sábado, 31 de julho de 2010

" Lugar de Estudo" , Grande Prémio de Poesia da APE

"Lugar de Estudo" de Fernando Echevarría, publicado pelas Edições Afrontamento, recebe o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(APE)/CTT.O Júri que analisou a obra declarou em comunicado que " Lugar de Estudo "representa um momento singularmente alto de Poesia Portuguesa Contemporânea. Os cerca 270 poemas inéditos que o compõem são a expressão vigorosa de uma arte poética que o título resume. A poesia é, para este autor, um lugar de Estudo e de, aperfeiçoamento do trabalho poético, o qual é também o lugar da língua.”

Lugar de Estudo

Começa na velhice a erguer-se um halo
de acolhimento. Promete,
não só indulgência, mas também um sábio
silêncio, de onde se difunde e deve
a auscultação desenvolver o pálio
de outro silêncio mais profundo. Que ergue
a escuta a um ponto, cada vez mais alto,
que, com maior intensidade, tende.
Terá esse exercício força de hausto?
Ou será padecê-lo que protege?
O certo é que a velhice encontra os anos.
E os anos sabem a fecunda messe
de estudos que, mesmo inacabados,
a outros estudantes se oferecem.
A escuta cresce por dentro
de estar atenta a escutar.
Traz um agudo silêncio
a estender cada vez mais
o seu domínio. Que a escuta,
arraigada, polariza
de forma a serem só uma
operação. Mais ainda,
uma unidade profunda
onde sofrê-la se activa.
Ou há um silêncio de escuta
onde só a escuta domina.
E aquilo a escutar
punge o grande sofrimento
da alegria, que se vai
na escuta recrudescendo.


A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado à obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.
Por trás do céu há o céu inteligível.
E, por trás deste, um céu aberto
a abrir-se ainda, sem qualquer limite,
mas puxando após si o pensamento.
Ou, se quiserem, o feliz requinte
de alargarem a paz a um céu inédito
onde o reino profundo do invisível
funda o visível no fecundo aspecto
de ímpeto. Lume imperioso. Riste
abrindo a um novo assunto de silêncio.
E através do silêncio silencia-se
o assunto. Apenas o incremento
do ímpeto se abstrai ao eco do que disse
para o luto do dito abrir assento
a um penúltimo cume. A um trampolim de
invisível a ir pelo invisível dentro.


Não cabe em nome algum. O que lhe demos
apenas dele nos diz quanto nos falta.
Que nomear é reduzir a objecto
de submissão quem alicerça a dádiva.
E a dádiva o que dá é um dar aberto.
Partindo de um recuo de distância
irradia, a nome algum sujeito
ou, se algum se lhe der, é o que o afasta
da precisão estrita de conceito.
Então só resta que uma escuta de alma
se intensifique para abrir-nos dentro essa profundidade inominada
a dar somente para o sempre imenso.
E desse imenso se divulga a flama,
não só invisível, mas também efeito
da pungência feliz da sua falta.
Estamos graves a ir
por esse longe que vem
ao nosso encontro. E assim
ir e vir resumem ver
como vai sendo feliz
o tempo que o tempo tem.
Mas o tempo tem-se a si
somente quando refém
da palavra que o diz.
Dizê-lo deixa-o, porém,
exposto a um vento sem fim,
que venta sem fim. Amen.
Promontório de Deus. De onde Ele se ausenta.
Só nos deixando a grande nostalgia
na sua massa espessa.
Que abre distância de recuo assídua
e alarga a inteligência
por uma busca quase que festiva.
Ou mais, talvez, por uma via tensa
de júbilo e sentido. E, até, sofrida
na sua panda activação de vela.
Que vai sofrendo e activando a vinda
da invisibilidade, da surpresa
inominada, que procura ainda
seu nome peremptório. Mas nomeia
essa distância a distanciar-se implícita.
Ou promontório de onde Deus se ausenta
para auscultarmos sua face viva.
Com Deus. E vivos. E andando sempre
ao sol. À chuva. E ainda ao vento.
Vivos, escutam. Nem sente
a aura oculta do seu corpo aceso
que à volta difundem e dispendem
como dispendem o conhecimento.
Que conhecer é reunir a febre,
o frio e o silêncio
num todo indivisível que só serve
a intimidade de sofrer o peso
do mundo, da intempérie.
E aquilo que eles trazem desde dentro.
E, desde dentro, emerge
de modo à tez iluminar o vento,
quando passarem quase a si se esquece,
embora punja em os estarmos vendo.
Estão com Deus. E, do fundo
de estarem ali, vem vindo
a grande escuta. Aí tudo
especifica o seu vínculo.
O mar instrui no marulho
sua imagem. Como o rio
a sua traça no fluxo
figurado do sentido.
Na grande escuta abre o mundo
o silêncio. E abre um sítio
onde só reina o estudo
aberto ao reino do espírito.
E com Deus aberto, ao fundo
de estarem ali ouvindo.

Fernando Echevarría, in " Lugar de Estudo", Ed. Afrontamento
04.01.10

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Revisitando um grande escritor



Baptista-Bastos é um extraordinário escritor e um arguto analista da nossa época, da nossa sociedade , do nosso país, deste nosso PORTUGAL. A sua escrita nunca nos deixa indiferentes , pelo que frequentemente reponho, aqui, alguns dos seus artigos que, contínua e magistralmente, vai publicando. Sendo um dos maiores escritores da actualidade, tem uma memória vasta da cultura portuguesa e dos seus actores mais valiosos, companheiros de percurso.
Neste artigo que se transcreve , recorda Fernando Namora e a grandeza do projecto da sua obra que, tal como muitos outros, jaz em esquecimento neste país de fabrico rápido de não-talentosos fazedores de livros, cuja maioria nem sequer merece um obscuro lugar na designada Literatura de cordel, actualmente apelidada de Literatura light.
Ontem, Mário de Carvalho recebeu pela segunda vez o prémio Fernando Namora com o romance “Sala Magenta”, já que fora premiado, em 1996, com o romance “ Um Deus passeando pela brisa da tarde”. Assim, recordar este grande escritor com as palavras de outro grande escritor tem toda a validade.



Fernando Namora visto de perto
09 Julho2010 12:52
Baptista Bastos, In “Jornal de Negócios”

Fernando Namora pertenceu a uma época em que a cultura dispunha de poder, e a um grupo de intelectuais que tinha como objectivo realizar uma teoria de conjunto da injustiça social.


"Se não esqueceres os teus amigos, eles viverão enquanto tu viveres. Não há mortes individuais. Nem vidas."
ELIAS CANETTI - "Massa e Poder"

Vou ali à estante. Lá está ele, junto com os seus camaradas de geração. A densa capa do esquecimento tombou sobre ele; mas os seus camaradas, quase todos, não tiveram melhor sorte. Fernando Namora pertenceu a uma época em que a cultura dispunha de poder, e a um grupo de intelectuais que tinha como objectivo realizar uma teoria de conjunto da injustiça social. Hoje, talvez se olhe para aquele tempo e se examine aquele projecto com pequenos sorrisos desdenhosos. A ignorância sempre foi pedante e atrevida. E a grandeza daqueles jovens de então media-se pela dimensão do que ambicionavam e pela urgência do que diziam.
Seria, acaso, importante proceder-se à leitura de um antigo texto de Namora, contido numa reedição do belíssimo "Casa da Malta", e talvez se entendesse que a relação, a relação com o outro, é o traço principal identificador da cultura. A cultura como meio de transformação; a cultura como processo de mais uma criação do "outro."
Nesse grupo de escritores, que a definição de "neorealistas" tornou redutora, creio que somente o Fernando Namora não era marxista. Todos os outros o eram, habitualmente sem terem lido Marx, a não ser através dos seus intérpretes: Friedman, Goldman, Lukacs, Lefebvre, Costas Axelos, textos esparsos de Lenine, Staline; alguns artigos de Elio Vittorini, traduzidos, à socapa, da grande revista "Il Politecnico", na qual o romancista de "Os Homens e os Outros" polemizou com Palmiro Togliatti. De resto, a formação dessa gente fez-se com a argumentação da leitura. A lista de autores americanos, russos, italianos, franceses por eles consumida é impressionante, pelo tamanho e pela diversidade.
Curioso é o facto de o "neorealismo" ter surgido em locais tão separados pela distância como em Coimbra, no Porto, em Santiago de Cacém, Vila Franca de Xira - e nas tertúlias dos cafés de Lisboa. É o que se convencionou designar de "o ar do tempo", e de uma vontade reconstrutora do mundo e da sociedade. O propósito cabia nesta princípio: a cultura da exclusão leva, inevitavelmente, à exclusão da cultura. Portanto, a cultura como mediadora que se não subordinava à razão dominante.
Namora é um dos mais importantes partícipes desse projecto sem programa. Ergue um edifício literário no qual a estética se associa a uma ética muito pessoal: nele, na sua obra, o acto cultural é um compromisso que se não esvazia de um forte conteúdo moral. Instalando-se em Lisboa, nunca se adaptou às malícias e às artimanhas da cidade. Como Aquilino, sobre o qual escreveu um texto a vários títulos admirável, Fernando Namora nunca deixou de ser um homem do campo com a nostalgia dos grandes silêncios e dos imensos espaços.
Tenho várias fotografias com ele. A mais antiga, eu para aí com vinte anos, no gabinete onde ele trabalhava no Instituto de Oncologia. Fui entrevistá-lo para a revista "Eva", dirigida por uma senhora excepcional, Carolina Homem Christo, e em cuja Redacção escreviam Carlos de Oliveira, Maria Judite de Carvalho, José Cardoso Pires e Rogério de Freitas. A entrevista levava o título de "Retalhos da Vida de um Escritor." Na imagem, lá estão o seu rosto fechado, o seu sorriso magoado, o seu ar melancólico e, também, o registo da sua bondade, da sua compaixão e da sua generosidade. Não foi um homem feliz. E, no entanto, ele, Ferreira de Castro e Urbano Tavares Rodrigues eram, então, os escritores portugueses mais conhecidos, mais traduzidos, mais admirados e, até, adulados.
A notícia da próxima saída de um livro de Namora causava grande alvoroço. Ocasiões houve em que, antes de sair a público, a primeira edição de alguns dos seus livros (cinco mil, sete mil e quinhentos exemplares) já estavam esgotadas. E há títulos de Namora que constituem importantes documentos literários da vida portuguesa. O seu impressionante êxito: edições de milhares e milhares de exemplares, traduções constantes, ensaios, estudos exegeses, teses sobre a sua obra, amiudadas vezes requisitado pela Imprensa a fim de depor acerca de este e de aquele assunto; entrevistas, comentários - enfim, essa glória que o envolveu não deixou de causar invejas e ressentimentos. A vida literária portuguesa não é diferente da vida literária em outros países [leia-se, a título de exemplo, "Écrits Intimes", de Roger Vailland, outro grande esquecido]. E Namora, cuja generosidade e camaradagem eram lendárias, sentia, profundamente, a circunstância. No entanto, jamais deixou de ser amável e cortês, até efusivo, com muitos daqueles que o atropelavam nas tertúlias dos cafés.
Pessoalmente, devo-lhe favores, gentilezas e atenções. Foi ele quem se prestou, sem lho pedir, a falar com o seu editor de então, o Lyon de Castro, da Europa-América, sobre um livro meu "As Palavras dos Outros", cuja primeira edição foi lançada pela constância da sua bela camaradagem. Ele sabia muito bem das aleivosias, dos destratos de que era objecto. Nem uma vez, nem uma escassa e módica vez, se me queixou. Encontrávamo-nos nos cafés. Tentava animá-lo. Visitava-o em sua casa, na Infante Santo. Já muito doente, fez questão em assistir ao lançamento de um livro meu, "A Colina de Cristal", sobre o qual ainda me enviou uma carta fraterna e generosa.
Agora, tomo de mão o que, num depoimento ao "Diário de Lisboa", sobre a morte dele, disse Agustina Bessa-Luís, como só ela o sabia dizer: "Falta-nos o rio triste do seu olhar."

segunda-feira, 26 de julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Canção Mínima


No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles, in “ Antologia Poética “

sábado, 24 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Portugal estival


O Banco de Portugal vai revelar o resultado dos testes do stress à Banca Portuguesa. Que a Banca tinha stress constitui uma inopinada revelação. Acreditei sempre que o stress acometia aqueles que procuram a Banca ou que a ela recorreram e que de juros e de taxas exorbitantes se vão calamitosamente afundando. Deve haver por aí uma excessiva apropriação linguística que confunde, já que não remete para a causa , mas apenas para o efeito.
São 701 Escolas do Ensino Básico que vão encerrar e o Portugal do interior ficará cada vez mais desertificado. O desnorte continua a marcar a política educativa. Os grandes aglomerados que se combatiam num passado bem recente, passam a ser opção de excelência para o sucesso educativo. E assim se despem aldeias, vilas e se coarcta a acção de muitas autarquias na fixação da sua população.
O ano parlamentar fechou, ontem, com balanços e atropelos entre os nossos calorosos Deputados. Entretanto, Jaime Gama fez um balanço da actividade desenvolvida e considerou-a positiva: A bancada da oposição não obstruiu o exercício da governação e a bancada do Partido do Governo apoiou-o. Com uma análise perspectivada desta maneira, quase concluimos que a harmonia foi soberana.
Em Angola, o Presidente da República vai exortando os empresários ao investimento fora da capital angolana e a CPLP não aprova a entrada da Guiné Equatorial . Os interesses estratégicos transformam os valores linguísticos ou fazem assumir um passado histórico que se pensava esquecido.
Está assim o nosso Verão. Dizem que é a " silly season "e certamente têm razão.