sábado, 10 de janeiro de 2015

Gente que vive mil vidas

Alfama- Lisboa
Um casal no fim da tarde
Por Baptista-Bastos
“Gosto muito dessa gente que vive mil vidas, que faz interpretações magistrais, que nos ensina a sonhar e a não desistir. Não é só do melhor que temos, é do melhor que há por aí fora
A rua está em silêncio. Desde a hora de ponta que deixou de se ouvir o trânsito habitual. A rua situa-se numa periferia simpática e eu gosto de viver aqui. Há muito tempo, creio que há dezoito anos, morei em Alfama, num espaço exíguo, e ali estive durante trinta e três anos, três filhos e uma mulher, agora sentada no sofá da sala, a olhar-me com a atenção que sempre me dedicou. Sinto-me muito cansado, mas não é isso que me abala e a faz olhar-me com olhos vigilantes. Ela sabe que tudo isto que nos rodeia, a mentira, o cambalacho, a corrupção, os velhos desprezados, os miúdos na zona da fome, tudo isto acabrunha-me e dói-me. Ela olha-me; não: ela examina-me e às minhas mais pequenas reacções. Sentes-te bem?, pergunta. Tenho de me aguentar, digo. E ela: sempre te aguentaste. Mas era novo, e agora, tudo isto é demais.
Há pouco estivemos a ver, e a ouvir, na televisão, a Olga Prats a tocar Lopes-Graça e António Victorino d'Almeida, e a falar deles com a paixão, sim, a paixão, com que só se fala de amigos dilectos. Esta mulher, quando toca, atinge o sublime. E o António, só não está a mais nesta nossa terra, porque não desiste, e continua e continua e continua. Como muitos de nós.
Agora, falo-lhe numa série de televisão que costumo ver. "Os Nossos Dias" são uma belíssima evocação da poética das ruas e das pessoas, não agridem a nossa inteligência e revelam alguns dos nossos maiores actores. Gosto muito de actores, convivi com numerosos e recordo, com satisfação, o que com eles aprendi, em tertúlias famosas. Foi, por exemplo, o José Viana que me ofereceu um livro de Faure da Rosa, grande escritor que a nossa negligência analfabeta soterrou no limbo. "Fuga", era o romance, e despertou em mim uma curiosidade apaixonada, que ainda perdura. O Zé Viana morava, então, na Rua das Taipas e, depois do espectáculo, reunia em casa um grupo de jovens amigos. Despertou-nos para novas noções de vida e de sociedade, emprestava-nos ou oferecia-nos livros e, com subtileza e paciência, criticava o salazarismo, insistindo sempre na imperiosa necessidade de sermos livres.
Sempre tivemos grandes actores que eram, simultaneamente, grandes cidadãos. Sabe-se hoje, por exemplo, das simpatias manifestas de João Villaret pelos comunistas, dizendo-se, inclusive, que auxiliava o partido com donativos. Gosto muito dessa gente que vive mil vidas, que faz interpretações magistrais, que nos ensina a sonhar e a não desistir. Não é só do melhor que temos, é do melhor que há por aí fora.
Estava eu e a Isaura nesta conversa de coisas simples quando nos lembrámos de que não íamos ao teatro há muito tempo. Frequentámos muito o Parque Mayer, éramos novos e felizes. Foi do teatro de revista que saíram alguns dos nossos melhores actores e actrizes. Ainda há dias, o Miguel nos falava disso, lembras-te?, diz ela. O Miguel é o nosso segundo filho, temos três e dois netos. As dificuldades nunca nos empataram, embora as armadilhas e as ciladas estejam quase sempre atentas.
Toca o telefone, a Isaura atende. É uma amiga nossa que diz estar um frio de rachar e recomenda que não saiamos de casa. Não vamos sair. Diz a Isaura: vou fazer um chazinho e uma torrada.
Ouve-se lá fora o silvo de uma ambulância.Estamos bem e é muito bom.” Baptista-Bastos, em Artigo de Opinião publicado no Jornal de Negócios, em 12.12.2014

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Um conto

Conto
O Embrulho
Por Ronaldo Costa Fernandes*
"Estou na esquina. Se tivesse de escolher um ho­mem honesto para cumprir esta missão, eu me escolheria. Tenho trinta anos, dois ternos, um par de sapatos e minha honestidade. Meu pai não deixou nenhum bem ao morrer. Ele me dizia: Filho, minha herança será a honestidade. Com a honestidade, reconheço, não se compra apartamento ou carro novo, mas tem-se a consciência tranquila e isso não tem preço. Ele repetia: Isso não tem preço.
Estou aqui há mais de três horas. Faz um calor dos diabos. O sol não dá bola pra honestidade. Tanto faz ser honesto ou ladrão, se sua da mesma maneira. Não sei o rosto do homem que recolherá o pacote. O sigilo é alma da missão. Pode ser qualquer um: a velha que passa, a mocinha de jeans, o velho de boné, o militar de farda entre os civis, o rapaz da prancha de surf.
Aprendi a controlar os instintos. Quase não me movo. Tomo ordinariamente pouco líquido. Um ho­mem, para cumprir a missão, não pode ser vencido pelas partes baixas do corpo. Posso passar um dia sem urinar. O mesmo acontece com a comida. Preciso de um mínimo para me manter em pé. Até o sono. Um homem que dorme muito não pode cumprir a missão.
Disciplinei meu corpo. Um homem honesto precisa disciplinar o corpo. Tenho um orgulho que não reparto com ninguém. Se contasse, diriam, mentiroso. Controlo meus sonhos. Tenho consciência de que sonho e os dirijo. Um homem honesto tem que controlar até mesmo o inconsciente.
Que me interessa se posso parecer suspeito? Os transeuntes não dão bola para um homem parado numa esquina. Só os desocupados ou os comerciantes da rua dão conta de mim. Os vendedores — as lojas hoje em dia andam às moscas — vêm até a entrada da loja. São homens de gravata e camisa branca de manga curta. Não usam paletó. Não se precisa de paletó para vender geladeira, aspirador de pó, batedeira ou televisão.
Sou um homem bem vestido numa esquina. Um homem bem vestido numa esquina não desperta suspeitas. Percebo alguns desocupados. O camelô grita bugigangas. O mendigo pede dinheiro no sinal. É um falso mendigo. Numa sociedade justa não haverá mendigos. Numa sociedade justa não haverá nem mesmo a necessidade de que um sujeito como eu se poste na esquina.
Percebo outras coisas: há leve trottoir de duas mocinhas. Quem passa não percebe nada. É dia, a calçada cheia, talvez nem mesmo os vendedores percebam o que percebo. A honestidade às vezes nos torna iingénuos Mas a minha honestidade não é apenas inata. Aprendi a cultivá-la como quem exercita músculo. A honestidade é elástica e pode tornar-se flácida. Ou aumentar o tonus.
Dois malandros tentam me roubar o pacote. O primeiro me pergunta algo. Quê? Outro vem por trás. Nada é mais criança em nós que a atenção. Reajo, luto. O sujeito mais manhoso é o baixinho. É forte como o diabo. Ninguém me ajuda. Abre-se um círculo, grito, esperneio, o pacote se rasga. A multidão assiste impassível. Pode até ser que tenham algum sentimento de revolta ou de solidariedade com os bandidos.
Os bandidos hoje estão em todas as partes. Certa vez fui empenhar as jóias de minha mulher. A fila se desorganizava. Vinha o guarda, escolhia um elemento. Servia de exemplo. Preferia as mulheres e os idosos. Batia impiedosamente. Quando desmaiava, dois seguranças levavam o desordeiro para dentro da agência. O guarda se afastava. Esperava o próximo levante. De longe, já sabia quem seria a vítima. Estivesse ela ou não fora da fila. Ao chegar a minha vez, empurrei o pacote. Na primeira oportunidade, o caixa me mordeu a mão. Gritei. Por fim, com muita dificuldade — e com os dedos intactos — consegui retirar minha mão.
Talvez o público esperasse ver sangue e, aí então, reagiria de outra maneira. Em vez de indiferença, ficariam exaltados. Uns contra mim; outros, a meu favor. Quem sabe não se moveriam de seus lugares, mas torceriam e xingariam como no boxe ou nas rinhas de galo. Esta luta que eu e meus desafectos travamos mais parece coisa de mulher. Há empurra-empurra, dentadas, unhadas. Aos poucos, o público se entendia e vai procurar outra contenda ou acidente. Algo que os atice e tire da rotina. Algo com sangue, porque as brigas e acidentes sem sangue são monótonas como filme com pouco enredo.
Por fim, uma alma vem me auxiliar. O homem atarracado, meio calvo, pele seca e amarelada, olhos fundos e sem brilho, vestindo terno surrado, grita-lhes algo. Os bandidos fogem. O embrulho permanece intacto em seu interior. Meu medo é de que se rompesse. Teria forçosamente de saber o conteúdo. Um homem honesto não deve conhecer o conteúdo dos pacotes.
Passei a noite e a manhã inteiras na esquina. Uma hora qualquer dessas aparecerá o sujeito que receberá a encomenda. Um sujeito que faz abordagem deve saber a hora certa. A esquina é esta. Estou seguro. Um homem honesto não pode abandonar o posto. Poderia muito bem ir para casa.
Do outro lado da rua, sujeito baixo, gordo e suarento chega à esquina. Está bem vestido. Debaixo do braço, o pacote. Deve ser também homem honesto. Não nos olhamos. Não sinto sede nem fome. Muito menos sono. Fui preparado para ser homem honesto. Os camelôs começam a aparecer, as lojas abrem. Algumas pessoas bafejam o ar frio da manhã. As pernas sempre atrasadas para o trabalho.
Nas duas outras esquinas aparecem homens bem vestidos, com belas gravatas, sapatos impecáveis. Todos os dois carregam pacotes. Já não estou só. Não me atacarão. Nem quero supor o que traz o pacote. O pecado não está apenas em cometê-lo. Pensar é uma forma de transgredir. Se controlo o sono e os pesadelos, tenho de aprender a controlar os pensamentos." Ronaldo Costa Fernandes, in Jornal Opção, Brasil 
Ronaldo Costa Fernandes é escritor.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Que palavras podem os vivos dizer

"Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos? " Cecília Meireles

AMÉN
Hoje acabou-se-me a palavra,
E nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
Também!

A profusão do mundo, imensa,
Tem tudo, tudo – e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens, com os santos,
Consigo, com Deus…E ninguém
Entende o que se está contando
E a quem…

Mas terra e sol, luas e estrelas
Giram de tal maneira bem
Que a alma desanima de queixas.
Amén.
Cecília Meireles, in “ Vaga Música, Antologia Poética",Relógio  D'Água Editores, 2002


Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
 no secreto calendário
 que um astrólogo arbitrário
 inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
 não é dia de eu ser sua...
 E, quando chega esse dia,
 o outro desapareceu...
Cecília Meireles, in “ Vaga Música “, Editora Global

Canção excêntrica
Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrita
não me animo a um breve traço:
-saudosa do que não faço,
-do que faço, arrependida.
Cecília Meireles, in “ Vaga Música “, Editora Global

Pequena canção
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!
Cecília Meireles, in “ Vaga Música “, Editora Global

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Maurane, uma fascinante voz em francês


Nem sempre temos a capacidade de explicar por que gostamos de qualquer coisa, por que repudiamos uma outra ou por que nos apaixonamos , num clic, à primeira vista. Somos seres estranhos e é nessa estranha forma de ser que reside a nossa humanidade. Nascemos, crescemos, vivemos e um dia, fatalmente,  desaparecemos. Entretanto, enchemo-nos de pequenas e grandes experiências. Coleccionamos descobertas e partimos ao encontro de sonhos. Um  registo de memórias vai aumentando com o devir do tempo. Umas grandiosas , outras banais como os dias que as fizeram nascer. Há, porém,  sempre alguma que nos surge num dia improvável. Aquela que nos tomou e que aflora com a similitude do desejo que a procurou. E isso acontece-me com a Música. Os sons vão e vêm quase em surdina acelerando o processo de retoma triunfal. E eis que  se descobre uma voz que  encantou aos primeiros acordes de uma velha composição. Maurane , belga, nascida em 1960, em Ixelles. Uma voz diferente, com aquela peculiaridade que têm as vozes cheias de grandes sonoridades. Num francês très charmant partilho um acervo que se foi construindo e que poderá ser reproduzido à la carte. E como é bela a língua francesa.

A voz rouca e magnífica de Maurane, acompanhada por  Michel Legrand, autor da canção "Je ne pourrai pas vivre sans toi".  Um registo extraído do Concert "Michel Legrand and the cinema" - 2009.


" Je suis Malade " uma excelente canção na voz fascinante de Maurane no espectáculo dos cinquenta anos de carreira de  Serge Lama.


Maurane em "Si Aujourd'hui " ao vivo,  no   Show 'We Love Céline' (Novembro 2012).

"La chanson des vieux amants", Maurane chante Jacques Brel. Dois grandes nomes da Bélgica.

"Dernier voyage", uma canção que chora e que nos conforta em grande intimidade. Um hino  de magnitude e  de beleza. Maurane surpreende sempre.


Maurane interpreta Édith Piaf ," L'Hymne à l'Amour".Maurane veste esta velha e icónica canção com novo  amor.

Concerto pelo  Haïti sur France 2, Maurane e Véronique Sanson em " Amoureuse".

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Revisitar Rudolf Nureyev

“Ele mudou a maneira de o homem dançar. Antes, era só um suporte. Todos os que vieram depois foram influenciados", afirmou Dalal Achcar, amiga de Nureyev e de Margot Fonteyn (1919-1991)
A 6 de Janeiro de 1993 faleceu Rudolf Nureyev, bailarino e coreógrafo russo.Foi considerado e aclamado um dos maiores bailarinos do sec. XX. 
Recordamo-lo com a sua companheira  de muitos espectáculos ao longo de uma fulgurante carreira artística, a prima ballerina inglesa, Margot Fonteyn. Durante anos, formaram um par de excelência, ovacionado nas salas de todo o mundo por onde apresentaram momentos de grande qualidade , de sublime talento. 
Ei-los num inesquescível "Pas de deux   - Swan Lake, Act 4 - " de Tchaikowsky, em 1966.
"Tem de ser fiel àquilo que  faz. Dançar é o que eu faço.", repetia Nureyev


Nurevey & Fonteyn: A 20th Century Love Affair


"Nascido na União Soviética, a 17 de Março de 1938, Rudolf Khametovich Nureyev viria a evadir-se para o Ocidente, onde alcançou uma carreira fulgurante na dança, e faleceu a 6 de Janeiro de 1993, em França, vítima de sida, aos 54 anos.
Dançou nalguns dos palcos mais importantes do mundo e com grandes bailarinas, como Margot Fonteyn, Eva Evdokimova e Veronica Tennant, e foi convidado para director do Ballet da Ópera de Paris em 1983, continuando também a dançar.
Rudolf Nureyev apresentou-se em Portugal, pela primeira vez, em Junho de 1968, com Margot Fonteyn, para dançar Giselle, no Teatro de São Carlos, em Lisboa e no Coliseu do Porto. Regressou em Julho de 1991, para um espectáculo no Coliseu dos Recreios, também em Lisboa.
“Era uma personalidade muito forte e difícil. Podia magoar alguém com extrema facilidade. Tinha charme incrível. Era extraordinariamente inteligente. Se achasse que a variação não estava boa, repetia uma, duas, sete, oito vezes, até que ficasse perfeito. Trabalhava doze ou mais horas por dia . Foi o único bailarino que vi dizer: 'Maestro, o senhor não está tocando no tempo certo. Não posso dançar nesse tempo'", declarou  Dalal Achcar, amiga de Nureyev e Dame Margot Fonteyn (1919-1991)."
Apresentamos um outro registo cujas legendas são feitas com as seguintes palavras:
"Nureyev and Fonteyn - without question the most convincing on stage relationship of all time. Sometimes by chance paths cross, talent combines and magic happens. This is the story of this unlikely pairing. Rudolf Nureyev - a 20 year old Russian exile and Margot Fonteyn - the already renowned English prima ballerina. Neither age difference nor culture restrained their pure charisma when dancing together.
And so it is that they should perform Romeo and Juliet - Fonteyn as the fragile, the vulnerable, the delicate and Nureyev as her intensely handsome and strong protector.
Nureyev and Fonteyn - a rare and enchanted coupling.
The background music is the Spartacus Adagio by Aram Khachaturian and Sergei Prokofiev's Romeo and Juliet. The ballet footage is La Corsaire filmed in 1963 by Royal Ballet at Royal Opera House and the balcony scene from Romeo and Julliet filmed in 1963 again by Royal Ballet at Royal Opera House."

Os primeiros eventos culturais em 2015

António Torres fala da sua relação com Portugal
22 de Janeiro de 2015, 18h30
Casa da América Latina
Entrada livre
O autor brasileiro António Torres é o convidado da Casa da América Latina para um encontro literário intitulado ‘Relações Transatlânticas’, em que falará da sua experiência em Portugal. Prémio Jabuti em 2007, pela obra ‘Pelo Fundo da Agulha’, mas reconhecido sobretudo pelo romance ‘Essa Terra’, o autor baseará a sua intervenção na aprendizagem que lhe adveio dos períodos em que viveu em Portugal.
Torres foi amigo do poeta português Alexandre O’Neill e de outros ficcionistas, cineastas e dramaturgos. Escreveu sobre O’Neill, num texto em que este afirma “nasceste num país grande e por isso andas pelo mundo como se estivesses atravessando um quintal”, ao que Torres responde “e o que dizer dos portugueses, que nasceram num país pequeno e se meteram em quase todos os cantos do planeta?”. Segundo o relato de Torres, O’Neill ter-lhe-á dito “logo ao chegares, recitaste para mim, de memória, trechos e mais trechos de Scott Fitzgerald. Então eu pensei: ‘Tenho que levar este gajo a sério'”.
Sobre Portugal, Torres escreveu também ‘O Porto Bebido e Revivido’, um texto não-ficcional em duas partes separadas no tempo, resultante de duas viagens do autor à cidade nortenha.
Exposição fotográfica ‘Somnus Mundo’
15 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2015
Casa da América Latina
Inauguração: dia 15 de Janeiro às 18h30
Entrada livre

A Casa da América Latina apresenta, de 15 de Janeiro a 6 de Fevereiro, a exposição fotográfica ‘Somnus Mundo’, resultante de um projecto de Ana Filipa Ferreira e Cristina Aurélio que, durante 3 meses, colaboraram com jovens da comunidade indígena de Tixán, no Equador.
The Awful Truth
Cinema no Grande Auditório
Sábado, 10 jan 2015 | 15:30 | 91 minutos
Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian
PR'A RIR ! - 1ª Edição Ciclo Cinema
Com a Verdade Me Enganas | The Awful Truth
, 1937
Um filme de: Leo McCarey
Duração: 91 minutos
M/6 - Legendas: Sim 
Paisagem com São Cristóvão e o Menino | c. 1520-1524 | Óleo sobre madeira
Joachim Patinir (c. 1480-1524) Patrimonio Nacional, 
Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial, Madrid
A História Partilhada
Tesouros dos Palácios Reais de Espanha
De 22 Out 2014 a 25 Jan 2015 | Das 10:00 às 20:00 | Encerra às segundas e 1 Janeiro
Museu Calouste Gulbenkian
Constituída por 141 obras de arte que pertenceram à Casa Real de Espanha, esta mostra dá a ver as diferentes formas de transmissão da imagem da Monarquia, quer como instrumento ideológico do poder quer como reflexo dos gostos, vivências e ocupações da família real. Desde os tempos de Isabel, a Católica, até Isabel de Bragança, fundadora do Museu Nacional do Prado, a exposição remete para a história de Espanha, privilegiando as relações entre as monarquias ibéricas. Oportunidade para apreciar o melhor da produção de Espanha e da Europa em obras de mestres como Velázquez, Goya, Caravaggio ou El Greco, entre muitos outros. 
A exposição é organizada pelo Património Nacional de Espanha, instituição responsável pela preservação e divulgação dos bens móveis e imóveis que pertenceram à coroa, e tem o alto patrocínio do Rei de Espanha e do Presidente da República Portuguesa.
Literatura e Humanidades
Ciclo História de Portugal
Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos
10, 17, 24 e 31 Jan 2015 - 12:00 às 13:00
7, 21 e 28 Fev 2015 - 12:00 às 13:00
7 e 14 Mar 2015 - 12:00 às 13:00

Centro Cultural de Belém
Duração por sessão 1h00
O êxito obtido na primeira edição deste ciclo levou-nos a desafiar os oradores para a sua reposição.
Muito do que somos como país foi definido pelo trajecto que seguimos até chegar aos dias de hoje. É por isso que o passado “explica”. Mas vale a pena, depois de um dia termos aprendido História de Portugal, voltar a estudar? Sim, porque o que julgamos saber sobre o que aconteceu está sempre a mudar. É esse o trabalho dos historiadores: discutir e testar as ideias feitas sobre o passado. Quem por acaso se deixou ficar pelo que aprendeu no liceu há anos, é provável que tenha noções sobre as Descobertas, a Inquisição ou a Implantação da República que já não condizem com aquilo que os historiadores hoje sugerem e discutem. Os autores destas palestras propõem-se partilhar, de um modo acessível, algumas reflexões e hipóteses suscitadas pelas suas investigações e pelas dos seus colegas nos últimos anos. Será também uma ocasião para voltarem à História de Portugal que publicaram em 2009.
Em Colaboração com o DN e com o apoio da Caixa Geral de Depósitos
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Conferência Distância Crítica
22 Jan 2015 - 19:00
14 Abr 2015 - 19:00
11 Nov 2015 - 19:00 
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
A 2ª edição de Distância Crítica regressa em 2015, em coprodução com o Centro Cultural de Belém. Uma vez mais a Trienal Arquitectura de Lisboa aposta em arquitectos de renome num programa composto por cinco conferências, a primeira das quais acontece já a 22 de Janeiro às 19h00. 
SMILAN RADIĆ apresenta trabalhos marcantes do seu percurso, a que se segue uma conversa e um debate com o público, mediados por Joaquim Moreno.
Smiljan Radić (Santiago, Chile, 1965) é formado pela Faculdade de Arquitectura do Chile e pelo Instituto di Architettura di Venezia, Itália.  Em 2001, é considerado 'Melhor arquitecto com menos de 35 anos de idade pelo Colégio de Arquitectos do Chile e em 2009  é nomeado membro honorário do Instituto Americano de Arquitectos. O seu trabalho é extenso e integra desde edifícios públicos, a bairros sociais, habitação, passando por aquilo que designa “construções frágeis”. Em 2014, projetou a Serpentine Galleries Pavilion. Vive e trabalha no Chile.
From luxurious villas that cling to the cliffs of the Chilean coast, to larger museum and civic centre projects, [Smiljan Radic's] work contrasts raw geological power with the delicacy of things that feel woven or grown. It is organic, but in way that is as awkward and brutish as it is sumptuous and refined. It is touchy feely – but you might get scratched.
Oliver Wainwright in The Guardian 12 de Março 2014

Concerto de homenagem ao Cante Alentejano
25 Jan 2015 - 18:00
Grande Auditóriodo Centro Cultural de Belém
Duração 1h20, M/6
O Cante Alentejano, proclamado pela UNESCO, em 2014, como Património Cultural Imaterial da Humanidade, sobe ao palco do Grande Auditório do CCB para um concerto único onde se celebra e homenageia este reconhecimento internacional. Um canto a vozes, aonde a música se enlaça na poesia, e no qual os homens e as mulheres partilham a Vida transformada em Cante. Um cantar de um povo que construiu, a partir dos trabalhos e dos dias, um canto solidário, um canto que se ergue. Que nos levanta.
UMA PRODUÇÃO DO CENTRO CULTURAL DE BELÉM, EM CONJUNTO COM A CÂMARA MUNICIPAL DE SERPA/CASA DO CANTE 
COM O APOIO DA ENTIDADE REGIONAL DE TURISMO DO ALENTEJO E RIBATEJO
The blue boy
Brokentalkers
Histórias de abuso sobre crianças motivaram Brokentalkers a recolher experiências da perspectiva das crianças em estado de vulnerabilidade, dando-se conta, à medida que o projecto avançava, de que o tema não era apenas histórico: continua bem actual.
The Blue Boy lida com as experiências de homens e de mulheres que foram encarcerados enquanto crianças, em situação de internato, em instituições católicas.
Este espectáculo pujante e assombrado combina uma representação ao vivo muito exigente do ponto de vista físico com testemunhos gravados de antigos internados de instituições, dando uma voz teatral fresca a histórias recentemente reveladas de abuso de crianças na Irlanda. Sete artistas mascarados desenvolvem uma coreografia que trabalha com elementos da dança moderna, colocando a questão da culpa.
Feidlim Cannon e Gary Keegan Concepção e encenação
Dylan Coburn Gray, Eddie Kay, Gary Keegan, Jessica Kennedy, Megan Kennedy, Stephen Lehane, Mary-Louise McCarthy Intérpretes
Lucy Andrews Músico

Feidlim Cannon, Gary Keegan Codiretores
Eddie Kay Diretcor do movimento
Séan Millar Director musical e compositor
Kilian Waters Design de vídeo
Sarah Jane Shiels Design de luz
Jack Cawley Design de som
Lucy Andrews & David Fagan Design de cenário e figurinos
Marcus Costello Direcção de produção
Francis Fay Direcção de cena
Emma Downey Guarda-roupa
Sinéad O’Loughlin & Daniel Keane Documentação
Ulster Bank Dublin Theatre Festival, LÓKAL Theatre Festival Reykjavík, Noorderzon Performing Arts Festival Groningen, Korjaamo Theatre/ Stage Festival Helsinki e o Cork Midsummer Festival com o generoso apoio de Norfolk e Norwich Festival e da Culture Ireland. Co-produção
Brokentalkers são  apoiados pelo The Arts Council, Dublin City Council e Culture Ireland. Brokentalkers são associados ao Project Art centre Artists
www.quaternaire.org
www.projectartscentre.ie

Ballet Royal de Suède
Juliette et Romeo
Palais Garnier - Première le 6 janvier 2015 - 19h30
L’Opéra national de Paris accueille l’une des plus anciennes compagnies de danse européenne, créée en 1773 par le roi Gustav III. Le Ballet Royal de Suède, aujourd’hui dirigé par Johannes Öhman, propose une création du Suédois Mats Ek, présentée à l’occasion du 240e anniversaire de la compagnie. Homme de théâtre, figure incontournable de la danse d’aujourd’hui, Mats Ek offre une relecture de la tragédie de Shakespeare qu’il a souhaité intituler Juliette et Roméo. Le chorégraphe s’inspire de la musique de Tchaikovski pour donner une vision personnelle de cette histoire d’amour mythique confrontée aux rivalités de pouvoir, de familles et de générations.
Rameau et La Scène
La Bibliothèque nationale de France et l’Opéra de Paris célèbrent le 250e anniversaire de la mort de Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Compositeur, théoricien de l’harmonie, il fut l’une des personnalités musicales et intellectuelles les plus célébrées et décriées en France dans les deux derniers tiers du XVIIIe siècle.
BIBLIOTHÈQUE MUSÉE DU PALAIS GARNIER
Du 16 déc. au 8 mar.
En savoir +


Cinema:The Imitation Game- O Jogo da Imitação
Sinopse:" Durante o inverno de 1952, as autoridades britânicas entraram na casa do matemático, criptoanalista e herói de guerra Alan Turing para investigar um assalto. Em vez disso, prenderam Turing por atentado ao pudor, uma acusação que levaria à sua devastadora sentença pela ofensa criminal de homossexualidade - mal sabiam asautoridades que estavam a incriminar o pioneiro da computação moderna.
Na liderança de um grupo de académicos, linguistas, campeões de xadrez e analistas, Turing foi reconhecido por quebrar o até aí indecifrável código da Enigma, a máquina utilizada pelos alemães na 2ª Guerra Mundial."
Estreia a 15 de Janeiro
Cinema: Night will fall - A Noite Cairá,   Documentário 75 m
Sinopse: "A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. «Night will Fall» segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “"itchcock perdido"."
Realização de Andre Singer 
Estreia a 22 de Janeiro
Cinema: "Adeus à Linguagem"
Sinopse:"A ideia é simples: uma mulher casada e um homem solteiro encontram-se. Eles amam, eles argumentam, há punhos a voar. Um cão vagueia entre a cidade e o país. As estações passam. O homem e a mulher encontram-se de novo. O cão encontra-se entre eles. E eles são três. Um segundo filme começa: o mesmo que o primeiro, e ainda não. A raça humana passou a metáfora. Isso termina com latidos e com os gritos de um bebé. Durante esse tempo, vemos pessoas falando da morte do dólar, da verdade em matemática e da morte de um Robin."
Ficha artística e técnica: Realização: Jean-Luc Godard
Interpretação: Héloïse Godet, Kamel Abdelli, Richard Chevallier
Género: Drama
Duração: 70 minutos
Classificação etária: maiores de 12 anos
Produção: Cineclube de Faro
Preço: € 4,00 / Sócios Cineclube de Faro: € 2,50 / Estudantes: € 3,50

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Recordar Kafka

Franz Kafka
A ponte
"Eu estava teso e frio, eu era uma ponte; deitado por cima de um abismo. No lado de cá estavam fincadas as pontas dos pés, além, as mãos, cravei os dentes num barro que se esboroava. A abas do meu casaco esvoaçavam a meu lado. No fundo rumorejava o gelado arroio das trutas. Nenhum turista iria perder-se naquela altura intransitável, a ponte ainda não fora marcada nos mapas. Assim fiquei deitado esperando; tinha de esperar. Sem desabar, nenhuma ponte, uma vez erigida, pode deixar de ser ponte.
Foi certa vez, para o entardecer – se foi a primeira, se foi a milésima, não o sei –meus pensamentos andavam sempre confusos, giravam, sempre em círculo. Para o entardecer, no verão, o riacho rumorejava mais soturno, foi então que  ouvi passos de um homem. Para cá, para cá.. Espicha-te, ponte, coloca-te em posição, viga sem corrimões , segura aquele que te é confiado. Equilibra imperceptivelmente a insegurança de seus passos, se ele porém vacilar, então dá-te a conhecer e, como um Deus da montanha, atira-o à terra firme.
Ele veio, tacteou-me com a ponta de ferro de seu bastão, depois ergueu com ela as abas do meu casaco, ordenando-as em cima de mim. Enfiou a ponta em meus cabelos tufados e, provavelmente olhando desorientado em volta, deixou-a ficar ali por longo tempo. Depois, porém- eu estava justamente a acompanhá-lo em meus sonhos por sobre os montes e vales- saltou com ambos os pés bem no meio de meu ventre. Estremeci, tomado de uma dor atroz, totalmente sem saber quem ele era. Uma criança? Um sonho? Um salteador? Um suicida? Um tentador? Um exterminador? E virei-me para o olhar, uma ponte que se vira! Eu ainda não tinha completado a volta, e já fui despencando, despenquei, e já fui dilacerando e espetado pelos seixos pontiagudos que sempre me haviam fitado tão pacificamente através das águas impetuosas." Franz Kafka, in Narrativas do Espólio,  Companhia das Letras

domingo, 4 de janeiro de 2015

Ao Domingo Há Música

Praia da Rocha em dia de temporal, foto de  mjvs
A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além.  

O Mar foi sempre o reino da sedução e do mistério. Viver sem Mar é para muitos uma amputação ou uma restrição  à  liberdade. O mar  faz parte do imaginário, mas é  real , vivo  e presente.
Há uma Literatura construída com Mar. E Música onde as ondas vibram e as marés acontecem. E telas de  maresia em matizes  de cores sublimes que brilham consoante os olhares as abarcam.
E  há  o culto, a fé,  a esperança daqueles que nele labutam.  O mar fértil, o mar pródigo, o mar imprevisível, o mar cruel , o mar de todos  e de nenhum. 
É  no mar que Iemanjá   se celebra em culto que a instituiu como  a rainha do Mar.
Conta quem sabe que " Iemanjá, nasceu em África. Está associada aos rios  , à fertilidade das mulheres, à maternidade e principalmente ao processo de criação do mundo e da continuidade da vida. O culto original  associa-a  ao plantio e colheita dos inhames e colecta dos peixes, que explica o seu nome Yemojá (Yeye Omo Ejá), Mãe dos filhos peixes, divindade regente da pesca.
Em África, Iemanjá era  originalmente a divindade das águas doces, ninfa do rio Ogum, celebrada em culto pelos ebás, povo africano de uma região situada entre as cidades de Ifé e Ibadan. O culto de Iemanjá realizado à beira do rio Ogum em Abeocutá  ( África), transferiu-se para o mar, no Brasil. No continente de origem, o mar era o reino mítico de Olocum, o Dono ou a Dona do Mar, divindade considerada pai ou mãe de Iemanjá. Os orixás africanos estavam associados a um acidente geográfico específico, especialmente aos rios . No Brasil perderam tal associação e tiveram o culto generalizado. Iemanjá perdeu o rio Ogum e ganhou o mar.  A rainha do mar passou a ser um dos estatutos de Iemanjá,  no Brasil. O seu poder  e culto como figura marinha têm enorme relevância na vida dos pescadores. Este aspecto marítimo desenvolveu-se associando Iemanjá à figura da sereia, não só a europeia, mas também à africana. Como figura marinha, Iemanjá desempenha duplo papel. De um lado ela é a mãe que propicia a pesca abundante – que controla o movimento das águas, ondas e marés – da qual depende a vida do pescador. De outro,  ela é a sereia sedutora, que atrai o pescador, o ama e o mata ou o deixa morrer nas profundezas do mar para onde o leva e onde o prende para amá-lo." *
Neste primeiro Domingo de 2015, a celebração fica no Mar. Não em nome de Iemanjá , mas acreditando que nos espera  um novo ano  que desejamos fecundo e de largos horizontes. 
Eis as vozes  de Marisa Monte e de Cesária Évora, em "É doce morrer no mar" . Um momento musical de excepcional beleza.


É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar

A noite que ele não veio foi,
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim

É doce...

Saveiro partiu de noite, foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou.

É doce...

Nas ondas verdes do mar, meu bem 
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo 

No colo de Iemanjá
Jorge Amado e Dorival Caymmi

A  excelente voz de Mia Doi Todd interpretando "O canto de Iemanjá" de Vinícius de Moraes  e Baden Powell.
Esta gravação  "faz parte da compilação "Red Hot + Rio 2", com novas versões para clássicos da Tropicália. O disco foi lançado pela Red Hot (organização que levanta fundos para a luta contra o HIV e a Aids) 15 anos depois da compilação que recriou clássicos da bossa nova. O álbum duplo produzido pelo brasileiro Béco Dranoff também lança novas luzes sobre faixas de uma MPB mais ampla, que dialogam com o género criado em 1968. Há participações de Beirut, of Montreal + Mutantes, Apollo 9 + Céu + N.A.S.A., Curumin, David Byrne, Orquestra Contemporânea de Olinda, o rapper Emicida e outros grandes nomes da música internacional."

Iemanjá, lemanjá
lemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
lemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De lemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá


A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além.

Vinícius de Moraes  e Baden Powell

Do Brasil, a voz maior de Maria Bethania  em " Iemanjá, Rainha do Mar". Poesia de Sophia Mello Breyner  Andresen e uma canção que lançam  cor a qualquer dia.
Mar sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Dia do Mar”,ed. Caminho

Adenda explicativa 
Sobre este culto a Iemanjá ," Le monde diplomatique ", edição do Brasil ( Fevereiro de 2010), publicou um artigo na secção de Cultura Popular, sob o título de  " Iemanjá , a mãe poderosa "  que termina com o capítulo que se  transcreve.
Gratidão
"Nesse universo de fé e consternação nacional, devemos lembrar a figura mais significativa do culto de Iemanjá, o pescador, cantado em verso na música do compositor brasileiro Dorival Caymmi. O grande cantor do mar e pioneiro das histórias que falam de Iemanjá cantou este orixá em 1939, em “Promessa de Pescador”. Nos trechos de sua música Caymmi lembra que no dia de Iemanjá, o pescador foi ao mar prometer e ao mar ele vai levar um presente bonito para dona Iemanjá. Muitos pescadores são devotos da Rainha do Mar, de norte a sul, em toda orla marítima brasileira e não só nas datas festivas, eles fazem suas oferendas a Iemanjá que lhes dá o peixe como meio de sobrevivência, que eles vendem e agradecem a ela. Essa gratidão é compartilhada pelo povo mais pobre que vive na beira do mar, que ali acorre numa busca, às vezes desesperada, do compadecimento da grande deusa do mar; ou mesmo por aqueles de melhores condições de vida, mas que comparecem com o mesmo sentimento e a mesma busca, o colo de Iemanjá.
Iemanjá arrasta sua saia prá lá e prá cá no deslizar das ondas, trazendo o peixe, mas fazendo o pescador sentir que lhe deve essa oferenda. O pescador retribui num gesto agradecido com oferendas. As lendas dos pescadores povoam o imaginário popular brasileiro. Os pescadores são encantados por Iemanjá, são levados por ela, amados por ela, enfim, num jogo cíclico próprio dessas histórias.
O povo brasileiro, devoto religioso de tantos santos e santas cristãs, orixás e voduns e tantos outros guias e mestres, e muito já se acostumou a ver instaurar-se em seu território várias concepções religiosas. Há, nessas religiões vários sentimentos que reflectem uma comoção social, apoiados numa devoção que sugere a busca e apego ao divino. Iemanjá, conforme aqui vista, sem dúvida nenhuma promove um fenómeno religioso-social que comove este povo. Ela está presente nos terreiros de candomblé e umbanda; nas festas públicas de praia ou ainda no falar do povo de santo ou do povo comum de nosso país. Iemanjá é conhecida por todos, é cantada e festejada. Até mesmo os seguidores de outras religiões falam de seus poderes e domínios. Iemanjá é brasileira e é africana."Armando Vallado
Armando Vallado é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e autor do livro Iemanjá a grande mãe africana do Brasil, ed. Pallas, 2002.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os meus doze livros de 2014

Muitos livros foram publicados em 2014. Alguns transformaram-se rapidamente em best sellers o que, no nosso português, quer dizer campeões de vendas. Outros passaram discretos,  mas afirmando-se pela excelente qualidade. (A revelação de uma grande obra vai acontecendo. Precisa de tempo para ser absorvida.) Alguns foram reeditados o que é de aplaudir, pois a maioria englobava  obras de consagrado valor que estavam esgotadas. 
Ao longo do ano , foi  anunciada,  em rubrica mensal, a diversa publicação de livros. Quem segue estas linhas,  acedeu, no momento,  a uma lista actualizada. Ora o que pretendo registar, neste início de ano, não são informações sobre essas obras. O que me motiva é  o prazer que me proporcionou  a leitura  de alguns livros e a retoma de deleitosas (re)leituras  de outros,  durante o ano de 2014. Desse conjunto, escolhi apenas doze, uma dúzia de livros. Seria tedioso  afrontar o novo ano com a lista de livros de uma leitora de magnânimo consumo e de incondicional fidelidade. Ler é um dos meus maiores prazeres e uma actividade inadiável, imprescindível ao bom laborar dos meus dias. Os livros que preencheram o meu ano de 2014 são muitos. Ao destacar somente doze,  tenho como critério o prodigioso efeito que sempre provocam em mim, aliado  àquela inebriante sedução que me faz sucumbir e render aos bons livros. Assim, a escolha  recai em alguns livros  que são e serão meus amigos e companheiros de todos os tempos e de outros que surgiram este ano  e me deixaram cativa.
Nomeio-os sem qualquer ordenação valorativa. O objectivo é indicar o livro, o autor e o respectivo género literário. Todos eles  são valorosos, enquanto obras literárias e fonte de imenso deleite e aprendizagem.

De Manoel de Andrade, " Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina nos anos 70", Editora Escrituras, S.Paulo, Brasil, 2014 - (Literatura Memorialística)
De Eugénio Lisboa : 
" Acta Est Fabula, Memórias IV - Peregrinação: Joanesburgo. Paris Estocolmo. Londres" ,   Editora Opera Omnia, Outubro de 2014  -  (Literatura Memorialística)
"Indícios de Oiro" Vols. I e II, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa 2009 -    (Ensaios)
De Philip Roth, " Os Factos", Publicações Dom Quixote, Maio de 2014 - (Literatura Memorialística)
De Henry de Montherlant, " O Caos e a Noite ", tradução de Manuel Poppe, Editora Ulisseia, Agosto de 1977 - ( Romance)
De J. Rentes de Carvalho, " Ernestina ", Quetzal Editores5ª edição, Julho de 2014 - (Romance autobiográfico)
De Milan Kundera, "A festa da Insignificância", Publicações Dom Quixote, Outubro de 2014 - (Romance)
De Eugénio de Andrade, "As Palavras Interditas. Até amanhã", Editora Assírio & Alvim, Outubro de 2012 - ( Poesia)
De Jorge de Sena, "Antologia Poética", Edições Asa, Maio de 1999 - ( Poesia)
De Ruy Belo, " Todos os Poemas" Vols. I, II, III, Editora Assírio & Alvim, Dezembro 2000 - ( Poesia)
De George Steiner, " Gramáticas da Criação", Relógio D'Água  Editores, Junho de 2002 - ( Ensaio)
De Harold Bloom, " A anatomia da influência , Literatura como modo de vida", Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2013 - ( Ensaio)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A caixa do tempo

Abro a caixa do inverno. Tiro os ventos
as rajadas de chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do Inverno. Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos; limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois, volto a lançar os dados
-e avanço até à primavera.
Nuno Júdice, in “Cartografia de Emoções”, Ed. Dom Quixote
"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não são as noites em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."
William Shakespeare , in  Sonhos de Uma Noite de Verão, Ed. Campo das Letras

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Música para abrir 2015

" Amar é admirar o coração; admirar é amar com o espírito" 
                                                                      Théophile  Gautier


Se pensar em  ternura e em  beleza, sou obrigada a confessar que penso em dois livros que nunca me abandonam desde a minha adolescência .   Tenho-os aqui. Sorriem e pronunciam os respectivos nomes:  " O Principezinho" de Antoine da Saint-Exupéry  e "Candide" de Voltaire. Duas grandes obras que são  um puro hino de inspiração para qualquer idade. 
Quando enfrento a  arte cinematográfica, ocorre-me  uma série de filmes memoráveis que me inspiram os mesmos sentimentos. Um deles é o que selecciono para este primeiro dia de 2015.
Um filme que junta a música a uma história de vencedores. Faço-o a pensar que  2015 será um ano musicado por uma grande história de vencedores. Vencedores espalhados pelo mundo . No entanto, confesso  que a história que o meu coração deseja com mais carinho e esperança é a história maior da nossa vitória conjunta. Um Portugal diferente, humanizado e fraterno. Que se enterrem  definitivamente os pesadelos e que desponte uma nova luz para iluminar os nossos dias.
Brindemos a 2015. Aqui fica  a selecção . 
"The Sound of Music" ou " Música no coração " é um filme musical americano de  1965 dirigido por Robert Wise  e com Julie Andrews e Christopher Plummer como artistas principais. "O filme  provém  de um musical da Broadway, cuja história é baseada na vida da família de cantores Von Trapp da Áustria. As canções são da autoria de Richard Rodgers e as letras de Oscar Hammerstein II, com passagens instrumentais adaptadas por Irwin Kostal, com roteiro de Ernest Lehm."