sábado, 6 de junho de 2015

Malanje: As Pedras Negras de Pungo Andongo

A província de Malanje 
A província de Malanje situa-se no norte de Angola e a sua altura varia de 500m a 1500m em relação ao nível do mar. Está confinada pela República Democrática do Congo a Nordeste, pelas províncias angolanas de Uíge a Norte, do Kwanza Norte a Oeste, da Lunda Norte a Este, da Lunda Sul a Sudeste, do Bié a Sul e do Kwanza Sul a Sudoeste.
Na estrada para Malanje
Com uma  área de 97.602 km2,  apresenta um clima incerto, sub-tropical e seco. É a zona da palanca negra, única região do Mundo onde vive este animal, cuja caça é proibida. A palanca negra é o símbolo de Angola e da  transportadora aérea nacional, TAAG.
Esta província regista uma abundante fauna composta por diversos animais como antílopes, hipopótamos, leopardos, onças, crocodilos, elefantes, búfalos, javalis, pongolins, leões, hienas,  mabecos e outros, além de uma forte variedade de aves . Uma província de grandes caudais, onde os  rios são uma fonte de sustento e de riqueza. Capanda, a maior barragem de Angola , está localizada nesta província, aproveitando o largo e longo caudal do rio Kwanza.
Uma das explicações para a origem da palavra Malanje assenta no  kimbundu antigo em que Malanje significa "as pedras" (MA-LANJI).
A capital da província é a cidade de Malanje que dista 436 Km de Luanda. É uma zona privilegiada de atracções turísticas como as quedas do Kalandula ( antigas quedas do Duque de Bragança) a 85 Km (vista superior) e a 76 Km (vista inferior) onde existem as ruínas de uma antiga Pousada. 
O reino do Kiwaba N'zogi onde se encontram os túmulos  da Raínha Ginga e Ngola Mbandi. As Pedras Negras do Pungo-Andongo a 110 Km. Os Rápidos do Kabalo a 75 Km. As Grutas em Cacolo. O Parque Nacional da Kangadala. As Ilhotas no Quanza. A Baixa do Cassange. O Kateco Cangola. As Quedas de Bem Casados. As Quedas do rio Luaxe. As Quedas do Guilherme. O Túmulo do Zé do Telhado, em Mucári.

Percorrer os 436 km que ligam Luanda a Malanje é viajar por  zonas de acentuado contraste. Zonas que se vestem  com vegetação  profunda  e  luxuriante  ou se apresentam despidas, rochosas  e  quase  áridas. No entanto, por entre a magnitude das frondosas florestas, as estradas são frequentemente debruadas a verde.
 


O estado de conservação destas estradas era boa até há dois ou três anos. Após a pacificação interna de Angola, houve um enorme esforço de recuperação da rede viária  em todo o território. Inexplicavelmente, a construção ou  a respectiva manutenção  foram ineficazes ou negligenciadas e, apesar da beleza natural desta região, é um autêntico desafio circular nestas estradas. De buraco em buraco, o exercício de fuga ao acidente domina a viagem, pelo que é totalmente impróprio viajar à noite. Ao longo do percurso, encontram-se  múltiplas viaturas  acidentadas, nas bermas ou nos terrenos adjacentes.


Pedras Negras de Pungo Andongo
Localizadas no município de Cacuso, estão a 116 km da cidade de Malanje  e constituem uma importante atracção turística de Angola
Estas pedras, as fantásticas Pedras Negras de Pungo Andongo, o uma estranha formação rochosa com milhões de anos que se elevam acima da savana circundante.
Estátua da Rainha Ginga
Segundo a tradição, as pegadas esculpidas na rocha são de D. Ana de Sousa ou Rainha Nzinga Mbandi Ngola (Rainha Ginga). 
 Pungo Andongo, é, no entanto, mais do que um simples local de ocorrência de anomalias geológicas. De acordo com a lenda , a Rainha Ginga  organizava, neste local, orgias  e sessões de tortura aos seus oponentes É um local pleno de mitos, lendas, tradições e valores culturais. 






Pelas suas características topográficas e geomorfológicas, o Pungo-Andongo chegou a servir de fortaleza para os Reis Ngola, tendo sido, nessa época, capital do Reino do Ndongo. Em Pungo-Andongo, não se  deve deixar de visitar a Pegada do Rei Ngola Kiluanji, as Pegadas da Rainha Njinga, o Cantinho do Céu, a Pedra do Velho Caturra e a Pedra do Pomar Sagrado.
A vila de Pungo-Andongo localiza-se nas imediações das ruínas da antiga Fortaleza de Pungo-Andongo, erguida em 1671 pelos portugueses



Há organizações e escolas  que procuram esta linda e diferente localidade para   mostrar aos jovens outros horizontes em que a História e a Lenda se confundem.


E para finalizar, embora de uma forma incompleta porque  este Sítio merece muitas outras palavras e imagens, apresenta-se um registo em vídeo que destaca, com maior amplitude, a  beleza desta região e acrescenta mais informações sobre a  sua  história. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Piano a quatro mãos

Daniel Barenboim &Lang Lang em Piano Sonata para 4 mãos, K.381 de Wolfgang Amadeus Mozart:
1.Allegro
2.Andante
3.Allegro molto


Martha Argerich & Lang Lang interpretando Ma Mère L'Oye, (1910) de Maurice Ravel.

Povos de Angola

Donas do outro tempo
Vejo-as neste retrato amarelado:
Como estranhas flores desabrochadas
Negras, no ar, soltas, as quindumbas.

Panos garridos nobremente postos
E a posição hierática dos corpos.
São três sobre as esteiras assentadas
Numa longínqua tarde de festejo.

Mário António de Oliveira (poeta angolano), 1999, in Obra poética

"A verdadeira riqueza de um país é o seu próprio povo.
Aqui está representada uma minoria dos grupos étnicos que constitui a identidade cultural angolana:
Himba
Mucubal
Mumuílas
Herero
Hotentotes"Kosan"(bushman)"

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Il piu noto

Picasso (cerâmica), Corrida verte 1949
Milão, 1949 - " Il piu noto"
"Diante da vitrine de uma livraria, na grande galeria no centro de Milão, Zélia, alvoraçada, aponta para um livro: olhe! Vejo um exemplar das Terras do Sem Fim (1), meu primeiro livro traduzido em italiano, a capa atraente reproduz cerâmica de Picasso.
- Veja o cartaz! - Zélia , assanhadíssma.
O cartaz não é propriamente um cartaz, apenas um cartão informando sobre o autor: il piu noto scrittore brasiliano. Zélia lê em voz alta, repete: il piu noto. Vamos adiante, repletos.
Logo adiante, outra livraria, paramos em frente a vitrina em busca de Terras. Em vez, deparamos com a tradução de Erico Veríssimo (2), Olhai os Lírios do Campo, se bem me recordo. Ao pé do exemplar um cartaz, ou seja um rectângulo de cartão, a informação sobre o autor: Il piu noto scrittore brasiliano.
Rimos , Zélia e eu, desinflamamos. No quiosque da esquina compro um cartão postal e os selos competentes e o endereço para Erico em Porto Alegre, conto-lhe o ocorrido: " Durante  cinco minutos e vinte metros fui " il piu noto", passei-te a faixa." Jorge Amado, in Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um Livro que jamais escreverei, Publicações Europa-América, 1992

(1) - Terre del Finemondo, Bompiani, Milão
(2) - Erico Veríssimo ( 1905-1975), escritor

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Para ler

Des personnages en état limite
"Il y a quelque chose de plus doux, en tout cas de moins violent, dans la désignation d’une personne comme étant limite plutôt qu’en état limite, et plus encore si on la dit borderline. Lorsqu’elle est simplement limite, on a l’impression qu’elle n’a pas encore basculé de l’autre côté, qu’on peut encore la rattraper, voire l’aider. Au-delà, c’est la pathologie, la camisole chimique. Ces gens qui seront peut-être nous un jour, mais qui sont un autre en attendant, sont au cœur d’un roman et d’une enquête. Le deuxième roman de Sylvie Le Bihan Là où s’arrête la terre (288 pages, 18,50 euros, Seuil) a les mêmes qualités que L’Autre, le précédent qui explorait la descente aux enfers d’une femme déstabilisée par un mari pervers narcissique. Cruauté, violence, cynisme. Le tout dans un style sec, sans compromis ni métaphore, oppressant, dur. La trame est aussi banale, ce qui n’en est que plus effrayant : le trio infernal. Le mari, la femme, l’amant. Air connu. Qu’en faire d’autre que ce qui a déjà été fait tant de fois ? Tout aurait pu commencer par un verbe : partir, assorti d’un mot de Paul Morand : partir, ce rêve de bon projectile. Sauf que là c’est de fuir qu’il s’agit. Un couple est marié depuis six ans. A la faveur d’une crise, elle lui avoue qu’elle le trompe depuis trois ans, un danois pilote automobile ; désabusée, elle rejoint son amant au grand hôtel de la Porte Maillot mais là, perdue, au lieu de monter les étages, elle s’arrête au bar boire une verre et engager la conversation avec un type qui paraît aussi paumé qu’elle. Il est aussi provincial et VRP qu’elle ne l’est pas. C’est peu dire qu’ils ne sont pas du même monde. Que faire alors ? Fuir ensemble une vie que l’on vit pas mais […]"Pierre Assouline, La République des Livres

Tbilisi, uma bela descoberta



Tbilisi:Uma cidade acolhedora
Por Denis Loctier
"A Geórgia desde as adegas antigas do Oriente até aos resorts do Mar Negro no Ocidente. As tradições deste país, a sua história e a sua forma de viver actual. Começamos a nossa jornada na maior cidade do país, na capital: Tbilisi.
A impressionante vista da colina revela uma mistura de padrões urbanos antigos e modernos. Algo que que reflecte a história de Tbilisi desde a sua fundação no século 5 até as últimas contribuições arquitectónicas.
Emzar Badalashvili é operador do funicular: “Este é um dos funiculares mais longos e íngremes do mundo. Os visitantes de Tbilisi dão sempre um passeio para apreciar a vista deslumbrante do alto da colina.”
A zona histórica de Tbilisi com as ruas estreitas e edifícios ecléticos passou por uma renovação que deu uma nova vida à Cidade Velha , preenchendo-a com pequenas lojas e cafés acolhedores. Para Rezo Gabriadze, um artista georgiano, realizador e argumentista: “A Geórgia está a tentar preservar a sua história antiga. Às vezes, uma simples pedra num canto pode dizer mais do que um livro com muitas páginas.”
Depois da longa era soviética e das dificuldades na década de 1990, a Geórgia de hoje reinventa-se. É um país aberto que recebe visitantes de todo o mundo.
Segundo Rebecca O’Brian é dona de um café local: “Tbilisi é uma grande cidade. É muito segura e barata para os padrões europeus. É possível ficar aqui por 50 dólares por noite.” Os turistas franceses como Jean-Claude Forestier também apreciam a cidade: “As pessoas são muito amigáveis​​, boa comida, o ambiente é muito agradável. É tudo muito fácil. Na nossa opinião é um país muito aberto. E, talvez, muito europeu. É uma bela descoberta “
No caleidoscópio da arquitetura moderna e tradicional, os marcos famosos do passado ainda estão repletos de vida. A cúpula Sulphur está aberta ao público há séculos. Elcin Allahverdov é um frequentador assíduo: “Esta água quente vem do poço sulfúrico natural a 50 metros desta sala. Onde a cidade foi fundada “tpili” significa “quente” na língua georgiana antiga, o nome Tbilisi deriva desta água quente”.
A arquitectura religiosa e a arte permanecem no centro da herança antiga da Geórgia. Foi uma das primeiras nações da região a adoptar o cristianismo.
O padre Akaki diz que a basílica de Santa Maria é:“a igreja mais antiga sobrevivente em Tbilisi, uma basílica do século 6 construída logo após a fundação da cidade. Os sinos tocavam, mesmo debaixo das invasões estrangeiras. Os tempos soviéticos foram uma altura negra, em que o edifício foi transformado numa oficina de reparação de pneus e num barracão, mas manteve o seu espírito e agora é novamente uma igreja.”
Ás portas de Tbilisi, os castelos antigos, os mosteiros e as catedrais coroam as paisagens do Cáucaso, fazendo com que dezenas de turistas e peregrinos venham até aos lugares santos. O artista Guga Kotetishvili explica: “Esta herança antiga dá um espírito especial a Tbilisi, mas não só cristão – é possível encontrar uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga e até mesmo um templo de Zoroastro aqui, uns ao lado dos outros. Essa diversidade de culturas é um belo exemplo de uma terra onde a Europa se encontra com a Ásia."Euronews

terça-feira, 2 de junho de 2015

E há muros por toda parte...

Aos que vão morrer
Por Fernando Gabeira
“Apesar da leveza do domingo, não consigo deixar de falar deles, os náufragos do Mediterrâneo, africanos, árabes, católicos e muçulmanos que buscam uma nova vida e morrem no fundo do mar. Às vezes, tratamos essas notícias como sombras que passam. Mas elas se repetem, dramaticamente, sobretudo a partir do Oriente Médio esfacelado pela guerra. Os traficantes de gente preparam suas cargas humanas de tal maneira que afundá-las é um movimento de dispersão, que permite a fuga e a renovação do seu negócio letal.
Que importância tem deixá-los morrer acorrentados nos porões, se já pagaram pela viagem ao além? Tenho lido sobre a crise mundial. Não sei se existe uma saída durável nem lá fora nem aqui dentro do Brasil. Constato apenas que o capitalismo não consegue cumprir sua promessa de livre trânsito para mercadorias e pessoas.
Seus produtos circulam, mas exércitos estão a postos para evitar que os trabalhadores busquem livremente suas condições de trabalho. E há muros por toda parte. Precisamente nessa semana de terríveis naufrágios no Mediterrâneo, recebo mensagens do Acre lembrando que a tragédia se desloca também para o Brasil. O governo de lá, depois de receber 35 mil pessoas e esgotar seus recursos, jogou a toalha. Não tem como amparar os refugiados que chegam pela Bolívia e o Peru. No princípio eram apenas haitianos. Começam a chegar os africanos.
Dirigido por traficantes e entrando por terra, o fluxo no norte do Brasil não tem a mesma dose letal dos barcos no Mediterrâneo. Mas é tão subestimado, nacionalmente, que pode tornar um trauma no futuro. Segundo os dados que tenho, chegam apenas 70 clandestinos por dia. O governo do Acre resolveu ampará-los desde o princípio. Quando não conseguiu mais, exportou um contingente para São Paulo.
Todos se lembram, houve até divergências públicas entre Acre e São Paulo. Elas escondem o aspecto essencial: a incapacidade do governo de Brasília de buscar soluções negociadas.
No momento, estamos brigando contra desvio de verbas, pedaladas fiscais, o governo tentando se manter, a oposição buscando derrubá-lo. Apertam os cintos da sociedade, enriquecem os partidos. Mas a natureza do problema migratório exige um novo enfoque. É um tema de todos nós. Demanda alguém que busque a cooperação da Bolívia e do Peru, exige que, através de um trabalho de inteligência, apontem-se as principais quadrilhas que exploram essa rota amazônica. De que adiantaria isso, se os europeus, mais fortes e organizados, estão perdendo a batalha no Mediterrâneo?
As condições tanto na Síria como na África são cada mais graves. As mortes são o resultado da crueldade dos traficantes, mas também de um aumento da vigilância na área.
Aqui no Brasil, o Acre aguentou enquanto pôde. Talvez tenha sido voluntarista, aguentando mais do que, realmente, poderia. Como as coisas acontecem muito ao norte e os naufrágios no Mediterrâneo parecem acontecer num outro mundo, há um silêncio sepulcral em Brasília. Será que os políticos, tanto do governo como da oposição, acreditam mesmo que essas grandes comoções mundiais não nos dizem respeito?
Quando os haitianos começaram a chegar a Brasileia estive lá conversando com eles. Ficou bastante claro que era um movimento no seu início. As famílias e os amigos esperavam a hora de vir também. Visitei os sírios numa mesquita em São Paulo, e também ficou bastante claro que, para muitos, o Brasil era o ponto final na sua rota de fuga.
Com a notícia de que os africanos começam, lentamente, a substituir os caribenhos na rota que passa por Peru e Bolívia, desaguando no Acre, torna-se evidente que o Brasil é o ponto final na rota amazônica. Se me perguntarem, de repente, o que fazer diante disso tudo, responderia: não sei. Mas pelo menos converso, pergunto, me interrogo.
O que impressiona é o mundo oficial caminhar como se nada estivesse acontecendo. Setenta clandestinos por dia é um número que não impressiona. Mas foi o bastante para exaurir o Acre.
Uma das piores consequências da decadência política brasileira foi termos sido forçados a discutir a roubalheira, a derrubar álibis e imposturas, enquanto o mundo segue seu curso perigosamente. A crise brasileira não é produto direto da crise mundial, como diziam as mentiras eleitorais. Supor que essas crises não se entrelacem, por outro lado, é uma forma de enterrar a cabeça na areia.
É natural que todos queiram saber se Dilma cai ou não cai. Infelizmente, inúmeras outras desgraças se anunciam nas nuvens. No tempo em que a esquerda se dizia marxista, pelo menos era possível discutir o mundo. A passagem ao bolivarianismo estreitou seus horizontes ao nível mental de tiranetes sul-americanos, tão bem descritos pelo próprio Marx. Ainda por cima, inventaram uma presidente que não gosta de política externa.” Fernando Gabeira, em Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 26/04/2015, (Fonte: Site do Gabeira)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Por amor

"O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando. 
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil. 
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. 
Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores. 
Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro. 
O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás. 
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar? "
Miguel Esteves Cardoso, in Último Volume, Ed.Assírio&Alvim 


Namorados de Lisboa

Namorados de Lisboa 
à beira-Tejo assentados 
a dormir na Madragoa. 
Namorados de Lisboa 
num mirante deslumbrados 
à beira-verde acordados 
namorados de Lisboa! 

Ao domingo uma cerveja 
uma pevide salgada 
uma boca que se beija 
e que nos sabe a cereja 
a miséria adocicada 
à beira-parque plantada: 
namorados de Lisboa! 


Sempre sempre apaixonados 
mesmo que a tristeza doa 
namorados de Lisboa! 


Namorados de Lisboa 
na cadeira de um cinema 
onde as mãos andam à toa 
à procura de um poema. 
Namorados de Lisboa 
que o mistério não desvenda 
até que o escuro se acenda. 

Namorados de Lisboa 
a apertar num vão de escada 
o prazer que nos magoa 
e depois não sabe a nada. 
Namorados de Lisboa 
a morar num vão de escada 
namorados de Lisboa! 


Sempre sempre apaixonados 
Mesmo que a tristeza doa 
namorados de Lisboa! 
Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas', Edições Avante