quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Equívocos e convicções


Não basta ter razão
Por Ferreira Gullar
"Entendo que alguém, que durante toda a vida tenha tido o marxismo como doutrina e o comunismo como solução dos problemas sociais, se negue, a esta altura da vida, a abrir mão de suas convicções. Entendo, mas não aprovo. Tampouco lhe reconheço o direito de acusar quem o faça de "vendido ao capitalismo." Aí já é dupla hipocrisia.
Tornei-me marxista por acaso, ao ler o livro de um padre católico sobre a teoria de Marx. É verdade que o Brasil daquela época estava envolvido na luta pela reforma agrária e pelo repúdio ao imperialismo norte-americano, que se assustara com a Revolução Cubana.
Confesso que meu entusiasmo por um Brasil concretamente mais democrático não me permitiu examinar, ponto por ponto, a doutrina marxista, para nela descobrir equívocos e propósitos inviáveis.
Não ignorava, claro, as acusações feitas ao regime soviético, mas atribuía aqueles erros à fase stalinista que, após a denúncia feita por Khruschov, havia sido superada. A verdade é que essas questões --sobretudo depois que os militares se instalaram no poder-- não estavam em discussão: o fundamental era derrotar a ditadura e avançar na direcção do regime socialista.
Com o AI-5, em Dezembro de 1968, a repressão aos comunistas e opositores do regime militar intensificou-se, multiplicando-se os casos de tortura e assassinatos.
Tive que deixar o país e ir para a URSS. Convivendo ali apenas com militantes brasileiros e de outros países, pouco pude conhecer da vida dos cidadãos soviéticos, a não ser daqueles que pertenciam à máquina oficial.
De Moscou fui para Santiago do Chile, aonde cheguei poucos meses antes da queda de Allende.
Mergulhado no conflito ideológico que opunha as duas potências antagónicas -URSS e EUA-, não me foi possível ver com maior clareza o que de facto acontecia nem muito menos os erros cometidos também por nós, adversários do imperialismo norte-americano. Isso se tornou evidente para mim, anos mais tarde, quando o sistema socialista ruiu como um castelo de cartas.
Tornou-se então impossível não ver o que de facto ocorria. O regime soviético não ruíra porque um exército inimigo invadira o país. Pelo contrário, foi o povo russo mesmo que pôs fim ao sistema e o fez porque ele fracassara economicamente.Não obstante, muitos companheiros se negavam a aceitar essa evidência. Passaram a atribuir a Gorbatchov a culpa pelo fim do comunismo, como se isso fosse possível. A verdade é que as pessoas, de modo geral, têm dificuldade em admitir que erraram, que passaram anos de sua vida (e alguns pagaram caro por isso) acreditando numa ilusão.
E, além do mais, é compreensível, uma vez que o socialismo propunha derrotar um sistema Económico injusto e pôr em seu lugar outro, fundado na igualdade e na justiça social.
É verdade também que em alguns países onde o socialismo se implantara muito foi feito em busca dessa igualdade. Não obstante, algo estava errado ali, já que o regime era obrigado a coibir a livre opinião e impedir que as pessoas saíssem livremente do país. A pergunta é inevitável: alguém, que vive no paraíso, quer a todo custo fugir dele?
Tampouco o regime capitalista é o paraíso. Longe disso. A diferença é que, dele, podemos sair se o decidirmos, criticá-lo e, pelo voto, mudar o governante. Mas não é só isso. O capitalismo é dinâmico e criativo porque é a expressão da necessidade humana de tudo fazer para melhorar de vida.
Neste momento mesmo, milhões de pessoas estão inventando meios e modos de criar empresas, realizar empreendimentos que lhes possibilitem lucrar e enriquecer.
Como poderia competir com isso um regime cujo processo económico era dirigido por meia dúzia de burocratas, os quais, em nome do Partido Comunista, tudo determinavam e decidiam? Isso conduziu o comunismo ao fracasso e levou a China a tornar-se capitalista para escapar do desastre que pôs fim ao sistema socialista mundial.
O capitalismo, por sua vez, é o regime da exploração e da desigualdade, precisamente porque se funda no egoísmo e na busca do lucro máximo. Se deixarmos, ele suga a carótida da mãe.
O grande problema, portanto, é este: como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, valer-se da riqueza criada para reduzir a desigualdade." Ferreira Gullar, em Crónica publicada na Folha de S. Paulo, 03/02/2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Prémios Literários e Livros

Prémio Literário Europeu 2013
Gonçalo M. Tavares foi nomeado para o Prémio Literário Europeu 2013 para o melhor romance europeu traduzido para holandês no ano transacto, com "Aprender a Rezar na Era da Técnica", editado em Portugal pela Caminho, anunciou a Fundação Holandesa para a Literatura.
Publicado na Holanda pela Querido, Aprender a Rezar na Era da Técnica (Leren bidden in het tijdperk van de techniek ) foi traduzido por Harrie Lemmens.
Entre os vinte finalistas contam-se nomes como Martin Amis (com Lionel Asbo), Javier Marías (com Os Enamoramentos), Emmanuel Carrère (com Limonov), Hilary Mantel (com Bring Up the Bodies) e Ian McEwan (com Sweet Tooth).
O Prémio Literário Europeu é uma iniciativa do Centro Académico Cultural SPUI25, da Fundação Holandesa para a Literatura.
Este galardão literário vai já na sua terceira edição, tendo distinguido Marie NDiaye, com Três Mulheres Poderosas (Teorema), e Julian Barnes, com O Sentido do Fim (Porto Editora), em 2011 e 2012, respectivamente.
O autor da obra vencedora receberá 10 mil euros e o tradutor 2,5 mil euros.
A obra Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares, que tem sido aclamada internacionalmente, está também nomeada para o IMPAC Dublin Literary Award 2013 e já venceu o Prémio para Melhor Romance Estrangeiro em França em 2010, tendo sido finalista, nesse mesmo ano, do Médicis e do Femina.”CNC
 Correntes D'Escritas 2013
O evento irá realizar-se de 21 a 23 de Fevereiro, e o arranque será, à semelhança das edições anteriores, no Casino da Póvoa, no dia 21, às 11h00. A Sessão de Abertura contempla o anúncio dos vencedores dos quatro Prémios Literários e ainda a apresentação do número 12 da Revista Correntes d’Escritas.
São oito os livros de poesia finalistas ao Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, atribuído no âmbito do Correntes d’Escritas.
A lista de finalistas inclui os vencedores do prémio Camões de 2010 e 2011, o brasileiro Ferreira Gullar e o português Manuel António Pina (1943-2012), respectivamente, com os livros Em Alguma Parte Alguma(Ulisseia) e Como se desenha uma casa (Assírio e Alvim).
São ainda finalistas A Terceira Miséria , de Hélia Correia (Relógio D’ Água); As Raízes Diferentes, de Fernando Guimarães (Relógio d'Água); Caminharei Pelo Vale da Sombra, de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim); De Amore, de Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim); Lendas da Índia, de Luís Filipe Castro Mendes (Dom Quixote) e Negócios em Ítaca, de Bernardo Pinto de Almeida (Relógio D’Água).
Os oito foram escolhidos entre os 75 livros de poesia recebidos para o concurso a que podiam concorrer livros escritos por autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica e editados em Portugal, entre Julho de 2010 e Junho de 2012.
O júri desta edição do prémio, constituído por Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Helena Vasconcelos, José Mário Silva e Patrícia Reis, reunirá no dia 20 de Fevereiro para decidir o vencedor. O anúncio dos premiados realizar-se-á no dia 21 de Fevereiro, na sessão de abertura da 14ª edição do Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim." Fonte:Público e CMPV
Saiba mais em:Correntes d’Escritas
Classificado como Livro do Ano pelo Grémio de Livreiros de Madrid e pela Federação de Livreiros da Galiza, "A praia dos afogados", do escritor galego Domingo Villare, acaba de ser lançado, em Portugal, pela Sextante.O escritor, nascido em Vigo, é herdeiro literário de Vásquez Montalbán e de Georges Simenon nas palavras da Editora. Villar estará presente nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim.
Sobre o livro: «Uma manhã, o cadáver de um marinheiro é arrastado pela maré até à beira-mar de uma praia galega. Se não tivesse as mãos amarradas, Justo Castelo seria outro dos filhos do mar a encontrar a sua sepultura entre as águas, durante a faina. Sem testemunhas nem rasto da embarcação do falecido, o inspector Leo Caldas mergulha no ambiente marinheiro da povoação, tentando esclarecer o crime entre homens e mulheres renitentes em revelar as suas suspeitas, mas que, quando decidem falar, indicam uma direcção demasiado insólita.»
"O Golpe de Misericórdia", de Marguerite Yourcenar, com uma introdução de Agustina Bessa-Luís, será lançado a 19 de Fevereiro, pela Dom Quixote
Sinopse: «No regresso de Espanha, convalescente de uma ferida que havia sofrido diante de Saragoça durante a guerra civil, Eric von Lhomond aguarda no bufete da estação de Pisa o comboio que o há-de levar de volta à Alemanha. Também nessa ocasião tudo começara para ele por um regresso, o seu regresso a Kratovicé, ao domínio onde, na companhia de Conrad e de Sophie, passara os últimos tempos de juventude antes de, nos derradeiros meses que antecederam a derrota alemã, haver ingressado num exército já então votado ao mais absoluto fracasso. Aos olhos de Sophie, feridos pelo interminável cortejo das misérias da guerra, Eric regressado parecera irreconhecível. E uma vez que todos os romances que lera até aí pressupunham que a amizade de um estranho pelo irmão sempre se transformasse em amor pela irmã, Sophie transfigurou a chegada de um ser simultaneamente próximo e distante no desespero construído da paixão. O Golpe de Misericórdia é a história do desenrolar dessa paixão, sonhada como um pesadelo ou uma tragédia até ao único dos desfechos possíveis.»
LEMBRANDO RUBEN A.

Os infortúnios que nos cercam, e que não parecem comover o Executivo;  no meio do ruído, do desapego às coisas da vida, e do oportunismo criminoso de alguns - um livro veio iluminar os dias. O poeta Liberto Cruz e sua mulher, Madalena Carretero Cruz, ambos ensaístas, investigadores do fenómeno literário, publicaram, pela Editorial Presença, "Ruben A. Uma biografia", que constitui um admirável trabalho de remoção do silêncio que paira sobre a obra de um dos mais extraordinários prosadores do nosso tempo. Ruben Andresen Leitão, historiador, ou Ruben A., romancista, memorialista, colaborador de jornais, foi uma figura ímpar da cultura portuguesa. E os seus biógrafos, com minúcia e rigor, relatam as peripécias de uma vida agitada, cujo estilo e visão do mundo Salazar detestava.Está tudo neste livro. Até os amigos que, na casa do Monte Olivete, se encontravam em reuniões impensáveis. Conheci-o no "Diário Popular", jornal em que colaborava com uma secção imperiosa e pedagógica, "Livros Escolhidos", do melhor que a Imprensa de então (e a de agora) publicava. Se a prosa de Ruben era desconcertante, ele era a imagem devolvida dessa prosa. Sempre a correr, permanentemente agitado, movendo-se com uma presteza incomum, as características da sua vida são admiravelmente retratadas por Liberto Cruz e por Madalena Carretero Cruz. Eles acentuam a invulgaridade do destino deste imenso escritor; aquilo que constituiu a matéria fundamental da sua existência; os amigos que o não largavam e, também, as torpes invejas, os silêncios sobre a sua obra, e os entusiasmos de pessoas que viam nele o que ele realmente era: um intelectual fora das normas, um romancista sem par e um homem generoso e cordial. Por favor: não percam esta biografia e atirem para os fojos as fancarias que por aí pululam. Este livro é, igualmente, um implacável retrato de Portugal. Bem hajam os dois biógrafos por nos restituírem Ruben A., na dimensão exacta da sua grandeza.” Baptista Bastos em Crónica publicada no JN. Nov. 2012
  
EDUARDO PALAIO RECEBE GRANDE PRÉMIO DE CONTO CAMILO CASTELO BRANCO
O Grande Prémio de Conto Camilo Castelo instituído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão em conjunto com a Associação Portuguesa de Escritores (APE) é entregue ao escritor Eduardo Palaio no próximo dia 22 de fevereiro, pela sua obra "Caixa Baixa". O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Armindo Costa, homenageia o vencedor do prémio numa cerimónia que vai decorrer na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, a partir das 10h30. Para além do autarca estarão ainda presentes o presidente da APE, José Manuel Mendes, entre outras personalidades.
O prémio referente ao ano 2011, tem o valor de 7.500 euros, e foi atribuído por unanimidade pelo júri constituído por Domingos Lobo, Francisco Duarte Mangas, Serafina Martins e Fernando Miguel Bernardes.
"Caixa Baixa", publicado pelas Edições Colibri, reúne cinco contos históricos de Eduardo Palaio, escritor e artista plástico nascido em Sintra em 1942.
Eduardo Palaio é o 21.º escritor premiado com este galardão, depois de nomes como Pires Cabral, Mário de Carvalho, Maria Isabel Barreno, Luísa Costa Gomes, José Eduardo Agualusa, Afonso Cruz entre outros.
Refira-se que o Grande Prémio do Conto destina-se a galardoar anualmente uma obra em língua portuguesa de um autor português ou de um país da lusofonia.
A cerimónia da entrega do prémio ficará ainda marcada pela oferta à Casa de Camilo de uma tela a óleo do acervo particular da artista plástica Armanda Passos, intitulada “Retrato de Ricardina”, numa alusão ao romance camiliano com o mesmo nome datado de 1868." CNC

Asteróide em rota terreste

Asteróide passa "a rasar" a Terra dentro de duas semanas
"É já no próximo dia 15 de Fevereiro que o asteróide de 45 metros de diâmetro vai passar a "apenas" 35,8 mil quilómetros da Terra. Não há risco de colisão com o nosso Planeta. Descoberto pelo observatório La Sagra, em Espanha, o asteróide, baptizado como 2012 DA14, deverá passar mais próximo do nosso planeta quando forem 19h26 do dia 15, sexta-feira, mas, avisa a NASA, impossível de observar a olho nu.
Cerca de quatro minutos depois desta aproximação, o asteróide deverá passar na zona de sombra da terra, onde permanecerá durante cerca de 18 minutos, antes de reaparecer.
Apesar dos "curtos" quilómetros de distância a que passará pela Terra, os cientistas descartam qualquer perigo de colisão do 2012 DA14: a hipótese é de menos de um num milhão. Menos seguros estão, no entanto, os satélites de comunicação.
A NASA diz que esta será a maior aproximação de um objecto destas dimensões ao planeta, desde que começou o seu programa de monitorização, chamado Near Earth Object Program.
"Trata-se de uma aproximação recorde", disse Don Yeomans do Near Earth Object Program, da NASA, citado num comunicado de imprensa da agência espacial americana. "Desde que começámos a observação regular do céu nos anos 90, nunca vimos um objecto tão grande tão perto da Terra". O 2012 DA14 é provavelmente constituído por rocha e, segundo Yeomans, um asteróide destas dimensões passa perto da Terra cada 40 anos, mas choca com o planeta apenas uma vez em cada 1200 anos.
Cratera causada pelo meteoro Barringer ● Deserto do Arizona
O impacto de um asteróide de 50 metros não causa um cataclismo, mas terá sido um objecto destas dimensões, constituído por ferro, a formar a famosa cratera Meteor, no Arizona, há 50 mil anos. Também em 1908, um asteróide do tamanho do 2012 DA14 terá caído na Sibéria, arrasando centenas de quilómetros quadrados de floresta. Ainda hoje os investigadores estudam o chamado "episódio de Tunguska" para tentar conhecer melhor o objecto que o provocou.
A passagem do 2012 DA14 acontecerá numa altitude intermédia entre os satélites geoestacionários (que se encontram a 35 mil quilómetros da Terra) e muitos satélites de observação do planeta (até 2000 quilómetros). Apesar de cruzar a órbita dos satélites geoestacionários, "a possibilidade do impacto com um satélite é extremamente remota", garante Yeomans.
O radar Goldstone da NASA, situado no deserto do Mojave, vai seguir o 2012 DA14 entre 16 e 20 de Fevereiro. A ideia é prever melhor futuros encontros com esta asteróide e também estudar as suas características, devendo produzir um mapa a três dimensões desta rocha espacial. Segundo explica a NASA, nas horas de maior aproximação, o asteróide brilhará como uma estrela de oitava magnitude (não visível a olho nu) e deslocar-se-á a grande velocidade (duas vezes o diâmetro da lua cheia por minuto), o que dificultará a sua detecção por pessoas menos experientes." Fonte: Visão, RTP
Confira a rota do 2012 DA14:

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Não sei o que dizer


Não sei como dizer-te...
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
Herberto Hélder,  in  poema «Tríptico», publicado em” A Colher na Boca”, Ed. Ática, 1961

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O escritor


Dialogando com o público leitor
Por João Ubaldo Ribeiro
“– Boa tarde, o senhor me desculpe eu estar interrompendo sua leitura, mas é só um minutinho.
– Ah, pois não.
– É o seguinte, não é o senhor que é o escritor? O menino ali me disse que o senhor é o escritor.
– Bem, não sei se sou o escritor. Mas sou um escritor, sou, sim.
– Madalena, venha cá, é ele! Madalena! Chame Rosalvo e os meninos, é ele?
– O que foi que houve?
– Madalena é minha esposa, ela estava com vergonha de perguntar se era o senhor mesmo o escritor. Ela me disse que já tinha ouvido muito falar no senhor. E Rosalvo é meu cunhado, que conhece sua obra, é gente boa.
– Sim, eu...
– Não vou interromper nada, pode ficar descansado, o senhor pode continuar com sua leitura.
– Eu...
– Madalena, é ele mesmo! Você tinha razão, é ele. É boa gente, você sabe? Estamos aqui numa prosa ótima, ele é a simplicidade em pessoa. Olha aí, Rosalvo, é ele. Pode sentar, rapaz, ele não morde, há-há!
– Muito prazer, dá licença.
– Eu...
– Meu nome é Rosalvo Luiz da Anunciação Pereira, mas eu costumo assinar apenas Anunciação Pereira.
– Ah, sim, interessante.
– Admiro muito sua obra, O Sargento de Milícias.
– Mas não fui eu quem escreveu esse, foi outro. Bem que podia ter sido eu, mas não fui eu.
– Ah, então o senhor não é autor do “Sargento”?
– Sou, mas de outro sargento, o Sargento Getúlio.
– Ah, mas é claro, que besteira minha. O Sargento de Milícias é de Lima Duarte, não é?
– Lima Duarte? O Sargento...
– Sim, Lima Duarte, do Policarpo Quaresma, grande autor, para mim maior do que Machado de Assis.
– Lima Barreto.
– Sim, claro, claro, Lima Barreto, eu sempre confundo, Lima Duarte é outro.
– E não foi Lima Barreto que escreveu O Sargento de Milícias.
– E quem foi?
– Manoel Ant... Deixa pra lá, tudo bem, Seu Rosalvo.
– Pelo amor de Deus, nada de formalidades, que é isso de “Seu Rosalvo”, os amigos a gente trata pelo nome.
– Muito obrigado, gentileza sua.
– Que é isso que você está bebendo aí, posso dar uma cheiradinha? Ah, isso é caju! De hoje que eu não tomo uma batida de caju, vou pedir uma também enquanto a gente conversa, é coisa pouca, não vou tomar seu tempo, eu sei que você é um homem ocupado e precisa ler o jornal para estar por dentro do que acontece, o escritor tem de estar informado.
– Pois é, eu...
– Madalena, peça uma batida de caju no boteco e traga uns acarajés, uns abarás, uns tira-gostos, umas coisinhas. Quem bebe tem que comer, não é não?
– É, mas eu, pessoalmente, quando estou bebendo...
– Não vou tomar seu tempo, vou direto ao assunto. Eu também sou escritor.
– Ah, que bom, eu...
– Mas até hoje só publiquei um livro, que eu mesmo custeei, um livro de poemas em prosa e mais alguns escritos que eu reuni. Se eu soubesse que ia lhe encontrar aqui, eu lhe trazia um exemplar. Chama-se Retalhos de Mim. Não quero ser imodesto, mas muita gente boa... Não sei se você conhece o professor Martinho Lobo, conhece o professor Martinho Lobo?
– Não, infelizmente não, eu...
– Não conhece Martinho Lobo, da Academia de Odontólogos Escritores, que foi muitos anos professor de português no Central?
– Não, infelizmente...
– Bem, eu vou lhe mandar a cópia de um artigo que Martinho Lobo escreveu na Gazeta de Ipiaú a respeito desse livro meu, você vai ver que comentário interessante, ele foi muito feliz nas observações dele.
– Sim, mas eu...
– Ah, chegou o acarajé! O acarajé dessa baiana é uma beleza, é um dos melhores que eu já provei.
– Eu sei, eu conheço essa baiana desde menino.
– Ah, sim, claro. Com pimenta ou sem pimenta?
– Não, obrigado, eu detesto comer quando estou bebendo. Aliás, eu...
– Abará então? Hum, esse abará...
– Eu...
– Vou direto ao assunto, não quero tomar seu tempo. Para onde é que eu posso mandar uns originais que eu queria que você lesse? São 29 peças curtas, que eu prefiro não rotular, são pedaços de minha vida, de minha sensibilidade. Alguns você poderia chamar de contos. Não sei se você conhece aquela frase de Edgard de Andrade que diz que o conto é tudo aquilo que se chama de conto, conhece essa frase?
– Eu...
– Pois é, mas eu não quis chamar de contos, preferi não dar nome, chega de rótulos, de fórmulas, de coisas preestabelecidas, precisamos inovar a literatura, você não acha? Agora, se depois que você ler você achar que eu devo dizer que são contos, você é que sabe, você é que vai fazer o prefácio, não sou eu.
– Eu vou fazer o prefácio?
– Eu já tinha dito a Madalena e a Walter Augusto – Walter Augusto é meu cunhado, casado aqui com Madalena: eu vou lá conversar com ele e vou ser logo sincero, vou botar as cartas na mesa. Se eu quero o prefácio, pra que ficar enrolando, é ou não é? Madalena, me dê a caneta aí, para eu tomar nota do endereço dele para mandar os originais. Eu moro aqui na Bahia mesmo, isso chega rápido pelo correio, amanhã mesmo eu mando, deve estar aqui dois ou três dias depois, quer dizer, dá para esse prefácio estar pronto daqui para o outro domingo. Mas você não precisa ter o trabalho de me mandar o prefácio e me devolver os originais, eu mesmo venho aqui pegar tudo no próximo fim de semana e assim a gente aproveita para bater outro papo, depois que discutir o prefácio.
– Discutir o prefácio? Eu...
– Agora está na hora de uma cervejinha. Dê cá seu copo aí, que eu vou mandar lavar, que agora a gente vai numa lourinha estupidamente gelada que eu...
– Olha aqui, meu amigo, eu não vou fazer prefácio nenhum, não quero discutir nada com o senhor, não suporto mesa atulhada de caranguejo, folha de banana, farelo de acarajé, resto de vatapá e essa tralha toda aí e, mais do que tudo, não quero nem vou tomar cerveja nenhuma, largue meu copo aí, por favor.
– Mas minha intenção...
– O senhor vai me dar licença, eu vou embora.
– E o endereço?
– Que endereço, rapaz, eu vou lá lhe dar endereço?
– É isso que acontece, Madalena, o sujeito tem um sucessozinho, vira medalhão e aí pisa nos outros! Pode ir, pode ir, eu saberei vencer sozinho! Você já viu que indelicadeza, Madalena, ele age como se tivesse o rei na barriga, não sei o que ele está pensando que é, ainda se fosse um escritor importante mesmo, agora um cara desses que ninguém sabe quem é...” João Ubaldo Ribeiro, in “As cem  Melhores Crónicas Brasileiras” organizadas  por Joaquim Ferreira dos Santos, Ed. Objetiva. 
João Ubaldo Ribeiro é um dos grandes das Letras Brasileiras. Jornalista, escritor e argumentista nasceu a 23 de Janeiro de 1941, na Ilha de Itaparica, Baía. Estreou-se como jornalista em 1957 no Jornal da Bahia. Estudou Direito na Universidade Federal da Baía e, enquanto estudava, participou na edição de jornais e revistas e numa colectânea de contos editada pela universidade, em 1961. Em 1963, escreveu o seu primeiro romance. Viajou e viveu em vários lugares, entre eles em Portugal, em 1981, em consequência de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Participou em vários eventos culturais no estrangeiro, como o Festival Internacional de Escritores.É autor de romances como “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro" , “A Casa dos Budas Ditosos”, “Diário do Farol “(2002), de  crónicas “Um brasileiro em Berlim “(1995) e “O Conselheiro Come” (2000), e na literatura infanto-juvenil “Vida e paixão de Pandomar, o cruel “(1983).Ubaldo Ribeiro estendeu a sua produção literária aos contos infantis, ensaio, traduções e adaptações para cinema e televisão, a que se juntam as crónicas na imprensa brasileira. Foi galardoado com vários prémios e entre eles o Prémio Camões, o mais importante galardão atribuído a autores de língua portuguesa.
Resenha: " A crónica é um género por vezes mais próximo do leitor devido ao seu principal meio de divulgação, o jornal. Em muitas ocasiões é de mais fácil acesso a leitura do periódico diário do que do livro. No entanto, é um texto que destoa do resto do jornal, pois não há necessariamente o compromisso de informar o que está acontecendo. As crónicas colocam o leitor mais perto do texto literário. 
A antologia de crónicas é organizada pelo escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. Este volume forma agora uma trilogia com os anteriores "Os Cem Melhores Poemas" e "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século". Em apenas um livro pode-se ler desde Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues e Fernando Sabino aos mais "novatos" como o pernambucano Xico Sá.
Cronista de primeira e autor da colectânea "Em Busca do Borogodó Perdido", entre outros livros, Joaquim conta que charme, o "it" deste sofisticado prato, está na escolha democrática dos ingredientes: "O borogodó está no que o cronista escolhe como tema". A receita de crónica  explica ele, "é uma obra particular, onde cabem quase todos os ingredientes - mas, por favor, sempre com muito molho. As de Clarice Lispector vêm regadas de azeites da alma. As de Lima Barreto trazem no tempero alguma erva colhida num quintal suburbano."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ao Domingo há Música

Expectação
(...)
Um dia alegre,
Limpo, 
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha  do ouvido
Deslumbrado.
       Miguel Torga , in " Diário XI" , Obra completa de Miguel Torga, Círculo de Leitores



Quando as vozes se combinam  e  arrebatam sem permissão, o caminho é o abandono ao ressoar da melodia. " Spente le Stele " transporta esse singular  deslumbramento 
O registo surge, inesperadamente amanhecido, nas vozes de Emma Shapplin, soprano francesa,  e de George Dalaras, cantor grego,  num concerto realizado em Setembro de 2001, no  Odeon de Herodes Ático da Acrópole de Atenas, Grécia.  

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O verdadeiro silêncio


«Para compreender quem somos e o que fazemos neste mundo, temos de entender o significado do silêncio. Em silêncio, há equilíbrio. A mente e o corpo tornam-se transportes e podemos descobrir quem somos realmente. Quando tudo se simplifica através do silêncio, os emaranhados dos nós interiores e os problemas dissolvem-se gradualmente. O verdadeiro silêncio vem de dentro. Não apenas a ausência de discurso: é uma naturalidade pura, uma calma absoluta, sem obsessões, nem preparação. Não é preciso nada, excepto existir.»Tarthang Tulku, in “Meditação Tibetana”, Editora Vogais, 2009

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O direito de sonhar


"Milénio vai, milénio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.
Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que virá. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século 21, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e , pior ainda, do milénio passado.
Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:
o ar estará livre de todo o veneno que não vier dos medos humanos e das paixões humanas; nas ruas os automóveis serão esmagados pelos cães; as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador; nem compradas pelo supermercado, nem olhadas pelo televisor; o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa;
as pessoas trabalharão para viver, em vez de viver para trabalhar; será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, em vez de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca;
em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo; os economistas não chamarão nível de vida de nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas;
os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de serem fervidas vivas; os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos; os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas;
ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério; a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento ou fortuna o canalha será transformado em virtuoso cavaleiro; ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém;
o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se em falência; a comida não será uma mercadoria e nem a informação um negócio, por que a comida e a informação são direitos humanos; ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;
os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua; os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos; a educação não será privilégio de quem possa pagá-la; a polícia não será o terror de quem não possa pagá-la; a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro contra ombro;
uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru; na Argentina, as loucas da Praça de Mayo serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer dos tempos da amnésia obrigatória;
a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo; a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte"; serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perdem de tanto procurar;
seremos compatriotas e contemporâneos de todos que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo;
a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas, neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."  Eduardo Galeano, in " De Pernas Pro Ar, A escola do Mundo ao avesso ",1999,Editorial Caminho
“Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1940. Foi jornalista e esteve no exílio na década de 70 e começo da década de 80. É autor de uma vasta obra traduzida em mais de vinte línguas. Recebeu o Prémio Casa de las Américas em 1975 e 1978 e o prémio Aloa dos editores dinamarqueses, em 1993. Recebeu ainda os prémios American Book Award (Washington University, USA) em 1989 e Prémio à Liberdade da Cultura, outorgado pela Fundação Lannan, dos Estados Unidos. Escreveu, entre muitos outros livros, a trilogia Memória do FogoAs Veias Abertas da América LatinaO Livro dos AbraçosPalavras AndantesDias e Noites de Amor e de GuerraDe Pernas Pro ArFutebol ao Sol e à Sombra e Mulheres.
Sinopse: De Pernas para o Ar fala de um mundo onde o racismo, a impunidade e a prepotência são valores a perpetuar. Neste mundo o ser-se solidário, justo e lúcido é um pecado capital que é necessário aniquilar. Os vencedores, o exemplo a seguir, não têm deveres e os vencidos, o exemplo a rejeitar, não têm direitos. Este é o mundo em que vivemos, tanto os do Norte como os do Sul, os ricos e os pobres, os opressores e os oprimidos.Mas o autor, num dizer veloz, irónico e acutilante, acredita que é possível e urgente construir um mundo diferente, escrever uma nova história."