sábado, 30 de março de 2013

Contemplação e acção



"HÁ CADA VEZ MAIS PESSOAS que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, umas procuram torná-lo melhor por meio do seu esforço, individual ou colectivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo,  mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o vêem.  As primeiras são partidárias da acção; as segundas  confiam nos efeitos da contemplação. Ambas as atitudes são universais. Encontram-se em todas as sociedades civilizadas. Determinam os princípios fundamentais das grandes religiões. O Oriente cultivou mais a contemplação; o Ocidente, sobretudo depois do século XIII, desenvolveu mais a acção. A relação do homem com o mundo deu lugar a opções diferentes. Os programas de intervenção  ou de não intervenção  diversificaram-se  e evoluíram. Há , portanto, uma história da acção e da contemplação. No Ocidente essa história confunde-se com a história da Igreja, e, mais precisamente, com a história das ordens religiosas, ou seja, com a história do seu sucesso ou insucesso na tarefa de mudar o  mundo para melhor, isto é, para resolver os problemas decorrentes da vida do homem em sociedade.
A minha tese, se assim lhe posso chamar, é que não basta a acção; é preciso também a contemplação. Talvez mais ainda: sem ela de nada vale a acção. Creio que a história da Humanidade mostra isso mesmo. Não a história  factológica, superficial, externa, mas a história da realização das potencialidades do género humano.   Ou a história da Humanidade em busca da sua plenitude. Ou a história da revelação de Deus presente na realidade concreta do mundo. (…)
Toda a obra humana , mesmo a mais espiritual, perde facilmente a sua pureza e está  sujeita à ambiguidade. O projecto da cristandade imaginado (...), apesar  das suas admiráveis realizações(...) ficou aquém dos seus objectivos.
(...)Mas os projectos seculares de uma nova sociedade, propostos pelo iluminismo, o liberalismo, o socialismo e o comunismo, também não cumpriram a promessa de trazer o progresso para toda a Humanidade  e instaurar a fraternidade e a justiça universais. Eliminaram a própria  noção de sagrado, sem darem conta que a sacralidade dos princípios essenciais é o fundamento dos valores de que depende a vida do homem em sociedade. Sem ela não é possível defender eficazmente a dignidade humana e o respeito pela vida. O projecto liberal criou uma sociedade sem religião, sem estrutura e sem convicções. A sociedade agnóstica realiza prodígios tecnológicos, mas não consegue  evitar as catástrofes naturais, não reabsorve o lixo que produz, deixa milhões de homens morrerem à fome, recorre à tortura e à violação da consciência com medo de perder  a segurança.
Mas é esta a realidade do homem moderno. Nunca o homem teve tanto poder e ao mesmo tempo tanta fragilidade. A globalização  trouxe-lhe  a consciência da sua incapacidade de resolver todos os problemas quando tudo depende  só de si mesmo. As leis da proporção e da quantidade , e o exemplo de iniciativas recentes , mostram-lhe que as cimeiras dos maiores detentores  do poder político, financeiro e tecnológico são impotentes  para resolver  os grandes problemas da Humanidade. Se é assim , o homem devia recuperar a consciência da sua finitude. Os poderosos tentarão , assim se espera, resolver os grandes problemas. Mas o cidadão comum, o indivíduo  só pode resolver os problemas em que está envolvido, e tendo em conta a escala daquilo que pode alcançar: o grupo a que pertence, a família que o rodeia, o trabalho de que vive, as associações em que se inscreve, o país da sua cidadania, a ideologia ou a confissão religiosa que professa. É para com eles que deve ser responsável. É a esta escala que a mudança de olhar proposta pela atitude contemplativa lhe pode trazer uma nova esperança.
Com efeito, a contemplação  mostra-nos a fantástica variedade, complexidade e coerência dos fenómenos da vida, da constituição da matéria, e da prodigiosa dimensão e regularidade do mundo cósmico. A contemplação intensifica a fruição  da arte na música, na pintura, na poesia, no teatro e no cinema. A contemplação torna-nos sensíveis ao riso e à frescura das crianças e de tudo o que começa de novo. A contemplação faz-nos descobrir em toda a parte homens e mulheres inesperadamente inventivos, generosos e honestos. A contemplação inspira-nos o respeito e a admiração por quem é capaz  de manter a dignidade face ao sadismo dos torcionários nas prisões e campos de concentração. A contemplação abre os nossos ouvidos  ao clamor dos famintos  e dos oprimidos em todo o mundo e em toda a História, e faz-nos partilhar com eles a compaixão pela Humanidade  ferida. A contemplação introduz-nos no mistério do sofrimento que se torna passagem para a ressurreição através da morte aceite e vencida, e mostra-o em Jesus Cristo, Filho de Deus , sinal da invencibilidade da vida. A contemplação associa como num único sujeito todos os homens e mulheres que desde o princípio do mundo perscrutaram o mistério do Uno e do Todo. Assim, o homem contemplativo perde o medo do futuro. Vive no presente e descobre , a cada passo, nas coisas grandes e pequenas, nas coisas boas e más, na doença e na saúde, na prosperidade  e na pobreza , na paz e na guerra, a espantosa realidade das coisas. (...)
O olhar abrangente e lúcido sobre o mundo diz-nos  que a acção e a contemplação não devem ser exclusivas, e que é inútil estabelecer regras  acerca do grau de consagração a uma ou outra. Enquanto houver seres humanos que a ela  se entregam, de alma e coração, podemos olhar sem medo para o futuro.”José Mattoso “Contemplação e acção , ontem e hoje “ in “ Levantar o Céu, Os labirintos da Sabedoria”, Abril de 2012, Ed. Círculo Leitores

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