sexta-feira, 21 de maio de 2021

Poesia

Poesia

Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrasssem
No vazio da ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.
Daniel Faria, in  Poesia,(Ed. Assírio & Alvim)

Passagem 
Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e diremos rios?
Manuel António Pina, in " Como se desenha uma casa" Ed. Assírio & Alvim

Revive ainda um momento
Na ‘sperança que perdi,
Flor do meu pensamento,
Hálito do que morri…

Inútil, irreal sorriso
Na penumbra de pensar…
Eu da vida que preciso?
O sonho com que a negar.

Vago luar de promessa,
Resto de sombra a morrer
Na antemanhã que começa
Ah, ter-te, e nunca viver.
Fernando Pessoa, in Quadras e Outros Cantares, Edição de Teresa Sobral Gomes, Relógio D’Água Editores, Lisboa ,1987

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Apostar no pano verde alheio

«Os livreiros venderão ou não o seu manuscrito. Para eles, é esse o problema. Para eles, um livro representa um capital a arriscar. Quanto melhor for o livro, menos hipóteses terá de ser vendido. Todo o homem superior se eleva acima das massas, o seu sucesso está, pois, na razão directa do tempo necessário para apreciar a obra. Nenhum livreiro gosta de esperar. O livro de hoje terá de ser vendido amanhã. Neste sistema, os livreiros rejeitam livros substanciais que exigem um elevado e lento reconhecimento.
(...)
Na época em que começa esta história, o prelo de Stanhope e os rolos de distribuição de tinta ainda não haviam entrado em funcionamento nas pequenas tipografias de província. Não obstante a especialização que permite compará-las à tipografia parisiense, Angoulême continuava a usar prelos de madeira, que deram origem à expressão fazer gemer o prelo, caída em desuso. A imprensa antiga ainda utilizava almofadas de couro embebidas em tinta, nas quais o impressor esfregava os caracteres. O quadro móvel onde se coloca a forma repleta de letras sobre a qual se aplica a folha de papel ainda era de pedra e justificava o nome por que era conhecida, mármore. As devoradoras imprensas mecânicas conduziram tão rapidamente ao esquecimento deste mecanismo, ao qual devemos, apesar das imperfeições, os belos livros dos Elzevier, dos Plantin, dos Alde e dos Didot, que se torna necessário mencionar os velhos instrumentos aos quais Jérôme-Nicolas Séchard votava um supersticioso afecto; na verdade, eles têm um papel a desempenhar nesta pequena história.
Séchard era um antigo oficial impressor, que os operários encarregados de alinhar as letras designavam por urso em linguagem tipográfica. O movimento de vaivém, muito semelhante ao de um urso enjaulado, executado pelos impressores que se deslocavam do tinteiro ao prelo e do prelo ao tinteiro, esteve com certeza na origem da alcunha. Por outro lado, os ursos chamaram macacos aos compositores tipográficos, por causa do exercício contínuo que estes homens realizam para retirar os tipos dos cento e cinquenta e dois caixotins em que se encontram arrumados.
(…) A casa Fendant e Cavalier era uma dessas editoras livreiras estabelecidas sem nenhuma espécie de capital, como então se viam muitas, e como sempre se verão, enquanto a papelaria e a tipografia continuarem a conceder créditos aos livreiros, durante o lapso de tempo em que se publicam umas tantas obras. Então como hoje, as obras eram compradas aos autores por meio de letras passadas a seis, nove e doze meses, pagamento baseado na natureza da venda que se salda entre livreiros em prazos mais dilatados. Estes livreiros pagavam na mesma moeda aos fornecedores de papel e às tipografias, que assim tinham nas mãos, grátis, durante um ano, toda uma livraria composta por uma dúzia ou uma vintena de obras. Admitindo dois ou três êxitos, o produto dos bons negócios pagava os maus, e eles sobreviviam apoiando uns livros nos outros. Se as operações fossem todas duvidosas, ou se, por um acaso, descobrissem bons livros, que só podiam vender-se depois de terem sido apreciados, saboreados pelo verdadeiro público, se os descontos sobre o seu valor fosse muito grande, se eles próprios perdessem dinheiro, abriam tranquilamente falência, previamente preparados para este resultado. Deste modo, todas as situações lhes eram favoráveis, apostavam no pano verde da especulação alheio, não o próprio.» 
Honoré de Balzac, in  Ilusões Perdidas [Illusions Perdues],  Dom Quixote Editora, Portugal 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Os livros

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Ilustração de Susa Monteiro

Os livros. Nós – 4 (crónicas pequeninas)
 por António Lobo Antunes
 "Trabalhei como um danado, diariamente, anos a fio, de modo que me sinto no direito de repetir a frase de Bocage, depois de dizer aos outros um poema seu: – Isto é meu, isto não morre que é a única eternidade a que posso aspirar e que, de qualquer maneira, não me servirá de nada Acabei o livro que me ocupava de manhã à noite há quatro ou cinco dias, mandei para a Editora com as últimas correções e só o tornarei a ver, já impresso, para o ano. É o romance de 2019 e faltam-me agora três para completar o meu trabalho e deixar a obra redonda. Sei bem o que ela vale mas não me compete a mim pronunciar-me acerca disso. Não publicarei mais nada. Continuarei, que remédio, a escrever as crónicas para a revista Visão. Não passam de prosa alimentar, sem qualquer valor literário. Estupidamente publiquei ou consenti a publicação de quatro ou cinco coleções delas. Exijo que não o voltem a fazer. Não têm qualidade. Foi nos romances que joguei a minha vida e sei o que eles valem. As ditas crónicas são, evidentemente, medíocres: é pelos romances que quero ser julgado, não por esses textinhos baratos e sem valor, destinados a ajudarem financeiramente as minhas filhas. A sua qualidade é, no mínimo, questionável. Espero não ter de continuá-las durante muito mais tempo. Do mesmo modo proíbo que se imprimam a cerca de meia dúzia de artigos sobre a relação entre a Medicina e a criação artística que se editaram em revistas de vária índole, acerca de Antero, D. Duarte, Lewis Carrol, etc. e que nada valem também, os poemas mais ou menos juvenis espalhados em revistas dispersas, as primeiras tentativas, falhadas claro, de ficção. Resigno-me a deixar em circulação as Cartas da Guerra pelo seu provável valor documental, como lembrança de uma época horrível da nossa História colectiva em que, em consequência da censura militar e da censura política não pude descer muito fundo no horror de África, para mais com a censura tão atenta a mim em consequência da minha grande amizade com Ernesto Melo Antunes, sem dúvida o militar mais lúcido e corajoso que conheci, eu que vivi tanto tempo entre rapazes inigualáveis de humanidade e coragem, de mistura, claro, com alguns cobardes que sempre existem, e de situações abjectas de que jamais falei, eu que, evidentemente, nunca fui herói de nada. Portanto a única coisa que quero que fique de mim são os romances, a começar em Memória de Elefante e a terminar no último dos três que me falta compor. Tenho um alto conceito da minha obra, não conheço outra assim embora não me creia vaidoso. Trabalhei como um danado, diariamente, anos a fio, de modo que me sinto no direito de repetir a frase de Bocage, depois de dizer aos outros um poema seu: – Isto é meu, isto não morre que é a única eternidade a que posso aspirar e que, de qualquer maneira, não me servirá de nada. O que penso aspirar, como quando perguntaram a Evelyn Waugh o que aguardava dos seus leitores, é, como ele respondeu – Que rezem pela minha alma pecadora. Ouviste, Bento? Ouviste, Zé Tolentino? Por favor não se esqueçam de rezar pela minha alma pecadora." 
António Lobo Antunes , em Crónica publicada na VISÃO 13456, de 20 de Dezembro de 2018

domingo, 16 de maio de 2021

Ao Domingo Há Música

MAIS

É mais melancolia
que tristeza

mais cântico em vez
de queda
à minha espera

É mais violino
no meu peito

mais ópera
mais paixão
e mais eterno
Maria Teresa Horta, Estranhezas

Não sei se é melancolia, se tristeza. Não sei.  É  mais, isso sim,   um  cântico de vozes. Vozes  que trazem melodia na alma. Vozes portuguesas . Vozes jovens que lançaram novas produções para ouvir e degustar.

Carminho, em As Rosas, do novo Álbum Maria.
 
 Gisela João com Michael League, em  Tábuas do Palco,  do novo Álbum Aurora.
     
Ana Moura , em  Andorinhas (Official Video).

sábado, 15 de maio de 2021

Do Dia Mundial da Língua Portuguesa

 

A Câmara Municipal de Oeiras convidou Eugénio Lisboa e Rui Soares para uma conversa  com José Mário Silva , no Café com Letras , a fim de homenagear o Dia Mundial da Língua Portuguesa ,  dia 5 da Maio . Apresenta-se um excerto.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Eugénio Lisboa e a mente insubordinada

Eugénio Lisboa
A MENTE INSUBORDINADA
por Eugénio Lisboa

 

Nem a contradição é sinal de falsidade, nem a falta de contradição é sinal de verdade.
                          Pascal

"Vou hoje falar de um certo número de coisas inconvenientes ou mesmo antipáticas. Coisas que normalmente não são ditas, num meio cultural timorato e vastamente acomodatício. Mesmo nas universidades, que são areópagos onde tudo pode e deve ser questionado, prevalece quase sempre uma verdade “aceite” contra a qual se não atrevem os candidatos a uma carreira académica. Em vez de intemeratamente se questionar o que deve ser questionado, sonda-se para que lado sopram os ventos e ajusta-se o curriculum ao sabor da ventania. É triste mas é assim.
Sempre que um personagem de notório gabarito no meio cultural faz a demolição de um nome em voga, ninguém mais se atreve a tocar-lhe nem com pinças. Poderia dar inúmeros exemplos. Quando Eça terçou armas com Pinheiro Chagas, a propósito dos reparos sensatos feitos por este aos desmandos críticos do autor de O Primo Basílio à saga dos descobrimentos, Eça foi, sem dúvida, dos dois, o que teve mais gracinha, mas Pinheiro Chagas foi, também sem dúvida, quem teve razão. “Brigadeiro Chagas” ou não, dizer a Eça que não fazia sentido julgar feitos dos séculos XV e XVI, com a ética do século XIX , era do mais razoável que se poderia observar. Reduzir a saga das descobertas a uma “ignomínia”, como fez o grande romancista realista, era completamente tonto. Mas, para sempre, Chagas passou a ser o “brigadeiro Chagas”, coberto de ridículo, e Eça, o espírito progressista e iluminado. Ninguém, nem a universidade, questionou esta injustiça. Ninguém se atreveu, ao menos, a dizer que a argumentação de Chagas estava admiravelmente construída e melhor escrita. Fazê-lo não renderia juros e era perigoso e, portanto, não se fez. Chagas foi publicamente destruído e mais ninguém se lhe referiu, a não ser como objecto de troça. Assim vai a nossa cultura.
Outro exemplo seria o do célebre ensaio de António Sérgio dedicado ao “Caprichismo romântico na obra do Sr. Junqueiro”. Sérgio, fino crítico literário e bom ouvido para a música do verso, fez muito claramente questão de separar o trigo do joio: o seu ensaio visou não o poeta exímio que era Junqueiro, mas sim o exageradamente aplaudido “maître-à-penser”, que Sérgio desvalorizava. De facto, nessa altura, o desvairo promontório da grandeza de Junqueiro, como filósofo e pensador (ver o que dele dizia, por exemplo, Raul Brandão) só pode comparar-se com a gritaria encomiástica que fez de Eduardo Lourenço o homem “que ensinou os portugueses a pensar”. Nós somos mesmo assim: foge-nos sempre o pé para a idolatria. De qualquer modo, Sérgio, como disse, foi muito cauteloso: sublinhou as egrégias qualidades poéticas de Junqueiro, mas demoliu o pensador que ele pretendia ser. Pois bem: apesar de todas as cautelas, era tão grande a (justa) aura de Sérgio, por essa altura, que Junqueiro morreu para sempre: nunca mais ninguém lhe pegou (até muito recentemente), nem mesmo com pinças. Que pensar de um meio cultural e académico que assim se deixa tão completamente subjugar pela mal lida opinião de um grande “clerc”?
Outro exemplo foi o de Júlio Dantas, destruído pelo “gavroche” Almada Negreiros, com o seu manifesto anti-Dantas. A malta gozou e ainda hoje goza e nunca mais foi ver aos textos se o Dantas só merecia a surriada que lhe fez o autor de Nome de Guerra. O que nunca ninguém disse, porque borrava a pintura, foi que o rebelde Almada não só foi pedir desculpa ao autor de A Ceia dos Cardeais, pela agressão feita, como foi também mexer meio mundo para ser apresentado a Salazar. Assim vão estes egrégios rebeldes. De qualquer forma, se o seu intuito foi assassinar o académico, conseguiu-o plenamente. Assim fazendo sair do horizonte literário, para sempre, um dos nossos mais admiráveis cronistas, homem culto, cosmopolita e civilizadíssimo, cuja prosa limpidamente clássica e vigorosa ficaria bem nas antologias escolares. Uma nota: notável gente da esquerda foi para a Academia, pela mão não ressentida de Júlio Dantas.
Só mais um caso, aliás, dois mas ambos originados pela acção de um grande figurão das nossas letras – refiro-me a Eduardo Lourenço e à sua esforçada tentativa de “reduzir” a estatura da revista Presença (que nunca tinha folheado e nem para ela tinha olhado…) e a não menos esforçada tentativa (coroada de êxito) de apear Sérgio do trono em que este se encontrava, para lá ir-se instalar ele e aí permanecer até à altura da sua morte. Lourenço viu, no segundo modernismo dos presencistas uma inesperada contra-revolução de que a revolução teria sido o primeiro modernismo dos argonautas do Orpheu. Ora o segundo modernismo não se pôs nada contra o primeiro, antes o estudou e carinhosamente o promoveu e, no plano criativo, não o copiou e fez coisa muito diferente, interessando-se por áreas dos séculos XIX e XX, a que os do Orpheu tinham voltado as costas. Em suma, fizeram diferente, mas não agiram contra. Dizer que os alegados terramotos ontológicos de Álvaro de Campos eram superiores a certas sondagens místico-psicológicas, como fez Lourenço, é estar completamente desfocado em relação ao que seja arte. E comparar a alegada contra-revolução do segundo modernismo com o bonapartismo deixa-nos, no mínimo, perplexos. Napoleão não veio pôr travões à revolução de 1789, veio, sim, travar, com decisão, o Terror de 1793, isto é a loucura sanguinária dos Robespierres e quejandos. Por isso foi admirado por grandes espíritos do século XIX, como Beethoven, Goethe e Stendhal, entre outros. Confundir bonapartismo com contra-revolução é um erro histórico de palmatória, o que não impediu a intelligentsia universitária lusíada de glosar, embevecidamente, este dislate de Lourenço, que passou a ser doutrina obrigatória de quem quisesse fazer carreira. E creio que ainda é.
A outra vítima de Lourenço e do seguidismo beato à sua frechada absurda foi, como dissemos, António Sérgio, a quem atacou a razão, para maior glória exclusiva da intuição Bergsoniana e a quem acusou de não ter ideias inocentes e virgens, limitando-se a atacar ideias de outros. Esta segunda catilinária é tão absurda, tão desconhecedora do que tenha sido todo o progresso do conhecimento científico e filosófico e todo o percurso da arte, desde tempos imemoriais até hoje, que, mais do que surpreender-me tê-la Lourenço emitido, choca-me tê-la o meio universitário aceite durante tantas décadas. A ciência tem avançado precisamente por aquilo que alguém, referindo-se a Bertrand Russell, apelidou de “mente insubordinada” A ciência não nasce, virgem de influências, nas mentes inocentes e descontaminadas do cientista. Copérnico, Kepler e Galileu opuseram o heliocentrismo (o Sol, como centro do sistema solar) ao geocentrismo de Ptolomeu (a Terra, como centro desse sistema). O cientista alimenta-se dos erros ou insuficiências dos que o precederam. Newton, muito provavelmente, o maior cientista de todos os tempos, não hesitou em proclamar: “Se cheguei até aqui, foi porque me apoiei no ombro de gigantes”, gigantes que sabiam menos do que ele, mas sem os quais ele não teria feito o que fez. Grande e admiravelmente abrangente como era, a macro-física de Newton partiu, por sua vez, os dentes quando se chegou ao estudo do comportamento das partículas. Aí, o determinismo sumptuário de Newton teve de dar lugar às hipóteses não deterministas dos físicos quânticos. Nem estes ficaram diminuídos por estarem só a opor-se a Newton, nem este ficou diminuído por a sua física não chegar para sondar a incerteza das partículas. Foi o mesmo Newton quem afirmou: “Nenhuma descoberta foi feita sem um palpite ousado.” Esse palpite é “ousado” precisamente porque pode estar a pôr em causa uma hipótese até aí aceite. E não é por assim surgir, isto é, por oposição a outra hipótese anterior, que ela é menos meritória. A desqualificação de Sérgio por Lourenço foi, assim, totalmente inepta. Com a arte é a mesma coisa. Malraux disse-o de uma vez por todas, ao afirmar que nenhum quadro é descontaminado ou inocente: ele é sempre a resposta a outro ou outros quadros. Renoir ou Matisse respondem a Delacroix com uma pintura diferente e com propósitos diferentes. Mas teria sido pouco provável que se tivesse chegado a Picasso se Delacroix não tivesse existido.
Eduardo Lourenço temeu sempre a contradição, porque achava que a contradição diminuía o contraditado. Esqueceu-se de ir arejar as ideias com o grande Pascal, que dizia: “Nem a contradição é sinal de falsidade, nem a falta de contradição é sinal de verdade.” Fugiu de ser contraditado como da peste. Mas isso não lhe garante que a posteridade lhe diga que estava certo." Eugénio Lisboa ,03.03.2021

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A LÍNGUA PORTUGUESA (2)


A LÍNGUA PORTUGUESA 
(continuação)
por Eugénio Lisboa

Em entrada  anterior, neste blog, publicámos  uma  breve  antologia de  testemunhos/ /homenagem à língua portuguesa, precedidos de algumas considerações sobre a riqueza dela e modos de a usar. Hoje juntamos mais algumas homenagens, em verso e em prosa.

AFONSO LOPES VIEIRA

(1878 – 1946)

A LÍNGUA PORTUGUESA

Ó Portuguesa língua, quando um dia

Floresceste nos rústicos cantares,

Quem te diria que por sobre os mares,

Com tua alma o teu génio cresceria!

 

Soou na Terra a tua melodia

E pelo orbe criou nações e lares;

Com teu ritmo de impulsos e vagares

Foste laço de povos e harmonia.

DAVID MOURÃO-FERREIRA

(1927 – 1996)

EXCERTO DO LIVRO

Magia, Palavra, Corpo 1993

Faça-se todo o possível – mesmo o possível impossível – para que os povos de língua portuguesa leiam cada vez mais os autores de língua portuguesa qualquer que seja a nacionalidade a que pertençam: angolanos, brasileiros, caboverdianos, portugueses, santomenses, sem prejuízo, aliás, do estimulante conhecimento de autores de outras línguas, e pouco a pouco virá a verificar-se a crescente e saborosa mestiçagem do idioma que de Portugal “banzou”, não para “xingar” os demais povos nem para com eles “cutucar”, mas para que a todos servisse de vivo instrumento de fraterna aproximação.

 

ALBERTO DE LACERDA

(1928 – 2007)

A LÍNGUA PORTUGUESA

Esta língua que eu amo

Com seu bárbaro lanho

Seu mel

Seu helénico sal

E azeitona

Esta limpidez

Que se nimba

De surda

Quanta vez

Esta maravilha

Assassinadíssima

Por quase todos que a falam

Este requebro

Esta ânfora

Cantante

Esta máscula espada

Graciosíssima

Capaz de brandir os caminhos todos

De todos os ares

De todas as danças

Esta voz

Esta língua

Soberba

Capaz de todas as cores

Todos os riscos

De expressão

(E ganha sempre a partida)

Esta língua portuguesa

Capaz de tudo

Como uma mulher realmente

Apaixonada

Esta língua

É minha Índia constante

Minha núpcia ininterrupta

Meu amor para sempre

Minha libertinagem

Minha eterna

Virgindade

EUGÉNIO LISBOA

(1930 -     )

OUTRO SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

Com a língua portuguesa me caso,

com ela vivo quando é preciso;

a língua portuguesa não tem prazo

e veste-se de luxo e conciso.

 

Vive de tristeza e de alegria,

sossega, como sabe, os aflitos

e sabe matizar a euforia,

apaziguando, suave, os altos gritos!

 

Enfeita-se com cores e buzinas,

desperta, com clamores bem sentidos

e com ares de grande dançarina,

 

aqueles que andando adormecidos

acordam àquele toque de alerta:

a língua é clamor e é oferta!

TERESA RITA LOPES

(1937 -     )

A LÍNGUA É UMA PÁTRIA

- é dito de Junqueiro e de Pessoa

mil vezes repetido

mas não sei se sentido.

Foi sobretudo no exílio que saboreei

 

essa verdade amarga e doce.

Quando o chão do meu país me faltava

debaixo dos pés,

errava sonâmbula dia e noite

agarrada às palavras

- meu colo minha respiração meu sustento.

Hoje orgulho-me de partilhar a pátria pobre

que somos

com miríades de irmãos constelando os céus

de todos os continentes.

A riqueza maior que ter podemos

não está em cofres, bancos ou acções

mas na música da nossa língua, ecoando

por milhões e milhões de gargantas.


Assim damos por concluída esta modesta mas sentida homenagem à língua de Camões e Vieira.
Eugénio Lisboa, Maio de 2021