quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Que venha 2026!



Tudo está na palavra … Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada.
Pablo Neruda, Confesso que vivi – memórias

Não há hora certa para ouvir o sopro dos ventos, o canto dos pássaros, o farfalhar das folhas nas árvores, o murmurar dos regatos, o barulho da chuva. A música são objetos sonoros que criamos como companheiros da música da natureza, para acrescentar-lhes uma beleza diferente, saída de dentro de nós. É preciso viver no meio dela como vivemos no meio dos ventos, dos pássaros, das árvores, dos regatos, da chuva…
(...)A educação da nossa sensibilidade musical deveria ser um dos objetivos da educação. Os conhecimentos da ciência são importantes. Eles nos dão poder. Mas eles não mudam o jeito de ser das pessoas. A música, ao contrário, não dá poder algum. Mas ela é capaz de penetrar na alma e de comover o mundo interior da sensibilidade onde mora a bondade. Afinal, esta não deveria ser a primeira tarefa da educação: produzir a bondade? 
Rubem Alves, Educação dos sentidos

Pablo Neruda, o grande poeta, afirma, com convicção, que tudo está na palavra. E eu acredito. Palavra de poeta tem um valor incontestável. Afinal a palavra é o material único da sua oficina. A palavra tem tudo para burilar, cinzelar, aparar, lavrar, triturar, salvar, amar. O poeta sabe e faz.
Entretanto o ensaísta ,Rubem Alves,  leva-nos ao coração da música. É preciso viver dentro dela de igual forma como vivemos no meio da natureza. Ela não traz a força do poder, mas penetra na alma do Homem. Penetra-lhe na alma e acorda-lhe a sensibilidade, onde mora a bondade. E não é de tudo isso que nós precisamos?! Um mundo novo onde o Homem seja capaz de gerar misericórdia.
Que venha 2026!

ᗅᗺᗷᗅ , em  Happy New Year (1980).O nome deste grupo foi feito com as iniciais de cada nome dos quatro membros do grupo:– Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid “Frida” Lyngstad. Foi um dos maiores e  mais populares grupos de 1970.
 
Ray Charles & The Voices Of Jubilation, em  Oh, Happy Day.
 
Josh Groban, em  The Year Now Pass,  A Sacred New Year Hymn.
 Rod Stewart , em Auld Lang Syne –| New Year Lyrics | Farewell Old Year, Welcome New Year 2026.

Escutar os sons do mundo


Escutar os sons do mundo
por Rubem Alves
"Lembro-me do livro de contabilidade do meu pai. Ao lado esquerdo ficava a página do “Deve”, onde ele anotava os pagamentos feitos, dinheiro que não era mais seu. Ao lado direito estava a página do “Haver”, onde se registravam as entradas, sua pequena riqueza.
Na alma também se encontra um livro de contabilidade. Tanto assim que o Vinicius escreveu um poema com o título “O haver”. Ele já estava velho e fazia um balanço final do que restara. “Resta”: é assim que cada verso se inicia.
.
Resta […]
Essa intimidade perfeita com o silêncio […]
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza […]
Resta essa comunhão com os sons […]
Resta […]
essa súbita alegria

Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…
Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade de um poeta! Os poetas são seres muito estranhos. Ficam felizes com nada. A poesia se faz com nadas… Bem disse o Manoel de Barros:

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. […]
As coisas que não servem para nada têm grande importância…
Fernando Pessoa sofria da mesma peculiaridade auditiva do Vinicius. Lembro-me de um verso seu que não consegui encontrar, que é mais ou menos assim: “Por esse barulho do vento nos meus ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso não foi dele, fica sendo meu, porque eu já tive a mesma experiência várias vezes. Caminhando sozinho no silêncio das árvores, o vento me sussurra segredos de felicidades, como revela Fernando Pessoa:

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.
 
Ouvir os sons do mundo é uma felicidade que somente os artistas recebem por nascimento. Os outros têm de aprender. Para isso há de haver os mestres da escuta. Como John Cage que compôs uma curiosa peça para piano. É assim: o pianista faz precisamente o que fazem todos os pianistas. Entra no palco, encaminha-se para o piano, assenta-se, regula a distância do banco, concentra-se – e não faz o que todo pianista faz. Ele não toca! Não, não! Não está certo! Eu errei! O pianista toca, sim. Ao piano ele executa o silêncio. O piano toca uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para que se ouçam os delicados sons do mundo que não seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do coração, a respiração, o ranger de uma cadeira, uma tosse, um sussurro… “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”, disse Lichtenberg. O não fazer é a forma suprema de fazer, afirma a filosofia tao. Fazer nada é estar à espera. Por isso se aconselha meditação, que nada tem a ver com a meditação ocidental. A meditação ocidental é falar baixo os próprios pensamentos de uma forma metódica. O piano toca. Mas a meditação oriental é silenciar os próprios pensamentos para que os sons do mundo possam ser ouvidos. O piano não toca. Pra que serve isso? Pra nada. Não é ferramenta. Não tem utilidade. É coisa da caixa de brinquedosSó dá felicidade.
O mundo está cheio de música. Há os sons que não existem mais, que estão perdidos na memória. Meu amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia seria chamar do esquecimento os sons que um dia ouviram e que não se ouvem mais. A música do realejo, o canto do carro de bois, o apito das fábricas, das locomotivas, o “din-din” dos bondes, o canto dos galos, o repicar fúnebre dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões de lenha, a gaita do sorveteiro, a buzina das charretes… Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem. Há também os sons da cidade, os gritos dos vendedores, o vozerio nas feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, os bate-estacas das construtoras, o canto dos pardais, os rádios ligados dos trabalhadores, o latido ardido dos poodles… E há os sons da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva, os mantras das cachoeiras, o canto dos pássaros, dos sapos, dos grilos (tantos haicais sobre os grilos…), dos galos, o barulho das ondas…
Todo homem – até mesmo o rico – é poeta entre os quinze e os vinte anos. A nova educação deverá fazer do homem um poeta em todas as idades, sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver a poesia é muito mais necessário e importante do que escrevê-la, assim disse Murilo Mendes. Poesia é música. A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar. Depois, é a música do mundo…
“Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram”, escreveu Cummings. Acordar os ouvidos! Não me consta que essa tarefa tenha sido jamais mencionada em tratados sobre a educação. É compreensível. Para isso os professores teriam que ser artistas, pianos que não tocam nada e que só fazem ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos jovens aprenderão a identificar o canto dos pássaros e ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…”
Rubem Alves,in A educação dos sentidos, Paidos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Viajar em 2025 - Retrospectiva de Lugares Incríveis no Nosso Planeta

Somos todos peregrinos na Terra.
Até ouvi alguém dizer que a própria Terra é um peregrino nos céus. 
             Maximo Gorki, As Catacumbas

  

Retrospectiva de 2025: Lugares Incríveis no Nosso Planeta 
"2025 - Retrospectiva: uma selecção dos melhores 25 vídeos sobre Lugares Incríveis, lançados em 2025,   por Milosh Kitchovitch (Amazing Places on Our Planet). 
Boas Festas e um Feliz Ano Novo de 2026! Obrigado por acompanhar o canal."

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A 29 Dezembro de 1899...

"A 29 Dezembro de 1899 foi publicado o sétimo romance de Machado de Assis, DOM CASMURRO , seguindo-se a Quincas Borba (1891) e precedendo Esaú e Jacó (1904). Objecto de numerosos estudos e releituras, a obra é considerada por grande parte da crítica o ápice da ficção machadiana, e o enredo e personagens instalaram-se como poucos no imaginário literário brasileiro.
Desde A mão e a luva, todos os romances de Machado vinham sendo publicados primeiramente em diferentes periódicos, saindo depois em livro, às vezes poucos meses depois de publicado na imprensa o último capítulo. Dom Casmurro, reencontrando Ressurreição (1872), o primeiro romance de Machado de Assis, sai direto em volume, começando a circular no Brasil em janeiro de 1900, embora a data oficial de publicação seja 1899, quando, nos últimos dias de dezembro, o livro ficou pronto, em Paris, sede da casa editora Garnier.
Nem só por esse aspecto por assim dizer editorial o romance de 1899 reencontra o de 1872. Vários críticos têm apontado semelhanças entre os dois enredos, em que a insegurança do protagonista se constitui como barreira à felicidade conjugal possível, já que ambos - Félix, de Ressurreição, e Bentinho, de Dom Casmurro - deixam-se dominar pela dúvida, pela suspeita em relação à fidelidade das mulheres que amam. No caso do primeiro romance, a jovem viúva Lívia, com quem Félix não chega a se casar, é vítima das dúvidas do noivo, que desconfia, infundadamente, de que ela poderia ter sido infiel ao marido e que, portanto, poderia também vir a traí-lo. No caso de Dom Casmurro, a coisa se complica, pois a narrativa é de primeira pessoa, e o narrador-protagonista procura impor a sua visão dos factos, permeada de embustes, manipulações e indicações sagazmente dispostas ao longo do texto para incutir no leitor a dúvida em relação ao que está sendo dito. Com o seu relato, quer convencer-nos de que a mulher o traiu com seu melhor amigo. A ausência de um narrador neutro, de terceira pessoa, impossibilita qualquer certeza por parte do leitor. Afinal, só se conhece a sua versão dos factos. Quem sabe, caso fosse permitido a Capitu narrar os acontecimentos do seu ponto de vista, teríamos outra história? Assim, Dom Casmurro é um romance permanentemente aberto, deixando ao leitor mais dúvidas do que certezas, mais perplexidades do que convicções. E talvez seja esse o seu maior encanto, que se reencena a cada leitura, para além da questão que vem ocupando a mente de muitas gerações: Capitu traiu ou não traiu o marido?
De facto, o romance é uma obra-prima de concisão, elegância, ambiguidade, trazendo quase a cada página um desmentido ao que se leu na página anterior. Basta aqui um exemplo: o narrador quer que acreditemos que o filho que tem com Capitu é na verdade filho de seu grande amigo, Escobar, e chega a essa conclusão pela semelhança física que parece haver entre os dois. No entanto, ao narrar uma visita que faz à casa de uma amiga de Capitu, quando ainda eram adolescentes enamorados, relata candidamente que o pai da amiga lhe aponta um retrato da mulher, com quem Capitu seria parecidíssima, embora não houvesse entre elas qualquer parentesco (capítulo LXXXII). E põe na voz dessa personagem, Gurgel, a seguinte frase: "Na vida, há dessas semelhanças esquisitas." Não seria o caso, então, de o leitor perguntar, ao fim do livro, se a eventual semelhança de Ezequiel com Escobar não seria também uma dessas semelhanças esquisitas?
Dom Casmurro conta a história de Bento Santiago (Bentinho), apelidado de Dom Casmurro por ser calado e introvertido. Em adolescente apaixona-se por Capítu, abandonando o seminário e, com ele, os desígnios traçados por sua mãe, Dona Glória, para que se tornasse padre.
Casam-se e tudo corre bem, até o amor se tornar ciúme e desconfiança. É esta a grande questão que magistralmente Dom Casmurro expõe ao longo de 148 capítulos: a dúvida que paira ao longo de toda a obra sobre a possibilidade de traição de Capítu, agravada pela extraordinária semelhança do filho de ambos, Ezequiel, com o grande amigo de Bentinho, Escobar." in Obras de Machado de Assis.
.
"Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu e viveu no Rio de Janeiro. A única vez que deixou a cidade, em 1879, para convalescença de crise de epilepsia, foi para Nova Friburgo. Essa estada ficou literariamente famosa por ter aí começado — ditando-o à mulher, Carolina — Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro singularmente extravagante que marca toda a sua obra. Descendente de escravos (o pai, pintor de paredes, era filho de escravos forros; a mãe, uma lavadeira açoriana), pobre, órfão muito cedo, não teve educação formal e foi funcionário público, mas, não obstante ter surgido como o mais excêntrico escritor que o Brasil já conhecera, cedo alcançou enorme reputação literária, fundando e presidindo a Academia Brasileira de Letras. Foi o mais completo homem de letras oitocentista no Brasil, escrevendo em vários géneros, mas destacando-se enquanto romancista, contista e cronista. Os seus romances ainda surpreendem pela atualidade, pelo inesperado do humorismo filosófico e pelo cosmopolitismo. Parece nunca ter sido tão estimado pelos seus pares como foi por eles admirado, o que seria injusto atribuir à excecional configuração do seu génio literário."

domingo, 28 de dezembro de 2025

Ao Domingo Há Música



Os Profetas

Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém
Reinaldo Ferreira, in PoemasImprensa Nacional de Moçambique, 1960, p 131

Neste quase fim do ano de 2025, recordamos o poder da música como  um mote para 2026. Que se transforme a certeza que temos deste mundo incerto numa segura  verdade de harmonia e  paz  entre  todos nós.  

Christina Aguilera & Yseult, em   Ave Maria (Live from the Eiffel Tower - Official Video).
   
Johnny Hallyday , em Noël Interdit (1973).
   
Let Babylon Burn, em Last Christmas Light .
   
Leonard Cohen , em Hallelujah (Official Live in London 2008).
 

sábado, 27 de dezembro de 2025

"Uma cultivada Insolência”

O Humor de Stephen Leacock: “Uma cultivada Insolência”
por Eugénio Lisboa
Às vezes, acontece: compramos um livro que nos chama a atenção e nos acicata o apetite de o lermos e, depois, por qualquer razão, outros passam à frente e este fica esquecido por mais de uma década... Aconteceu-me com esta sumptuosa antologia de um dos maiores humoristas do século XX, cuja obra se situa entre 1910 e 1945: Stephen Leacock, canadiano de nacionalidade, que nasceu em 1869 e faleceu em 1944. A antologia a que me refiro – The Penguin Stephen Leacock, Selected and introduced by Robertson Davies - , publicada em 1981, jazia na minha biblioteca, desde 1982, ano em que a comprei, em Londres. Só agora a fui ler. Leacocock foi admirado (e utilizado) por grandes actores cómicos como Jack Benny, a quem Groucho Marx apresentou as obras do grande escritor (e professor) canadiano.
As pessoas que nos fazem rir nem sempre são de feitio fácil. No geral, são até grandes pessimistas (como Mark Twain) ou francamente hipocondríacos, como Marcel Aymé. Dizia precisamente Mark Twain, com um saber de experiências feito, que: “A fonte secreta do humor não é a alegria mas sim a tristeza. Não há humor no céu.” Quanto a Leacock, Robertson Davies informa-nos, cautelosa e eufemisticamente, de que o autor de “My Financial Career” “não era, necessariamente, um homem de temperamento solar e descuidado”, aludindo, enviesadamente, à sua “têmpera imperiosa”. Alguma razão terão os humoristas para a sua amargura e para o seu pessimismo. O estado do mundo há muito que não promete grandes coisas. O conhecido político e embaixador americano Henry Cabot Lodge, olhando o mundo do seu tempo, oferecia-nos este pálido rebuçado: “Esta organização [a ONU] foi criada para nos impedir de irmos para o inferno. Não foi criada para nos levar para o céu.” De qualquer modo, se outras razões não tivessem, os humoristas teriam, desde logo, boas razões de queixa, por a generalidade dos críticos e outros escritores os olharem como cultores de “literatura ligeira”. O escritor E. B. White notava-o, reprovadoramente: “O mundo gosta do humor, mas trata-o com paternalismo.” A Academia Sueca, por exemplo – e bem em contradição com o espírito do patrono do Prémio Nobel – parece desprezar o eminente contributo dado à literatura e ao bem-estar das pessoas por escritores do calibre de Mark Twain, P. G. Wodehouse, Dorothy Parker, Ring Lardner, Damon Runyon, O.Henry, Evelyn Waugh, Art Buchwald, H. L. Mencken, Robert Benchley, James Thurber, Groucho Marx, Woody Allen, S. J. Perelman e este que hoje aqui nos traz: Stephen Leacock. Entre outros. Tudo, escritores, no meu humilde pensar, bem mais merecedores do augusto galardão do que tantíssimas mediocridades, de pendor soturno, qualidade artística mais do que duvidosa e teor de pensamento muito questionável. Além do mais, os grandes humoristas escrevem todos admiravelmente, o que nem sempre é o caso de muitos nobelizados.
A ideia de que o humorista não é sério ou não é para levar a sério é uma ideia sem pernas para andar. A brincar, se dizem sérias e importantes verdades, ou, como queria o espírito acerado desse incómodo irlandês, que se chamava George Bernard Shaw, “a vida não cessa de ser cómica quando alguém morre, do mesmo modo que não cessa de ser séria quando as pessoas riem.”
É certo que, hoje em dia – e Portugal não é excepção – os humoristas têm a vida facilitada, devido à abundância de matéria prima. Dizia o impagável Will Rogers (e o que disse vale para hoje e para “aqui”) que “não é avaria ser humorista quando todo o governo trabalha para eles.” De facto, basta abrir a televisão e ouvir um ministro falar: não é preciso ir à caça de mais tema!
Voltando a Leacock, recomendo-vos, de modo geral, tudo o que escreveu, e, de modo particular, as coisas atrevidas que glosou sobre o mundo da finança e da governação, o mundo das conferências, a Universidade de Oxford, os escritores clássicos da Grécia e de Roma, etc.
Stephen Leacock cultiva magistralmente a insolência e até o ultraje, na boa linha de Aristóteles, que considerava o “espírito” como “insolência cultivada”. A este respeito, o ensaio “Homer and Humbug” é uma verdadeira delícia de atrevimento fronteiriço. O Professor Leacock confessa que foi, durante muito tempo, "céptico quanto aos clássicos”. Tinha uma grande facilidade em manipular os textos dos grandes nomes gregos e latinos, mas, admite ele, nesse ensaio, “nunca tirei grande prazer disso. Menti a esse respeito. A princípio, menti, talvez por vaidade. (...) Mais tarde, menti, por hábito; ainda mais tarde, porque, no fim de contas, os clássicos eram tudo quanto eu tinha e, por conseguinte, sobrevalorizei-os.” Compreende-se, que diabo! Os clássicos é que lhe davam o pão com manteiga e, por outro lado, é humano tentar dar algum valor àquilo que possuímos. Nesta linha, esclarecia-nos um pouco mais: “Foi assim que vi um cão equivocado valorizar um cachorro com a perna partida e uma criança pobre amimar uma boneca sem vida e com a serradura a sair-lhe do corpo. De igual modo, eu amimei o meu Homero bem morto e o meu escavacado Demóstenes, embora soubesse, no mais fundo do meu coração, que há mais serradura no estômago de um autor moderno do que em toda aquela tralha de clássicos.” Não me estendo mais, nesta citação, mas recomendo vivamente, ao leitor, que procure obter o ensaio, inserto no livro Behind the Beyond, publicado em 1913.
Este género de humor especialmente afrontoso (e afronta, sobretudo, a hipocrisia dos “scholars”) e à beira do ultraje, é também cultivado pelo grande H. L. Mencken, que escreve coisas como esta: “Leva bastante tempo, a uma pessoa naturalmente crédula, para se reconciliar com a ideia de que Deus, no fim de contas, não a vai ajudar.” Outro exemplo particularmente contundente é o deste “graffito” anónimo, aparecido em 1975: “Deus não está morto. Está vivo, mas a trabalhar num projecto muito menos ambicioso.” O afrontoso pode revestir conotações brejeiras, como neste aforismo de Lichtenberg: “Aquilo a que se chama «coração» fica muito abaixo do último botão do colete.”
Mas, voltando ainda a Leacock, não queria furtar-vos ao prazer de vos dar esta amostra da desenvoltura com que trata a famosa Universidade de Oxford. Depois de nos dar um quadro propiciatório (“Tem professores que nunca ensinam e alunos que nunca aprendem”), oferece-nos o formato, deliciosamente “inglês” do “professor”: “era suposto ser uma espécie de pessoa venerável, com bigodes, de uma brancura de neve, que chegavam até ao estômago. Esperava-se dele que vadiasse pelo campus, esquecido do mundo à sua volta. Se lhe acenavam, não dava por nada. De dinheiro, nada sabia; de negócios, muito menos. Era, nas orgulhosas palavras dos seus administradores, «uma criança»”. Mas, por outro lado, observava Leacock, “ele tinha, dentro de si, um reservatório de saber de tal profundidade, que era praticamente sem fundo. Nada, deste saber, parecia ser de qualquer valor material ou comercial para ninguém. A sua utilidade residia em salvar a alma e alargar o espírito.”
Na introdução que escreveu para a bela antologia The Best of Modern Humour (Allen Lane, London, 1983), Mordecai Richler informa-nos de que uma jovem senhora de Oklahoma City perguntou um dia ao humorista James Thurber se havia algumas boas regras para escrever histórias cómicas. O grande humorista respondeu, entre outras coisas ligeiramente menos significativas, que se devia evitar, a todo o custo, escrever histórias “acerca de canalizadores que passam por cirurgiões, de xerifes que se assustam com o tiroteio, de psiquiatras que dão em doidos com pacientes do outro sexo, de médicos que desmaiam à vista de sangue, de raparigas adolescentes que sabem mais de sexo do que os pais e, por fim, de anões que se verifica serem os pais de um matulão com cem quilos de peso.” Em suma, evitar o uso grosseiro e estafado do óbvio. Em nenhum destes pecados, juro, incorre Stephen Leacock.
Para terminar, faço ao leitor um pedido: caso estes exemplos de humor mais ou menos afrontoso ponham na sua (do leitor) cabeça a ideia oportunista de um mestrado sobre “o sentido profundo e transcendente do humor em José Duro”, peço-lhe empenhadamente que desista – lembre-se do que, a este respeito, observou o inimitável Robert Benchley: “Definir e analisar o humor é o passatempo de pessoas destituídas de humor”. Fica avisado. E diga-me quando a sua dissertação de mestrado vier à luz. "
Eugénio Lisboa , em  " PRO MEMORIA" ,  Jornal de Letras , 2013  

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Natal cantado

 John Lennon,  em Happy Christmas (4K Widescreen).

 
The Piano Guys, Peter Hollens, David Archuleta e o Mormon Tabernacle Choir, em Angels We Have Heard on High.
 
Frank Sinatra & Bing Crosby, em   White Christmas | Live from Happy Holidays with Bing & Frank(1957).
   
Elvis Presley , em  Blue Christmas ('68 Comeback Special).
 
Edith Piaf , em Le Noël de la rue.
Chris Rea, em  Driving Home For Christmas (Official Lyric Video).
 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

É um menino e é Deus

Natal

Ninguém o viu nascer
Mas todos acreditam
que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.
Miguel Torga, in " Diário XIV", Coimbra, 25 de Dezembro de 1983
 
O poeta e o músico tecem a ternura e a beleza de Maria, a mãe de  Jesus. Cúmplice de um milagre que se repete em Dezembro de cada ano,   a humildade  serena de Maria fez dela a sempre Bem-Aventurada.


A voz da alma | Quia respexit humilitatem | Magnificat BWV 243 
, de Johann Sebastian Bach. Soprano a solo: Mojca Bitenc Križaj. Direcção musical: Maestro: Sebastian Vrhonik. Orquestra e Coro: Orquestra Barroca da Caríntia Concertino: Thomas Fheodoroff Coro da sociedade musical Glasbena Matica. Director de coro: Tanja Rupnik. Pianista : Alina Kolomiets.

 
 Quia respexit humilitatem ancillae suae.
 Ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes. 
(Porque Ele olhou para a humildade da sua serva.
 Pois desde agora todas as gerações me chamarão bem‑aventurada.
)
BachMagnificat

"No coração do monumental Magnificat BWV 243, de Bach, existe um instante de uma intimidade tão profunda que o próprio tempo parece deter-se. "Quia respexit humilitatem" este é o único andamento do Magnificat em que Bach escreveu explicitamente o tempo: Adagio. Isso já revela a intenção: uma pausa sagrada, um recolhimento no meio da grandiosidade da obra. É um instante em que o esplendor barroco se suspende para dar lugar a algo vulnerável, humano e interior — o mundo íntimo de Maria. O que torna este andamento extraordinário é o que Bach ousa retirar. O primeiro andamento explode com a orquestra barroca completa e trompetes resplandecentes. Mas aqui, ele despoja tudo até à sua essência: uma única voz de soprano, um oboé d'amore solitário e o baixo contínuo. Neste belo vazio, somos convidados a entrar no mundo interior de Maria – um espaço de assombro, humildade e reverência silenciosa. O musicólogo alemão Philipp Spitta escreveu em 1873 que "raramente a ideia de pureza virginal, simplicidade e humilde felicidade encontrou uma expressão mais perfeita do que nesta imagem alemã da Madona, traduzida para a linguagem musical". A mudança para a tonalidade menor, a voz melancólica do oboé d'amore, as linhas melódicas descendentes – cada elemento conspira para pintar a própria humildade em som. A humildade é um gesto descendente, e Bach compõe-na com uma literalidade comovente. As linhas melódicas traçam longas curvas em forma de S que descem como alguém que inclina a cabeça em reverência, aceitação e graça. O único instrumento de sopro confere ao andamento uma ternura quase submissa, encarnando perfeitamente as palavras de Maria sobre ser olhada na sua pequenez. 
A soprano e o oboé d'amore não se limitam a acompanhar-se – respiram juntos naquilo a que o maestro Michael Steinberg chama um "dueto contemplativo". Então, algo muda. Com as palavras "ecce enim ex hoc beatam" – de agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada – a linha vocal transforma-se. Maria já não reflecte apenas; ela proclama uma verdade que ecoará pela eternidade. E então chega o golpe de génio mais arrebatador de Bach. O último compasso da soprano é, simultaneamente, o primeiro compasso de "Omnes generationes". Sem cesura, sem pausa, sem fôlego. Num instante, Bach lança-nos das profundezas da humildade íntima para uma celebração coral explosiva. De uma humilde serva para toda a humanidade. Do sussurro ao trovão. Da solidão à eternidade. Sem perder o ritmo. Aqui, Bach mostra-nos algo essencial: que o poder mais profundo fala muitas vezes com a voz mais suave. Quando tudo o resto desaparece – os trompetes, o coro completo, toda a grandeza – é isto que resta: uma única voz humana, um único instrumento, e um momento de beleza pura e destilada que tem comovido os ouvintes até às lágrimas durante três séculos. 
Mojca Bitenc Križaj é uma proeminente soprano europeia e uma célebre solista da Ópera e Ballet Nacional da Eslovénia (SNG). É aclamada em todo o mundo pela sua voz excepcional e pelo seu virtuosismo refinado. Concluiu o seu mestrado com a mais alta distinção, summa cum laude, e recebeu o prestigiado Prémio Estudantil Prešeren pelas suas conquistas. A sua impressionante carreira inclui actuações em festivais de renome, como o Festival de Bregenz, e em importantes palcos por toda a Europa. Colabora regularmente com orquestras de topo, incluindo a Orquestra Sinfónica de Viena, a Filarmónica da Eslovénia e a orquestra da Ópera de Budapeste. Para além da sua carreira musical, Mojca Bitenc Križaj é também licenciada em medicina, uma formação que torna a sua decisão de seguir a paixão do seu coração pela música ainda mais notável. A sua voz possui uma pureza e expressividade raras que comovem profundamente o ouvinte."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Chega o Natal


Natal

Seguem as estrelas os sábios do Oriente,
trazendo ouro, incenso e mirra de presente,
porque do Céu um anjo vai chegar.
E perguntam: Onde está o rei recém-nascido,
pois que adorá-lo nos seja permitido,
dizem Gaspar, Melchior e Baltazar.

Em Belém uma luz imensa se irradia,
ao som inaudível de celeste melodia.
E num estábulo próximo da cidade,
nasce tão pobre o redentor do mundo
é a humildade em seu exemplo mais profundo
para ensinar o amor e a paz à humanidade.

Num berço de palha, o maior encanto,
entre sábios e pastores o maior espanto
ante um divino Ser, ali, feito criança.
É um celeste peregrino chegando à humanidade,
a um coração de mãe que o amor invade
e trazendo à Terra a semente da esperança.

Há dois mil anos nasceu Jesus na Palestina
Mensageiro da paz, do amor, da luz divina.
Nada escreveu, mas é o Mestre Incomparável.
Curou a tantos e pregou o perdão e a bondade,
foi o supremo exemplo da mais sublime caridade,
e ultrajado com a pena mais ingrata e abominável.

Chega o Natal, e Jesus volta a nascer a cada ano.
Mas será que já nasceu no coração humano?
Será que festejamos o que mais importa?
Ele é o Caminho, é a Verdade e é a Vida,
é o Pastor em busca da ovelha perdida.
Eis porque Jesus volta a bater em nossa porta.
        Curitiba, 22 de dezembro de 2025
Manoel de Andrade

 

“Silent Night”- Epic Winter Rock Ballad,  versão da Hidden Jem, (2026 Remaster)
Uma reinterpretação tranquila e cinematográfica de um dos hinos de Natal mais acarinhados do mundo. Nesta , a melodia intemporal é reinventada como uma balada rock de inverno moldada pela quietude, reverência e profundidade emocional.
“Silent Night” sempre foi mais sobre o silêncio do que sobre o som. Sobre a luz que chega suavemente. Sobre a paz que é sentida em vez de proclamada. Este arranjo inspira-se em vastas paisagens de inverno — montanhas cobertas de neve, estrelas distantes, aldeias de madeira a associado a narrativas épicas de inverno — não como imitação, mas como simbolismo: onde o silêncio se torna sagrado e até a mais pequena luz parece poderosa.
 “Silent Night” foi composta em 1818 por Franz Xaver Gruber com letra de Joseph Mohr e desde então tornou-se um dos hinos de Natal mais interpretados da história da humanidade. Ao longo de dois séculos, atravessou fronteiras, línguas e culturas, levada por vozes em busca de calma, esperança e reflexão. A melodia e a letra originais são consideradas de domínio público, enquanto esta gravação apresenta um novo arranjo épico de balada rock, criado com profundo respeito pela herança espiritual do hino. 
 
Luciano Pavarotti e Placido Domingo , em  O Holy Night / Cantique De Noel (Christmas-Vienna 1999)
   
Sinead O'Connor, em  Silent Night (Long Version) [Official Audio].

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

É isto a grande ficção


Vamos Ler
por Eugénio Lisboa
"Para ler, qualquer sítio serve. Uma cadeira, um sofá, um degrau de escada, a areia de uma praia, o banco de um comboio ou o assento de um avião, até numa fila de espera de um museu, com a neve a cair-nos em cima, como vi, em Moscovo, quando lá fui num inverno. Os grandes leitores conseguem ler em qualquer lado. André Gide, talvez por masoquismo de protestante, escolhia, para ler e até para escrever, os nichos mais desconfortáveis da sua casa, na Rue Vaneau, em Paris. Mas, tudo visto, o que sobretudo me seduziu, como lugar de leitura, ao longo da vida, foi uma cama. Durante toda a minha infância, juventude e alguma maturidade, li na cama, mais do que em qualquer outro sítio. Logan Pearsall Smith, ensaísta inglês, de origem americana, conhecido pelos seus acutilantes aforismos e epigramas, gostava de dizer: “Dêem-me um livro e uma cama e estou perfeitamente feliz.” E o mesmo Logan Pearsall Smith ia até mais longe, quando não hesitava em afirmar: “As pessoas dizem que o que vale a pena é viver, mas eu prefiro ler.” Na cama, claro. Receio, porém, não ter esgotado a variedade de sítios onde se pode ler. Henry Miller, desbocado como era seu costume, informava: “Todas as boas leituras que fiz, pode dizer-se, foram feitas na retrete.” Que é, de facto, um dos mais assíduos locais de aquisição de cultura. Negue-o quem puder. De resto, esta afinidade entre cultura (aquisição da) e sanita foi sumptuosamente afirmada por um nosso ministro da cultura, por acaso o melhor de todos eles, ao mandar aprimorar, no ministério da dita, uma sanita de luxo, com requintes de palácio de sheik milionário. Críticos ignaros, pouco lidos em clássicos como o autor de Trópico de Câncer, difamaram o investimento gigante na sanita, mal suspeitando que é em tais loci que a cultura prospera! De qualquer modo, o grande leitor, o que se deixa absorver por um bom romance, uma peça de teatro, um belo poema, um bom e apaixonante ensaio, lê em qualquer sítio: num comboio, num automóvel, num buraco de obus, em pleno bombardeamento… Não estou a exagerar. O escritor francês, André Gide era não só um grande escritor, mas era também um grande e insaciável leitor. A leitura absorvia-o de tal maneira, que se alheava de tudo o resto, enquanto lia Tolstoi ou Ovídio. Um dia, foi fazer, com amigos, uma viagem de automóvel por vários países europeus. Levava consigo o romance Guerra e Paz, de Tolstoi. Ia tão absorvido na leitura, que, de uma vez, tendo eles chegado a um museu importante, que tencionavam visitar, os amigos saíram do carro, estacionado próximo do referido museu. Gide, embora tivesse manifestado muito interesse em o visitar, encontrava-se tão “apanhado” pela grande narrativa do escritor russo, que pediu aos amigos que fossem e o deixassem no carro, imerso na leitura, que não conseguia interromper. São estes os grandes leitores, que têm, na leitura, um prazer intenso e nunca desfrutado pelos indivíduos que raramente abrem um livro.
O escritor francês, Claude Roy, notável romancista, ensaísta e diarista, era também um formidável e arguto leitor. Num dos seus livros conta uma pequena história de guerra, durante o conflito que devastou a Europa, de 1940 a 1945. Num momento em que uma unidade aliada se encontrava debaixo de fogo intenso da artilharia alemã, Claude Roy saltou para um buraco de obus, no qual se encontrava já outro soldado. Para seu grande espanto, verificou que o companheiro de abrigo parecia completamente alheio ao inferno de ferro e fogo que os cercava e passava por cima das suas cabeças. Intrigado, tentou perceber o que se passava e acabou por ver que o seu parceiro se encontrava completamente absorvido na leitura dum romance de Richard Hughes, que relatava uma tempestade a bordo de um navio, no mar alto. Tão embrenhado estava naquela tempestade fictícia, que nem dava pelo inferno real que o ameaçava. É isto que a grande ficção faz aos grandes leitores: envolve-os por completo, obturando qualquer contacto com o mundo real."
Eugénio Lisboa, in Vamos Ler, um cânone para o leitor relutante, Editora Guerra & Paz, Março de 2021, pp.39-42

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Viajar pelo Mundo

Viajar é nascer e morrer a todo o instante. 
Victor Hugo
 
The Most Beautiful Places On Earth - 4K | Travel Video 2026

domingo, 21 de dezembro de 2025

Ao Domingo Há Música



Laudate Dominum omnes gentes
Laudate eum, omnes populi
Quoniam confirmata est
Super nos misericordia eius
Et veritas Domini manet in aeternum

Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper
Et in saecula saeculorum
Amen
 Livro dos Salmos

(Louvai o Senhor, todas as nações;
Louvai‑O, todos os povos.
Porque firme e eterna é
Sobre nós a sua misericórdia,
E a verdade do Senhor permanece para sempre.

Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre,
E pelos séculos dos séculos.
Amen.)

 

Os dois magníficos trechos que compõem  a selecção musical deste domingo são de Wolfgang Amadeus Mozart . 
Mozart regressa sempre a este espaço. Ouvi-lo, (re)escutá-lo será sempre uma celebração inacabada. Nele, há tanto para festejar que será impossível não o trazer, não o fruir, não o redescobrir e não ser  evocado por vidas vindouras que ultrapassam a nossa finitude. 

Laudate Dominum,  de Wolfgang Amadeus Mozart, pelo  Bel Canto Choir Vilnius.  A interpretação a solo é  de  Lina Dambrauskaite, com  Raminta Gocentiene ao piano. Este registo faz parte do espectáculo ao vivo  "An Evening With Bel Canto", em St. Catherine Church , a 6 de Novembro de 2010, em Vilnius, Lituânia.
Laudate Dominum  , o texto faz parte do Livro dos Salmos que eram originalmente cânticos litúrgicos do Templo de Jerusalém. Este salmo, em particular, é um convite universal: todas as nações, todos os povos são chamados a louvar Deus.
É um salmo de abertura, de alegria, de comunhão porque  carrega duas ideias centrais da espiritualidade bíblica:
A misericórdia de Deus é firme e constante.
A verdade de Deus permanece para sempre.
Por isso ele é usado em celebrações que querem expressar gratidão, esperança e unidade.
Mozart compôs este Laudate Dominum, em 1780, como parte das Vésperas Solenes de um Confessor (Vesperae solennes de confessore, K. 339). É um conjunto de seis movimentos litúrgicos escritos para a Catedral de Salzburgo. O Laudate Dominum é o quinto movimento — e é, de longe, o mais famoso. Mozart faz algo muito particular ao  transformar um salmo curto e jubiloso numa oração profundamente serena e luminosa.
Laudate Dominum é uma mensagem universal porque o salmo fala de algo que atravessa culturas: a ideia de que a misericórdia e a verdade são forças que sustentam o mundo. Por isso,  ele toca tanta gente, mesmo quem não é religioso.
 
Piano Concerto No. 23: II, Adagio , de Wolfgang Amadeus Mozart  , por Hélène Grimaud.  
 
" Hélène Grimaud considera o concerto em Lá maior “provavelmente o concerto mais sublime que Mozart já escreveu”, com um andamento lento que é “uma expressão extremamente profunda e dolorosa de anseio, onde se encontra o verdadeiro Mozart”. O concerto era indispensável para esta colaboração. O concerto em Fá maior, K.459, é menos conhecido, mas possui uma vitalidade muito especial e um final virtuoso que, para Grimaud, é “puro prazer pianístico”. Além dos dois concertos, o álbum de Grimaud inclui a bela ária de concerto para orquestra, soprano e piano “Ch’io mi scordi di te”, cantada por Mojca Erdmann. A ária foi a declaração de amor de Mozart para a soprano Nancy Storace, sua Susanna na estreia mundial de “Le nozze di Figaro”. Foi composta em 1786, o mesmo ano do Concerto para Piano nº 23, com o qual aparece aqui. 
Assista a Hélène Grimaud tocar o Adagio do Concerto para Piano nº 23 de Mozart."

sábado, 20 de dezembro de 2025

Dia Internacional da Solidariedade Humana

O Dia Internacional da Solidariedade Humana é celebrado anualmente a 20 de Dezembro.
A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas em 2005, por ocasião da celebração da primeira década das Nações Unidas para a Erradicação da Pobreza (1997-2006).
A celebração do Dia Internacional da Solidariedade Humana tem como objectivo destacar a importância da acção colectiva para superar os problemas globais e alcançar os objectivos mundiais de desenvolvimento, de forma a construir um mundo melhor e mais seguro para todos. Neste dia, os governos são recordados dos seus compromissos com os acordos internacionais, sobre a necessidade da solidariedade humana como uma forma de combater a pobreza. As pessoas são incentivadas a debater sobre os meios de promover a solidariedade e a encontrar métodos inovadores para ajudar a erradicar a pobreza e a fome. 
Solidariedade humana: um compromisso global
O Dia Internacional da Solidariedade Humana surgiu no contexto dos compromissos assumidos pelas Nações Unidas com a promoção dos direitos humanos, da justiça social e da cooperação entre os povos. Com base nos princípios da Declaração do Milénio, este dia reforça a importância da solidariedade como base das relações entre cidadãos, comunidades e Estados, num mundo marcado pela diversidade cultural, social e económica. A sua promoção é apoiada por entidades como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cujo trabalho se centra na redução das desigualdades e na erradicação da pobreza à escala global. Qual o objetivo deste dia? De acordo com as Nações Unidas, o Dia Internacional da Solidariedade Humana tem como principais objetivos: 
Celebrar a união na diversidade e o respeito pelas diferenças culturais, sociais e económicas; Reforçar a responsabilidade dos governos no cumprimento dos compromissos assumidos em acordos internacionais; Sensibilizar a opinião pública para a importância da solidariedade como base da coesão social; Incentivar o debate sobre estratégias de promoção da solidariedade para a concretização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável; Estimular o desenvolvimento de novas iniciativas e práticas que contribuam para a erradicação da pobreza e da exclusão social.  
 A pobreza e a desigualdade social continuam a ser desafios estruturais que afectam milhões de pessoas a nível mundial. Os efeitos da pobreza vão para além da dimensão económica, influenciando o bem-estar social e psicológico. 
Entre as principais fragilidades associadas à pobreza e à desigualdade social destacam-se: 1.Insegurança económica e dificuldade em satisfazer necessidades básicas; 2.Acesso limitado à educação e formação profissional; 3.Barreiras ao acesso à saúde e a serviços de apoio psicossocial; 4.Estigma social e exclusão comunitária; 5.Impactos psicológicos, como stress, ansiedade e baixa autoestima; 6.Ciclos de vulnerabilidade que se perpetuam entre gerações. Estas fragilidades evidenciam que a pobreza e a desigualdade social são fenómenos complexos, que exigem respostas estruturadas e sustentadas.
A promoção da solidariedade humana e a implementação de estratégias de intervenção social qualificadas são essenciais para reduzir estas vulnerabilidades e contribuir para sociedades mais equitativas. 
Entre muitas outras iniciativas que decorrem pelo globo, destacam-se as organizadas pelas Nações Unidas. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, por exemplo, conta com 17 objectivos divididos em metas para melhorar parâmetros a nível mundial, reforçar a solidariedade global dos participantes, engajamento para mobilização de recursos, estratégias para promover a paz e melhorar a vida das pessoas em situação vulnerável.
É tradição deste dia o Secretário-Geral das Nações Unidas enviar uma mensagem ao mundo."
Neste mundo sempre devastado por tanta incúria e ganância de quem pode sobre os mais fracos e vulneráveis, a maioria  dos objectivos propostos teria já sido alcançada se o poder dos que podem assim o quisessem, contudo isso não impede a solidariedade de cada um. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Viajar por Lugares Incríveis de Portugal


Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e lá onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva.
     António Ferreira

 MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 Fernando Pessoa, in Mensagem Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).


Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e lá onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva
.
António Ferreira
 
PORTUGAL: Lugares Incríveis em Portugal Que Parecem de Outro Mundo | Paisagens do Planeta
"Prepare-se para se maravilhar com os lugares incríveis de Portugal — um país repleto de cenários que parecem saídos de outro mundo. Das falésias impressionantes do Algarve às aldeias medievais escondidas nas montanhas, Portugal é um espetáculo de cores, história e energia. Praias cristalinas, montanhas cobertas de nevoeiro, castelos antigos e vilarejos encantadores — cada lugar parece ter sido tirado de um conto de fadas. Neste vídeo,  vai descobrir os lugares mais surreais e impressionantes de Portugal, que  precisa ver para acreditar que realmente existem. Deixe-se levar por esta jornada mágica e descubra por que Portugal é considerado um dos países mais tão belos e misteriosos do planeta. 
✨ Lugares Incríveis de Portugal — só aqui, no Paisagens do Planeta."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

À maneira de Prefácio

Notas de Inverno sobre Impressões de Verão
Capítulo I
À maneira de Prefácio
por Fiódor Dostoievksi
“Há já vários meses que vocês, meus amigos, insistem para que descreva quanto antes as minhas impressões do estrangeiro, sem suspeitarem de que com o vosso pedido me colocam simplesmente num beco sem saída. Escrever o quê? O que hei‑de contar de novo, ainda desconhecido, que não tenha sido contado? Quem é que entre nós, russos (isto é, aqueles que lêem ao menos as revistas), não conhece a Europa duas vezes melhor do que a Rússia? Escrevi duas vezes por cortesia, mas por certo conhecem‑na dez vezes melhor. Para mais, além destas considerações gerais, vocês sabem que eu não tenho nada de extraordinário para contar, e ainda menos para registar ordenadamente, porque eu não vi nada e, se vi alguma coisa, não tive tempo para observar atentamente. Estive em Berlim, em Dresden, em Wiesbaden, em Baden‑Baden, em Colónia, em Paris, em Londres, em Lucerna, em Genebra, em Génova, em Florença, em Milão, em Veneza, em Viena, e noutros lugares até duas vezes, e percorri tudo isso, tudo isso em dois meses e meio! Mas será possível ver alguma coisa de maneira satisfatória, tendo percorrido tanto caminho em dois meses e meio? Lembrem‑se, o meu percurso tracei‑o ainda em Petersburgo. Nunca tinha estado no estrangeiro uma única vez: ansiava por fazê‑lo quase desde a primeira infância, ainda quando, nas longas noites de Inverno, por não saber ler, ouvia, de boca aberta e a desfalecer de encantamento e de pavor, os meus pais lerem antes de dormir os romances de Radcliffe, devido aos quais delirava depois febrilmente durante o sono. Parti finalmente para o estrangeiro aos quarenta anos de idade, e, é claro, queria não apenas ver o máximo possível, mas ver tudo, tudo sem falta, apesar do pouco tempo. Além do mais, eu era absolutamente incapaz de escolher com calma os lugares a visitar. Meu Deus, as coisas que eu esperava dessa viagem! «Bem posso não ver nada em pormenor — pensava eu — mas em compensação terei visto tudo, terei ido a toda a parte; em compensação, de tudo o que tenha visto formar‑se‑á qualquer coisa global, um panorama geral. Todo o “país das sagradas maravilhas” se me apresentará de uma vez, de relance, como uma terra prometida em perspectiva, do cimo da montanha. Numa palavra, obtém‑se uma impressão nova, singular, poderosa. Pois agora, aqui sentado em casa, de que é que tenho mais pena, ao recordar as minhas peregrinações estivais? Não é de não ter visto nada em pormenor, mas ter estado em quase toda a parte e não ter ido Roma, por exemplo. E em Roma não teria talvez visto o papa…» Em suma, fui atacado por uma espécie de insaciável sede de novidades, de mudança de lugares, de impressões gerais, sintéticas, panorâmicas. Mas o que esperam de mim depois destas confissões? O que lhes contarei? O que lhes representarei? Um panorama? Uma perspectiva? Qual‑ quer coisa de relance? Mas talvez vocês sejam os primeiros a dizer que eu voei demasiado alto. Além disso, considero‑me um homem consciencioso, e não queria de modo nenhum mentir, nem mesmo na qualidade de viajante. E se começo a apresentar‑lhes e a descrever nem que seja apenas um panorama, mentirei inevitavelmente, não por ser um viajante, mas simplesmente porque nas minhas circunstâncias é impossível não mentir. Vejam por vocês mesmos: Berlim, por exemplo, causou em mim a mais azeda impressão, apesar de lá ter estado apenas vinte e quatro horas. E agora sei que sou culpado para com Berlim, que não me atrevo a afirmar que ela causa uma impressão azeda. Que seja ao menos agridoce, e não simplesmente azeda. E a que se deveu esse meu erro nefasto? Decididamente, a que, sendo eu um homem doente do fígado, viajei durante dois dias no caminho‑de‑ferro, entre a chuva e o nevoeiro, até Berlim e, ao chegar, sem ter dormido, amarelo, cansado, quebrado, notei de repente ao primeiro olhar que Berlim é incrivelmente parecida com Petersburgo. As mesmas ruas em cordão, os mesmos cheiros, as mesmas… (Mas de resto, não vale a pena enumerar o mesmo!) Fu, meu Deus, pensava para comigo: valia a pena quebrar os ossos durante dois dias na carruagem para ver as mesmas coisas de que fugi? Nem das tílias gostei, e, para as manterem, os berlinenses sacrificam tudo o que lhes é mais caro, incluindo talvez até a sua Constituição; e o que é mais caro para um berlinense do que a sua Constituição? E ainda por cima os próprios berlinenses, todos até ao último, pareciam tão alemães, que eu, apesar dos frescos de Kaulbach (oh, horror!), esgueirei‑me rapidamente para Dresden, alimentando na alma a profunda convicção de que é preciso habituarmo‑nos de modo especial aos alemães e que, sem a habituação, é muitíssimo difícil suportá‑los em grandes massas. E em Dresden até cometi uma falta para com as alemãs: assim que saí para a rua, pareceu‑me de repente que não havia nada mais repugnante do que o tipo de mulheres de Dresden e que até o próprio cantor do amor, Vsevolod Kresto‑ vski, o mais convicto e alegre dos poetas russos, ficaria aqui completamente perdido e até talvez ficasse com dúvidas sobre a sua vocação. Eu, é claro, naquele mesmo momento senti que dizia disparates e que ele não poderia duvidar da sua vocação em circunstâncias algumas. Ao fim de duas horas, tudo me foi explicado: ao voltar ao meu quarto de hotel e ao deitar a língua de fora em frente do espelho, convenci‑me de que o meu juízo sobre as senhoras de Dresden parecia a mais negra calúnia. A minha língua estava amarela, em mau estado… «E será possível, será possível, que o homem, esse rei da natureza, dependa de tal maneira do seu próprio fígado — pensei —, que baixeza!» Com estes pensamentos consoladores parti para Colónia. Confesso que tinha muitas expectativas da catedral; ainda na juventude desenhava‑a com devoção, quando estudava arquitectura. No comboio de regresso através de Colónia, ou seja, um mês depois, quando, regressando de Paris, avistei a catedral pela segunda vez, queria «pedir‑lhe perdão de joelhos» por não ter compreendido a sua beleza da primeira vez, exactamente como Karamzin4, que, com o mesmo objectivo, se ajoelhou diante das Cataratas do Reno. No entanto, daquela primeira vez a catedral não me agradou nada: pareceu‑me que aquilo eram apenas rendilhados, artigo de capelista como os pesa‑papéis na escrivaninha, com setenta braças de altura. «Majestosamente pouco» — decidi, do mesmo modo que antigamente os nossos avós decidiam acerca de Púchkin: «Compõe com demasiada facilidade, tem pouca elevação.» Suspeito que nessa primeira decisão influíram duas circunstâncias, e a primeira delas: a água‑de‑colónia. Jean‑Maria Farina5 encontra‑se ali mesmo ao lado da catedral e, em qualquer hotel em que nos instalemos, seja qual for o nosso estado de espírito, por mais que nos escondamos dos nossos inimigos e de Jean‑Maria Farina em especial, os seus clientes vêm encontrar‑nos certamente, e é logo: «água‑de‑colónia ou la vie», não há outra opção. Não posso afirmar de certeza que gritam precisamente estas palavras: «Eau de Cologne ou la vie!», mas quem sabe — até pode ser. Lembro‑me de que então sempre assim me parecia e ouvia. A segunda circunstância que me agastou e me tornou injusto foi a nova ponte de Colónia. A ponte é sem dúvida magnífica, e é com justiça que a cidade se orgulha dela, mas a mim pareceu‑me que se orgulhava demasiado. É evidente que me irritei logo com isso. Além do mais, o colector de moedas à entrada da ponte maravilhosa não tinha nada que me cobrar aquela prudente taxa com o ar de quem me cobra uma multa por uma qualquer falta desconhecida. Não sei, mas a mim pareceu‑me que o alemão está a armar‑se em fanfarrão.
«Por certo percebeu que eu sou estrangeiro e precisamente russo» — pensei. Pelo menos os olhos dele por pouco não disseram: «Estás a ver a nossa ponte, russo miserável, pois tu não passas de um verme diante da nossa ponte e diante de qualquer alemão, porque não tens uma ponte como esta.» Concordem, isto é insultuoso. É claro que o alemão não disse nada disto, até talvez nem tivesse isso em mente, mas vem a dar no mesmo; eu tinha então tanta certeza de que ele queria dizer precisamente isso, que fiquei logo completamente furioso. «Diabos te levem — pensei —, nós também inventámos o samovar… publicamos revistas… no nosso país fazem‑se coisas para oficiais… temos…» — numa palavra, encolerizei‑me e depois, comprando um frasco de água‑de‑colónia (ao qual já não conseguia de maneira nenhuma escapar), parti imediatamente para Paris, na esperança de que os franceses fossem muito mais amáveis e mais interessantes. Agora julguem por vocês próprios: se eu me tivesse dominado, se tivesse permanecido em Berlim não um dia, mas uma semana, em Dresden outro tanto, em Colónia digamos uns três dias, ou pelo menos dois, por certo teria olhado uma segunda, ou até uma terceira vez para os mesmos objectos com outros olhos e teria formado sobre eles uma ideia mais conveniente. Até um raio de sol, um qualquer simples raio de sol, tinha aqui muito significado: se ele brilhasse sobre a catedral, como brilhou depois na segunda vez à minha chegada à cidade de Colónia, o edifício por certo havia de mostrar‑se à sua verdadeira luz, e não como naquela manhã nublada e até um pouco chuvosa, que apenas pôde suscitar em mim um acesso de patriotismo ofendido. De resto, isto não significa, de modo nenhum, que o patriotismo surge apenas com mau tempo. Pois bem, estão a ver, meus amigos: em dois meses e meio é impossível ver tudo como deve ser, e eu não lhes posso fornecer as informações mais precisas.”
Fiódor Dostoievski, in Notas de Inverno sobre Impressões de Verão, Relógio D’Água Editores, Fev. 2022, pp. 7-11
Sobre o Livro
"Este livro resulta da primeira viagem de Dostoievski ao estrangeiro, efectuada em 1862.
Desafiado pelos amigos a descrever as suas impressões, o autor de Crime e Castigo respondeu através de uma mistura de ensaio e ficção.
A obra reúne observações de viagem, esboços, comentários, que no conjunto constituem uma tipologia mais imaginária do que real do Ocidente. Em muitas das cenas descritas, situadas em Paris, Londres ou em carruagens de comboio, encontramos a prosa incisiva do autor de Memórias do Subterrâneo e Os Demónios.
Sobre o autor
Fiódor Dostoievski nasceu em Moscovo em outubro de 1821, o segundo de sete filhos. A mãe morreu em 1837, de tuberculose, e o pai, médico, saído da nobreza provinciana, foi assassinado dois anos depois, quando se instalara já como proprietário rural.
Dostoievski estudou num colégio interno em Moscovo e, entre 1838 e 1843, frequentou a Academia Militar de Engenharia, onde se interessou mais por Púchkin, Gógol e Lérmontov do que pelas disciplinas do curso. Nessa época, leu também Shakespeare, Byron e Balzac (traduziu Eugénie Grandet), Victor Hugo, Hoffmann, Goethe e Schiller. Publicou a sua primeira história, «Gente Pobre» (onde a influência de O Capote de Gógol é visível), aos vinte e cinco anos, obtendo um enorme sucesso. Em 1849, quando escrevera já uma dúzia de contos, foi preso e condenado à morte por participar no Círculo Petrashevski. A pena foi substituída à última hora por cinco anos de trabalhos forçados numa prisão siberiana.
Foi agrilhoado e a caminho da Sibéria que Dostoievski recebeu um exemplar do Novo Testamento das mãos de uma das mulheres dos Dezembristas. Não mais largou o livro, mas a sua relação com a religião foi sempre atormentada pela rejeição e a dúvida. Na década que se seguiu ao seu exílio, onde teve os primeiros ataques de epilepsia, escreveu Cadernos da Casa Morta (1860), baseado na sua experiência prisional, e Humilhados e Ofendidos. Em 1857 casou com uma viúva, Maria Isaieva, tendo criado uma relação de amizade com o seu jovem amante semelhante à descrita em Noites Brancas.Entre 1862 e 1863 fez várias viagens pela Europa, onde conheceu Paulina Suslova, que serviu de modelo para algumas das suas heroínas. Foi em Wiesbaden que se iniciou na paixão pelo jogo (O Jogador é a obra em que ficcionou a sua atração pela roleta).Em 1866 publicou Crime e Castigo, em capítulos, na revista O Mensageiro Russo .Em 1867 casou-se com Anna Grigorievna, a jovem estenógrafa a quem ditara O Jogador em vinte e seis dias. O casal viria a instalar-se em Genebra, onde teve uma primeira filha. Passado um ano, o casal viajou para Milão e Florença, antes de regressar a Dresden. Dostoievski só voltou à Rússia em 1871. Em 1880 proferiu um discurso memorável na inauguração do monumento a Púchkin, em Moscovo. Morreu seis meses depois, em 1881. Algumas das suas obras mais importantes foram publicadas na década final da sua vida: Os Demónios (1872) e Os Irmãos Karamázov (1880)."