerações e construíram um extraordinário espólio que faz deles uma das grandes bandas de sempre.

Pink Floyd , em On The Turning Away / Wish You Were Here, no primeiro álbum gravado ao vivo,  durante cinco noites, no Nassau Coliseum , Long Island, New York, em Agosto de 1988.
David Gilmour – guitars, console steel guitar, lead vocals
Nick Mason – drums, percussion, vocal sample on "One of These Days"
Richard Wright – keyboards, backing vocals, lead vocals on "Time" & "Comfortably Numb"
Jon Carin – keyboards, programming, backing vocals,
Rachel Fury – backing vocals
Durga McBroom – backing vocals
Scott Page – saxophones
Guy Pratt – bass guitar, backing vocals, co-lead vocals on "Another Brick in the Wall (Part 2)" and "Run Like Hell"
Tim Renwick – guitars, backing vocals
Margaret Taylor – backing vocals (also known as Machan Taylor)
Gary Wallis – percussion, additional keyboards on "Comfortably Numb"
Production - David Hewitt Remote Recording Engineer
Dos Pink Floyd,  Shine on You Crazy Diamond,  pela Mandolin Orchestra, regida pelo Prof. Boris Bagger.

sábado, 1 de setembro de 2018

Verdade é como ninho de cobra

A viúva nacional

"Ou foi Jesus que traiu Judas? Ninguém pode saber. Se mesmo Deus passa o tempo a provar que não existe! Pensamentos que fartam a cabeça de Azaria Azar, director do Cemitério Central. Ideias que endemoniam o juízo do funcionário, outrora zeloso, agora acabranhado. Verdade é como ninho de cobra: se confirma apanhando não o ovo, mas a fatal picada.
- “Culpa minha, quem me mandou?” - insiste em aceno de cabeça.
Afinal, quem quer fumo tem que juntar palha. Sentado na sombra de um cipreste, olha a velha Donalena, onde tudo começou. E vai desabrindo os recentes passados.

1 - Ante e ontem
Azaria Azar se resolveu nessa tarde. Iria interditar Helena Cemitela, a velha visitadora dos defuntos. Não havia dia que a senhora não visitasse o cemitério, umas muitas florinhas lhe avulsando no regaço. Donalena, como era chamada, desomenageava a morte. Como? Ela não sabia qual campa devia honrar. Cada vez se joelhava numa diferente. Dias havia em que até rezava em mais que dez lápides. E todas as campas eram, para ela, as do “falecido. Até os coveiros já suspeitavam se alguma vez chegara de haver algum respectivo dela. Donalena se perdoava:
- “É que já esqueci bem-bem onde que é”.
A gente nasce grão, morre terra. Donalena, pré-defunta, já cheira a tábua deitada. Criatura roída pelo tempo, tão escaravelhota que só pode ter saída de tumba. A velha desafia o Outono: cai a árvore e fica a folha? Entre as campas, ela se descampa até o céu dessorar, maligno. Só no poente Donalena abandona o cemitério, fazendo chiar os pesados portões. Nas trevas vai pisando trevos.
Pois naquela tarde, o chefe Azaria chamou a velha e lhe deitou proibição: ela podia nunca mais ali voltar.
- “Mas eu, agora, já lembrei a campa. Não viu eu rezar ali? Aquela é mesmo a do meu falecido...
- “Acabou conversa. Já dei ordem nos milícias”.
A velha então desfiou um choro magrinho, soluço de gota caindo em poço seco. Nem Azaria notou, no começo, que ela chorava.
- “Me deixe vir aqui. É que eu não tenho morto para chorar. Todos tem seus mortos, só eu que não tenho. Me favoreça, Doutor”.


2 - Ontem, oficialmente
Ontem à tarde, o Vice-Adjunto, Dr. Maurício Salbuquerque, chegou ao cemitério em sua solene viatura. Vinha na véspera de uma função: homenagear Herói da Revolução. Procurara candidato, até pagara. Mas não encontrara ninguém, nem próprio nem parente. Nos tempos de hoje quem quer se apresentar com os louros vermelhos do leninismo?
Com o director do cemitério se acordou encontrar rápido um candidato a órfão, viúvo, parente de herói. Azaria lembrou, então, a deslembrada Donalena. Ela havia de servir que nem peúga. Não fosse a incoincidência: ainda ontem Azaria a expulsara. Contudo, o Vice-Adjunto insistiu: ele a fosse a procurar, quem sabe a velha desobedecera?
- “Desobedecer a mim, Excelência? Com o devido respeito, eu só tenho recebido obediência das instâncias inferiores”.
O Doutor teimou e Azaria lá foi, rarefeito, procurar a improvável doida. Querem saber? Donalena Cemitela lá estava, soletrando lápides, sempre em busca. Azaria chamou, ela mal-entendeu e desatou-se. Fugia a sete chãos. Azaria Azar agarrou-lhe e a conduziu à direcção. O Doutor Maurício olhou a mulher, antecipando triunfos.
- “Você é esposa do malogrado?
- “Esposa por casamento, sim senhor.
- “Já lhe conheço de nome, isto é, nomeadamente: Donalena. Ora, até está como convém: Lena rima com quê? Com leninismo!”
E o plano foi instaurado, instantâneo como toda a mentira. Se encontrou uma campa devidamente incógnita. Se aldrabou lápide, às pressas. E se convenceu a velha Donalena que seu marido morreu em plenos sacrifícios pela Revolução. E que ele pacificava ali, naquela precisa tumba. Donalena Cemitela estava sendo promovida a última dama, viúva nacional.
Quando chegou a comitiva oficial, se apresentou Azaria, portões oleados, muro pintado de palavras de ordem do proletariado mundial. Foi chamada a viúva. Houve banda, discurso, tiros de pólvora sonora. Donalena, com vestes de empréstimo, recebeu as póstumas medalhas. Então, lhe pediram que ela encabeçasse o desfile fúnebre para a campa do falecido herói. A marcha se alongou pelos carreiros, respeitosa e lenta. Deu-se uma, duas, três voltas ao cemitério. Andava-se em vertigem, já alguns murmuravam. O Excelência Máximo inquiriu solenemente a viúva:
- “Afinal, onde está enterrado o seu falecido?”
A viúva desenhou um gesto vago, circungirando o dedo por todo o cemitério. Seu marido estava enterrado em todas campas e em cada uma também. Azaria e Salbuquerque perdiam as falas, afligidos. A Máxima Excelência desentendeu mas depois abriu um sorriso. “Pois, compreendo-lhe; é uma metáfora: o povo inteiro é que é herói. Mas agora, camarada viuva, agora necessitamos de uma única sepultura, apenas a verdadeiramente única”.
- “A verdadeira?!”
Estava ali, bem defronte. E apontou a verdadeira e autêntica. A marcha se deteve, se depositaram as flores em coroas, se entoaram hinos e orações. Os máximos prontuaram discurso - que ali jazia, o próprio, o mencionado, o supracitado. Azaria e Salbuquerque suspiravam alívios. No final, já as oficiais tristezas se recolhiam de regresso, a viúva puxou de volta a manga do dirigente máximo. Apontou uma outra campa e disse:
- “Oh, me enganei. Afinal, era aquela!”
E depois outra, outra e outra. Até ao grito final do Excelência. Até à ordem de despedimento de Azaria e companhia.

3 - Hoje, de novo
Sentado na entrada do seu ex-domínio, Azaria Azar encara a viúva Donalena desfiando entre as passadeiras. As medalhas lhe tilintam no vestido negro. Passa-lhe, por momento, a raiva de matar a causadora de sua desgraceira. Vai congeminando planos: desgargantear a velha? Suspendurá-la em galho? É quando vê um corvo pousar no ombro de Donalena. Azaria Azar sorri, se levanta e se encaminha para a idosa mulher. Cavalheiro, lhe oferece o braço e sussurra:
- “Eu lhe guio Donalena, eu lhe mostro a sua campa."
Mia Couto, em Contos do nascer da Terra, Editorial Caminho

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

I say a little prayer for you

Aretha Franklin ( 1942-2018)
The moment I wake up,
before I put on my make up
I say a little prayer for you
While combing my hair now
And wondering which dress to wear now
I say a little prayer for you

Leio, nos jornais,  que será hoje  o último adeus a Aretha Franklin ( 1942-2018). Deixou-nos a 16 deste mês. Um mês quente que levou, igualmente, outras vidas que encheram alguns dos nossos dias. Foram todas perdas irreparáveis.
Aretha Franklin deu cor a muitos momentos da minha vida. Tinha sol na voz e estrelas na alma. Não sei dizer se todas as suas canções me fizeram sentir melhor ou apenas mais feliz.  Sei, contudo, que a sua voz moldava de uma forma singular qualquer canção. Nunca mais era aquela canção. Aretha transformava-a e fazia-a única.  
Apresento algumas que validam esta capacidade que fazia dela uma das grandes vozes  do nosso tempo. E , porque é o momento ,  retorno-lhe, hoje,   as suas palavras: I say a little prayer for you.
Até sempre, Aretha!

A inconfundível Aretha Franklin, em  Oh Happy Days , acompanhada por  Mavis Staples. Uma  inesquecível canção de Edwin Hawkins, Edward Francis Rimbault, Philip Doddridge.
I dreamed a dream tem outra sonoridade na voz de Aretha Franklin.
Aretha Franklin, em  Nessun Dorma ,  Filadélfia, em 26 de Setembro de 2015.
Aretha Franklin,  em A Change Is Gonna Come do Álbum, "Aretha Arrives" , Atlantic 1967.
Aretha Franklin,  no Making of  'A Brand New Me'.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Um Museu das Descobertas?

Um Museu das Descobertas?
Por Eugénio Lisboa
                      
                    Descoberta – acto ou efeito de descobrir (algo), retirando-lhe
                    a protecção, a cobertura, a capa ou invólucro que cobre,                                                  esconde; descobrimento.
                                     Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa

"A América exporta muitas e variadas folias que, depois de levantarem poeira e fazerem não poucos estragos, internamente, vão, de seguida, agitar o “milieu” europeu e, com um pouco de atraso, acabam por aterrar, gulosas, na pátria lusíada. Entre as folias que os americanos produziram, com grande alarido, primeiro para consumo caseiro, depois, para exportação urbi et orbi, encontra-se a famigerada “political correctness” com, a tiracolo, o vigilante policiamento da linguagem. Falar, escrever, nomear passou a ser o mesmo que pisar terreno minado. Cada palavra passou a ser escrutinada com lupa vigorosamente selectiva e duramente punitiva. Nada escapa a esta folia vigilante, obtusa e omnipresente. A obra-prima de Mark Twain – As Aventuras de Huckleberry Finn – foi compulsivamente retirada das escolas porque alguns personagens, no romance, se referiam aos negros, tratando-os por “nigger”.  Não é, obviamente, Mark Twain quem é o racista: o racista, se o for, será, quando muito, o personagem do romance, apresentado ou não – conforme o caso – como vilão. Não importa: a “political correctness” é implacável, na sua vigilância eriçada e pidesca.
Vem isto a propósito da ridícula celeuma recentemente levantada entre nós, relativa a um futuro Museu das Descobertas que a Câmara Municipal de Lisboa teria em projecto. Imediatamente após ventilar-se a ideia, as vestais da “political correctness” puseram-se ruidosamente ao alto: “Descobertas”, “Descobrimentos”? Que horror! Que abominação! O que aquelas palavras temíveis não escondem de ignomínias perpetradas pelos descobridores lusíadas! O colonialismo, a escravatura, a exploração desenfreada… Celebrar as descobertas? Nunca! Descobrimos o quê? Se os povos até já lá estavam… As tontices, já se vê, atraem-se umas às outras, em corrupio foleiro.
Claro que houve, em séculos que já lá vão, descobertas, muitas e variadas e de enorme valor. Um mundo deslumbrantemente novo se foi destapando, aos olhos impreparados dos atrevidos navegantes portugueses. Nesse magnífico livro, Ensaio sobre a Essência do Ensaio, de Sílvio Lima, que veementemente recomendo não só aos arautos da “political correctness”, mas a todos que ainda o não tenham lido, glosa-se, magistralmente, o que foi esse encontro fascinado com o novo: “O espaço terrestre dilatara-se. À dimensão marinha mediterrânea e báltica – própria da Idade Média – acrescentara-se agora a dimensão atlântica, índica e pacífica: o infinito «mar-oceano». No formoso dizer de Humboldt, os portugueses e os espanhóis duplicaram para os habitantes da Europa a obra da criação.” Esta ampliação do universo disponível causava vertigens: “Suponde”, observa o filósofo Sílvio Lima, no seu livro fundamental, “[suponde] uma pessoa, posta num imóvel aposento claro, cercado de seis grossas paredes e que as visse de repente tornarem-se elásticas, móveis, fugirem vertiginosamente, como que sem fim, para longe, para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, para a ferente e para trás. Sensação de desprendimento físico, de queda ponderal, e de estonteamento visual dinâmico.” Tal como este aposento, o universo, no tempo das descobertas, alargava-se irresistivelmente, física e mentalmente, trazendo espaços e gentes novas e ensinamentos também novos: “À vivência do atordoamento físico junte-se o vinho, de picante agulha, do exotismo. Não só o espaço terrestre se dilatara; o planeta complicara-se também com outras «novidades»: faunas, floras, minerais, meteoros, estrelas, etc. Como se fosse um «leitmotiv», a palavra novo ressoa a cada passo, vibrante e cálida, na sinfonia geral.” (Sílvio Lima, opus cit.)
O filósofo dá-nos exemplos de textos em que a palavra novo cintila constantemente, com orgulho deslumbrado:

“Foi descoberto um novo mundo e novas terras numa Nova Espanha ou Índias Ocidentais e nas Orientais.” (Francisco Sanches)
“… El descubrimiento deste nuevo indiano mundo.” (Bartolomé de las Casas)
… A nova do achamento desta vossa terra nova.” (Pero Vaz de Caminha)
“Outro mundo novo vimos /Per nossa gente se achar.” (Garcia de Resende)
“Eis aqui as novas partes do Oriente / Que vós outros agora ao mundo dais.” (Camões)
“Un monde nouveau et si enfant” (“Um mundo novo e tão criança.” (Montaigne)

E, entre outros, o grande matemático Pedro Nunes: “Descobriram (os portugueses) novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos; e o que mais é: novos céus e novas estrelas.” E Garcia da Orta, que proclama com incontido orgulho: “que se sabe mais em um dia agora pelos Portugueses do que se sabia em cem anos pelos Romanos.”
Todo este “novo” surpreendente causava espanto (“Cousa certa de alto espanto”, dizia Camões) e surge como grande “maravilha” (“Grandes cousas estranhas / Outras muitas maravilhas!” – Garcia de Resende)
Estas maravilhas vistas, experimentadas, vividas pelo homem novo vão dar ao conhecimento científico uma ousadia nova: o que está escrito nos livros dos antigos deixa de ser sagrado: ao que está escrito sobrepõe-se agora, com orgulho, o que é “claramente visto” e experimentado criticamente. Nas palavras de Sílvio Lima: “O perípato, o «magíster dixit», o comentarismo medievo eram vencidos pelos factos concretos. «Rien n’est plus écrasant qu’un fait.» (Broussais). As necessidades comerciais e industriais de Florença e Veneza, as necessidades lusas de navegação ou pilotagem matemático-astronómica, por outras palavras, o económico e o técnico, em íntima conexão, arrastavam o varão renascente ao contacto e ao exame directo do real. A natura substituía a escritura, a experiência derrubava a glosa, a ciência desterrava a erudição. Os regimentos, os roteiros, a nova teórica do céu, os progressos da hidrografia, da cartografia, da oceanografia, a inesperada colheita de factos novos e exóticos, a contrastaria de erros de observação do pretérito, etc., não consentiam já o jugo mental de Aristóteles (…)”. Por outras palavras, “à natureza amortalhada nos textos, sucedera o experimentalismo crítico.” O homem novo acreditava, orgulhoso e deslumbrado, no que via e experimentava e não no que os livros antigos diziam: “Eu o vi certamente (e não presumo / Que a vista me enganava)”, como dizia, atrevidamente, Camões. O filósofo inglês Bertrand Russell observou, a propósito, que Aristóteles poderia ter evitado afirmar que as mulheres têm menos dentes do que os homens, pelo expediente simples de pedir à Senhora Aristóteles que abrisse a boca.
As descobertas trouxeram precisamente isto: um homem novo, curioso de ver e registar o que via (“Vi claramente visto o lume vivo”), rejeitando as “escrituras” e atento apenas à “natura”.  Com as descobertas, o mundo do conhecimento alargou-se enormemente e afirmou-se decisivamente uma nova forma de adquirir esse mesmo conhecimento: não, glosando textos antigos e obsoletos, mas, antes, vendo, muito claramente e muito criticamente, o que ali estava para ser visto.
Venha, pois, sem complexos de culpa ridículos, um bom Museu das Descobertas, que testemunhe, com vigor, aquela aventura humana tão prenhe de consequências." 
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL, nº1249, de15 a 28 de Agosto de 2018

terça-feira, 24 de julho de 2018

Manoel de Andrade apresenta "As palavras no espelho"

Quando só restou a escuridão no fim do túnel
E nossos olhos mendigavam uma réstia de luz, uma esperança…
Então surgiste tu…
E tu te chamavas  resistência…
Manoel de Andrade, Cantares, Editora Escrituras, São Paulo, 2007


Saudar Manoel de Andrade é um exercício que nunca cessaremos de repetir. Celebrar, hoje e amanhã, o  poeta, o escritor plural.
Relembrá-lo , enquanto elemento importante de  um grupo de gente singular que soube procurar,  na longa noite escura da tirania , a luz que ilumina o caminho da Liberdade.  Recordar como mereceu  inscrever o seu nome na heróica  história da resistência, ao calcorrear as estradas de uma América Latina ferida , exortando à luta, à utopia, através do seu canto maior.
Manoel de Andrade acreditava que a verdade venceria tal como a havia enunciado Shakespeare: (…) A verdade é a verdade/ Até ao fim do julgamento.
E a verdade rompeu contra os carrascos . Manoel de Andrade publicou, em 2014, um excelente relato memorialístico desse tempo : “Nos Rastros da Utopia”.
Poeta , com uma valiosa e bela obra poética editada, brinda-nos, amanhã, 25 de Julho , com a apresentação do seu mais recente livro : “As Palavras no espelho”
Composta por vários tipos de texto, é uma excelente colectânea,  que será lançada em Curitiba, nas Livrarias Curitiba, pelas 19 h30.
Ao poeta , apresentamos o nosso apreço e regozijo  por  permitir, a todos os  seus leitores, a fruição do prazer da leitura de   uma nova obra que terá o maior sucesso.