domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ao Domingo Há Música

Um simples pensamento

É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica comigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.
Eugénio de Andrade, in “ Os sulcos da sede”, Quasi Edições

Lang Lang  num encore (Etude No. 3, Op. 10 in E major de Frédéric Chopin )  em concerto com a Orquestra Filarmónica de Berlim. O virtuosismo e a mestria deste extraordinário pianista   dão a  esta obra um novo e profundo fulgor, como o lume, ao chegar o inverno.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Fazer Arte

Eliseu Visconti, Moça no trigal, 1913
Toda arte é actual
Por  Ferreira Gullar
"Peço que o leitor me desculpe se ando escrevendo demais sobre artes plásticas. É que, ligado a elas como sou, de vez em quando me pego reflectindo sobre o assunto. Foi o que ocorreu há pouco, quando visitei a exposição de Eliseu Visconti, no Museu Nacional de Belas Artes.
Estava apenas esperando uma oportunidade para ir vê-la, desde que recebi o convite para o vernissage: ele trazia a reprodução de um retrato pintado pelo artista, que sempre me fascina quando o vejo. Assim que, logo que pude, fui ao MNBA e não me arrependi. Pelo contrário, vi confirmada minha convicção de que Visconti, embora nascido na Itália, é um dos maiores pintores brasileiros.
A exposição reuniu obras do acervo do museu, da Pinacoteca do Estado de São Paulo e de colecções particulares. Embora esteja longe de ser completa, nos deu uma visão bastante ampla da obra do artista em suas diferentes fases. Nas pinturas mais antigas, do final do século XIX, ele se mostra um pintor realista, que é a fase menos interessante de sua obra.
Não por culpa sua, pois já ali se mostra um excelente pintor, pela composição, a qualidade do desenho e domínio da linguagem pictórica propriamente dita. O defeito está no carácter realista das obras. Pode ser apenas, no que me diz respeito, uma questão de gosto, mas o que ocorre é que a preocupação com a cópia fiel das figuras torna a pintura menos fascinante, ao trocar a imaginação criativa e poética pela fidelidade ao real.
A verdade é que há muitos tipos de realismo pictórico e que, também aí, pesam certas qualidades do artista. Velásquez, por exemplo, era um barroco realista e, em algumas obras, não alcançou a transcendência poética. Não é o caso, obviamente, da obra-prima "As Meninas", porque, nesse quadro, apesar do realismo das figuras, a relação espaço-tempo que ele estabeleceu ali supera a imitação realista: é que ele nos mostra, a um só tempo, as figuras que pintara, como se fossem os modelos do que ainda estaria pintando na tela, cujo avesso nos é mostrado ali.
Mas o realismo não é chato apenas nas artes plásticas; ele o é também na literatura. Pelo menos para mim, pois acho que não se faz arte para imitar a vida, e sim para inventá-la. A realidade é pouca.
Por isso mesmo, a pintura de Eliseu Visconti ganha qualidade à medida em que abandona o procedimento académico --iminentemente imitativo-- para abrir-se ao impressionismo, que em seus quadros adquire uma poética própria. Inicialmente, há uma fase de passagem do estilo realista, que busca a imitação da realidade, a uma linguagem pré-impressionista, em que, aos poucos, um uso novo da cor e da luz se manifesta.
Como se sabe, o impressionismo nasce quando o pintor deixa de pintar dentro de casa --ou no ateliê-- para pintar "à pleine aire", ou seja, à luz do dia. A relação de sombra e luz é substituída pela cor irradiante, nascida da vibração da luz solar sobre a superfície das coisas. Isso durante etapa desse movimento pictórico, porque, no final, algumas das obras de Monet (como "Nenúfares") já estão impregnadas da subjectividade simbolista.
Pois bem, a esse simbolismo se vinculará a pintura de Visconti na etapa áurea de sua obra, que se estenderá até 1944, ano de sua morte. Nesta última fase, o pontilhismo impressionista se muda em pinceladas mais amplas. Visconti é quem faz a transição, na pintura brasileira, do academicismo do final do século 19 ao modernismo, que nasce, historicamente, com Anita Malfatti na exposição que fez em 1919, em São Paulo.
Não quero terminar este registo sem mencionar uma observação que fiz, alguns anos atrás, quando reuniram obras de pintores brasileiros do modernismo e da etapa imediatamente anterior. Ali estava uma obra de Eliseu Visconti e o conhecido autorretrato de Tarsila do Amaral. Embora seja eu fã de nossa pintora modernista, não pude deixar de reconhecer a diferença de qualidade artística entre as duas obras. O quadro de Visconti ali exposto, comparado ao de Tarsila, era indiscutivelmente melhor.
Não se trata aqui de diminuir a importância de Tarsila que, naquele momento, abria um caminho novo para nossa pintura. Mas não se deve confundir o papel histórico com valor estético. Como disse Picasso, toda arte é actual."Ferreira Gullar, em Crónica publicada na Folha de S. Paulo, em 29/07/2012

Ferreira Gullar é poeta, dramaturgo, cronista, crítico de arte, ensaísta.Tem uma obra extensa e variada já galardoada com vários Prémios tais como Molière, Saci, Jabuti,Camões.Em 2002, foi também proposto ao Prémio Nobel da Literatura e integrava, neste ano de 2013 ,a Lista dos nomeados ao Prémio Correntes d’Escritas. "Uma das maiores características da obra de Ferreira Gullar é a preocupação com a realidade social aliada a uma constante busca pela renovação estética da linguagem". Durante a Ditadura foi preso. Exilado em Moscovo, Santiago, Lima e Buenos Aires foi  obrigado a viver por muito tempo na clandestinidade. Voltou ao Brasil no final da década de 70.Escreve aos Domingos na versão impressa de "Ilustrada", Folha de S.Paulo, Brasil.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um pastor rodeado de lobos


Bento XVI resigna. E depois?
por ANSELMO BORGES
"Julgo que não se consegue imaginar o peso que cai em cima de quem aceita ser Papa. Torna-se o responsável primeiro pela Igreja Católica, com 1200 milhões de fiéis. Uma Igreja vergada sob a rigidez da tradição e talvez a única instituição verdadeiramente global, portanto, confrontada com múltiplas sensibilidades, problemas e aspirações: as questões dos europeus não são as dos norte-americanos, dos sul-americanos, dos africanos, dos asiáticos, dos australianos. É uma figura de relevo mundial, com imensa influência política no mundo, mas sujeito aos seus jogos, manhas e ardis. Mesmo viajando pelo mundo inteiro, fica a viver num pequeno território, com os seus rituais seculares e rígidos. Num mundo de homens. Só, onde, quando e como contacta com a família e com os amigos? E os olhos de todos estão sobre ele. Quase sem vida privada. Monarca absoluto, mas com todos os passos vigiados. Qual é o seu poder real? O Papa João XXIII, interrogado por um estudante num Colégio universitário pontifício: "Santidade, como é sentir-se o primeiro?", terá respondido: "Está enganado. Pus-me a contá-los e eu, lá no Vaticano, devo ser o quarto ou quinto."
Bento XVI não foi sempre conservador. Ainda só professor, escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Também escreveu que era necessário repensar a descentralização da Igreja, abrindo um debate sobre o primado papal. Opondo-se à teologia da "satisfação" que situava a Cruz "no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido", rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa". Defendeu, com outros grandes teólogos, a necessidade de debater a questão do celibato obrigatório.
Quando, jovem professor de Teologia, chegou ao Concílio Vaticano II como assessor do cardeal J. Frings, de Colónia, foi crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios e foi provocador, criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."
Em 1968, frente à revolução de estudantes ateus de Teologia, teve medo, encontrando-se aí o ponto decisivo para a sua orientação conservadora; abandonou então a Universidade de Tubinga e o colega e amigo Hans Küng, para ir para Ratisbona. Depois, foi feito arcebispo de Munique e, mais tarde, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou dezenas de teólogos.
Aceitou o papado como "humilde servidor da vinha do Senhor". Deixa uma marca num tema que lhe é caro: a exigência do diálogo entre a fé e a razão; acabou por ser duro e inequívoco contra a pedofilia na Igreja; prosseguiu, embora timidamente, o diálogo com as confissões cristãs e as diferentes religiões, em ordem à paz; condenou sistematicamente a ditadura financeira sem regulação.
Percebeu que não controlava a Cúria, mergulhada em escândalos de corrupção e intrigas, até ao Vatileaks. Foi admoestando cardeais para "renunciarem ao estilo mundano de poder e glória", e dizendo que lhe coubera viver o pontificado de "um pastor rodeado de lobos". Queixava-se: "Os javalis entraram na vinha do Senhor." O cardeal W. Kasper foi advertindo que Bento XVI andava "muito triste" com o péssimo clima no Vaticano.
Fragilizado, sentindo-se sem forças no corpo e no espírito, anunciou que resigna no próximo dia 28, às 20.00 (19.00 em Lisboa e Funchal). Um gesto de inteligência, honestidade e humildade, que fica para a História, pois quebra um tabu e mostra que o Papa é tão-só um servidor da Igreja e do mundo, continuando humano, também com as suas debilidades. Depois, retira-se para um convento, para rezar, meditar, tocar e ouvir música, escrever, mantendo o apagamento. Os cardeais elegerão um novo Papa. Talvez europeu ou latino-americano.” Anselmo Borges, em Artigo de Opinião publicado no DN de 16/02/2013

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Poesia de Hélia Correia vence Prémio Correntes d'Escritas



“A escritora Hélia Correia venceu hoje o prémio literário Correntes d'Escritas/ Casino da Póvoa com o livro de poesia "A Terceira Miséria", editada pela Relógio d' Água.
Na cerimónia, esta manhã, Hélia Correia disse que gostava que "A Terceira Miséria", uma homenagem à Grécia como berço civilizacional, funcionasse como o grito das canções de José Mário Branco "para o povo alevantar-se".
O prémio foi atribuído por unanimidade pelo júri do concurso, composto por Carlos Vaz Marques, Almeida Faria, Helena Vasconcelos, José Mário Silva e Patrícia Reis (que não esteve presente na reunião final do júri realizada na quarta-feira, mas enviou o seu voto). 
Nascida em Lisboa, Hélia Correia – que esta semana tinha já sido distinguida com o Prémio Vergílio Ferreira pela Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra – é formada em Filologia Românica e foi professora do ensino secundário. É escritora, poeta e dramaturga, com uma obra que começou a chamar a atenção no início da década de 80, com a edição de O Separar das Águas (1981). A Casa Eterna (Prémio Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser (Prémio de Ficção do Pen Club, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002), Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006) e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro, 2010) são alguns títulos da sua vasta bibliografia.”DN Artes e Público

Corrente d'Escritas


“Mais de 50 escritores reúnem-se, a partir de hoje, na Póvoa de Varzim, para falar de literatura, na 14. edição das Correntes d'Escritas, o maior encontro de autores de expressão ibérica.
Até sábado, temas como "Mentem-nos tanto os mitos", "Só o que não se sabe é poesia" e "Desse país arranquei todos os cravos" juntarão, em sete mesas de debate, autores como Rubens Figueiredo e Andréa del Fuego (Brasil), Ignacio Martínez de Pisón (Espanha), Luís Cardoso (Timor-Leste), Hélia Correia, Afonso Cruz, Maria Teresa Horta, Mário Zambujal e Vasco Graça Moura, entre muitos outros.
Na sessão de abertura oficial do encontro, marcada para as 11:00, no Casino da Póvoa de Varzim, serão anunciados os vencedores dos prémios Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, Correntes d'Escritas/Papelaria Locus, atribuído a autores com idade entre 15 e 18 anos, Conto Infantil Ilustrado Correntes d'Escritas/Porto Editora e Correntes d'Escritas/Fundação Dr. Luís Rainha.
À tarde, no auditório municipal, caberá ao neurocirurgião João Lobo Antunes proferir a conferência de abertura do encontro, subordinada ao tema "Não fazem mal as musas...".
Além de habitualmente esgotar o auditório municipal de 310 lugares, ao longo dos três dias em que decorre, o encontro, uma iniciativa da Câmara da Póvoa de Varzim lançada em 2000, costuma promover visitas dos escritores a escolas básicas e secundárias do concelho, iniciativa que se repetirá este ano, na quinta e na sexta-feira.
Haverá ainda, além do lançamento de 16 livros, a inauguração de duas exposições, várias sessões de poesia, a apresentação do número 12 da revista Correntes d'Escritas, dedicada a Urbano Tavares Rodrigues, e a habitual Feira do Livro, até sábado, ao lado do auditório, na Casa da Juventude, onde estarão à venda as obras dos autores presentes nesta 14. edição.
A encerrar o encontro, no sábado, ao fim da tarde, serão recordados dois poetas falecidos em 2012: o português Manuel António Pina e o brasileiro Lêdo Ivo.”SIC

Memória

Género
"A memória é o género que se atreve a dizer o seu próprio nome. A biografia diz-nos : " És o que foste." O romance diz-nos: " És  o que imaginas. " A confissão diz-nos : " És o que fizeste. " Mas biografia, confissão  ou romance requerem  memória, pois a memória, diz Shakespeare  é a guardiã da mente. Uma guardiã  diria eu, que se radica no presente para olhar com uma face o passado e com a outra o futuro. A busca do tempo perdido também é , fatalmente, a busca do tempo desejado. Hoje, no presente deste ano terceiro do segundo milénio depois de Jesus , Gabriel Garcia Márquez rememora. Aos que um dia  lhe dirão : " Foste isto" , " Fizeste isto ", ou " Imaginaste isto", Gabo adianta-se e diz simplesmente. Sou, serei, imaginei. Recordo isto." Carlos Fuentes, in " Gabo Memórias da Memória"

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A voz exacta


Sítio Exacto
Sei que não acaba
o teu prazer,
nem o meu.

Alguém
ama connosco
e nos leva
ao sítio exacto
das estações.

Nem o sono
depois nos pertence,
quinhão de outros
herdado após amarem.
António Osório, “O Lugar do Amor'”, in “A Luz Fraterna”, Ed. Assírio &Alvim

Na luz a prumo
Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua, e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos, e as minhas,
pudesse entrar no azul, qualquer
azul: o do mar,
o do céu, o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave, as mãos, a voz.)
E fossem chama. Quase.
Eugénio de Andrade,in “ Os sulcos da sede”, Quasi Edições

... E UMA CANÇÃO DESESPERADA      
...não totalmente,
mas no inveterado fingimento
que o adjectivo tem.
E de inverno em inverno,
à reticência azul do teu sorriso
todos os dias             
desço
Queria da vida:
um pêlo de gigante
que te fizesse enorme e te falasse
junto a voz
falada
Os meus dedos tocando
o teu sorriso,
que, de inverno em inverno,
é nave espacial
emergindo do gelo
para o sol
E eu ficar por ali: tão encostada
ao verso,
carregada de luz
e de outras coisas:
trabalhos a fazer, ritmos lentos
Sem grandes construções,
sem grandes falas,
mas de um pêlo solene de dragão,
e dentro da palavra que é imposta
por esta noite morna,
que me ajuda a compor-te,
que me ajuda de facto
a desesperar:
uma canção de amor.
Descer o teu sorriso e aterrar
em planeta diferente,
onde outras flores com outro nome
nascem,
e as estações são vinte, ou mais
- sensivelmente.
Ana Luísa Amaral, in “Imagias”, Lisboa, Gótica, 2002

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Lisboa por José Cardoso Pires

Lisboa vista do rio Tejo
"Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não  me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até  a brisa que corre me sabe  a sal.  Há ondas de  mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras , há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão;  um pouco atrás , está um rei-menino montado  num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.
(...)" Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa ", escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz ( a tão citada luz  sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta nunca o sol a pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e aos instintos desordenados, à sua placidez  aqui, ao burburinho dos bairros velhos  acolá, e é com esses desvelos que ele lhe dá cor singular.
Terreiro do Paço , estátua de D. José e Arco da Rua Augusta
Cor. De Lisboa é caso para dizer que até os daltónicos lhe discutem a cor. Veja  lá , de preferência o ocre pombalino, recomenda um byroniano de passagem. O verde, o verde, contrapõe alguém logo a seguir, com os olhos no Terreiro do Paço, " até o cavalo de D. José  vai ficando verde , comido de mar", já lá dizia Cecília Meireles. Ou o branco , o branco lembra espumas de oceano, cal de muros, Mediterrâneo, " sente-se uma nostalgia branca...", escreveu Mary McCarthy numa Carta de Portugal e Alain Tanner, cineasta civilizado, não esteve com mais aquelas e chamou a isto Cidade Branca.
Cidade Branca, que cegueira a deste Tanner lumière. É cor , o branco do filme dele ou é metáfora? Interroga as impetuosidades duma luz que no mesmo lugar, no mesmo instante e na mesma cor nunca se repete? Pergunto.
Largo de Camões de Abel Manta, (1888-1982)
Por essas e por outras é que a cor da nossa cidade é tão difícil aos pintores. Descobrimo-la por vezes nos desenhos aguarelados de Bernardo Marques, sim, um pouco; ou na suavidade ingénua de Carlos Botelho. Está naquele entardecer quase soturno do " Largo de Camões" de Abel Manta, na " Rua Augusta à Noite" dum modestissimo académico como José Contente ou na descrição do " Alto de Santa Catarina" por João Abel , aí sem dúvida. Podemos vê-la em azul na versão de Vieira da Silva como já a tínhamos visto  num célebre azulejo do século XVIII, mas em Vieira da Siva , Lisboa  é uma memória que lhe ficou no coração porque , mesmo noutros temas bem distantes , muitos dos seus discursos cromáticos são ecos dos azulejos lisboetas na luz e na composição.
(...) " « Noutros tempos , longos tempos , havia uma sereia em Lisboa, uma sereia...» Conheço uns versos de Robert Desnos que começam desta maneira mas é melhor ficar por aqui porque o Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer.
Grande panorama de Lisboa, a cidade das sete colinas e das mil Igrejas, Sec.XVII
Daí também que nós , os que somos dela, lhe estejamos tão errantes na paixão. Um dia pode acontecer que, sentados como agora sobre o rio , a tentemos ler pela voz dos outros e então ainda nos sentiremos mais errantes, mais incertos. Entre uma Lisboa de Tirso de Molina, saudada como "a oitava maravilha " e a Lisboa que Fielding, o genial , amaldiçoou como um pesadelo leproso, correm águas insondáveis. Beckford viveu-a em palácio, Sade inventou-a num cárcere de rancores. " Lisboa oferece uma apreciável variedade de escolhas para um nobre suicídio", escreveu um dos grandes narradores dela, António Tabuchhi. Vozes , tudo vozes. Olhares. Memorações.
Quando por fim fechamos a página onde líamos a cidade, descobrimos que a vidraça do café  está toldada por uma dança de gaivotas em turbilhão e que não há Tejo. Que desapareceu por detrás de uma desordem  de asas e já não é prenúncio de oceano.
Então, ternamente , confiadamente, reconhecemo-nos ainda mais ancorados  à cidade que nos viu partir." José Cardoso Pires, in " Lisboa, Livro de Bordo, vozes, olhares memorações", Publicações Dom Quixote,1997
Sobre o Livro, nas palavras do autor: “Este livro foi um ajuste de contas comigo mesmo para com uma cidade que eu me fartei de ver, e vejo sempre interpretada de uma maneira um bocado convencional e que eu vejo de uma maneira muito diferente.(...) É uma Lisboa que tenho na memória.(…)Neste livro quis fazer outra coisa: uma espécie de levantamento que desse, com toda a sinceridade, o modo como sinto Lisboa. E é aí que o livro me parece muito diferente da Lisboa convencional do Tejo que é bonito, etc. Há ainda muitas coisas que faltam e que espero trabalhar numa próxima edição: a sintaxe lisboeta. Está abordada, mas não aprofundada. E os cheiros... (…)Quis uma coisa leve, não exaustiva. Chamar a atenção para o lado artístico de Lisboa e para o humor de Lisboa. Um tipo só gosta de uma cidade - e é isso que eu pretendia que se sentisse neste meu livro- quando é cúmplice dela. Interrogar a cidade é fácil, isso qualquer turista faz. Mas um tipo só está a viver numa cidade quando se sente interrogado por ela: "O que é que tu tens a ver comigo?", "Porque é que tu estás aqui?", "Como é que tu te adaptas?", "Porque é que tu não te entendes?" Paris, por exemplo, não me interroga, despreza-me. Enquanto que nas cidades de que gosto (Londres, Rio de Janeiro, Barcelona, Praga), sinto-me interrogado. Em toda a parte há bocados de mim.”            
Sobre o autor:
José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925 em São João do Peso, Vila de Rei, Castelo Branco, mas veio para Lisboa com poucos meses de idade. Lisboa era a cidade  que conhecia profundamente e pela qual tinha um fascínio muito grande. O seu primeiro livro foi publicado em 1949 e o último em 1997. Considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, deixou-nos uma extensa , extraordinária e premiada obra que se reparte por diversos géneros literários. Viveu intensamente  e soube traduzir essa vivência na escrita, mesmo as experiências trágicas como aquela em que   sofreu um acidente vascular-cerebral ( 1995) e entrou em coma. Dessa passagem  escreveu "De Profundis, Valsa Lenta" (1997) que é apresentado pelo autor como uma “viagem à desmemória”. É a única narrativa da sua obra que pode ser considerada autobiográfica.
Em 1997, ganha o Prémio Pessoa, Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus e Prémio da Crítica da Associação Internacional de Críticos Literários (AICA).
Em Julho de 1998  é internado após novo acidente vascular cerebral. Entra em coma e não mais saiu, vindo a falecer em 26 de Outubro de 1998. A Associação Portuguesa de Escritores (APE) atribui-lhe o Prémio Vida Literária, que foi  entregue à mulher do escritor a 23 de Setembro. 
Eduardo Lourenço define-o como :«Homem, nem de certezas nem de incertezas, nem olímpico nem angustiado, o autor de "O Delfim" investiu-se, como uma espécie de predestinação, no papel de detective por conta própria, apostado na descoberta de enigmas ou crimes, secularmente sepultados, sob o espesso silêncio português, raiz e matriz do tempo sonâmbulo (a frase é dele) que lhe coube viver. Viver e reviver em contos e romances inseparavelmente realistas e alegóricos, onde em quem os ler respirará um pouco aquele ar refeito de um passado português que foi o da sua geração e, eminentemente, o seu.» (Público, 27/10/98)
E Urbano Tavares Rodrigues acrescenta:«José Cardoso Pires foi sem dúvida uma figura cimeira entre os melhores escritores portugueses do seu tempo. A sua linguagem é muito depurada, de um grande rigor, por vezes com conotações bem pessoais e intensamente sugestivas.» (Público, 28/10/98)
OBRAS DE JOSÉ CARDOSO PIRES
CONTOS
1949-Os Caminheiros e Outros Contos,1952-Histórias de Amor,1960-Cartilha do Marialva,1963-Jogos de Azar
1972-Dinossauro Excelentíssimo (fábula),1979-O Burro-em-Pé,1988-A República dos Corvos
ROMANCES
1958-O Anjo Ancorado,1963-O Hóspede de Job,1968-O Delfim,1982-Balada da Praia dos Cães,1987-Alexandra Alpha
TEATRO
1960-O Render dos Heróis,1980-Corpo Delito na Sala de Espelhos
CRÓNICAS, ENSAIOS E OUTROS TEXTOS
1977-E Agora, José?,1994-A Cavalo no Diabo1997-De Profundis-Valsa Lenta1997-Lisboa, Livro de Bordo
PRÉMIOS RECEBIDOS
1963-Prémio Camilo Castelo Branco: O Hóspede de Job-1982-Grande Prémio de Romance e Novela da APE: A Balada da Praia dos Cães-1988-Prémio Especial da Associação de Críticos do Brasil:Alexandra Alpha
1991-Prémio Internacional União Latina-1997-Prémio Pessoa-1997-Prémio D.Dinis: De Profundis, Valsa Lenta
1998-Prémio Vida Literária da APE
Veja mais imagens de Lisboa: aqui