
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
A desordem estuporada da vida

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
O escritor vai resistir
domingo, 6 de dezembro de 2020
Ao Domingo Há Música
de todo homem em qualquer tempo e lugar,
não são originais meus;
e se não são de vocês tanto quanto meus
não querem dizer nada
ou quase nada;
e se não são a pergunta
e a resposta à pergunta,
não significam nada;
e se eles não se colocam tão perto
quão distantes parecem,
não valem nada…
Walt Whitman , Folhas de Relva
sábado, 5 de dezembro de 2020
O Mar Oceano
Obsessão do mar oceano
Vou andando feliz pelas ruas sem nome…Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
Quando o Mar brame no Algarve
" O mar não tem como a terra vestígios do trabalho do homem e da vida humana. No mar nada permanece, tudo por lá passa de fugida e, dos barcos que o percorrem , depressa o rasto se desvanece."
Marcel Proust , in “Os prazeres dos dias”, Editorial Estampa
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Os Juízes das Cores
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Morreu Eduardo Lourenço
"Eduardo Lourenço é uma das grandes referências das culturas de língua portuguesa. O ensaísmo que cultivou, na senda de Montaigne e em diálogo com António Sérgio e Sílvio Lima, mas também com Unamuno e Ortega, é uma marca indelével que ficará como um sinal marcante da democracia portuguesa. No seu percurso riquíssimo – desde S. Pedro de Rio Seco a Nice, passando pelo Colégio Militar, pela Universidade de Coimbra, pela criação da revista “Vértice”, pelo exílio cultural de Heidelberg e da Bahia até a Vence – , sempre teve uma participação marcante sempre em fértil ligação com a literatura portuguesa, sobre que refletiu exaustivamente. Foi um heterodoxo, significando essa atitude política e cívica um desalinhamento que significou o culto da liberdade de espírito. A sua escrita é única e inconfundível, revelando com linguagem poética uma extraordinária intuição nas análises dos principais autores do século XX. Não houve autor ou corrente relevantes que lhe tenham passado despercebidos. Na geração de “O Tempo e o Modo” pôde fazer análise crítica com inteira independência, descobrindo a melhor qualidade dos autores, independentemente de escolas, e distinguindo-a do “espírito do tempo”. Quando hoje lemos os seus textos luminosos, apercebemo-nos de que soube sempre distinguir o essencial. Nesse ponto, foi um devoto seguidor de Antero de Quental e da sua geração, que nunca considerou como vencida, mas como renovadora e audaciosamente crítica. Pode dizer-se, assim, que na linha de Garrett e Herculano considerou a cultura portuguesa como rica mercê do diálogo entre tradição e inovação, entre identidade e diversidade, mas sempre estimulada pelos desafios da exigência e da modernidade, ciente das suas limitações e nunca condenada de antemão por qualquer fatalismo…
Uma das visitas mais fascinantes que fiz ao Museu do Prado foi na companhia de Eduardo Lourenço. Não me lembro de quanto tempo tivemos juntos, percorrendo as salas de um modo totalmente desprendido, esquecidos das horas e do tempo. Aconteceu como nos velhos contos medievais em que um minuto se torna mil anos, como com o monge que se distraiu a ver a paisagem e ao voltar já não conhecia os companheiros do convento, pois tinha passado um ror de tempo naquele minuto esquecido. Acho que tivemos duas ou três horas, pouco importa, a verdade é que Eduardo movia-se avidamente, com o prazer supremo de interrogador incessante, entre aquelas pinturas como se estivéssemos num labirinto.
Começámos, ao acaso, por Velásquez, e depressa fomos transpostos para o espírito espanhol, para Quixote e Unamuno, um e o outro encontravam-se e desencontravam-se nesse discurso incessante, como se trocassem de personalidades, e como se a realidade se tornasse ficção e a ficção passasse para o lado de cá do espelho. Camões, Cervantes eram postos em confronto. A realidade peninsular, tão próxima e tão distante.
Há sempre na reflexão de Eduardo Lourenço qualquer coisa de onírico. No concreto da pintura de Velásquez o que importava era ver o que não estava lá. Junto das “Meninas” interrogava-se sobre o fantástico. Tudo ali era real e misterioso, natural e forçado. Era a corte e a sua metáfora. E foi como que, de súbito, se estivesse diante de um romance, com o lado biográfico e o lado imaginoso, num momento em que a História pega asas e começa a sonhar com o que poderia ter acontecido.
Em frente de cada tela, Eduardo parava, e dissertava ora sobre o que tinha acabado de ver na sala anterior ou sobre o quadro ali do lado, ora sobre o momento político que então se vivia (caíra o muro de Berlim e estávamos a debater o futuro do mundo e da América latina na Casa da América, ali a dois passos em Cibeles). A política é um estranho ópio. E falou-se ainda de Fernando Pessoa interrogação permanente sobre os nossos mitos.
Eduardo Lourenço é um filómita e cultiva os mitos como modos de realizar a grande psicanálise mítica do destino português. A cultura é, para o ensaísta (discípulo de Montaigne e da sua pergunta sacramental “Que Sais-je), a vida, a encruzilhada entre a memória e o desejo, a recordação e a esperança, entre Garrett e Herculano, entre o “Orpheu” e a “Presença”.
Mas, de súbito, estávamos diante das telas mais dramáticas de Goya. Por um momento, todos os outros temas se calavam e vinha à ribalta a crueza desumana, o mistério e o absurdo da existência, o ser e o tempo, os grandes acontecimentos, que chocavam com o quotidiano mais comum – e Goya dividido entre o amor à terra e ao povo e o sonho da liberdade chegada com as tropas de Napoleão. O homem moderno vive na contradição e no paradoxo. Eduardo Lourenço, inesgotável, continuou naquele labirinto à procura da complementaridade entre a razão e o sentimento, entre o espírito e a carne, entre o eu e o mundo todo dos outros."




