terça-feira, 12 de março de 2013

Cometa visível nos céus


Posição do 2011 L4 Panstarrs no céu nos próximos dias
Posição do 2011 L4 Panstarrs no céu nos próximos dias

O cometa 2011 L4 Panstarrs, descoberto há um ano e meio, tem sido visível do planeta Terra, no hemisfério sul. Mas a sua trajectória dentro do Sistema Solar vai permitir que nos próximos dias seja visto, a olho nu, no hemisfério norte.Será observável como um ponto luminoso com uma cauda difusa a elevar-se verticalmente no horizonte, fazendo lembrar um ponto de exclamação. Não representa qualquer risco para a Terra, afirmam os especialistas da NASA, que seguem atentamente o objecto. O 2011 L4 Panstarrs começa a ser visível  mesmo durante a noite, contudo em condições difíceis. Será necessário um campo de visão totalmente limpo, a oeste, e só se verá durante 15 minutos depois do anoitecer. No  Domingo, o cometa esteve no ponto da sua órbita mais próximo do Sol, deixando de ser visível devido ao brilho intenso da luz solar. Mas a 12 de Março,  Terça-feira, voltará a aparecer no céu.
Até final do mês, vai ser cada vez mais difícil ver o cometa, mesmo com pequenos telescópios. Isto, porque não é muito brilhante e vai estar muito baixo no horizonte. Para ser visível, o céu terá de estar limpo de qualquer obstáculo, a sudoeste, pouco depois do crepúsculo e as condições atmosféricas devem ser boas”, explica em comunicado Amy Mainzer, do Laboratório de Propulsão a Jacto, da NASA.
Quem perder esta oportunidade, poderá ainda este ano, no final do Outono, observar o cometa Ison que também nos fará uma visita," in CiênciaHoje",8/03/2013

segunda-feira, 11 de março de 2013

Num beco sem saída


O que nos acontece e o que dizem de nós
por Baptista Bastos
"O professor universitário dr. Paulo Morais escreveu, no "Correio da Manhã" do dia 5, pp, um artigo que merecia a maior divulgação: "Marginais de Sábado." Paulo Morais é um dos dois ou três (não mais) articulistas portugueses que não baralha as coisas e redige num idioma claro e interveniente. O "Correio da Manhã" é um matutino cercado de preconceitos pelas bem-pensâncias cá do brejo. Devo dizer que leio o jornal com assiduidade, e que gosto de o ler pela singela circunstância de que cumpre rigorosamente o princípio fundamental do jornalismo: dá notícias. Numa tertúlia, "Os Empatados da Vida", agora em "standby", muitas vezes conversámos acerca das características do jornal, acertando nos objectivos acima referidos: dá notícias. Os tertulianos são gente do ofício: Mário Zambujal, Fernando Dacosta, João Paulo Guerra, António Borges Coelho, Eugénio Alves, cá o Bastos, todos velhos estradeiros da Imprensa, todos amantes de ler o que por aí se edita.
Não conheço pessoalmente o director do "Correio da Manhã", mas muitos dos que lá trabalham, porque os leio, tenho-os como profissionais honrados e probos. Ainda há semanas, num programa de televisão, assisti a um debate no qual Octávio Ribeiro, o director do diário, com modéstia e aplicação, firmeza e conhecimento de causa, replicou, a alguns preopinantes convidados, e cuja soberba e embófia são conhecidas, o que entendia como Imprensa e como informação. A clareza do raciocínio de Ribeiro esbarrou com os tatibitates dos que se servem da retórica dos lugares-comuns para esconder a vacuidade de pensamentos tardios.
Como o "Correio da Manhã" dá notícias que outros órgãos de comunicação minimizam ou omitem, por presunção de uma superioridade que não possuem, eu, modestíssimo profissional de outra estirpe, leio-o com proveito, gosto e prazer. E foi com proveito, gosto e prazer que li o artigo do prof. Paulo Morais. "No último fim-de-semana o povo saiu à rua. Veio clamar por justiça rejeitar as políticas seguidas por este regime moribundo. Nas manifestações, em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o País, estava representada uma maioria sofredora, todo um povo que se sente num beco sem saída."
Prossegue Paulo Morais: "Um beco em que Cavaco, Guterres, Barroso e Sócrates nos encurralaram. Passos Coelho prometeu que nos iria resgatar deste atoleiro, mas apenas nos tem mantido no 'status quo', tornando-se assim corresponsável por uma das piores faces da vida da história do País. Esta é a geração mais espoliada nos seus rendimentos, que são transferidos pelo sistema político para os cofres dos verdadeiros donos do regime, bancos, construtores e promotores imobiliários. A política abastardou-se e transformou o Orçamento do Estado um instrumento que drena os recursos dos pobres para o bolso dos poderosos."
Enquanto noutros jornais, nas televisões e nas rádios se discute o sexo dos anjos, consubstanciada, a "discussão", no número de manifestantes, o "Correio da Manhã", pela pena do seu colaborador, Paulo Morais, colocou a questão no devido lugar, relevando o que de fundamental ela comportava. Um prazer e um acto pedagógico ler, no "Correio da Manhã", repito, o lúcido comentário do professor universitário do Porto.

Um belo estudo de José Brandão

José Brandão tem dedicado a parte mais estelar da sua vida a duas causas: a da liberdade e ao estudo da História, procurando a natureza do nosso destino, e as causas da nossa decadência. Na esteira de Antero e de outros vaticinadores dos nossos infortúnios, José Brandão, com um esforço intelectual exemplar e uma integridade e rigor nem sempre comuns a trabalhos de académicos, tem vindo a publicar uma obra extremamente importante, com o objectivo de esclarecer o que fomos, a fim de perceber o que nos acontece. Agora, veio a lume "Este é o Reino de Portugal", Edições Saída de Emergência, admirável repositório "do que disseram, sobre Portugal e os portugueses, os estrangeiros que nos visitaram nos últimos três séculos." É um trabalho a vários títulos notável, a valer a atenção de quem deseja saber. Recomendo, vivamente, a leitura deste belíssimo volume. " Baptista Bastos em Artigo de Opinião,publicado no JN, 8/03/2013

domingo, 10 de março de 2013

Ao Domingo há Música

"A separação da Terra e Água" de Miguel Ângelo, Capela Sistina, Vaticano
“Em tudo o que suscita em nós o sentimento puro e autêntico do belo, existe realmente a presença de Deus. Há uma espécie de encarnação de Deus no mundo, de que a beleza é testemunho. O belo é a prova experimental de que a encarnação é possível. Portanto, toda a arte de primeira categoria é, por essência, religiosa. ”
Simone Weil, in  "A Gravidade e a Graça", Ed. Relógio D'Água.

Neste segundo Domingo de Março, revisitámos uma das grandes obras de  W.A. Mozart , "A missa da coroação  K-317". Sobre a criação desta obra, existem duas versões que diferem nas datas e nos motivos que levaram  Mozart a compô-la. Assim, "a primeira está relacionada com um incêndio que destruiu a igreja de Regem na Bavária, deixando intacta a imagem de Nossa Senhora que estava no interior. Transformada em objecto de peregrinação, a imagem foi transferida para Salzburgo e colocada  numa capela na montanha de Plain, por volta de 1657; dali foi transferida para o Santuário de Maria Plain, onde recebeu, em 1751, uma coroa de prata abençoada pelo Papa. Desde então, essa data é celebrada no quinto Domingo depois de Pentecostes. A “Missa da Coroação” de Mozart teria sido composta para o vigésimo oitavo ano dessa comemoração, em 1779.
A segunda versão vai na direcção contrária: analisando as datas, estudiosos perceberam que o quinto Domingo depois de Pentecostes acontece em Junho ou Julho. Naquele ano de 1779, caiu no dia 27 de Julho.  Mozart concluiu a obra no dia 23 de Março e como  sempre concluía  os seus trabalhos na última hora, acredita-se que ele a tenha escrito para a celebração do Domingo de Páscoa na Catedral de Salzburgo, que aconteceu doze dias após ter terminado a composição. Neste caso, a relação da obra com uma coroação seria posterior, já que outras missas de Mozart foram executadas nas coroações de Leopoldo II como rei da Boémia,  em 1791 e de Francisco II como rei da Hungria, em 1792." 
“Credo", parte integrante desta " Missa da Coroação K-317", mantém o clima glorioso. Ei-la , na  excepcional interpretação da Orquestra Filarmónica de Viena,  sob a direcção do maestro Herbert von Karajan , com as excelentes vozes de Kathleen Battle, Trudeliese Schmidt, Gösta Winbergh, Ferruccio Furlanetto e do Wiener Singverein, na Basílica de S.Pedro, Vaticano - Roma. 


sábado, 9 de março de 2013

Natália Correia no Museu



Autogénese

(...)Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam

nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
as vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.(...)
Natália Correia,"Autogénese", in "Antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa”, Ed.Assírio & Alvim, 1985

Uma vez que já tudo se perdeu


Cantam na Catedral
Cantam na catedral ao fim do dia
Sou uma posição ameaçada
E nada nos meus gestos concilia
o fim do dia com a madrugada

Esta chávena faz-me companhia
Um café pode ser a solução
Ó vida ora cheia ora vazia
Só falta agora o sol banhar-me a mão

Mas vem o vento anavalhar as ruas
e confundir de folhas nossos pés
Agora mesmo sobre a mesa as tuas
mãos e tenho de perguntar quem és

Dezembro dizes. Por não outubro
ó schelling o dos quaresmais?
1512? Quase o dobro
Torremolinos não. Um pouco mais

É roma é meio-dia é um bocado
A vida acaba a vida principia
Reconheces o lixo assim esmagado
por uma aprovadora maioria?

Mas cantam e o meu rosto permanece
e levam-se mais longe os comprimidos
Uma criança diz que me conhece
Os dias começam a ser compridos

Uma vez que já tudo se perdeu

Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
                                                                                                    
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu
Ruy Belo , in “ Homem de Palavra(s)”, Editorial Presença

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher

Verano de Sorolla 
E olhando, abriu os braços. Num gemido dorido e prolongado sentiu que ser Mulher era apenas sê-lo. Nada havia de mais verdadeiro, nesse momento. Não era mais, nem menos. Era aquilo que sempre fora e sentira: um coração aberto ao mundo. 
'One Woman', foi a canção  criada para as Nações Unidas pela UN Women para assinalar hoje o Dia Internacional da Mulher. Cantores e intérpretes de muitos países, mulheres e homens , deram o tempo e o talento para esta produção . A música, da autoria de Graham Lyle e Fahan Hassan, foi interpretada pela primeira vez em 2011, na apresentação da agência UN Women, na Assembleia Geral da ONU, tendo sido regravada em 2012 e 2013, com artistas diferentes. Eis a lista com todos : Ana Bacalhau (Portugal); Angelique Kidjo (Benin); Anoushka Shankar (India); Bassekou Kouyate (Mali); Bebel Gilberto (Brazil); Beth Blatt (US); Brian Finnegan (Ireland); Buika (Spain); Charice (Philippines); Cherine Amr (Egypt); Debi Nova (Costa Rica); Emeline Michel (Haiti); Fahan Hassan (UK); Idan Raichel (Israel); Jane Zhang (China); Jim Diamond (UK); Keith Murrell (UK); Lance Ellington (UK); Marta Gomez (Colombia); Maria Friedman (UK); Meklit Hadero (Ethiopia); Rokia Traoré (Mali); Vanessa Quai (Vanuatu); Ximena Sariñana (Mexico); Yuna (Malaysia).

quinta-feira, 7 de março de 2013

Claude Debussy


A Fundação Calouste Gulbenkian promoveu a 14 e 15 de Fevereiro, o Festival Débussy. Tendo como pano de fundo as comemorações dos 150 anos do nascimento de Claude Debussy, o Festival Debussy+ apresentou dois concertos dirigidos pelo compositor Marc-André Dalbavie e o espectáculo Le Martyre de Saint Sébastien, que cruza fragmentos do filme Teorema de Pasolini com o texto original de Gabriele D’Annunzio. Este concerto é um retrato da música de Dalbavie inspirada em Debussy, incluindo uma estreia mundial de uma orquestração das canções de Debussy inspiradas em temas populares.
Na sequência deste evento , recordamos também este compositor francês com "Sirènes" (Sereias) terceiro e último movimento da obra Nocturnes (1898/1899).
Os Nocturnes de Debussy estão na base do mito da música impressionista. Eles apresentam o mesmo princípio que o compositor já defendia para orquestração." Eu desejaria para a música uma liberdade que lhe é talvez mais inerente que a qualquer outra arte, não se limitando a uma reprodução mais ou menos exacta da natureza, mas às misteriosas correspondências entre a Natureza e a Imaginação. Não existe teoria. É necessário somente ouvir. Prazer, esta é a lei..." Claude Debussy (1862-1918) um dos compositores mais importantes de seu tempo.
A  música de  Debussy  afirmou-se  pela  recusa em copiar  e  seguir os padrões musicais  da sua época. Foi um inovador.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Um dia quando eu morrer


Soneto de amor da hora triste
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
Do que tu - não deixes fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro

Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.Eu, Marco Pólo,

Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-lo-ás em pensamento. Abarca

Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

António Feijó,in «366 Poemas que falam de Amor», Antologia organizada por Vasco Graça Moura, Lisboa: Quetzal, 2003

O nada absoluto do silêncio

"E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo – da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre do que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei – não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma necessidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. Como é possível? Conheço-me o Deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções, descobertas que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil. E este mundo complexo, amealhado com suor, com o sangue que me aquece, um dia, um dia – eu o sei até à vertigem – será o nada absoluto dos astros mortos, do silêncio."  Vergílio Ferreira, in "Aparição", 1959, Bertrand Editora

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão,
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira, in «Poeta Militante I», Dom Quixote, Lisboa, 1999

Um dia não muito longe não muito perto

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
Ruy Belo , in “ Homem de Palavra(s)”, Editorial Presença

 Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmo na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.»
Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver", Ed.Relógio D’Água

Um dia quando eu morrer 

Um dia quando eu morrer
isto é um dia quando eu estiver debaixo da terra
não quero que me vão levar flores
mas que as vão lá buscar
Gostava que por cima da minha cova não pusessem
laje nenhuma
só terra por mim estrumada
e aí plantassem as flores que amei em vida
açucenas rosas Palminhas de Santa Teresa (ditas Frésias)
ervilhas-de-cheiro goivos cravos jasmins
tudo flores com perfume
que é a alma das plantas
Sempre gostei mais de dar do que de receber
por isso ficarei feliz se forem à minha beira
buscar flores
os que me quiserem bem
Que as levem para casa e as ponham numa jarrinha com água
à cabeceira ou em cima da mesa de escrever
ou de comer
onde possam sentir minha presença viva
e trocar comigo olhares e sorrisos
e quem sabe talvez palavras
essas as mais importantes que em vida
nós não soubemos dizer

Teresa Rita Lopes, in ". Afectos", Lisboa: Editorial Presença, 2000