segunda-feira, 20 de maio de 2019

1968: A Passeata dos Cem Mil

 
                         

 1968: Uma revisão (II)
1968: A Passeata dos Cem Mil
por Manoel de Andrade
"A estratégica aparição daquele estudante de 23 anos provocou uma apoteose de gritos e palmas na imensa multidão que, por volta do meio-dia, ocupava inteiramente a Praça Floriano Peixoto, na Cinelândia. O presidente da UME, Vladimir Palmeira, disfarçado pelo penteado, barba feita, terno e gravata, subiu as escadarias da Assembleia Legislativa, e com alguns gestos interrompeu as palmas, pediu silêncio e que todos se sentassem e, em seguida, começou o seu primeiro discurso do dia dizendo: 
 — Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a Polícia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo. 
  Enquanto os discursos se sucederam mais e mais populares iam se juntando à concentração. De todas as partes chegavam comitivas de estudantes com faixas e bandeiras. Emissários e “batedores” saíam e chegavam com notícias sobre a segurança do percurso da passeata prestes a começar. Por trás de toda essa organização estavam os estudantes Franklin Martins e Marcos Medeiros, comandando outras lideranças estudantis encarregadas de controlar todos que participavam do ato, evitando, com isso, qualquer incidente com pessoas  infiltradas. No final dos discursos Vladimir Palmeira tira o paletó, afrouxa a gravata e retoma a palavra para dizer: 
— Nós queremos os cadáveres dos estudantes que foram mortos durante as últimas manifestações. Todos viram seus corpos, ao vivo e nos jornais, e não é possível que o governador e as outras forças repressivas continuem a esconder os seus corpos para iludir a população. 
  Seu discurso foi interrompido pelo ronco ensurdecedor dos aviões da FAB que passavam em voo rasante em franca provocação. Com isso terminaram os discursos e começou a passeata. A multidão comandada pelos estudantes e de mãos dadas, seguiu ordeira e alegre para a Avenida Rio Branco, cujo trânsito havia sido interditado pelas autoridades. As grandes lideranças estudantis do país estavam ali representadas por Luís Travassos, e José Roberto Arantes, respectivamente presidente e vice-presidente da UNE. Pela grande avenida desfilava uma massa humana sempre mais engrossada pelo imenso fluxo de pessoas que vinham da Cinelândia. Como ao longo de todo o percurso houve provocações de agentes do DOPS e de policiais, os líderes estudantis tiveram o cuidado de reiterar aos manifestantes que mantivessem a calma e a vigilância. Aquela inacreditável massa humana penetrou pela tarde atravessando o centro do Rio num gesto grandioso de indignação, mas sobretudo de esperança no retorno ao estado democrático de direito. 
Quando chegou à Candelária, Vladimir subiu na capota de um carro e disse: 
— Este lugar tem um significado muito grande para nós. Na missa de Édson, foi aqui que fomos violentamente reprimidos. Hoje o panorama é diferente. Prova de que a potencialidade de luta popular é maior do que as forças da  repressão. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retomar a praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam. 
   Naquele longo percurso que se entende desde a Candelária até a Rua Uruguaiana, toda a Avenida Presidente Vargas foi ocupada pela imensa multidão em movimento. Elio Gaspari, referindo-se ao fato na sua Ditadura envergonhada, descreve:
Olhada, a passeata era uma festa. Manifestação de gente alegre, mulheres bonitas com pernas de fora, juventude e poesia. Caminhava em cordões. Havia nela a ala dos artistas, o bloco dos padres (150), a linha dos deputados. Ia abençoada pelo cardeal do Rio de Janeiro, o arquiconservador D. Jaime Câmara, que em abril de 1964 benzera a Marcha da Vitória. Muitas pessoas andavam de mãos dadas. Todo o Rio de Janeiro parecia estar na avenida. A serena figura da escritora Clarice Lispector e Norma Bengell, a desesperada de Terra em Transe; Nara Leão, Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda, que com a poesia “Carolina”, e seus olhos verdes, encantava toda uma geração. Personagens saídos da crónica social misturavam-se com estudantes saídos do DOPS. Do alto das janelas a cidade jogava papel picado. [...] a Passeata dos Cem Mil saiu da Cinelândia, jovem, bela e poderosa. [...] Depois de parar gloriosamente na Presidente Vargas, vagou emagrecida até os pés da estátua de Tiradentes, em frente ao prédio da Câmara dos Deputados. Lá Vladimir Palmeira, o mais popular dos dirigentes estudantis, ameaçou: A partir de hoje, para cada estudante preso, as entidades estudantis promoverão o encarceramento de um policial.   Depois de passar pela Sete de Setembro e o Largo da Misericórdia, a passeata chegou à Praça Tiradentes onde se seguiram uma dezena de discursos das lideranças estudantis, sindicais e intelectuais. Ali mesmo foi proposta e criada uma comissão com representação dos intelectuais, dos professores, do clero, dos estudantes e das mães para intervir  junto às autoridades pela libertação dos estudantes presos nas recentes manifestações.   
     Passava das cinco da tarde quando os estudantes queimaram uma bandeira americana em frente do Palácio Tiradentes. Ali mesmo Vladimir retomou a palavra para encerrar a manifestação num tom de advertência, dizendo: 
— Voltaremos sempre para exigir nossos direitos. Pacificamente, se não formos reprimidos pela Polícia. Agressivamente, se tentarem nos agredir, como fizeram algumas vezes. 
   Neste ano de 2008, há quarenta anos da Passeata dos Cem Mil, podemos ter uma clara perspectiva dos fatos e analisar aquele acontecimento como um dos mais belos e corajosos gestos políticos da cidadania recrutando os mais lúcidos representantes da intelectualidade brasileira que marcaram, com a sua presença, as mais variadas tendências da esquerda nacional. Este fato por si só nos convida a tirar algumas ilações sobre a importância do debate político daquela época em que os termos “revolucionário” e “reformista” eram usados com ironia em nossos bancos académicos. Nesse mesmo enfoque, não se podia confundir “revolucionário” com “rebelde sem causa” sem reconhecê-los, respectivamente, pela legítima contradição dialética e pela mera formalidade das ideias. Ainda nesse contexto é pertinente relembrar que, na célebre Passeata do Rio de Janeiro, havia uma aberta disputa programática entre os cartazes e slogans das dissidências da esquerda, e quando os radicais gritavam: “Só a luta armada derruba a ditadura”, os militantes do Partidão respondiam: “Só o povo organizado conquista o poder”. Isto vale dizer que cada grupo disputava no grito a hegemonia daquele extraordinário acontecimento político. Eram já os efeitos das grandes cisões que estavam acontecendo no Partido Comunista. Os primeiros representavam os estudantes que já tinham feito sua opção pelo enfrentamento direto com o regime e sonhavam com uma pátria socialista dirigida pela classe operária. Os segundos encaravam o fenómeno revolucionário como um processo lento onde a ruptura com o sistema e a consequente transformação estrutural da sociedade ocorreria como resultado da organização das próprias forças sociais. Uns seguiam a orientação de Cuba e outros, a de Moscou. 
Para quem foi estudante na década de 60, é estimulante recordar que ninguém queria ficar à margem do engajamento político, e era uma ofensa esmagadora ser chamado de “reacionário”, ou seja, ser de direita. Na verdade todo aquele saudável “romantismo” deixou, no que tange à mera postura intelectual, uma imensa saudade. Quem não tinha na parede do seu quarto uma gravura do Che, de Mao ou de Ho Chi Minh? Como ser um autêntico radical de esquerda sem  conhecer a “teoria do foco” de Régis Debray, sem conhecer a história da Revolução Russa, sem ter lido os patriarcas do pensamento revolucionário, sem ter compulsado Marcuse, Lukács, Gramsci. Como criticar um reformista sem conhecer os insuperáveis argumentos de Rosa Luxemburgo. Era tudo isso e muito…, muito mais, porque a bibliografia revolucionária era enorme e também não se podia deixar de ler a nossa brilhante “prata de casa” como Caio Prado Junior, Celso Furtado e Nelson Werneck Sodré.  
  E eis porque hoje, nesse imenso distanciamento, ao relembrarmos aquele 26 de junho de 68, relembramos também que todos os estudantes brasileiros marcharam, em espírito, com os estudantes cariocas, e a Passeata dos Cem Mil ficou na história como uma referência indelével do poder de mobilização dos estudantes e da força que o pacifismo pode ter quando uma ampla frente popular pode ser bem organizada e bem representada. Naquele momento, o Movimento Estudantil atuou como o mais legítimo porta-voz da sociedade contra a Ditadura. Ele representava, por um lado, a radicalização de um conflito expresso pelas contradições contidas nas frustrações da classe média emergente em sua busca de um lugar ao sol. Por outro lado representava as tensões crescentes que essa mesma classe média – que em parte apoiou o golpe militar – e a classe operária passam a ter com o poder, cada vez mais agravadas pelo estado de exceção e pelo apoio dos segmentos mais conservadores das classes dominantes (leia-se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apoiando, em 64, o golpe militar). Embutida neste amplo questionamento estudantil estava também a velha estratégia do capitalismo moreno, sempre empenhado em manter uma política educacional dependente, promovendo uma educação académica alienante ao limitar a capacidade crítica do indivíduo para questionar o mundo em suas contradições sócio-políticas e ideológicas e, consequentemente, formar profissionais que se amoldem culturalmente ao sistema. 
  Por trás dessa invisível feição sociológica o movimento queria, na verdade, mostrar, explicitamente, a sua mais bela imagem: a face despojada do idealismo empunhando pacificamente o lábaro da justiça e da liberdade.
    Contudo, seus sonhos, legitimados por essa fé e esse compromisso, não puderam se realizar. À medida que o ano chegava ao seu final, iam-se esgotando as esperanças de se reconquistar o estado de direito por meios democráticos. O nosso drama político representava as últimas cenas do seu primeiro ato e a decretação do AI-5 baixou as negras cortinas ante uma plateia assustada. Os espectadores mais atentos não esperaram para ver como seria o segundo ato. Sabiam que ali se apagavam as últimas luzes da ribalta e somente as sombras iriam invadir o palco da tragédia. Foi a gota d’água para que muitas organizações de esquerda se decidissem pela luta armada. A partir daí a repressão caiu como uma rede sobre a classe estudantil e suas principais lideranças não encontraram outro caminho para a sua militância política fora da clandestinidade. Seus sonhos de mudar o mundo começaram muito antes, quando em 1961 a UNE fundou o Centro Popular de Cultura (CPC) cujo propósito era despertar pacificamente, com a arte, a consciência política do povo. Sob a direção do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho foram encenadas dezenas de peças, publicados livros, produzidos filmes e discos e promovidos shows, cursos e debates. Nessa saga cultural sem precedentes da nossa história se engajaram, ao lado de estudantes, artistas e intelectuais, figuras emblemáticas do teatro brasileiro como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Quando as sementes dessa utopia começavam a abrir suas flores e a colher seus frutos com a presença cada vez mais contagiante da população em seus espetáculos, o golpe militar de 64 colocou a UNE na ilegalidade e toda essa fogueira de sonhos e esperanças, cujo imenso clarão iluminou a geração de nossos anos dourados, foi abafada bruscamente pelo manto tenebroso da opressão. Quando no fim de 68 arrancaram das mãos do Movimento Estudantil as suas últimas bandeiras democráticas, não restou a eles outra expressão de bom combate que não fosse a luta armada. O que aconteceu depois, todos nós sabemos. Centenas deles foram presos, barbaramente torturados e mortos nas prisões do Regime Militar. Deram a vida para que sobrevivesse um sonho e para que continuassem abertas as trincheiras de luta que escavaram, em nome de um homem novo e de um mundo melhor. Esta é a triste memória que a história recente do país tenta resgatar pelos depoimentos dos que sobreviveram, pela escavação dos cemitérios clandestinos e na voz silenciosa dos desaparecidos. Eu bem quisera enumerar aqui os nomes da bravura. Dos que resistiram até o último golpe e caíram aureolados com a coroa do martírio. Mas todos os seus nomes somente podem ser escritos com a dimensão da palavra: legião. Porque sempre faltaria ainda um nome ou um codinome de alguém cujo coração materno poderia derramar a derradeira lágrima, motivada pelo meu esquecimento."(continua)
 Manoel de Andrade, in “ As Palavras no espelho”, Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda, São Paulo, Brasil, 2018, pp 25-32

domingo, 19 de maio de 2019

Ao Domingo Há Música

Joaquín Sorolla, "Mulheres dançando flamenco ,
no Café Teatro-Salon Novedades, em Sevilha",Andaluzia

                          Hay cosas que se encienden y otras que se apagan,
                          hay cosas que iluminan los suspiros del alma,
                          hay cosas que se olvidan y otras que se clavan,
                          hay cosas que se rompen con solo una mirada
.

El cante jondo rompe, em nós, a saudade, de alma lusa, que se espraia nos lamentos vividos de um passado ora feliz  ora premonitório de um futuro de afectos.
A Andaluzia, que vive aqui  ao lado,  palco maior do flamenco, acena-nos com o  fascínio de um canto que Garcia Lorca engrandeceu e que nos condena à sedução dos seus suspiros. Resistir-lhe é impossível.
Eis-nos, pois , com dois grandes intérpretes , Niña Pastori e Miguel Poveda, em  Ya No Quiero Ser .
Licença SME (em nome de Sony Music Entertainment); Muserk Rights Management

Miguel Poveda , em  Embrujao por tu querer.
Registo licenciado para o Youtube por MediaMuv (em nome de Arriba Music); Muserk Rights Management e duas sociedades de direitos musicais.

Niña Pastori, Arcángel, Miguel Poveda, Rafael de Utrera e Pedro El Granaíno, em Requiem de Vicente Amigo, no espectáculo de homenagem a Paco de Lucia.
Registo licenciado para o YouTube por SME (em nome de Legacy Recordings); Muserk Rights Management e uma sociedade de direitos musicais.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Memórias

                                    
                                   Tento reconstruir na minha imaginação
                                  Quem eu era e como era quando por aqui passava

                                                     Álvaro de Campos, "Poesia"

Nessas férias , fui aprender dactilografia antes do início da saída para a Praia. Todos nós tirámos o curso de dactilografia nos anos em que não tínhamos exames escolares. Os meus pais achavam importante adquirirmos esse conhecimento. E tiveram razão. Os teclados vieram para ficar. As máquinas mudaram , mas eles sobreviveram. Mais tarde , iniciei também um curso de estenografia que nunca utilizei. O método de ensino de dactilografia foi evoluindo com o tempo. Enquanto, eu aprendi , decorando o lugar de cada tecla, mas a ver o teclado, os meus irmãos mais novos aprenderam ao som de música e sem olhar para o teclado. Vê-los a escrever, era como imaginar um pianista a tocar uma bela sonata de Beethoven.
Póvoa do Varzim
Em Lisboa, as praias, que tínhamos para escolher, eram várias. A Póvoa de Varzim deixara de estar ali a acenar-nos. Ficara lá, longe, para se fazer  pertença da  minha infância. Fechara-se esse capítulo em que se dera o achamento do Mar. Tenho-o ainda guardado dentro de mim. Questiono-me por que recordamos tão intensamente os momentos que vivemos na infância?!  Por que razão me tenho alargado e revivido com o mesmo encantamento todo esse tempo ? Dediquei-lhe um grande número de páginas neste relato. Não sei explicar, apenas o sinto tão presente, tão nítido que quase o reescrevo com os dedos e o coração de criança. Não de uma criança qualquer , mas de uma entre outras também  felizes.
As férias grandes eram sempre o tempo do Mar. Ele esteve e estará presente em todas as férias . Todos os meus irmãos gostavam de praia. E nesse tempo, existia já a profilaxia do iodo como uma necessidade para um saudável crescimento e desenvolvimento.
Praia do Guincho ( Cascais)
Praia da Ursa
Cabo da Roca
Lisboa oferecia-nos duas costas : aquela que se designava a Costa do Sol que apanhava a linha do Estoril-Cascais, alargando-se até ao Guincho e  a outra costa , a Costa de Sintra. Esta última de águas muito batidas e frias , algumas com enseadas deslumbrantes, mas quase inacessíveis pelas arribas em penhascos, como a Praia da Ursa , a Praia do Abano  junto ao Cabo da Roca e, mais para norte,  a Praia da Samara, a Praia da Vigia ou a Praia da Aguda.
Havia, também, outras diferenças entre estas duas costas. A Costa do Sol tinha águas mais calmas e amenas; a Costa de Sintra, além de mais agitação marítima, as manhãs começavam invariavelmente com uma camada de fina neblina que enganava aquele que chegasse à procura de um quente banho de sol.  Era sempre incerto o tempo estival, nesta zona.  O dia começava e terminava com  uma camada  nebulosa e húmida, apesar de, pelo meio, ter estado um verdadeiro dia de verão. Emergia, nesta paisagem, a memória dos meus dias de Póvoa de Varzim. Para mim, era a costa norte, a costa de Sintra, que me desafiava. O arrebatamento adormecido eclodia sempre que avistava aquele mar. O êxtase de menina vinha naquela voz cava  a aspergir as palavras  mágicas  da nossa sempiterna  união. Agora não era apenas o deslumbre, era eu sem poder viver longe daquele chamamento. Creio que  tenho revelado quanto preciso e gosto deste enamoramento com o Mar. As minhas rugas ainda hoje, 2017, tecem loas infindas ao seu encanto.
As praias mais procuradas eram a Praia Grande e a Praia das Maçãs. Ficavam no sopé da serra de Sintra. Muitas famílias as procuravam pela largueza e pelo conforto de estar a poucos quilómetros de Lisboa. Para se aceder à praia , além do comboio que partia do Rossio, em Lisboa , havia um eléctrico à espera, junto à estação de  Sintra, que seguia até à Praia das Maçãs. Era um magnífico percurso através da bela paisagem do Parque Natural de Sintra e com passagem por castiças e afamadas povoações  como Galamares,  Colares e Banzão. Uma viagem quase encantada e familiar. Parava-se em muitos lugares. O condutor esperava os passageiros que se atrasavam e permitia que se saltasse dos lugares para  distender as pernas. Em Colares, chegava a parar para se poder comprar os muito procurados e saborosos pêssegos-rosa de Colares. O eléctrico não tinha janelas, proporcionando um contacto directo com aquela fantástica natureza. Natureza que se vestia de um formoso  e singular verde, em paleta de várias tonalidades para fazer  de Sintra um dos mais belos recantos de Portugal.
Com um grande areal, a Praia Grande era um outro destino que se podia optar. Bastava  sair , no Rodízio, junto à bomba de gasolina, onde existia a bifurcação das duas estradas que davam acesso respectivamente à Praia das Maçãs ou à Praia Grande.
Quem quisesse podia apanhar o autocarro ou ir a pé , atravessando a ponte sobre a  Ribeira de Colares, até à Praia Grande, e desfrutar da vista do imenso mar que se deixava ver logo que se subia a encosta . Lá, em baixo, numa pequena enseada rochosa , dormia a Praia Pequena que também foi minha cúmplice por diversas e frequentes visitas. Quando passei a viver na outra Quinta , na Serra de Sintra, era um refúgio, nos dias mais ventosos, para um banho estimulante.  Mais tarde, serviu para os meus filhos se espraiarem também.
Praia Pequena
Praia Grande
A Praia Grande era , então, extensa e simpática a quem quer que chegasse. Permitia lugar para todos. Não se confundia com as praias da linha do Estoril, apinhadas de gente , logo que as férias chegavam.
Os banhos eram , por vezes, uma cerimónia de grande arrojo. A água fria  nem sempre se deixava enrolar nos nossos corpos, conforme desejávamos. Havia momentos e dias em que o mar se encrespava e o perigo era real. Mas  a maresia que se soltava  enchia  o nosso olfacto e refrescava os nossos sentidos.
Acode-me  o poema  de rememoração  de Miguel Torga que julgo assentar bem  aqui: Sim, a vida não presta./Mas foi bonita a festa/Da mocidade./O corpo são, a alma sã e todos os sentidos/Na sua virgindade/Castamente despidos.
Lembrá-lo, agora, dá não sei que paz./Esta paz medular/De já ter sido./E ter sido capaz/De uma hora solar/Gravada a fogo no tempo perdido.
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi, Maio de 2018

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Jazz na voz de Barbara Hendricks


Barbara Hendricks canta Duke Ellington  , no  espectáculo  Tribute to Duke Ellington, promovido pelo  Montreux Jazz Festival, em 1994. Acompanham-na o  Monty Alexander Trio, com Monty Alexander ao piano, Ed Thigpen  na bateria e  Ira Coleman  contrabaixo.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Páginas do Diário I de Eugénio Lisboa


Eugénio Lisboa
Quando se fala de Eugénio Lisboa,  pensa-se, de imediato, no  credenciado e exímio ensaísta  e no crítico literário de excelência.  Laborioso conhecedor  de vasta poesia e devotado intérprete  de incontáveis obras literárias, tem produzido , ao longo de décadas, páginas preciosas e únicas para estudo da Literatura Universal. Aprendemos e extasiamo-nos com as descobertas que  nos apresenta. A Literatura deixa de ser apenas um aglomerado de obras para ser, em cada registo eugeniano, a obra. A luminosidade que lhe vem do saber acumulado e do gosto profundo pela leitura tem o poder de nos contagiar, numa contaminação compulsiva e duradoura.  A palavra é nele uma ferramenta que manuseia com perícia e mestria. Resistir à escrita de Eugénio Lisboa é um acto impossível. Há uma sedução que nos prende e um glamour que nos deslumbra, embora como homem de ciência inclua  no discurso a clareza, o rigor e a precisa medida. É nesse habitat festivo e lúcido que a escrita de Eugénio Lisboa vive para nos encantar. 
Tem uma vasta e variada obra que vai do ensaio à poesia. Os sete  volumes publicados das suas memórias, "Acta est Fabula", são um hino à arte da escrita e  a afirmação de que é mestre em qualquer género literário. Obra de um riquíssimo fôlego narrativo vem demonstrar que não há  géneros nobres ou menores em Literatura. Ao  primeiro volume de Acta est Fabula foi atribuído o Grande Prémio de Literatura Biográfica 2012/2013, da Associação Portuguesa de Escritores (APE).
Em Novembro de 2018,  Eugénio Lisboa publicou o volume  primeiro de Aperto Libro, páginas de Diário. Trata-se de  um novo magnum opus,  um longo e rico registo diarístico, que teve início em 1977, quando Eugénio Lisboa vivia na Suécia, Estocolmo , na qualidade de professor universitário. Registo que  não cessará ao longo dos anos.  Fixará os dezassete anos de  actividade  como Conselheiro Cultural, na Embaixada de Portugal ,em Londres, o regresso a Portugal com a Presidência da Comissão Nacional da Unesco, os anos de docência na Universidade de Aveiro  e todo o período posterior  até à actualidade. 
É dessa obra , que extraímos o preâmbulo e algumas das entradas das primeiras páginas. 
O segundo volume  está no prelo e  acreditamos que Eugénio Lisboa terá, certamente, já  finalizado a montagem de todos os volumes previstos deste grandioso  Aperto Libro.  

A ABRIR
por Eugénio Lisboa
"Escrever um diário, pôr a alma a nu, dizer tudo – pode ser uma grande tentação. Desde muito jovem cedi – e resisti – a essa tentação. Já estudante universitário, iniciei, por fim, em clave de clandestinidade, a redacção de um diário. Não fui excessivamente assíduo, mas fui razoavelmente teimoso, Ao fim de algum tempo, contudo, desisti. A vida meteu-se pelo meio, com a sua turbulência, os seus dramas, as suas prioridades. Abandonei, por completo, a redacção do diário encetado e nem sei, hoje, o que será feito dessas páginas juvenis: provavelmente desaparecidas. Pouco, julgo eu, se terá perdido. Só muito mais tarde, já perto dos cinquenta, reiniciei, timidamente, sem grande assiduidade nem continuidade, a redacção de um diário. Foi isto em 1977, quando me encontrava a viver em Estocolmo, ido de África, onde investira 38 anos da minha vida. Arrancado de tudo quanto fora a minha felicidade e alegria de viver, tendo perdido, havia pouco, o meu pai, transplantado para aquela beleza gélida e branca, senti-me tentado a iniciar um registo de diário do que ia vendo e do que me ia acontecendo. A mudança de cenário fora tão brutal e traumatizante, que se me tornava difícil imaginar o futuro. À cautela, ir registando e comentando… não se sabendo o que aí vinha. Mais tarde, em 1981, retomei, com alguma continuidade, a empresa. De então para cá, uma vez, foi sol de pouca dura: nova e longa interrupção e só com alguns intervalos pelo meio e a perda de um substancial caderno, entre S. Francisco e Nova Iorque, o registo diarístico tem seguido o seu curso. Tenho, ocasionalmente, publicado, em revistas, algumas passagens desta obra, mas determinara que a publicação integral em livro seria póstuma. Fizera mesmo, da minha amiga Teresa Martins Marques minha testamentária, com plenos poderes para organizar e promover a edição da obra, após a minha morte. Isto seria, segundo me fui apercebendo, um pesado encargo, que estaria a preocupar, com alguma razão, a minha excelente amiga. As razões de querer que a obra fosse póstuma têm muito que ver com a total liberdade que a mim próprio dei, ao redigir estas páginas de diário: digo, por todo o lado, o que penso, sem grandes preocupações de ferir esta ou aquela vaidade, este ou aquele ponto mais sensível. Sei que, publicado, poderá levantar algum pelo. Mas acabei por resolver encetar, ainda em vida, a publicação do controverso opus. Dado o volume de texto envolvido, é quase certo que não terei vida para levar o empreendimento a bom termo. Ficará o resto ao cuidado de Teresa Martins Marques, em qualquer caso, já aliviada de boa parte do encargo inicial.
Os volumes 4º e 5º das minhas memórias e o volume anexo a estas e intitulado Diário de viagens fora da minha terra inserem muitas passagens deste diário, que, por isso, não serão repetidas nesta edição dele. Quem quiser ler o que aqui falta – e não é assim tanto – só terá de consultar aqueles volumes.
Dizia Stendhal, a propósito das suas obras égotistes: " Je suis convaincu que le seul antidote qui puisse faire oublier  au lecteur  les éternels Je que l'auteur va écrire, c'est une parfaite sincerité."
Julgo que as páginas do meu diário não fogem ao protocolo de une parfaite sincerité, pelo qual até se costuma pagar um avultado preço."

1977
Estocolmo, 6.04.1977 - Morrer de velho – na Suécia. Fui ontem ao Instituto Sueco, com um grupo de finalistas de engenharia da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Um grupo de seis rapazes, inteligentes, educados, rápidos, gulosos de aprender. Entre vários filmes, mostram-nos um sobre a vida na Suécia: ambiente, filosofia da vida social, económica e política. Vindo de um lado, ouvi um comentário, a raspar…  Observei: “Notem que os criticamos com os dados que eles próprios nos estão a fornecer…  Não escondem nada. “ Com efeito. Duas cenas, inesquecíveis, de uma grande capacidade de autocrítica (de dúvida, em todo o caso), implacáveis. Numa, um velho (velhíssimo: morre-se tarde, neste país), sentado num quarto materialmente bom, só, só, só, fitando o ontem, falando com fantasmas, num monólogo solitário, gélido e despido. Morrendo a solo, sem o calor de uma presença. (Há quem morra, solitário como o rinoceronte, olhando a televisão. Fechado em casa, sem qualquer contacto humano. Durante seis meses, após a morte, ninguém dá pela sua falta e só o cheiro, por fim, denuncia o cadáver. A que ponto deixamos de contar, para os outros: seis meses e ninguém dá pela nossa falta.)
Outra cena:  o comentarista do filme debita as vantagens e conquistas materiais da sociedade sueca. Depois, pergunta: “Seremos felizes?” E dá-nos uma eloquente resposta, com uma sucessão de imagens de pessoas conduzindo os seus barcos soberbos, no canal, com um ar triste e figé, de quem cumpre um ritual obrigatório: é preciso ter um barco e mostrá-lo. Aqui estou, como vês, triunfei. O ar milenarmente triste, o sorriso resignado, o desapontamento só meio confessado: então foi para isto que triunfei?
Comentário de um misógino ou, no mínimo, de um crítico implacável da mulher: “Na Suécia, a mulher é forte. É mais forte do que o homem. O homem fraqueja, soçobra, mete-se no álcool e na droga. A mulher, não. A mulher é forte.”  Diz a palavra “forte”, rilhando os dentes, numa hostilidade subterrânea, numa espécie de ódio em itálico.  Vive casado com uma mulherzinha obediente e calada, solitária, meio assustada. Ele começa as frases da resposta que deveria ser ela a dar e acaba também ele o que ela nem chegou a balbuciar: e conclui, por ela, a resposta, sacudindo a cabeça com ímpeto, como se estivesse a concordar, vivamente, com o que ela não chegou a dizer. E, no entanto, pressente-se que ela tem uma vida interior intensa, a sua própria filosofia da vida (que não coincidirá, necessariamente, com a dele). Quanto tempo vai durar este monólogo a dois, esta submissão aparente?
(...)
Universidade: conversa com estudantes. Vou lendo autores com mais ou menos interesse. Com Eça, é o deslumbramento. Confessam-se rendidos, vencidos, dominados. É tal o fascínio, que diagnosticam nele virtudes que não chega a ter: a penetração psicológica, por exemplo… Em Eça, a psicologia é superficial e sumária. A magia da frase é que faz o resto.

Estocolmo, 11.04.77 – Texto de Claude Roy, no Nouvel Observateur – trata-se de um prefácio para uma nova edição, em França, das Recordações da Casa Morta, de Dostoiewsky. Transcrevo um parágrafo: “On sait que de la «Confession» de Bakounine aux procès de Moscou et de Gogol et Dostoiewsky à Boukharine, l’aveu, la confession-aveu, est le plus grand genre littéraire russe. Si on est un peu à distance d’un Russe, et qu’on n’entend pas ce qu’il dit, on a de grandes chances de gagner en pariant qu’il est  en train d’avouer. Avouer quoi? Ce qui intrigue l’étranger, c’est que cela n’a pas grande importance. Le Pope et le Commissaire, le bourreau de Pierre le Grand ou le tortionaire de Staline ne sont pas très regardants sur la véridicité de l’aveu. Ils ne font pas le détail. L’essentiel c’est d’avouer. La culpabilité n’est pas une conséquence de l’exposé des crimes: elle est première. On est d’abord coupable. On precise de quoi ensuite.”  
O curioso é imaginar esta longa e trágica “tradição” eslava, transferida hoje para o húmus africano: Angola, Moçambique, Somália…  Por lá, também, o importante é a confissão. A velha literatura confessional, tão desacreditada, voltando à luz forte da ribalta… Também, em Moçambique, o importante é o camarada  vergar-se e humilhar-se aos pés do czar opressor, pedir-lhe perdão e agradecer-lhe o envio para um campo de “recuperação”.  O opressor tem necessidade do amor do oprimido: estende-lhe a mão e espera que o outro lha beije, com devoção (metaforicamente, claro).
A opressão, à esquerda, tem boa consciência: a história justifica-a.  Eis por que, apesar de tudo prefiro uma boa ditadura de direita: ali, a má consciência do ditador atenua a violência da purificação. Com Salazar, era a arbitrariedade, a prisão, a tortura e, muito ocasionalmente, o assassinato. Com Staline, era a orgia do genocídio.
(...)
Londres, 08.02.1981 – Biógrafos. Como ando a escrever um grosso livro sobre Jorge de Sena, registo aqui, para meu governo, uma história que mostra a massa de que são feitos os verdadeiros biógrafos. Trata-se, para o caso, de Boswell, o biógrafo de Samuel Johnson. Um dia, o pintor Mauritius Lowe (1746 – 1793) pediu a Johnson que lhe escrevesse uma carta. Johnson fê-lo e, enquanto escrevia, Boswell apareceu. A sua atenção ficou imediatamente grudada ao papel que o seu biografando ia produzindo. Lowe pegou na carta e afastou-se, logo seguido por Boswell. O pintor estranhou o interesse de Boswell na sua pessoa porquanto, no passado, este mal dera pela sua existência. Todavia, Boswell aproximou-se dele “com os cumprimentos mais exagerados e insinuantes” que se possam conceber:
“Como está Sr. Lowe? Espero que esteja bem, Sr. Lowe. Desculpe o meu atrevimento, Sr. Lowe, mas julgo ter visto o meu querido amigo, o dr. Johnson, a escrever uma carta para si.”
“Sim, senhor.”
“Espero que não me ache grosseiro, mas far-me-ia um grande favor e deixar-me-ia infinitamente obrigado, se me deixasse simplesmente dar-lhe uma vista de olhos. Tudo quanto sai daquela mão, como sabe, é de tal modo inestimável…”
“Meu caro senhor, trata-se de um assunto particular, mas…”
“Eu seria incapaz de meter o nariz nos assuntos de outras pessoas, de modo nenhum, estou certo de que o senhor não me acusaria de tal coisa: só lhe peço, caso se não trate de nenhum segredo especial.”
“Meu caro senhor, leia a carta à sua vontade.”
“Muito obrigado, meu caro Sr. Lowe, fico-lhe infinitamente agradecido pela sua inexcedível gentileza.” Depois de ter lido a carta, observou: “Creio que não se trata de nada de que deva envergonhar-se, Sr. Lowe.”
“Claro que não.”
“Nesse caso, meu caro senhor, poderia talvez fazer-me mais um favor que tornaria a minha gratidão eterna. Se quisesse fazer-me a fineza de dar um salto comigo ao café do Peele e autorizar-me a tirar uma cópia da carta, não haveria nada que eu não fizesse, dentro das minhas possibilidades, para lhe agradecer.”
“Fiquei estupefacto”, observaria Lowe, mais tarde, contando a história aos amigos, “por esta súbita familiaridade e condescendência, acompanhadas de curvaturas (...); fomos para o café, a minha carta foi transcrita e, assim que se apanhou com o documento no bolso, o Sr. Boswell afastou-se, tão erecto e altivo como o tinha sido meia hora antes. A partir desse dia, nunca mais deu por mim.”
Soberbo artigo de Joseph Brodsky, na New York Review of Books, dedicado a Nadezhda Mandelstam, viúva do poeta Osip Mandelstam e autora de dois livros de memórias  Hope against hope e Hope Abandoned). Os aforismos duros e intensos fulguram como diamantes que simultaneamente acusam e consolam. Falando dessa espantosa epopeia da memória – Nadezhda, com medo da vulnerabilidade dos papéis, decorava todos os poemas do marido e de alguns amigos a fim de os preservar para o futuro (como no romance de Bradbury) – Brodsky observa: “If there is any substitute for love, it’s memory.” (Vem-me ao espírito o frenesi retentivo, a fúria de recordar e transcrever tudo o que lhe ocorre, de Mécia de Sena… “Memorizar é restaurar a intimidade”. Recordar é fazer ressuscitar.)

Londres, 09.02.1981 – Ontem, toda a tarde mergulhado na papelada íntima do Sena: cartas à Mãe, à Avó e à Mulher. Uma vida de adstringência financeira, à Balzac: um tostão a tapar o buraco feito pela saída de outro tostão. E uma crença quase monstruosa – em si próprio e no acto de escrever.
(...)
Carta do Luis Amaro e do Eduardo Lourenço sobre a minha Poesia Portuguesa.. O primeiro, amigo, elogioso, levanta contudo algumas reservas, umas legítimas, outras ilegítimas. Eduardo Lourenço mantém o seu ponto de vista de que a presença foi uma marcha-atrás, em relação aos do Orpheu. E observa que o heterónimo Caeiro não foi um poeta objectivo, nem sequer o quis ser. É o que chamo puxar pelas orelhas a um texto. Às vezes, um pouco de candura ajuda a leitura (rima e é verdade). E demasiada esperteza não é sinal de sageza. Pretender ser demasiado inteligente, na interpretação que se propõe de um texto pode influenciar a constante quântica que intervém na deformação do observado pelo observador. Olhar o percurso da bola perturba esse percurso. Olhá-lo com demasiada intensidade transtorna marcadamente esse percurso. Fernando Pessoa corre o risco de ser manipulado em excesso, tornando-se, eventualmente, vítima de um estupro interpretativo.  

Londres, 14.02.1981 – Em períodos de decadência, em arte, substitui-se a complexidade pela complicação. A complexidade caracteriza as obras grandes; a complicação é ingrediente das obras interessantes. A tortuosidade da escrita e da montagem consome-nos, na interpretação dessas obras, mais energia do que antes gastávamos a penetrar a verdadeira riqueza. A complicação é um recurso de impotentes; a complexidade é o fardo dos vigorosos.

Londres, 15.02.1981 – Ontem foi dia de leitura, música e televisão. Na televisão, 8ª sinfonia de Mahler, dirigida por Leonard Bernstein. Hoje, manhã inteira dedicada à leitura do volume II de The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell. Aos ingleses ficou sempre atravessado o famoso ensaio de Tolstoi sobre Shakespeare. Mas, como o admite, com a sua integridade habitual, o próprio Orwell, quase tudo quanto Tolstoi diz em desabono de Shakespeare é incontestável. Simplesmente, uma data de coisas importantes passam ao lado das reservas do escritor russo e deixam imperturbáveis a popularidade do dramaturgo e, em larga medida, a sua demonstrável grandeza.
Este volume de Orwell inclui também o seu diário do período da guerra, que vem confirmar uma das características do povo inglês que particularmente me exasperam: a lentidão com que reagem aos estímulos, provocações e mesmo ameaças. Só à beira do abismo se convencem de que talvez nem tudo esteja bem. Isto, é verdade, permite-lhes não entrarem em pânico e reagirem com frieza à eventualidade de uma catástrofe. Por outro lado, leva-os a aproximarem-se do desastre, sempre demitindo, como frioleiras, as previsões dos clarividentes…" Eugénio Lisboa, in Aperto Libro, Páginas de Diário I - 1977-1990, Opera Omnia Editora, Novembro de 2018, pp 9-10,13-15,25-29

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Novidades Literárias

INCM -Imprensa Nacional Casa da Moeda
"Uma Conversa Silenciosa, de Eugénio Lisboa, reúne 78 textos, breves ensaios sobre literatura, sobre escritores, sobre política cultural, sobre edição e editores. Ao longo de todos os ensaios perpassa a erudição do autor, o seu vasto conhecimento, não apenas das literaturas lusófonas mas também das literaturas de outras latitudes, nomeadamente de língua inglesa e francesa."

Relógio d’Água Editores
Maio
1 — Party | A Casa, de Agustina Bessa-Luís (prefácio de António Preto)
Duas obras de Agustina de que Manoel de Oliveira fez algum do seu melhor cinema.

2 — Trajectos Filosóficos, de José Gil
A filosofia abre caminhos, descobre atalhos de um a outro conceito e dentro de cada conceito. Às vezes tece uma rede vibrante de percursos. Do homem ao animal, da indiferença à inexistência de Deus, do destino à história, ou da máquina inteligente ao pensamento, inventam-se trajectos que, no meio do tumulto do mundo, lançam um facho de luz no escuro da noite.

3 — As Superpotências da Inteligência Artificial, de Kai-Fu Lee
Kai-Fu Lee, um dos mais respeitados especialistas mundiais em inteligência artificial (IA), revela-nos o modo como subitamente a China está a alcançar os Estados Unidos nesta corrida. O autor demonstra que, devido aos desenvolvimentos sem precedentes na área da IA, as mudanças que se avizinham serão muito mais rápidas do que julgamos e que terão impacto mesmo em empregos mais complexos, que outrora se pensou estarem seguros.

4 — Memórias, Sonhos, Reflexões, de Carl Gustav Jung
Trata-se de uma antologia de artigos e entrevistas do mais talentoso discípulo de Freud, e que elaborou uma das mais influentes teorias psiquiátricas do século XX. O livro foi escrito quando, aos 81 anos, Jung decidiu contar a história da sua vida.

5 — A Balada do Medo, de Norberto Morais
O autor de O Pecado de Porto Negro retoma personagens que parecem saídas do que de melhor produziu a literatura latino-americano de Onetti a García Márquez.

6 — Superinteligência, de Nick Bostrom
O autor, investigador em Oxford, examina um problema essencial do nosso tempo, a possibilidade humana de controlar a superinteligência antes de ser demasiado tarde.

7 — Sabes que Queres Isto, de Kristen Roupenian
Elogiado pela New York Times Book Review e autoras como Carmen Maria Machado e Miranda July, “Amante de Gatos”, um dos contos do livro, é, a par de Brokeback Mountain, o conto mais falado de sempre [The Guardian]. Foi também em 2017 o mais lido, tanto online como em papel, da The New Yorker. O conto capta o medo de se ser uma jovem mulher a viver em 2017, o que, entre outras coisas, implica uma desesperante necessidade de ser boa e simpática a todo o custo. O livro será adaptado a série de televisão pela HBO.

8 — Topologia da Violência, de Byung-Chul Han
Neste ensaio, o autor de A Sociedade do Cansaço procura expor as novas formas de violência que se ocultam sob o excesso de positividade. Em sua opinião, a violência tende a transformar-se de visível em invisível, de real em virtual, de física em psíquica, embora por vezes se continue a manifestar-se nas suas formas mais clássicas.

9 — Chico Caramelo e as Suas Ferramentas, de Chris Monroe
Em breve uma série da Netflix.

10 — Provocações (antologia), de Camille Paglia
O feminismo heterodoxo e combativo de Paglia continua a chocar os que mergulham na letargia do politicamente correcto. Mostra-se capaz de ter em conta os aspectos biológicos do ser humano, sem esquecer as dimensões sociais e culturais nem cair no conservadorismo.

11 — Saberás Quem Sou, de Megan Abbott
Um audacioso thriller sobre a família, que se desenrola na hipercompetitiva arena da ginástica. Assim como o já publicado Dá-me a Tua Mão, será adaptado brevemente à televisão.

12 — A Cortina da Senhora Lugton, de Virginia Woolf
Na sua cadeira Windsor, a senhora Lugton cose uma cortina junto à lareira, mas, quando adormece, os animais selvagens que decoram o tecido, livres de toda a vigilância, partem à aventura num mundo que só eles conhecem.

Junho
1 — O Abismo de Fogo: O Grande Terramoto de Lisboa, de Mark Molesky
O historiador norte-americano de Harvard escreveu a principal obra sobre o terramoto de Lisboa de 1755.

2 — Pessoas Normais, de Sally Rooney
O romance é apontado pelo The Guardian como "o fenómeno literário da década e um futuro clássico". O The Times considerou-o o melhor romance do ano. A autora, já considerada a voz de uma nova geração, mostra-se capaz de captar a linguagem do nosso tempo, descrevendo a relação de dois jovens irlandeses no liceu e na universidade. As suas ambições e decepções são descritas com inesquecível ternura. O livro obteve o prémio de livro do ano da Waterstones, foi finalista do Man Booker Prize e venceu recentemente o Costa Book Award 2018 na categoria de romance (Rooney foi a autora mais nova a vencer este prémio).

3 — Correspondências + Minhas Queridas, de Clarice Lispector
Nas suas cartas, a autora entreabre o seu “coração selvagem” aos leitores.

4 — Pensar sem Corrimão (antologia), de Hannah Arendt
Estes ensaios abordam temas que vão desde “Karl Marx e a Tradição do Pensamento Político Ocidental” até “Transições”, passando pelo totalitarismo e a violência na sociedade americana.

5 — O Estendal e Outros Contos, de Jaime Rocha
Uma antologia de contos do também poeta e dramaturgo Jaime Rocha.

6 — A Ciência de Interstellar, de Kip S. Thorne
A recente “exposição” de um buraco negro perdido no universo actualizou a importância do trabalho de Kip S. Thorne.

7 — O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais

8 — Agnes Grey, de Anne Brontë

9 — Shirley, de Charlotte Brontë

10 — Os Três Mosqueteiros, de
Alexandre Dumas

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Mai 2019

Vous l'attendiez ? Vers la beauté de David Foenkinos est maintenant disponible en Folio !

Antoine Duris est professeur aux Beaux-Arts de Lyon. Du jour au lendemain, il décide de tout quitter pour devenir gardien de salle au musée d'Orsay. Personne ne comprend cette surprenante reconversion de la part d'un spécialiste de Modigliani. Qu'a-t-il vécu pour fuir ainsi ? Mathilde, la DRH du musée, est décidée à percer son secret.
« Un récit qui ne nous lâche plus, nous sidère, nous bouleverse. »
Bernard Lehut, RTL
« Comme dans Charlotte, quelque chose de lumineux, de vital se dégage de ce récit. Un roman puissant qui vous dévore »
Mohammed Aïssaoui, Le Figaro Littéraire


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