terça-feira, 31 de março de 2026

O poema

O poema
VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

- Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
 
Herberto Helder, in Poemas completos. Série Grandes Escritores, Rio de Janeiro: Editora Tinta-da-China, 2016 – p. 39.

segunda-feira, 30 de março de 2026

A construção da Ponte de Brooklyn

 
A construção atribulada da Ponte de Brooklyn, em Nova Iorque
por Javier Zori del Amo
"Da dezena de pontes que atravessam o East River, só a de Brooklyn alcança a categoria de ícone graças à sua arquitectura – e a uma história singular.
A Ponte de Brooklyn não é apenas um emblema da arquitectura nova-iorquina – é também um símbolo literário e cinematográfico imortalizado em inúmeras obras da cultura popular. É uma das construções mais icónicas de Nova Iorque e caminhar na sua faixa pedonal, partilhada com ciclistas, tornou-se uma das experiências essenciais para quem visita a cidade. Atravessar a ponte ao entardecer, especialmente no sentido Brooklyn-Manhattan, proporciona uma vista espectacular do perfil iluminado da ilha – uma recepção quente e majestosa da cidade que nunca dorme.
A história da ponte de Brooklyn é marcada por perseverança e sacrifício. Desenhada pelo engenheiro John August Roebling, a ponte começou a ser construída após a aprovação do projecto, em 1867. Roebling já provara a sua genialidade em obras como o passadiço das Cataratas do Niágara, mas não chegou a ver a ponte terminada.
Um acidente ceifou-lhe a vida em 1869, deixando o seu filho Washington Roebling encarregado da obra monumental. No entanto, também Washington foi vítima de um golpe duro. Afectado pela “doença de Caisson”, uma condição causada pela descompressão rápida após a realização de trabalhos a grandes profundidades debaixo de água, ficou parcialmente paralisado.
Emily Warren e a ponte de Brooklyn
Foi então que a sua esposa, Emily Warren Roebling, se tornou a verdadeira heroína do projecto. Sem conhecimentos prévios de engenharia, Emily assumiu a direcção da ponte, servindo de intermediário entre o seu marido e os trabalhadores, supervisionando as obras e estudando engenharia para concluir a estrutura. É-lhe atribuído o mérito de ter levado o projecto a termo com sucesso, tornando-se assim uma figura-chave da história da ponte.
A ponte foi finalmente inaugurada no dia 24 de Maio de 1883, numa cerimónia presidida por Chester A. Arthur. Com quase dois quilómetros de comprimento e as suas torres neogóticas, foi considerada a oitava maravilha do mundo. Durante anos, foi a estrutura mais alta do Ocidente, consolidando a sua posição como uma das jóias da engenharia do século XIX. Além disso, em termos urbanísticos, a sua construção foi fundamental para a consolidação da Área Metropolitana de Nova Iorque em 1898, unindo Manhattan a Brooklyn, Queens, Staten Island e ao Bronx.
Actualmente, a Ponte de Brooklyn continua a ser uma peça essencial na infra-estrutura de Nova Iorque, embora também tenha evoluído como espaço de recreio. Nova-iorquinos e turistas desfrutam de caminhadas ou passeios de bicicleta na ponte, contemplando as vistas únicas de Manhattan e Brooklyn. Os acessos são fáceis em ambas as margens do rio. Em Manhattan é possível aceder-lhe a partir de uma plataforma de madeira em Centre Street, perto da estação de metro Brooklyn Bridge-City Hall.
Um passeio em DUMBO
Em Brooklyn, as escadas ficam em Washington Street e Prospect Street, perto de Cadman Square. Uma vez em Brooklyn, o bairro de DUMBO (Down Under the Manhattan Bridge Overpass) é uma paragem obrigatória. Esta zona, outrora um distrito industrial, transformou-se num vibrante epicentro cultural e gastronómico, com uma vasta oferta de restaurantes, galerias de arte e lojas.
Com as suas ruas enfeitadas e ambiente moderno, DUMBO proporciona uma vista inigualável da ponte de Brooklyn e do skyline de Manhattan. É um bairro em constante mudança, onde antigos armazéns industriais transformados em lofts de luxo convivem com espaços de trabalho modernos e lojas. O Brooklyn Bridge Park, situado junto à margem do East River, é outro sítio perfeito para relaxar e desfrutar das melhores vistas da ponte, sobretudo ao cair da noite, quando as luzes da cidade transformam o horizonte num espectáculo inesquecível."
Javier Zori del Amo, in National Geographic, Outubro de 2025

domingo, 29 de março de 2026

Ao Domingo Há Música

La saeta

Quién me presta una escalera
para subir al madero,
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Antonio  Machado , La saeta , Campos de Castilla


Aqui junto a nós , há  ritmos que sabem dar ao tempo a forma que lhes é própria. 
É assim , nesta época , em Espanha, na Andaluzia que tão marcadamente celebra a semana santa. 
Fica a voz de  India Martinez, em La saeta, canção de Joan Manuel Serrat , adaptação de um poema de Antonio Machado.
Jennifer Jessica Martínez Fernández (Córdoba, 1985), mais conhecida por India Martínez, é uma cantora espanhola. Aos 12 anos participou no programa televisivo Veo Veo, apresentado por Teresa Rabal, e foi finalista. Durante estes anos, começou a estudar guitarra clássica e teoria musical, ganhando vários primeiros prémios em festivais de flamenco. Gravou o seu primeiro álbum, Azulejos de lunares, em 2004, aos 17 anos. India Martínez lançou o seu segundo álbum, Despertar, em 2008, que foi nomeado para dois Grammy Latinos, e em 2012 conquistou o seu primeiro Disco de Ouro com Trece verdades. India Martínez venceu o Prémio Goya de Melhor Canção Original por "Niño sin miedo", do filme "El niño", em 2015. Em 2019, homenageou o humilde bairro de Las Palmeras, em Córdoba, onde cresceu, com o álbum Palmeras. Recebeu a Medalha da Andaluzia em 2017. 
A letra de "La Saeta" baseia-se num poema de Antonio Machado, publicado em "Campos de Castilla" (1912). Foi imortalizada como canção por Juan Manuel Serrat, que compôs a canção e a incluiu no seu álbum de 1969, dedicado a Antonio Machado, o poeta sevilhano que morreu a caminho do exílio. A Andaluzia acolheu-a e é uma canção frequentemente interpretada durante a Semana Santa, tendo-se tornado uma marcha processional. Deixando de lado o discurso crítico sobre a Semana Santa do republicano Antonio Machado, e com a música do cantor e compositor catalão Joan Manuel Serrat, a canção alcançou um estatuto independente como parte da banda sonora da Semana Santa andaluza. 
A primeira adaptação de "La Saeta", de Serrat, como marcha processional foi interpretada pelo grupo musical Santísimo Cristo de la Buena Muerte, de Ayamonte, Huelva. A banda María Santísima de las Angustias gravou a primeira versão para a Semana Santa em Sevilha, em 1986, para acompanhar a procissão do Cristo de los Gitanos, na manhã de Sexta-feira Santa. A partir desse momento, La Saeta alcançaria grande popularidade como marcha processional.
   
 India Martinez Coro ArteSí de Olvidados , em Niño Sin Miedo.
 

sábado, 28 de março de 2026

Eugénio Lisboa cita Roger Martin du Gard

Eugénio Lisboa , como grande pensador , não deixava de citar muitas reflexões de outros grandes escritores que se convertiam em belos e enriquecedores momentos de leitura. 
Eis algumas  retiradas do romance Os Thibault de Roger Martin du Gard , que constam  do seu primeiro volume de Memórias , Acta est fabula. I. Lourenço Marques – 1930-1947

"Deixo aqui, do grande escritor francês, Roger Martin du Gard,  algumas pérolas, todas colhidas nos Thibault:
– “Não há verdade, a não ser provisória... Tactear, hesitar. Não afirmar nada, definitivamente. Todo o caminho em que nos lançamos a fundo torna-se um impasse. Curarmo-nos do gosto da certeza.”

– Jacques: “Um dos dias decisivos da minha vida foi aquele em que compreendi que o que, em mim, era, pelos outros, julgado repreensível, perigoso, era, pelo contrário, o melhor, o mais autêntico de mim.”

– “O orgulho é a minha alavanca, a alavanca de todas as minhas forças. Sirvo-me dele. Tenho perfeitamente esse direito. Será que se não trata, antes de mais nada, de utilizar as nossas forças?”

– “Armadilha do diabo. Disfarçar o orgulho não é o mesmo que ser modesto. Mais vale deixar saltar à vista os defeitos que se não soube vencer, fazer disso uma força, do que mentir e enfraquecer, dissimulando-os.”

– “Nunca se está só, quando se está à mesa de trabalho.”

– “É tentador desembaraçarmo-nos do fardo exigente da nossa personalidade! É tentador deixarmo-nos englobar num vasto movimento de entusiasmo colectivo! É tentador acreditar, porque é cómodo, e porque é supremamente confortável! Saberás resistir à tentação?”

– “É preciso escolher as virtudes que engrandecem. Virtude suprema: a energia.”
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, I , Memórias,  Lourenço Marques - 1930- 1947 ,Editora Opera Omnia, 2012, pp.157-158

sexta-feira, 27 de março de 2026

Entre Portugal e Espanha: Uma História Fascinante

 
 Olivença - Entre Portugal e Espanha: Uma História Fascinante

"Olivença, uma cidade histórica envolta em controvérsia, é um destino repleto de monumentos únicos e eventos marcantes. Neste vídeo, exploramos a rica história desta localidade raiana, desde os primeiros registos até à atualidade, revelando o património arquitetónico e cultural que a cidade oferece. Caminhe connosco pelas ruas de Olivença e descubra os traços que revelam a sua ligação a Portugal e Espanha. 
O vídeo percorre os principais monumentos da cidade, como o Castelo, a Igreja de Santa Maria Madalena e os Paços do Concelho, destacando a importância cultural e histórica de cada local. Vamos ainda descobrir como as influências arquitectónicas portuguesas e espanholas se entrelaçam, refletindo a herança partilhada e a complexidade da história de Olivença. Além do percurso histórico, também é abordada a "Questão de Olivença", o diferendo entre Portugal e Espanha pela posse desta cidade, que dura desde há mais de 200 anos. 
Se lhe interessa a história, o património cultural ou as complexidades das fronteiras, este vídeo é uma viagem essencial pela cidade de Olivença."

quinta-feira, 26 de março de 2026

A desgraça da guerra

A desgraça da guerra, o terror
Paris, 1948 - o número
"Paris , casa de Picasso, em torno à mesa , somos uns poucos na tentativa de convencê-lo a comparecer ao Congresso de Intelectuais pela Paz que se vai reunir em Wroclaw na Polónia: Louis Aragon, Alexandre Korneichuk, Pierre Gamara, Emílio Sereni e a cineasta polaca Wanda Jacubowska, cujo filme de estreia triunfa nas salas de cinema. Wanda está sentada ao lado do pintor .
Picasso, intransigente na recusa, não irá , peçam-lhe outra coisa, pode doar um quadro, se preciso. Comparecer, jamais , perda de tempo, tem mais o que fazer , deve pintar. Gastaram-se todos os argumentos , caíram todos no vazio, terminamos por desistir, o Congresso não contará com a estrela de Guernica. Queijos, vinhos, comenta-se o filme de Wanda Jacubowska.
Picasso demora o olhar no braço nu da cineasta, vê o número gravado, pergunta de que se trata.
- Meu número no campo de concentração onde estive durante a guerra.
Picasso passa de leve a ponta dos dedos no braço da moça de Varsóvia, olha para nós, dirige-se a Aragon:
- Eu vou, podem contar comigo.
Foi e fez discurso, esteve o tempo todo. Depois desenhou para outros congressos, a Paloma signo da paz. Tocara com os dedos a desgraça da guerra, o terror."
Jorge Amado, in Navegação de Cabotagem, Publicações Europa - América, p 238

quarta-feira, 25 de março de 2026

Vamos Ler

Vamos Ler
por Eugénio Lisboa
"A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica. Prazer, já vimos como pode sê-lo – e de que maneira absorvente! Quanto a instrução, não há dúvida de que a grande literatura nos abre grandes e novas perspectivas sobre o mundo em que vivemos: fala-nos de lugares e de pessoas, de ideias e de emoções, de conflitos humanos e de aventuras que nos enriquecem. A falta de leitura pode ser a causa de certos impedimentos aparentemente inexplicáveis. Contava o proprietário de uma grande empresa americana, que dependia fundamentalmente do espírito inventivo dos seus engenheiros, para o êxito comercial da firma, que, a certa altura, começou a sentir-se desconfortável com o facto de nunca dar aos seus indispensáveis técnicos uma hipótese de chegarem ao topo da hierarquia da empresa. Mantinha-os a investigar, num nível mais baixo do organograma, embora com salários elevados, ficando os lugares de topo para gente do direito e da economia. Bem pagos, sim, promovidos, não. Permaneciam lá em baixo, a produzir os “gadgets” que a empresa vendia… Por fim, o proprietário, para aliviar a sua consciência, decidiu que era injusto não dar aos seus engenheiros, a quem a empresa tanto devia, a mesma oportunidade de promoção que dava aos juristas e aos economistas. E começou a promovê-los, empurrando-os suavemente pelo organograma acima. Mas acabou a verificar que, a partir de um certo nível da hierarquia, nem eles se sentiam confortáveis com as tarefas de pura gestão, nem os lugares pareciam ajustar-se-lhes. Intrigado, tentou arduamente, durante algum tempo, perceber a razão disto, uma vez que não queria que a injustiça se perpetuasse. O tempo foi passando, sem que ele chegasse a uma conclusão. Até que, um dia, para seu grande espanto, deu com a resposta: o que aos seus engenheiros faltava, para se sentirem mais confortáveis no topo da hierarquia, era um bom bocado de leitura e de cultura geral. A leitura abre-nos portas e ilumina realidades, idiossincrasias, conflitos, emoções, preconceitos, ambições, etc., que um chefe de empresa não pode ignorar. A leitura não fornece um apêndice decorativo ao grande empresário – é simplesmente uma necessidade. Um dos grandes engenheiros electrotécnicos do nosso país, que foi um grande Professor do Instituto Superior Técnico e um notável Ministro da Economia – Ferreira Dias – era também um homem de grande cultura, com a qual muito enriqueceu o seu magistério, do qual, nós, alunos, aproveitámos, gulosamente: durante as viagens de fim de curso, com ele, como cicerone, ou sempre que uma oportunidade surgia. O grande matemático, Mira Fernandes, era um homem cultíssimo, como o era Bento de Jesus Caraça, fundador da legendária Biblioteca Cosmos, e também o Professor de Física do Instituto Superior Técnico, António da Silveira (que escrevia admiravelmente). Os grandes profissionais, os verdadeiramente de topo, não rejeitam a leitura, até ao fim das suas vidas. Aprender até morrer – é o lema. O mítico empresário Henry Ford disse-o de forma categórica: “Quem quer que cesse de aprender é velho, quer tenha vinte, quer tenha cinquenta anos. Quem quer que continue a aprender mantém-se eternamente jovem.” Só os profissionais e empresários medíocres se confinam no universo estreito e fechado da sua “especialidade”. Egas Moniz foi um grande médico, um grande Professor, um notável investigador e um espírito aberto à cultura e à literatura."
Eugénio Lisboa, in Vamos Ler!, Editora Guerra e Paz, 2021, pp.42-45

domingo, 22 de março de 2026

Ao Domingo Há Música


Colombo (Sri Lanka)
Jardins do Palheiro  ( Ilha da Madeira)
Hanging Garden , Bombaim ( Índia)
Velha Goa (Índia)
Colombo ( Sri Lanka)

Quando vier a Primavera

Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro , Poesia de Fernando Pessoa  (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

A Primavera está aí. É igual em todo o mundo. A natureza acorda e veste-se de novo com as cores perdidas no inverno ou na estação anterior para lhe dar fim. Assim fosse tudo no mundo. Que as cores da Primavera o pintassem e o transformassem num novo Mundo. Talvez assim , tal como o poeta, pudesse morrer contente.
Os temas musicais deste domingo pertencem a uma banda  com nome feito, ao longo dos anos. Nunca esmoreceu e soube renovar-se em todos os trabalhos que foi e vai apresentando.
A voz identitária da banda foi sempre carismática. Uma voz que enche e se distingue entre qualquer outra. Uma mulher talentosa que  sabe dar ao canto a harmonia que faz dele singular, único.

The Gift,  em Coral ao Vivo - PrimaveraGravado ao vivo no Coliseu dos Recreios em Novembro de 2023. Faz parte do Disco Coral ao Vivo
 
The Gift , em Clássico (Official Video).
The Gift , em Fácil de Entender (Abril de 2006).

sábado, 21 de março de 2026

Poemas no dia Mundial da Poesia


"O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas, e o ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso."                                 Natália Correia


Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Assírio & Alvim

O Poeta é um fingidor

Exprimo o que já não sinto.
Escrevo o que já pensei.
Em arte , se sofro, minto:
registo o que já não sei.

Fazer é ter já sofrido
o que hoje não é sofrer.
já não faz nenhum sentido,
a dor dita no escrever.

Eu finjo que já sofri,
com arte que sou capaz,
aquilo que eu vivi,
no tempo de ser rapaz.

Viver é um luxo passado,
perdido, já sem sentido,
que eu terei recuperado
no texto agora mentido.

O poeta é um fingidor:
finge tão completamente,
que finge de fingidor,
no momento em que mente.
Londres, 15.05.82
Eugénio Lisboa, in a matéria intensa, Editora Peregrinação, Suíça, p 52
Soneto do reencontro

Na primavera tu voltaste de mansinho
finda a tempestade, surgiste na bonança
me conjugando o verbo da esperança
num íntimo gesto de lírico carinho.

Tu foste meu fuzil, o meu canto guerreiro
a voz peregrina acesa no meu peito,
ensina-me a cantar agora de outro jeito
para entoar amor e paz ao mundo inteiro.

Combatente e amordaçada em meu destino
silenciados e por atalhos clandestinos
trinta anos se passaram, dia-a-dia.

Depois a liberdade chegou para o meu povo
mas só agora eu te encontrei de novo
para nunca mais perder-te... ó poesia.
Curitiba, dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in Cantares , Escrituras Editora, São Paulo, Brasil
Vento do Espírito

Senti passar um vento misterioso
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.


Todas cousas ermas, que irradiam
como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente


Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério
E tanto me perturba e me extasia!


Estranho vento, em fúria, sem tocar
Na mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!


Vento que só encontras resistência,
numa invisível sombra... Um arvoredo,
Ou bruta pedra, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.


E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates, de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.

Vento que me levou, nem sei por onde,
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!

E vi também a luz indefinida
Que , nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.

E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva nos andrajos de mendiga.

E fui num grande vento; e fui; e vi:
Vi a sombra de Deus. E, alvoroçado,
Deitei--me àquela sombra, e, em mim, senti
A terra em flor e o céu todo estrelado.
Teixeira de Pascoaes, in As Sombras, Círculo de Leitores, Março de 1973, pp.18,19


Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
Miguel Torga, in Diário XII, Círculo de Leitores

Amor da Palavra, Amor do Corpo

A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
António Ramos Rosa, in Nos Seus Olhos de Silêncio, Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa,  p. 116
A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.
Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim

quinta-feira, 19 de março de 2026

Poesia em voz maior

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga, in 'Diário XII', Círculo de Leitores

INSTRUÇÃO PRIMÁRIA

Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...
Miguel Torga,in Diários- Diário IX, Circulo de Leitores

MAR

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga, Antologia PoéticaLisboa, Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 1999

quarta-feira, 18 de março de 2026

Viajar pelo Equador

Talvez seja nos grandes espaços naturais que descobrimos o indício mais venerável e mais excelente de tudo quanto nos ultrapassa. 
Alain de Botton, A Arte de Viajar

 
 Ecuador in 4K - Incredible Scenes & Uncovering Hidden Gems ,  4k Films Adnam

Equador 

"A origem do nome não deixa dúvidas. A linha do Equador marca a divisão entre os Hemisférios Norte e Sul.
Equador refere-se à localização geográfica do país, na famosa linha imaginária do equador, que divide a Terra em Hemisférios Sul e Norte. Esta denominação foi dada ao país em 1830, depois que o território se separou da Gran Colômbia. "

domingo, 15 de março de 2026

Viajar para além da Taprobana: O estreito de Ormuz

 

Viajar pelo mundo faz do mundo um outro mundo. Quem se atreveu a fazê-lo regressa sempre diferente. E se a viagem foi por mares nunca de antes navegados,  para além da Taprobana, qualquer português se descobre no mais épico poema que foi feito em português, pelo maior poeta de sempre, Luís de Camões.
Eis um apontamento que nos leva para esses mares. Apontamento muito actual que se integra neste mundo em guerra.
Hoje, o mundo fala diariamente do Estreito de Ormuz. A instabilidade no Médio Oriente e o conflito envolvendo o Irão voltaram a colocar este estreito no centro da geopolítica internacional. Por aqui, passa uma parte significativa do petróleo transportado por via marítima no planeta, e qualquer ameaça à navegação nesta passagem estratégica tem impacto imediato na economia mundial. Mas poucos sabem que, há cerca de cinco séculos, este mesmo estreito esteve sob o controlo de uma pequena potência europeia. Durante mais de um século, entre 1515 e 1622, Portugal dominou Ormuz, controlando a entrada do Golfo Pérsico e uma das rotas comerciais mais importantes do mundo. Neste vídeo exploramos a história da presença portuguesa em Ormuz: – a chegada de Afonso de Albuquerque ao Golfo Pérsico – a construção da fortaleza portuguesa na ilha – o papel de Ormuz no comércio do Oceano Índico – a vida dos portugueses naquele ambiente extremamente árido – e o dramático cerco que levou à queda da cidade em 1622. Numa pequena ilha quase sem água e exposta a um calor extremo, soldados, mercadores e administradores portugueses viveram durante décadas guardando uma das portas do comércio mundial. Uma história fascinante do Império Português no Oriente, que liga diretamente o passado da expansão marítima portuguesa à importância estratégica que o Estreito de Ormuz continua a ter hoje. Se gosta de história de Portugal, história marítima ou das grandes rotas comerciais do mundo, este episódio mostra como uma fortaleza portuguesa conseguiu, durante mais de um século, controlar um dos pontos mais estratégicos do planeta.

Ao Domingo Há Música

A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos. 
        Albert Einstein 
Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova. 
      Mahatma Gandhi 

Não sei se a Paz se chama. Se clamar pela Paz a Guerra acaba. Sei, sim, que a Guerra acaba com a Paz. E num Mundo , onde todos clamam, as vozes deixam de ser ouvidas, entendidas , interpretadas. Pretender a misericórdia não faz de quem a deseja misericordioso. Pretender a Paz não faz de todos nós amantes da Paz. Mas não fazer a Guerra faz de qualquer um, um ser diferente. É esse mundo diferente que todos procuramos, que todos desejamos.

 A Grande Montserrat Caballé a cantar “Pace pace mio Dio”, da ópera La Forza Del Destino de Verdi, ao vivo, numa transmissão televisiva a partir de Nova Iorque em 1981, sob a direcção de James Levine.