domingo, 4 de janeiro de 2026

Ao Domingo Há Música

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Mario Quintana, Antologia poética (2015).

No primeiro domingo de 2026 , a Esperança é a  tal "louca" que conduz o nosso apontamento. A Música é de Johann Strauss que , com vivacidade , nos transporta para um mundo onde a Esperança nunca deve desaparecer. Segui-la, persegui-la, agarrá-la, capturá-la para a renovar a cada novo dia é a aposta mais ajustada.
Brindemos , então , a   um novo e harmonioso  ano . 


De Johann Strauss II [1825 - 1899] ,  Waltz Roses from the South , (Valsa Rosas do Sul), (Op. 388) e Diplomat Polka ( Op.448). 
Interlúdios de Ballet da Ópera Estatal de Viena.  Concerto de Ano Novo de 2026. 
"20 Anos Depois de 2006: John Neumeier e o Director Criativo da AKRIS, Albert Kriemler, criam os Interlúdios de Ballet para o Concerto de Ano Novo 
O Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena teve lugar a 1 de Janeiro de 2026, pela primeira vez sob a direção musical do canadiano Yannick Nézet-Séguin. Tal como nos anos anteriores, foi transmitido em directo pela ORF (Austríaca Radiodifusão)
.  
"Os interlúdios de bailado deste ano para o Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena foram criados pelo conceituado coreógrafo John Neumeier. Os figurinos são da autoria de Albert Kriemler, Director Criativo da marca de moda AKRIS. Vinte anos após a sua primeira colaboração no Concerto de Ano Novo de 2006, os dois artistas criaram novamente mundos oníricos e glamorosos para dois interlúdios. As filmagens da valsa "Rosas do Sul" e da "Polka do Diplomata", de Johann Strauss II, decorreram no MAK – Museu de Artes Aplicadas de Viena – e em exteriores e também ,  no interior do Palácio Hofburg, sob a direção de Michael Beyer. A famosa Rosa Vienense da coleção do MAK é a peça central dos interlúdios. A coreografia, criada por Ketevan Papava, Timoor Afshar, Natalya Butchko, Géraud Wielick, Gaia Fredianelli e Calogero, será apresentada por Failla, juntamente com Alaia Rogers-Maman e Victor Cagnin, na PolKa Diplomática. O público irá experienciar uma exploração coreograficamente bem-humorada da diplomacia, da burocracia e do serviço público. A peça será interpretada por Alessandro Frola, o primeiro bailarino do Ballet Estatal de Viena desde esta temporada, juntamente com Natalya Butchko, Gaia Fredianelli, Anita Manolova, Tatiana Mazniak e Laura Cislaghi. 
"Para a valsa, dançaram os bailarinos principais Ketevan Papava e o recém-nomeado bailarino principal Timoor Afshar, bem como Natalya Butchko e Géraud Wielick, Gaia Fredianelli e Calogero Failla, e Alaia Rogers-Maman e Victor Cagnin. A Polka dos Diplomatas foi dançada ao lado de Alessandro Frola, Natalya Butchko, Gaia Fredianelli, Anita Manolova, Tatiana Mazniak e Laura Cislaghi. Michael Beyer é o encenador responsável pelas sequências de bailado, pré-gravadas em agosto de 2025, e vai também liderar a equipa de televisão com 14 câmaras para a emissão de 1 de Janeiro." O Concerto de Ano Novo será novamente comentado em directo pela apresentadora cultural Teresa Vogl. (Fonte: https://tv.orf.at/neujahrsko1314.html)."
Este vídeo contém material visual de outras fontes, por exemplo, da ZDF/ORF.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Algo mais sobre literatura e realidade

O Axolotle encontra-se distribuído no México. Habita nos lagos e permanece 
na água toda a vida. O Axolotle é um anfíbio tem nome asteca , que significa
 “monstro aquático”.
 
Algo mais sobre literatura e realidade
por  Gabriel García Márquez
"Um problema sério que nossa realidade desmedida cobra da literatura é a insuficiência das palavras. Quando falamos de um rio, o mais longe que pode chegar um leitor europeu é imaginar algo tão grande como o Danúbio, que tem 2.790 quilómetros. É difícil que imagine, se não se descrever , a realidade do Amazonas, que tem 5.500 quilómetros de comprimento. Em Belém do Pará, onde ele é mais largo do que o mar Báltico, não é possível ver a outra margem. Quando escrevemos a palavra “tempestade”, os europeus pensam em relâmpagos e trovões, mas dificilmente vão conceber o mesmo fenómeno que nós queremos representar. A mesma coisa ocorre, por exemplo, com a palavra “chuva”. Na cordilheira dos Andes, segundo a descrição feita para os franceses por um francês chamado Xavier Marimier, há tempestades que podem durar até cinco meses.
— Quem não viu essas tormentas — diz — não poderá fazer uma ideia da violência com que se desenvolvem. Durante horas inteiras os relâmpagos se sucedem rapidamente à maneira de cascatas de sangue e a atmosfera treme sob a agitação contínua dos trovões, cujos estampidos repercutem na imensidão da montanha.
A descrição está longe de ser uma obra-prima, mas bastaria para estremecer de horror o europeu menos crédulo.
Portanto, seria necessário criar todo um sistema de palavras novas para o tamanho de nossa realidade. Os exemplos dessa necessidade são intermináveis. F.W. Up de Graff, um explorador holandês que percorreu o alto Amazonas no início do século XX, disse que encontrou um arroio de água fervente onde se faziam ovos cozidos em cinco minutos, e passara por uma região onde não se podia falar em voz alta porque se desatavam aguaceiros torrenciais. Em algum lugar da costa caribenha da Colômbia vi um homem fazer uma oração na frente de uma vaca que tinha vermes na orelha, e vi cair os vermes mortos enquanto transcorria a oração. Aquele homem garantia que podia conseguir a mesma cura a distância se lhe fizessem a descrição do animal e indicassem o lugar em que se encontrava. Em 8 de Maio de 1902, o vulcão Mont Pele, na ilha de Martinica, destruiu em poucos minutos o porto de Saint-Pierre e matou e sepultou em lava a totalidade de seus trinta mil habitantes. Menos um: Ludger Sylvaris, o único preso da população, protegido pela estrutura invulnerável da cela individual que construíram para que ele não pudesse escapar.
Seriam necessários vários volumes para expressar a realidade incrível do México. Depois de estar aqui quase vinte anos, poderia passar ainda horas inteiras, como fiz tantas vezes, contemplando uma vasilha de feijões dançarinos. Nacionalistas benevolentes me explicam que sua mobilidade se deve a uma lã viva que têm por dentro, mas a explicação parece pobre: o maravilhoso não é que os feijões se movimentem porque têm uma lã dentro, e sim que tenham uma lã dentro para que possam se mover. Outras das estranhas experiências de minha vida foi o meu encontro com o axolotle. Julio Cortázar conta num de seus relatos que conheceu o axolotl no Jardin des Plantes, em Paris, num dia em que queria ver leões. Ao circular diante dos aquários, conta Cortázar, “passei por cima os peixes vulgares até dar com o axolotle.” E conclui: “Fiquei olhando-o por uma hora, e saí, incapaz de outra coisa.” Ocorreu-me a mesma coisa, em Pátzcuaro, só que não o contemplei por uma hora, e sim uma tarde inteira, e voltei várias vezes. Mas havia algo ali que me impressionou mais do que o animal em si, e era a placa pendurada na porta da casa: “Vende-se xarope de axolotle.”
Essa realidade incrível alcança sua densidade máxima no Caribe, que, a rigor, estende-se (pelo norte) até o sul dos Estados Unidos, e, pelo sul, até o Brasil. Não se imagine que é um delírio expansionista. Não: o Caribe não é apenas uma área geográfica, como certamente crêem os geógrafos, mas uma área cultural muito homogénea.
No Caribe, aos elementos originais das crenças primárias e concepções mágicas anteriores ao descobrimento, somou-se a abundante variedade de culturas que confluíram nos anos seguintes num sincretismo mágico cujo interesse artístico e cuja própria fecundidade artística são inesgotáveis. A contribuição africana foi forçada e ultrajante, mas afortunada. Nessa encruzilhada do mundo, forjou-se um sentido de liberdade incomparável, uma realidade sem lei nem rei, onde cada um sentiu que era possível o que quisesse sem limites de qualquer espécie: e os bandoleiros amanheciam convertidos em reis, os fugitivos em almirantes, as prostitutas em governadoras. E também o contrário. 
Nasci e cresci no Caribe. Conheço-o país a país, ilha a ilha, e talvez daí provenha minha frustração de que nunca me aconteceu nada nem pude fazer algo que seja mais assombroso do que a realidade. O mais longe a que pude chegar foi a transposição com recursos poéticos, mas não há uma só linha em nenhum de meus livros que não tenha sua origem num fato real. Uma dessas transposições é o estigma do rabo de porco que tanto inquietava a estirpe dos Buendía em Cem anos de solidão. Poderia recorrer a outra imagem qualquer, mas pensei que o temor do nascimento de um filho com rabo de porco era o que menos probabilidade tinha de coincidir com a realidade. Logo que o romance começou a ser conhecido, surgiram em diferentes lugares das Américas confissões de homens e mulheres que tinham algo semelhante a um rabo de porco. Em Barranquilla, um jovem se apresentou aos jornais: nascera e crescera com aquele rabo, mas não revelara a ninguém, até que leu Cem anos de solidão. Sua explicação era mais assombrosa do que seu rabo. 
— Nunca disse que o tinha porque me dava vergonha, mas agora, lendo o romance e ouvindo as pessoas que o leram, dei-me conta de que é uma coisa natural.
Pouco depois, um leitor me mandou o recorte da foto de uma menina de Seul, capital da Coréia do Sul, que nasceu com um rabo de porco. Ao contrário do que eu pensava quando escrevi o romance, cortaram o rabo da menina de Seul e ela sobreviveu.
Minha experiência de escritor mais difícil foi a preparação de O outono do patriarca. Durante quase dez anos li tudo o que pude sobre os ditadores da América Latina, e em especial do Caribe, para que o livro que pensava escrever se parecesse o menos possível com a realidade. Cada momento era uma desilusão. A intuição de Juan Vicente Gómez era mais penetrante do que uma verdadeira faculdade divinatória. O doutor Duvalier, no Haiti, mandou exterminar os cães pretos no país, porque um de seus inimigos, tentando escapar da perseguição do tirano, despira-se de sua condição humana e se transformara em cão preto. O doutor Francia, cujo prestígio de filósofo era tão extenso que mereceu um estudo de Carlyle, fechou a República do Paraguai como se fosse uma casa, e só deixou aberta uma janela para que entrasse a correspondência. Antonio López de Santa Anna enterrou a sua própria perna em funeral esplêndido. A mão cortada de Lope de Aguirre flutuou rio abaixo durante vários dias, e os que a viam passar estremeciam de horror, pensando que mesmo naquele estado a mão assassina podia erguer um punhal. Anastasio Somoza García, na Nicarágua, tinha no pátio de sua casa um jardim zoológico com jaulas de dois compartimentos: num deles estavam as feras e no outro, separado apenas por uma grade de ferro, encerrados os seus inimigos políticos.
Martínez, o ditador teosofista de El Salvador, mandou forrar com papel vermelho toda a iluminação pública do país, para combater uma epidemia de sarampo, e inventara um pêndulo que colocava sobre os alimentos antes de comer, para verificar se estavam envenenados. A estátua de Morazán que ainda existe em Tegucigalpa é em realidade do marechal Ney: a comissão oficial que viajou a Londres para buscá-la resolveu que era mais barato comprar esta estátua esquecida num depósito do que mandar fazer uma autêntica de Morazán. 
Em síntese, nós, escritores da América Latina e do Caribe, temos de reconhecer, com a mão no coração, que a realidade escreve melhor. O nosso destino, e talvez a nossa glória, é tentar imitá-la com humildade, e da melhor maneira possível."
Gabriel García Márquez,  em  “Crónicas – obra jornalística: 1961-1984”. tradução Leo Schlafman. Record, 2019.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os verdadeiros pensadores não temem



Ideias que nem sequer estão erradas
por Eugénio Lisboa
A principal qualidade do estilo é a clareza.
Aristóteles

A clareza é a boa fé dos filósofos.
Vauvenargues

Falar obscuramente, qualquer um
consegue; com clareza, raríssimos.
Galileu Galilei

"O grande físico Wolfgang Pauli (1900 – 1958), que ganhou o Prémio Nobel da Física, em 1945, apadrinhado nada menos que por Einstein, era conhecido pela sua destemida frontalidade e ferina ironia. Ficou também conhecido por ter cunhado uma expressão que se tornou célebre: quando aspirantes a cientistas lhe propunham, para avaliação, teses estapafúrdias, sem pés nem cabeça, Pauli despachava-as, furiosamente, classificando-as de “not even wrong” (nem sequer erradas). Isto é, não tinham sequer dignidade para poderem ser consideradas erradas: não estavam certas nem erradas, porque não eram coisa nenhuma. É, provavelmente, a pior classificação que se pode dar a um trabalho qualquer: "not even wrong".
Confesso que, com uma frequência inquietante, leio textos de escritores muito festejados, premiados, traduzidos, apaparicados, aos quais me apetece pôr o carimbo com o diagnóstico mortífero de Pauli; "not even wrong". São textos que fazem parte de uma cultura que venera o obscuro, o opaco impenetrável, como valores insignes a promover. Como se o opaco e o obscuro fossem garantias de maturidade e profundidade. Como se por detrás daquelas ejaculações nevoentas, se escondessem tesouros apetecidos. O culto do arrevesado, do complicado, do “profundote” é, muito pelo contrário, um sintoma de aflitiva insegurança e imaturidade. É querer esconder uma total ausência de pensamento por detrás de um arrazoado pretensioso. Os verdadeiros pensadores não temem, antes procuram, a formulação mais simples, que desvele, sem mais embaraços, aquilo que descobriram. É a “boa fé dos filósofos”, de que falava o amável Vauvenargues, que Voltaire tanto admirava e estimava. Quem se aninha confortavelmente no obscuro, encontra-se inesperadamente parceiro do arbitrário e do atrabiliário. Passa-se o mesmo com os que, em vez do belo, nos servem o “bonito”. Já tenho respondido a quem me propõe um pensamento arrebicado e cheio de nevoeiro: “O que disse deve estar certo.” E, perante a perplexidade do meu interlocutor, esclareço: “Não percebi nada do que o Sr. disse e, na dúvida, é-se a favor do réu.”
Tudo isto me leva a uma velha convicção, na qual estou longe de me encontrar desacompanhado, de que seria, mais do que aconselhável, fundamental, que todos os cursos de letras incorporassem uma disciplina obrigatória, particularmente bem pensada e estruturada, de história da ciência. Sublinho: obrigatória e urgente. Talvez isto acabasse por incutir a muitos homens de letras algum respeito pelo asseado das ideias e da formulação delas. E também de respeito pelas palavras.
Até para a elaboração de metáforas se exige algum asseio, para se não cair no arbitrário quimicamente puro. Com uma desejada e suave passagem pela ciência, talvez se evitassem pérolas como estas, que desoladamente colho, hoje mesmo, num periódico lisboeta: 1) “Pões um animal no meio de um nevoeiro – que metade tapa, metade mostra – e o animal fica metade anjo, na metade que não se vê”; 2) “uma máquina de fumos na imaginação, lá dentro da cabeça, e a metáfora e a invenção surgem”; 3) “A máquina de fumos e de nevoeiro, como máquina de inventar, máquina de produzir metáforas por minuto quadrado”. Fico-me por aqui: Esta das “metáforas por minuto quadrado” é suficientemente ilustrativa do meu ponto de vista: uma pequena passagem pelo mundo da ciência não faz mal a ninguém."
Eugénio Lisboa, 15.12.2021

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Um Hino Glorioso de Ano Novo

 

De Johann Sebastian Bach,  Singet dem Herrn (BWV 190), um Hino Glorioso de Ano Novo.
O Maestro Sebastjan  Vrhonik dirige a  Orquestra e Coro  Carinthian Baroque Orchestra Concertino (Spalla): Pianista: Alina Kolomiets.
"O magnífico movimento de abertura da cantata de J.S. Bach,  Singet dem Herrn ein neues Lied (Cantai ao Senhor um cântico novo), BWV 190,  captura a alegria explosiva, a grandiosidade arquitectónica e a profundidade espiritual de uma das criações mais festivas de Bach, composta especificamente para as celebrações de Ano Novo. 
Bach tinha uma ambição  com esta obra, em Leipzig . O compositor  apresentou  a Cantata BWV 190 pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1724, o seu primeiro Ano Novo em Leipzig. Para compreender a força desta música, é preciso entender o momento. A Pressão do primeiro "Jahrgang" .  Bach era Thomaskantor (1)  há apenas sete meses. Tendo passado do serviço na corte em Köthen para a agenda extenuante da igreja luterana, enfrentava uma imensa pressão do público, do conselho da cidade e das autoridades teológicas. Esta obra de grande escala, com trompetes e tímpanos, foi uma declaração definitiva da sua supremacia e autoridade artística. 
O Quadro Litúrgico é  a Festa do Santo Nome. O dia 1 de Janeiro é também a Festa do Nome de Jesus. Todo o conceito da cantata está permeado pelo simbolismo do Nome. Para o crente daquela época, entrar num ano novo incerto — repleto de guerras ou pragas potenciais — só era possível no "Nome de Jesus".  A música aqui serve não apenas como prazer estético, mas como um escudo espiritual para o futuro. 
O Coro de Abertura é  um Triunfo da Polifonia O movimento de abertura é uma obra-prima estrutural de polifonia simultânea, combinando dois mundos musicais inteiramente diferentes num todo coerente. O Chamado Bíblico (O Presente): O coro canta energicamente o texto do Salmo 149 num ritmo dançante: "Singet dem Herrn ein neues Lied" (Cantai ao Senhor um cântico novo). Esta música, cheia de impulso rítmico, simboliza a alegria e a antecipação do futuro. A Fundação Litúrgica (A Eternidade): Simultaneamente, embutida na textura orquestral e vocal como um rio poderoso, encontra-se na antiga melodia (cantus firmus) do Te Deum alemão – o coral luterano "Herr Gott, dich loben wir" (Senhor Deus, nós Te louvamos). 
Ao unir o "Cântico Novo" com o "Velho Hino" estabelecido, Bach simboliza musicalmente uma verdade profunda: só caminhamos seguros para o futuro desconhecido se nos apoiarmos na fé estabelecida do passado. 
A Cantata BWV 190 carrega uma história dramática. É um milagre de reconstrução. O manuscrito original dos dois primeiros movimentos foi danificado e parcialmente perdido ao longo dos séculos. O que  se ouve é o resultado de uma meticulosa reconstrução musicológica. As partes que faltavam para três trompetes, tímpanos e três oboés foram reescritas com base nas regras estritas do contraponto e harmonia de Bach, restaurando a obra ao seu pleno esplendor barroco."

(1)Thomaskantor (Cantor de São Tomás) é o nome comum dado ao director musical do Thomanerchor Leipzig, um coro de rapazes de renome internacional fundado em Leipzig em 1212. O título histórico oficial do Thomaskantor em latim, Cantor et Director Musices, descreve as duas funções de cantor e director. Como cantor, preparava o coro para as apresentações em quatro igrejas luteranas: Thomaskirche (São Tomás), Nikolaikirche (São Nicolau), Neue Kirche (Igreja Nova) e Peterskirche (São Pedro). Como diretor, organizava a música para eventos da cidade, como eleições municipais e homenagens. Os eventos relacionados com a universidade aconteciam na Paulinerkirche. 
J.S. Bach foi o Thomaskantor mais famoso, de 1723 a 1750.
Leipzig possui uma universidade que remonta a 1409 e é um centro comercial, tendo acolhido uma feira comercial mencionada pela primeira vez em 1165. A cidade tem sido predominantemente luterana desde a Reforma Protestante. O cargo de Thomaskantor na época de J.S. Bach foi descrito como "um dos mais respeitados e influentes cargos musicais da Alemanha protestante".


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Que venha 2026!



Tudo está na palavra … Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada.
Pablo Neruda, Confesso que vivi – memórias

Não há hora certa para ouvir o sopro dos ventos, o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas nas árvores, o murmurar dos regatos, o barulho da chuva. A música são objetos sonoros que criamos como companheiros da música da natureza, para acrescentar-lhes uma beleza diferente, saída de dentro de nós. É preciso viver no meio dela como vivemos no meio dos ventos, dos pássaros, das árvores, dos regatos, da chuva…
(...)A educação da nossa sensibilidade musical deveria ser um dos objetivos da educação. Os conhecimentos da ciência são importantes. Eles nos dão poder. Mas eles não mudam o jeito de ser das pessoas. A música, ao contrário, não dá poder algum. Mas ela é capaz de penetrar na alma e de comover o mundo interior da sensibilidade onde mora a bondade. Afinal, esta não deveria ser a primeira tarefa da educação: produzir a bondade? 
Rubem Alves, Educação dos sentidos

Pablo Neruda, o grande poeta, afirma, com convicção, que tudo está na palavra. E eu acredito. Palavra de poeta tem um valor incontestável. Afinal a palavra é o material único da sua oficina. A palavra tem tudo para burilar, cinzelar, aparar, lavrar, triturar, salvar, amar. O poeta sabe e faz.
Entretanto o ensaísta ,Rubem Alves,  leva-nos ao coração da música. É preciso viver dentro dela de igual forma como vivemos no meio da natureza. Ela não traz a força do poder, mas penetra na alma do Homem. Penetra-lhe na alma e acorda-lhe a sensibilidade, onde mora a bondade. E não é de tudo isso que nós precisamos?! Um mundo novo onde o Homem seja capaz de gerar misericórdia.
Que venha 2026!

ᗅᗺᗷᗅ , em  Happy New Year (1980).O nome deste grupo foi feito com as iniciais de cada nome dos quatro membros do grupo:– Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid “Frida” Lyngstad. Foi um dos maiores e  mais populares grupos de 1970.
 
Ray Charles & The Voices Of Jubilation, em  Oh, Happy Day.
 
Josh Groban, em  The Year Now Pass,  A Sacred New Year Hymn.
 Rod Stewart , em Auld Lang Syne –| New Year Lyrics | Farewell Old Year, Welcome New Year 2026.

Escutar os sons do mundo


Escutar os sons do mundo
por Rubem Alves
"Lembro-me do livro de contabilidade do meu pai. Ao lado esquerdo ficava a página do “Deve”, onde ele anotava os pagamentos feitos, dinheiro que não era mais seu. Ao lado direito estava a página do “Haver”, onde se registravam as entradas, sua pequena riqueza.
Na alma também se encontra um livro de contabilidade. Tanto assim que o Vinicius escreveu um poema com o título “O haver”. Ele já estava velho e fazia um balanço final do que restara. “Resta”: é assim que cada verso se inicia.
.
Resta […]
Essa intimidade perfeita com o silêncio […]
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza […]
Resta essa comunhão com os sons […]
Resta […]
essa súbita alegria

Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…
Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade de um poeta! Os poetas são seres muito estranhos. Ficam felizes com nada. A poesia se faz com nadas… Bem disse o Manoel de Barros:

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. […]
As coisas que não servem para nada têm grande importância…
Fernando Pessoa sofria da mesma peculiaridade auditiva do Vinicius. Lembro-me de um verso seu que não consegui encontrar, que é mais ou menos assim: “Por esse barulho do vento nos meus ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso não foi dele, fica sendo meu, porque eu já tive a mesma experiência várias vezes. Caminhando sozinho no silêncio das árvores, o vento me sussurra segredos de felicidades, como revela Fernando Pessoa:

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.
 
Ouvir os sons do mundo é uma felicidade que somente os artistas recebem por nascimento. Os outros têm de aprender. Para isso há de haver os mestres da escuta. Como John Cage que compôs uma curiosa peça para piano. É assim: o pianista faz precisamente o que fazem todos os pianistas. Entra no palco, encaminha-se para o piano, assenta-se, regula a distância do banco, concentra-se – e não faz o que todo pianista faz. Ele não toca! Não, não! Não está certo! Eu errei! O pianista toca, sim. Ao piano ele executa o silêncio. O piano toca uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para que se ouçam os delicados sons do mundo que não seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do coração, a respiração, o ranger de uma cadeira, uma tosse, um sussurro… “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”, disse Lichtenberg. O não fazer é a forma suprema de fazer, afirma a filosofia tao. Fazer nada é estar à espera. Por isso se aconselha meditação, que nada tem a ver com a meditação ocidental. A meditação ocidental é falar baixo os próprios pensamentos de uma forma metódica. O piano toca. Mas a meditação oriental é silenciar os próprios pensamentos para que os sons do mundo possam ser ouvidos. O piano não toca. Pra que serve isso? Pra nada. Não é ferramenta. Não tem utilidade. É coisa da caixa de brinquedosSó dá felicidade.
O mundo está cheio de música. Há os sons que não existem mais, que estão perdidos na memória. Meu amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia seria chamar do esquecimento os sons que um dia ouviram e que não se ouvem mais. A música do realejo, o canto do carro de bois, o apito das fábricas, das locomotivas, o “din-din” dos bondes, o canto dos galos, o repicar fúnebre dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões de lenha, a gaita do sorveteiro, a buzina das charretes… Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem. Há também os sons da cidade, os gritos dos vendedores, o vozerio nas feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, os bate-estacas das construtoras, o canto dos pardais, os rádios ligados dos trabalhadores, o latido ardido dos poodles… E há os sons da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva, os mantras das cachoeiras, o canto dos pássaros, dos sapos, dos grilos (tantos haicais sobre os grilos…), dos galos, o barulho das ondas…
Todo homem – até mesmo o rico – é poeta entre os quinze e os vinte anos. A nova educação deverá fazer do homem um poeta em todas as idades, sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver a poesia é muito mais necessário e importante do que escrevê-la, assim disse Murilo Mendes. Poesia é música. A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar. Depois, é a música do mundo…
“Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram”, escreveu Cummings. Acordar os ouvidos! Não me consta que essa tarefa tenha sido jamais mencionada em tratados sobre a educação. É compreensível. Para isso os professores teriam que ser artistas, pianos que não tocam nada e que só fazem ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos jovens aprenderão a identificar o canto dos pássaros e ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…”
Rubem Alves,in A educação dos sentidos, Paidos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Viajar em 2025 - Retrospectiva de Lugares Incríveis no Nosso Planeta

Somos todos peregrinos na Terra.
Até ouvi alguém dizer que a própria Terra é um peregrino nos céus. 
             Maximo Gorki, As Catacumbas

  

Retrospectiva de 2025: Lugares Incríveis no Nosso Planeta 
"2025 - Retrospectiva: uma selecção dos melhores 25 vídeos sobre Lugares Incríveis, lançados em 2025,   por Milosh Kitchovitch (Amazing Places on Our Planet). 
Boas Festas e um Feliz Ano Novo de 2026! Obrigado por acompanhar o canal."

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A 29 Dezembro de 1899...

"A 29 Dezembro de 1899 foi publicado o sétimo romance de Machado de Assis, DOM CASMURRO , seguindo-se a Quincas Borba (1891) e precedendo Esaú e Jacó (1904). Objecto de numerosos estudos e releituras, a obra é considerada por grande parte da crítica o ápice da ficção machadiana, e o enredo e personagens instalaram-se como poucos no imaginário literário brasileiro.
Desde A mão e a luva, todos os romances de Machado vinham sendo publicados primeiramente em diferentes periódicos, saindo depois em livro, às vezes poucos meses depois de publicado na imprensa o último capítulo. Dom Casmurro, reencontrando Ressurreição (1872), o primeiro romance de Machado de Assis, sai direto em volume, começando a circular no Brasil em janeiro de 1900, embora a data oficial de publicação seja 1899, quando, nos últimos dias de dezembro, o livro ficou pronto, em Paris, sede da casa editora Garnier.
Nem só por esse aspecto por assim dizer editorial o romance de 1899 reencontra o de 1872. Vários críticos têm apontado semelhanças entre os dois enredos, em que a insegurança do protagonista se constitui como barreira à felicidade conjugal possível, já que ambos - Félix, de Ressurreição, e Bentinho, de Dom Casmurro - deixam-se dominar pela dúvida, pela suspeita em relação à fidelidade das mulheres que amam. No caso do primeiro romance, a jovem viúva Lívia, com quem Félix não chega a se casar, é vítima das dúvidas do noivo, que desconfia, infundadamente, de que ela poderia ter sido infiel ao marido e que, portanto, poderia também vir a traí-lo. No caso de Dom Casmurro, a coisa se complica, pois a narrativa é de primeira pessoa, e o narrador-protagonista procura impor a sua visão dos factos, permeada de embustes, manipulações e indicações sagazmente dispostas ao longo do texto para incutir no leitor a dúvida em relação ao que está sendo dito. Com o seu relato, quer convencer-nos de que a mulher o traiu com seu melhor amigo. A ausência de um narrador neutro, de terceira pessoa, impossibilita qualquer certeza por parte do leitor. Afinal, só se conhece a sua versão dos factos. Quem sabe, caso fosse permitido a Capitu narrar os acontecimentos do seu ponto de vista, teríamos outra história? Assim, Dom Casmurro é um romance permanentemente aberto, deixando ao leitor mais dúvidas do que certezas, mais perplexidades do que convicções. E talvez seja esse o seu maior encanto, que se reencena a cada leitura, para além da questão que vem ocupando a mente de muitas gerações: Capitu traiu ou não traiu o marido?
De facto, o romance é uma obra-prima de concisão, elegância, ambiguidade, trazendo quase a cada página um desmentido ao que se leu na página anterior. Basta aqui um exemplo: o narrador quer que acreditemos que o filho que tem com Capitu é na verdade filho de seu grande amigo, Escobar, e chega a essa conclusão pela semelhança física que parece haver entre os dois. No entanto, ao narrar uma visita que faz à casa de uma amiga de Capitu, quando ainda eram adolescentes enamorados, relata candidamente que o pai da amiga lhe aponta um retrato da mulher, com quem Capitu seria parecidíssima, embora não houvesse entre elas qualquer parentesco (capítulo LXXXII). E põe na voz dessa personagem, Gurgel, a seguinte frase: "Na vida, há dessas semelhanças esquisitas." Não seria o caso, então, de o leitor perguntar, ao fim do livro, se a eventual semelhança de Ezequiel com Escobar não seria também uma dessas semelhanças esquisitas?
Dom Casmurro conta a história de Bento Santiago (Bentinho), apelidado de Dom Casmurro por ser calado e introvertido. Em adolescente apaixona-se por Capítu, abandonando o seminário e, com ele, os desígnios traçados por sua mãe, Dona Glória, para que se tornasse padre.
Casam-se e tudo corre bem, até o amor se tornar ciúme e desconfiança. É esta a grande questão que magistralmente Dom Casmurro expõe ao longo de 148 capítulos: a dúvida que paira ao longo de toda a obra sobre a possibilidade de traição de Capítu, agravada pela extraordinária semelhança do filho de ambos, Ezequiel, com o grande amigo de Bentinho, Escobar." in Obras de Machado de Assis.
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"Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu e viveu no Rio de Janeiro. A única vez que deixou a cidade, em 1879, para convalescença de crise de epilepsia, foi para Nova Friburgo. Essa estada ficou literariamente famosa por ter aí começado — ditando-o à mulher, Carolina — Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro singularmente extravagante que marca toda a sua obra. Descendente de escravos (o pai, pintor de paredes, era filho de escravos forros; a mãe, uma lavadeira açoriana), pobre, órfão muito cedo, não teve educação formal e foi funcionário público, mas, não obstante ter surgido como o mais excêntrico escritor que o Brasil já conhecera, cedo alcançou enorme reputação literária, fundando e presidindo a Academia Brasileira de Letras. Foi o mais completo homem de letras oitocentista no Brasil, escrevendo em vários géneros, mas destacando-se enquanto romancista, contista e cronista. Os seus romances ainda surpreendem pela atualidade, pelo inesperado do humorismo filosófico e pelo cosmopolitismo. Parece nunca ter sido tão estimado pelos seus pares como foi por eles admirado, o que seria injusto atribuir à excecional configuração do seu génio literário."