quinta-feira, 27 de março de 2025

Frase do dia

Frase do dia, proposta por Eugénio Lisboa
Um pensamento para esta guerra
 
More than an end to war, we want an end to the beginning of all wars, yes, an end to this brutal, inhuman and thoroughly unpractical method of settling differences between governments.
 
(Mais do que um fim da guerra, desejamos um fim do começo de todas as guerras, sim, um fim deste método brutal, inumano e nada prático de resolver diferenças entre governos.)
Franklin D. Roosevelt

Nota de LP: Esta frase foi proposta e remetida  por Eugénio Lisboa a Livres Pensantes, em 1 e Novembro de 2023. Republica-se pela validade que encerra e pela profunda argúcia que sempre regulou a visão do mundo por Eugénio Lisboa.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Leonard Cohen

Leonard Cohen
"Com a  sua singular e sempre extraordinária   voz rouca e grave, Leonard Cohen  lançou o  último álbum "You want it darker" a 21 de Outubro de 2016, pela Columbia Records , 17 dias antes da sua morte , no qual reflectia sobre a sua própria mortalidade. Nascido em Montréal a 21 de Setembro de 1934, numa família de origem judaica, Leonard Cohen teve uma infância marcada pelo morte do pai, quando tinha nove anos. Estudou Inglês na Universidade de McGill e cedo se apaixonou pela poesia de García Lorca. 
Desde os anos sessenta, foi publicando  onze livros de poemas, dois romances e dezassete álbuns musicais que fizeram dele,  um dos mais conhecidos e influentes artistas , no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa. Muitas vezes,  foi comparado a Bob Dylan pela profundidade de suas letras. 
"Leonard Cohen foi um músico sem igual, cuja obra assombrosa e original alcançou gerações de fãs e artistas", destacou a gravadora Sony Music. 
"O seu extraordinário talento teve um impacto profundo num número incalculável de cantores e compositores e sobre a cultura em geral", afirmou a Academia dos Grammys, que concedeu em 2010 um prémio especial a Cohen pelo conjunto de sua carreira. 
Em 2011 foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras.
Cohen morreu a 7 de Novembro de 2016, aos 82 anos, em sua casa em Los Angeles.
A morte foi anunciada a 10 de Novembro. Deixou dois filhos e dois netos.
Numa entrevista concedida  à  revista New Yorker, cerca de um mês antes, Cohen disse que estava preparado para a sua morte, embora garantisse que ainda tinha livros, canções e letras para terminar."

Leonard Cohen, em  Hallelujah (Live In London). 
Hallelujah foi lançada, pela primeira vez, no álbum de estúdio de Cohen, Various Positions, em 1984 . Ao longo dos anos, foi interpretada por quase 200 artistas em várias línguas.
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Leonard Cohen, em  Anthem (Live in London)
 
Leonard Cohen, em   Tower Of Song (Live in London).
 
Leonard Cohen, em  Dance Me To The End Of Love (Live in London).
   
Leonard Cohen , em  Who By Fire (Live in London).
 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Os meus romances preferidos

Os meus romances preferidos
por Luiz Ruffato
“Não sei quando começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar o nosso antepassado mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre os nomes da tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam as suas metas para o ano que se inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das inúteis...
Feitas as compras, a lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque estabelecem um vínculo com o futuro, e projectarmo-nos é uma forma de vencer a morte.
Tudo isso, para justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que preferências intelectuais, uma história afectiva das minhas leituras. Enquadro-a na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie discussões, já que toda escolha é subjectiva e aleatória, ou, na melhor das hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor. Ocorresse isso, me daria por satisfeito.

Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
Anna Karenina, de Liev Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929, acompanha a trajectória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim caótica do período entre guerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objectiva e subjectiva.

Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal. Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos protagonistas vivem no ténue limite entre real e fantástico. 

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616) – Composto por dois tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo. 

Enquanto agonizo, de William Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o último desejo da matriarca. 

Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837, possui seis diferentes traduções disponíveis.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às péssimas.

Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia branca pelo capitão Ahab. 

No coração das trevas, de Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror. 

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia.

O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. 

O monte dos vendavais, de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger, desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos imemoriais. A edição original é de 1958. 

O processo, de Franz Kafka (1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas. 

O vermelho e o negro, de Stendhal (1783-1842) – Egoísta e ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. .

Oblómov, de Ivan Goncharóv (1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo sucumbir à inércia e à indiferença. 

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879, narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos: Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela psicanálise. 

Pedro Páramo, de Juan Rulfo (1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.


Uma Viagem sentimental,  de Laurence Sterne (1713-1768) – Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer alcançar a Itália, objectivo aparente do personagem, se levarmos a sério o título. Tem uma edição pela Antígona, com tradução de Manuel Portela.
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis, criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Tem edição portuguesa pela Relógio D'Água, com tradução de  Luzia Maria Martins.”
Luiz Ruffato,  em artigo do Jornal   El País, de  2.12.2014

domingo, 23 de março de 2025

Ao Domingo Há Música











 









One Love, One Heart
 Let's get together and feel all right
 As it was in the beginning (One Love)
 So shall it be in the end (One Heart)
 Give thanks and praise to the Lord and I will feel all right
 One more thing!

Chegar à Jamaica  é sentir que não se está longe de África . A ilha onde tudo se compõe para nos levar,  de imediato , a qualquer lugar daquela África que nos seduz à chegada. As cores, a terra , o calor húmido dos dias de chuva e as sorridentes  gentes que enchem  as ruas de vivaz ruído , em constante  e sobrevivente labor.  É  o  trânsito pulando e seguindo em tácita desordem, para  fazer  da rotina uma aventura diária. É a  beleza luxuriante das montanhas  que rodeiam as cidades, num abraço largo de mistério . São as  frondosas florestas ,  com recônditos povoados , traçados pelas mãos laboriosas de quem lá habita .
E o mar. O mar que  se enrola e banha a costa  , em aconchego permanente,  a mimar as praias num amor declarado.  O mar de  mil telas, de um azul translúcido  em infindas gradações , que só o caribenho oceano permite . O mar que traz e leva e se perde em cada olhar.   
É assim a Jamaica.

Eis Bob Marley, o ícone da Jamaica,  que levou ao mundo a sua voz e projectou, para sempre, esta bela ilha da América Central.
Bob Marley , em No Woman, No Cry (Live At The Lyceum, London 1975) official music video.
  
 Bob Marley, em One Love (Extended) 
 
 Bob Marley  , em The Heathen (Live At The Rainbow Theatre, London  4th June/ 1977.
     

sexta-feira, 21 de março de 2025

Celebrar o Dia Mundial da Poesia

Eugénio Lisboa
O Dia Mundial da Poesia comemora-se anualmente, a 21 de Março. A data foi instituída na 30.ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1999. O objectivo é salientar a importância da poesia, enquanto manifestação artística comum a toda a Humanidade. Celebra-se também a criatividade, a pluralidade linguística e cultural e promove-se o ensino e declamação da poesia.
Neste dia  dedicado à POESIA ,  só Eugénio Lisboa ( 1930-2024), professor , crítico literário, ensaísta ,  poeta de  muito engenho e de laboriosa oficina poética, podia dar o mote a esta  tentativa de celebrar  a poesia, neste espaço. Ao longo dos anos e diariamente  até à sua morte, a 9 de Abril de 2024, brindou-nos  com a sua opípara e policromática escrita , onde o poema era rei.  É o primeiro ano da sua ausência real, mas ficará para sempre nas páginas da Literatura pela fecunda  e excelente  produção literária que legou ao mundo. 
                          
A boa poesia é aquela,
que diz muito, mesmo falando pouco,
não vá o bom poeta ficar rouco!
Eugénio Lisboa , Poemas em Tempo de Guerra,
Guerra & Paz Editores

A POESIA
por Eugénio Lisboa
“A poesia mente muito, mas diz sempre o que mais a aproxima da verdade. Sabe é dizê-lo, de um modo muito especial, que é não dizer, dizendo, enviesando e despistando. O próprio do poeta é “citar” o leitor, como se “cita” um touro. O poeta não dá respostas: abre pistas. Quem dá respostas são os padres e os charlatães. Os poetas fazem perguntas sugestivas que apontam, nunca para um só caminho, mas para vários. O não responder dos poetas aproxima-se mais da resposta do que o responder dos padres. O não responder dos poetas tem mais resposta do que o responder dos bispos. O poeta pretende que não sabe, o padre finge que sabe. Há mais saber no não responder do que no responder. Mesmo quando o poeta parece que afirma, está só a perguntar. Há mais filosofia no que diz que não sabe do que em todas as religiões somadas e muito cheias de certezas. Não saber, ter dificuldade em compreender, abre-nos mais portas para a verdade do que ter resposta para tudo. Os poetas e os homens de ciência têm, no que não sabem, promessas de tesouros que se furtarão a todas as religiões do mundo. Pensar que ainda se não sabe é a melhor alavanca para algum saber. Pensar que se sabe e que aquele é o único saber admitido convoca a tortura e a fogueira. Os poetas nunca queimaram ninguém, mas alguns deles já foram queimados. O que julga que sabe e não sabe está sempre preparado para eliminar o que quase sabe mas sabe que está ainda longe de saber. A certeza tem horror à dúvida, como antigamente se dizia que a natureza tem horror ao vazio. A dúvida faz avançar o conhecimento. A certeza barra-lhe o avanço. Como os cientistas, os poetas estão vivos e activos porque ainda não sabem: quando muito, desconfiam. Como dizia um filósofo francês, a dúvida pode ser dolorosa, mas a certeza é ridícula.”
Eugénio Lisboa, 09.11.2022

Quando vier a Primavera

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro,
in  Poesia (Poemas Inconjuntos - Fernando Pessoa), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

De poesia falemos

Escrevo poesia, mas não é
só de poesia que me sustento.
Às vezes, prefiro um bom café,
que me fica muito mais a contento.

Poesia, talvez, mas devagar,
com muita boa prosa pelo meio.
O poema entretém-se a emblemar
biscoito leve com pouco recheio.

Nele hesita-se entre o que se diz
e o modo singular de o dizer.
O poema é fértil em ardis,

que ao recheio dão o som que requer.
Mesmo quando o miolo não abunda,
dá-lhe o som uma ajuda fecunda.
17.06.2023
Eugénio Lisboa, ( poema inédito)
Autobiografia

Uma vida escreve-se devagar,
embora se viva muito depressa:
mal se partiu, já se está a chegar,
mesmo que, no meio, muito aconteça!

Escrevê-la é moroso e complicado:
a memória guarda mas também esquece
e, se parte fica resguardado,
o resto, ingloriamente, fenece!

Escreve-se a vida, pra vencer a morte,
para dar à vida uma outra vida,
fechando-a, enfim, num cofre forte.

No cofre guardada e não esquecida,
pensa quem escreve, mal sabendo
quanto tudo o tempo vai roendo!
                        08.12.2022
Eugénio Lisboa,in Soneto modo de usar, Guerra & Paz Editores, Abril de 2024, p105

Não Canse o Cego Amor de me Guiar

Pois meus olhos não cansam de chorar
Tristezas não cansadas de cansar-me;
Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me
Pôde quem eu jamais pude abrandar;

Não canse o cego Amor de me guiar
Donde nunca de lá possa tornar-me;
Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
Enquanto a fraca voz me não deixar.

E se em montes, se em prados, e se em vales
Piedade mora alguma, algum amor
Em feras, plantas, aves, pedras, águas;

Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes mágoas podem curar mágoas.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos", Bertrand Editores

A defesa do poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
Que favor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.
Natália Correia, in  Poesia Completa: O sol nas noites e o luar nos dias. Lisboa: Editorial D. Quixote, 1999, pp. 330-331

Elegia múltipla V

Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Ó feroz mundo puro,
ó vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.

Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti, quando é a altura das rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
─ Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
com uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.

Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se à maturidade
confluente
de um minuto de verão. - Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.

Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.

Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.

─ Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.

Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive da sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. É única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.

─ Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
Herberto Helder, in Elegia múltipla,Poema v , Poesia toda , Assírio & Alvim,1996
Prólogo

Do outono que termina
nenhuma coisa é perto.
Cada uma culmina
em tudo ser aberto

e claro movimento
sem uma qualquer história.
Que ser no pensamento
é obra sem memória.

Ou, se memória fosse,
da longa caminhada
guardaria o que trouxe

- a paz de ser pensada
e uma mágoa doce
de outono e de mais nada.
Aonde formos iremos
pensando esta luz que passa.
Esta luz que, agora, vemos
molhada além da vidraça

mas que, pensada, ilumina
outro rio e outra rua
e muda mesmo à retina
o modo de se ver sua.

Sem que, por isso, no rio
mude, ou na rua, o passar.
Tudo segue o mesmo fio

em retina igual. Só o ar
tem um contorno mais frio
na margem de ver passar.
Fernando Echevarría, in  Introdução à Filosofia, Edições Nova Renascença, Porto
1981

Eu ontem vi-te...

Eu ontem vi-te...
ndava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.
Ângelo de Lima, in Poesias Completas, Editorial Inova ,1971

Poema do Natal

PARA ISSO fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos ─
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.


Assim será a nossa vida
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos ─
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai ─
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação na poesia
Para ver a face da morte ─
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem: da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes, in O poeta apresenta o poeta, Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote 1969


Morrer de amor

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso
Maria Teresa Horta, in Destino , Livro I , Quetzal Editores , Abril de 1998

.
Teus Olhos

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária
Octavio Paz, in Liberdade sob a Palavra (1949)
Beira-mar

Tudo abeirou minha infância
beira do rio, beira-mar,
orla branca de esperança
no leste do meu olhar.

Meu batelão emborcado
à beira de me afogar,
eu sobre a ponte abeirado
puxando minhas puçás.

Beirando todas as rotas,
nas asas das gaivotas
meus olhos cruzavam o mar;

sonhava à beira do caís
com um barco, nada mais,
e eu no mundo a navegar.

Curitiba, Novembro de 2004
Manoel de Andrade, in Cantares, Poemas, Editora Escrituras, São Paulo , Brasil, 2007, p.44

O teu tesouro

Além, muito além desta paisagem,
numa realidade apenas pressentida
compreenderás ao fim dessa viagem
de onde vens e pra onde vais, na vida.

No torvelinho incessante dos destinos
cada um com seu papel nessa ribalta
semeando a ventura ou os desatinos
colherás o que te sobra ou que te falta.

Viandante dos caminhos milenares
aprendeste na decepção e nos pesares
que “nem tudo o que reluz é ouro”.

Guarda-te pois das ciladas da ilusão
porque “aonde estiver teu coração,
ali estará também o teu tesouro.
Manoel de Andrade, poesia
 
 Sebastião da Gama (1924-1952). “Poesia”(2.02.1945) in «Serra-Mãe», 1945
Dito por Carmen Dolores, no CD «Poemas da Minha Vida», Dito e Feito, 2003

Poesia

Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
— deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras...

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
p'ra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença...
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe..

quarta-feira, 19 de março de 2025

Boa viagem, senhor presidente


Boa viagem, senhor presidente
por Gabriel Garcia Marquez
"Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhas amarelas do parque solitário, contemplando os cisnes empoeirados com as mãos apoiadas no pomo de prata da bengala, e pensando na morte. Quando veio a Genebra pela primeira vez o lago era sereno e diáfano, e havia gaivotas mansas que se aproximavam para comer nas mãos, e mulheres de aluguel que pareciam fantasmas das seis da tarde, com véus de organdi e sombrinhas de seda. Agora a única mulher possível, até onde a vista alcançava, era uma vendedora de flores no embarcadouro deserto. Ele custava a crer que o tempo tivesse podido fazer semelhantes estragos não apenas em sua vida, mas no mundo. Era um desconhecido a mais na cidade de desconhecidos ilustres. Estava de terno azul-escuro com listras brancas, colete de brocado e o chapéu duro dos magistrados aposentados. Tinha um bigode altivo de mosqueteiro, o cabelo azulado e abundante com ondulações românticas, as mãos de harpista com a aliança de viúvo no anular esquerdo, os olhos alegres. A única coisa que delatava o estado de sua saúde era o cansaço da pele. E ainda assim, aos 73 anos, continuava sendo de uma elegância clássica. Naquela manhã, no entanto, sentia-se a salvo de toda vaidade. Os anos de glória e poder haviam ficado para trás sem remédio, e agora só permaneciam os da morte.Havia voltado a Genebra depois de duas guerras mundiais, em busca de uma resposta terminante para uma dor que os médicos da Martinica não conseguiram identificar. Havia previsto não mais do que quinze dias, mas já haviam-se passado seis semanas de exames extenuantes e resultados incertos, e ainda não se vislumbrava o final. Buscavam a dor no fígado, nos rins, no pâncreas, na próstata, onde menos estava. Isso, até aquela quinta-feira indesejável, na qual o médico menos notório dos muitos que o haviam visto chamou-o às nove da manhã no pavilhão de neurologia.
O escritório parecia uma cela de monges, e o médico era pequeno e lúgubre, e tinha a mão direita engessada por causa de uma fratura no polegar. Quando apagou a luz, apareceu na tela a radiografia iluminada de uma espinha dorsal que ele não reconheceu como sua até que o médico apontou com uma varinha, debaixo de sua cintura, a união de duas vértebras.
- Sua dor está aqui – disse a ele.
Para ele, não era tão fácil. Sua dor era improvável e escorregadia, e às vezes parecia estar nas costelas direitas e às vezes no baixo-ventre, e muitas vezes o surpreendia com uma agulhada instantânea na virilha. O médico escutou-o em suspenso e com a varinha imóvel na tela. “Por isso nos despistou durante tanto tempo”, disse. “Mas agora sabemos que está aqui.” Depois colocou o indicador na fronte e precisou:
- Embora, a rigor senhor presidente, sua dor esteja aqui.
Seu estilo clínico era tão dramático que a sentença final pareceu benévola: o presidente tinha que se submeter a uma operação arriscada e inevitável. Perguntou qual era a margem de risco, e o velho doutor envolveu-o numa luz de incerteza.
- Não podemos dizer com segurança – disse.
Até pouco tempo atrás, explicou, os riscos de acidentes fatais eram grandes, e mais ainda os de diferentes paralisias em diversos graus. Mas com os avanços médicos das duas guerras esses temores eram coisas do passado.
- Vá tranqüilo – concluiu. – Prepare bem suas coisas e nos avise. Mas não se esqueça que quanto antes, melhor.
Não era uma boa manhã para digerir essa má notícia, e menos ainda à intempérie. Havia saído muito cedo do hotel, sem abrigo, porque viu um sol radiante pela janela, e havia ido com seus passos contados do Chemin du Beau Soleil, onde estava o hospital, até o refúgio dos namorados furtivos do parque Inglês. Estava ali fazia mais de uma hora, sempre pensando na morte, quando começou o outono. O lago encrespou-se como um oceano embravecido, e um vento de desordem espantou as gaivotas e arrasou com as últimas folhas. O presidente se levantou e, em vez de comprar da florista, arrancou uma margarida dos canteiros públicos e colocou-a na lapela. A florista o surpreendeu.
- Estas flores não são de Deus, senhor – disse, contrariada. – São da prefeitura.
Ele não deu atenção. Afastou-se com passos ligeiros, empunhando a bengala pelo meio, e fazendo-a girar de vez em quando, com um ar um tanto libertino. Na ponte do Mont Blanc estavam, a toda pressa, tirando as bandeiras da Confederação enlouquecidas pela ventania, e o esbelto chafariz coberto de espuma apagou-se antes do tempo. O presidente não reconheceu sua cafeteria de sempre sobre o embarcadouro, porque haviam retirado o toldo verde do terraço e as varandas floridas do verão acabavam de ser fechadas. No salão, os lustres estavam acesos em pleno dia, e o quarteto de cordas tocava um Mozart premonitório. O presidente apanhou no balcão um jornal da pilha reservada aos clientes, pendurou o chapéu e a bengala no cabide, pôs os óculos com armação de ouro para ler na mesa mais afastada, e só então tomou consciência de que havia chegado o outono. Começou a ler pela página internacional, onde encontrava muito de vez em quando alguma notícia das Américas, e continuou lendo de trás para diante até que a garçonete levou sua garrafa diária de água de Evian. Há mais de trinta anos havia renunciado ao hábito do café por imposição de seus médicos. Mas dissera: “Se alguma vez tiver a certeza de que vou morrer, tornarei a tomar café.” Talvez a hora tivesse chegado.
- Traga também um café – pediu num francês perfeito. E explicou, sem reparar no duplo sentido: – À italiana, desses que levantam um morto. Tomou-o sem açúcar, devagar, e depois colocou a xícara de boca para baixo, para que o sedimento do café, após tantos anos, tivesse tempo de escrever seu destino. O sabor recuperado redimiu-o por um instante de seu mau pensamento. Um instante depois, como parte do mesmo sortilégio, sentiu que alguém olhava para ele. Então passou as páginas com um gesto casual, olhou por cima dos óculos, e viu o homem pálido e com a barba por fazer, com um boné esportivo e uma jaqueta de couro com forro de ovelha, que afastou o olhar no mesmo instante para não tropeçar com o dele. Sua cara era familiar. Haviam se cruzado várias vezes no vestíbulo do hospital, havia tornado a vê-lo num dia qualquer numa motoneta pela Promenade du Lac enquanto contemplava os cisnes, mas nunca sentiu-se reconhecido. Não descartou, em todo caso, a possibilidade de ser outra das tantas fantasias persecutórias do exílio.
Terminou o jornal sem pressa, flutuando nos seios suntuosos de Brahms, até que a dor foi mais forte que a analgesia da música. Então olhou o reloginho de ouro que usava pendurado numa corrente no bolso do colete, e tomou as duas pílulas calmantes do meio-dia com o último gole da água de Evian. Antes de tirar os óculos decifrou seu destino no assentamento do café, e sentiu um estremecimento glacial: ali estava a incerteza. Finalmente pagou a conta com uma gorjeta estreita, apanhou o chapéu e a bengala no cabide, e saiu para a rua sem olhar o homem que olhava para ele. Afastou-se com seu andar festivo, beirando os canteiros de flores despedaçadas pelo vento, e acreditou-se liberado do feitiço.
Mas de repente sentiu passos atrás dos seus, deteve-se ao dobrar uma esquina e deu meia-volta. O homem que o seguia teve que parar em seco para não tropeçar com ele, e olhou-o assustado, a menos de dois palmos de seus olhos.
- Senhor presidente – murmurou.
- Diga a quem lhe estiver pagando que não tenha ilusões – disse o presidente, sem perder o sorriso ou o encanto da voz. – Minha saúde está perfeita.
- Ninguém melhor que eu para saber disso – disse o homem, humilhado pela carga de dignidade que lhe caiu em cima. – Trabalho no hospital.
A dicção e a cadência, e ainda sua timidez, eram as de um caribenho puro.
- Não me diga que é médico – disse o presidente.
- Quem me dera, senhor – disse o homem. – Sou chofer de ambulância.
- Sinto muito – disse o presidente, convencido de seu erro. – É um trabalho duro.
- Não tanto como o seu, senhor.
Ele olhou-o sem reservas, apoiou-se na bengala com as duas mãos, e perguntou-lhe com um interesse real:
- De onde o senhor é?
- Do Caribe.
- Já percebi – disse o presidente. – Mas de que país?
- Do mesmo que o senhor, presidente – disse o homem, e estendeu-lhe a mão. – Meu nome é Homero Rey.
O presidente interrompeu-o surpreso, sem soltar a sua mão.
- Caramba! – disse. – Que bom nome!
Homero relaxou.
- E tem mais – disse. – Homero Rey de la Casa.
Uma punhalada invernal surpreendeu-os indefesos na metade da rua. O presidente estremeceu até os ossos e compreendeu que não poderia caminhar sem abrigo os dois quarteirões que faltavam até a pensão de pobres onde costumava comer.
- Já almoçou? – perguntou a Homero.
- Não almoço nunca – disse Homero. – Como uma vez só de noite, na minha casa.
- Faça uma exceção hoje – disse com todos os seus encantos à flor da pele. – Eu convido.
Pegou-o pelo braço e levou-o até o restaurante em frente, com o nome dourado no toldo: Le Boeuf Couronné. O interior era estreito e cálido, e não parecia haver nenhum lugar livre. Homero Rey, surpreso por ninguém conhecer o presidente, continuou até o fundo do salão para pedir ajuda.
- É presidente em exercício? – perguntou o dono.
- Não – disse Homero. – Derrubado.
O dono soltou um sorriso de aprovação.
- Para esses – disse – tenho sempre uma mesa especial.
Levou-os a um lugar afastado no fundo do salão, onde podiam falar à vontade. O presidente agradeceu.
- Nem todos reconhecem como o senhor a dignidade do exílio – disse.
A especialidade da casa eram costelas de boi na brasa. O presidente e seu convidado olharam em volta, e viram nas outras mesas os grandes pedaços assados com uma beirada de gordura tenra. “É uma carne magnífica”, murmurou o presidente. “Mas para mim é proibida.” Fixou em Homero um olhar travesso e mudou de tom.
- Na verdade, me proibiram tudo.
- O café também – disse Homero -, e mesmo assim tomou.
- Você notou? – disse o presidente. – Mas hoje foi só uma exceção num dia excepcional.
A exceção daquele dia não foi só o café. Também encomendou uma costela de boi na brasa e uma salada de legumes frescos sem outro tempero além de um jorro de azeite de oliva. Seu convidado pediu a mesma coisa, mais meia garrafa de vinho tinto. Enquanto esperavam a carne, Homero tirou do bolso da jaqueta uma carteira sem dinheiro e com muitos papéis, e mostrou ao presidente uma foto desbotada. Ele se reconheceu em mangas de camisa, com vários quilos a menos e o cabelo e o bigode de um negro intenso, no meio de um tumulto de jovens que haviam se empinado para sobressair. De um só olhar reconheceu o lugar, reconheceu os emblemas de uma campanha eleitoral maçante, reconheceu a data ingrata. “Que barbaridade!” murmurou. “Sempre disse que a gente envelhece mais rápido nos retratos que na vida real”. E devolveu a foto com um gesto de último ato.
- Lembro-me muito bem – disse. – Foi há milhares de anos na arena de galos de briga de San Cristóbal de las Casas.
- É a minha cidade – disse Homero, e apontou a si mesmo no grupo: – Este sou eu.
O presidente reconheceu-o.
- Você era uma criança!
- Quase – disse Homero. – Estive com o senhor em toda a campanha do sul como dirigente das brigadas universitárias.
O presidente antecipou-se à recriminação.
- Eu, é claro, nem ao menos reparava no senhor – disse.
- Ao contrário, era muito gentil conosco disse Homero. – Mas éramos tantos que não é possível que o senhor se lembre.
- E depois?
- Quem melhor que o senhor para saber? – disse Homero. – Depois do golpe militar, o milagre é estarmos nós dois aqui, prontos para comer meio boi. Não foram muitos os que tiveram a mesma sorte.
Nesse momento chegaram os pratos. O presidente pôs o guardanapo no pescoço, como um babador de criança, e não foi insensível à calada surpresa do convidado. “Se não fizer isto perco uma gravata por refeição”, disse. Antes de começar provou o ponto da carne, aprovou-o com um gesto satisfeito, e voltou ao tema.
- O que não entendo – disse – é por que não me procurou antes de maneira aberta, em vez de me seguir feito um sabujo.
Então Homero contou-lhe que o havia reconhecido desde que o viu entrar no hospital por uma porta reservada para casos muito especiais. Era pleno verão, e ele estava com um terno completo de linho branco das Antilhas, com sapatos combinados em branco e negro, a margarida na lapela, e a formosa cabeleira alvoroçada pelo vento. Homero verificou que ele estava sozinho em Genebra, sem a ajuda de ninguém, pois conhecia de cor a cidade onde havia terminado seus estudos de Direito. A direção do hospital, por solicitação sua, tomou as determinações internas para assegurar o sigilo absoluto. Naquela mesma noite, Homero combinou com sua mulher fazer contato com ele. No entanto, o havia seguido por cinco semanas buscando uma ocasião propícia, e talvez não tivesse sido capaz de cumprimentá-lo se ele não o tivesse enfrentado.
- Fico feliz de ter feito isso – disse o presidente -, embora na verdade não me incomode nem um pouco estar sozinho.
- Não é justo.
- Por que? – perguntou-lhe o presidente com sinceridade. – A maior vitória da minha vida foi conseguir que me esqueçam.
- Nós lembramos do senhor mais do que o senhor imagina – disse Homero sem dissimular sua emoção. – É uma alegria vê-lo assim, saudável e jovem.
- No entanto – disse ele sem dramatismo -, tudo indica que morrerei em pouco tempo.
- Suas possibilidades de se recuperar são muito altas – disse Homero.
O presidente deu um salto de surpresa, mas não perdeu a graça.
- Opa! – exclamou. – Será que na bela Suíça foi abolido o sigilo médico?
- Em nenhum hospital do mundo existem segredos para um chofer de ambulância – disse Homero.
- Pois o que sei fiquei sabendo há apenas duas horas e pela boca do único que deveria estar sabendo.
- Seja como for, o senhor não morrerá em vão – disse Homero. – Alguém irá colocá-lo no lugar que lhe corresponde como grande exemplo de dignidade.
O presidente fingiu um assombro cômico.
- Obrigado por me prevenir – disse.
Comia como fazia tudo: devagar e com um grande esmero. Enquanto isso, olhava para Homero direto nos olhos, de maneira que este tinha a impressão de ver o que ele pensava. Após uma longa conversa de evocações nostálgicas, deu um sorriso maligno.
- Havia decidido não me preocupar com o meu cadáver – disse -, mas agora vejo que devo tomar certas precauções de romance policial para que ninguém o encontre.
- Vai ser inútil – brincou Homero. – No hospital não existem mistérios que durem mais que uma hora.
Quando terminaram o café, o presidente leu o fundo de sua xícara, e tornou a estremecer: a mensagem era a mesma. No entanto, sua expressão não se alterou. Pagou a conta em dinheiro, mas antes verificou a soma várias vezes, contou várias vezes o dinheiro com um cuidado excessivo, e deixou uma gorjeta que só mereceu um resmungo do garçom.
- Foi um prazer – concluiu, ao se despedir de Homero. – Não tenho data para a operação, e nem mesmo decidi se vou ou não me operar. Mas se tudo der certo, tornaremos a nos encontrar.
- E por que não antes? – disse Homero. – Lázara, minha mulher, é cozinheira de ricos. Ninguém prepara o arroz com camarões melhor que ela, e gostaríamos de tê-lo em casa uma noite dessas.
- Fui proibido de comer mariscos, mas vou com muito prazer – disse. – É só dizer quando.
- Quinta-feira é meu dia de folga – disse Homero.
- Perfeito – disse o presidente. – Quinta às sete da noite estou em sua casa. Será um prazer.
- Passarei para buscá-lo – disse Homero. – Hotelerie Dames, 14 rue de l’Industrie. Atrás da estação. Certo?
- Certo – disse o presidente, e levantou-se mais encantador que nunca. – Pelo que estou vendo, sabe até o número do meu sapato.
- Claro, senhor – disse Homero, divertido. – Quarenta e um.

O que Homero Rey não contou ao presidente, mas continuou contando durante anos para quem quisesse ouvir, foi que seu propósito inicial não era tão inocente. Como outros choferes de ambulância, tinha acordos com empresas funerárias e companhias de seguro para vender serviços dentro do próprio hospital, sobretudo a pacientes estrangeiros de escassos recursos. Eram lucros mínimos, e além disso era preciso reparti-los com outros empregados que passavam de mão em mão os relatórios secretos sobre os doentes graves. Mas era um bom consolo para um desterrado sem porvir que subsistia a duras penas com sua mulher e seus dois filhos com um salário ridículo.
Lázara Davis, sua mulher, foi mais realista. Era uma mulata fina de San Juan de Puerto Rico, miúda e maciça, da cor do caramelo em repouso e com uns olhos de cadela brava que combinavam muito bem com sua maneira de ser. Haviam se conhecido nos serviços de caridade do hospital, onde ela trabalhava como ajudante de tudo depois que um agiota de seu país, que a havia levado como babá, deixou-a à deriva em Genebra. Haviam se casado pelo ritual católico, embora ela fosse princesa ioruba, e viviam num sala e dois quartos no oitavo andar sem elevador de um edifício de imigrantes africanos. Tinham uma menina de nove anos, Bárbara, e um menino de sete, Lázaro, com alguns indícios menores de retardamento mental. Lázara Davis era inteligente e de mau humor, mas de entranhas ternas. Considerava-se a si mesma como uma Touro pura, e tinha uma fé cega em seus augúrios astrais. No entanto, nunca pôde cumprir o sonho de ganhar a vida como astróloga de milionários. Em compensação, contribuía em casa com recursos ocasionais, e às vezes importantes, preparando jantares para senhoras ricas que se exibiam a seus convidados fazendo crer que eram elas as autoras dos excitantes pratos antilhanos.
Homero, por sua vez, era tímido de solenidade, e não dava para nada além do pouco que fazia, mas Lázara não concebia a vida sem ele pela inocência de seu coração e o calibre da sua arma. Tinham dado certo, mas os anos vinham cada vez mais duros e as crianças residente chegou, haviam começado a bicar suas economias de cinco anos. De maneira que quando Homero Rey o descobriu entre os doentes incógnitos do hospital, mergulharam em ilusões. Não sabiam direito o que iriam pedir, nem com que direito. No primeiro momento haviam pensado em vender-lhe um funeral completo, inclusive a embalsamação e a repatriação. Mas pouco a pouco foram percebendo que a morte não parecia tão iminente quanto a princípio. No dia do almoço já estavam atordoados pelas dúvidas. Na verdade, Homero não tinha sido dirigente das brigadas universitárias, nem nada parecido, e a única vez em que participou da campanha eleitoral foi quando fizeram a foto que haviam encontrado por milagre no murundu do guarda-roupa. Mas seu fervor era verdadeiro. Era verdade também que precisou fugir do país por sua participação de resistência nas ruas contra o golpe militar, embora a única razão para continuar vivendo em Genebra depois de tantos anos fosse a sua pobreza de espírito. Portanto, uma mentira a mais ou a menos não devia ser um obstáculo para ganhar o favor do presidente.
A primeira surpresa de ambos foi que o desterrado ilustre morasse num hotel de quarta categoria no bairro triste de la Grotte, entre imigrantes asiáticos e mariposas da noite, e que comesse sozinho nas pensões de pobres, quando Genebra estava cheia de residências dignas para políticos em desgraça. Homero o havia visto repetir dia após dia os atos daquele dia. Havia acompanhado de vista, e às vezes numa distância menos que prudente, em seus passeios noturnos entre os muros lúgubres e os lampiões amarelos da cidade velha. Havia visto o presidente absorto durante horas diante da estátua de Calvino. Havia subido atrás dele passo a passo a escadaria de pedra, sufocado pelo perfume ardente dos jasmins, para contemplar os lentos entardeceres do verão do alto do Bourg-le-Four. Certa noite, viu-o debaixo da primeira garoa, sem abrigo ou guarda-chuva, fazendo fila com os estudantes para um concerto de Rubinstein. “Não sei como não pegou uma pneumonia”, disse depois para a mulher. No sábado anterior, quando o tempo começou a mudar, o havia visto comprando um abrigo de outono com uma gola de falso visom, mas não nas lojas luminosas da rue du Rhône, onde compravam os emires fugitivos, e sim no Mercado de Pulgas.
- Então, não há nada a ser feito! – exclamou Lázara quando Homero contou tudo isso. – É um avarento de merda, capaz de se fazer enterrar pela beneficência na vala comum. Nunca vamos tirar nada dele.
- Vai ver é pobre de verdade – disse Homero -, depois de tantos anos sem emprego.
- Ai, moreno, uma coisa é ser Peixes com ascendente em Peixes e outra coisa é ser idiota – disse Lázara. – Todo mundo sabe que se mandou com o ouro do governo e que é o exilado mais rico da Martinica.
Homero, que era dez anos mais velho, havia crescido impressionado com a notícia de que o presidente estudara em Genebra, trabalhando como pedreiro. Lázara, porém, havia sido criada entre os escândalos da imprensa inimiga, magnificados numa casa de inimigos, onde foi babá desde menina. Portanto, na noite em que Homero chegou sufocado de júbilo porque havia almoçado com o presidente, para ela não foi suficiente o argumento de que havia sido convidado para um restaurante caro. Aborreceu-se com Homero por ele não ter pedido nada do muito que haviam sonhado, de bolsas de estudo para as crianças até um emprego melhor no hospital. Pareceu-lhe uma confirmação de suas suspeitas a decisão de que jogassem o seu cadáver aos urubus em vez de gastar seus francos num enterro digno e numa repatriação gloriosa. Mas a gota que transbordou o copo foi a notícia que Homero reservou para o final, de que havia convidado o presidente para comer arroz de camarões na quinta-feira à noite.
- Só faltava essa – gritou Lázara -, que ele morra aqui, envenenado com camarões de lata, e a gente acabe tendo de enterrá-lo com as economias das crianças.
O que enfim determinou sua conduta foi o peso de sua lealdade conjugal. Teve que pedir emprestados a uma vizinha três jogos de talheres de alpaca e uma saladeira de vidro, e a outra uma cafeteira elétrica, e a outra uma toalha bordada e um jogo chinês para o café. Trocou as cortinas velhas pelas novas, que eles só usavam em dias de festa, e tirou o forro dos móveis. Passou um dia inteiro esfregando o chão, sacudindo o pó, mudando coisas de lugar, até que conseguiu o contrário do que para eles teria sido mais conveniente, que era comover o convidado com o decoro de sua pobreza.
Na quinta-feira à noite, depois que se repôs do sufoco dos oito andares, o presidente apareceu na porta com o novo abrigo velho e o chapéu melão de outro tempo, e com uma única rosa para Lázara. Ela se impressionou com sua formosura viril e suas maneiras de príncipe, mas acima de tudo viu-o como esperava: falso e rapinante. Pareceu-lhe impertinente, porque ela havia cozinhado com todas as janelas abertas para evitar que o vapor dos camarões impregnasse a casa, e a primeira coisa que ele fez ao entrar foi respirar fundo, como num êxtase súbito, e exclamar com os olhos fechados e os braços abertos: “Ah, o cheiro do nosso mar!”. Pareceu-lhe mais avarento que nunca por levar uma única rosa, sem dúvida roubada nos jardins públicos. Pareceu-lhe insolente, pelo desdém com que olhou os recortes de jornais sobre suas glórias presidenciais, e os galhardetes e bandeirolas da campanha, que Homero havia pregado com tanto candor na parede da sala. Achou-o duro de coração, porque nem cumprimentou Bárbara e Lázaro, que tinham feito um presente para ele, e durante o jantar mencionou duas coisas que não conseguia suportar: os cães e as crianças. No entanto, seu sentido caribenho da hospitalidade se impôs sobre seus preconceitos. Havia vestido a túnica africana de suas noites de festa e seus colares e pulseiras de candomblé, e não fez durante o jantar um único gesto nem disse uma palavra de sobra. Foi mais que impecável: perfeita.
Na verdade o arroz de camarões não estava entre as virtudes da sua cozinha, mas foi feito com os melhores desejos, e saiu muito bom. O presidente serviu-se duas vezes sem medir elogios, e encantou-se com as fatias fritas de banana madura e a salada de abacate, embora não tenha compartilhado as nostalgias. Lázara conformou-se com escutar até a sobremesa, quando Homero encalhou sem nenhum motivo no beco sem saída da existência de Deus.
- Eu sim, acredito que existe – disse o presidente -, mas não tem nada a ver com os seres humanos. Cuida de coisas muito maiores.
- Eu só acredito nos astros – disse Lázara, e sondou a reação do presidente. – Que dia o senhor nasceu?
- Onze de março.
- Tinha que ser – disse Lázara, com um sobressalto triunfal, e perguntou com bons modos: – Não é demais dois Peixes numa mesma mesa?
Os homens continuavam falando de Deus quando ela foi para a cozinha preparar o café. Havia recolhido os pratos e travessas e ansiava no fundo da alma que a noite acabasse bem. De regresso à sala com o café, deu de encontro com uma frase solta pelo presidente e que a deixou atônita:
- Não tenha dúvida, meu querido amigo: a pior coisa que aconteceu a nosso pobre país é que eu tenha sido presidente.
Homero viu Lázara na porta com as xícaras chinesas e a cafeteira emprestada, e achou que ela ia desmaiar. Também o presidente reparou nela. “Não me olhe assim, senhora”, disse de modo afável. “Estou falando com o coração.” E depois, voltando-se para Homero, terminou:
- Pelo menos estou pagando caro pela minha insensatez.
Lázara serviu o café, apagou o lustre que estava bem em cima da mesa e cuja luz inclemente estorvava a conversa, e a sala ficou numa penumbra íntima. Pela primeira vez se interessou pelo convidado, cuja graça não conseguia dissimular sua tristeza. A curiosidade de Lázara aumentou quando ele terminou o café e virou a xícara de boca para baixo para que a borra repousasse.
O presidente contou -lhes, depois da sobremesa, que havia escolhido a ilha de Martinica para seu desterro, pela amizade com o poeta Aimé Césaire, que naquela época acabava de publicar seu Cahier d’un retour au pays natal, e prestou-lhe ajuda para começar uma nova vida. Com o que lhes restava da herança da esposa compraram uma casa de madeiras nobres nas colinas de Fort de France, com telas de arame nas janelas e uma varanda de mar cheia de flores primitivas, onde era um gozo dormir com o alvoroço dos grilos e a brisa de melado e rum de cana dos trapiches. Ficou ali com a esposa, catorze anos mais velha que ele e doente desde seu parto único, entrincheirado contra o destino na releitura viciosa de seus clássicos latinos, em latim, e com a convicção de que aquele era o ato final de sua vida. Durante anos precisou resistir às tentações de todo tipo de aventura que seus partidários derrotados lhe propunham.
- Mas nunca tornei a abrir uma carta – disse. – Nunca, desde que descobri que até as mais urgentes eram menos urgentes uma semana depois, e que dois meses depois não se lembrava delas nem mesmo quem as havia escrito.
Olhou para Lázara à meia-luz quando ela acendeu um cigarro, e tirou-o da mulher com um movimento ávido dos dedos. Deu uma tragada profunda, e reteve a fumaça na garganta. Lázara, surpreendida, apanhou o maço e os fósforos para acender outro, mas ele devolveu-lhe o cigarro aceso. “A senhora fuma com tanto gosto que não pude resistir à tentação”, disse ele. Mas teve que soltar a fumaça porque sofreu um princípio de tosse.
- Abandonei o vício há muitos anos, mas ele não me abandonou – disse. – Algumas vezes, consegue me vencer. Como agora.
A tosse deu-lhe duas outras sacudidas. A dor voltou. O presidente olhou as horas no reloginho de bolso, e tomou as duas pílulas da noite. Depois, sondou o fundo da xícara: nada havia mudado, mas daquela vez não estremeceu.
- Alguns de meus antigos partidários foram presidentes depois de mim – disse.
- Sáyago – disse Homero.
- Sáyago e outros – disse ele. – Todos como eu: usurpando uma honra que não merecíamos com um ofício que não sabíamos fazer. Alguns perseguem só o poder, mas a maioria busca ainda menos que isso: o emprego.
Lázara se encrespou.
- O senhor sabe o que dizem do senhor? – perguntou.
Homero, alarmado, interveio:
- Tudo mentira.
- Tem mentira e não tem – disse o presidente com uma calma celestial. – Tratando-se de um presidente, as piores ignomínias podem ser as duas coisas ao mesmo tempo: verdade e mentira.
Havia vivido na Martinica todos os dias do exílio, sem outro contato com o exterior que as poucas notícias do jornal oficial, sustentando-se com as aulas de espanhol e latim num liceu oficial e com as traduções que às vezes Aimé Césaire encomendava.
O calor era insuportável em agosto, e ele ficava na rede até o meio-dia, lendo ao arrulho do ventilador no teto do dormitório. Sua mulher cuidava dos pássaros que criava soltos, mesmo nas horas de mais calor, protegendo-se do sol com um chapéu de palha de abas grandes, adornado de morangos artificiais e flores de organdi. Mas quando o calor diminuía era bom tomar a fresca na varanda, ele com a vista fixa no mar até que chegavam as trevas, e ela em sua cadeira de balanço de vime, com o chapéu de aba quebrada e as bijuterias em todos os dedos, vendo passar os navios do mundo. “Esse vai para Puerto Santo”, dizia ela. “Esse quase nem pode andar com a carga de banana-ouro de Puerto Santo”, dizia. Pois achava impossível que passasse um barco que não fosse de sua terra. Ele bancava o surdo, embora no fim ela tenha conseguido esquecer melhor que ele, porque ficou sem memória. Permaneciam assim até que terminavam os crepúsculos fragorosos, e tinham que se refugiar na casa derrotados pelos mosquitos. Num daqueles tantos agostos, enquanto lia o jornal na varanda, o presidente deu um salto de assombro.
- Porra! – disse. – Morri no Estoril!
Sua esposa, levitando no torpor, espantou-se com a notícia. Eram seis linhas na quinta página do jornal que era impresso na virada da esquina, onde publicavam suas traduções ocasionais, e cujo diretor passava para visitá-lo de vez em quando. E agora dizia que tinha morrido no Estoril de Lisboa, balneário e abrigo da decadência europeia, onde nunca havia estado, e talvez o único lugar do mundo onde não teria querido morrer. A esposa morreu de verdade um ano depois, atormentada pela última lembrança que lhe restava para aquele instante: a do filho único, que havia participado na derrubada do pai, e foi fuzilado mais tarde por seus próprios cúmplices.
O presidente suspirou. “Somos assim, e nada poderá redimir-nos”, disse. “Um continente concebido pela merda do mundo inteiro sem um instante de amor: filhos de raptos, violações, de tratos infames, de enganos, de inimigos com inimigos.” Enfrentou os olhos africanos de Lázara, que o examinavam sem piedade, e tentou amansá-la com sua lábia de velho professor.
- A palavra mestiçagem significa misturar as lágrimas com o sangue que corre. O que se pode esperar de semelhante beberagem?
Lázara cravou-o em seu lugar com um silêncio de morte. Mas conseguiu superar-se, pouco antes da meia-noite, e despediu-se dele com um beijo formal. O presidente se opôs a que Homero o acompanhasse ao hotel, mas não pôde impedir que o ajudasse a conseguir um táxi. De volta para casa, Homero encontrou a mulher desfeita em fúria.
- Esse é o presidente mais bem derrubado do mundo – disse ela. – Um tremendo filho da puta.
Apesar dos esforços que Homero fez para tranquilizá-la, passaram em claro uma noite terrível. Lazara reconhecia que era um dos homens mais belos que havia visto, com um poder de sedução devastador e uma virilidade de reprodutor. “Do jeito que está, velho e fodido, ainda deve ser um tigre na cama”, disse. Mas achava que havia desperdiçado esses dons de Deus a serviço do fingimento. Não podia suportar seus alardes por ter sido o pior presidente de seu país. Nem seu jeito de asceta, pois estava convencida de que era dono de metade das usinas de açúcar da Martinica. Nem a hipocrisia de seu desdém pelo poder, se era evidente que daria tudo para voltar nem que fosse por um minuto à presidência para mandar seus inimigos comer pó.
- E tudo isso – concluiu – só para nos ter rendidos aos seus pés.
- O que ele pode ganhar com isso? – perguntou Homero.
- Nada – disse ela. – Acontece que a vaidade é um vício que não se sacia com nada.
Era tanta a sua fúria que Homero não conseguiu aguentá-la na cama, e foi terminar a noite enrolado num cobertor no divã da sala. Lazara levantou-se também de madrugada, nua de corpo inteiro, como costumava dormir e ficar em casa, e falando sozinha num monólogo de uma corda só. Num instante apagou da memória da humanidade qualquer rastro do jantar indesejável. Devolveu ao amanhecer as coisas emprestadas, mudou as cortinas novas pelas velhas e pôs os móveis em seu lugar, até que a casa voltou a ser tão pobre e decente como havia sido até a noite anterior. Finalmente arrancou os recortes de jornal, os retratos, as bandeirolas e galhardetes da campanha abominável, e jogou tudo na lata de lixo com um grito final.
- Vai pro caralho!
Uma semana depois do jantar, Homero encontrou o presidente esperando por ele na saída do hospital, com a súplica de que o acompanhasse até seu hotel. Subiram os três andares empinados até uma água-furtada com uma única clarabóia que dava para um céu de cinzas, e atravessada por uma corda com roupa para secar. Havia além disso uma cama de casal que ocupava a metade do espaço, uma cadeira simples, uma bacia e um bidê portátil, e um guarda-roupa de pobre com um espelho nublado. O presidente reparou na impressão de Homero.
- É o mesmo cubículo onde vivi meus anos de estudante – disse, como que se desculpando. – Reservei-o de Fort de France.
Tirou de um pequeno saco de veludo e espalhou sobre a cama o saldo final de seus recursos: várias pulseiras de ouro com diferentes adornos de pedras preciosas, um colar de pérolas de três voltas e outros dois de ouro e pedras preciosas; três correntes de ouro com medalhas de santos e um par de brincos de ouro com esmeraldas, outro com diamantes e outro com rubis; três relicários, onze anéis com todo tipo de pedras preciosas e um diadema de brilhantes que podia ter sido de uma rainha. Depois tirou de um estojo diferente três pares de abotoaduras de prata e duas de ouro com seus correspondentes prendedores de gravata, e um relógio de bolso folheado em ouro branco. Finalmente tirou de uma caixa de sapatos suas seis condecorações: duas de ouro, uma de prata, e o resto de pura sucata.
- É tudo o que me resta na vida – disse.
Não tinha outra alternativa a não ser vender tudo para completar os gastos médicos, e desejava que Homero fizesse o favor com o maior sigilo. No entanto, Homero não se sentiu capaz de ajudá-lo se não tivesse as notas fiscais em regra. O presidente lhe explicou que eram prendas de sua esposa herdadas de uma avó colonial que por sua vez havia herdado um pacote de ações de minas de ouro da Colômbia. O relógio, as abotoaduras e os prendedores de gravata eram dele. As condecorações, claro, não tinham sido de ninguém antes.
- Não acredito que alguém tenha notas fiscais de coisas como essas – disse.
Homero foi inflexível.
- Nesse caso – refletiu o presidente -, não tenho outro remédio a não ser mostrar minha cara.
Começou a recolher as jóias com uma calma calculada. “Peço que me perdoe, meu querido Homero, mas é que não há pior pobreza que a de um presidente pobre”, disse. “Até sobreviver parece indigno.”
Nesse instante, Homero viu-o com o coração, e se rendeu.
Naquela noite, Lázara voltou tarde para casa. Da porta viu as jóias radiantes debaixo da luz de mercúrio da sala, e foi como se tivesse visto um escorpião em sua cama.
- Não seja imbecil, moreno – disse assustada. – O que estas coisas estão fazendo aqui?
A explicação de Homero deixou-a ainda mais inquieta. Sentou-se para examinar as jóias, uma por uma, com uma meticulosidade de ourives. Num certo momento suspirou: “Deve valer uma fortuna.” No final, ficou olhando Homero sem encontrar uma saída para seu ofuscamento. – Caralho – disse. – Como é que a gente faz para saber se o que esse homem falou é verdade?
- E por que não? – disse Homero. – Acabo de ver que ele mesmo lava sua roupa, e a seca no quarto igualzinho a nós, pendurada num arame.
- Porque é avarento – disse Lázara. – Ou porque é pobre – disse Homero.
Lázara tornou a examinar as jóias, mas agora com menos atenção, porque ela também estava vencida.
Assim, na manhã seguinte vestiu-se com o que tinha de melhor, enfeitou-se com as jóias que lhe pareceram as mais caras, pôs quantos anéis pôde em cada dedo, até no polegar, e quantas pulseiras conseguiu em cada braço, e foi vendê-las. “Vamos ver quem pede nota fiscal a Lázara Davis”, disse ao sair, empavonando-se de riso. Escolheu a joalheria exata, com mais ares de prestígio, onde sabia que vendia-se e comprava-se sem muitas perguntas, e entrou apavorada mas pisando firme.
Um vendedor vestido a rigor, enxuto e pálido, fez para ela uma vênia teatral ao beijar sua mão, e colocou-se às suas ordens. O interior era mais claro que o dia, pelos espelhos e as luzes intensas, e a loja inteira parecia um diamante. Lázara, olhando pouco para o funcionário com temor que ele percebesse a farsa, continuou até o fundo. O funcionário convidou-a a sentar-se diante de uma das três escrivaninhas Luis XV que serviam de vitrines individuais, e estendeu em cima um lenço imaculado. Depois sentou-se na frente de Lázara e esperou.
- Em que posso servi-la?
Ela tirou os anéis, as pulseiras, os colares, os brincos, tudo que estava à vista, e foi colocando sobre a escrivaninha numa ordem de tabuleiro de xadrez. A única coisa que queria, disse, era conhecer seu verdadeiro valor.
O joalheiro pôs o monóculo no olho esquerdo, e começou a examinar as jóias com um silêncio clínico. Após um longo tempo, sem interromper o exame, perguntou:
- De onde a senhora é?
Lázara não havia previsto esta pergunta.
- Ai, meu senhor – suspirou. – De muito longe.
- Imagino – disse ele.
Voltou ao silêncio, enquanto Lázara examinava-o sem misericórdia com seus terríveis olhos de ouro. O joalheiro consagrou uma atenção especial ao diadema de diamantes, e colocou-o separado das outras jóias. Lázara suspirou.
- O senhor é um Virgem perfeito – disse.
O joalheiro não interrompeu o exame.
- Como sabe?
- Pelo seu modo de ser – disse Lázara.
Ele não fez nenhum comentário até que terminou, e dirigiu-se a ela com a mesma parcimônia do princípio.
- De onde vem tudo isso?
- Herança da minha avó – disse Lázara com voz tensa. – Morreu o ano passado em Paramaribo, aos noventa e sete anos.
O joalheiro olhou-a então nos olhos. “Sinto muito”, disse. “Mas o único valor destas coisas é o peso do ouro.” Pegou o diadema com a ponta dos dedos e fez com que brilhasse debaixo da luz deslumbrante.
- Menos esta – disse. – É muito antiga, egípcia talvez, e teria um valor incalculável se não fosse pelo estado dos brilhantes. Mas de todo modo, tem um certo valor histórico.
Em troca, as pedras das outras jóias, as ametistas, as esmeraldas, os rubis, os opalas, todas, sem exceção, eram falsas. “Sem dúvida, as originais foram boas”, disse o joalheiro, enquanto recolhia as peças para devolvê-las. “Mas de tanto passar de uma geração a outra as pedras legítimas foram ficando no caminho, substituídas por cacos de garrafa.” Lazara sentiu uma náusea verde, respirou fundo e dominou o pânico. O vendedor a consolou:
- É comum acontecer, senhora.
- Já sei – disse Lázara, aliviada. – Por isso quero me livrar delas.
Então sentiu que estava além da farsa, e tornou a ser ela mesma. Sem mais rodeios tirou da bolsa as abotoaduras, o relógio de bolso, os prendedores de gravata, as condecorações de ouro e prata, e o resto das jóias pessoais do presidente, e pôs tudo em cima da mesa.
- Isto também? – perguntou o joalheiro.
- Tudo – disse Lázara.
Os francos suíços com que lhe pagaram eram tão novos que teve medo de manchar os dedos com a tinta fresca. Recebeu-os sem contar, e o joalheiro despediu-se na porta com a mesma cerimônia da recepção.
Já de saída, segurando a porta de vidro para ela, atrasou-a um instante.
- Uma última coisa, senhora – disse -, sou Aquário.
No começo da noite Homero e Lázara levaram o dinheiro ao hotel. Feitas todas as contas, faltava um pouco. De maneira que o presidente tirou e foi pondo sobre a cama a aliança de casamento, o relógio com a corrente e as abotoaduras e o prendedor de gravatas que estava usando.
Lázara devolveu-lhe a aliança.
- Isto não – disse. – Uma lembrança destas não se pode vender.
O presidente admitiu e tornou a pôr a aliança. Lázara devolveu-lhe também o relógio do colete. “Isto também não”, disse. O presidente não concordou mas ela o colocou em seu lugar.
- Quem pode querer vender relógios na Suíça?
- Já vendemos um – disse o presidente.
- Sim, mas não porque era relógio, porque era de ouro.
- Este também é de ouro – disse o presidente.
- Sim – disse Lázara. – Só que o senhor pode até ficar sem se operar, mas não pode ficar sem saber as horas.
Tampouco aceitou a armação de ouro dos óculos, embora ele tivesse outro par com armação de tartaruga. Calculou na mão o peso das jóias, e pôs um fim às dúvidas.
- Além do mais – disse – isto basta.
Antes de sair, tirou da corda a roupa molhada, sem consultá-lo, e levou-a para secar e passar em casa. Foram embora na motoneta, Homero conduzindo, e Lázara na garupa, abraçada à sua cintura. As luzes dos postes acabavam de ser acesas na tarde malva. O vento havia arrancado as últimas folhas, e as árvores pareciam fósseis depenados. Um rebocador descia pelo Ródano com um rádio a todo volume que ia deixando pelas ruas uma trilha de música. Georges Brassens cantava: Mon amour tiens bien la barre, le temps va passer par lá, et le temps est un barbare dans le genre d’Attila, par lá oú son cheval passe L'amour ne repousse pas. Homero e Lázara corriam em silêncio embriagados pela canção e o cheiro memorável dos jacintos. Após um tempinho, ela pareceu despertar de um longo sonho.
- Caralho! – disse.
- O quê?
- Coitado do velho! – disse Lázara. – Que vida de merda!
Na sexta-feira seguinte, 7 de outubro, o presidente foi operado numa sessão de cinco horas que num primeiro momento deixou as coisas tão obscuras como estavam. A rigor, o único consolo era saber que estava vivo. Depois de dez dias, foi levado para um quarto com outros doentes, e puderam visitá-lo. Era outro: desorientado e macilento, e com um cabelo ralo que se soltava com o puro roçar do travesseiro. De sua antiga altivez só lhe restava a fluidez das mãos. Sua primeira tentativa de caminhar com duas bengalas ortopédicas foi desalentadora. Lázara ficava para dormir ao seu lado para economizar o custo de uma enfermeira noturna. Um dos doentes do quarto passou a primeira noite gritando com pânico da morte. Aquelas vigílias intermináveis acabaram com as últimas resistências de Lázara. Quatro meses depois de ter chegado a Genebra, teve alta. Homero, administrador meticuloso de seus fundos exíguos, pagou as contas do hospital e levou-o em sua ambulância com outros empregados que ajudaram a subi-lo até o oitavo andar. Instalou-se no quarto das crianças, que nunca reconheceu, e pouco a pouco voltou à realidade. Empenhou-se nos exercícios de reabilitação com um rigor militar, e voltou a caminhar com sua bengala solitária. Mas mesmo vestido com a boa roupa de antes estava muito longe de ser o mesmo, tanto por seu aspecto quanto por sua maneira de ser.
Temeroso do inverno que se anunciava muito severo, e que na realidade foi o mais cruel do século até aquela altura, decidiu regressar num barco que zarpava de Marselha no dia 13 de dezembro, contra a opinião dos médicos que queriam vigiá-lo um pouco mais. Na última hora o dinheiro não deu para tudo, e Lázara quis completá-lo escondida de seu marido com um arranhão a mais nas economias das crianças, mas também ali encontrou menos do que esperava. Então Homero confessou que havia pegado escondido dela para completar a conta do hospital.
- Bem – resignou-se Lázara. – Digamos que era o filho mais velho.
No dia 11 de dezembro foi embarcado no trem de Marselha debaixo de uma forte tormenta de neve, e só quando voltaram para casa encontraram uma carta de despedida no criado-mudo das crianças. Deixou lá sua aliança para Bárbara, junto com a da esposa morta, que jamais tentou vender, e o relógio de corrente para Lázaro.
Como era domingo, alguns vizinhos caribenhos que descobriram o segredo haviam acudido à estação de Cornavin com um conjunto de harpas de Veracruz. O presidente estava sem fôlego, com o abrigo de perdulário e um longo cachecol colorido que tinha sido de Lázara, mas ainda assim permaneceu na boléia do último vagão acenando com o chapéu debaixo do açoite do vendaval.
O trem começava a acelerar quando Homero percebeu que tinha ficado com a bengala. Correu até o extremo da plataforma e lançou-a com bastante força para que o presidente a agarrasse no ar, mas ela caiu entre as rodas e foi destroçada. Foi um instante de terror. A última coisa que Lázara viu foi a mão trêmula esticada para agarrar a bengala que nunca alcançou, e o guarda do trem que conseguiu agarrar pelo cachecol o ancião coberto de neve, e salvou-o no vazio. Lázara correu apavorada ao encontro do marido tentando rir entre as lágrimas.
- Deus meu – gritou para ele -, esse homem não morre de jeito nenhum.
Chegou são e salvo, conforme anunciou em seu extenso telegrama de gratidão. Não se voltou a saber nada dele durante mais de um ano. Por fim chegou uma carta de seis folhas manuscritas na qual já era impossível reconhecê-lo. A dor havia voltado, tão intensa e pontual como antes, mas ele decidiu não dar importância e dedicar-se a viver a vida do jeito que fosse. O poeta Aimé Césaire tinha lhe dado outra bengala com incrustações de nácar, mas estava decidido a não usá-la. Fazia seis meses que comia carne com regularidade, e todo tipo de mariscos, e era capaz de beber até vinte xícaras diárias de café da montanha. Mas já não lia o fundo da xícara porque seus prognósticos saíam ao contrário. No dia em que fez setenta e cinco anos havia tomado uns cálices pequenos do esplêndido rum da Martinica, que caíram muito bem, e voltou a fumar. Não se sentia melhor, é claro, nem pior. No entanto, o motivo real da carta era para comunicar-lhes que se sentia tentado a voltar ao seu país para colocar-se à frente de um movimento renovador, por uma causa justa e uma pátria digna, nem que fosse apenas pela glória mesquinha de não morrer de velhice na própria cama. Neste sentido, concluía a carta, a viagem para Genebra tinha sido providencial."
                                                                    Junho de 1979
Gabriel Garcia Marquez, in Doze Contos Peregrinos, Editora Record, 1992

Sobre o Livro:
"Doze contos peregrinos, como o próprio título já entrega, reúne uma dúzia de histórias que foram  escritas ao  longo  de um  período de  quase duas  décadas. E, se tem algo que define essa coletânea, é  a diversidade  de  temas, personagens e cenários. Marquez transporta-nos para diferentes  partes do  mundo, mas  sempre com  aquele toque de surrealismo que só ele consegue dar.
Um dos primeiros contos, Boa viagem, senhor presidente, já nos coloca em contacto com a solidão e a decadência de um ex-presidente que, numa Europa distante, se vê frente a frente com a própria vulnerabilidade. A melancolia dessa história ressoa com a experiência de exílio e perda de poder, temas que García Márquez aborda com uma sensibilidade quase cruel. É uma reflexão sobre o que resta de nós quando perdemos tudo aquilo que um dia nos definiu.
Doze Contos Peregrinos percorreu uma longa trajectória. Escritas, perdidas e reescritas, as histórias do projecto inicial acabaram por se reduzir a doze. Histórias de solidão, amor, poder e morte, que García Márquez soube criar com mão de mestre.Uma das coisas mais interessantes dessa coletânea é que, apesar de cada conto ter sua própria trama e estilo, há uma sensação de unidade. Todos os personagens parecem estar em algum tipo de jornada, seja ela física, emocional ou espiritual. É como se essas "peregrinações" fossem uma constante busca por algo que muitas vezes eles nem conseguem nomear — seja um sentido de pertencimento, uma reconciliação com o passado ou até mesmo uma explicação para o inexplicável. Essa busca, no entanto, é quase sempre marcada pela sensação de perda e de estranhamento, como se o deslocamento físico refletisse um deslocamento emocional.
García Márquez sempre teve um talento especial para capturar o "extraordinário no ordinário", e essa coletânea é um exemplo perfeito disso. As personagens são pessoas comuns, mas as situações em que eles se encontram frequentemente beiram o fantástico, o surreal. E é essa mistura que torna os contos tão fascinantes. Mesmo os cenários mais simples — uma sala de espera, uma vila costeira, um carro quebrado na estrada —  transformam-se em palcos para o inesperado, o inusitado."