segunda-feira, 9 de abril de 2018

Herói positivo

Berlim, 1972 - herói positivo

"Jurgen Gruner, director da Verlag Volk und Welt me escreve narrando o drama que passou a viver após a reunificação da Alemanha. Aquela que foi a monumental editora de literatura estrangeira da finada República Democrática Alemã, a Alemanha do Leste, está ameaçada de não sobreviver à transformação de empresa estatal em empresa privada, de não poder superar as dificuldades nascidas da livre concorrência.
A notícia deixa-me penalizado, da Volk und Welt só posso falar bem. Detentora dos direitos de tradução dos meus livros na RDA, ela os publicou, a todos eles, boas traduções, belas edições, gráfica primorosa, tiragens enormes, pagou-me os direitos autorais, tudo nos conformes.
Minto quando digo que publicou todos os meus livros, houve uma excepção, um livro que a Volk und Welt não traduziu nem publicou. 
Em 1972  recebi carta do responsável literário (sic)  da  editora: recusava-se a editar  Tereza Batista, Cansada de Guerra, dava-me  a razão ideológica: uma puta não pode ser herói  positivo de um romance. 
Herói positivo, sabem o que isso significava na literatura do mundo do socialismo real, esse que se acabou? Se não sabem não procurem saber, não paga a pena." 
Jorge Amado , in Navegação de Cabotagem, Publicações Europa América, pp. 237, 238

domingo, 8 de abril de 2018

Ao Domingo Há Música

É outra vez abril
– e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguém tão bem vestido!
                     Eugénio de Andrade 


A música também chega em Abril . Estende-se em perfeita harmonia.
Na Avant Première de 2018, a Göteborgs Symfoniker explora e evidencia  a capacidade que a música tem de se   vestir  de sons vários, diferentes e belos.

sábado, 7 de abril de 2018

Escrevo em apagados muros

Escrevo sobre um muro

J'ecris sur un mur au fond du noir
Guillevi

Escrevo e as portas não se abrem.
Os rios existem, e o mar da rua
existe. Escrevo. E o que espero?
Escrevo em apagados muros, na branca
superfície do muro. Escrevo.

São palavras, palavras. São
palavras.
Não respiram. Não falam.
São desertas.
Não rodam, não batem nos meus pulsos.
E escrevo. Como se esperasse.

Como. Se desertas abrissem.
Para. Para.
Uma vida outra aberta.
Esta e mais nenhuma, a que só temos
sem nunca tê-la, a que seria vida
o que é, e nós sem ela.

Escrevo no muro palavras,
para respirar, quando não posso,
quando o desejo de viver se tornou ténue,
que não sinto senão na ténue página,
na brancura rara que me tenta,
na água sem jardins ao rés da página
ó sede à beira de nascer, ó água!

Escrevo palavras neste muro. Um muro.
Umas palavras. O mar da rua existe.
As portas não se abrem. E não espero.
Escrevo sobre o muro. Umas palavras.
São as palavras que escrevem esse muro.
São as palavras que escrevem esse muro.
O muro existe. Resiste É bem um muro.
As palavras saltam além do muro.

António Ramos Rosa, in Vagabundagem na poesia de António Ramos Rosa,seguido de uma Antologia, Casimiro de Brito, Quasi, 2001

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A fenda da divisão

"As fortes chuvas de Março causaram estragos no Quénia. Derrubaram muros de hospitais, inundaram bairros inteiros e fecharam as principais estradas nacionais. Contudo, a maior surpresa foi as chuvas terem evidenciado a fenda que existe no solo africano — que, segundo os geólogos, é a evidência de que o continente africano se vai dividir em dois ao longo das próximas dezenas de milhões de anos.

As chuvas abriram uma fenda no Quénia — e fizeram relembrar que África se vai dividir em dois

As cheias criaram uma fenda que se estende por vários quilómetros perto da cidade de Mai Mahiu, no Rift Valley (Vale da Fenda), rasgando uma estrada e vários terrenos agrícolas.
Segundo o The Quartz, alguns cientistas apontam os tremores sísmicos como a causa da divisão do continente . Contudo, Stephen Hicks, professor na Rockford University, diz, na sua conta de Twitter, que é errado estabelecer uma relação directa entre a actividade sísmica e a fenda na estrada.
Por outro lado, alguns cientistas consideram que ao invés de ser causada pela actividade sísmica, esta falha forma-se através de “tubulações”, uma actividade geológica que ocorre quando as chuvas fortes fazem com que as camadas mais macias do subsolo fiquem sob pressão.
Independentemente das causas, as chuvas fortes evidenciaram uma questão que nada tem de novo. A fenda aconteceu precisamente na East African Rift System (EARS), o lugar onde as placas tectónicas se estão separar e que se estende por cerca de 3 mil quilómetros, desde a zona norte do Golfo de Áden até ao sul de Moçambique.O EARS é a fissura em desenvolvimento que vai separar o continente africano nas próximas dezenas de milhares de anos.

A litosfera da Terra é dividida em várias placas tectónicas, que não são estáticas. As placas não só se podem mover em velocidades variadas como podem “romper”, fazendo que exista uma fenda e levando à possível criação de novos limites de placa. A East African Rift System é um exemplo de como isto pode acontecer.
Os geólogos já atribuíram nomes às placas. Após a divisão, a maior parte de África fica na  placa núbia, enquanto a placa menor é chamada de Placa da Somália (nesta ficará parte do Quénia, Etiópia e Tanzânia).
Esta não é a primeira vez que se abrem fendas no solo africano. Já tinham sido registadas divisões no triângulo de Afar, que atravessa a Etiópia, Eritreia e Djibuti. O processo da divisão foi o mesmo que levou ao desmembramento da África e da América do Sul há cerca de 138 milhões de anos.
Tal como o The Quartz aponta, só porque não conseguimos ver a fenda na sua totalidade, não quer dizer que o continente africano não se esteja a dividir a um ritmo leonino. “Os eventos dramáticos, como falhas repentinas que dividem autoestradas ou grandes terramotos, podem causar uma sensação de urgência, mas, na maioria das vezes, a divisão de África acontece sem que ninguém perceba”, diz Lucia Perez Dias, investigadora na Universidade de Londres." Sapo

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Beethoven

Beethoven´s Violin Concerto, pelo violinista James Ehnes, acompanhado pela Gothenburg Symphony, dirigida pelo Maestro Kent Nagano. O registo foi realizado a 23 de Fevereiro de 2018, no Gothenburg Concert Hall.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Escrever

UM ESCRITOR NASCE
I
"Nasci numa tarde de Julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos. Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi aí que nasci.
Nasci na sala do 3o ano, sendo a professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus a tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de Julho, o sol que descia da serra, era bravo e parado. A aula era de Geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e um rio. A Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então, nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objecto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Polo Norte.É talvez a mais curta narração no género. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana.
– Juquita, que que você está fazendo?
O rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu:
– Me dá esse papel aí… me dá aqui.
Eu relutava, mas os seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhava para mim, gozando o espectáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:
– Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.
Uma pausa, e rematou:
– Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor.
A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. Eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenino, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.
A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à sobrestimação de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma excepção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente régio naqueles tempos é naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para alívio do Marechal Lopez.

II

Escrevi. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redactor da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão "tímidas cecéns", que me indignou. Cá fora, revistas literárias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjectivos. Não me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos folheavam, trémulos, o número de sábado, ainda cheirando a tinta de impressão ! Publicou... Não publicou... E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensação incómoda do homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. Havia semanas em que o Fon-Fon!, o Para Todos, a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerário suficiente para adquirir todas as revistas, e então o copo de leite quente, com pão e manteiga, à noite, antes de ir para a pensão, sacrificava-se com galanteria às belas-letras.
Escrevi muito, não me pejo de confessá-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para duração, certo trabalho de jardinagem. É verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmódicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calçava as ruas, dando às almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de fôrma comovia a pequena cidade, e dava-lhe esperança de que o meu talento viesse a resgatar o melancólico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com o progresso a 50 quilómetros de distância e cabritos pastando na rua.
Não houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei lá. De lá ninguém me escreveu, pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. 0 escritor tornou-se urbano.

III

Publiquei três livros, que foram extremamente louvados por meus companheiros de geração e de pensão, e que os críticos académicos olharam com desprezo. Dois volumes de contos e um de poemas. Distribuí as edições entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.
Sobretudo entre as últimas. Minha táctica, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu não era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feição estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando não obstante.

- O senhor escreve coisas lindíssimas, eu sei...

- Calúnia de meus inimigos. Infelizmente, é impossível viver sem fazer inimigos. Eles é que espalham isso, não acredite...

Meu sorriso ambíguo, de dentes não suficientemente íntegros (ganhei fama de irónico por causa do sorriso envergonhado) sublinhava a intenção discreta da negativa.
O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.

IV

Escrevia realmente para que, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projectos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos. Dessa incontaminação brotara, mesmo, certa vaidade. "Artista puro", murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa. "Não traia o espírito", acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o espírito não protestasse, eu me atribuía essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E não queríamos nada, não esperávamos nada. Éramos muito felizes, embora não soubéssemos, como acontece geralmente.
O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. Éramos ferozmente solitários. Em cada Estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregários, distribuía louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os académicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerância, inveja, malícia e incompreensão, intensamente misturadas. O facto de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoçava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um grão de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era não somente absurdo como prova de extrema infelicidade. Até certo ponto, os académicos mereciam simpatia. Como os dromedários, animais estranhos que não podem ser responsabilizados pelo género de vida que lhes impõe o vício de nascença.
Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligássemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de nós. Desgraçadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recíproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Entretanto...
Licurgo, que compusera comigo o "Poema do Cubo de Éter", descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivência. Mas, sua voz, continuou pregando os novos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafísica.
Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operários Americanos, de Lenine, e começando a colaborar no Grito Proletário, sofreu de minha parte uma campanha de descrédito intelectual. Voltou-se para a acção política, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade até o golpe de 35, quando emudeceu.
A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanálise, que procurei desmoralizar na primeira reunião, introduzindo sub-repticiamente entre os sócios, antes da votação dos estatutos, volumosa quantidade de uísque, genebra e gim. A sessão dissolveu-se em álcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem-aventurados que se entretinham na interpretação onírica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalências.
Fundaram-se sucessivamente, a Associação dos Amigos dos Livros de História, a Academia dos Gramáticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentação Racional, a Sociedade de Aculturação Ário-Africana, o Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Genética.
Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando.
Todos optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo à página editorial. Alguns recebiam manifestações de apreço, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de Estado. Vários compraram lotes, começaram a edificar. Um deles, extraordinário, conquistou um cartório. A floração de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha geração.
Eu perseguia o mito literário, implacavelmente, mas, sem fé. Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crónicas mais fascinantes do que nesse tempo de crescente solidão. Solidão, solidão... Era só o que havia em torno a mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, não haveria ninguém para dirigir os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto, para que bondes, relógios?... Já não havia ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se decompunham... Tudo ia escurecendo... escurecendo... Mas eu andava, eu continuava, eu não queria acreditar...
Risquei um fósforo, já sob a escuridão absoluta, e na lâmpada que minhas mãos em concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Então morri. Dou minha palavra de honra que morri, estou morto, bem morto."
Carlos Drummond de Andrade, in  Contos de Aprendiz, Editora Record

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Citando


“Os infelizes são ingratos; isso faz parte da infelicidade deles.”
                                                     Victor Hugo
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.”
                                                    Carl Jung
“Eu aprendi que tudo o que precisamos é uma mão para segurar e um coração para nos entender.” 

                                                      William Shakespeare

domingo, 1 de abril de 2018

No Domingo de Páscoa Há Música




"Era a época da Páscoa que se enchia de muitos momentos de grande assombro. Momentos que nunca me abandonaram e que me trazem odor , cor e ternura.
Era o tempo da Primavera e, com ela, acordava o jardim numa festa de cor e de fragância. Com sabedoria, E.M. Cioran já afirmara: Se cheirássemos uma rosa até sentir a sua música, que outra marcha fúnebre nos abriria com maior delicadeza uma tumba no céu? E não perde o céu o seu próprio brilho, dissolvido numa melodia que baixa até nós? O jardim era isso: o reino encantado da minha mãe. Perdia-se nele todos os dias. Plantava, semeava, podava e acariciava cada jovem flor que brotava. (...) Entre elas, encantavam-me as tulipas. Eram singulares, majestosas e belas. Havia de todas as cores . Nesse tempo, eram, para mim, o prenúncio da Páscoa. Não havia festa pascal na Quinta sem o adorno dessas flores. Exerciam, sobre os meus olhos, um fascínio que me levava a contemplá-las , cada manhã da sua curta existência. Media-lhes o tamanho, a cor e a altivez erecta com que se apresentavam. Amarelas, vermelhas, lilases, pretas, brancas, azuis resplandeciam em exuberante sequência cromática. Essa profusa e intensa paleta capturava-me. Todo esse esplendor se perdeu, quando cresci e me fiz adulta. As tulipas das floristas não tinham qualquer resquício da beleza fulgurante desse jardim de infância: o reino encantado da minha mãe.
Nem os campos da florida Holanda, com uma inédita profusão de tulipas, foi capaz de rivalizar ou substituir esse encanto . A memória teima em corroborar que só na infância me foi possível esse deslumbramento. Experiência única que permanece inalterável num dos seus recônditos cantos."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi

E porque é Páscoa, talvez a Música possa também provocar, em nós, o encanto e o deslumbramento ímpares dos dias a memorar.
A notável voz de Barbara Hendricks numa magnífica interpretação de Laudate Dominum  de Vesperae Solennes de Confessore, KV 339, de Wolfgang Amadeus Mozart a Capella Istropolitana interpretando  'Hallelujah" de "Messiah",  de Georg Friedrich Händel.