segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Novo livro de Vasco Graça Moura

Publicam-se fados inéditos de Vasco Graça Moura
"Morreu faz quatro anos, e deixou algumas coisas preparadas para edição, entre elas este volume, a que deu o título "A Puxar Ao Sentimento". Um livro constituído na sua larga maioria por letras de fado inéditas.
Há uma melodia que habita rente às palavras e sai do que as prende à morte, escrevia o poeta noutros recortes. Estão contados quatro anos da morte de Vasco Graça Moura, e acaba de chegar às livrarias um pequeno livro de capa dura, feito amuleto para aqueles que amam corpo a corpo, no território vulgar, onde de um travo de amargura, de uma tristeza sem cura se retiram as luas para se andar à noite buscando a doce lei daqueles que quiseram amarrar-se a alguém como se de destino isso lhes bastasse.
Editado pela Quetzal, "A Puxar Ao Sentimento" reúne 35 letras de fado, poemas íntimos do canto, e na sua maioria inéditos, preparados para edição pelo próprio poeta. O título é dele, como o subtítulo, "trinta e um fadinhos de autor". Sendo que para lá dos 31 fados, há variantes para três deles, acrescentando-se uma marcha (quero marchar na avenida), que encerra a obra.
O livro aparece duas décadas após Graça Moura ter editado "Letras do Fado Vulgar", o seu primeiro livro de poemas para fado. Esse volume viria a ser reeditado em 2001, originando mais tarde Mais Fados &Companhia (uma edição do jornal "Público" e da Corda Seca, em 2004).
Como lembra a editora, ao longo da vida o autor tinha escrito vários ensaios sobre a origem deste género musical, e as suas incursões não se ficaram pelo plano teórico, mas teve alguns fados cantados por destacados intérpretes como Mísia, Kátia Guerreiro e Cristina Branco. A Quetzal adianta que este novo volume faz crescer o cancioneiro, e constitui uma homenagem ao fado, que, nestas letras se aproveita do "génio melancólico e pleno de ironia" do poeta."Jornal i ,15/09/2018

Eis uma das letras/poemas que integram o volume:

TOMA LÁ O MEU RETRATO

toma lá o meu retrato
que eu desenhei a cantar
e com sombras musicais
hás-de achar-lhe o traço exacto
não só na expressão do olhar
como em muitos pontos mais

pus nele o meu coração
cordado a ponto de cruz
para que ao vê-lo tu creias
neste amor de perdição
entrecortado de luz
a soluçar-me nas veias

retratei a minha face
no afago dos teus dedos
que hão-de voltar a fazê-lo
ah! quem dera que voltasse
esse tempo dos segredos
a enredarem-me o cabelo

o retrato é tal e qual
o que eu sou e o que pareço
o que penso e o que digo
se aceitas este sinal
se lhe dás algum apreço
guarda-o sempre bem contigo

e sei que não é preciso
mas com meu nome já vês
o assinei e vai datado
do ano do teu sorriso
de qualquer dia do mês
e da hora deste fado.

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