quinta-feira, 8 de setembro de 2022

O assombro da criação

 

É o poeta quem guarda e multiplica a força vital da palavra. Nele, as palavras antigas mantêm  a sua ressonância , e as novas ascendem  da obscuridade  activa  da consciência individual à luz comum do exterior. O poeta cria numa semelhança com os deuses. O seu canto é construtor de cidades; as suas palavras têm esse poder que,  acima de todos os outros, os deuses negam ao homem, o poder de conceder vida duradoura.
                    George Steiner , Linguagem e Silêncio

Eugénio Lisboa acaba de publicar um  livro de poesia.  Poeta   inquieto e insubmisso  continua a laborar,   ao sabor de uma inspiração que lhe vem de um eterno e sempre constante  assombro. A singularidade com que assume a força da palavra fere-nos pela beleza e pela perfeito desafio que coloca em cada poema.
Apresentamos alguns dos  sonetos que foi tecendo, durante o período que este espaço esteve encerrado.  

Apagamento

Se o grande sol que nos alumia
fosse tão eterno, como parece,
isso, de algum modo, permitiria
acreditar que nem tudo fenece.

Se o sol eternamente durasse,
haveria maneira de supor
que a Terra por mais tempo ficasse
vivificando-se com o seu calor.

Mas o sol tem os seus dias contados,
mesmo que os dias sejam milhões de anos.
E, quando esses anos forem passados,

memória de gregos e de troianos
ter-se-á de todo desvanecido
deste planeta para sempre esquecido.
                         07.09.2022
Eugénio Lisboa

As perguntas simples
 
Se tudo não significasse nada,
se não houvesse sentido nenhum
em que a vida fosse continuada,
com vista a propósito algum,
 
não tendo sentido fazer sentido,
se  ser em vez de não ser se entendesse,
enfim, se o nada fosse intuído,
algo palpável que se conhecesse!
 
Prás perguntas simples não há resposta,
só com as outras, se pode tentar.
As simples esbarram com uma crosta
 
que é impossível atravessar.
As perguntas feitas pela criança
abalam toda a nossa segurança.
                                 30.08.2022
Eugénio Lisboa

                                                                ....
King's Row

 
Era “Em cada coração um pecado”
o título brasileiro da obra
e “King’s Row” o do filme aclamado.
De tudo isso, agora, o que sobra?
 
Sobra muito: uma funda emoção,
a descoberta de um mundo sinistro,
o incesto, o sadismo, a reacção
ao contacto do magistral registro.
 
A descoberta gritada do sexo,
a fundura secreta do desejo,
a estranha doçura do amplexo,
 
a viagem à índia de um beijo!
A felicidade e a tragédia
e a loucura, nessa enciclopédia.
                         27.08.2022
Eugénio Lisboa

O assombro

Ao Onésimo, bom amigo
e bom perscrutador


É no assombro que tudo começa.
É ele que nos abre todas as portas.
Não existe obstáculo que impeça
o assombro de escancarar comportas.

Assombrar-nos é vermos para além
do exíguo espaço em que estamos.
Espantar-nos é votar desdém
ao pequeno reino em que moramos.

O assombro é a sala de espera
dos fazedores do conhecimento.
O assombro desvela na quimera

a luz nova e forte de um portento.
O assombro desflora terra virgem,
penetrando, de tudo, a origem.
25. 08.2022
Eugénio Lisboa

                                                                      ....

Distância

A nossa vida é feita de lonjura,
ficando quanto queremos a distância.
Por todo o lado se tece conjura
que ao desejo trava, mesmo a infância.

A vida recusa quanto promete
e, se dá o que dá, é com medida.
A plenitude do sonho remete
pra outra vida nunca acontecida.

A força do desejo é contida
por muralha chinesa reforçada:
nos poderes que podem, está retida

a raiva que trava o doce à vida.
Mas vale, de Sísifo, o penedo
empurrar, à vida não tendo medo.
                          24.08.2022
Eugénio Lisboa


Rimas para um tempo de guerra

Diz-me com que rimas, dir-te-ei quem és.
Há rimas que são bem reveladoras,
porque mostram claramente o revés
das coisas, tornando-se acusadoras.

Dou, como exemplo, a palavra guerra,
que rima com tanta coisa que é feia:
rima – é só um exemplo – com berra,
mas rima igualmente com enterra.

Porque, se a guerra enterra e berra,
é verdade que ela também ferra
e tanta, tanta coisa boa encerra.

A guerra, em tudo o que visa, erra,
deixando revolvida toda a terra.
E até Napoleão perdeu a guerra!
                      17.08.2022
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A casa que me deixou a avó



Tempo de confissão
por Maria Ondina Braga
«Querida Isa: Invento-te aqui, agora, às onze e meia da noite de um Janeiro enluarado e gélido, na casa que me deixou a avó e que se esfarela roída pela formiga branca. O terrível insecto, que se supõe exclusivo dos trópicos, há muito tomou conta deste arrabalde da cidadezinha onde nasci e nenhum veneno consegue exterminá-lo. Os chalés brasileiros, por vezes casarões de dois pisos e águas-furtadas, entortam grotescamente por aí acima: a cabeça à banda dos telhados, o olho mirolho das sacadas, a perna manca de um alpendre. No quarto do Pedrinho, por enquanto também o meu, da janela virada a nascente só se podem abrir as portadas: do lado de fora, alastrando-se pela vidraça, avulta uma espécie de tumor penhascoso, o ninho, o núcleo dos nossos invisíveis atacantes, e os alicerces do rés-do-chão vão aluindo ao longo da fachada. Nessa colmeia · não ousamos nós mexer. Dizem que, se lhe mexêssemos, a praga se espalharia, não podíamos mais aqui viver. Dizem ainda que, das raras vezes em que chove e dá sol ao mesmo tempo, estão as feiticeiras a pentear-se, a raínha do enxame morre subitamente, a sociedade termiteira decompõe-se, anarquiza, fácil libertarmo-nos espetando ali, rápido, um prego em brasa. Histórias da carochinha! E como? Se chuva e sol ao mesmo tempo não duram mais que um instante? Na rua, o silêncio a esta hora é de longe em longe cortado pelo rodar de um automóvel, que o último autocarro passou às dez, ou por miados de gatos da vizinhança. E pela neve. Está a gear lá fora, geada preta, o alcatrão da estrada envidraçado. Cá dentro, o silêncio seria perfeito, não soubesse a gente desse sorrateiro .e infindável exército a errar pelo labirinto dos roda-pés, as ombreiras das portas, os secos das varandas, a minar as raízes fundas da casa na colina, a esburacar-lhe as quatro fontes da quadrada cabeça- até que, em dia de disparado vento, amanheçamos todos vestidos de poeira, o silêncio consumado, o silêncio total de campo-santo. Minha avó costumava bater com os nós dos dedos nos lambrins de cana da sala-de-jantar: "Oh, Inimigo! Eu vos esconjuro, destruidor fantasma!" A casa: dote dos padrinhos residentes no Pará, que ela nunca conheceu pessoalmente. Orfã, minha avó instalou-se aqui com uma criada velha, aos quinze anos, e começou a bordar o enxoval. Então, na noite de núpcias, desejando oferecer delicadamente ao noivo uma bebida, dirigiu-se à arca de castanho, levantou o tampo, tirou uma toalhinha, soltou um grito: todo o bragal, toalhas adamascadas e de baínhas abertas, naperons bordados a ponto- -de-cruz e a Richelieu, tudo furado de baixo a cima, um crivinho em espiral, como a escada em caracol hoje intransitável da torrinha. "Oh, inimigo! Oh, fantasma destruidor!" A verdade é que ninguém ouve os vorazes bichos. Apenas, de onde em onde, o estalido da madeira e o folhear do caderno em que te escrevo. O João deve dormir a sono solto, tal o menino no quarto. do medonho e empedernido favo. Finalmente decidida, desci pé ante pé, sentei-me à secretária com lápis e papel -lápis não resiste, vai-se apagando com os anos - e principiei a escrever-te, a sentir-te a presença reconfortante.
Perguntarás por que te nomeio Isa e não Isabel ou Isaura, como se pronunciasse só metade do teu nome. Escolhi Isa precisamente pela brevidade da palavra, um sopro, digamos, um suspiro. Chamo por ti sem bem chegar a chamar por ninguém. E se anteponho ''querida'' não é por afectação nem desfastio, antes por uma teimosia, uma saudade de amar. Desesperado apelo este "querida". Igual à vida que imito viver. Igual à minha alma hirta e oca como árvore morta. »
Maria Ondina Braga, texto publicado na revista Sema nº4, com desenho de Margarida Madaíl, retirado do blog dedicado a Maria Ondina Braga, escrito por José António Barreiros. 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Adriano Moreira completa 100 anos

 
Adriano Moreira nasceu a 6 de Setembro de 1922, em Grijó. Completa , hoje , 100 anos.  Tem sido homenageado no país, em diferentes modos e ritmos. Enquanto homem de saber, intelectualmente inquieto, teve uma longa intervenção pública. Escolhemos dois registos videográficos que completam o excelente artigo de Viriato Soromenho Marques ,publicado no jornal Diário de Noticias de hoje. 
Ao Professor,  saudamos estes longos e jubilosos anos.
Adriano Moreira - um século português na vertigem do mundo
por Viriato Soromenho Marques
"Poucas personalidades têm a fortuna de projectar a sua idade biográfica na escala dos séculos, que é o tempo próprio apenas de povos e civilizações. Ainda menos são aquelas que pelo seu pensamento e intervenção na realidade se transformam numa fonte incontornável para o debate onde se consolida a memória comum e se forma a movente consciência coletiva. No caso português, essa personalidade parece-me coincidir com a figura complexa e multifacetada de Adriano Moreira, que hoje completa um século de existência.
SEIS PERÍODOS DE UM PERCURSO
Uma vida tão longa pode ser dividida em diferentes períodos. Contudo, desde a conclusão da sua licenciatura em Direito, no distante ano de 1944, até aos dias de hoje, temos na sua vastíssima obra - concretizada, entre outros modos de expressão, em ensaios, tratados e artigos académicos, pareceres e diplomas jurídicos, conferências, intervenções parlamentares, crónicas de imprensa, entrevistas - um testemunho continuado da sua meditação sobre o mais vertiginoso século da história humana, tendo como fulcro essencial, mas sempre em diálogo com todos os outros nexos de interesse global, o destino de Portugal, como povo e cultura. Uma preocupação com o país, que integra e articula uma necessidade de compreender a (des)ordem do mundo, as suas contradições, as suas tendências e ciclos. É nessa avaliação do todo englobante, que Adriano Moreira tenta situar o que ameaça Portugal e o que o país pode esperar. Isso constitui uma espécie de método, que com modulações, mas sem rutura, poderemos encontrar em todas as fases do seu percurso. Primeiro, no período de formação académica e início da carreira profissional, até final da década de quarenta. Segundo, numa etapa fundamental de amadurecimento e consolidação de uma vocação universitária atenta aos problemas mais agudos do país, onde a teoria e o trabalho de campo se completam, até final da década de cinquenta. Terceiro, no mais breve, intenso e marcante entrosamento da sua vida pessoal com a do país, entre 1960 e 1962, como responsável da política ultramarina, quando as placas tectónicas da história mundial retiravam a base de sustentação do Euromundo, essa mistura de sonho e pesadelo dos impérios europeus. Quarto, na longa travessia do deserto, nessa espécie de exílio interno nos últimos doze anos do Estado Novo, a que se junta o exílio propriamente dito, no Brasil, após a revolução de 25 de Abril de 1974. Quinto, no seu regresso a um país que o acolheu e redescobriu, como professor, líder político e deputado na Assembleia da República, entre 1980 e 1995. Sexto, na transformação do que poderia ser um tempo de merecido repouso, numa contínua e generosa disponibilidade para aceder a múltiplas solicitações e convites das mais diversas instituições, para partilhar o seu saber."
Viriato Soromenho Marques, em artigo publicado no DN de 06.09.2022

Marcel Aymé


 

GRANDES ESCRITORES QUE O NOBEL IGNOROU
I – Marcel Aymé
por Eugénio Lisboa
"Alguns dos mais fabulosos escritores do século XX foram completamente ignorados pelos soturnos juízes da Academia sueca, a troco de verdadeiras mediocridades que o tempo já esqueceu e, noutros casos, há de esquecer.
Hoje escolho, entre os ignorados, Marcel Aymé, porque ando a ler, fascinado e deliciado, a sua colectânea de historietas, fábulas, invenções, fantasias, achados, modestamente intitulada ENJAMBÉES.
Aymé é um prodigioso narrador, um humorista surpreendente e ferino, um escritor de enorme inventiva e fantasia, um manipulador genial das palavras, um ventilador da língua, um lírico originalíssimo, um autor dramático de prodigiosa força – a sua peça, LA TÊTE DES AUTRES é uma das sátiras mais contundentes que conheço, em qualquer língua - , um observador minucioso do mundo real e também do sobrenatural, um fabulista do mais alto gabarito, um irresistível contador de histórias para todas as idades e estações.
Seguramente ficará para os vindouros, porque nasceu já clássico e permanecerá eternamente jovem e sedutor. Um escritor que é criminoso não ler, porque não lê-lo é desperdiçar um dos grandes prazeres da vida. Os do Nobel ignoraram-no porque a palavra “humorista” os assusta, esquecendo-se que a maior parte dos verdadeiros humoristas (não confundir com gracejadores) são gente do mais sábio e do alcance mais universal que existe. De Aristófanes, passando por Molière, até aos mais recentes P. G. Wodehouse, Mark Twain, O. Henry, Woody Allen, Stephen Leacock, James Thurber, Damon Runyon, Tom Sharpe, Evelyn Waugh,  entre muitos outros, todos estes grandes observadores e originalíssimos comentadores do mundo que nos rodeia – e sempre grandes desbravadores dos recursos da língua em que escreveram – são, a meu ver, dos mais indiscutíveis benfeitores da humanidade: pelo que nos ensinam e porque nos iluminam e divertem. Mark Twain é bem maior, mais durável, mais eternamente jovem e provocador do que muitas das nulidades sombrias que o Nobel galardoou mas não consagrou.
Aymé é um genial desbravador de territórios maravilhosos e inexplorados, é um cantor da música sibilina das palavras, é um portentoso aproximador de palavras improvavelmente associáveis. É um génio da sedução, por várias vias, é, em suma, um dos verdadeiramente grandes.
O filósofo, conde de Keyserling, passando um dia por Paris, perguntou ao poeta Paul Valéry: “Quem é o vosso maior escritor vivo?” Valéry respondeu prontamente: “É Montherlant, mas não convém dizê-lo.” O mundo literário tem destes interditos.”
Eugénio Lisboa, 05.09.2022

Foi desde sempre o Mar



Mar Absoluto
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.
 
Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.
 
E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.
 
Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
 
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.
 
E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
 
Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.
 
O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
 
O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.
 
Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.
 
Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.
 
Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.
 
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.
 
E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
 
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.
 
Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.
 
E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
 
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.
 
E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.
 
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.
Cecília Meireles, in Mar absoluto: Retrato Natural,  Editora Record/Altaya , 1997 , 1ª Edição

domingo, 4 de setembro de 2022

Ao Domingo Há Música


CANTAMOR

Se de ti colho as flores que em minha casa
fazem explodir de luz os corredores
e afago a solidão que trago acesa
acima de outras dores

se de lembrar-te apenas o perfil
mil vezes morro e sinto que outras mil
me cumpre renascer

se no teu corpo bebo a madrugada
que ladeia  de paz a longa estrada
que tenho de correr

pois não hei-de cantar-te meu amor?
Torquato da Luz, Caliban, 3/4

A aurora, o  despertar do dia traz, além da beleza do raiar da luz,  a esperança de mudança , de uma redenção que crie um pouco do paraíso que todo e qualquer ser humano sonha. 
Há vozes que permitem sonhá-lo. Lisa Gerrard é uma grande artista que, ao longo da sua carreira,  nunca deixa de surpreender. Ei-la num novo projecto,   revelador do seu extraordinário  talento.
Lisa Gerrard & Marcello De Francisci , em  "When The Light Of Morning Comes“ (Official Video), do Álbum  'Exaudia', cujo  lançamento completo aconteceu a 26/08/2022.
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard. 
Music Track composta, interpretada, produzida,  masterizada por Marcello De Francisci . Gravação de  Atlantic Curve | Schubert Music Publishing .
  

Lisa Gerrard & Marcello De Francisci, em  'Until We Meet Again' (Official Video ), do Álbum  Exaudia.
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard.
   
Lisa Gerrard & Marcello De Francisci , em 'EXAUDIA' (Vídeo Oficial) , do  Álbum Exaudia (Exaudia' - Um termo usado quando um monarca concede uma audiência a um cidadão do reino e, como resultado, consente  um desejo.) 
Melodia vocal composta e interpretada por Lisa Gerrard. Music Track composta, interpretada, produzida,  masterizada por Marcello De Francisci . Gravação de  Atlantic Curve | Schubert Music Publishing .
 

sábado, 3 de setembro de 2022

O IDEÓLOGO CATA-PIOLHOS



Os textos fazem muitas comichões
a quem os lê, procurando piolhos.
Há nos textos gazelas e leões,
inacessíveis a quem usa antolhos.
 
Não fica ao alcance dos cata-piolhos
fruir a grandeza do elefante:
eles tapam os olhos com ferrolhos
e não topam, do nariz, nada adiante.
 
A arte é feita para ser fruída
por quem a ama e bem a entende.
Não é feita para ser destruída
 
por tolo que a ela não ascende.
O ideólogo cata-piolhos
tem só trambolhos, em lugar de olhos.
                               22.08.2022
Eugénio Lisboa
 
Eu, até há pouco tempo, pensava que esta espécie de cata-piolhos ideológico era uma raça felizmente extinta. Infelizmente, continua por aí, ignorante, teimosa, de olhar enviesado, desconfiando de tudo quanto é arte verdadeira, odiando tudo quanto não é ideologia pura e dura e tendo uma não erradicável nostalgia de tempos e regimes em que os vigilantes estavam atentos, sinalizando, sem ambiguidades, a arte que não se podia fazer e aquela que se devia fazer. Mas houve um muro que caiu e um paraíso ideológico que se desfez. Restam uns patéticos poucos, que dão continuidade ao peditório. Felizmente, para eles, vivem num regime político horrível, que lhes dá plena liberdade de continuarem alienados, cantando e rindo. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Para ler com impune prazer

                                     
                                                                            
A sós, os dois.
Isto é, livro e leitor.
Este não quer saber de terceiros,
não quer que interpretem,
que cantem, que dancem um poema.
O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio…
Mario Quintana 

Sou uma leitora completamente dependente desse vício impune que é a leitura. Tenho uma biblioteca razoável com milhares de livros. Leio e releio com prazer desmedido  esses livros  , embora me surpreenda com alguns tesouros que , na gula incontinente da compra, não tive tempo de ler . Alguns descubro, num golpe esporádico de sorte, alinhados à sombra de outros, já saboreados em devido tempo. Outros há que se acotovelam numa mesa, à espera  de uma  voraz disponibilidade de consumo, para que se não  confundam com todos os outros já  degustados e bem arrumados pelas prateleiras. 
Talvez para aqueles, que visitam este blog, não seja uma surpresa este gosto infindo pelos livros. Foram  os livros que  possibilitaram a criação e manutenção deste espaço. Vive de leituras e da aprendizagem que delas ficou. Renova-se e enforma-se de outras numa consanguinidade quase  pura e impertinente. 
E se a silly season se deu por extinta e a rentrée se desenha , é tempo de lançamento de livros , de apontar leituras e até de visitar uma Feira do Livro , que chega fora de um tempo a que nos habituou.
 
Quanto a livros novos , começo por um excelente livro de poesia que traduz, com magistral  acuidade poética,  um tempo que se viveu e se vive: a Guerra suja desencadeada por um terrível e alucinado invasor - Putin.  
Com a chancela da Editora Guerra & Paz, Poemas  em Tempo de Guerra Suja , de Eugénio Lisboa, é um livro que nos enleva pela perfeição artística de cada poema. Toca-nos fundo pela mágoa , pela dureza , pela raiva,   pela angústia e por um inconformismo ético que só a palavra oriunda de uma magnífica oficina poética é capaz de traduzir. 
No site da Editora pode ser lido o seguinte:
"A indignação é o combustível de Poemas em Tempo de Guerra Suja, o novo livro de Eugénio Lisboa. Actualíssima, a obra reúne os poemas que o poeta, ensaísta e crítico literário foi escrevendo em plena invasão da Ucrânia pelas tropas russas e nos quais Eugénio Lisboa reage a quente, com comoção e revolta, à devastação e aos crimes de guerra que têm vindo a manchar este ano de 2022. Um livro contra a guerra, mas, acima de tudo, contra Putin, Poemas em Tempo de Guerra Suja chega à rede livreira nacional no próximo dia 6 de Setembro, numa edição Guerra e Paz com a força de mil homens. O livro poderá ainda ser adquirido, nas Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, que decorrem até 11 de Setembro.
«Preferia não ter escrito este livro, sinal de que não tinha havido uma guerra que, de resto, continua a haver. Um tirano, antigo espião de uma ditadura sangrenta, alimentando sonhos megalómanos de retorno a um império de má memória, promoveu a invasão e a destruição da Ucrânia e, dentro de mim, a indignação que é o sangue destes versos.» 
Tendo consciência de que, embora haja grande literatura contra a guerra, escrita em todos os tempos e latitudes, a denúncia dos seus horrores não impediu que outras guerras surgissem depois, o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa decidiu não baixar os braços."
Não Matarás!, o novo  livro de  Teresa Martins Marques, que acaba de ser lançado. Trata-se de  um arrojado romance sobre um grande acontecimento político italiano, o rapto de Aldo Moro. Misterioso e repleto de sombra, este trágico acontecimento é o centro de todo esta obra. A leitura trará revelações e um olhar profundo sobre a investigação que tem sido feita nos últimos anos . Assim, no site da Editora Gradiva, chancela desta obra, poderá ler o seguinte:

"Roma, Via Fani, 16 de Março de 1978. O sequestro de Aldo Moro durante 55 dias, o massacre da sua escolta e finalmente o seu assassínio. Que abalariam a Itália e chocariam o mundo. E acabariam com os três maiores partidos políticos italianos. Reivindicado pela organização terrorista Brigate Rosse, quem foram realmente os seus mandantes? Este livro acompanha a investigação rigorosa que, nos últimos anos, tem vindo a lume na Itália, mostrando a rede de cumplicidades nacionais e internacionais, na origem dos crimes.
Teresa Martins Marques, com ligações à Itália, a quem a personalidade, o carácter e a acção de Aldo Moro cativaram e o crime horrorizou. Chocada com a recusa do governo democrata-cristão e do Partido Comunista em negociar com o grupo terrorista a sua libertação, leu tudo o que sobre o assunto se escreveu, falou com colaboradores, amigos, alunos e familiares, e ligou os fios que até hoje ninguém quis ou se atrevera a ligar. Numa escrita de uma fluência singular, a autora junta os dados e reconstitui o que só numa obra de «ficção» podia ser contado. O rapto de Moro não foi para negociar. Foi para matar."
A par destas duas novas obras, há uma série de lançamentos que não comentarei .Pretendo indicar alguns livros recentes  que me tornaram refém de uma leitura compulsiva e inebriante. Eu, que leio obstinadamente, dei por mim a regressar aos meus tempos de jovem, quando a leitura de um empolgante  livro  anulava  qualquer outra tarefa ou compromisso.    


De Amim Maalouf, Escalas do Levante foi uma surpreendente descoberta, embora conheça bem este magnífico escritor por outras interessantes leituras. Há, contudo, neste livro uma tal  beleza,  dada quase como perdida,  no desenho peculiar da personagem principal, Ossyane, o protagonista de uma trágica história de encontros e desencontros que nos prende  do princípio ao fim. Li-o  em mergulho fulminante  , tal e qual como fazia nos meus dias de jovem leitora rebelde.
Marcador é a chancela desta edição , onde está aposta a  sinopse deste tocante romance: 
"Escalas do Levante era o nome que se atribuía antigamente ao rosário de cidades mercantis através das quais os viajantes da Europa chegavam ao Oriente.
De Constantinopla a Alexandria, passando por Esmirna, Adana ou Beirute, essas cidades foram, durante muito tempo, lugares de mistura onde conviviam línguas, costumes e crenças. Universos frágeis a que a História lentamente deu forma antes de os derrubar, quebrando, de passagem, inúmeras vidas.
A personagem central deste romance, Ossyane, é um desses homens de destino desviado. Da agonia do Império Otomano às duas guerras mundiais e às tragédias que, ainda hoje, dilaceram o Médio Oriente, a sua vida não pesará mais do que uma palha na tempestade. Pacientemente, recorda a sua infância principesca, a avó demente, o pai revoltado, o irmão desonrado, a sua estada na França ocupada e o encontro com a sua amada fugitiva, Clara, os seus momentos de fervor, de heroísmo e de sonho. E, depois, a descida aos infernos.
Despojado do seu futuro e da sua dignidade, privado das alegrias mais simples, que lhe resta? Um amor à espera. Um amor tranquilo, mas poderoso. Talvez, no fim de contas, mais poderoso do que a própria História."

Como Poeira ao Vento, um livro admirável de Leonardo Padura . Intenso e longo é um excelente romance. A revolução cubana, que tantas promessas trazia , fez crescer uma geração empenhada em ser melhor, em aprender, em sacrificar-se para se valorizar e melhorar um país. Mas a verdadeira face de uma falsa ideologia  revelou-se  e  traiu essa geração que se viu numa encruzilhada sem futuro, sem progresso. A fome e a miséria grassaram . O universo perfeito dos iguais não passou  de uma falácia , de uma iniquidade onde havia alguns  iguais e a maioria numa desigualdade atroz.  
Acompanhando um grupo de amigos de formação universitária, personagens fortes deste romance, acompanha-se a história de Cuba até ao tempo  hodierno.  Obrigados pelo medo , pela fome, pela  falta de futuro acabam por fugir ou sair da ilha e sentir o desenraizamento de refugiado. Um livro de grande fôlego. 
Na sinopse aposta no site da Porto Editora, que publicou o livro, lê-se: 
"O dia começa mal para Adela, jovem nova-iorquina de ascendência cubana, ao receber um telefonema da mãe. Há mais de um ano que as duas estão zangadas, porque não só Adela se mudou para Miami, como vive com Marcos, um jovem havanês recém-chegado aos Estados Unidos, por quem se perdeu de amores e que a mãe rejeita pelas suas origens. Como se isso não bastasse, nesse dia Marcos mostra a Adela uma fotografia sua em criança com o grupo de amigos dos pais, autodenominado o Clã. E quando, entre aqueles rostos, Adela reconhece um que lhe é particularmente familiar, o seu mundo ameaça ruir."
Como poeira ao vento é a história de um grupo de amigos que sobreviveu a um destino de exílio e dispersão em Barcelona, no extremo Noroeste dos Estados Unidos, em Madrid, em Porto Rico, em Buenos Aires… Que lhes fez a vida, a eles que se amavam tanto? Que aconteceu com os que partiram e com os que decidiram ficar? Como é que o tempo passou por eles? Tornarão a uni-los o magnetismo do sentimento de pertença e a força dos afectos? Ou serão as suas vidas como poeira ao vento?

Fome Vermelha, A guerra de Estaline contra a Ucrânia, de Anne Applebaum, é um livro envolvente , de um grande rigor histórico que nos exige  uma leitura atenta . A revelação dos métodos tenebrosos de Estaline para arrasar um povo leva-nos a confirmar que há sempre um novo  tirano para continuar a história trágica do mal , como acontece com Putin.
Eis a resenha deste precioso  documento , resultado de uma profunda investigação:
"Em 1932-3, quase quatro milhões de ucranianos morreram de fome, tendo sido deliberadamente privados de alimentos. É um dos episódios mais devastadores da história do século XX. Com autoridade e detalhes sem precedentes, Fome Vermelha investiga como isso aconteceu, quem foi o responsável e quais foram as consequências.
É o relato mais completo já publicado desses terríveis eventos.
Fome Vermelha baseia-se num manancial de material de arquivo e em testemunhos em primeira mão disponíveis apenas desde o fim da União Soviética, bem como no trabalho de estudiosos ucranianos em todo o mundo. Inclui relatos da fome por aqueles que sobreviveram, descrevendo o que os seres humanos podem fazer quando enlouquecidos pela falta de alimentos. Mostra como o Estado soviético, impiedosamente, usou a propaganda para pôr os vizinhos uns contra os outros, a fim de expurgar elementos supostamente antirrevolucionários. Também regista as acções de indivíduos extraordinários que fizeram todo o possível para aliviar o sofrimento.
Em paralelo com a fome, deu-se um ataque aos líderes culturais e políticos da Ucrânia, e posteriormente entrou-se num período de negação acerca desses acontecimentos. Os relatórios dos censos foram falsificados e a memória foi obliterada. Alguns jornalistas ocidentais acolheram a linha soviética, outros rejeitaram-na corajosamente e foram perseguidos. As autoridades soviéticas estavam empenhadas em obrigar a Ucrânia a abandonar as suas aspirações nacionais, e em enterrá-la juntamente com os seus milhões de vítimas. Fome Vermelha, um triunfo da erudição e da empatia humana, é um marco na recuperação daquelas memórias e daquela história. E mostra até que ponto o presente é moldado pelo passado."

Nota: Aconselho,  ( a quem puder ) , visitar as Feiras do Livro (Lisboa e Porto) ,  perder-se por lá ,entre os stands das diversas editoras,  e responder ao incessante apelo dos livros.