quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Celebrar 250 anos de Beethoven

A Nona Sinfonia Choral-Mvt. 4., de Ludwig van Beethoven, por  Anna Samuil (soprano), Waltraud Meier (mezzo-soprano), René Pape (bass),o National Youth Choir of Great Britain e a West-Eastern Divan Orchestra, sob a direcção do Maestro Daniel Barenboim, no Royal Albert Hall, em Julho de 2018, em Londres (Proms 2018).
A Nona Sinfonia, a primeira da história a utilizar coro, foi concluída em 1824, quando Beethoven já não ouvia nada, a não ser as reverberações do piano. A surdez começou a dar sinais quando ele tinha menos de 30 anos. Devido à importância universal do Hino à Alegria da 9.ª Sinfonia de Beethoven, a UE escolheu este tema como seu hino.
Nasceu há 250 anos um dos maiores génios da música clássica Ludwig van Beethoven (Bonn,17 de Dezembro de 1770 — Viena, 26 de Março de 1827). "Alguns musicólogos dizem que, se existisse um trono para a música, ele deveria ser repartido entre Bach, Mozart e Beethoven. Outros só concordam com essa repartição se a coroa for apenas para Beethoven. Bach já havia morrido quando ele nasceu na cidade de Bonn em 17 de Dezembro de 1770. 
Beethoven teve aulas com professores de renome, incluindo Joseph Haydn, figura importante também na vida de Mozart. Mas, quando se estabeleceu em Viena, já com a Revolução Francesa em andamento, o génio rompeu com a estética de todos para trilhar o próprio caminho.
Quase um  visionário , um revolucionário, Beethoven não se conformou com o que estava feito. Foi para além do cânone. Com a sua  imaginação,  talento e criatividade  introduziu novos padrões que marcaram para sempre a História da Música. Morreu surdo  aos 56 anos de idade . É actualmente um dos compositores clássicos mais procurados no mundo.

Ludwig Van Beethoven por Joseph Karl Stieler ,
 em 1820, segurando a partitura de“Missa Solemnis in D#” 

                                                                          A vibração no ar da respiração de Deus fala à alma dos homens. 
Música é a linguagem de Deus. Nós, músicos , estamos o mais 
perto que os homens podem estar de Deus. Escutamos a sua voz. 
Lemos os seus lábios . Damos a luz aos filhos de Deus. Contamos 
as suas preces. Isso é o que os músicos são. 
                                                                Beethoven
Missa Solene, Op.  123, de Beethoven

Não é solene esta música, 
ao contrário do nome e da intenção.
Clamores portentosos, violência obsessiva
( por sob apelos doces, lacrimosos)
de um ritmo orquestral continuado,
tanta paixão gritada, tanto contraponto
que teimosamente impede que na tessitura 
das vozes e dos timbres se interponha hiato
não de silêncio mas de um fio só
de melodia, por onde a morte 
penetre interrompendo a vida.

É medo, um medo-orgulho, feito
de solidão e de desconfiança. Não
piedosa tentativa para captar um Deus,
ou ardente anseio de união com Ele.
Não é também, com tanta majestade,
a exigência de que Ele exista,
porque o mereça quem assim O inventa.

É um medo comovente de que O não haja
para remissão dos pecados, bálsamo
das feridas, consolo
das amarguras, dádiva
do que se não teve nunca
ou se perdeu para sempre. É
desejo ansioso de que um Agnus Dei
se interponha (ao contrário da morte) mediador e humano 
entre um nada feito música
e outro possivelmente Deus.
E a esperança desesperada de que seja
uma grandeza nossa quanto fique,
de pé, no intervalo entre ambos.
                       2 de Novembro 64
Jorge de Sena, in " Versos e alguma prosa de Jorge de Sena, Prefácio e Selecção de textos de Eugénio Lisboa", Co-edição de Arcádia e Moraes, 1979  p. 82

Não sei dizer quantas e quantas vezes tenho ouvido Beethoven. A Missa Solemnis, Op. 123 é a obra que mais me encanta, que mais procuro. A peça é contemporânea da Sonata Hammerklavier, a 9ª Sinfonia e das últimas três sonatas para piano. 
"Das principais Missas, consideradas clássicas (Bach e Bruckner), a de Beethoven possui uma forma sinfónica,em 5 movimentos: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. A obra possui um estilo dramático, é só observar as palavras do próprio Beethoven: “do coração! Que possa retornar aos corações”.
Ludwig van Beethoven compôs duas missas e um singular oratório intitulado Cristo no Monte das Oliveiras, além de duas cantatas compostas na juventude; essa foi toda a sua produção religiosa. A segunda missa, a impressionante Missa Solemnis, op. 123, por sua alta qualidade musical já seria suficiente para garantir a Beethoven um lugar na história da música. Composta para homenagear o arquiduque Rudolfo da Áustria, a Missa Solemnis é tão extraordinária que a sua audição fora de uma sala de concertos é praticamente impossível. Os elementos que necessita para a sua execução extrapolam as dimensões de uma igreja de tamanho normal: quatro solistas (soprano, contralto, tenor e baixo), um grande coro, uma orquestra de cordas, duas flautas, dois oboés, dois clarinetes, dois fagotes, corno de bassetto, quatro trompas, dois trompetes, três trombones, timbales e um órgão. A estrutura segue as secções tradicionais de Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus/Benedictus e Agnus Dei, apesar de ser longa demais para a utilização litúrgica convencional. Além disso, os textos em certas partes  afastam-se do dogma católico. Tremendamente complexa, a Missa Solemnis não se parece a nada: é única.
Missa Solemnis, en Re mayor, Op. 123. Ludwig van Beethoven (Latin/ Engl./ Span. subtitles)
Título de la obra: Missa para solistas, coro e orquesta, em Re mayor ("Missa Solemnis"), Opus 123. Compositor: Ludwig van Beethoven (1770-1827). 
 Tonalidade: Re maior.
 1ª interpretação: San Petersburgo, 7 de abril de 1824. 
Dedicatória: Archiduque Rudolph de Austria (1788-1831). 1ª edição: B. Schott Söhne (Maguncia), 1827. 
O registo que se segue  foi  realizado no Royal Albert Hall de Londres (BBC Proms 2014). A interpretação é de:  Lucy Crowe, soprano Jennifer Johnston, mezzo-soprano Michael Spyres, tenor Mathew Rose, baixo,  acompanhados  pelo   Monteverdi Choir e   Orchestre Révolutionnaire et Romantique , sob a direcção do Maestro John Eliot Gardiner. 


"Assim o Kyrie, é um hino piedoso e solene, deve ser cantado com devoção. A parte central em forma de moteto (si menor e fa# menor) , é cantada pelos solistas e termina em pianíssimo. A volta do Kyrie, reintroduz a tonalidade principal e intensifica a harmonia numa bela alternância do coro e dos solistas em comovida prece que se extingue lentamente. O texto sagrado conduz aos movimentos seguintes, o Gloria e o Credo. Enquanto que na Missa em si menor de Bach, e o Gloria é cheio de alegria sobre humana, o canto de louvor de Beethoven encontra-se animado de incessante agitação. O Et in terra pax, traz o primeiro repouso porém o arrebatamento retorna com o Laudamus Te. A expressão, bem como a tonalidade é a seguir variável, até que a tonalidade principal seja reencontrada com o Pater omnipotens. A segunda parte do Gloria contem um expressivo Larghetto, o Qui tollis peccata mundi, que Beethoven concebeu como lamento é uma prece de tão comovente humanidade,  que ele próprio acrescentou um “o” para os solistas, e um “ah” para o coro, antes dos apelos finais do Miserere. A parte conclusiva deste movimento principia na tonalidade principal com um Quoniam tu solus Sanctus, espantosamente curto e agitado, culminando na grandiosa fuga coral do In gloria Dei Patris, onde Beethoven desenvolve uma arte contrapontística excepcional. Na conclusão, o início do Gloria que retorna acelerado até ao Presto dá desta maneira uma unidade sinfónica ao movimento.
O Credo, em si b maior, de acordo com o carácter do texto, é ainda mais variado e expressivo. Desde o início, sentimos o esforço tremendo que Beethoven realiza para nos transmitir a sua fé. O Et incarnatus est e as outras secções que se seguem, falando da vida, crucificação, ressurreição e ascensão de Cristo; em Cuius regni non erit finis, a palavra non é expressamente repetida para maior ênfase, do mesmo modo que mais tarde a palavra credo. O final constitui, em duas fugas sobre o mesmo tema, a visão da vida eterna, Et vitam venturi saeculi, e nas exclamações finais do Amen, reaparece o tema original do Credo.
No Sanctus, o canto de louvores reflecte uma prece humana, um Adágio e a meditação. Após o curto Pleni sunt coeli, fugado, e o Osanna, a meditação se expande em figuração. A melodia o solo de violino, desce flutuando das mais elevadas paragens, reconstitui o milagre da descida de Jesus e da transubstanciação. O Benedictus, é no amplo sentido, a música de transição, cujo carácter se infiltra no desenvolvimento posterior, indo além da repetição do Osanna.
O Agnus Dei, constitui o Finale desta grande sinfonia coral. Miserere nobis! É aqui, com o solo inicial do baixo, em si menor, e após com o expressivo refrão do coro, que a lamentação alcança maior profundidade. Depois a severidade diminui e a prece de paz que é o Dona nobis pacem, introduz e faz retornar suavemente a tonalidade original de re maior. Sem embargo, ainda não reina paz no mundo exterior. Oração pela paz interior e exterior, foi o substituto anotado pelo autor para esta parte. O primeiro interlúdio orquestral sugere uma perturbação na paz exterior. O equilíbrio íntimo parece se estabelecer. Dona nobis pacem soa como se fora uma fuga solene. O tema é uma reminiscência do Messias de Haendel, cujo texto Der Herr regiert von nun na auf ewig (Agora o Senhor reinará para sempre). Todavia não são as tempestades exteriores as que verdadeiramente nos perturbam; são os da alma. O Scherzo orquestral que se segue é extraordinário pelo rude, veemente contraponto. O Dona nobis pacem, que se sucede, é cantado pelo coro, na tonalidade de sib maior, e constitui autêntico apelo pela paz. Então a tonalidade principal de re maior e o compasso de 6/8, são alcançados após um lento desdobramento. Nessa atmosfera de esperança ante a paz ainda incerta do Dona nobis pacem do coro final, ouvimos os tímpanos em si bemol ribombarem ainda duas vezes – eco da paz perturbada. Beethoven conclui a missa sem acrescentar o grande final redentor.” In Repertório Beethoven

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

BREVE NOTA SOBRE A IDOLATRIA

BREVE NOTA SOBRE A IDOLATRIA

por Eugénio Lisboa
"A idolatria foi condenada por três religiões diferentes – e nem sempre convergentes – como um dos piores pecados que um ser humano pode cometer. A Bíblia, a Tora e o Alcorão convergem nisso sem a mais pequena reserva. O homem que idolatra não admira com fundamento: adora com fanatismo e vê, nos que ponham reservas a tão aquecida paixão, um inimigo arrogante, um desmancha-prazeres e um convencido. Quiçá um herético ou um infiel a abater. A idolatria renega o equilíbrio, a saúde mental e o sentido crítico.
Sobre a idolatria, o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, disse várias coisas saborosas, entre elas, esta: “O selvagem dobra-se diante ídolos de madeira e de pedra, o homem civilizado, diante de ídolos de carne e osso.” 
A nossa vida intelectual, depois de quarenta e seis anos de democracia e de muitas décadas de saudável pedagogia libertadora de um António Sérgio, vive ainda no comprimento de onda da mais provinciana e infecunda idolatria, como se torna evidente com a histeria obituária que por aí se despenha, de cada vez que se assinala o passamento de um vulto de algum modo mais destacado, no nosso meio cultural. A falta de perspectiva e de aconselhável comedimento que então nos assola é simplesmente assustadora. Uma avaliação honesta, modesta, comedida, e fora das ejaculações mais intemperadas é considerada inveja, mau feitio e desmancha-prazeres. O cronista A, o romancista B, o poeta C, o filósofo D são, no mínimo, verdadeiros gigantes, só que ninguém dá por eles, nos verdadeiros areópagos. Há nesta loucura não tão mansa como isso algo de muito doentio: uma espécie de sobrecompensação para a nossa pequenez e relativa pouca relevância internacional. Debita-se para aí uma ladainha de Bandarra, com promessas férvidas de triunfos que nos compensem de infortúnios pretéritos. Escrevemos então o melhor romance dos últimos cem anos, um poema tão grande como os Lusíadas e temos, entre nós, o melhor filósofo dos últimos três séculos ou mesmo de sempre. E fazemos uma festa com grande espalhafato, que só não nos torna mais ridículos porque ninguém, lá fora, dá por isso. 
Na África do Sul, na língua Afikander, há uma palavra capitosa que significa um peixe considerado grande porque habita num lago pequeno. Se eu fosse linguista, inventava, em português, um vocábulo que se ajustasse a este conceito. Teríamos bom uso para ele. 
O pior das idolatrias é que são um terrível entrave ao progresso do conhecimento. Este sempre se fez de um necessário acolhimento à contradição e ao encontrar sucessivo de melhores respostas para as nossas perplexidades. A admiração não faz mal, mas o embevecimento é de mau aviso. Além do mais, o idólatra tende a reduzir o diâmetro do foco da sua atenção: só vê o idolatrado e nada mais à sua volta ou para trás, numa espécie de “criacionismo” que a ciência de há muito rejeita. 
Para terminar, direi que o Portugal de Bento Caraça, de Aniceto Monteiro, de Aurélio Quintanilha, de Tiago Oliveira, de António Sérgio, de Sílvio Lima, de Jaime Cortesão, de Raul Proença, de José Régio, de Rui Luis Gomes, de Abel Salazar, de Jorge de Sena e de tantos bons argonautas da Seara Nova não merece que lhe suceda um Portugalinho idólatra, provinciano, unânime e contente. Alguém dizia que um Professor é um cavalheiro de opinião diferente. Um verdadeiro pensador, um verdadeiro investigador, um verdadeiro artista criador é também isso mesmo: um cavalheiro de opinião diferente A idolatria não acolhe a opinião diferente e é sempre um triste sinal de atraso. Por mim, enquanto o vigor me não abandonar, terei sempre muito orgulho em pertencer à tribo dos cavalheiros de opinião diferente. Até porque, mesmo com a minha provecta idade, não quero ficar parado. "
Eugénio Lisboa, 16.12.2020

Uma semana sem grandes incidentes


Eugénio Lisboa é um dos mais brilhantes intelectuais portugueses. Criador de uma vasta e multifacetada obra  que se estende pela Crítica Literária, Ensaio, Poesia, Crónica, Memórias,  Diários , este erudito escritor  foi além de gestor de Companhias Petrolíferas,  professor universitário e Conselheiro Cultural da Embaixada Portuguesa, em Londres,  durante 17 anos consecutivos, de  1978 a 1995. 
Da sua obra diarística , tem publicados dois volumes. O verbete que vamos publicar  pertence ao segundo volume , quando ainda exercia diplomacia cultural , em Londres. 

"Londres, 12.12.1993 (Domingo) – Uma semana sem grandes incidentes. Segunda feira, o Saramago veio à embaixada falar a cerca de 120 pessoas sobre o tema: “Da canção ao romance, do romance à canção”. O tema é interessante e, de facto, algum romance parece dar mostras de querer regressar à vastidão, à compreensividade e ao informe da canção de gesta original. Mas é mais do que duvidoso que todo o romance moderno evidencie essa vocação. E é também duvidoso que só agora ela se esteja a manifestar. O romance, como grande construção ambiciosa, capaz de abarcar toda a sabedoria de uma época, existiu no século XVIII, no século XIX e na primeira metade do século XX.
Enfim, o Saramago. 
Pena que as perguntas, no final da exposição, tenham sido quase todas um tanto paroquiais e se tenham dirigido mais ao guru do que ao escritor (como muito bem observou, dias depois, em conversa comigo, o Luis de Sousa Rebelo). 
Esta semana, tivemos cá ainda a visita do Luis Santos Ferro, sempre vivo, mordaz e eloquente. Falámos disto e daquilo e fomos ao teatro ver uma peça do Pinter (Moonlight), elogiadíssima pela crítica. A mim, deixou-me un peu sur ma soif. Ele não corta a angústia e o pathos com o humorismo ou com a farsa, à Pirandello. Ele corta-os com gelo afiado. Ameaça-nos… com quê? Agride-nos, para quê? O mistério, a ameaça, a dureza, a agressão parecem não vir de lado nenhum e não levar a lado nenhum. Talvez seja isso mesmo que ele nos quer dizer. Mas então? 
Descubro um grande ensaísta americano: Joseph Epstein, de quem leio um livro intitulado Partial Payments – Essays on Writers and their Lives. Inteligente, invulgarmente perceptivo, sereno, urbano, profundo, eminentemente civilizado. Belos e corajosos e lúcidos e subtis ensaios sobre Maugham, Larkin, Barbara Pym, V. S. Naipaul, Tcheckov. Um espírito raro, um modelo de ensaísta, brilhante sem ser vistoso, claro mas profundo, corajoso mas sereno. 
E leio também, com prazer, o Livro de Prefácios, de Borges. 
Neste fim de semana, na televisão, revejo um filme de Franklin Schafner que não via havia mais de vinte anos e que não pouco me impressionara: The War Lord, com Charlton Heston. Parte da magia foi-se, mas deve ser da idade. Em suma, gostei de rever mas não voltei completamente ao encanto da primeira vez.
Esteve cá também o Vasco Graça Moura, com quem negociei, na companhia do Kim Taylor, a concessão de uma bolsa de investigação ao John Villiers, para escrever uma biografia do Vasco da Gama. Associar-se-iam ao Vasco Graça Moura a Fundação Oriente e a Gulbenkian. Vamos ver. 
Na sexta feira (dia 10), almoço na embaixada, oferecido ao Ferrer Correia, actual presidente da Gulbenkian. Oitenta e tal em cada pé: a cair da tripeça. Agradece o almoço, num discurso cheio de floreados à antiga, atapetado de vocábulos de antanho – “recepção fidalga” - que deixam a filha da Ana Gomes (minha colega) de boca entreaberta: a nova geração não está habituada a estas subtilezas. 
Toda a semana, a Igreja Anglicana a digladiar-se por causa do Príncipe Carlos. Se deve ou não deve ser rei, se deve ou não deve ser Chefe da Igreja Anglicana. Para mim, é tudo o sexo dos anjos. Para começar, não levo a sério uma Igreja que tem como seu chefe… o rei. Só os ingleses são capazes destas “sínteses”. Ou destes “compromissos”. Tudo, é claro, por causa de o Carlos ter dormido (e gostado) com a Camila Parker Bowles. Sim, acho que o pior foi ter gostado: o sexo não é para isso. 
O Jim dorme a meu lado, felina, pacífica e extasiadamente. Já lhe disse: na próxima encarnação, quero eu ser o gato dele, sendo ele, portanto, o meu dono. Olhou-me com desprezo felino."
Eugénio Lisboa, in "Aperto Libro, Páginas de Diário II- 1991-1994", Opera Omnia editora, Outubro de 2019, pp.184,185,186

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Em cima do poema

Coisas de partir

Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo,
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir…
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.

E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.
Ana Luísa Amaral, in Coisas de partir, Lisboa, Gótica, 2001

domingo, 13 de dezembro de 2020

Ao Domingo Há Música

Casa onde nasceu Beethoven em Bona

Quem entende a minha música nunca mais será infeliz.
                                                            Beethoven

"Até mesmo 250 anos após o seu nascimento em Bona, à beira do rio Reno, a música de Ludwig van Beethoven emociona, inspira e une as pessoas em todo o mundo" 
Ludwig van Beethoven (Bona,17 de Dezembro de 1770 — Viena, 26 de Março de 1827) é um dos maiores compositores de sempre. A sua música é um legado imortal para a humanidade. Será impossível dizer quantas audições  têm sido feitas da sua obra, quantos concertos foram  e continuam a ser promovidos e  de quantos estudiosos e artistas se dedicaram à sua música. 
Neste ano do seu 250º aniversário, as homenagens repetiram-se  pelo mundo, numa revisitação  das suas mais variadas composições por grandes intérpretes. Entre eles, Anne-Sophie Mutter, Daniel Barenboim e Yo-Yo Ma, três dos mais destacados intérpretes  de música clássica , resolveram juntar-se para gravar o Triple Concerto in C Major em celebração  do 250º aniversario de Beethoven.  Este álbum pretendeu também marcar  o 20º aniversário da West-Eastern Divan Orchestra.  
O Triplo Concerto tem um lugar especial na obra de Beethoven, revelando o  seu espírito revolucionário e uma arquitectura musical  especial e sofisticada. Criativo , original e detentor de  um extraordinário e surpreendente talento construiu uma melodia  que é um copioso banquete musical.
Triple Concerto C Major, Op. 56, No. 2,  Largo de  Ludwig van Beethoven  , por três dos mais respeitados  intérpretes de música clássica e de Beethoven,   Anne-Sophie Mutter, Yo-Yo Ma e Daniel Barenboim, acompanhados pela West-Eastern Divan Orchestra. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

... sempre à espera do extraordinário - 100 anos de Clarice Lispector

Morte de uma baleia
por Clarice Lispector
"Em minutos espalhara-se a notícia: uma baleia no Leme e outra no Leblon haviam surgido na arrebentação de onde tinham tentado sair sem no entanto poder voltar. Eram descomunais apesar de apenas filhotes. Todos foram ver. Eu não fui: corria o boato de que ela agonizava já há oito horas e que até atirar nela haviam atirado mas ela continuava agonizando e sem morrer.
Senti um horror diante do que contavam e que talvez não fossem estritamente os factos reais, mas a lenda já estava formada em torno do extraordinário que enfim, enfim! Acontecia, pois por pura sede de vida melhor estamos sempre à espera do extraordinário que talvez nos salve de uma vida contida. Se fosse um homem que estivesse agonizando na praia durante oito horas nós o santificaríamos, tanto precisamos de crer no que é impossível.
Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos – cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.
Fora das vezes em que quase morri para sempre, quantas vezes num silêncio humano – que é o mais grave de todos do reino animal –, quantas vezes num silêncio humano minha alma agonizando esperava por uma morte que não vinha. E como escárnio, por ser o contrário do martírio em que minha alma sangrava, era quando o corpo mais florescia. Como se meu corpo precisasse dar ao mundo uma prova contrária de minha morte interna para esta ser mais secreta ainda. Morri de muitas mortes e mantê-las-ei em segredo até que a morte do corpo venha, e alguém, adivinhando, diga: esta, esta viveu.
Porque aquele que mais experimenta o martírio é dele que se poderá dizer: este, sim, este viveu.
O mais estranho é que todas as vezes em que era só o corpo que estava à morte, a alma o desconhecia: da última vez em que meu corpo quase morreu, ignorando o que sucedia, tinha uma espécie de rara alegria como se ela estivesse enfim liberta enquanto o corpo doía como o Inferno. Uma das vezes, só depois que passou é que me disseram: eu havia estado três dias entre vida e morte, e nada garantiam os médicos, senão que tudo tentariam. E eu tão inocente do que estava acontecendo que estranhava não permitirem visitas. Mas eu quero visitas, dizia, elas me distraem da dor terrível. E todos os que não obedeceram à placa “Silêncio”, todos foram recebidos por mim, gemendo de dor, como numa festa: eu tinha-me tornado falante e minha voz era clara: minha alma florescia como um áspero cacto. Até que o médico, realmente muito zangado e num tom definitivo, disse-me: mais uma só visita e lhe darei alta no estado mesmo em que você está. “O estado em que eu estava” eu o desconhecia, nunca nesses dias notei que estava no limiar da morte. Parece-me que eu vagamente sentia que, enquanto sofresse fisicamente de um modo tão insuportável, isso seria a prova de estar vivendo ao máximo.
Lembro-me agora de uma vez que ao olhar um pôr do sol interminável e escarlate também eu agonizei com ele lentamente e morri, e a noite veio para mim cobrindo-me de mistério, de insónia clarividente e, finalmente por cansaço, sucumbindo num sono que completava a minha morte. E quando acordei, surpreendi-me docemente. Nos primeiros ínfimos instantes de acordada pensei: então quando se está morta se conserva a consciência? Até que o corpo habituado a mover-se automaticamente me fez fazer um gesto muito meu: o de passar a mão pelos cabelos. Então num susto percebi que meu corpo e minha alma tinham sobrevivido. Tudo isto – a certeza de estar morta e a descoberta de que eu estava viva – tudo isto não durou, creio, mais que dois ínfimos segundos ou talvez menos ainda. Mas que de hoje em diante todos saibam através de mim que não estou mentindo: em menos de dois segundos podem-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo. Esses dois ínfimos segundos como forma de contar toscamente o tempo devem ser a diferença entre o ser humano e o animal: assim como Deus talvez conte o tempo em frações de século dos séculos: cada século um instante. Quem sabe se Deus conta a nossa vida em termos de dois segundos: um para nascer e outro para morrer. E o intervalo, meu Deus, talvez seja a maior criação do Homem: a vida, uma vida. Lembro-me de um amigo que há poucos dias citou o que um dos apóstolos disse de nós: vós sois deuses.
Sim, juro que somos deuses. Porque eu também já morri de alegria muitas vezes na minha vida. E quando passava essa espécie de gloriosa e suave morte, eu me surpreendia de que o mundo continuasse ao meu redor, de que houvesse uma disciplina para cada coisa, e de que eu mesma, a começar por mim, tinha o meu nome e já entrara na rotina: pensara que o tempo tinha parado e os homens subitamente se tinham imobilizado no meio do gesto que estivessem executando – enquanto eu vivera a morte por alegria.
Não fui ver a baleia que estava a bem dizer à porta de minha casa a morrer. Morte, eu te odeio.
Enquanto isso as notícias misturadas com lendas corriam pela cidade do Leme. Uns diziam que a baleia do Leblon ainda não morrera mas que sua carne retalhada em vida era vendida por quilos pois carne de baleia era ótimo de se comer, e era barato, era isso que corria pela cidade do Leme. E eu pensei: maldito seja aquele que a comerá por curiosidade, só perdoarei quem tem fome, aquela fome antiga dos pobres.
Outros, no limiar do horror, contavam que também a baleia do Leme, embora ainda viva e arfante, tinha seus quilos cortados para serem vendidos. Como acreditar que não se espera nem a morte para um ser comer outro ser? Não quero acreditar que alguém desrespeite tanto a vida e a morte, nossa criação humana, e que coma vorazmente, só por ser uma iguaria, aquilo que ainda agoniza, só porque é mais barato, só porque a fome humana é grande, só porque na verdade somos tão ferozes como um animal feroz, só porque queremos comer daquela montanha de inocência que é uma baleia, assim como comemos a inocência cantante de um pássaro. Eu ia dizer agora com horror: a viver desse modo, prefiro a morte.
E exatamente não é verdade. Sou uma feroz entre os ferozes seres humanos – nós, os macacos de nós mesmos, nós, os macacos que idealizaram tornarem-se homens, e esta é também a nossa grandeza. Nunca atingiremos em nós o ser humano: a busca e o esforço serão permanentes. E quem atinge o quase impossível estágio de Ser Humano, é justo que seja santificado.
Porque desistir de nossa animalidade é um sacrifício."
Clarice Lispector, in " Clarice na Cabeceira, Crónicas" Editora Rocco, Brasil, 2010
Sobre o livro
"Reunião de vinte textos escolhidos por convidados afeitos à obra de Clarice Lispector, Clarice na cabeceira apresenta uma leitura seleccionada de narrativas curtas publicadas entre 1962 e 1973, na revista Senhor e no Jornal do Brasil, e posteriormente agrupadas nos livros A descoberta do mundo e Para não esquecer. Abordando temas tão diversos quanto as memórias da infância, a vida, a morte, o amor, o acto de escrever, o silêncio, a maternidade e a indignação, as crónicas ganham sabor especial quando apresentadas por amigos e admiradores de Clarice, que compartilham o impacto da escritora e de sua obra nas suas vidas, como Eduardo Portella, Ferreira Gullar, Marília Pêra, Maria Bonomi e Naum Alves de Souza, entre outros. Com organização de Teresa Montero, autora de Eu sou uma pergunta – Uma biografia de Clarice Lispector, publicada pela Rocco, Clarice na cabeceira é a oportunidade de conhecer “perfeitos momentos da literatura brasileira moderna, perfeitos momentos da vida nas palavras, perfeitos momentos”, como descreve Caetano Veloso ao falar sobre o sentimento que a leitura de Clarice provoca. 
Assim, cada crónica é uma introdução não só ao universo literário de Clarice Lispector, mas à mulher que, em suas próprias palavras, nasceu para amar os outros, para escrever e para criar os filhos, tema da extraordinária “As três experiências”. O texto é apresentado por Lygia Fagundes Telles, que oferece ao leitor uma belíssima e emocionante homenagem a Clarice,  numa crônica na qual relembra a amizade das duas e a experiência vivida na noite em que a escritora faleceu. Já em “Morte de uma baleia”, escolhida por Silviano Santiago, duas baleias encalhadas, uma no Leme e outra no Leblon, praias da Zona Sul carioca, são o mote para que Clarice discuta a mortalidade – a sua e a dos outros. 
Temas mais leves, mas igualmente pertinentes à reflexão sobre o estar no mundo desde a mais tenra idade também estão presentes, como em “Banhos de mar”, opção de Aparecida Maria Nunes na qual uma extasiada Clarice relembra as idas à praia antes do sol nascer junto com o pai, na Olinda de sua infância; e em “Cem anos de perdão”, seleccionada por Naum Alves de Souza, em que a escritora sentencia que ladrões de rosas e pitangas – como a menina que ela foi em Recife – têm cem anos de perdão. 
Roteirista e mestre em Literatura Brasileira com uma dissertação sobre Clarice, Lícia Manzo, autora publicada pela Rocco, relembra como a descoberta da obra da escritora a fez sentir acolhida em sua inadequação adolescente. Sua escolha, apropriadamente, é “Se eu fosse eu”, um fragmento sobre a árdua legitimação de ser quem se é. O autoconhecimento está presente também em “As caridades odiosas”, apresentada por Rosiska Darcy de Oliveira, uma brutal análise dos sentimentos humanos, do amor à compaixão, passando pela vergonha e pela raiva. O mesmo mote, abordado com mais humor, perpassa “Mal-estar de um anjo”, seleccionada por Joaquim Ferreira dos Santos, quando um simples acto de generosidade se transforma em arrependimento da caridade praticada. 
A paixão pelos filhos Pedro e Paulo, grandes amores da vida de Clarice, aparecem em “Come, meu filho”, que tem apresentação de Bianca Romaneda, e “O caso da caneta de ouro”, escolha de Ferreira Gullar na qual a reacção de cada um dos meninos diante da possibilidade de herdar uma caneta de ouro da mãe permite à autora conhecer melhor suas crianças. Há ainda “Lição de filho”, sugerida pela escritora Thalita Rebouças, comovente crónica sobre como o filho adolescente ajuda Clarice a lidar com as suas emoções. 
A Editora Rocco doou uma colecção das obras completas de Clarice Lispector para cada uma das bibliotecas indicadas pelos leitores convidados. "

 
Documentário | Clarice Lispcetor | 100 Anos 
"Nas comemorações do centenário de Clarice Lispector, a TV Cultura exibe um programa especial sobre a obra da escritora. O programa inclui entrevistas com o biógrafo de Clarice, Benjamim Moser, e com o editor de seus livros na Editora Rocco, Pedro Vasquez. Também foram resgatados trechos de entrevista que ela concedeu ao repórter Julio Lerner, da TV Cultura, que foi exibida no programa Panorama, em 1977"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Gare marítima (cont.)

Gare marítima (cont.)
por João  de Melo 
"A custo lograra o chefe Matos vencer a relutância de Mariano em conceder a entrevista. Resistiu-lhe do princípio ao fim, arisco e indisposto com a insistência dele, e num crescendo de vozes, argumentos e refutações de parte a parte. Ameaçou desligar-lhe o telefone na cara e deixá-lo a falar sozinho. Qual deles o mais teimoso, deram largas a insultos e a acusações mútuas – até ambos caírem em si, envergonhados, com pedidos de desculpa pelos excessos de cada um. Acabaram a admitir que tinham admiração um pelo outro, dois açorianos de nome feito e nome honrado, David Matos, da ilha Terceira. a chefiar a redacção de um jornal de prestígio nacional, e Mariano Franco, de São Miguel – cada qual na margem oposta do pensamento político. Valia-lhes que nenhum deles cultivava as rivalidades que persistem entre a Terceira e São Miguel, Naião e Rabo‑Torto para lá, Corisco mal‑amanhado e Japonês, para cá – umas guerrinhas estúpidas, em nada compatíveis com um patriotismo açoriano.
Foi aí que o outro lhe expôs as razões da sua reserva. Tinha-se na conta de um homem sem história na ilha, e com pouco ou nada para contar. Anos volvidos sobre tudo quanto fora dito e ficara por dizer, não lhe parecia razoável nem oportuno vir agora a público e defender-se do passado e das suas razões. A que título e propósito o faria? Sem interesse por nada e coisa nenhuma, entregara-se à paz rústica dos seus campos, a ouvir a música bucólica dos chocalhos no meio da bruma e a ver com enlevo as suas vacas a remoer, a enxotar as moscas, a pastar o trevo e o azevém que mandara semear nas terras agrícolas de outrora. Isto dizendo, soltou uma risada escarninha, que mais pareceu ao Matos uma mordidela irónica do que uma manifestação de desprezo.
– O mais – concluiu, já com uma penumbra de melancolia na voz – são águas passadas. E não movem moinhos.
 A seu ver, a chamada «geração seguinte», nascida dos sacrifícios dos seus progenitores, não chegara a existir enquanto tal em Portugal. Depois da sua, nenhuma outra soube viver a nova e a velha realidade. Os filhos e os netos de hoje limitam-se a extorquir benefícios e a obter o que pretendem de pais, avós e amigos. Não sobra da cabeça deles qualquer memória histórica nem lugar para nada, nem motivações de espécie alguma para as causas comuns.
– Falar a essa geração inexistente para quê?,
se afinal ninguém a educara a ouvir nem a respeitar os mais vividos. Tinha as suas contas saldadas. Pagara-as ele nos pelourinhos da justiça, que o  condenou por danos, ofensas e dívidas que não contraíra – só para poder voltar a casa, sentar-se no chão, estender-se à larga na sua cama, até se lhe povoar a cabeça de pensamentos futuros.
Quis, porém, o Diabo que as iras da besta maligna do Matos o persuadissem a defender publicamente a sua honra. Intuíra, e bem, que só as questões da honra e do bom-nome operariam nele a cedência à confissão da sua vida. Aproveitou para o convencer a tornar público por que motivos andou ele conhecido no país inteiro por «bandido» e por «terrorista». Os leitores do Quotidiano queriam saber quem atentara à bomba contra alvos escolhidos; quem ameaçara pessoas, com o dedo aferrado ao gatilho da pistola ou de metralhadora em punho – nesses dias de guerrilha urbana que não tivera quartel nem cabeça, nem frente nem retaguarda. E se fora ele quem fizera explodir bombas artesanais nas casas de alguns políticos, nos jardins do palácio, numa fábrica, no aeroporto e no Coliseu durante um comício eleitoral; e se disparara sobre as casas onde então residiam outros dignitários da ilha: o juiz da comarca judicial, o comandante militar e o chefe da polícia, os representantes da chamada «potência ocupante». Imagine-se lá, Portugal uma potência continental! "
João de Melo, in Livro de Vozes e Sombras, Publicações Dom Quixote,Junho 2020, pp.21,22,23

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Quiana Lynell

   
Quiana Lynell , num espectáculo ao vivo na WWOZ, em   New Orleans, a 28 de Março de  2019. Ao longo da actuação, Quiana Lynell conversa com  Al Colón sobre as canções do seu álbum  A Little Love , de que interpreta três canções:
0:05 - "Just A Little Lovin' (Early In The Morning)"
6:10 - "You Hit the Spot" 
17:00 - "Move Me No Mountain"