por Eugénio Lisboa
“O escritor francês Henry de Montherlant, um dos maiores do século XX francês – Valéry considerava-o o maior – foi, de um modo geral, mais falado e comentado do que real e profundamente lido, como a sua obra merecia e merece. Como prosador, insere-se na grande linha que vem de Bossuet, passa por Chateaubriand e Barrès e nele desagua. Acrescenta-lhes uma ironia felina e uma coragem de dizer “ce qui est”, própria de quem não tem frio nos olhos. Sobre ele, escreveram-se mais dislates do que os muitos que é normal debitar-se sobre os grandes escritores. Grande romancista, grande dramaturgo, grande poeta e ensaísta, não costuma ser referido como um dos mais notáveis pensadores aforistas, na linha dos maiores que a França produziu e a colocam num lugar ímpar, entre as nações.
Na sua obra de narrador, de dramaturgo, de ensaísta, mas, sobretudo, nos seus notabilíssimos CARNETS, os aforismos penetrantes e, às vezes, assassinos e bem dignos dos mais acutilantes antepassados, pululam. Deixo aqui, hoje, uma pequena amostra, para incitar o leitor a procurar mais.
Vivam os meus inimigos! Eles, ao menos, não me podem trair.
Depois de fazer amor, o primeiro a falar diz uma tolice.
Pode ferir-se o amor-próprio; matá-lo, nunca.
Morremos quando não há mais ninguém por quem tenhamos vontade de viver.
A felicidade nunca me aborrece.
Pode fruir-se tanta alegria em dar prazer a alguém, que, às vezes, quase nos sentimos na obrigação de lhe agradecer.
As épocas perturbadas fazem perder tempo. Só se pensa em salvar a cabeça e não há tempo para fazer mais nada.
A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros.
Muitas coisas não merecem ser ditas e muitas pessoas não merecem que as outras coisas lhes sejam ditas. Isto faz muito silêncio.
Todo o grande homem age e escreve para desenvolver duas ou três ideias.
Tudo o que não é paixão tem um fundo de aborrecimento.
A infelicidade só se consola com a infelicidade dos outros.
Há dois momentos na sua vida em que todo o homem é respeitável: na sua infância e na sua agonia.
Eugénio Lisboa, 28.01.2022