terça-feira, 5 de março de 2013

Um país dividido por um atalho de água

Capítulo XXIII - Panamá
por Manoel de Andrade

1. “Fale com suavidade, mas tenha à mão um porrete”.
"Entrei no istmo do Panamá pelo Aeroporto de Tocumen e deparei-me com uma capital moderna, bem arborizada, altos edifícios, grande tráfego de automóveis, intenso comércio nas ruas centrais e onde era visível o domínio norte-americano, pelo uso do inglês em toda parte e a circulação predominante do dólar em detrimento da moeda nacional, o balboa, cujo nome era uma homenagem ao espanhol Vasco Nuñez de Balboa, que descobriu o Oceano Pacífico em 1513. Hospedei-me num pequeno hotel do centro e saí a passear pelo agitado centro da cidade. O peso da presença ianque pairava na atmosfera social da cidade. Uma nação invadida, ferida, cercada, hipotecada por tratados perversos.
(…)Programei-me para conhecer rapidamente o pequeno país com uma superfície bem menor que o meu estado de Santa Catarina, e na época com uma população de pouco mais de um milhão de habitantes. Meu principal interesse era conhecer a Zona do Canal, algumas igrejas, e cruzar seu estreito território para matar a saudade do Atlântico. Era curioso estar num país cujas terras eram totalmente divididas pelas águas e usadas para unir, comercialmente, dois oceanos, num “atalho” por onde passavam flutuando tantas bandeiras do mundo.
 A ideia que eu tinha do Panamá, até então, era a pior possível. De governantes corruptos, uma oligarquia tão reaccionária e asquerosa como a chilena e tão fútil como a limenha e herdeira da mesma oligarquia agrária que entregou o país aos ianques em 1903. Some-se a isso uma população resignada, vivendo numa alienante cultura “colonial” e imperialista. Enfim, uma situação abominável e indigna, diante do sentimento latino-americano.
Contudo, nos dois últimos anos, esse quadro começara a mudar. Quando passei pelo Panamá, em fins de 1970, seu presidente era o marxista Demetrio Lakas, mas quem mandava no país era Omar Torrijos, um coronel nacionalista que, em 1968, à frente da Guarda Nacional, comandou um golpe contra o governo de Arnulfo Arias Madrid, e iniciou um legítimo movimento em busca da soberania do Panamá. Torrijos assumiu uma posição francamente anti-ianque e, por outro lado, revolucionária, atando relações diplomáticas com o Vietname, apoiando a luta dos palestinos e se solidarizando com os movimentos de libertação nacional do continente.
 Havia muito que fazer para recuperar a dignidade da nação que, nos seus últimos sessenta anos, vivera ajoelhada ante uma dependência social e económica cruel e maculada pela vergonha de um tratado, assinado em 1903, que dera a perpetuidade ao domínio norte-americano sobre a Zona do Canal, em troca do apoio militar para sua independência contra a Colômbia, uma vez que o Panamá, depois da emancipação política hispano-americana, em 1821, passou a fazer parte da Gran Colômbia, integrada pela Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá. O próprio processo de independência teve início em 1902, dirigido pela oligarquia panamenha. Contudo a farsa para entregar o país aos EE.UU., e o descaramento dos factos, falam por si mesmo:  

 “El 18 de octubre de 1903, Raul Amador escribía a su hijo una carta en la cual, entre otras cosas, le decía:
“El plan me parece bueno. Una porción del istmo se declara independiente y los Estados Unidos no permitirán que ese sector sea atacado.
Será convocada una Asamblea, y ésta dará poderes a un ministro nombrado por el nuevo Gobierno para hacer el tratado sin necesidad  de ratificación de la Asamblea. El nuevo tratado será aprobado por las dos partes y la nueva República permanecerá bajo la protección de los Estados Unidos, y se unirán otros distritos del istmo que aún no forman parte de la nueva República y que también permanecerán bajo la protección de los Estados Unidos.” (...)(2)
Diante disso continua Enrique  Ruiz García:
"En efecto, “estalló” una revolución en Panamá el día 3 de noviembre de 1903 y el 4 se instalaba el nuevo Gobierno. Dos días antes, un navío de guerra de los Estados Unidos  -- el Nashville  -- echó el ancla en la bahía de Colón para impedir los movimientos de las tropas colombianas que pudieran acudir en socorro, cosa no imprevisible, de una zona que formaba parte territorial de la nación colombiana. Dos días más tarde  --  esto es, el día 6  --  Norteamérica reconoció la independencia de Panamá, y el 18 se firmaba el tratado: por parte de los Estados Unidos ponía su firma Mr. Hay, y por parte de Panamá, el señor Bunau-Varilla.”
O presidente Teodoro Roosevelt, criador do modelo imperialista norte-americano e autor da política do Grande Garrote (big stick), foi o artífice dessa célebre farsa entre o Departamento de Estado, o traficante político francês Philippe Bunau-Varilla e os conspiradores panamenhos, entre eles Manuel Amador, o primeiro presidente da recém-criada nação. Na Colômbia haviam-me contado que a República do Panamá nasceu com o grito: “Viva os americanos”. Tão descarada foi a intervenção da Casa Branca que ele declarou explicitamente: “I took Panamá “ (Eu tomei o Panamá). Roosevelt foi uma das pérolas mais preciosas no colar de crimes do imperialismo norte-americano, pelo estilo de expansão e intervenção militar que ele resumiu numa frase: “Fale com suavidade, mas tenha à mão um porrete”.



2 . Finalmente um pouco de turismo
No dia seguinte da minha chegada, passei a manhã no canal vendo o incrível trabalho das comportas das eclusas no lago Miraflores, onde as águas são levantadas a 8 metros sobre o nível do Pacífico. É realmente impressionante o trabalho de esvaziar e encher as comportas, sobretudo no lago Gatún cuja superfície sobe a 26 metros sobre o nível do Atlântico. Os navios sobem ou descem, flutuando naquela imensa “caixa” de aço com 20 metros de largura até chegar ao nível do seu caminho transoceânico. Havia todo um ritual de segurança para entrar nas eclusas controladas pelos fuzileiros navais norte-americanos. Na verdade toda a Zona do Canal, uma faixa de 80 quilómetros de comprimento por 8 quilómetros de largura, nada mais era que uma região de domínio ocupada por militares, técnicos, burocratas e empregados ianques. Ao longo desse poderoso enclave imperialista havia várias bases militares e duas delas mais conhecidas pelas técnicas assassinas da sua cartilha de treinamento: o Fort Sherman, onde se preparavam os soldados para matar no Vietname  e o Fort Gulich, mais conhecido como a Escola das Américas, criada em 1946 e  -- a exemplo do Fort Bragg, na Carolina do Norte  -- onde 60 mil oficiais das ditaduras latino-americanas fizeram estágios de treinamento nas técnicas de contrainsurgência e tortura para reprimir os movimentos libertários de seus próprios países. Teriam sido eles que ensinaram os militares chilenos como cortar as mãos do cantor Victor Jara???
Lembro-me de uma tarde que passei postado sobre a Ponte das Américas. Foram horas de um lado e de outro ao longo do rio-canal acompanhando a passagem dos navios sob aquela imensa armação metálica. Desde minha adolescência, em Itajaí, gostava de ver os navios chegarem e partirem. Havia, numa curva da estrada que ligava a cidade à Praia de Cabeçudas, uma pedra chama “Bico do Papagaio”, e era ali que me sentava em algumas tardes para acompanhar o movimento dos barcos, pesqueiros e navios entrando pelo Rio Itajaí-Açu ou saindo para o oceano. A Ponte das Américas era uma portentosa construção com cerca de dois quilómetros sobre o Canal do Panamá que os Estados Unidos haviam inaugurado alguns anos antes e dali, no meio da ponte, a uns setenta metros de altura, eu pude “navegar” com os navios que passaram rumando para o Pacífico ou para o Atlântico.
"Casco Velho", nome dado à antiga Cidade do Panamá, que foi toda destruída em 1671

Numa manhã fui conhecer as ruínas da antiga Catedral do Panamá, na chamada Panamá Velha, destruída pelo fogo dos canhões em 1671 durante o ataque de Henry Morgan, o mais temido dos piratas ingleses. Conta a história que o governador do Panamá, Agustín Bracamonte, desafiou Henry Morgan a invadir a capital do Panamá depois de ter tomado, saqueado e incendiado a cidade panamenha de Porto Bello em 1668. Morgan  respondeu que ele aguardasse sua visita, a qual aconteceu quase três anos depois, num ataque espetacular, comandando 35 navios e 2000 homens, tomando e arrasando a cidade. Contaram-me no local que, apesar do imenso botim em ouro levado pelos piratas, o altar principal, lavrado em madeira nobre e coberto de ouro, foi salvo a tempo da rapina dos piratas de Morgan.
Eduardo Galeano conta, à sua moda, os dois ataques de Morgan:
"1671 – Cidade do Panamá – Sobre a pontualidade nos encontros
Há mais de dois anos que Henry Morgan chegou numa canoa ao Panamá, e à cabeça de um punhado de homens saltou as muralhas de Portobelo levando um facão entre os dentes. Com tropa muito escassa e sem colubrinas nem canhões, venceu esse bastião invulnerável; e para não incendiá-lo recebeu como resgate uma montanha de ouro e prata. O governador do Panamá, derrotado e deslumbrado frente à façanha ímpar, mandou pedir a Morgan uma pistola das que tinha usado no assalto.
--- Que a guarde por um ano  ---   disse o pirata. --- Voltarei para buscá-la.
Agora entra na cidade do Panamá, avançando entre as chamas, com a bandeira inglesa ondulando em uma das mãos e o sabre na outra. Dois mil homens e vários canhões o seguem. Em plena noite, o incêndio é uma luz de meio-dia, outro verão que sufoca o eterno verão desta costa: o fogo devora casas e conventos, igrejas e hospitais, e jorra fogo a boca do corsário que grita:
 --- Vim em busca de dinheiro, não de preces!
Depois de muito queimar e matar, afasta-se seguido por uma infinita caravana de burrinhos carregados de ouro, prata e pedras preciosas.
 Morgan manda pedir perdão ao governador, pela demora”
Esse célebre ataque de Morgan ao Panamá, destruindo quase inteiramente a cidade, gerou novos conflitos nas aguerridas relações entre a Espanha e a Inglaterra, fomentadas por questões religiosas, pela disputa dos mares e, sobretudo, pelos ataques dos corsários ingleses aos galeões espanhóis carregados com o ouro do Peru e a prata da Bolívia.
(...) A minha última visita foi ao Convento dos Franciscanos, uma respeitável construção do século XVII, que se tornou famosa por ter sido escolhida por Simon Bolívar para acolher, em 1826, o Congresso Anfictiônico do Panamá. Creio que foram relançadas, ali, as sementes do acalentado sonho pan-americano de Bolívar de uma Grande América, de uma integração continental, com o apoio da Inglaterra e contra a Espanha. Um sonho apenas. Lamentavelmente, nem todos os países convidados compareceram.(1) Na época era chamado O Palácio de Bolívar e considerado o principal monumento nacional." Manoel de Andrade, in " O Bardo Errante", obra memorialista (ainda em redacção)  relativa ao tempo do  exílio forçado do autor , na América Latina,  no final dos anos 60 e início da década de 70, durante a  Ditadura no Brasil.

Bibliografia: GARCÍA, Enrique Ruiz.  América Latina Hoy – Anatomia de una revolución, Ediciones Guadarrama, S.A., Madrid, 1971, p. 354-355 vol. 1.
GALEANO, Eduardo. Memória do fogo (I) – Nascimentos, Tradução de Eric Nepomuceno, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 360-361.
(1) Essas sementes não floriram nem frutificaram como sonhou Bolívar, apesar de tantos congressos regionais posteriormente convocados para esse fim. (Leia-se Lima (1847), Santiago (1856), Lima (1874), Caracas (1883), Montevidéu (1888)). Algo semelhante propôs o uruguaio Carlos Quijano em seu livro América Latina: una nación de repúblicas. Contudo, é perseverante imaginar que o sonho bolivariano continue vivo na busca incessante de um código de solidariedade, baseado em ideais de cooperação continental e de relações de igualdade, justiça e fraternidade entre nossos povos. Uma ideia bem diferente daquilo que tirou o sono do Libertador: a doutrina promulgada naquela mesma época (1823) pelo presidente dos Estados Unidos, James Monroe, com o pretexto de defender o continente americano da intervenção europeia: A América (só) para os americanos. Uma ironia diante do bloqueio a Cuba, o embargo à Nicarágua, a invasão da República Dominicana e tantas outras  invasões e intervenções ianques.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mama Africa

Miriam Makeba, Mama Africa, tem sido celebrada neste espaço não só pela força e encanto da sua voz, mas pela luta que promoveu a favor da  dignidade humana no seu país, África do Sul, terra que viveu mergulhada num incompreensível e odioso apartheid. Hoje, data em que se recorda o seu aniversário, 4 de Março, retomámos a sua voz e as palavras que legendaram  as suas canções.


Miriam Makeba ou a "Mama Africa", a cantora Sul Africana que maravilhou o mundo com a sua espantosa e prodigiosa voz, nasceu em Joanesburgo a 4 de Março de 1932 e morreu em Itália, Castel Volturno, a 10 de Novembro de 2008, com 76 anos. Deixou um imenso legado musical, mas também um exemplo de coragem na luta pelos direitos humanos e contra o Apartheid na África do Sul. Em 1963, após ter proferido um discurso no Comité das Nações Unidas foi impedida de regressar ao seu país. Nos anos 80, Makeba foi Delegada da Guiné, junto da ONU, que lhe atribuiu o Prémio da Paz Dag Hammarskjöld, país onde residiu durante alguns anos com o activista Stokely Carmichael com quem havia casado em 1968.
Com o fim do Apartheid regressa à sua pátria, em 1990, a pedido de Nelson Mandela que a recebeu com honras e gratidão.


Miriam Makeba em "The Lion Sleeps Tonight"


Indignarmo-nos já não chega

" A nossa capacidade de indignação pode e deve levar-nos a acções construtivas, motivadas pela recusa da passividade e da indiferença.
Saber dizer não. Denunciar. Protestar. Resistir . Indignarmo-nos. Desobedecer , por vezes, ao que não nos parece justo e que põe em causa as liberdades e os direitos fundamentais.
Saber dizer sim.  Agir. Combater . Participar na " insurreição pacífica" que nos permite  dar resposta  a um mundo que não nos agrada.
Numa palavra: empenharmo-nos." 
Stéphane Hessel ,"Carta" in "Empenhai-vos, Indignarmo-nos já não chega!", Planeta, Junho  2011

Publicado em 2011, este livro de Stéphane Hessel veio reforçar o que defendia em "Indignai-vos!". O próprio título remete para essa intenção: "Empenhai-vos! Indignarmo-nos já não chega!" 
Resistente, humanista, diplomata, pensador, europeísta , Stéphane Hessel teve uma longa existência marcada por um pensamento forte e muito mobilizador. Cidadão interveniente , nunca perdeu o optimismo que advém da acção concertada do homem. Dinâmico e experiente incitou sempre à participação de todos , principalmente dos jovens, para mudarem o mundo e se rebelarem contra as injustiças. Defensor dos Direitos humanos não se deixou influenciar pelo brilho da lisonja. Morreu na última Terça-Feira de Fevereiro, em Paris,  França. 
O jornal português Público inseriu no artigo sobre o anúncio da sua morte o seguinte:" Na semana passada, o "Le Monde" designava-o  por “cavalheiro indignado” e, atestando da dimensão da figura, pede aos leitores que enviem uma mensagem dizendo o que, para eles, fica da vida e da obra de Stéphane Hessel. Num artigo de 2011, o jornal refere-se ao diplomata e escritor como “o indignado mundializado” que, na altura, com 93 anos, mantinha uma agenda digna de um chefe de Estado, tal era a frequência com que era convidado para grandes eventos, conferências e sessões de lançamento do seu livro "Indignai-vos!" pelo mundo fora."
A força e o prestigio deste grande resistente continuam  a originar múltiplas  homenagens e diversas  iniciativas. Entre essas, surgiu  uma Petição para que seja sepultado no Panteão, conforme relata o artigo deste Domingo do "Actualitté" que se passa a transcrever:
Une pétition, une discussion, et une possibilité
Actualitté, les univers du livre- Le dimanche 03 mars 2013 à 11:02:50

« Comment un homme de 95 ans trouve l'énergie de s'indigner, d'écrire », interrogeait Jean-Luc Mélenchon, sur le plateau de BFM TV hier. C'est que, dans l'idée, certains verraient bien, pour récompenser l'ensemble de l'oeuvre de ce résistant, qu'on le panthéonisât. Décédé dans la nuit de mardi à mercredi, Hessel a reçu un nombre phénoménal d'hommages de politiques, notamment. Mais l'idée d'un Hessel au Panthéon...
C'est sur Libération que l'idée a germé avec une pétition signée de divers acteurs, estimant que c'est là le moyen suprême de rendre hommage à l'homme qui a tant inspiré l'Europe. « Son engagement dans la Résistance, son courage jamais démenti, sa droiture dans le service de la France, sa défense de la démocratie, son acharnement à promouvoir les valeurs des droits de l'Homme,son souci constant des plus démunis, donnent au mot de citoyenneté tout son sens», expliquent les signataires.
Au témoignage d'Indigné qu'il a su livrer, face aux refus des injustices, quelles qu'elles soient, ils soutiennent également la volonté de défendre «la pédagogie civique et la mémoire collective témoignent de l'importance de l'esprit de résistance». Et d'en appeler alors au président de la République, pour qu'il se charge en personne de cette commémoration.
Pour Jean-Luc Mélenchon, en tout cas, il s'agirait que l'on ne fasse pas trop rapidement refroidir le corps ni la mémoire d'Hessel, et qu'on n'enterre pas trop vite son combat. « J'en connais qui ont 20 ou 30 ans, qui sont déjà complètement amortis, qui ne s'indignent de rien du tout, trouvent l'ordre du monde dans lequel ils sont très raisonnables, et recommandent à tout le monde des souffrances. »
« L'hommage que la République rendra à Stéphane Hessel doit être au niveau de ce que cet homme a donné à la France, écrivent ces parlementaires. Nous vous demandons donc monsieur le Président d'organiser cet hommage national selon la forme que vous jugerez appropriée », affirment les signataires de la pétition.
D'ailleurs, Jean-Marc Ayrault, sur Europe 1, estime que l'hommage devra avoir lieu, bien que de nombreuses commémorations aient déjà eu lieu. « Je pense que c'est important dans les périodes où l'on doute de l'avenir, de l'avenir d'un pays, de l'avenir de l'Europe, qu'il y ait des hommes comme Stéphane Hessel qui soient des références et qui donnent confiance », note par ailleurs le premier ministre.
Mais c'est un peu sceptique sur la question du Panthéon qu'il répond : « Il faut laisser un peu le temps des choses. Je ne suis pas sûr d'ailleurs qu'(il) aurait souhaité ça, c'était un homme simple ».Actualitté, les univers du livre- Le dimanche 03 mars 2013 à 11:02:50

domingo, 3 de março de 2013

Ao Domingo Há Música

Manif., Lisboa, 2 de Março-TSF,Paulo Tavares

Há quem afirme que saudade é uma palavra genuinamente portuguesa. Não tem tradução quer a nível linguístico, quer a nível emocional. Nem os franceses com o  " mal du pays " se aproximam. Portugal disseminou  esse património linguístico pelo mundo, essencialmente através do Fado. A saudade é cantada no gemido, na gargalhada, no choro , no grito  da Severa. Alegra, ri, chora, aquece e  sonha.  Nas vozes do Fado, a saudade é tudo isso. Mas há uma outra saudade que faz hoje sentir Portugal. Uma  nova  saudade que marca e alastra: a saudade de um  Futuro. Aquela  que mais dói porque magoa e  dilacera os corações de quem a sente. 
Mariza e Tito Paris, em " Beijo de Saudade", evidenciam  o poder da lusofonia,  quando junta os talentos que dão ao Fado as formas próprias das suas raízes.


sábado, 2 de março de 2013

O povo está na rua

Milhares de pessoas já enchem as ruas de um Portugal descontente. A indignação está na rua.

Portugal Futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Ruy Belo , in “ Homem de Palavra(s)”, Editorial Presença

sexta-feira, 1 de março de 2013

Com a tua letra


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
                     
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
Fernando Assis Pacheco, in “366 poemas que falam de amor”, Antologia organizada por Vasco Graça Moura, Lisboa: Quetzal

A promessa real


“D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.
Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo colhidos pelos quatro camaristas de serviço. A arca donde os retiram cheira a incenso, e os veludos carmesins que os envolvem, separadamente, para que se não trilhe o rosto da estátua na aresta do pilar, refulgem à luz dos grossíssimos brandões. A obra vai adiantada. Já todas as paredes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêem as colunas sob a cornija percorrida de latinas letras que explicam o nome e o título de Paulo V Borghese e que el-rei há muito tempo deixou de ler, embora sempre os seus olhos se comprazam no número ordinal daquele papa, por via da igualdade do seu próprio. Em rei seria defeito a modéstia. Vai ajustando nos buracos apropriados da cimalha as figuras dos profetas e dos santos, e por cada uma fez vénia o camarista, afasta as dobras preciosas do veludo, aí está uma estátua oferecida na palma da mão, um profeta de barriga para baixo, um santo que trocou os pés pela cabeça, mas nestas involuntárias irreverências ninguém repara, tanto mais que logo el-rei reconstitui a ordem e a solenidade que convêm às coisas sagradas, endireitando e pondo em seu lugar as vigilantes entidades. Do alto da cimalha o que elas vêem não é a Praça de S. Pedro, mas o rei de Portugal e os camaristas que o servem. Vêem o soalho da tribuna, as gelosias que dão para a capela real, e amanhã, à hora da primeira missa, se entretanto não regressarem aos veludos e à arca, hão-de ver el-rei devotamente acompanhando o santo sacrifício, com o seu séquito, de que já não farão parte estes fidalgos que aqui estão porque se acaba a semana e entram outros ao serviço. Por baixo desta tribuna em que estamos, outra há, também velada de gelosias, mas sem construção de armar, capela fosse ou ermitério, onde apartada assiste a rainha ao ofício, nem mesmo a santidade do lugar tem sido propícia à gravidez. Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ângelo, aquele arrebatamento de pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está guardada em arca à parte, e sendo esse o remate da construção lhe será dado diferente aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruído retumbante ajustam-se os ditos machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta. Se o poderoso som, que ecoara por toda a capela, pôde chegar, por salas e extensos corredores, ao quarto ou câmara onde a rainha espera, fique ela sabendo que seu marido vem aí.
Que espere. Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para a noite. Despiram-no os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pagens, este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um dos fidalgos rectifica a prega final, outro ajusta o cabeção bordado, já não tarda um minuto que D. João V se encaminhe ao quarto da rainha. O cântaro está à espera da fonte.
Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
Perguntou-lhe el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino,  que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."José Saramago, in “Memorial do convento”, Lisboa: Caminho, 1982