Vós que aguardais a vida no ventre dos séculos,
vós que sois a gestação da grande raça
ainda por vir,
gerações futuras,
hoje é para vós que eu canto
porque hoje nós vivemos num tempo de
mártires
granadas desabrochando velozes
mil panteras famintas rondando nosso ventre
punhais atiçados em todos os punhos.
Homens do
futuro
é para vós minha esperança
minha certeza ardente
as rosas rubras dos meus lábios.
Vós que sois as uvas
e o pão da justiça em nossos sonhos
calcinados.
Vós que vireis para justificar o nosso sangue
e a nossa dor.
Vai meu verso, vai...
porque hoje é triste demais cantar nas
trevas
cantar com os gritos do meu povo
com o murmúrio dos oprimidos...
e com minha fala feita em prantos,
feita de pássaros torturados,
cantar com os corpos dos que tombam,
e sentir que morro tantas vezes
e saber que tantos já morreram
para que vós piseis um dia
o chão da liberdade.
Vai veleiro, vai...
meus versos transformados num solitário
barco
a vos buscar além de muitas luas.
Vou-me daqui
para não ver minha canção murchando.
Vou-me daqui
porque o
poeta tem que mendigar por uma rosa infinita
por um subúrbio qualquer da eternidade.
Gerações futuras
Hoje é para vós que eu canto
para um tempo de irmãos e camaradas.
Vou-me
daqui
para morar convosco na imortalidade da
vida.
Vai veleiro, vai...
e não
encalhes a poesia nas águas rasas destes anos
porque aqui os poetas já não são ouvidos.
Navega em busca dos que virão ainda,
leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,
leva-me para bem longe das minhas lágrimas.
Curitiba, Novembro de 1968
Manoel de Andrade, in "Poemas para a Liberdade", Edição Bilingue, Ed. Escrituras,S.Paulo, Brasil, pp 54,55
Manoel de Andrade, in "Poemas para a Liberdade", Edição Bilingue, Ed. Escrituras,S.Paulo, Brasil, pp 54,55
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