domingo, 25 de janeiro de 2026

Ao Domingo Há Música


How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
How many seas must the white dove sail
Before she sleeps in the sand?

Yes, and how many times must the cannonballs fly
Before they are forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Bob Dylan

Neste domingo, os  registos musicais são um conjunto de êxitos  que marcaram uma geração. Canções de vozes diversas que, no mesmo universo, tinham a capacidade de acordar a alegria , a fantasia, a vontade de viver ou seja a celebração da vida. Uma  extensa compilação  que trará a memória desse tempo em que todos ainda sonhavam com um mundo melhor. 

Rita Coolidge, em We're all alone (Video + HQ Audio).
 
ELVIS, em  And I Love You So.
 
Joan Baez & Bob Dylan, em  Blowing In The Wind
   
Cat Stevens, em  Morning Has Broken (Official Lyric Video).
 
Roberta Flack, em First Time Ever I Saw Your Face (1972).
 
Maria Guinot , em  Silêncio E Tanta Gente.
   

sábado, 24 de janeiro de 2026

Fábula

FÁBULA
por Fernando Pessoa
"Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula:
A uma bordadora dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre folhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ela não bordasse a rosa branca.
Por fim, não tendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela.
Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe.
No fabulário, onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma ."
                                                 1915
Fernando Pessoa, in Ficção e Teatro. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 69.
1ª publ. in O Jornal , nº1. Lisboa: 4-4-1915

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Viajar pelo Sri Lanka

Viajar o desejo de conhecer. O espanto em movimento constante.
 
Sri Lanka 4K - Scenic Relaxation Film With Calming Music, pelos Scenic Relaxation Films.
O Sri Lanka é um dos países mais espetaculares da Ásia. Desfrute deste filme relaxante em 4K com paisagens incríveis do Sri Lanka. Desde a antiga fortaleza de Sigiriya até aos majestosos elefantes asiáticos, o Sri Lanka irá surpreendê-lo com a sua beleza infinita e vida selvagem.
 
Top 10 Best Things to do in Colombo, Sri Lanka - Travel Video 2025

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A língua portuguesa que aprendi

 

A língua portuguesa que aprendi não é a língua em que agora se escreve
por Eugénio LIsboa
 
A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares.
                                  Hipócrates
 
"A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.
Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?
Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!
Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês,  o marido da falecida rainha do Reino Unido.
O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.”
Eugénio Lisboa, em 30.08.2023

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Interlúdio Musical





 Intervalo

Vida em câmara lenta
Oito ou oitenta
Sinto que vou emergir
Já sei de cor todas as canções de amor,
Para a conquista partir,


Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes...


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto aonde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...


Vida á média rés,
Levanta os pés
Não vás em futebóis, apesar...
Do intervalo,que é quando eu falo,
Para não me incomodar.


Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto aonde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...


No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Notícia do jornal,
O quadro minimal...Sou eu...

Perfume e Rui Veloso em Intervalo
O tema "Intervalo", com a participação muito especial de Rui Veloso, foi o primeiro single do disco de estreia do novo projecto de alguns ex-membros dos grandes Ornatos Violeta e dos Blunder, os Perfume.
 
 Rui Veloso, em  Porto sentido, ( Cidade do Porto ).
   
Dulce Pontes & Banda da Armada, em  O Amor a Portugal
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Pensamento para o dia

"O  mundo deve hoje escolher entre o pensamento político anacrónico e o pensamento utópico. O pensamento anacrónico está em vias de nos matar. Por mais desconfiados que sejamos (e que eu seja), o espírito da realidade logo nos reconduz a esta utopia relativa. Quando essa utopia entrar na História, como sucedeu com muitas outras utopias do mesmo género, os homens chamar-lhe-ão realidade. É assim que a História não é senão o esforço desesperado dos homens para dar forma aos seus sonhos mais clarividentes."
Albert Camus, Actuais

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Sermão da Montanha

Manoel de Andrade

Manoel  de Andrade é um profícuo poeta de Curitiba , Brasil. Tem uma vasta obra publicada, iniciada no tempo das lutas estudantis no Brasil, de que se tornou simbólica  A Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, no tempo da ditadura . Obrigado a exilar-se , correu a América Latina, que definhava sob o jugo de governos autoritários. Durante o tempo da diáspora, escreveu empenhados poemas que se condensaram em dois aplaudidos livros de poesia. Após o regresso ao Brasil, publicou as memórias desse tempo de exílio, de bardo guerreiro, que são um poderoso e rico documento da história da América Latina na luta contra a tirania.
Acabamos  de receber, o que nos torna muito honrados,  um novo poema deste extraordinário poeta que confidencia o seguinte: 
“ Há alguns dias fiz um poema sobre o Sermão da Montanha.
   Escrevi algures que
Esta passagem, constante dos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso.
 
O SERMÃO DA MONTANHA
 
Seguido da multidão
Jesus abre o coração
pra dizer sua Verdade.
Aos vindos da Galileia,
aos da Síria e da Judeia,
e pra toda a humanidade.
 
E com uma graça tamanha,
lá do alto da montanha,
todos fomos consolados.
Na humildade e a mansidão,
e os puros de coração,
como os bem-aventurados.
 
E com Seu verbo divino,                  
fez do amor o seu hino                    
pelo amparo e a compaixão.                       
Consolou os perseguidos            
pelos insultos sofridos
e aos que choram de aflição.
 
Abençoou quem tem fome,
e aos que sofrerem em seu nome,
com a divina recompensa.
Bendisse a paz e a concórdia,
o amor e a misericórdia
com as mais sublimes sentenças.
 
Aos doze que o seguiam,
ante as missões que viriam,
deu a pureza e o sabor.
Chamo-os de “o sal da terra”,
 pois o insosso não tempera,
o divino ágape do amor.
 
E no seu saber profundo,
Disse: “Sois a luz do mundo”,
tal qual brilha uma cidade.
Pois não se acende o lampião,
pra se cobrir com um tampão,
mas pra iluminar a Verdade.
 
Veio pra dar cumprimento,
 da Lei, nos Dez Mandamentos,
e nada fique esquecido.
E quem ante a Lei for réu,
passe a Terra e passe o Céu,
tudo há de ser cumprido.
 
 
Ante a lei do Talião
Jesus propôs o perdão.
Nem por olho, nem por dente.
Se te ferirem a direita,
torne a ofensa desfeita
com a esquerda sorridente.
 
Mestre da filosofia,
disse com sabedoria:
Amai vossos inimigos.
Fazei o bem ao rival
ora por quem te fez mal
pra ter a paz como abrigo.
 
No momento da oração,
é no altar do coração
que Deus ouve  teu pedido.
Sem debulhar um rosário,
pede apenas o necessário
e o que for merecido.
 
Jesus no alto do Monte
Fez do Pai Nosso uma ponte
pra buscar o Criador.
Santificando o seu nome,
dando o pão pra nossa fome
e o perdão ao ofensor.
 
Não junte aqui teu tesouro,
que a ferrugem rói o ouro
e onde te rouba o ladrão.
Pela pratica do bem,
faz teu tesouro no Além
e guarda no coração.
 
Nunca descuides de crer
que Deus te há de prover
do que te falta na vida.
Seu amor não deixa ao léu
nem mesmo as aves do céu
às quais não falta a comida.
 
Na poesia do Mestre
 os puros lírios campestres
não conhecem a fiação.
Mas disse que a natureza
as vestem com mais beleza
que o manto de Salomão.
 
Esse é o Sermão do Monte,
tão belo como o horizonte.
Uma canção do humanismo.
É o saber mais profundo
que se conhece no mundo
pela voz do Cristianismo.
          Curitiba, 10 de janeiro de 2026
Manoel de Andrade, poema inédito

A Origem do Conto do Vigário

Fernando Pessoa
UM GRANDE PORTUGUÊS
por Fernando Pessoa
"Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.
Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.
Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as cousas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax."
1926

Fernando Pessoa, in Ficção e Teatro. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 

 - 95.
1ª publ. in Sol, nº1. Lisboa: 30-10-1926; 2ª publ. in Notícias Ilustrado , 2ª série. Lisboa: 18-8-29, com o título “A Origem do Conto do Vigário”