quarta-feira, 12 de maio de 2021

Igrejas secretas da baixa de Lisboa

  

Visita às Igrejas secretas de Lisboa para o programa Portugal em Directo da RTP 1.

Oração a pedir o bom humor

Oração a pedir o bom humor

Dai-me, Senhor, uma boa digestão,
mas também qualquer coisa para digerir.
Concede-me a saúde do corpo e o necessário
bom humor para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e não se assuste demasiado perante o mal,
mas encontre maneira de recolocar
as coisas no lugar devido.

Dai-me uma alma que não fique refém do tédio
nem de resmungos, impaciências ou lamentações,
e não permitais que me atormente
para lá do razoável
com essa coisa turbulenta chamada “eu”.

Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado
e a capacidade de receber o que aí vem a sorrir
vivendo o que me cabe com alegria
e partilhando-a sem custos acrescidos
com os outros. Ámen.

Oração escrita por São Tomás More, rezada diariamente pelo Papa Francisco. Foi oferecida à comunidade da Capela do Rato pelo P. José Tolentino Mendonça, como gesto de agradecimento pela oração da comunidade durante o retiro ao Papa Francisco e à Cúria Romana. ( Site da Capela do Rato , Lisboa- Portugal)
Senso de humor e santidade segundo o Papa Francisco
(As palavras do papa Francisco ao Vatican News)
Sair de nossa "concha" para descobrir a alegria
Se deixarmos que o Senhor faça com que saiamos de nossa concha e nos transforme a vida - escreve o Papa - então nós poderemos alcançar o que São Paulo exclamou: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!" (Filipenses 4,4! ).
Existem tempos difíceis, tempos de cruz - disse ele - mas nada pode destruir a alegria sobrenatural que “se adapta e se transforma, e sempre permanece, pelo menos, como um raio de luz que vem da certeza pessoal de ser infinitamente amado, acima de tudo”.
É “uma segurança interior, serenidade cheia de esperança que oferece uma satisfação espiritual incompreensível segundo os critérios do mundo".
Deus nos quer positivos, não complicados
Francisco recorda uma de suas citações favoritas do Eclesiástico, o amor paterno de Deus que nos convida: "Filho, [...] faz algum bem a ti mesmo [...]. Não te prives de um dia feliz”. (Eclo 14,11.14)
O Senhor "quer que sejamos positivos, agradecidos e não muito complicados: “No dia da felicidade, sê alegre; Deus criou o homem recto, mas é ele que procura os extravios."  (Ecles 7,14.29).
Em todas as situações, é necessário manter um espírito flexível e fazer como São Paulo: "Aprendi a contentar-me com o que tenho." (Filipenses 4,11). É o que viveu São Francisco de Assis, capaz de comover-se de gratidão diante de um pedaço de pão duro, ou louvando a Deus, feliz, apenas pela brisa que acariciava seu rosto.
Uma alegria que vem da fraternidade 
O Papa não fala da "alegria consumista e individualista, tão presente em algumas das experiências culturais de hoje. De facto, o consumismo, torna pesado o coração; pode oferecer prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria".
Em vez disso, refere-se "àquela alegria que é vivida em comunhão, que é partilhada e participada, porque" "é maior felicidade dar que receber!"
(Atos 20,35) e " Deus ama quem dá com alegria "(2 Coríntios 9,7).
O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de alegria, pois  torna-nos capazes de nos alegrarmos com o bem dos outros".
Pedir a graça do senso de humor
"O senso de humor é uma graça que eu peço todos os dias" - revelou ele em Novembro de 2016, durante uma entrevista à TV2000 e à Rádio InBlu - porque "o senso de humor levanta-o , faz que veja  o provisório da vida e  a encarar as coisas com um espírito de alma redimida. É um comportamento humano, mas é o mais próximo à graça de Deus".
"Eu - disse o Papa - conheci um padre, um grande padre, um grande pastor, para citar um, que tinha um grande senso de humor, mas ele fazia muito bem aos outros também com isso, porque relativizava as coisas: “O Absoluto é Deus, mas isso se ajeita ... não se preocupe ...!”.
Mas sem dizer isso, ele fazia as pessoas sentirem isto, com um senso de humor. E dele se dizia: “Mas este sabe rir dos outros, de si mesmo, e também da própria sombra".

terça-feira, 11 de maio de 2021

A ideia da Igualdade

A Ideia da Igualdade
por Aldous Huxley
Fé Dominical e Fé Semanal
"Que todos os Homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez , o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Os editores não imprimem todas as obras que lhes chegam às mãos. E quando são precisos funcionários públicos, até os governos  mais democráticos fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos  teoricamente iguais. Em tempos normais , portanto, estamos perfeitamente certos de que os Homens não são iguais,  Mas quando, num país democrático, pensamos ou agimos politicamente , não estamos menos certos de que os homens não são iguais . Mas quando , num país democrático, pensamos ou agimos politicamente, não estamos menos certos de que os Homens são iguais. Ou, pelo menos - o que na prática  vem a ser a mesma coisa  - procedemos como se estivéssemos certos da igualdade dos Homens. Identicamente, o piedoso fidalgo medieval que, na igreja acreditava em perdoar aos inimigos  e oferecer  a outra face, estava pronto, logo que emergia novamente à luz do dia, a desembainhar a sua espada à mínima provocação.  A mente humana tem uma capacidade quase infinita  para ser inconsistente.
A quantidade de tempo durante o qual os Homens estão empenhados em pensar ou agir politicamente é muito reduzida , quando comparada  com todo o período das suas vidas; mas as breves actividades do homem político exercem uma influência desproporcionada sobre a vida diária  do homem trabalhador , do homem a divertir-se , do homem pai e marido, do homem senhor de propriedades.  Daí a importância em se saber o que ele pensa na sua qualidade de político e porque é o que pensa. 
Os políticos  e os filósofos políticos  falaram muitas vezes acerca de igualdade do Homem  como se fosse uma ideia necessária  e inevitável , uma ideia  em que os seres humanos  têm de acreditar, devido à própria natureza  da sua constituição física  e mental, em noções tais como peso, calor  e luz.  o Homem é « por natureza, livre, igual e independente»», diz Locke, com a segurança calma de alguém que sabe  que está a dizer qualquer coisa  que não pode  ser contraditada . Era possível  citar literalmente milhares de afirmações semelhantes. «É preciso ser-se louco», diz Babeuf, «para negar tão manifesta verdade».

Igualdade e Cristandade
No entanto, do ponto de vista do facto histórico, a noção da igualdade humana é um produto recente e, longe de ser uma verdade directamente apreendida e necessária, é uma conclusão logicamente tirada de assunções metafísicas preexistentes. Nos tempos modernos, as doutrinas cristãs da irmandade dos Homens e da sua igualdade perante Deus  foram invocadas em apoio da democracia política. Muito ilogicamente, no entanto. Porque a irmandade dos Homens não significa a sua igualdade.  As famílias têm os seus patetas  e os seus homens geniais, as suas ovelhas ranhosas e os seus santos, os seus  êxitos mundanos e os seus falhanços mundanos. O Homem deve tratar os seus irmãos amorosamente e com justiça, conforme os méritos de cada um. Mas os méritos de cada irmão não são os mesmos. Nem a igualdade dos Homens perante Deus significa a sua igualdade conforme ela é entre eles.  Comparada com uma quantidade infinita , todas as quantidades finitas podem ser consideradas iguais. Não existe nenhuma diferença , quando se trata de infinidade , entre um e mil. Mas deixe-se a infinidade fora do assunto, e mil é muito diferente de um. O nosso mundo é um mundo de quantidades finitas e, quando se trata  de assuntos terrenos, o facto de todos os Homens serem iguais  em relação à quantidade infinita que é Deus e inteiramente irrelevante. A Igreja conduziu em todos os tempos a sua política terrena na assunção de que tal era irrelevante. Só recentemente  é que os teóricos  da democracia  apelaram para a doutrina cristã para obterem uma confirmação dos seus princípios igualitários. A doutrina cristã, como demonstrei, não dá tal apoio.

A Igualdade e o Filósofo
Os escritores que no decurso do século XVIII forneceram à nossa moderna democracia política a sua base filosófica, não se voltaram para o Cristianismo para encontrarem  a doutrina da igualdade humana. Eles eram , para começar , quase sem excepção, escritores anticlericais  para quem a ideia  de aceitar qualquer auxílio da igreja teria sido extremamente repugnante. Além disso, a Igreja  conforme organizada  para as suas actividades terrenas , não lhes oferecia  qualquer auxílio, mas sim uma franca hostilidade. Ela representava ainda mais claramente  do que o estado  monárquico  e feudal , aquele princípio medieval de governo hierárquico e aristocrático contra o qual, precisamente, os igualatários protestavam.
A origem da nossa  ideia moderna de igualdade humana tem de encontrar-se na filosofia de Aristóteles. O tutor  de Alexandre o Grande não era, na verdade, um democrata. Vivendo, como o fazia, numa sociedade detentora de escravos , não um escravo ele próprio;  não tinha qualquer motivo para se queixar. Na sua  filosofia política , ele racionalizou a sua satisfação  com o estado  de coisas existentes e afirmou que alguns homens nascem para serem senhores ( entre os quais ele, é claro)  e outros para serem escravos.  Mas ao dizer isto estava a cometer uma inconsistência . Porque era um preceito fundamental no seu sistema metafísico, que as qualidades especificas são as mesmas em todo o membro de uma espécie. Os indivíduos de uma espécie são os mesmos em essência ou substância. Dois seres diferem um do outro na matéria, mas são o mesmo na essência , por serem ambos animais racionais.  A qualidade humana essencial que distingue a espécie Homem de todos as outras espécies é idêntica em ambos.

Inconsistências
Como havemos nós de reconciliar esta doutrina com a afirmação de Aristóteles de que alguns homens nascem para serem senhores e outros escravos? Evidentemente que nenhuma reconciliação é possível; as doutrinas são contraditórias. Aristóteles disse uma coisa  quando estava a discutir os problemas abstractos da metafísica e outra quando, como senhor de escravos , estava a discutir  política. Tais inconsistências são extremamente vulgares, e são geralmente feitas de boa-fé. Nos casos em que estão em causa interesses materiais,onde as tradições sociais e religiosas,inculcadas na infância , os Homens pensarão naturalmente de uma certa maneira ; noutros casos , onde os seus interesses e as suas crenças cedo adquiridas não são afectadas, eles pensarão , também naturalmente  de uma certa maneira ; noutros casos , onde os seus interesses e as suas crenças  cedo adquiridas  não são afectadas, eles pensarão , também natural e inevitavelmente , de uma  maneira inteiramente diferente.  Um homem que pense  e se comporte como um cientista  franco e imparcial enquanto está a reparar o seu automóvel , sentir-se-á ultrajado se lhe pedirem  que pense acerca da criação  do mundo ou da vida futura  a não ser  em termos  de mitologia corrente entre os bárbaros  Semitas  de há três mil anoa atrás ; e , embora inteiramente pronto a admitir que o presente sistema de telefonia sem fios pode ser melhorado, considerará qualquer pessoa que deseje modificar o actual sistema económico  e político como um louco ou um criminoso. Os maiores  génios humanos não estão isentos destas curiosas inconsistências . Newton criou a ciência da mecânica celeste , mas foi também o autor das Observações sobre as profecias de Daniel e o Apocalipse de S. João, de um  Lexicon Propheticum e de uma História da Criação. Com uma parte da sua mente acreditava nos milagres e profecias que lhe  tinham sido ensinadas na infância; com a outra  parte  acreditava  que o Universo é uma demonstração de ordem e uniformidade.  As duas partes  estavam impenetravelmente  divididas uma da outra. O físico matemático  nunca interferira com o comentador  do Apocalipse;  o crente em milagres em nada compartilhava da formulação  das leis da gravidade.  Igualmente, Aristóteles, o senhor dos escravos , acreditava que alguns homens nascem  para mandar e outros para servir; Aristóteles , o matafísico , pensando em abstracto  e alheio aos preconceitos sociais que influenciavam o possuidor de escravos , expunha uma doutrina de essências especificas que comportava a crença na igualdade real e substancial dos seres humanos. A opinião do dono de escravos estava, provavelmente, mais próxima da verdade do que a do metafísico . Mas, é  pela doutrina do metafísico que as nossas vidas são hoje influenciadas."
Aldous Huxley, in Sobre a Democracia e outros estudos, Círculo de Leitores, pp.17-21

segunda-feira, 10 de maio de 2021

A Liberdade

A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida. 

Miguel de Cervantes, (29 de Setembro de 1547-  22 de Abril de 1616) , "Dom Quixote".

domingo, 9 de maio de 2021

Ao Domingo Há Música

 

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.

Luís de CamõesOs Lusíadas (excerto do Canto III- est.20)

Pátria
(...)
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.

Miguel Torga , Portugal, 1950 

Hoje , dia da Europa, fica um esplêndido registo de Portugal,  sob os acordes de Emotional Cinematic Adventure.  Afinal festejar a Europa é celebrar PORTUGAL, esta bela nesga de  terra que lhe serve de orla ocidental, essa  ditosa pátria minha amadaNum tempo em que a palavra viajar já se balbucia , percorrer um território,  com tantas e variadas paisagens, é certamente uma excelente proposta.

Eis RISE OVER - PORTUGAL (AERIAL 4K) por Joel Santos.

   

sexta-feira, 7 de maio de 2021

A LÍNGUA PORTUGUESA (1)

A LÍNGUA PORTUGUESA

 Ao Nuno Pacheco, persistente e corajoso campeão, na aguerrida luta contra o Acordo Ortográfico, que tanto tem desfigurado a ortografia da língua portuguesa.

por Eugénio Lisboa
"Passou em 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Fui, com prazer, participar numa sessão de gravação de um programa que a Câmara de Oeiras em boa hora promoveu, para assinalar esse Dia. Tive o prazer de aí ter tido, como parceiro de conversa, o Dr. Rui Soares, grande autoridade internacional na área do Provérbio, e, como moderador inteligente, culto e dinâmico, o Dr. Mário José Silva. Tinha pensado em ali ler algumas homenagens prestadas à língua de Camões, ao longo dos séculos, por alguns poetas de Portugal e do Brasil. Porém o rumo que tomou a conversa não o proporcionou e quero, portanto, fazê-lo aqui.
A língua portuguesa, como todas as línguas vivas, tem evoluído, enriquecendo-se de novos vocábulos a que o progresso obriga e de novos enfoques e conotações que um novo contexto sugere. Os escritores, sobretudo os poetas, mas não só, acrescentam-na, com imaginação e com vigor, não só criando novo léxico como, também, como acima dissemos, usando palavras conhecidas, em contexto diferente e com sentido um pouco distante do usual, com efeitos inesperados. O poeta Paul Claudel dizia isto mesmo, numa formulação inconfundível: “Ce sont les mots de tous les jours et ce ne sont pas les mêmes” (“São as palavras de todos os dias e não são as mesmas.”) Quando Cesário Verde, num poema, se mostra embevecido por uma mulher “aromática e normal”, o adjectivo “normal” parece aqui um pouco frágil e deslocado para significar o que uma mulher possa ter de particularmente atraente: ninguém se lembraria de incluir, entre as seduções de uma mulher, a sua cinzenta “normalidade”. Simplesmente, para o Cesário tuberculoso e condenado a uma morte prematura, a mulher “normal”, isto é, saudável, isto é, “vigorosa”, reveste-se de suprema sedução. Ela era a vitalidade, a força que ele já não tinha e que, da força dela, se alimentava. Nada atrai tanto o frágil e vulnerável como o forte e saudável: o normal. Quem as leu, nunca esquecerá as páginas extraordinárias de Tolstoi, na sua pequena novela, A Morte de Ivan Ilitch, nas quais nos dá o protagonista, um idoso juiz, a morrer de cancro, já muito debilitado, mas a sentir-se todos os dias revigorado, quando um forte mujique lhe dava banho e o ajudava a cuidar-se, com os seus braços possantes: era como se a energia rude mujique se transmitisse, por milagre, ao pobre moribundo. A palavra “normal”, no verso célebre de Cesário, foi ali colocada com sábia pontaria, adquirindo um poderoso significado que não é o significado corrente e baço que lhe é dado por quem a usa.
Os poetas, os escritores em geral, em suma: os autores, são aqueles que aumentam a língua. Auctor era o título que os antigos romanos davam aos seus generais que acrescentavam o território, por conquista. Os verdadeiros escritores também aumentam o território da língua, de várias maneiras. Os três grandes acrescentadores da língua são o povo, as crianças e os escritores. Não os filólogos. O grande Anatole France, que merecidamente herdou o manto de Voltaire, escreveu estas belas palavras sobre os fazedores das línguas: “O povo faz bem as línguas. Fá-las imaginosas e claras, vivas e expressivas. Se fossem os sábios a fazê-las, seriam baças e pesadas.” O que é bem verdade. Conta-se que um dia no Porto, Camilo Castelo Branco ia por uma rua e viu uma vendedora, que era guapa de cima a baixo. Não resistiu a fazer-lhe um piropo. Camilo tinha, como se sabe, a cara picada das bexigas. A vendedora, ao ouvir o piropo atrevido, virou-se para ele e, fitando-o, disparou: “Cale-se, aí, seu cara de areia mijada!” Se isto não é fazer um uso criativo da língua, criando espontaneamente uma imagem inesquecível, vou ali e já venho. E são inúmeros os dizeres populares magnificamente expressivos e contundentes: “Meter o Rossio na Rua da Betesga”; “Diz o roto ao nu”; “Chove a potes”; “Nunca mais é sábado”; “Ficar a ver navios”; “Tirar o cavalinho da chuva”; “Quem tem boca vai a Roma”; “À sombra da bananeira”; “Engolir sapos”; “Dor de cotovelo”, etc. Poderia citar para cima de uma centena de expressões populares tão vivas e imaginosas como estas.
Por fim, as crianças: há quem tenha coleccionado dizeres espontâneos de crianças, revelando uma imaginação associativa prodigiosa e invejável. Dizia um poeta que todas as crianças têm génio, mas que os adultos acabam por fazê-lo embotar, por não o reconhecerem e até o travarem. Um só exemplo: uma criança a quem o pai deu, pela primeira vez, uma bebida gasosa, reagiu com estas palavras: “Sabe a pé dormente…”, assim construindo uma sinestesia não indigna da que fez Rimbaud, no célebre soneto das vogais coloridas.
A língua é, muitas vezes, a única pátria possível para os que já não têm a sua pátria de origem. O escritor francês Antoine de Rivarol (1753 – 1801), monárquico em tempos de revolução, teve de fugir de França, para salvar a vida. Como tantos outros escritores, andou por vários países, mas nunca mais regressou à sua pátria, que se afundara no Terror. Sem pátria, agarrou-se à única que lhe restava e gravou, para a posteridade, esta cintilante medalha: “A minha pátria é a língua francesa.” Rivarol foi um notável pensador aforista: embora conotado à direita, deixou aforismos que qualquer aforista de esquerda teria reivindicado. Por exemplo: “É preciso haver fome de pobreza para se gozar bem de riqueza.” A sua intensa assunção da língua, como pátria substituta, teve herdeiros: Fernando Pessoa (“A minha pátria é a língua portuguesa”); Hermann Hesse (1877 – 1962), grande escritor alemão fugido ao nazismo e tendo-se fixado na Suíça, escreveu: “A minha pátria é a língua alemã”; e Albert Camus (1913 – 1960), tendo perdido a sua Argélia sem completamente ter ganho a França, assim resumiu a solução para o conflito que o dilacerava: “Tenho uma pátria: a língua francesa.”
Fernando Pessoa viveu sempre em Portugal, depois de ter crescido linguística e culturalmente na inglesa Durban, o que o levaria a sentir-se sempre um pouco estranho, no meio de portugueses, que não eram bem como ele: caracterizou-os com acutilância de quem os via de fora, chegando mesmo a achá-los cómicos. Sem pátria que se dissesse, agarrou-se ao português deslumbrante de Vieira e tornou-se poeta português. Mas Pessoa dominava de facto duas línguas e foi o conhecimento profundo do inglês que o ajudou a melhor aprofundar o português. A comparação de duas línguas fomenta o melhor conhecimento de ambas. Já o grande Goethe o dissera: “Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada sobre a própria.” Os escritores portugueses que mais contribuíram para a modernização do português foram os que andaram lá por fora: Garrett, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge de Sena.
Darei agora alguns exemplos de homenagens prestadas por autores de língua portuguesa à língua que lhes foi pátria e casa. Darei, por agora, alguns, deixando para o meu próximo “post” o resto.

ANTÓNIO FERREIRA

(1528 – 1569)

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa Língua e já onde for

Senhora vá de si soberba e altiva.

Se téqui esteve baixa e sem louvor

Culpa é dos que mal a executaram.

Carta a Pedro de Andrade Caminha

(Excerto)

OLAVO BILAC

(1865 – 1918)

LÍNGUA PORTUGUESA

´´Ultima flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, flor e sepultura:

Ouro nativo que, na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela…

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela

E o arrolo da saudade e da ternura.

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O génio sem ventura e o amor sem brilho.

TERESA RITA LOPES

(1937 -     )

PALAVRAR

As crianças começam a chilrear palavras

antes de saber falar.

Saboreiam-nas como a mama das mães.

Ficou-me na língua desde então

 o gosto das palavras.

O dicionário não regista o termo

- ignorância sua!

O neologismo é do Pessoa.

Palavrar faz crescer, dilatar as papilas,

apetecer comer o mundo,

apura o paladar do ser que somos.

Sempre os homens, através dos tempos,

precisaram de palavras

a falar ou a cantar,

às vezes a rimar,

para pôr as palavras a namorar

umas com as outras!

A Natália exclamou que “a poesia é para se comer!”

É verdade que a poesia é o modo mais cristalino

ou mais em fogo

de palavrar!

O Miguel Torga elogiou a pobreza franciscana

da nossa língua:

 “Para pedir pão serve às maravilhas!”

P’ró que lhe havia de dar~

 a sua mania do parco e do pouco!

A nossa língua é o mais suculento manjar imaginável!

Por mais pobres que nos façam ser

os ricos que nos roubam

podemo-nos gabar de ter para falar e escrever

e comer´

e até amar

uma das mais esplêndidas línguas do mundo!

            (Inédito)

FERNANDO PESSOA

(1888 – 1935)

O português é (1) a mais rica e mais complexa das línguas românicas, (2) uma das cinco línguas imperiais, (3) é falada, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto o francês, (4) é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano – isto é, não é uma língua isolada, (5) é a língua falada num grande país crescente – o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação).

(in A Língua Portuguesa)

Nota: no próximo post, incluiremos testemunhos de Afonso Lopes Vieira, David Mourão- Ferreira, Teresa Rita Lopes (outro inédito) e Eugénio Lisboa.
Eugénio Lisboa, Maio de 2021

A Piaf


Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
6/10/1964
Jorge de Sena, in Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Babel, 2013.

 
Edith Piaf, em  Non, je ne regrette rien.
 
Edith Piaf, em  Mon Dieu (My God).
  
Edith Piaf , em  L'hymne à l'amour. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Quando se canta o amor ...

Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia.
William Shakespeare

Lamento della Ninfa (The Nymph's Lament), Part II, 8th Book of Madrigals, Madrigali dei guerrieri et amorosi (Madrigals of War and Love) de Claudio Monteverdi,(Cremona 1567- Veneza 1643), por Nuria Rial, Cyril Auvity e Jan van Elsacker (tenors) & João Fernandes (bass), com L'Arpeggiata, sob a direcção de Christina Pluhar.
Les Indes Galantes / Tendre amour, de Jean-Philippe Rameau (Dijon, 25 de Setembro de 1683 — Paris, 12 de Setembro de 1764), por Les Arts Florissants , sob a direcção de William Christie.