UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
por
Eugénio Lisboa
“Quando, em 1978, fui para Londres, na
qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história
que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem
competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo.
Fora trabalhar, na embaixada, ainda
muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em
Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo
bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos
pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de
frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos,
incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham.
Para ilustrar isto, de forma impressiva,
contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia,
a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado
hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia
as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia
foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo
exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania
democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas
democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo,
enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios
sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de
luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência,
quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a
não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente”
a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à
frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um
direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e
passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se
passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os
regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não
há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de
legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos
adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram
e que se chamou Agostinho Neto.”
Eugénio Lisboa, em 22.06.2022
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