domingo, 20 de janeiro de 2013

Ao Domingo há Música

Vincent Van Gogh,"Barcos de pesca na Praia de Santa Mãe Maria", 1888
“Todos os dias deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas bonitas palavras." Goethe
Estes são, talvez, os ingredientes que fazem  mais leve o dia e que, concatenados, convidam à  eclosão das tais bonitas palavras que, todos os dias, devem ser ditas. Palavras que poderão trazer a força que se vai perdendo, neste tempo de tanta apreensão.
O talento de um grande músico que descobriu quão importantes são as palavras para construir poemas que tornam  as canções imortais. Leonard Cohen, num concerto ao vivo , em Londres, no ano de 2009. Música com história e alma para este Domingo de um Janeiro ventoso e frio. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Palavras que falam de Amor


"Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
Al Berto, in "Lunário", Ed. Assírio & Alvim

Alma minha gentil, que te partiste
               
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
Luís de Camões, in “ Lírica de Camões”, INCM – Imprensa Nacional, Casa da Moeda

Salada

Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados, lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint'anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.
Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não ...
Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!
Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!
David Mourão Ferreira, in «Música de Cama» , Lisboa: Presença 1996

O rio apenas de leve

O rio apenas de leve
se mexia e virava:
menino dormindo,
suspirava de calor.

- Que sabes (disse Eva) da corrente
do teu sangue?
escuta em mim:
sentirás este fundo rumor do mar,
ondas que tocam na terra,
regressam e voltam
para teu corpo.
António Osório, in «366 poemas que falam de amor»,Antologia organizada por Vasco Graça Moura,Lisboa: Quetzal, 2003

Segredo
Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
O seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
Fernando Pinto do Amaral, «Às Cegas»- Poesia Reunida 1990 - 2000, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2000
Vou-te amar no absoluto
"(...) E devagar, ao centro de convergência de toda a bruta inquietação, rígida a procura do teu abismo interior. Refreio o ímpeto, quero entrar com a consciência difícil do que procuro, o impossível do teu ser. Rebento no limite de reter-me no sofrimento. Mas quero entender, entender. O modo único de nada me escapar ao prazer de ti. Do mistério irritante do que acontece no amar-te agora por sobre quanto te amei. Entender. Amar-te na conglomeração de todas as vezes e formas e impossível em que te amei. Mónica, minha querida. Minha doença insuportável. Porque o teu corpo não é só o teu corpo. Não é isso, não é isso. É entrar em ti, e a tua pessoa estar lá, seres tu ainda no íntimo de te tocar e estares aí como no teu riso, na tua presença. Seres tu ainda quase reconhecível como se não soubesse que eras tu e entrar em ti e reconhecer-te como se aí fosses reconhecível. Preciso de entender, não te vou agora amar à toa. Seres por dentro única como nas impressões digitais. Saber que és tu, mesmo sendo cego e surdo. Entrar em ti e tu estares toda lá dentro como estás por fora. Tocar o intransmissível de ti, reconhecer que és tu, inconfundível, no igual do teu íntimo ao de toda a mulher. Porque tu és tão diferente. No riso no ar na voz, na totalidade do teu corpo. E sentir que isso tudo é lá também esse tudo. Diferente na sua igualdade. Entrar em ti e ir reconhecendo pouco a pouco no meu entrar a mulher que amo até à estupidez. Reconhecer encontrar dentro o que amei fora. Nunca te amei toda, vou-te amar o que sempre faltou. Nunca te amei tudo, aproveitei sempre uma fatia de te amar. O teu olhar, o teu riso, a exemplaridade do teu corpo, o seu espectáculo, o encantamento às vezes, o teu andar, o prazer rápido, o prazer trabalhado para te submeter a tê-lo. Coisas assim avulsas. Vou-te amar agora, vou-te amar no absoluto. Amar-te no prazer e rebentar." Vergílio Ferreira, in “ Em Nome da Terra”, Quetzal, 10ª edição, 2009

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Amigo dos Amigos

Rio Vltav, Ponte Carlos ( Karlův most), Praga
"Digo no meu livro " En esto creo ": " O que não temos encontramos no amigo ." Gabo  ( Gabriel García Márquez) e eu partilhamos muitas amizades e muitas inimizades. Na política são inevitáveis as diferenças de opinião e a prova da amizade é que o que poderia separar-nos nos une ainda mais : o respeito. Deixo  de lado a nossa conflituosa latino-americanidade, pensando às vezes que a América latina só se concebe a si mesma, política e economicamente, como um problema que obriga o mundo a reparar em nós e, uma e outra vez, a resgatar-nos da nossa própria incompetência. Gabo é fascinado pelo fenómeno do poder e " O Outono do Patriarca " não apenas dá fé, como encarna em todas as direcções o picaresco e a tragédia do poder. Do meu ponto de vista, na nossa relação com homens de poder, destacaria três. Com François Mitterrand, um demónio de inteligência, cultura literária e maquiavelismo político. Nas suas memórias, " A Palha e o Grão", Mitterrand recorda que foi outro queridissimo amigo comum, Pablo Neruda, quem lhe disse: " Leia imediatamente  " Cem Anos de Solidão " . É o mais belo romance produzido pela América latina desde a última guerra." Mitterrand conhece García Márquez e escreve : " É um homem idêntico à sua obra. Quadrado, sólido, risonho e silencioso. " Com William Styron, Arthur Miller e  García Márquez, assisti à pomposa inauguração do Presidente Mitterrand, em Maio de 1981. Durante o almoço de estado no Eliseu, o novo presidente pediu-nos que o acompanhássemos ao seu gabinete para testemunharmos o seu primeiro acto de governo: assinar volumosos decretos outorgando a nacionalidade francesa  a Milan Kundera e Julio Cortázar, ambos exilados por ditaduras , comunista a de Praga, fascista a de Buenos Aires.  A cultura literária de um  presidente francês nunca surpreende. Neruda contou-me que as suas reuniões com o presidente  Pompidou, sendo Pablo  embaixador  do Chile em França, tinham como pretexto discutir a política económica do Clube de Paris, mas na realidade eram longas conversas sobre a poesia de Baudelaire. O que surpreende é que um presidente dos Estados Unidos leia livros. Coisa  que Gabo e eu descobrimos uma noite em Martha's Vineyard, ouvindo Bill Clinton recitar de memória passagens inteiras de Faulkner, demonstrar que tinha lido o " D. Quixote " e por que razão Marco Aurélio era o seu autor de cabeceira. Pergunta desnecessária: O que terá lido Bush?  E para fechar o capítulo político, outro leitor-estadista : Felipe González, um homem que fala como um livro porque pensa como um livro porque leu todos os livros e, no entanto - oh, Mallarmé - não está triste. Digo que Gabo  e eu temos tido muitos amigos e inimigos literários - nem sempre partilhados. - Mas olhando a nossa vida de capítulos intercambiáveis, creio que há um amigo escritor ou , melhor  dizendo, um escritor amigo de ambos que Gabo e eu colocamos acima de todos. É Júlio Cortázar  e creio que nem Gabo nem eu seríamos o que somos ou o que ainda quisermos ser sem a radiosa amizade do Gran Cronopio. Em Cortázar marcavam encontro o génio literário e a modéstia pessoal, a cultura universal e a coragem local ( " As Malvinas são argentinas - costumava dizer. - Os desaparecidos também".) Tinha lido tudo, visto tudo, só para partilhar tudo. Uma das noites inesquecíveis da nossa amizade ocorreu no comboio  Paris-Praga, em Dezembro de 1968. Íamos convidados por Kundera para manter a ficção - quer dizer, a esperança - de uma cultura checa independente num país  rodeado de tanques soviéticos. Cotázar foi alinhavando temas como um contista árabe da praça de Marraqueche. Recordou todos os romances que sucediam em comboios, em seguida os filmes em comboios e, por último, a partir do swing de Glenn Miller, o ritmo de locomotora do jazz e, em especial, uma memória assombrosa da relação entre o jazz e o piano... Quando chegámos de madrugada a Praga, esperava-nos na estação Kundera, que nos levou , a Gabo e a mim, a uma sauna, e quando pedimos um duche para tirarmos o calor, Milan conduziu-nos ao rio Vltava e empurrou-nos,  nus como minhocas, para a água congelada. Recordo o comentário de Gabo quando saímos roxos do rio: " Por um instante Carlos, julguei que íamos morrer juntos na terra de Kafka".
* Carlos Fuentes , in " Gabo , Memórias da Memória", Livro integrante da 1ª edição das memórias de Gabriel Garcías Márquez , "Viver para Contá-la", Ed. D. Quixote, Abril de 2003
*Carlos Fuentes nasceu no México em 1928. Intelectual consagrado e um dos principais expoentes da narrativa latino-americana, é autor de uma vasta obra que inclui romances, contos, teatro e ensaio. Ao longo da sua carreira recebeu numerosos prémios, entre eles o Prémio Cervantes (1987) e o Prémio Príncipe das Astúrias (1994). Em 2003 foi condecorado com a Legião de Honra pelo governo francês e em 2008 recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica. Era também conhecido pelo seu olhar crítico sobre a sociedade mexicana contemporânea e a política neoconservadora do ex-presidente americano George W. Bush.
Carlos Fuentes começou a escrever aos 29 anos e o seu último romance “Adão no Éden” foi publicado  pela Porto Editora, em 2012, ano da sua morte, aos 83 anos num hospital da Cidade do México. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Os homens matam e morrem


Hotel América
 por *Milton Hatoum

"Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite
Aquele sábado já tão distante não prometia tumulto. No fim da tarde os dois homens saíram à rua quase ao mesmo tempo. O primeiro deixou uma pensão modesta, na esquina da Joaquim Sarmento com a Sete de Setembro. Lembro que uns cachorros feios dormiam por ali. O segundo homem deixou o hotel América no outro lado da rua coberta de pedras.Eram altos, talvez altos demais para um menino sentado num carro pequeno. O terceiro homem estava ausente: era meu tio, que tinha acabado de entrar em seu escritório na Joaquim Sarmento para apanhar um documento. Devia esperá-lo dentro do carro, e assim fiz. Os dois homens se encontraram no meio da rua: estavam bem vestidos, roupa engomada e sapatos engraxados. Alinhados, como se dizia. Um deles, ao tirar o chapéu, mostrou a cabeça calva e avermelhada. O outro, de cabelo grisalho, tinha o rosto dividido por uma pequena mancha preta. Eu era tão jovem que não sabia calcular a idade deles. Quarenta ou cinquenta anos? Eu tinha onze, e minha infância terminou naquele anoitecer. Me impressionou a deferência quase cavalheiresca do encontro: o aperto de mãos breve, mas cordato. Não podia escutar a conversa dos dois, mas podia intuir a cumplicidade entre amigos. Porque eles se olhavam mais do que falavam. E em algum momento sorriram.Se todos os homens fossem assim, haveria menos ódio? Seis batidas dos sinos da matriz soaram na tarde que se acabava: mais um sábado sem graça, no começo de uma juventude entediada. O que haveria além da praça, além do rio e da floresta? Os dois homens vinham de muito longe, de um lugar que só cabia na imaginação. Forasteiros. E alguma coisa os unia na cidade estranha. Não pareciam turistas. E só no dia seguinte soube o nome e a profissão deles, mas isso não importa. Despediram-se com um cumprimento mais demorado e caloroso. O grisalho ofereceu ao outro um cigarro, ambos fumaram em silêncio, enquanto a fachada dos edifícios e as palmeiras da praça perdiam o brilho no pôr-do-sol precipitado do equador. 
O calvo ficou parado, o chapéu preso ao sovaco do braço esquerdo, a mão direita solta, o cigarro na boca: um ponto avermelhado que acendia e apagava, a fumaça expelida pelo nariz em brasa. O homem grisalho começou a andar na minha direcção. Eu ia me abaixar para não ser visto, mas permaneci sentado, pois ele olhava as pedras da rua e caminhava lentamente, como se cada passo, curto e calculado, reiterasse uma decisão grave. Parou a poucos metros do carro; então notei que a mancha no rosto era um bigode espesso, que o envelhecia e dava-lhe um ar destemido. Em algum momento virou o rosto para a porta do escritório do meu tio. Um mau presságio invadiu meu pensamento, como um ruído na tarde quieta. Depois o homem grisalho olhou para a fachada do hotel América, e sorriu para alguém que eu não pude enxergar. Ou sorriu para ele mesmo, como acontece com você, com todos nós em algum momento do dia ou da vida. 
Mais longe de mim, o calvo continuava no mesmo lugar, o cigarro no centro do rosto sério. O chapéu de abas curtas, cinzento e feio, estava no chão, perto dos pés. 
O grisalho ficou de frente para o outro. Assim, parados como dois homens de pedra, eles enchiam a rua de austeridade. Esperavam por alguém ou se despediam em silêncio. Um silêncio demorado, estranho. Não sei por quê, senti medo; ou tive consciência de que algo podia acontecer na cidade, na vida. Na porta do escritório entreaberta apareceu o rosto do meu tio. Acenei para ele com timidez, e sua resposta foi um gesto rápido e brusco, que eu não entendi. Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite. Na única janela aberta do hotel vi, de relance, a cabeça de uma mulher, o cabelo amarelo tapando a metade do rosto. Parecia uma pintura com pouca luz, emoldurada por sombras; pensei no quadro de um amigo que queria ser artista, mas foi o pensamento de um instante porque um barulho seco e forte me assustou. Na rua, o homem calvo segurava uma pistola e pisava o chapéu, a bagana ainda na boca. Vi várias pessoas na calçada do América. Uma mulher alta e loura correu no meio da rua e sumiu como um fantasma. Saí do carro, procurei o homem grisalho e vi a mulher debruçada sobre o corpo dele, beijando-lhe os olhos. Ia me aproximar dos dois, mas meu tio segurou meus braços e disse Volta para o carro. Ainda insisti, porque nunca tinha visto uma mulher beijar um rosto ensanguentado.
Entra e vamos embora, gritou meu tio. Ele está morto. Morreu no duelo.
Eu olhava a mulher em prantos, beijando o morto e tentando erguê-lo. O outro, o calvo, era um homem quieto. Ninguém ousava se aproximar dele. Cuspiu a bagana, largou a pistola e cruzou os braços. 
Quando o carro deu marcha a ré, perguntei por que tinham duelado.
Por paixão, disse meu tio. Amor louco, ciúme... Os homens matam e morrem por ciúme e dinheiro." Milton Hatoum,em artigo publicado no nº 23 de “EntreLivros”

*Milton Hatoum nasceu em Manaus, Brasil, em 1952. Estudou arquitectura e ensinou literatura brasileira nas universidades do Amazonas e da Califórnia, em Berkeley. Pela sua primeira obra de  ficção  – Relato de um Certo Oriente -, publicada em 1990, recebeu o prémio Jabuti de melhor romance . Duas outras obras se seguiram – Dois Irmãos, de 2001, e Cinzas do Norte, de 2006 –, ambas igualmente laureadas com o Prémio Jabuti, e esta última premiada com o Prémio Portugal Telecom de Literatura. É um dos grandes escritores vivos da Literatura Brasileira. Os seus livros já foram editados em diversos países, entre eles a França, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos, Itália, Espanha, Alemanha, Holanda, Grécia e Líbano. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Propostas para ler,ouvir, ver e beijar

Juntámos uma panóplia interessante de propostas que pode ser explorada com  o critério que  cada um escolher e quando lhe aprouver, pressupondo  que  pintar o tempo  com novas cores  será sempre um excelente desafio.

Meia centena de obras literárias e ensaísticas essenciais, para ler na mítica ilha deserta, escolhidas por Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, ...


Meia centena de álbuns de música clássica, jazz e pop que os leitores devem conhecer, seleccionados pelos críticos do Expresso.
150 discos que toda a gente deve ouvir

São meia centena de filmes essenciais - os tais que levaríamos de bom grado para a utópica ilha deserta.
50 filmes que toda a gente deve ver

10 lugares para roubar um beijo
Por: Isidoro Merino
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¿Te besarías delante del Ayuntamiento, como la pareja de la famosa foto de Robert Doisneau?
Febrero está a la vuelta de la esquina, San Valentín (el día 14) acecha. Propongo diez sitios para que tu pareja y tú (o tú y quien sea) os comáis a besos o paséis a mayores antes de que algún desalmado os regale una caja de bombones con forma de corazón. 
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Una pareja junto al palacio del Dux de Venecia. / ISIDORO MERIN
01 El puente de los suspiros (Venecia, Italia)
Dicen que robar un beso al atardecer bajo el puente de los Suspiros de Venecia garantiza el amor eterno y verdadero. Mentira cochina. Podéis besaros allí si os place, el sitio es bonito, pero los suspiros que dieron nombre al puente no eran de amor, sino de angustia: este pasaje cubierto que une el palacio ducal y la antigua y temible prisión de Los Plomos debe su nombre a los lamentos de los condenados que, a través de sus celosías de piedra, veían por última vez la laguna, la isla de San Giorgio y el cielo de Venecia. 
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El puente de los Suspiros, en Venecia. / EL PAÍS / GEMA GARCÍA
Por él pasó, el 26 de julio de 1755, Giovanni Giacomo Casanova (1725-1798), huésped forzoso de las mazmorras de la Serenísima gracias a su conducta disoluta y a la denuncia de un tal Zanussi, confidente de la Inquisición. El episodio, así como su rocambolesca fuga de Los Plomos por los tejados de Venecia, son relatados con viveza en uno de los capítulos de Histoire de ma vie, las memorias en francés del célebre aventurero y libertino. Para robar un beso en Venecia hay otros puentes con menos gente, como el Ponte de la Nostalgia, junto a la Chiesa dei Miracoli, en Cannaregio, cerca de la casa de Corto Maltés.
Corto gatos
Corto Maltés, en una viñeta de Fábula de Venecia, de HUGO PRATT
02 Pont-Neuf y Pont de Passy (París, Francia)
En fin, siempre nos quedará París, “La cité de l'amour”. Y no de cualquier amor, sino de L’amour fou, ese arrebato pasional con el que los parisinos venden tan bien su ciudad en el cine. En París, como en el juego de la Oca, los amantes van saltando de puente en puente (es una metáfora): del Pont-Neuf, donde Juliette Binoche y Denis Lavant viven su amargo romance clochard, al puente de Bir-Hakeim, o pont de Passy, donde se cruzan, bajo las vías del metro, las vidas de Marlon Brando y María Schneider en El último tango en París.
Los fetichistas tenéis además el Bois de Boulogne, donde Luis Buñuel ató a un árbol a Catherine Deneuve en la película Belle de jour.
Belle de Jour
Catherine Deneuve, en una secuencia de Belle de Jour/ VALORIA FILM
03 La Garganta del Diablo (Iguazú, Argentina y Brasil)
Tendréis que echarle mucha pasión para estar a la altura de tan grandioso escenario. Los besos serán muy húmedos, eso sí.
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La Garganta del Diablo, en las cataratas de Iguazú. / ISIDORO MERINO
04 Puentes de Madison (Iowa, EE UU)
“Eran buenos sueños. No se realizaron, pero me alegro de haberlos tenido”, le dice Clint Eastwood a Meryl Streep en una conmovedora secuencia de Los puentes de Madison, una de las historias de amor que más ha hecho llorar a los espectadores en el cine.

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El responsable es Robert, fotógrafo de National Geographic que, harto de selvas, montañas y desiertos, encuentra el vértigo del amor en una granja familiar de Iowa (EE UU). Por su culpa, a los fotógrafos nos corren a gorrazos en Iowa en cuanto enseñamos el zoom.
05 Kissing (Baviera, Alemania)
Además de un gerundio inglés, Kissing (besando) es el nombre un pueblo de Baviera (Alemania) . (...)
06 Puente Milvio (Roma, Italia)

Encadenados, como Cary Grant e Ingrid Bergman en la película de Alfred Hitchcock. Así se deben de ver a sí mismos los tortolitos que llenaron de candados el puente Milvio de Roma, una moda que se ha extendido a otras ciudades, como Sevilla, París, Madrid o Barcelona. La culpa la tiene Tengo ganas de ti (Planeta, 2008), una novela para adolescentes de Federico Moccia en la que los protagonistas se juran amor eterno colgando un candado en el puente Milvio y tirando la llave al río Tíber. Ponte luego a buscarla.

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Por cierto: el beso de Encadenados, uno de los más largos y sensuales de la historia del cine, no se dio en el río de Roma, sino en Río (Brasil). Ni Ingrid ni Cary llevaban candados, pero hubo que usar tenazas para separarlos.


07 Isla de Pascua (Chile)
“Todas las secuencias
han llegado a su conclusión,
el tiempo no puede esperar.

Atravesaré el mundo
y volando llegaré
hasta el espacio exterior.

Y yo te buscaré en Groenlandia,
en Perú, en el Tíbet,
en Japón, en la isla de Pascua.

Y yo te buscaré en las selvas
de Borneo, en los cráteres
de Marte, en los anillos de Saturno".
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Grupo de moáis en Anakena, isla de Pascua. / ISIDORO MERINO
08 East Side Gallery (Berlín, Alemania)
En la zona de Friedrichshain (Berlín, Alemania) se conserva, convertido en galería de arte al aire libre, uno de los pocos restos del Muro que quedan en pie.

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El beso entre Breznev y Erich Honecker en el Muro. / ISIDORO MERINO
Allí se puede ver el famoso beso de tornillo entre el ruso Leonidas Breznev y el dirigente comunista alemán Erich Honecker, obra del artista ruso Dimitri Vrubel. La frase en ruso dice: “Gospodí! Pamogí-Mne vyzhit' sredí etoi smiertnoi lyubvi" (¡Dios mío!, ayúdame a sobrevivir a este amor mortal"). Muac. 
09 Times Square (Nueva York, EE UU)
El apasionado beso entre un marinero y una enfermera celebrando la victoria de Estados Unidos sobre Japón al final de la Segunda Guerra Mundial en la neoyorquina Times Square ha sido repetido por innumerables parejas desde que Alfred Eisenstaed hizo su famosa foto, publicada en la revista LIFE el 27 de agosto de 1945. Al final, todas acaban en el suelo (es que tienen muy desplazado el centro de gravedad, no seáis malpensados). Pese a lo que se suele creer, la foto del beso no fue portada ese número.
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V-J Day' / ALFRED EISENSTAEDT—TIME & LIFE PICTURES/GETT
10 Kisimmee (Florida, EE UU)
Otro lugar con nombre de chiste fácil (un juego de palabras con Kissing me, besándome, en inglés), cerca de Orlando, Florida (EE UU). Si realmente es como aparece en Street View, más que de que te besen allí, lo que dan ganas es de salir corriendo.
Kissimme

Y a ti, ¿dónde te gustaría que te besaran o besasen? (...)
Salar de atacama isidoro merino
Salar de Atacama, al norte de Chile. / ISIDORO MERINO
Artigo retirado do Jornal " El País", em " El viajero astuto".

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O tempo é pouco


         
Homem Comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.
            Brasília 1963
Ferreira Gullar , in ”Toda poesia”, Ed. José Olympio

Fazer arte é fazer o novo

Dacosta, Alexandre ,Sem Título , 1988 

Não basta parecer novo
Por Ferreira Gullar
"Falando francamente, nada me alegra mais do que deparar-me com uma obra de arte que, além de suas qualidades artísticas, seja inovadora. Não poderia ser de outro modo, pois costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. E quando digo vida, nela incluo, claro, também a arte que já existe. E queremos mais. Daí porque o surgimento do novo é inerente à própria criação artística. Nenhum artista quer fazer o que já fizeram ou o que ele próprio já fez. Por isso que fazer arte é fazer o novo.
Só que o novo não precisa ser um paletó de três mangas, que nunca ninguém se deu ao trabalho de fazer pelo simples fato de que as pessoas têm apenas dois braços. O novo, autenticamente novo, não é uma criação a partir de nada, mas, sim, uma manifestação inusitada que surge do trabalho do artista, do processo expressivo em que está mergulhado. Esse processo não tem a lógica comum ao trabalho habitual, já que o trabalho criador é, essencialmente, a busca do espanto. Falo das artes plásticas, uma vez que, na poesia, se dá o contrário, o espanto está no começo: é o novo inesperado que faz nascer o poema.
Sem dúvida, a história da arte mostra que houve momentos em que a necessidade do novo --o esgotamento do actual-- levou a um salto qualitativo que determinou uma ruptura com a tendência em voga. Exemplo disso foi quando Claude Monet pintou a célebre tela "Impression, Soleil Levant", que determinou o surgimento do impressionismo.
Este foi um caso especial, já que para ele concorreram factores diversos, que vão desde a implantação das estradas de ferro, que facilitaram a ida das pessoas ao campo, até a nova teoria das cores, que as explicava como resultado da vibração da luz solar sobre a superfície das coisas. O pintor, então, sai do atelier, vai pintar ao ar livre e a pintura se torna também o registo do "devenir", da mudança cromática da paisagem com o passar das horas. Mas isso é a explicação teórica; na prática, a pintura impressionista revela uma nova beleza, um novo encantamento.
Essa é a visão geral, porque, na verdade, cada um daqueles pintores revelou alguma beleza nova a nossos olhos. Até que Paul Cézanne provoca uma nova ruptura nessa nova linguagem.
É a partir de então --particularmente com o cubismo-- que a busca do novo se acelera, talvez até em consequência do dinamismo da vida moderna. A própria sociedade --a economia, a produção industrial, as descobertas científicas-- muda a cada dia. E assim, de certo modo, o novo, que era consequência natural da criatividade artística, tornou-se o objectivo do artista. Mais do que fazer arte, ele deseja agora fazer o novo, que passou a ser um valor em si mesmo.
Sucede que a busca do novo pode conduzir à desintegração da linguagem artística, o que ocorreu com as artes plásticas durante o século 20. Não tendo mais linguagem, os que tomaram esse rumo passaram a usar as coisas mesmas como meio de expressão, bastando, para isso, deslocá-las de sua situação usual e pô-las num museu ou numa galeria de arte.
Mas há artistas que, sem voltar ao tradicional, criam novas linguagens, como, por exemplo, Alexandre Dacosta, que se vale de múltiplas relações formais e vocabulares para nos instigar a imaginação e nos divertir.
Ele actua nos mais diversos campos da expressão visual, mas aqui vou me ater aos dois livros que editou recentemente e que se intitulam "Tecnopoética" e "Adjetos". São criações de gratificante originalidade, em que ele mescla objetos, cores, palavras, signos visuais, postos todos a serviço de um senso de humor que explora o nonsense.
Ao contrário de outros artistas que tentam se impor pelo gigantismo das obras, Alexandre inventa pequenos objectos, às vezes "máquinas inúteis", à la Picabia.
Exemplo: O "receptor descartável de impropérios", e outro, chamado "suruba", feito de tomadas elétricas encaixadas umas nas outras. Há um outro, que consiste num sapato com rodas de patins e uma hélice que o faria levantar voo.
Ele define seus objectos como "utensílios capazes de deslocar a percepção para uma invertida reflexão do cotidiano". Trata-se de uma das manifestações mais inteligentes e criativas dentre as que vi ultimamente nesse gênero de arte." Ferreira Gullar em Crónica publicada na Folha de S.Paulo em 6/01/2012

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A nuvem e o dia

A nuvem veio e o sol parou

A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.
Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.
Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.
              10-9-1934
Fernando Pessoa, in “ Novas Poesias Inéditas”, (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

Feliz dia para quem é

Feliz dia para quem é
O igual do dia,
E no exterior azul que vê
Simples confia!
O azul do céu faz pena a quem
Não pode ser
Na alma um azul do céu também
Com que viver
Ah, e se o verde com que estão
Os montes quedos
Pudesse haver no coração
E em seus segredos!
Mas vejo quem devia estar
Igual do dia
Insciente e sem querer passar.
Ah, a ironia
De só sentir a terra e o céu
Tão belos ser
Quem de si sente que perdeu
A alma para os ter!
5-8-1921
Fernando Pessoa, in “ Poesias”, (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).


Canção da janela aberta

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!

Mário Quintana , In: “Colectânea 80 anos de Poesia”, Organizada por Tânia Carvalhal. Editora Globo, 1986.