sábado, 13 de outubro de 2018

Atlas

Jorge Luís Borges
Saborear a consciência dos detalhes
Por  Diogo Vaz Pinto
"Das viagens que fez na companhia de María Kodama, Borges compôs um livro de epílogos. São breves apontamentos finais e poemas que o génio memorioso quis salvar do esquecimento, essa “frágil substância de que é feito o universo”Não se rasga impunemente uma página de um livro de Borges, ainda que este seja “Atlas”, o breve volume publicado dois anos antes da sua morte, e onde se recolhem os textos escritos ao longo de uma década, nas viagens que fez na companhia de María Kodama, dependendo dela para lhe contar o que poderia ver se não estivesse já cego. Não se rasga uma ou, então, rasgam-se todas estas páginas. Para as levar nos bolsos, como esses que catam singelos amuletos por toda a parte, jóias trabalhadas demoradamente pela nossa estima, e que são dispersadas com o mesmo cuidado; folhas oferecidas, deixadas na cama sempre desfeita dos desventurados quartos de hotel ou do acaso. É um livro de quem soube tornar-se “digno do sabor de cada dia”, a colecção de anéis arrancados aos dedos de uma mão funesta. Rasando o silêncio, se esta doce súmula perpetuando o encanto que se sente diante do desconhecido tem encalhado num certo menosprezo, isso explica-se menos pela tentativa de entretecer um livro “sabiamente caótico”, do que pelo desânimo desses leitores que chegam sempre tardiamente a Borges, e insistem em encará-lo como um gigante da literatura, falhando em perceber que, se alcançou tamanho prestígio, o fez como o mestre de um fôlego miniaturista, um autor que soube conter as tradições sob o foco do seu microscópio, como aponta Ricardo Piglia.
Como a garrafa de bolso que serve de escudo a esses que andam pelo inferno maninho dos dias, cozendo aos goles a febre que têm por alma, este livro que, por facilidade, foi descrito como um testamento a quatro mãos, recolhe textos decididamente ‘menores’ do autor, mas é desses, precisamente, que tantas vezes os caçadores de tesouros tiram um lucro maior. Buscando neles as grandes afirmações, como diz Jorge Carrión, essas notas de rodapé que mudam o rumo dentro de uma noção que tínhamos antes como certa, e já se desflora numa nova e pregnante dúvida.
Mal se percebe o trabalho, a impressiva firmeza destas anotações, na sua cadência, no efeito culminante das suas sentenças, lembranças, o vício clássico de Borges, esse fascinante apuro de toda uma vida lidando de forma “um pouco delirante com os materiais culturais”. Acompanhados das belas fotografias de Kodama, estas anotações mostram exemplarmente o que notou Piglia a propósito do anti-intelectualismo deste autor: “Em Borges a erudição funciona como sintaxe, é um modo de dar forma aos textos.”
Num texto sobre as ilhas do Tigre, “um secreto arquipélago de verdes ilhas que se afastam e perdem nas duvidosas águas de um rio tão lento que a literatura pôde chamar-lhe imóvel”, Borges recorda que foi numa delas - qual ao certo, não sabe -, que Leopoldo Lugones, outro expoente do conto argentino que muito admirava e que tanto fez por divulgar, se matou. E a morte é vista como um destino por Borges, que escolheu Genebra, onde passou alguns anos na sua juventude, para beijar uma última vez a felicidade e ali morrer. De Lugones diz-nos que “terá sentido, talvez pela primeira vez na sua vida, que estava livre, enfim, do misterioso dever de procurar metáforas, adjectivos e verbos para todas as coisas do mundo”.
Pressente-se neste momento que Borges sente também essa proximidade libertadora do fim, do derradeiro ponto final. Assim, como a visão daquele último lobo de Inglaterra que, sem saber que o faz em vão, “procura a fêmea e sente frio”, também Borges nos surge como uma sombra que está só, alguém que “na ausência do amor, se entregou à amizade”, e que escolheu Kodama como a grande amiga do seu ponto final, depois dos amigos de juventude, como Jacobo Sureda, Simon Jichlinski e Maurice Abramowicz, com quem compartilhou as viagens ao fim da noite, os bordeis, o álcool e as vanguardas, depois de Bioy Casares, que “foi o grande amigo do génio irónico, do Borges que importa”, escreve Carrión. Escolheu María Kodama, uma das suas alunas das aulas de anglo-saxão, que, nos anos 60, começou a acompanhá-lo em viagens e se tornou sua secretária antes de, em abril de 1986, menos de dois meses antes da sua morte, ter sido emitida in absentia a certidão de casamento por um presidente da Câmara de uma pequena cidade Paraguaia.
No doloroso poema que dedica ao lobo, Borges diz-nos: “Não basta ser cruel. Tu és o último.” “Furtivo e pardo na penumbra última,/ vai deixando o seu rasto sobre a margem/ deste rio sem nome que saciou/ a sede da garganta e cujas águas/ já não reflectem estrelas.”
Voltando ao texto sobre as ilhas que havia descoberto primeiro nos livros de Conrad, Borges lembra-se de Horácio, “que continua a ser para mim o mais misterioso dos poetas, pois as suas estrofes cessam e não terminam, e além disso são desconexas”. E como se antecipasse o desdém que um livro como este “Atlas” poderia despertar nos habituais leitores das suas intricadas e labirínticas ficções, adianta: “Não é impossível que a sua mente clássica se abstivesse deliberadamente da ênfase.” E como se o espelho que lhe permite deter as feições de Horácio lhe devolvesse um olhar perscrutador, o argentino deixa-nos esta reveladora nota de rodapé sobre a sua própria obra: “Releio o que escrevi e comprovo com uma espécie de agridoce melancolia que todas as coisas do mundo me levam a uma citação ou a um livro.”
Se os recenseadores profissionais sempre tiram proveito da facilidade de cozinhar previsíveis inventários a partir das fixações de Borges, temperando desse modo algumas das poucas linhas que têm e com que sempre se desculpam da inanidade dos seus juízos, seria certamente mais produtivo perceber os motivos que levaram Borges, numa nota carregada de ironia, a descrever-se como um homem semi-instruído.
Para se ir mais fundo na apreciação deste autor, não só é importante perceber, como sublinha Piglia, que Borges exaspera e leva ao limite, quase à irrisão, o uso que faz da cultura, e o converte em puro procedimento. É preciso ler mais vezes um texto como “O beco de Bollini”, que pode passar despercebido na leitura de “Atlas”, entre aqueles dedicados a Istambul, Veneza, o labirinto de Creta, uma viagem de balão entre as nuvens da Califórnia, um encontro com um tigre verdadeiro... Um texto cujo propósito parece ser o de corrigir os erros de perspetiva que nos causa essa familiaridade que a modernidade trouxe com as narrativas grandiosas, de uma escala quase desumana, e que pretendem ver ao longe, dar-nos vastidões e traçar largos quadros históricos, mas que sempre falham no detalhe. “Contemporâneos do revólver, da espingarda e das misteriosas armas atómicas, contemporâneos das imensas guerras mundiais, da Guerra do Vietname e da do Líbano, sentimos a nostalgia das modestas e secretas pelejas que aqui se passaram por volta de mil e oitocentos e noventa e tal a uns passos do Hotel Rivadavia. À zona entre as traseiras do cemitério e o amarelo paredão da cadeia chamava-se às vezes a Terra do Fogo; as pessoas daquele bairro escolhiam (contam-nos) este beco para os duelos à facada. Isso talvez acontecesse uma vez, mas logo se terá dito que foram muitas. Não havia testemunhas, excepto talvez algum observador curioso que repararia e apreciaria as idas e vindas das lâminas (...)”
Depois de dotar o verosímil quadro de mais algumas particularidades, Borges encerra o texto com esta longa e elegante frase: “Fosse como fosse, é agradável estar nesta casa, de noite, sob os altos céus rasos, e saber que lá fora estão as casas baixas que ainda restam, os hoje ausentes bairros pobres e os terreiros e as talvez apócrifas sombras dessa pobre mitologia.”
É uma despedida, mais uma, num livro de viagens que, afinal, se faz menos de descobertas do que de últimos encontros, mesmo que, por algum acaso, o princípio e o fim coincidam, como acontece quando Borges e Kodama visitam o poeta Robert Graves moribundo, em Maiorca. Depois de permanecerem em silêncio durante todo o encontro, à saída da porta do jardim ouvem gritar: “Têm de voltar! Isto aqui é o Céu!” E voltaram um ano depois, encontrando o poeta a ser alimentado por uma colher enquanto, à volta, “todos estavam muito tristes à espera do fim”. Borges diz que isto aconteceu em 1981, e da segunda vez em 1982, e adianta a seguinte nota: “Sei que as datas que indiquei são para ele um só instante eterno.”
Nestas páginas, Borges parece sugerir que toda a cultura que maneja na sua obra, as referências e alusões, citações e livros, nunca foram outra coisa que a tentativa de recuperar uma distância íntima, e por isso nos diz no prólogo que “não há um só homem que não seja um descobridor” - “Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância.” E, nisto, com maior ou menor génio, aquilo de que nenhum homem abdica é de deixar a sua marca, o monumento breve do seu espanto no decurso da sua residência na Terra.
Para fechar, neste ponto, podemos servir-nos da leitura do escritor argentino Alan Pauls, em “El factor Borges”, dando-se conta de como “na obra de Borges abundam esses personagens subalternos, algo obscuros, que, como sombras, seguem o rastro de uma obra ou um personagem mais luminosos. Tradutores, exegetas, anotadores de textos sagrados, interpretes, bibliotecários...”  E, considerando isto, vinca como “Borges define uma autêntica ética da subordinação. Para concluir: “Ser uma nota de rodapé que é a vida de outro: não é essa vocação parasitária, ao mesmo tempo irritante e admirável, mesquinha e radical, a que prevalece quase sempre nas melhores ficções de Borges?” Diogo Vaz Pinto, Jornal i ,04.10.2018

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