quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A manhã não dura sempre


 Prenda

Ó meu amor, que prenda
Devo dar-te quando amanhecer?
Uma canção da manhã?
Mas a manhã não dura sempre –
O calor do sol
Murcha como uma flor
E as canções que cansam
Estão feitas.

Ó amigo, quando chegaste ao meu portão
Ao crepúsculo
Que perguntaste?
Que hei-de trazer-te?
Uma luz?
Um candedeeiro de um canto secreto da minha casa silenciosa?
Mas quererás levá-lo contigo
Pela estrada povoada?
Ah,
O vento há-de apagá-lo.

Sejam quais forem as prendas que te possa dar,
Que sejam flores,
Que sejam pérolas para o teu pescoço,
E como te podem agradar
Se com o tempo hão-de murchar,
Desfazer-se, perder o brilho?
Tudo o que as minhas mãos pudessem colocar nas tuas
Deslizará entre os dedos
E cairá esquecido no pó
Para em pó se tornar.

É melhor,
Quando estiveres ociosa,
Que deambules pelo meu jardim na primavera
E deixes um aroma de flor desconhecido e oculto sobressaltar-te com súbito encanto –
Deixar esse momento deslocado
Ser a minha prenda.
Ou se, quando perscrutares a sombria avenida por onde caminhas,
De repente, enfeitiçada
Pelas espessas tranças do anoitecer
Um simples e trémulo reflexo da luz do poente te detiver,
Transforma os teus sonhos em ouro,
E deixa que a luz seja uma inocente
Prenda.

O mais autêntico tesouro desaparece;
Brilha um instante, e depois vai-se.
Não diz o seu nome; a sua melodia
Barra-nos o caminho, a sua dança desaparece
Com o estremecimento de um tornozelo.
Não conheço outra maneira –
Nenhuma mão, nenhuma palavra o pode alcançar.
Amiga, leves o que levares,
Sozinha,
Sem perguntar, sem saber, deixa que
Seja tua.
Qualquer coisa que eu te possa dar é insignificante –
Seja uma flor, seja uma canção.

Rabindranath Tagore, In “Poesia”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, selecção e tradução de José Agostinho Baptista

O MAR


"O mar, o mar, sempre recomeçado!"  Paul Valéry

Cinema

Veneza dia 7 - A estreia mundial de "As Linhas de Wellington"

AS LINHAS DE WELLINGTON, de Valeria Sarmiento

Veneza, dia 7: uma lição histórica humanista

A viúva de Raúl Ruiz realiza um filme histórico com fôlego artístico. A produção de Paulo Branco tem condições para repetir o sucesso de "Mistérios de Lisboa", a derradeira obra do cineasta chileno.

Em 27 de Setembro de 1810, as tropas francesas comandadas pelo marechal Massena, são derrotadas na Serra do Buçaco pelo exército anglo-português do general Wellington. Apesar da vitória, portugueses e ingleses retiram-se a marchas forçadas diante do inimigo, numericamente superior, com o objectivo de o atrair a Torres Vedras, onde Wellington fez construir linhas fortificadas dificilmente ...Um retrato amplo do êxodo da população desde a serra do Buçaco até Torres Vedras, durante a ocupação francesa de Portugal, no século XIX, é o que nos propõe Valeria Sarmiento na reconstituição deste período histórico."As Linhas de Wellington" é uma produção de época ambiciosa que evita as dificuldades de reconstituir as grandes batalhas através de um argumento onde Carlos Saboga valorizou uma série de figuras populares que integram o grande comboio humano em fuga, secundarizando os dois oficiais que protagonizaram o episódio decisivo da guerra peninsular, o general Wellington (John Malkovich) que organizou a resistência luso-britânica, e o comandante Massena (Melvil Poupaud), que liderou as tropas napoleónicas.O filme oferece uma perspectiva original sobre um momento histórico pouco evocado na dramaturgia portuguesa, graças a uma dimensão coral que é suportada pelo encadeamento de diversas histórias protagonizadas por duas dezenas de personagens igualmente importantes. A narrativa mais humana, menos centrada das questões do conflito, torna o filme abrangente e favorece as pretensões de Paulo Branco, que ambiciona uma distribuição internacional semelhante à que obteve com "Mistérios de Lisboa", realizado pelo falecido Raúl Ruiz. O prestígio da produção está assegurado através da presença de uma série de estrelas internacionais, em pequenos e decisivos papéis, como Isabelle Huppert, Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Michel Piccoli, além de Malkovich e Poupaud... Ao lado destes grandes talentos, reunidos em derradeira homenagem a Ruiz, aparecem, em ótimo plano, uma série de atores mais novos e portugueses, destacando-se Albano Jerónimo, como um padre vilão, Carloto Cotta, interpretando um soldado ferido, Nuno Lopes, no papel de um oficial português, Victória Guerra e Jasmina West desempenhando duas inglesas apanhadas na frente de batalha."As Linhas de Wellington" tende a ser visto como o filme que Ruiz não filmou. Foi a chilena Valeria Sarmiento, viúva e companheira de montagem de diversos dos seus filmes, que dirigiu a rodagem, de uma forma efectiva e ligando bem os diversos episódios. Com Ruiz poderíamos ter alguns momentos com movimentos de câmara visualmente mais poéticos e com outra respiração visual que por vezes falta ao filme, ou algumas cenas em espaços confinados e recorrendo a planos fechados.Não é uma obra visionária , mas trata-se de uma produção com enorme fôlego artístico, semelhante ao de "Mistérios de Lisboa", servida por uma narrativa romanesca que permite dramatizar uma lição em torno de um episódio histórico e reconstituir um período da vida no século XIX em Portugal."
 Tiago Alves actualizado às 11:31 - 05 Setembro 2012, RTP 
Título Original / Internacional: Linhas de Wellington
Ano de Produção: 2011
País: Portugal
Género: Longa-Metragem e Série de TV
Data de estreia em Portugal : 04-10-2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sobre o Modernismo



Pedagogia do segundo Modernismo

"O chamado Primeiro Modernismo, a que pertenceram as grandes figuras tutelares de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros,apresentou-se, ostensivamente, não só como uma geração de inovação e total ruptura com o passado e a tradição, mas como possuída de um desprezo completo para com o público: que este entendesse ou não aquilo que os bardos do Orpheu publicavam, era-lhes completamente indiferente. Testemunhos disto abundam nos textos e nas proclamações.
Segundo a gente do Orpheu, tudo quanto era velho, tradicional, era para atirar pela borda fora. Eles vinham inovar, de uma maneira radical, a língua, a literatura, o país e a vida em geral. Em proclamações altamente provocantes, vários elementos ligados ao Primeiro Modernismo disseram-no inequivocamente. Almada Negreiros, por exemplo, com uma brutalidade nua e falsamente infantil, aconselhava: “Dispensai os velhos que [vos] aconselham para vosso bem e atirai-vos independentemente p´ra sublime brutalidade da vida.” E afirmava ainda: “Hoje é a geração portuguesa do século XX quem dispõe de toda a força criadora e construtiva para o nascimento de uma nova pátria inteiramente portuguesa e inteiramente actual prescindindo de todas as épocas precedentes.” E Álvaro de Campos, um dos heterónimos mais vociferantes de Fernando Pessoa, não hesitava em proclamar: “Escrevo rangendo os dentes para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.” Repare-se na expressão “totalmente desconhecida dos antigos”. Eles pretendiam propor uma beleza nova, em total ruptura com o passado. António Ferro, ligado ao Orpheu, antes de se vir a tornar um propagandista do Estado Novo, de Salazar, proclamava com convicção: “O passado é mentira, o passado não existe, é uma calúnia...” E acrescentava, logo a seguir: “Cheira a defuntos em Portugal...” 
Afirmações neste gosto abundam entre os argonautas do Orpheu.Eles estavam convencidos de estarem a produzir uma arte inteiramente nova e, por isso, de mais difícil apreensão por um público vastamente impreparado, mas isso não os preocupava minimamente, ao ponto de nem sequer se sentirem obrigados a um esforço no sentido de se fazerem compreender. A pedagogia, em suma, não era a sua vocação... Numa época de mutações vertiginosas, o território que a poesia explorava ia-se alargando enormemente e a grande velocidade e os nexos lógicos do discurso iam ficando pelo caminho. A poesia, em suma, tornava-se de leitura muito difícil, mas, nem por isso, os modernistas se preocupavam. Pelo contrário, manifestavam um desprezo olímpico pelas dificuldades dos leitores, os quais, é claro, lhes voltavam as costas. Almada, por exemplo, dizia: “Felizmente para ti, leitor, que não sou crítico, razão por que não te chateio com elucidações da Arte de que estás tão longinquamente desprevenido.” Resumindo: apesar de reconhecer que o leitor está “desprevenido”, nem por isso se digna elucidá-lo, para o não chatear...
É contra esta desenvoltura cheia de desprezo aristocrático que os arautos do Segundo Modernismo (José Régio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Guilherme de Castilho) se vão voltar, produzindo , a par de uma obra de criação original, uma obra de crítica e esclarecimento, da qual muito beneficiarão os do Orpheu. Esta vocação pedagógica, particularmente visível em José Régio – que, aliás era professor de Francês e Português – dará aos responsáveis pela revista presença (aparecida em Coimbra, em 1927) um cariz em tudo diferente do que se exibia no Orpheu e no Portugal Futurista
Com o aparecimento da Presença, dirigida originalmente por José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca ( este, substituído, em 1930, devido ao seu abandono da revista, por Adolfo Casais Monteiro), instala-se , um discurso crítico, promotor, pedagógico e divulgador dos valores do Primeiro Modernismo, num tom de cautela, de serenidade e de objectividade que em tudo contrasta com as piruetas pirotécnicas e provocantes de Almada, Ferro e outros adjacentes. O chamado Segundo Modernismo traz, pois, consigo, uma vocação pedagógica e, sobretudo, um sentido de proporções e de perspectiva que, ao Primeiro, de todo faltara.
Em 1929, no nº 23 da Presença, Régio – o mais influente director da revista – defendia de modo eloquente a inserção do modernismo no fluir da história cultural do país, algo acrescentando ao passado, sem ter que o renegar. E dizia: “Para se avançar – não é preciso negar o caminho andado. E mesmo... não é preciso senão alargar e multiplicar o caminho andado(...) Esqueçamos esse modernismo meramente actual, portanto efémero e quase só interessante aos olhos dos historiadores, segundo o qual ser modernista é substituir o realismo pelo ultra-realismo, o impressionismo pelo cubismo, etc. etc., isto é, umas imagens por outras imagens, uns assuntos por outros assuntos, um estilo por outro estilo, um gosto por outro gosto, umas leis por outras leis, uns modelos por outros modelos, umas limitações por outras limitações. Bem sei”, concluía Régio, “que estas limitações são inevitáveis (...) Mas a verdade é que quem substitui – nada ganha. Pois paga o que ganha com o que perde.” Tratava-se, pois, segundo Régio, de ganhar sem ter que perder.
A conversa de Régio era, nesse caso, muito mais interessante e fecunda (e inteligente) do que a conversa acerca de radicais cortes ou rupturas com o passado, com que se tinha entretido o circo de Almada, de António Ferro e de outros igualmente amantes mais de piruetas do que de pensamento solidamente fundamentado.
O pensamento dos presencistas, curiosamente, é muito afim da visão do grande poeta inglês T. S. Eliot, que, dez anos antes publicara um pequeno e influente ensaio, “Tradition and the Individual Talent”, no qual propunha, de modo muito parecido ao dos presencistas, a inserção do monumento artístico inovador na tradição cultural existente (de notar ser quase certo os presencistas não conhecerem o texto de Eliot). Eliot dizia, em suma, que cada monumento literário – ou artístico – novo, ao inserir-se na tradição cultural existente, não deixa tudo na mesma: pela sua mera existência de objecto novo, desencadeia uma necessidade de re-arranjo da ordem existente, de modo que esta se torne capaz de acolhê-lo. Não se trata, pois, de se fazer uma ablação irreversível da ordem das coisas vigente, mas sim de a modificar subtilmente, até na sua hierarquia, para que nela possa caber, em posição própria, o objecto estético acabado de criar. Nas próprias palavras de Eliot: “ o que acontece quando se cria uma obra de arte nova é algo que acontece simultaneamente a todas as obras de arte que a precederam. Os monumentos existentes formam entre si uma ordem de coisas ideal, que é modificada por introdução da nova (realmente nova) obra de arte entre eles. A ordem existente está completa antes que chegue a obra nova; para que a ordem persista depois da superveniência da novidade, toda a ordem existente deve, nem que só levemente, sofrer alteração; e, assim, as relações, proporções, valores de cada obra de arte são reajustados em relação ao conjunto; e é isto a conformidade entre o velho e o novo.”
Por outras palavras, Fernando Pessoa não elimina Camões, como não elimina Camilo Pessanha ou Antero – mas provoca um reajustamento da figura do grande épico e lírico na ordem das coisas sempre móvel e reajustável, que é a literatura portuguesa. Camões é ainda Camões mas já não é exactamente o mesmo Camões depois da entrada em palco de Pessoa com a sua Mensagem e não só. Nenhuma grande obra do passado é imune ao deflagrar de energias novas. Mas não é correcto dizer que estas energias actuam fatalmente em sentido pernicioso ou mesmo destrutivo. Modificam mas não destroem. E podem até exaltar.
Com a sua pedagogia cautelosa e reflectida a "Presença" fez mais pela aceitação e compreensão profunda dos argonautas do Primeiro, do que o fizeram estes com a sua pirotecnia frenética e tantas vezes pouco pensada."
Artigo de  Eugénio Lisboa, professor, poeta , crítico literário, ensaísta, cronista . "O Segundo Modernismo em Portugal", Instituto da Cultura Portuguesa, 1977 é uma das obras sobre o Modernismo deste grande estudioso  da  Literatura.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Não te amo



Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in «Folhas Caídas e Outros Poemas», Livraria Clássica Editora, 1978

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A casa era grande


Amar o perdido
Por Ferreira Gullar
O quintal, relativamente grande, ficava ao lado da casa e ao fundo das casas vizinhas, de muro baixo. Rente ao muro estavam as bananeiras, onde ele e suas irmãs se embrenhavam, brincando de esconde-esconde. Do lado do quintal, havia uma pitangueira e uma mangueira, cujos ramos se estendiam sobre a cerca que limitava com a residência de um coronel do Exército.
O resto do quintal era coberto de mato-burro, um tipo de vegetação que chegava à cintura dele e encobria a irmãzinha menor. Ali, certo dia, descobriu um ninho cheio de ovos da galinha-d'angola que, com seu parceiro, habitava o lugar.
Mas, atravessando um pequeno portão, ao lado da casa, chegava-se a um quintal menor, de terra batida, sem vegetação, limitado, de um lado pela casinhola do banheiro e, de outro, pela varanda que se estendia até a sala de jantar. À esquerda, ficava o muro coberto de um musgo verde brilhante.
Este quintal menor era o domínio de um galo de crista vermelha e penas marrons, que caminhava garboso, exibindo suas esporas e observando com aqueles olhos redondos, especialmente as quatro galinhas que constituíam sua corte.
Além delas, havia ali um frango, de penugem incipiente, que às vezes se atrevia a cantar de galo e era logo reprimido pelo rei do terreiro, que partia para cima dele a bicadas. O menino, que simpatizava com o frango, intervinha na briga e evitava a agressão.
A família era, no total, dez pessoas, o pai, a mãe e sete filhos (entre meninas e meninos) e uma tia da mãe, que cuidava da casa. O pai, comerciante ambulante, um dia apareceu na casa com um animal esquisito, que parecia um bezerro, mas não era, pois, além do mais, tinha o focinho dividido em dois. Era uma anta.
A mãe, ao ver aquele animal estranho no quintal, ficou perplexa. "Que diabo de bicho é esse que você trouxe para nossa casa?", perguntou ela. Ele respondeu que o tomara de um sujeito que lhe devia dinheiro e não pagara. "E você acha que alguém vai comprar um bicho esquisito como esse, de dois focinhos, e que não serve para nada?", ela perguntou.
As crianças da vizinhança subiam no muro para espiar o animal. Os adultos chegavam até o portão, espiavam e saíam rindo e fazendo troça. A mãe deu um ultimato ao marido: ou ela ou a anta. Ele então decidiu levar a anta não se sabe para onde. Quando subiu a rua, puxando-a pelo cabresto, a molecada o seguiu, gritando e rindo, muito excitada.
A casa era grande, tinha vários quartos, todos assoalhados. Assoalhos antigos, de tábuas corridas, debaixo das quais, às vezes, surgiam ratos, que ali se metiam pela fresta de alguma tábua apodrecida. Se saíam, eram perseguidos pelos gatos que habitavam a casa.
Excepto os pais, que dormiam numa cama de casal, todos os demais dormiam em redes armadas nos cantos dos quartos e, nessas redes, se embalavam, às vezes cantarolando, às vezes disputando lugar com um ou outro irmão. Com frequência, algum deles se estatelava no chão e saía chorando a procurar a mãe, para se queixar.
Faz muitos e muitos anos que isso aconteceu, embora a casa ainda exista e os assoalhos de tábuas corridas tenham sido substituídos por piso de cimento. Nem o pai nem a mãe existem mais. As meninas e os meninos cresceram, foram cada um inventar sua própria vida: casaram-se, tiveram filhos e netos e alguns mudaram até mesmo de cidade. Uns poucos continuam na mesma casa, cujo quintal foi vendido para uma família, que ali construiu sua casa.
O menino, que hoje é um senhor idoso, não esquece o dia em que uma moeda sua caiu pela fresta do assoalho e sumiu. Ele não se conformou. Com um pé de cabra, arrancou uma das tábuas que estava quase solta e mergulhou debaixo do assoalho. Teve uma surpresa: foi como se tivesse passado a outro planeta, já que o chão, ali em baixo, era como um talco negro, em que seus pés afundaram até os tornozelos.
Em pânico, conseguiu escapar daquele solo de pó, onde sua pequena moeda se perdera para sempre. Mas, pelo resto da vida, de quando em vez, em sonho, voltava, em prantos, àquele território lunar em busca da pequena moeda para sempre perdida."
Ferreira Gullar, em Crónica publicada na "Folha de S.Paulo", Brasil,  2/09/2012

domingo, 2 de setembro de 2012

Ao Domingo Há Música

            "A música está em tudo. Do mundo sai um hino." Victor Hugo


Conforme noticiámos, Paul Simon recebeu nesta Terça-feira, 28, no Konserthus de Estocolmo o prémio Polar 2012, uma espécie de "Nobel" da música internacional. O júri destacou  a  importância do "compositor de classe mundial " cuja música  "cria pontes não só sobre águas turbulentas, mas sobre oceanos inteiros, reunindo os continentes do mundo com as suas composições.”
E porque o   mundo necessita  de quem o una e de quem  promova a harmonia global, dedicamos o 1º Domingo de Setembro a este grande cantor americano com uma extensa e qualificada carreira musical . Escutá-lo  é um interminável prazer. 
Ei-lo com aquela que foi a grande voz de África, Miriam Makeba, numa excelente interpretação de  "Under African Skies" em Harare, Zimbabwe, num concerto ao vivo, em 1987.

Num registo notável, "Dazzling Blue" é mais uma das grandes  melodias que Paul Simon criou e que circula pelo mundo .

sábado, 1 de setembro de 2012

Sobre novos livros e Música



Novidades em português
Almeida Faria, Eugénio de Andrade, Mário de Carvalho e o bestseller Luís Miguel Rocha.
        

Ontem, a Porto Editora apresentou, em Lisboa, as novidades editoriais das várias chancelas para a rentrée literária. Os autores portugueses estão em destaque: Almeida Faria, Eugénio de Andrade e Mário de Carvalho passam a integrar o catálogo; Luís Miguel Rocha regressa, com a promessa de mais um grande bestseller.
Na retrospectiva da atividade editorial da Porto Editora no semestre anterior, com a qual se deu início à sessão, salientaram-se as publicações de: Os Malaquias, de Andréa del Fuego; Fernando Pessoa - Uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho; Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques; Mulheres Afegãs, de Zarghuna Kargar; Todas as Palavras - Poesia Reunida, de Manuel António Pina; O Mendigo e Outros Contos, de Fernando Pessoa; A Grande Arte, de Rubem Fonseca, e a abertura da série Sextante Top.
De seguida, os responsáveis editoriais apresentaram as novidades para o período setembro-dezembro. Cláudia Gomes sublinhou o regresso de Luís Miguel Rocha, com A Filha do Papa, e o lançamento da nova série da coleção juvenil de sucesso CHERUB, de Robert Muchamore. Manuel Alberto Valente enfatizou a publicação de Jorge Sampaio - Uma Biografia, de José Pedro Castanheira, e o regresso à ficção de Mário de Carvalho, com O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel. Por sua vez, João Rodrigues deu especial relevo ao livro As minhas lembranças observam-me, do Nobel Tomas Tranströmer, e ao vencedor do Costa Award 2010, A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal. Da intervenção de Vasco David, destacaram-se a publicação de Diários, de Al Berto, e as reedições das obras completas de Eugénio de Andrade e de Rumor Branco, de Almeida Faria.
Foram apresentados cerca de cinquenta títulos, distribuídos por cinco chancelas: Porto Editora, Albatroz, 5 Sentidos, Sextante e Assírio & Alvim." Fonte : Porto Editora em 31.08.2012


Obra Completa de Eugénio de Andrade reeditada pela Assírio & Alvim
Em Outubro, com o volume que reúne Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos e Os Amantes sem Dinheiro, a Assírio & Alvim assinala o início da publicação da Obra Completa de Eugénio de Andrade. «Serão ainda editados», acrescenta a editora, «diversos livros que Eugénio de Andrade organizou e traduziu (García Lorca, Safo, Mariana Alcoforado e a antologia Trocar de Rosa), dois livros infantis (Égua Branca e Aquela Nuvem e Outras) e algumas antologias que preparou (Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Poemas Portugueses para a Juventude, Sonetos de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade e Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões.»

O cantor Paul Simon e o violoncelista Yo-Yo Ma foram coroados nesta terça-feira, 28, no Konserthus de Estocolmo com o prémio Polar 2012, uma espécie de "Nobel" da música internacional.
Segundo a decisão do júri, Yo-Yo Ma, "o maior violoncelista do nosso tempo", foi premiado por ter dedicado "seu virtuosismo e seu coração às viagens da prospecção musical ao redor do mundo".
"Yo-Yo Ma é a prova vivente que a música é comunicação, paixão e habilidade para compartilhar experiências", completou o júri.
O músico americano de origem chinesa, que fez questão de agradecer o apoio recebido por sua família ao longo da carreira, definiu a música que sai de seu violoncelo como a "ponta de um iceberg" que sai por trás de seus ideais e valores.
No caso de Paul Simon, que despontou para música ao lado de Art Garfunkel, no duo Simon & Garfunkel, o júri foi ainda mais enfático ao descrever a importância do "compositor de classe mundial". Segundo o júri do Polar, a música Simon, que possui mais de cinco décadas de carreira, "cria pontes não só sobre águas turbulentas, mas sobre oceanos inteiros, reunindo os continentes do mundo com sua canção".
"Com habilidades consumadas, regras inovadoras e letras provocativas que nunca falham ao capturar as correntes de sua época, Paul Simon formou uma biblioteca de canções que permanecerá aberta a futuras gerações", assinalou o júri.
Diante de uma grande platéia, Simon lembrou de seu pai, que lhe comprou seu primeiro violão, e disse estar "em dívida" com todos os músicos de distintas culturas com quem tocou ao longo de sua carreira.
Além do prémio, entregue pelo rei Carlos XVI Gustavo, Simon e Yo-Yo Ma também receberam a quantia de 1 milhão de coroas suecas (US$ 146 mil).Fonte: Estadão, 28/08/2012
  
Eduardo Lourenço abre o novo ciclo de conferências «LER em Voz Alta» já no próximo dia 20 de Setembro, no Centro Cultural de Belém (que se associa à revista LER nesta iniciativa), às 18h30, na sala Luís de Freitas Branco. A 18 de Outubro, toma a palavra o arquitecto e urbanista Nuno Portas (sala Luís de Freitas Branco), e um mês depois sobe ao palco o cientista Alexandre Quintanilha (16 de Novembro, sala Almada Negreiros). Após cada conferência (45 minutos, em média), segue-se uma conversa com a assistência.
A entrada é livre e apenas limitada à lotação de cada sala. Também se aceitam-se reservas através do e-mail ler@circuloleitores.pt. Contamos com todos os leitores.
No fim do ano, há uma razão especial para este ciclo sair de Belém e subir a Avenida da Liberdade, onde integrará a programação do Festival LER 25 Anos/25 Filmes, no Cinema São Jorge, entre os dias 4 e 9 de Dezembro



Novo livro de Mário de Carvalho      
"O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel marca entrada do autor na Porto Editora. Chega às livrarias no dia 6 de Setembro.       
Mário de Carvalho é um escritor galardoado com os mais prestigiados prémios literários portugueses e grande parte da sua obra está inserida no Plano Nacional de Leitura. O seu novo livro, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, é constituído por duas novelas simultaneamente trágicas e belas, passadas em lugares desconhecidos. Na primeira, O Varandim, acompanhamos os preparativos para a execução da sentença de morte de um grupo de anarquistas e o júbilo de uma populaça sedenta de sangue e vingança. Na segunda novela é-nos apresentada uma cidade, Carvangel, um porto de chegada e partida, cujos residentes aguardam a vinda de Maria Speranza, um navio que tarda em aparecer e que promete um futuro melhor.
O LIVRO
Um canhão assombrando uma cidade. Um patíbulo armado de noite. Um istmo que conduz a uma cratera. Uma diligência cercada por cães selvagens. Nuvens de grifos imundos sobre o mar. A batalha sangrenta dos pescadores. Uma galeria de anarquistas, mais nobres que plebeus. A casa de Madame Ricciarda. A casa de Madame Musette. Dois jesuítas. Um padre que toca violoncelo. Um navio que não chega mais. Uma opereta com ecos de tragédia. Sol, luz, névoa e lua. Oito mulheres, amores duplos, triplos e quádruplos. De como a vida engana a morte. Ou o inverso. Porque há em gente pacata uma apetência de morte tão grande? Porque é que nunca se regressa daquela viagem? Porque é que aquele navio não chega? Porque é que aquele canhão jamais dispara?
O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel - primeiro livro de Mário de Carvalho no catálogo da Porto Editora - confirma-o uma vez mais como um dos grandes nomes da ficção portuguesa contemporânea.

O AUTOR
Mário de Carvalho nasceu em Lisboa em 1944. Licenciou-se em Direito e viu o serviço militar interrompido pela prisão. Desde muito cedo ligado aos meios da resistência contra o salazarismo, foi condenado a dois anos de cadeia, tendo de se exilar após cumprir a maior parte da pena. Depois da Revolução dos Cravos, em que se envolveu intensamente, exerceu advocacia em Lisboa. O seu primeiro livro, Contos da Sétima Esfera, causou surpresa pelo inesperado da abordagem ficcional e pela peculiar atmosfera, entre o maravilhoso e o fantástico. Desde então, tem praticado diversos géneros literários - romance, novela, conto e teatro -, percorrendo várias épocas e ambientes, sempre em edições sucessivas. Utiliza uma multiforme mudança de registos, que tanto pode moldar uma narrativa histórica como um romance de atualidade; um tema dolente e sombrio como uma sátira viva e certeira; uma escrita cadenciada e medida como a pulsão duma prosa endiabrada e surpreendente.
Nas diversas modalidades de Romance, Conto e Teatro, foram atribuídos a Mário de Carvalho os prémios literários portugueses mais prestigiados (designadamente os Grandes Prémios de Romance, Conto e Teatro da APE, o prémio do Pen Clube e o prémio internacional Pégaso). Os seus livros encontram-se traduzidos em várias línguas. Obras como Os Alferes, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, ou este O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel são a comprovação dessa extrema versatilidade
."Fonte: Porto Editora em 31/08/12


A arte do conto de Carlos Fuentes
Contos Naturais chega às livrarias no dia 6 de Setembro


"Carlos Fuentes, falecido recentemente, aos 83 anos, foi um dos mais importantes escritores da América Latina e só lhe faltaria o Prémio Nobel para comprovar o seu mérito. A Porto Editora, depois de publicar o romance Adão no Éden, apresenta, a 6 de Setembro  Contos Naturais , uma vez que também na arte do conto o escritor se revelou um dos grandes mestres contemporâneos.
A identidade e os cenários mexicanos estão presentes com uma força particular em Contos Naturais, livro cujas histórias tratam de temas tão diversos como o amor, a morte, a religião e a hipocrisia, os direitos humanos e o capitalismo.
Vencedor de vários prémios, entre os quais se destaca o Prémio Cervantes e o Prémio Príncipe das Astúrias, Carlos Fuentes foi também um habitual candidato ao Prémio Nobel e, juntamente com Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez, completava o «triângulo de ouro» da literatura latino-americana. Segundo o Nobel português, José Saramago, Fuentes foi «um escritor de altíssima categoria artística e de uma incomum riqueza conceptual».

O LIVRO

Desde a publicação da sua primeira obra, um livro de contos intitulado Los Días Enmascarados (1954), ficou bastante claro que estávamos perante um dos mestres contemporâneos da arte do conto. As obras que se seguiram, Cantar de Ciegos, A Fronteira de Vidro e Todas las Familias Felices, só vieram confirmar essa ideia. Contos Naturais recicla vários contos originalmente publicados nas obras acima mencionadas, à exceção do último, que saiu em Cuerpos y Ofrendas.
O AUTOR 
Carlos Fuentes (1928 - 2012) é autor de uma vasta obra, que inclui romances, contos, teatro e ensaio, e um dos principais expoentes da narrativa latino-americana. Ao longo da sua carreira recebeu numerosos prémios, entre eles o Prémio Cervantes (em 1987) e o Prémio Príncipe das Astúrias (em 1994). Em 2003 foi condecorado com a Legião de Honra pelo governo francês e em 2008 recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. A Porto Editora, que, de Carlos Fuentes, já publicou Adão no Éden, publicará em breve Contos Sobrenaturais, segunda parte deste díptico de narrativas breves.

IMPRENSA
O seu trabalho é de grande importância para percebermos o porquê de estarmos no mundo. Nadine Gordimer
Carlos Fuentes nunca deixou de se preocupar com a identidade mexicana e a forma de a expressar.
Diário de Notícias
Fuentes encarnou a ideia de levar o México para o mundo e trazer o mundo para o México.
Federico Reyes Heroles
Um dos escritores que mais influenciou a mudança de paradigma sofrida pela literatura hispano-americana nos últimos tempos.ABC"
Fonte: Porto Editora