segunda-feira, 31 de maio de 2021

A propósito de Arte

Escultura Pietá (1499), de Michelangelo

‎”A arte é a contemplação: é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que ela também tem uma alma. É a missão mais sublime do homem, pois é o exercício do pensamento que busca compreender o universo, e fazer com que os outros o compreendam.” Auguste Rodin

‎”A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado.” Theodor Adorno

“Na arte, a inspiração tem um toque de magia, porque é uma coisa absoluta, inexplicável. Não creio que venha de fora pra dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que emerge do mais profundo ‘eu’ da pessoa, do inconsciente individual, colectivo e cósmico.” Clarice Lispector

"L'Art est un perpétuel sacrifice du sentiment à la vérité " Marcel Proust

" A arte deixa de ser  arte  quando pretende provar." André Malraux

" L'artiste qui accepte d'être classé dans un parti renie sa condition d'artiste. J'écris pour tous. Je peins pour tous. L'humanité, voilà mon clan." Henry de Montherlant

"En art, il ne faut pas conclure." Gustave Flaubert

" Mas quem disse que  a Crítica e o Ensaio não são a arte de bem cavalgar todos os riscos?" Eugénio Lisboa

" O que é então, a arte? Depois de quanto ficou dito, admitir-se-á melhor esta definição insuficiente: Uma expressão transfiguradora de mera expressão vital; um jogo em que se revelam todas as fundas intenções dos homens. Propriamente a essa expressão e a esse jogo chamaremos arte; mas sabendo que, sem a expressão vital que a exige , essa expressão pouco ou nada será, como pouco ou nada será esse jogo sem as intenções profundas que liberta. Assim toda a arte subentende comunicação; pois se , pelo menos em princípio, todos os homens  de todos os tempos e lugares se poderão comover com a autêntica obra de arte, ( e nunca será demais repetir que toda a arte visa ao universal e  ao eterno, sejam embora os seus motivos locais e transitórios...) é exactamente porque a expressão vital e as intenções profundas informadas na obra de arte pertencem , pelo menos em princípio, a todos os homens  de todos os tempos e lugares." José Régio

domingo, 30 de maio de 2021

Ao Domingo Há Música

Ouvir estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac , Poesias ( Via Láctea), 1888



Ao visionar o  trecho musical  para este domingo , o soneto de Olavo Bilac surgiu-me insistente e assertivo,  numa exigência indeclinável. Era ele a palavra ,  a melhor legenda  para as  imagens  que compunham o vídeo. E não é que tinha razão. Este  "Tendre Amour ", a resplandecer  beleza, só poderia ser tocado e cantado por quem entende as estrelas. Basta ver o brilho nos olhos e os sorrisos nos lábios dos seus intérpretes. E, em verdade , dizem as estrelas, pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.

Tendre Amour, de Jean-Philippe Rameau, em   Les Fleurs de Les Indes Galantes,  por Les Arts Florissants, sob a direcção do  Maestro William Christie, na Grande Salle Pierre Boulez de la Philharmonie de Paris, em Dezembro de 2019.
Tendre amour, que pour nous, cette chaîne dure à jamais. 
 

sábado, 29 de maio de 2021

Zé

Ilustração: Susa Monteiro

Zé
 por António Lobo Antunes
 "Ambos pouco tolerantes aceitávamos sem qualquer dificuldade o feitio complicado do outro. O Zé costuma dizer – Posso ser amigo de um pintor, de um pedreiro, de um médico. Para ser amigo de um escritor tenho que admirá-lo. E, (...), aceitávamos o outro e criámos uma relação indestrutível. Faz vinte anos que morreu o meu melhor amigo, o Zé, e a sua ausência continua a doer-me, como me dói o telefone não tocar às dez da manhã todos os dias e eu já saber que era ele antes de pegar no aparelho, como me dói não almoçarmos nem jantarmos nunca, como me dói não poder abraçá-lo. Encontrámo-nos pela primeira vez no aeroporto, quando íamos ambos apanhar o avião para o Brasil e ele, que eu nunca tinha visto mas conhecia de fotografias ou da televisão, dessas coisas, conforme tinha lido os seus livros 
(eu começava a publicar nessa época) 
fiquei a vê-lo aproximar-se, surpreendido. A sua única frase foi – Olha que eu gosto de ti e a nossa amizade surgiu de imediato, instantânea e absoluta, lembrei-me do João a chegar (ainda vivíamos no mesmo quarto, ainda nenhum de nós saíra de casa dos pais) com os primeiros livros de contos do Zé, o Anjo Ancorado, acho que o Hóspede de Job também, me dizer – Comprei isto porque partilhávamos quase tudo e eu a olhar as páginas, eu a ler, eu a perguntar, todo trocista – Um escritor chamado Pires? que era uma palavra que costumávamos usar para outras situações, devolvi-lhe os livros, voltei a pegar neles dias depois, achei a linguagem diferente daquilo que costumava ler nessa época, que era também, quase sempre, o João que trazia, eu andava mais por autores estrangeiros, os portugueses que descobrimos na altura foram descobertas do meu irmão, Manuel da Fonseca (recordo-me, por exemplo, da Seara de Vento com a reprodução de um quadro de Vespeiro na capa) Urbano, Namora, Vergílio Ferreira, e depois o João lia e estudava e eu lia e escrevia. Cada um tinha a sua estante de um lado do quarto e não me recordo de alguma vez havermos discutido. Bom, li o tal José Cardoso Pires, pareceu-me um bocado obnóxio em relação aos outros, depois fui gostando mais, depois apareceu-me o milagre de Blondin a juntar-se ao milagre de Céline, depois comecei a ficar farto de escritores portugueses que só me contavam histórias de operários bons e patrões maus, depois percebi que o Zé era diferente disso, depois fui crescendo, depois os outros escritores portugueses vivos foram desaparecendo mas o Zé ficou, o Zé e a Agustina, depois aquilo que eu escrevia desatou a mudar, depois fui-me aproximando de uma voz interior que não sabia que tinha, tudo isto lento, penoso, ganho palmo a palmo entre angústias e dúvidas, depois a Memória de Elefante e depois, aí pela Explicação dos Pássaros, o Zé e eu conhecemo-nos no aeroporto, chegámos ao Brasil, viemos do Brasil e na vinda do Brasil éramos amigos íntimos, depois cresci o que me faltava e já tinha o único irmão que os meus pais não me deram. Nunca existiu entre nós uma sombra, quanto mais uma zanga, e nenhum da gente os dois era fácil. Tão diferentes em muita coisa havia uma sintonia absoluta e gostávamos das nossas dissonâncias, que nos uniam ainda mais. Ambos pouco tolerantes aceitávamos sem qualquer dificuldade o feitio complicado do outro. O Zé costuma dizer – Posso ser amigo de um pintor, de um pedreiro, de um médico. Para ser amigo de um escritor tenho que admirá-lo. E, apesar dos desacordos, por exemplo eu era do Benfica e ele era só do Néné, aceitávamos o outro e criámos uma relação indestrutível. Se um ganhava um prémio exultávamos ambos. Recordo-me, por exemplo, de ele começar um telefonema assim: – Quero dar-te os parabéns porque ganhei um prémio. Era o Pessoa, acho eu, e fiquei todo contente. Levei-o para a minha editora, proibia-lhe o vinho, ele ralhava-me quando não concordava, discutíamos aceitando-nos sem custo, eu admirava nele, para além do talento, claro, a coragem e a bondade, encorajavamo-nos nos momentos de desânimo, acreditávamos na capacidade um do outro, lembro-me de trabalharmos juntos o seu De Profundis, lembro-me das infinitas correções que ele sugeria para os meus livros, éramos de uma franqueza absoluta, se necessário às vezes brutal, a nossa amizade nunca sofreu um pingo. Depois o Zé adoeceu, depois o Zé morreu e eis-me, de repente, orfão do meu irmão de alma, mais velho vinte anos do que eu umas vezes e tão meu filho outras. O que a gente vibrava com os triunfos do amigo, o que a gente sofria com as dores! Quando o Zé morreu pessoas que eu não conhecia vinham dar-me os pêsames. E ficou dentro de mim um vazio que nunca cicatrizou. Já tinha tido um irmão, cinco irmãos mais novos, tu eras o meu irmão mais velho. Eras não: és. Tu serás para sempre o meu irmão mais velho. Meu Deus o que eu podia escrever acerca de ti. Mas o que eu gostava mesmo era voltar a encontrar-te. Consolo-me pensando que, mesmo sem nos vermos agora, continuamos juntos. Há com certeza um aeroporto por aí à espera de nos cruzarmos de novo." 
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na VISÃO nº 1341, de15 de Novembro de 2018

sexta-feira, 28 de maio de 2021

MAIS UM SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

Eugénio Lisboa acaba de tecer um novo  soneto à Língua Portuguesa. Com prazer e rendidos, apresentamos essa magnífica  produção da sua sempre  fulgente oficina poética. 

MAIS UM SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

Com ela exploramos nossos assombros
e nomeamos o que descobrimos;
com ela exploramos os escombros
que escondem segredos que abrimos.

A nossa língua é que nos deu tudo,
foi ela que nos abriu este mundo:
sem ela teria ficado mudo
o nosso espanto arrasador e fundo!

Com ela explorámos o amor
e tudo o que o coração esconde;
com ela explorámos o ardor

que nos abrasa, queima e ensina.
Só mesmo ela às aflições responde
em clave de doçura feminina.
 
      27.05. 2021
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Novidades literárias


NOVIDADES
Livros da Relógio D’Água a sair em Junho:


1 — Como Se o Mundo Existisse, de Ana Teresa Pereira
2 — Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos de Guerra), de Ana Margarida de Carvalho (Grande Prémio de Romance e Novela APE 2013 e 2016 e Grande Prémio do Conto APE 2017)
3 — Viver Feliz Lá Fora, de José Gardeazabal (Prémio INCM/Vasco Graça Moura e finalista do Prémio Oceanos)
4 — Gilead, de Marilynne Robinson (vencedora do Prémio Pulitzer para Ficção)
5 — Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares (Reedição)
6 — As Pequenas Virtudes, de Natalia Ginzburg (Introdução de Rachel Cusk)
7 — Os Ensaios, de George Orwell (Prefácio de Pedro Mexia)
8 — Pradarias, de Louise Glück (Prémio Nobel da Literatura 2020)
9 — Um Adeus Mais-Que-Perfeito, de Peter Handke (Prémio Nobel da Literatura
2019)
10 — O Duelo, de Heinrich von Kleist (Tradução e Apresentação de Maria Filomena Molder)
11 — A Guerra do Mundo, de Niall Ferguson
12 — 1984 (Romance Gráfico), de George Orwell e Xavier Coste
13 — Sangue e Ferro: Ascensão e Queda do Império Alemão (1871-1918), de Katja Hoyer
14 — Direito de Propriedade, de Deborah Levy


Editions Gallimard
Bibliothèque de la Pléiade

Profitez de la Quinzaine de la Pléiade en ce moment en librairie pour (vous) offrir les œuvres d'auteurs emblématiques de la collection !



terça-feira, 25 de maio de 2021

Festejar o 91º aniversário de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa, na RTP , em 21 de Abril de 2021

Assombro
Chegamos, depressa, ao fim da viagem,
atordoados, confusos e sós:
pouco aprendemos, ficámos na margem
de viver, de saber quem somos nós.

Tudo foi frágil , incompleto, escuro,
tudo nos fugiu, pouco iluminou
esta passagem fugaz; resta puro,
nosso espanto, que nada conspurcou.
Eugénio Lisboa, Acta est Fabula , Memórias-V- Regresso a Portugal(1995-2015), Outubro de 2015, Opera Omnia

É com este belo poema que termina o V volume das Memórias de Eugénio Lisboa. Esperava o autor que fosse o último, mas acabou por ser o antepenúltimo. As memórias exigiram-lhe mais dois volumes que foram publicados  em Fevereiro e Novembro de 2017.
A passagem fugaz, o  instante da vida de Eugénio Lisboa ficou registado. E sobre o instante, ocorrem , com enfâse redobrado,  as palavras  de Octávio Paz: Faço mal em chamá-lo fragmento, pois é um mundo completo em si mesmo, tempo único, arquetípico, que já não é passado nem futuro, mas presente.
O que nos narra Eugénio Lisboa  é , em si mesmo ,   um mundo completo. O Assombro dominou–lhe  a vida. Começa na  criança, residente num bairro dos subúrbios de Lourenço Marques, a  crescer ávida  de curiosidade. Curiosidade que, desassombradamente, a transforma em omnívoro leitor compulsivo  e num ímpar e exímio cultor de um espanto que resta puro até ao presente, dia em que completa 91 anos.
O instante é o tempo do prazer, mas  também o da morte, o dos sentidos e o da revelação do mais além, continua Octávio Paz. De tudo isto nos fala Eugénio Lisboa na sua obra memorialística, "Acta est Fabula",  e nos dois  volumes de Diários, “Aperto Libro”,  já publicados.
À medida que se estabelecem laços com esses registos , vamos  entrando num mundo rico e fascinante. O memorialista ou o diarista alarga-se por outros horizontes e vai produzindo verbetes ou  entradas que são puros ensaios  de uma soberba profundidade. Acompanhando-o,  concluímos , inequivocamente,  que se trata de um precioso documento de quase um século e de um registo singular de um homem culto, erudito e de uma grandiosa sensibilidade.
Independente, livre e isento, não subscreve jargões nem professa credos, lançando, com inteligente acutilância, um olhar crítico a tudo o que lhe chega , a tudo o que o rodeia , a tudo o que preenche a vida, ao mundo.
Assim , olha Agustina, Saramago , Vergílio Ferreira, Gastão Cruz, Eduardo Prado Coelho,  Eduardo Lourenço e outros mais , sem temor por  ser uma voz diferente, fugindo a unanimidade oca que se pratica no falso meio intelectual.   Em sentido oposto, extrai, com mestria , a grandeza de um Camilo, de um Eça, de um Régio,  de um Sena, de um Montherlant, de um Gide , de um Domingos Monteiro , de um David Mourão-Ferreira, de uma galeria de grandes que são  engavetados   por um modismo tonto e provinciano. E, em igual honestidade intelectual, não deixa de aplaudir novos talentos que  surgem e  se  vão afirmando.
Mas não é apenas de memórias que se constitui a produção literária de Eugénio Lisboa. Poeta, ensaísta, crítico literário, o autor de “Acta est fabula” tem uma vasta e prolífera obra. É um incessante escritor em permanente laboração.  Desde o seu último aniversário, o nonagésimo,  publicou  dois novos livros. Um de Poesia e outro em magnífica e gostosa  prosa, que é um excelente breviário da Leitura, um forte alento para o  despertar desse vício impune, um esplêndido cânone para o leitor relutante.
Com Eugénio Lisboa,   nunca será possível esgotar-se,  em nós,  o prazer da descoberta , da aprendizagem, do encantamento. Reforça e valida, em magnificência, as palavras de Jorge Luís Borges: A verdade é que ninguém passa por nossa vida em vão. A diferença é que algumas pessoas são possibilidades de felicidade, outras de lições.
Eugénio Lisboa é tudo isso. Acumula todas as possibilidades. E, por ser verdade, acabamos com um outro poema, um soneto perfeito, retirado do seu último livro de poesia.

DA NÃO EVIDÊNCIA DE TUDO

 

É tão estranha a vida. É tão estranha a morte.

É estranho que seja tudo tão estranho

e tudo cause, em mim, um tal desnorte,

que o assombro seja, em mim, tamanho,

 

que fico detido, explorando o espanto

de coisa nenhuma ser evidente!

Resta-me, então, digo eu, o canto

que amacia o que não é transparente!

 

Viver é assim não compreender,

que é a melhor forma de descobrir.

Se há virtudes no não entender,

 

se é bom forçar a porta, insistir,

contudo, a um mistério decifrado,

outro logo se apresenta fechado!

                                  

                                  20.05.2020

Eugénio Lisboa, 

em congeminações de sempre, que a solidão da peste agudiza!

Eugénio Lisboa, in “ poemas em tempo de peste”, Setembro de 2020, Guerra&Paz, Editores S.A.

Ao Eugénio Lisboa, o mais erudito intelectual português da actualidade, de quem o assombro de um imanente espanto jamais se extinguiu, apresentamos a nossa inacabada gratidão, em jeito de sentida embora sóbria homenagem.

Veja (AQUI) uma entrevista a  Eugénio Lisboa

domingo, 23 de maio de 2021

Ao Domingo Há Música


 A música é a linguagem de toda a gente, não conhece fronteiras, não carece de tradução, recusa ser parafraseada. E a música é uma actividade que nos diz que somos capazes de sentir. Sim, sabemos que há algo mais. Há algo que não somos capazes de dizer, há algo que não conseguimos explicar. E a música lembra-nos continuamente da possibilidade da transcendência, a possibilidade de haver algo mais.
 George Steiner,  Das Cinzas do Silêncio à Palavra de Fogo,

A felicidade está nas pequenas descobertas. Ali, aqui ou lá, onde o olhar não alcança, há sempre   algo  que pode provocar um momento novo, um frémito de magia. Talvez esse algo mais, essa real possibilidade de transcendência,  se concretize nestes belos e conhecidos sons. 

Secret Garden, em Song From A Secret Garden, de Rolf Løvland . Registo de  Secret  © 2015 Universal Music A/S.
   
Secret Garden , em Nocturne  (ao vivo em  Kilden / 2015).Canção que representou a Noruega e venceu o Festival da Eurovisão de 1995.

sábado, 22 de maio de 2021

Cheirar os livros


"(...) Segundo a crónica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatros anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.
— D. Gilete — disse ele, apresentando-me a uma senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo —, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.
"Aplicar as regras", soube eu muito depois, com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou burrice por parte do aluno. Felizmente D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de facto já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que, quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.
— Esses daí agora não — disse ele. — Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são umas porcarias, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias. Duraram bem pouco, sim, porque de repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, frequentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis. Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa — e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
— Seu filho está doido — disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando.
— Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
— Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro óptimo.
— Ele ontem passou a tarde inteira lendo um dicionário.
— Normalíssimo .Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
— O Lello.
— Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação."
João Ubaldo Ribeiro , in "Um Brasileiro em Berlim”, Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1995.