quarta-feira, 9 de junho de 2021

Puccini


Montserrat Caballe, em  " Un bel di vedremo"  (Madame Butterfly), de Giacomo  Puccini ,acompanhada pela London Symphony Orchestra sob a direcção do Maestro Sir Charles Mackerras .

   

Madame Butterfly , Coro a boca cerrada de Giacomo Puccini. Concierto Voces para la Paz 2010, com o Maestro Miguel Roa, no   Auditório Nacional de Música. Madrid, 13 de Junho de 2010.

Giacomo Puccini
Sobre Giacomo Puccini

"Nascido em 22 de Dezembro de 1858 (Luca-Itália), Giacomo Puccini veio de uma família tradicional da música e iniciou os estudos bem cedo, porém sempre foi considerado um estudante indisciplinado. Começou a aprender órgão, mas, aos 16 anos, ao assistir a uma apresentação de “Aida", de Verdi, decidiu ser compositor de óperas. É considerado um dos grandes compositores da ópera realista italiana, criada no século XIX por Vicenzo Bellini e Giuseppe Verdi. As três óperas mais populares de Puccini, “La Bohème” (1896), “Tosca” (1900) e “Madame Batterfly” (1904), foram compostas na época em que Puccini atingira a maturidade criativa.
“La Bohème” foi baseada num libelo de Henry Murger, é considerado o trabalho mais famoso de Puccini e um dos melhores da ópera romântica.
Com “Tosca”, Puccini flui para o melodrama histórico que foi bem recebido pelo público romano.
“Madame Butterfly”,  baseada no drama de David Belasco, não foi bem recebida no La Scala, só depois de algumas alterações se tornou um grande sucesso no Teatro Grande de Brescia.
Centradas na figura feminina e, baseadas em trágicas histórias de amor, as três óperas caracterizam-se pela perfeita articulação entre texto e música, profunda dramaticidade e melodias românticas O estilo de composição de Puccini seguiu a tradição operística de Verdi. As suas óperas incluem vários temas. As histórias das heroínas, que se dedicam de corpo e alma aos seus amantes, geralmente com um fim trágico são as mais comuns . Algumas das árias mais conhecidas pelo grande público também foram escritas por Puccini, como "O Mio Babbino Caro", “Che Gelida Manina”, “Si chiamono mimi”, e “Quando m'en vo”.
Giacomo Puccini morreu a 29 de Novembro de 1924 (Bruxelas.- Bélgica), em decorrência de um cancro na garganta. Estava a compor a ópera “Turandot”, que ficou inacabada. A obra foi finalizada por Franco Alfano, que se baseou nos escritos do compositor. Embora o seu nome esteja ligado às óperas, Puccini também compôs em outros estilos, como obras sacras, incluindo uma missa e um requiem, diversas composições para coral, piano e várias composições instrumentais, entre outras.” Caderno de Música

terça-feira, 8 de junho de 2021

Os livros só mudam as pessoas.

Todo o leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo.
A obra não passa de uma espécie de instrumento óptico oferecido ao leitor a fim de lhe ser possível discernir o que , sem ela, não teria certamente visto em si mesmo.
Marcel Proust

"(...)De todos os momentos que me marcaram, há um que se definiu capital: o tempo da leitura, da descoberta do livro. Mário Quintana afirma que Os Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas. É uma verdade absoluta. Nunca mais fui a mesma desde que descobri o livro.
Referi já que a minha mãe nos lia todos os dias. Era um momento de grande atenção. A minha mãe lia muito bem. Sabia captar a nossa curiosidade. Não recordo que qualquer um de nós evidenciasse alguma distracção nesses momentos. Todos permanecíamos atentos e suspensos pela voz da minha mãe que dava a cada episódio o tom perfeito que lhe convinha.
A televisão apanhou-nos já tínhamos, há muito, o gosto pela leitura. Não sei dizer, com total exactidão, quando apareceu o primeiro aparelho de televisão em nossa casa. Sei apenas que já não residíamos na Quinta. Vivíamos numa bela cidade à beira-mar. Era e continua a ser para mim, uma das mais belas cidades portuguesas. Acredito, pois, que teria cerca de nove ou dez anos quando o meu pai trouxe um móvel com a televisão incorporada, mas ela nunca substituiu o livro. A competição nunca aconteceu. O livro era rei.
Havia livros pela casa, mas a biblioteca estava no escritório do meu pai. Era lá que estava arrumado todo o tipo de livros. Havia de tudo. Livros encadernados, com letras douradas, nos mais diversos tamanhos. Enciclopédias e grandes dicionários. Uma Bíblia enorme que nos assustava pelo peso , grandiosidade do papel e profusão de imagens. Tudo a exigir o maior cuidado. O  Atlas , que, cedo, aprendi a manusear para poder situar os países. Numa família, com ascendência estrangeira, visualizar o mundo era uma aposta necessária.
E eram tantos os livros que nunca mais me pude libertar do seu fascínio. Comecei a lê-los, sem qualquer restrição, a partir dos dez anos. Até lá , ia lendo os livros que só a minha mãe nos entregava. Foi com ela que li as histórias da Condessa de Ségur: Férias, As meninas exemplares, Um bom diabrete, Os desastres de Sofia, Memórias de um burro, O corcundinha e outras mais. Mulherzinhas de Louisa May Alcott. A obra de Charles Dickens em que os livros Oliver Twist , Grandes Esperanças, David Copperfield, Um conto de Natal me emocionaram muito. Aquela miséria , exploração, desprezo e atrocidades para com os pobres e crianças confundiam o conforto do meu quotidiano de infância. Aquele mundo inglês chocou-me e fez-me pensar que não gostaria de conhecer um país tão violento e de tanta segregação social.
Da mesma altura e pela mão da minha mãe li “ O suave Milagre” de Eça de Queirós; “As aventuras de Robison Crusoé”, de Daniel Defoe; “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift ; “Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez; "Aventuras de Tom Sayer" e "As Aventuras de Huckleberry Finn" de Mark Twain; “ Vinte mil léguas submarinas” e “A Viagem ao centro da Terra” de Jules Verne; “ A ilha do tesouro”, de Robert Louis Stevenson; (...) e nunca mais parei. Vieram, em descobertas surpreendentes, tantos outros autores e tantos mais livros, num enamoramento que chega até hoje.
Aos poucos, fui-me iniciando nos grandes romances e nos grandes autores nacionais e estrangeiros. Lia copiosa e diversamente. Tudo me interessava.(...)
Era insaciável o meu desejo de ler, LER. Não importasse o quê, nem como. Quando estive internada no colégio, todas as noites montava uma espécie de tenda com os lençóis , para ler debaixo da cama. Fazia-o com a ajuda de uma pilha eléctrica, arriscando-me a ser castigada se fosse descoberta. O prazer da leitura era tanto que me vestia de uma resistente imunidade a qualquer desses temores. Lia tudo: Hall Caine, Victor Hugo, Dostoievsky , Erskine Caldwell, Stendhal, Jane Austen, Leon Tolstoi , Somerset Maugham, Leon Uris, Boris Pasternack, José Régio , Romain Rolland, Zola, Balzac, André Gide, Pearl S. Buck, Daphne Du Maurier, Gustave Flaubert, Katherine Anne Porter, Jean Lartéguy, Leon Uris, Scott Fitzegerald, John Steinbeck, Aldous Huxley, H.G. Wells e também escritores brasileiros que iam desde o fundador José de Alencar em Iracema, Guarani , romances que me tolhiam de mágoa , a Machado de Assis, Manuel António Alves, Euclides da Cunha em “os Sertões”, obra que me marcou, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e um sem fim de outros escritores que se foi alargando à medida que fui crescendo.
Nesta fase de crescimento e descoberta , misturei vários géneros, vários autores e diferentes graus de interesse e de valor literário. Creio que foi um tempo de grande curiosidade que me fez abrir ao mundo, pelo que não se encerra, aqui, este tema.
Abordá-lo-ei mais tarde. É talvez um dos maiores temas da minha vida: os livros. Há quem diga que somos aquilo que lemos."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi, Maio 2018

segunda-feira, 7 de junho de 2021

A minha vida era uma oração, uma acção de graças

Palos verdes , Califórnia

por John Fante
"Fui à biblioteca. Passei os olhos pelas revistas, pelas fotografias que traziam lá dentro. Um dia aproximei-me das estantes e tirei um livro. Era o Winesburg, Ohio. Sentei-me numa mesa de mogno comprida e comecei a ler. De repente, o meu mundo ficou virado do avesso. O céu desabou. O livro prendeu-me. Fui surpreendido pelas lágrimas. O coração batia acelerado. Li até me arderem os olhos. Levei o livro para casa. Li outro do Anderson. Eu lia e lia e sentia-me desolado e sozinho e apaixonado por um livro, vários livros, até que a coisa surgiu naturalmente, e sentei-me com um lápis e um bloco grosso, e tentei escrever, até que senti que não poderia continuar porque as palavras não apareciam tal como apareciam no Anderson, surgiam apenas como gotas de sangue vindas do meu coração.(...)
De vez em quando eu caminhava até ao fim do molhe, até ao cais dos ferries, de onde os barcos zarpavam para atravessar o canal até San Pedro. A viagem de ida e volta custava vinte e cinco cêntimos. Sentia-me um milionário sempre que espetava a minha moeda de vinte e cinco cêntimos e partia para San Pedro. Alugava uma bicicleta e passeava pelas colinas de Palos Verdes. Passava pela biblioteca pública e carregava-me de livros. De regresso à minha barraca, acendia o lume na salamandra e sentava-me ao calor a ler Dostoiévski e Flaubert e Dickens e todos os famosos. Nada me faltava. A minha vida era uma oração, uma acção de graças. A minha solidão era um enriquecimento.
(…)O meu primeiro embate com a fama pouco teve de memorável. Eu era ajudante de empregado de mesa na Marx’s Deli. Corria o ano de 1934. O local ficava no cruzamento entre a Third Street, em Los Angeles. Eu tinha vinte e um anos, vivia num mundo delimitado a ocidente por Bunker Hill, a oriente pela Los Angeles Street, a sul pela Pershing Square e a norte pelo Centro Cívico. Era um empregado incomparável, com vigor e estilo para a profissão, que, embora extremamente mal pago (um dólar por dia mais refeições), atraía uma considerável dose de atenção quando rodopiava de mesa em mesa, equilibrando numa mão uma travessa e arrancando sorrisos aos fregueses. Tinha algo mais para oferecer aos meus clientes habituais além da perícia de empregado, uma vez que também era escritor. Tal fenómeno tornou-se conhecido certo dia, depois de uma fotógrafa bêbeda do Los Angeles Times, que se sentara ao balcão, me ter tirado diversas fotografias a servir um cliente enquanto me fitava com olhos de admiração. No dia seguinte saiu no Times uma reportagem 
de fundo associada à fotografia.»
John Fante ,(1909-1983, escritor norte-americano), in Sonhos de Bunker Hill, (Trad. de Vasco Gato),Ed. Alfaguara

Saiba mais sobre John Fante

domingo, 6 de junho de 2021

Ao Domingo Há Música


E descobre no fundo obscuro do seu sonho
Um fantasma de luz, esplêndido e risonho,
Que nos seus braços o arrebata, com amor,
Para um mundo ideal onde não chora a dor!...
Entre as árvores e o céu há diálogos profundos...
Comove o espaço o ignoto amor que liga os mundos.
                 Teixeira de Pascoaes, Noite Velha

Redescobrir a beleza  dos sons , apesar de já terem sido saboreados, é quase como ser arrebatado por um  imenso  jacto  de  luz  que nos  abre  um outro mundo. Mundo novo, cintilante, ignoto que, de crescendo  em crescendo,  se faz resplandecer em nós.  E assim arrebatados , podemos fruir um diálogo  de encantamento profundo .
 
Hauser, em Pie Jesu, de  Andrew Lloyd Webber, acompanhado pela  Zagreb Philharmonic Orchestra  e  o Choir Zvjezdice,  num concerto no  Lisinski Concert Hall , em  Zagreb, Outubro de  2017. Josephine Ida Zec é a  jovem soprano e  Elisabeth Fuchs a Maestrina.  O registo  é de  MedVid  e o Som e mistura de Morris Studio.
Voces8 , em  May it Be, de Enya para a banda sonora do filme Lord of the Rings.
 

sábado, 5 de junho de 2021

Um herói improvável


UM HERÓI IMPROVÁVEL

O homem, em tempo de guerra, chama-se
herói. Ele pode nem por isso ser bravo e
fugir a sete pés. Mas é, pelo menos, um
herói que se põe na alheta.
Jean Giraudoux, La Guerre de Troie n’aura pas lieu
por Eugénio Lisboa
“Os países novos têm fome de heróis com que alindem a sua história recente e, por isso, quando os não têm, inventam-nos. A história da humanidade está cheia de heróis duvidosos. Na urgência de os terem, os novos países acabam, por vezes, por mandar para um panteão qualquer o mais improvável dos heróis, com o mais indecente dos currículos.
Viu-se isto, não há muitos anos, quando se fez a trasladação dos supostos restos mortais do guerreiro e chefe vátua, Gungunhana, dos Açores para Moçambique. Foi ali recebido com honras de herói nacional. No entanto, pelo que se sabe da história de Moçambique, na segunda metade do século XIX, se o feroz e sanguinário chefe vátua tivesse levado a sua avante e escorraçado os portugueses de Moçambique, o mapa daquela ex-colónia seria hoje diferente, provavelmente amputado de uma boa parte do sul, incluindo a joia da coroa: o porto de Lourenço Marques, que teria sido então incorporado na África do Sul.
Porto que os ingleses de Cecil Rhodes aberta e gulosamente cobiçavam, para isso preparando ambiente, através de uma estridente campanha internacional, ao mesmo tempo que subornavam o tirânico Gungunhana com armas, dinheiro e outras benesses (até uma taça Rainha Vitória…) Ficou para sempre na memória dos que assistiram à cena, o monumental arraial de bordoada que Paiva Couceiro, vestido à civil, infligiu a três correspondentes de jornais estrangeiros, dois ingleses e um americano, que ali se encontravam a agenciar argumentos no sentido de os portugueses serem considerados incompetentes para governar decentemente aquele imenso território (até talvez houvesse, nisso, alguma verdade, mas não era obviamente disso que se tratava).
A verdade é que o Gungunhana nunca foi um herói nacional moçambicano. A tribo a que pertencia, os ngunis (vátuas, para os portugueses), não fazia parte do território de Moçambique, só lá tendo entrado em 1820, já os portugueses ali se encontravam havia três séculos. Aliás os ngunis, guerreiros competentes e bem organizados, foram um flagelo para os pobres moçambicanos: ferozes, implacáveis, escravocratas, esmagaram impiedosamente quatro tribos: os tsongas, os bitongas, os chopes e os vandaus. Fizeram, repito, alguns massacres e dizimaram brutalmente a quase totalidade da tribo chope. Um autêntico genocídio, no qual os actuais governantes de Moçambique não devem rever-se. Quando Mouzinho de Albuquerque finalmente aprisionou o chefe vátua, em Chaimite, prestou um inestimável serviço a Moçambique. É um paradoxo, mas é verdade: foi o colonialista Mouzinho de Albuquerque quem tornou possível aos moçambicanos independentes herdarem intacto o mapa da ex-colónia. Transformar em herói nacional um tirano implacável que tanto mal fez às tribos que havia muito viviam no território de Moçambique, estando mesmo disposto a vender aos ingleses o porto de Lourenço Marques (os ingleses, por venda ou pela força das armas acabariam por ficar com ele, se os portugueses fossem derrotados…), não me parece currículo que justifique por aí além a elevação do genocida a herói nacional do Moçambique independente. Tanto mais quanto, na derrota, Gungunhana, ao contrário dos seus conselheiros próximos, que se portaram galhardamente, ao serem executados brutalmente por Mouzinho – contra todas as leis da guerra – se mostrou um cobarde choramingão, que tremeu, implorou, mendigou perdão e se pôs, para salvar a pele, a oferecer o que tinha e o que não tinha. Chegado a Lisboa, implorou abjectamente que o levassem à presença do rei D. Carlos, para lhe pedir perdão e que lhe permitisse voltar para Moçambique, onde se comportaria muito bem. Não é desta massa que se costumam fazer os heróis.
Foi, de resto, por saberem que o Gungunhana não ofereceria resistência aos portugueses e se renderia sem lutar (aliás, o seu exército estava, por esta altura, reduzido a um terço) que muitos dos seus apoiantes mais próximos se puseram em fuga. O próprio Mouzinho sabia disto e portanto a sua proclamada e muito publicitada audácia de entrar em Chaimite com poucas dezenas de soldados não foi tão admirável como isso. No fundo, limitou-se a ir prender um leão aniquilado, abandonado (nesta altura, até pelos ingleses…) e pateticamente chorão.
Espero que os moçambicanos de hoje reflitam bem e não continuem a alimentar este mito com pés de barro. O que até talvez já estejam a fazer, porquanto, em lugar de lhe mandarem os restos mortais para o quer que seja panteão, os depositaram modestamente na fortaleza de Maputo, onde curiosamente se encontra também a estátua apeada de Mouzinho. Ao qual se deve – a ele, sim, e a Paiva Couceiro, que por um triz salvou o quadrado defensivo, em Marracuene – que os sucessores das tribos flageladas pelo Gungunhana tenham podido herdar, intacto, o mapa de Moçambique. Malhas que o império tece!”
04.06.2021
Eugénio Lisboa

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Guardiões e passadores

Livraria El Ateneo, Buenos Aires , Argentina

Livraria Shakespeare & CO, Paris, França
Guardiões e passadores
por Daniel Pennac
1
« Os alunos entram muitas vezes numa livraria como quem entra numa farmácia. Dirigem-se ao livreiro com a famosa “lista de livros a ler”, como um doente com a sua receita. Vêem o livreiro desaparecer no laboratório, de lista na mão, e reaparecer com uma pilha de obras “receitadas”. Diga-se de passagem que o termo “receituário” não me parece o mais indicado, tratando-se da difusão de livros. Cheira demasiado a remédio. A leitura não resulta de uma receita: “leiam três gotas de Mallarmé de manhã e à noite, num grande copo de interpretação… Um mês de Educação Sentimental e depois veremos o que darão as vossas análises… À procura do tempo perdido, não interrompam o tratamento antes de chegarem ao fim”. Abominável.
Com o seu lastro de literatura anual, o aprendiz de leitor regressa a casa sem nada saber da livraria de onde acaba de sair. Terminada a escolaridade, Mallarmé, Flaubert ou Proust terão ficado na sua memória quando muito como nomes ligados a recomendações de leitura. E em vez de protestar no dia em que a livraria do seu bairro for substituída por um fast-food, levará lá os filhos para não ter que viver entre livros esse momento de lazer.

2
Esta concepção fármaco-terapêutica da livraria é a consequência de um ensino da literatura de tipo medicinal. Desde a noite dos tempos que o método é o mesmo; só os instrumentos mudam. Pegamos nos textos e esquartejamo-los na mesa de dissecação, na falsa esperança de que os alunos encontrem nas suas entranhas a beleza redentora e o sentido libertador. Esta prática médico-legal assusta muita gente. Por muito “escolhidos” que sejam, os nossos fragmentos de cadáver assustam os alunos. Os comentários que esperamos deles ficam-lhes entalados na garganta e nós concluímos apressadamente que eles não se interessam pela literatura. Se “não gostam de ler”, a responsabilidade não é nossa, é do mundo inteiro, com o seu cortejo de canais de televisão, de desemprego, de famílias monoparentais, de emigração intempestiva, de consumismo desenfreado, de ciber-tentações… A culpa é do sistema, a culpa é da modernidade, a culpa é de tudo o que quiserem menos nossa, nós que somos instâncias tão convincentes!
“Instâncias”… Mais outro termo extravagante quando se trata de dar a ler! (São incontáveis os estragos provocados nas escolas – e, portanto, nas cabeças – pela caixa de ferramentas da linguística). Como aqueles médicos especialistas que se interessam mais pela doença do que pelos doentes, nós, as “instâncias”, batemo-nos muitas vezes pelo “livro” sem nos preocuparmos em formar leitores. Armamo-nos em guardiões de um templo cujo esvaziamento deploramos, enquanto nos vamos regozijando por ele estar tão bem guardado.

3
Guardião do templo… É o mais fácil de recrutar; o mais fácil de formar. (Em breve se dirá “formatar” – o que até será mais correcto). Peguem num livro, num autor, num movimento literário, retirem-lhe tudo o que faz dele um organismo vivo, suguem-lhe toda a substância, mumifiquem-no, transformem-no num culto e terão o vosso templo. Com alguma habilidade, até poderão ser o seu guardião.
Os guardiões do templo reconhecem-se por aquilo que decretam e por aquilo que lamentam.
Decretam a necessidade de ler, mas lamentam a morte da literatura. (Ah! nunca mais surgiu um romancista digno desse nome depois de Gide! Nenhum filósofo desde Sartre! Nada de novo desde o surrealismo…) Decretam a libertação através do livro e lamentam que a leitura não passe de um divertimento. Decretam a excelência, lamentam a mediocridade (quinhentos romances na rentrée e nem um que preste!)
Decretam e lamentam…
Mas não deixam passar nada.
Decretam e lamentam…
Fora de qualquer responsabilidade.
E porque haveríamos de nos sentir responsáveis, nós que tanto nos “batemos pelo livro”?
Todas essas sumidades que “se batem por” sem nunca se aproximarem da vida…

4
Dito assim, “o livro” não significa grande coisa. Quando muito, a designação de um mercado, o departamento de um ministério, o nome de uma política, um orçamento, uma rubrica no canto de uma folha, um produto, um conceito… É isso, “o livro”. O que equivale a nada, em termos de vida. Sem os homens e as mulheres que dele fazem parte, sem toda essa vida que fervilha dentro dele e à volta dele, sem que o tenhamos lido, sem os poucos ou os muitos a quem iremos divulgá-lo, sem esse desejo de o fazer passar de mão em mão, o livro não é nada.
“Eu bato-me pelo livro”. Uma ova! Pára de te bater e dá-o a ler, morcão! Tenta-nos! Põe de lado o teu cabaz de decretos e passa-nos o último bom romance ou o último ensaio brilhante que tenhas lido. A leitura? É preciso sentir a necessidade imperiosa dela no brilho dos teus olhos, no calor da tua voz, na fúria do teu desespero! Passa um! E depois falaremos do teu “combate em prol do livro”. Pára de lamentar e procura! Revolve a pilha dos teus quinhentos romances da rentrée, lê-os todos e descobre! Se não descobrires um bom romance francês, procura no resto do mundo! Descobre, lê e passa-o a outro! Faz o que te compete. Já que dizes que te bates pelo livro, começa por aquele que vais dar-me a ler, apenas esse. Isso já será muitíssimo. Em vez de te armares em grande espírito deprimido, em sumidade ultrajada…
“Nada que preste em quinhentos romances da rentrée”… Parvalhão.

5
Já se vê que ser guardião do templo não é uma função, é um estado de espírito, um papel. É a leitura limitada ao conhecimento, o conhecimento reduzido ao adquirido. E um lugar de porteiro vitalício. Encontramos guardiões do templo em todos os sectores da cultura e do livro; o editor, o vendedor, o livreiro, o professor, o bibliotecário, o crítico, o universitário, o adido cultural e o próprio leitor podem ser tentados por esse papel. E nas outras corporações, entre os médicos, os arquitectos, os advogados, os políticos… Até entre as carpas deve haver um templo a guardar. Guardião do templo é uma tentação; é sinal de uma esterilidade altiva, um exílio na certeza, ou seja, uma coisa bem afastada da vida.
Outros, felizmente – editores, livreiros, professores, bibliotecários, críticos, universitários, adidos culturais e leitores de todos os quadrantes – preferem ser passadores. Também não é uma função, mas é algo mais do que um papel, é uma maneira de ser e de estar, um mergulho na vida, custe o que custar, a sensação profunda de que “o livro” é um elemento da vida, que alimenta a vida e se alimenta dela, que é em si mesmo uma troca e que nós somos os seus agentes. Esses, os passadores, sentem curiosidade por tudo, não confiscam nada, transmitem o melhor sem envergonhar ninguém com o pior. Se, globalmente, a literatura actual os desaponta, sabem que mais dia menos dia, quanto mais não seja como reacção, surgirá no campo literário uma obra digna de admiração. E que os piores romances têm pelo menos a virtude de produzir esse húmus do qual acaba por brotar a obra-prima siderante, e que Flaubert não teria escrito se Emma não tivesse “sujado as mãos nessa poeira dos velhos gabinetes de leitura”.

6
No que toca à leitura, sempre preferi o convite à recomendação, o encorajamento à imposição, o exemplo à estátua, o passador ao grande sacerdote e o livreiro ao farmacêutico. Sempre achei que um curso de Francês que não desembocasse numa livraria ou numa biblioteca não era, no fundo, mais do que um exercício de autocomplacência. A livraria é a escala do livro antes de nos tornarmos os seus destinatários. Por isso é preciso ensinar os alunos a utilizá-la e, para tal, criar neles o desejo de correrem para lá, levá-los mesmo até lá, abrir-lhes as portas de par em par depois de uma aula à porta fechada. Espanta-me que se possa elogiar La Princesse de Clèves sem mostrar onde e como encontrar Madame Lafayette. E Lagerloff, que país? E Borges, que continente? E Gogol, que língua? E este e aquele, poesia? teatro? filosofia? romance?… Tantos passeios no tempo, tantas viagens em todas as dimensões da classificação, tantos deliciosos devaneios ao longo das prateleiras de livreiros cúmplices que poderemos proporcionar, nós, as “instâncias”, por muito pequena que seja a nossa preocupação de dar a ler.

7
Eu cá devo tudo aos passadores. Não só o meu trabalho de escritor, que correu de boca em boca, mas também as minhas leituras, que também contam na felicidade de uma vida. Devo-lhes, por exemplo, ter feito de cada estação de metro a promessa de uma livraria. Saímos na estação Jourdain e deparamos com L’Atelier. Ledru-Rolin? La Terrasse de Gutemberg. Sèvres-Babylone? Chantelivre. Villiers? L’Astrée. Pont-Marie? Ignazi. Vavin? Tschann, Art et Littérature. Censier-Daubenton? La Boucherie, Presse Bouq, L’Arbre à Lettres. Saint-Marcel? Le Cerf volant. Goncourt? Libralire, Les Guetteurs de Vent. Alésia? Alésia. Les Abesses? Les Abesses. Pernety? Tropiques. Jules-Joffrin? L’humeur vagabonde. Montreuil? Folies d’encre. Vincennes? Mille pages. Sceaux? Le Roi lire. Créteil? Chroniques…
Grandes, médias, pequenas ou minúsculas livrarias, múltiplos passeios que posso estender a toda a França e ao longo da minha vida. Incalculável o número de horas que passei, quando era criança, a deambular pelos corredores da Sorbonne, em Nice, contagiado pela felicidade que todas as noites via estampada no rosto do meu pai, mergulhado na leitura de um livro, enterrado no maple, envolto no cone de luz do candeeiro e no fumo do cachimbo, arquétipo do prazer de ler. E as conversas com monsieur Rodin, livreiro que se tornou um mito, que não era do meu quadrante político e nem sempre comungava dos meus gostos literários, mas que me arrancava à minha letargia adolescente falando-me da literatura de todos os cantos do mundo! E aquele apaziguamento na livraria Corti, ouvindo o velho livreiro falar de livros essenciais, mas também das árvores do Luxemburgo, ali adiante, do outro lado da rua Médicis, em frente da sua livraria…

8
Há quinze anos, a 10 de Junho de 1985, entrei numa livraria em Grenoble, chamada Nuits blanches, mas que só vendia romances “negros” [1]. A minha intenção era pedir ao livreiro que me abastecesse de livros para as férias. Que me vendesse dez títulos à sua escolha e que aperfeiçoasse a minha cultura numa área em que eu era ainda um aprendiz. Antes que eu pudesse abrir a boca, um jovem de olhar bem-disposto mas atento, que eu nunca vira antes e que não me conhecia de parte nenhuma, meteu-me entre as mãos o meu próprio Au Bonheur des ogres [2], declarando num tom peremptório:
– Leve este e leia. Depois paga, se tiver gostado.
Fugi dali de livro na mão, envergonhado, encantado, confuso, radiante, mas sem ousar dizer ao jovem livreiro que eu era o autor desse livro e que ele acabara de me fazer entrar na melhor fase da minha vida.
Hoje, quinze anos depois, no TGV que me traz de Lyon, onde fui visitá-lo, tenho a sensação de que devo agradecer a esse passador louco, e a todos os do seu estilo, agradecer-lhes a mais do que um título –o belíssimo nome que ele acaba de dar à sua nova livraria : Passage." 
Daniel Pennac, in Gardiens et Passeurs, (Ed. Adelc, 2004)

[1] policiais
[2] “O paraíso dos papões”, Ed. Terramar.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pronome no lugar certo é elitismo


Há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.).
Uma afirmação inteligente e verdadeira de Eugénio Lisboa , retirada de um lúcido e claro texto, escrito há alguns anos  e que muito nos apraz transcrever:

PRONOME NO LUGAR CERTO É ELITISMO
por Eugénio Lisboa
"A minha opinião sobre o Acordo Ortográfico é simples e transparente: trata-se de um exercício tão monumentalmente fútil quanto dispendioso. Um formidável desperdício que nunca resolverá o problema que ostensivamente visa resolver: a “defesa da unidade essencial da língua portuguesa” (cito João Malaca Casteleiro e faço notar que ele não fala em “unidade ortográfica” mas sim em “unidade essencial da língua portuguesa”). 
A minha questão é só uma: como é que a unificação, aliás relativa, da ortografia – que não passa de uma simples convenção de escrita (mas com implicações etimológicas graves!) – pode ambiciosamente significar “a unidade essencial da língua portuguesa”, quando a gramática e uma parte substancial do glossário não farão outra coisa que não seja divergirem alegre e abundantemente, entre os sete países da CPLP? Divergência aliás salutar, por significar maior diversidade e riqueza... Divergência que já existe e não fará senão crescer à medida que os anos passem.
É realmente extraordinário analisar, mesmo superficialmente, a futilidade dos argumentos que são apresentados com toda a pompa e circunstância normalmente ligadas a “assuntos de Estado” que implicam o futuro da “pátria” e da sua “imagem” em “areópagos internacionais”. Citemos ainda Malaca Casteleiro: “O segundo motivo”, pondera o ilustre campeador do Acordo, “relaciona-se com a política externa do idioma. Do ponto de vista internacional, a escolha entre duas ortografias oficiais pode levantar problemas diplomáticos delicados e mesmo insolúveis.” É curioso que possam surgir mas que até hoje não tenham surgido. Porém, todas estas aflições “diplomáticas” ficariam, segundo os apologistas do Acordo (entre os quais se inclui, enfaticamente, o actual Ministro da Cultura), resolvidas com a (relativa) unificação da ortografia. Internacionalmente (e diplomaticamente), desde que se escrevesse “fato” por “facto” e “afeto” por “afecto”, não teria qualquer importância que, em documentos ou relatórios ou livros, encontrássemos coisas como estas, que recolho, sem dificuldade, de apenas dois livros, de dois grandes nomes da literatura brasileira do nosso tempo: 
“Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes”; “... King Vidor queria dizer tudo para nós, os intransigentes em cinema...”; “Imagino a inveja em que não se terão”; “Quem sabe não sou tão ingénuo assim”; “...uma atriz apenas passável (...) que sente, na madureza, o impulso de rever e reviver os seus admiradores...”; “Não faz mal ser convencional assim”; “Impuseram-lhe a predominância ao científico...”; “põe-se a imitá-la, jogando folhas secas na água”; “Esses «anjos da cara suja» tornaram-se um tratado de caceteações ambulante”; “para mostrar ao público como se o engana claramente”; “Ela com aquele arzinho levemente preocupado, tão buscadamente preocupado, e ele com aquela mesma simpatia quarentona. Uma pinóia”; “no muro de um cineminha de subúrbio”; “Ficou com os calungas da Lanterna Mágica”; “Bobagem querer convencer o filho de tal pai...”; “Mudaram os truques mas a bossa é a mesma”; “Romance de Circo é uma joça”; “Não é à toa que tanto literato agora deu para pintar”; “Cinema, por exemplo, custa um dinheiro surdo”; “Em lhe faltando o cujus, nada feito”; “Só tenho vontade de pegá-lo e levá-lo a ir comer um tutu com linguiça na casa da gente”; “Domingo mesmo, quando andei amolando Deus”; “O público te paga para escrever, e você, em vez, fica a andar de bicicleta”; “Eu também gosto de fita que tem índio e de fita que tem piratas”; “Aí a moça dá um lenço dela para o mocinho que eu acho que estava resfriado”; “Puxa, tem um duelo desgraçado no final de Robin com um outro cara, e o cara dá com a espada na cara do Robin”; “... mas tu não só podes pensar que eu estou mentindo, como há um sem número de gente que fica dizendo que eu estou é querendo me mostrar, fazer o farol, essa coisa”; “Fui reto ao maître. Passei-lhe uma gaita gorda e ele me providenciou uma mesinha reservada bem perto dela”; “Eu estou absolutamente disposta a esnobar ele. Eu acho que a gente deveria simplesmente começar a ignorar ele”; “Qual você prefere? – perguntou o outro...”; “O que fosse sugerido ele aceitaria em seguida”; “Resolveu blefar”, etc. etc. 
Destes dois livros de Vinicius de Morais e de Luis Fernando Veríssimo, seleccionei apenas alguns exemplos a esmo, os quais constituem menos do que a vigésima parte da colheita que poderia ter feito. Mas são exemplos mais do que significativos da profunda divergência, em termos gramaticais e de léxico, entre o português do Brasil e o português de Portugal. Divergências que aparecerão, gritantes, nos tais papéis dos areópagos internacionais e nas trocas de papelada entre chancelarias: e de modo tão evidente, que o pífio penteado ortográfico, em que tanto investimento se tem feito e se quer continuar a fazer, desaparecerá, pálido e insignificante, confrontado com a pujança divergente daquilo que constitui o cerne da língua – o glossário rebelde e a gramática impertinente. Pensar que um acordo ortográfico irá apagar as diferenças vitais e fundamentais – aquelas que realmente dão nas vistas – é não querer aceitar o óbvio. Dizia o célebre dicionarista americano Noah Webster (1750 – 1811) que a sua gramática era baseada neste princípio sagrado: “grammar is formed on language, and not language on grammar”. Webster aceitava perfeitamente a distinção (que incluía a ortografia) entre o “American English”, a que chamava com orgulho, “Federal English”, e o inglês de Londres (que considerava afectado e com o qual não queria confusões). Quem já andou por embaixadas, sabe perfeitamente que muitos brasileiros só quando não podem é que não troçam do português europeu, que consideram antiquado e um pouco ridículo (dizer “casa de banho” em vez de “banheiro” suscita-lhes a vis trocista ao mais alto grau...) Talvez, por isto mesmo, um personagem de uma crónica deliciosa de Luis Fernando Veríssimo observe, jogando à defesa e olhando de viés para a construção gramatical portuguesa: “Pronome no lugar certo é elitismo”. Como se vai resolver esta atitude bastante generalizada entre brasileiros? Unificando (só em parte) a ortografia? Passando a dizer, como eles, “planejando”, “equipe”, “estrogonofe” e outras coisas assim? Tenhamos a coragem de admitir, de uma vez por todas, que há um português ortónimo – o que se fala e escreve em Portugal – e vários portugueses heterónimos (os que se falam no Brasil, em Moçambique, em Angola, etc.) Que se falam e que se escrevem. Apagar esta heteronímia, tentar fingir que o português é só um, por via de uma tímida e ridícula unificação ortográfica é querer tapar o sol com uma peneira. Acham, a sério, que se pode confundir uma uniformização ortográfica com “unidade essencial da língua”? Que “E embolaram” é da mesma língua que diz: “E pegaram-se à zaragata”? A sério que acham? Num tá bom da bola!

P.S. Quando me encontrava em Londres, como conselheiro cultural da nossa embaixada, fui convidado pela rádio da BBC, para um “mano a mano” com a minha homóloga brasileira, para que cada um de nós dissesse as suas impressões sobre o português falado no país do outro. Eu disse, do português do Brasil, todo o bem que achava – e sentia-o, e pensava-o! - : que era uma língua fresca, viva, permanentemente inventiva e acolhedora dos bons neologismos, em suma, sedutora. E por aí fora. Quando chegou a vez da minha colega, gastou ela o seu tempo todo a achar ridículo, arcaico e mesmo grotesco o português falado e escrito em Portugal. Como exemplo, entre outros, deu, rindo estrepitosamente, o dizermos “casa de banho” em vez de “banheiro”. Isto, perante um moderador inglês que dizia, na sua língua, “bathroom”, tal como nós, em português de Portugal... À snobeira (esnobeira em “brasileiro”) parola, a minha colega achou maneira de acrescentar, com desenvoltura, uma total e distraída falta de cortesia."          
Eugénio Lisboa  

terça-feira, 1 de junho de 2021

Mãe, a mulher da minha vida

 

Madre e hijo en la playa, Joaquín Sorolla

A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo
que somos , ou melhor, apesar daquilo que somos.
                                                Victor Hugo  

Há uma série de canções dedicada à Mãe. Quem como ela para ser lembrada, cantada, ovacionada. Todos temos imagens de um olhar , de um sorriso, de um aceno, de  um rosto que se desenha em nós, quando adultos deixamos o abraço diário da Mãe. Longe, perto , com ela ou sem ela, a Mãe será sempre a mulher da vida cada um. E porque hoje é o dia Mundial da Criança, é  para ela, Mãe,  que  nos remetemos como criança na  suprema convicção de que, apesar de tudo, ela sempre nos amou e amará do jeito que somos , seres imperfeitos. 
Eis, pois, algumas das canções, em eclética selecção, para saborear à la carte.

 La Mamma

ls sont venus 
Ils sont tous là
Dès qu'ils ont entendu ce cri 
Elle va mourir, la mamma 
Ils sont venus
 Ils sont tous là 
Même ceux du sud de l'Italie 
Y a même Giorgio, le fils maudit
 Avec des présents plein les bras 
Tous les enfants jouent en silence 
Autour du lit ou sur le carreau 
Mais leurs jeux n'ont pas d'importance 
C'est un peu leurs derniers cadeaux
 A la mamma 
 On la réchauffe de baisers
 On lui remonte ses oreillers
 Elle va mourir, la mamma 
Sainte Marie pleine de grâces
 Dont la statue est sur la place 
Bien sûr vous lui tendez les bras
 En lui chantant 
Ave Maria
 Ave Maria
Y a tant d'amour, de souvenirs 
Autour de toi, toi la mamma 
Y a tant de larmes et de sourires 
A travers toi, toi la mamma 

Charles Aznavour , em La mamma.
 
Brandi Carlile , em  The Mother (Official Video), do Álbum "By The Way, I Forgive You".
>    
Hymn to the Mother of God , de John Tavener , pelos  Tenebrae sob  a direcção do Maestro Nigel Short. Este registo foi feito na  Sainte Chapelle ( Paris) integrado no  Paris Mezzo Festival (Junho  2016).
 
Pedro Abrunhosa, em  "Para os Braços da Minha Mãe", com participação especial de  Camané.
 
Ina Wroldsen, em Mother (Lyrics)
  
Luciano Pavarotti , em  Mamma (1080pHD).
 
Mother , de John Lenmon - Beatles.