A mítica canção "Blowin' In The Wind" e "Bad Moon Rising" na voz grave de um grande cantor, Bruce Springsteen.
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
domingo, 8 de agosto de 2010
Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.
E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:
Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.
Miguel Torga, in "Diário X"
sábado, 7 de agosto de 2010
Em Agosto
Agosto altera qualquer pacata paisagem desde que esteja " à beira-mar plantada " . Os portugueses sempre gostaram de ter férias em Agosto, mas desde que as Escolas passaram a encerrar mais tarde, as férias judiciais encurtaram, as fábricas deixaram de laborar continuadamente, os nossos ilustres governantes e demais parlamentares se deram também ao descanso, a massificação da praia tornou-se real. Tomar ares na Praia ou tomar um banho neste Algarve de águas quentes é um acto que exige paciência, concentração e urbanidade. Os parques de estacionamento estão lotados, logo mal raia a luz do dia e o areal dourado e quente é um autêntico mapa de toalhas, de chapéus-de-sol e de zonas interditas. E a multidão vai-se acotovelando, junto ao mar, num prazer à força partilhado.
Entretanto, o calor imparável e medonho vai-nos entorpecendo, obrigando, então, a mente a concentrar-se na esperança salvadora de que Setembro vem a seguir .
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Entretanto, o calor imparável e medonho vai-nos entorpecendo, obrigando, então, a mente a concentrar-se na esperança salvadora de que Setembro vem a seguir .
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Recordando Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em 1986 , em Genebra, na Suíça. É o maior poeta argentino de sempre e uma das maiores figuras da Literatura mundial."Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade e as limitações do ser humano, nos coloca diante de reflexões nas quais, com frequência, está presente o nosso próprio destino." (Miguel A. Paladino).
Recordemo-lo em prosa neste magnífico e profundo texto pleno de verdade.
ORAÇÃO
Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um acto alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afecta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.
Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um acto alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afecta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Steal Away
Mahalia Jackson e Nat King Cole em 1957, num espectáculo televisivo, interpretando "Steal Away". As vozes excepcionais destes cantores elevam qualquer canção.
Perder a vida

Perder a vida é uma forma de morrer que comove, que dói fortemente. Tenho assistido, durante este ano, ao desaparecimento de seres humanos valiosos . 2010 mais parece ser o ano de todos os desencantos: Um ano negro em que o chão se torna escorregadio e muito inclinado.
Morrer exige que a vida feneça, mas perder a vida lutando por ela é uma forma de morrer radicalmente nobre e dolorosa. Assistir a essa luta na impotência de nada poder fazer é um abalo tremendo que nos avassala de mágoa.
Estes dois homens de áreas diferentes, um actor e outro jornalista, que nos ofereceram a excelência do seu trabalho , acabam de perder a vida com um sorriso nos olhos e possivelmente com muitas lágrimas no coração .
Para eles fica, em jeito de homenagem, um " ATÉ SEMPRE".
domingo, 1 de agosto de 2010
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