quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Da resistência em Portugal III

“POESIA ÚTIL” E LITERATURA DE RESISTÊNCIA
"Poucos, muito poucos foram os poetas que se mantiveram alheios aos anos de ferro e manha da ditadura salazarista. De forma mais explícita ou mais discreta, mais pessoal ou pública, com palavras de indignação, de denúncia ou verrina, raros foram aqueles que não lavraram um pequeno ou grande incêndio nos seus livros, num ou noutro poema, num verso apenas que fosse. (José Fanha in apresentação De Palavra Em Punho – Antologia Poética da Resistência. De Fernando Pessoa ao 25 de Abril. Porto, Campo das Letras, 2004) 
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SONETO AO SENHOR CORREIO

Senhor Correio, Senhor Dom Correio,
por favor, por favor, Vossa Excelência
não abra as minhas cartas porque é feio
e tudo o que for feio falta à decência.

Eu leio as suas cartas? Não, não leio.
Se suas cartas lesse era demência.
Senhor Correio, veja se há um meio
de ter um pouco menos de inclemência.

Porque enfim o que escrevo a mim o devo,
Senhor Correio, é meu tudo o que escrevo,
e a tinta expressando as minhas falas.

É qualquer coisa mais que intimidade.
Senhor Correio, sabe que é verdade,
violar minhas cartas é matá-las.

Sidónio Muralha, “Poemas de Abril” (1974) in Obras Completas do Poeta, Lisboa: Universitária Editora, 2002, pág. 253.

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval,
a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos

feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.
Egito Gonçalves,in  Notícias do Bloqueio, 1952
"Notícias do Bloqueio ‑ Série de nove "fascículos de poesia" publicada no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direcção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direcção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.
Egito Gonçalves (1920-2001) foi poeta, editor e tradutor. Participou na fundação e na direcção de diversas revistas literárias, como A Serpente (1951), Árvore(1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), Limiar(1992). O poema "Notícias do Bloqueio" (1952) e é certamente o mais emblemático de sua trajectória poética tendo-se tornado um símbolo da militância política em tempos da ditadura e gerando o nome da revista que ele dirigiu entre 1957 e 1961."




"No Limite da Dor é uma profunda reflexão sobre a resistência, o medo, a humilhação, a dor e a dignidade do ser humano -- é esta a proposta que fazemos ao espectador de hoje, às novas gerações: o confronto com a realidade portuguesa vivida por milhares de portugueses às mãos da PIDE/DGS.
Georgina, Aurora, Conceição e Domingos não são personagens teatrais, são personagens reais que testemunham as experiências por eles vividas e que nos chamam a atenção para a importância dos ideais, das convicções e da família.
No Limite da Dor é uma peça que colocamos nas mãos do espectador actual, sobretudo pela importância de dar a conhecer e suscitar o debate, sobre as situações colocadas pelas personagens.
São, sem dúvida, dados importantes para que possamos preservar uma memória colectiva, sobre acontecimentos tão dramáticos vividos pelo povo Português."
Ficha técnica/ artística
A partir do Livro "No Limite da Dor" de Ana Aranha e Carlos Ademar
Encenação/Dramaturgia Julio Cesar Ramirez
Interpretação Ana Ademar | António Revez | Marisela Terra
Cenografia Julio Cesar Ramirez
Figurinos, Grafismo e Fotografia Ana Rodrigues
Banda Sonora João Nunes | Fernando Pardal
Desenho de Luz e Sonoplastia Ivan Castro
Operação de Luz e Som Ivan Castro
Construção de Cenário Ana Rodrigues | Ivan Castro
Produção Executiva Rafael Costa
Estreado no Espaço Os Infantes a 24 de Maio
Lendias d'Encantar 2014


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

II Encontro Português de Literaturas Ibero-Americanas

 Encontro Português de Literaturas Ibero-Americanas, nos 100 Anos de Adolfo Bioy Casares, Julio Cortazar, Nicanor Parra e Octavio Paz
6 a 8 de Novembro de 2014
Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Entrada livre

Procurando dar sequência ao I Encontro de Literaturas Ibero-Americanas que teve lugar no Porto em Outubro de 1998, e que reuniu dezenas de escritores e estudiosos dos vários países hispânicos, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e a Casa da América Latina promovem, nos 6 a 8 de Novembro de 2014, um encontro comemorativo do centenário do nascimento de quatro dos mais importantes escritores da literatura em língua espanhola do século XX: Adolfo Bioy Casares, Júlio Cortázar, Nicanor Parra e Octavio Paz.
Pretende-se que o Encontro proporcione uma reflexão crítica renovada sobre as obras dos quatro homenageados, mas também um debate mais alargado sobre a literatura ibero-americana do século XX, bem como sobre a sua presença e importância na cultura e na literatura em língua portuguesa.
PROGRAMA
Quinta-feira | 6 de Novembro | Departamento de Estudos Germanísticos (FLUP)
14:30 | Sessão de abertura
14:45 | Conferência de abertura
Moderação | Gonçalo Vilas-Boas
Osvaldo Manuel Silvestre (Univ. de Coimbra)
Escritores que dão aulas de literatura: Jorge Luis Borges e Julio Cortázar

15:30 | Coffee-break
15:45 | Exibição da Entrevista de Adolfo Bioy Casares concedida a Silvia Hopenhay (1999)
Moderação | Joana Matos Frias
Sonia Miceli (Univ. Lisboa): Imagem e dispositivo em Bioy Casares e Cortázar
Geice Peres Nunes (UniPampa): Final del Juego: Jogos e evasões na literatura de Julio Cortázar
Dominique Casimiro (Univ. Sorbonne Nouvelle): A poesia visual de Nicanor Parra
Fernando Ruiz Perez (Univ. Porto): El labirinto de la muerte: de Octavio Paz a Carlos Fuentes

18:00 | Filme L’Invenzione di Morel, de Emidio Greco (1974)
20:00 | Margarita e os mestres
Sexta-feira | 7 de Novembro | Departamento de Estudos Germanísticos (FLUP)
10:00 | Exibição do documentário Cortázar, de Tristán Bauer (1994)
Moderação | Arnaldo Saraiva
Jasmin Wrobel (Frei Universität Berlin): Desde «Transblanco» até «Un tal Lucas»: As frutíferas amizades interamericanas de Haroldo de Campos
Fernando de Moraes Gebra (Univ. Federal Fronteira Sul): Julio Cortázar e Lygia Fagundes Telles nas encruzilhadas de seus duplos
Isabel Araújo Branco (Univ. Nova de Lisboa): Julio Cortázar e António Lobo Antunes: Diálogos Literários e Musicais

12:30 | Almoço
14:30 |Exibição do documentário Cachureo: Apuntes sobre Nicanor Parra, de Guillermo Cahn (1977)
Moderação | Pedro Eiras
Silvia Hiriart (Univ. Lisboa): Nicanor Parra y Manuel Rojas, la escritura de lo cotidiano
Miguel Filipe Mochila (Univ. Évora): O nosso reino era assim: o fim da infância em «Final do jogo» de Julio Cortázar
Tiago Montenegro (Univ. Porto): «Pensei que depois da praça era a ponte» – Metáforas da distância em Julio Cortázar

16:15 | Coffee-break
16:30 | Exibição do documentário 100 Años de Octavio Paz
Moderação | Isabel Araújo Branco
Patrícia Lino (Univ. Santa Barbara): «It hit me right between the eyes»: Julio Cortázar e o Jazz
Mafalda Barbosa (Univ. Porto): O jogo de Julio Cortázar
Isabel Morujão (Univ. Porto): De musa a muda: armadilhas e amadas filhas

18:30 | Filme Yo, la Peor de Todas, de Maria Luísa Bemberg (1990)
Sábado | 8 de Novembro | Café-Teatro do Teatro Municipal do Campo Alegre
15:30 | Conversa de tradutores
Moderador | Ana Paula Coutinho
Alberto Simões
Arnaldo Saraiva
Jorge Melícias
Ricardo Marques

17:30 | Vinho de honra
18:30 | Concerto-conferência
Compositor: Daniel Schvetz
Acordeão: João Pedro Silva
Saxofone: Pedro Miguel Santos
Piano: Daniel Bruno Schvetz


Colóquio "Incoincidências: vida e obra de José Rodrigues Miguéis"


Colóquio internacional Incoincidências- Vida e Obra de José Rodrigues Miguéis

Paris, 13-14 de novembro de 2014
Université Sorbonne Nouvelle Paris 3
Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France
Maison du Portugal
"Na altura em que deixa Portugal para os Estados-Unidos em 1935, José Rodrigues Miguéis (1901-1980) já é um escritor de destaque, um jornalista e militante político reconhecido, antigo membro do grupo Seara Nova, então ligado aos comunistas. Em Nova Iorque, prossegue nas suas atividades militantes durante uma dezena de anos e, depois de uma doença grave e de uma tentativa falhada de regresso a Portugal, acaba por dedicar-se por completo à escrita.
A maior parte da sua obra acaba por ser publicada apenas em 1958, quando o escritor entra na casa dos sessenta. Daí o escritor exilado se encontrar em desfasamento com Portugal (seus leitores, a sociedade e a ditadura vigente), mas também com a visão do mundo que caracteriza a maior parte dos seus escritos inéditos.
Será a partir deste enquadramento biobibliográfico peculiar que os palestrantes deverão debruçar-se sobre a obra ficcional e não ficcional de José Rodrigues Miguéis.
Os seguintes eixos de reflexão serão pertinentes mas não exclusivos:
- A questão dos géneros literários
– A dimensão referencial (autobiográfica e histórica)
– O jornalista militante e o escritor
– A questão do exílio
– A recepção e a difusão da obra em Portugal e no estrangeiro (tradução e outros)
– Os inéditos (correspondência, textos jornalísticos, iconografia, ficções)
– A biografia (ainda incompleta) do escritor.
No momento em que a sua obra é cada vez mais estudada em Portugal, nos Estados Unidos da América e no Brasil, este primeiro colóquio dedicado a José Rodrigues Miguéis em França levará a um melhor conhecimento desta grande figura um pouco ignorada da história cultural portuguesa do século XX."
Linguas de trabalho: francês e português.
Entrada livre e gratuita no limite dos lugares disponíveis.

"Olhe que não", Senhora Chanceler!

Esta famosa expressão de Álvaro Cunhal é suave para contrariar as declarações  da chanceler Merkel sobre Portugal. Embora oriunda da Alemanha de Leste, esta dignitária da política alemã tem um sonho de grandeza e de hegemonia sobre os demais países que me assusta. Em cada declaração que faz, sobe o tom da sua ambição. Nem Salazar era tão claro nos  desejos de um país inculto. No entanto, o fervor hitleriano levou ao fogo milhares e milhares de livros. A fogueira apagava a fonte do conhecimento. E se os livros não chegaram, queimou também quem o detivesse. Esse era  inimigo do totalitarismo nazi. 
Todos sabemos que num país onde não se privilegia a Educação é um país condenado ao fracasso. A nossa história recente, após a revolução, tem sido a favor do acesso ao Ensino para todos. A Universidade deixou de ser o lugar dos privilegiados, mas sim a casa aberta por onde todos podem entrar. A chanceler quer-nos de volta ao passado. Resta saber se ao passado português se ao passado da sua Alemanha? 
Eis a notícia do meu espanto:
"A chanceler alemã, Angela Merkel, disse, esta terça-feira, que países como Portugal e Espanha têm demasiados licenciados, o que faz com que não tenham noção das vantagens do ensino vocacional.Citada pela agência de informação financeira Bloomberg, a chanceler alemã afirmou que o enfoque nos estudos universitários como um feito de topo da carreira é algo do qual deve haver um afastamento.
"Caso contrário, não conseguiremos persuadir países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados", dos benefícios do ensino vocacional, acrescentou a líder alemã, durante uma intervenção na confederação das associações patronais daquele país (BDA, na sigla em alemão).
De acordo com dados do gabinete de estatísticas europeu, em 2013, 25,3% da população da União Europeia entre os 15 e os 64 anos tinha completado estudos superiores, enquanto a percentagem portuguesa era de 17,6% e a alemã de 25,1%.
Na cabeça da lista encontrava-se a Irlanda, com 36,3% da população entre os 15 e os 64 anos licenciada, seguindo-se o Reino Unido com 35,7%, estando a Roménia (com 13,9%) e a Itália (com 14,4%) no final da lista."JN

Song To The Moon

A soprano Renee Fleming interpreta " Song to the Moon" , uma ária  do 1º Acto da Ópera Rusalka de Antonín  Dvorak, apresentada em Praga, no dia 31 de Março de 1901.  


Silver moon upon the deep dark sky,
Through the vast night pierce your rays.
This sleeping world you wander by,
Smiling on man's homes and ways.
Oh moon ere past you glide, tell me,
Tell me, oh where does my loved one bide?
Oh moon ere past you glide, tell me
Tell me, oh where does my loved one bide?
Tell him, oh tell him, my silver moon,
Mine are the arms that shall hold him,
That between waking and sleeping he may
Think of the love that enfolds him,
May between waking and sleeping
Think of the love that enfolds him.
Light his path far away, light his path,
Tell him, oh tell him who does for him stay!
Human soul, should it dream of me, Let my memory wakened be.
Moon, moon, oh do not wane, do not wane,
Moon, oh moon, do not wane....

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma opinião

Eric Hobsbawm sobre Gaza (2009)
31.Jul.14 -Diário
"Este depoimento do grande pensador de origem judaica Eric Hobsbawm foi publicado na altura da ofensiva sionista de 2009. Continuaria válido face à ofensiva de 2012. Permanece válido em 2014, perante a acção genocida desencadeada por Israel. É importante recordá-lo, além do mais para desmontar a histérica argumentação que pretende fazer crer que a condenação dos crimes de Israel significa anti-semitismo. Muitos judeus são também vítimas do sionismo.
“Há já três semanas que a barbárie está exposta aos olhos da opinião pública universal, que está vendo, julgando e, com poucas excepções, rejeitando o terrorismo armado que Israel emprega contra meio milhão de palestinos cercados, desde 2006, na Faixa de Gaza.
Nunca antes qualquer explicação oficial para a invasão fora tão flagrantemente refutada por uma combinação de imagens de televisão e aritmética; ou o papaguear dos jornais sobre “alvos militares”, pelas imagens de crianças ensanguentadas e escolas incendiadas. 13 mortos de um lado, 1.360 do outro: não é difícil concluir quem são as vítimas. Nem é preciso dizer muito mais sobre a horrenda operação militar de Israel contra Gaza.
Mas para nós, judeus, é efectivamente preciso dizer mais.
Numa história longa e sem segurança, de povo em diáspora, a nossa reacção natural a quase todos os acontecimentos públicos inclui inevitavelmente a pergunta “Isso é bom ou é mau para os judeus?” E, no caso da violência de Israel contra Gaza, a resposta só pode ser uma: “é mau para os judeus”.
É muito evidentemente mau para os 5,5 milhões de judeus que vivem em Israel e nos territórios ocupados de 1967, cuja segurança é gravemente ameaçada pelas acções militares que o governo de Israel empreende em Gaza e no Líbano; acções que demonstram a incapacidade dos militares israelitas para trabalhar a favor dos objectivos que eles mesmos declaram, e actos que só servem para perpetuar e intensificar o isolamento de Israel num Médio Oriente hostil.
O genocídio ou a expulsão em massa de palestinos do que resta do seu território nativo original é nada mais nada menos do que adoptar uma agenda prática que só pode levar à destruição do Estado de Israel. Só a convivência negociada em termos igualitários e justos entre os dois grupos é garantia de futuro estável.
A cada nova aventura militar de Israel, como a que se viu no Líbano e se vê agora [2009] em Gaza, a solução torna-se mais difícil; e mais se fortalece, em Israel, o jugo da direita; e, na Cisjordânia, o mando dos colonos que, em primeiro lugar, nunca quiseram qualquer solução negociada.
Tal como aconteceu na guerra do Líbano em 2006, Gaza, agora, torna ainda mais obscuro o futuro de Israel. E o futuro torna-se mais negro, também, para os nove milhões de judeus que vivem na diáspora.
Sejamos bem claros: criticar Israel não implica qualquer anti-semitismo, mas as acções do governo de Israel cobrem de vergonha os judeus e, mais do que tudo, fazem renascer o anti-semitismo, em pleno século 21.
Desde 1945 os judeus, dentro e fora de Israel, beneficiaram enormemente da má consciência de um mundo ocidental que se recusou a receber imigrados judeus nos anos 1930, antes de ou cometer genocídio ou de não se opor a ele. Quanta dessa má consciência, que virtualmente derrotou por 60 anos o anti-semitismo no Ocidente e produziu uma era de ouro para a diáspora, sobrevive hoje?
Israel em acção em Gaza não é o povo vítima da história. Não é sequer a “valente pequena Israel” da mitologia de 1948-67, um David derrotando vários Golias que o cercavam.
Israel está a perder a solidariedade do mundo, tão rapidamente quanto os EUA perderam a solidariedade do mundo no governo de George W. Bush, e por razões semelhantes: cegueira nacionalista e a megalomania do poderio bélico.
O que é bom para Israel e o que é bom para os judeus como povo são coisas evidentemente associadas, mas até que seja encontrada uma solução justa para a questão palestina essas duas coisas não são nem podem ser idênticas. E é essencialmente importante que os judeus o declarem, bem claramente."Eric Hobsbawn
Original publicado em London Review of Books, vol. 31, n. 2, 29 January 2009, pages 5-6 “Responses to the War in Gaza” 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Grande Prémio de Literatura Biográfica para Eugénio Lisboa

O Grande Prémio da Literatura Biográfica 2012/2013  foi atribuído a Eugénio Lisboa, anunciou hoje a Associação Portuguesa de Escritores (APE), entidade que instituiu o galardão.
"O júri, que escolheu a obra de Eugénio Lisboa "por unanimidade", foi constituído por José Correia Tavares, que presidiu, António Cândido Franco, Isabel Cristina Rodrigues e Teresa Martins Marques.
O galardão, bienal, tem o valor pecuniário de 5.000 euros e é patrocinado pela Câmara Municipal de Castelo Branco.
Nas três últimas edições, o Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE distinguiu "Diário Quase Completo", de João Bigotte Chorão, "Biografia de Eça de Queirós", de A. Campos Matos, e "Tempo Contado", de J. Rentes de Carvalho."
A editora Opera Omnia publicou, em Novembro de 2012, esta obra, "Acta Est Fabula -Memórias I - Lourenço Marques (1930-1947)", que constitui  o  primeiro volume de um conjunto de cinco volumes previstos por Eugénio Lisboa para as Memórias . Desse conjunto estão já publicados três volumes.
A APE não divulgou a  data da  entrega do galardão.
A Eugénio Lisboa apresentamos a nossa homenagem e o imenso regozijo por este tão merecido prémio que não vislumbrara nas palavras inscritas na contracapa deste volume primeiro das suas Memórias, agora premiado:  " Lanço neste papel, memórias que me parecem importantes - a mim. Escrever memórias é tentar imprimir a marca da eternidade a momentos, para nós inesquecíveis e inesquecidos , intensos, mágicos, às vezes, quase insuportavelmente  vivos... mas que serão, para outros, provavelmente despidos de interesse. Captar a atenção destes , a sua cumplicidade , atraí-los a esta narrativa de minúcias e convencê-los de que estes momentos foram realmente algo de especial - eis a tarefa gigantesca do memorialista .Tarefa impensável, se calhar impossível, mas que, de quando em quando - uma vez num milhão - resulta." 
E como resultou. Parabéns.

Trazer o universo ao colo

ACORDAR DA CIDADE DE LISBOA MAIS TARDE DO QUE AS OUTRAS

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja […]

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras —
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.


Álvaro de Campos,in Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002 


Em Legítima defesa

Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
são uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas, nos gestos, nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
Mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como me destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um persigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
Não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
com coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesses morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te posso encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais

Ruy Belo, in Todos os poemas II. “Nau dos Corvos”. Assírio e Alvim (2004)

domingo, 2 de novembro de 2014

Ao Domingo Há Música

Sorolla
"Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
in the wind of change"

Todas as canções escolhidas para este primeiro Domingo de Novembro  foram sucessos que marcaram o seu tempo. Ficaram na memória de alguns. Foram presença para uns ou fugaz prazer para outros. Algumas estão associadas a  momentos de grande eclosão social no mundo. O traço que lhes é comum é o da resistência ao tempo, aquele que enforma a intemporalidade: o que  sobrevive para lá da moda, dos gostos, dos novos e diferentes cânones. 
A sequência da  apresentação  foi organizada aleatoriamente. Traduz, apenas, um processo de rememoração . Seleccionar a audição compete a cada um.

Tears for Fears  em  "Shout" (Night of the Proms - Antwerp, Belgium, 2006). Canção da autoria de  Roland Orzabal e Ian Stanley com interpretação de  Orzabal (com Curt Smith em dueto e coros). A Primeira gravação foi realizada no  UK a  23 Novembro de 1984. "Shout" foi a canção de  maior sucesso de 1985, atingindo o  Top Ten em  25 países.


- The Pink Floyd, uma das grandes bandas  de sempre,  em "Another Brick n The   Wall", uma faixa do álbum The Wall, composta pelo  baixista Roger Waters, em  Novembro de 1979. 



The Scorpions  em " Wind Of Change" acompanhados pela famosa Berliner Philharmoniker Orchestra, num  concerto de 2000 onde foram interpretados os maiores sucessos desta Banda: Big City Nights, Dynamite, Wind Of Change and Still Loving You.
" Wind Of Change" foi lançada no álbum Crazy World em 1990, e tornou-se um sucesso em todo o mundo até 1991.


I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change
An August summer night
Soldiers passing by
Listening to the wind of change

The world is closing in
Did you ever think
That we could be so close, like brothers
The future's in the air
I can feel it everywhere
Blowing with the wind of change

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
in the wind of change

Walking down the street
Distant memories
Are buried in the past forever
I follow the Moskva
Down to Gorky Park
Listening to the wind of change

Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow share their dreams
With you and me
Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
in the wind of change

The wind of change
Blows straight into the face of time
Like a stormwind that will ring the freedom bell
For peace of mind
Let your balalaika sing
What my guitar wants to say
(...)

"Os leitores da Rolling Stone da Espanha, elegeram as dez melhores canções já feitas pelo Depeche Mode.  "Enjoy The Silence" (1990), Música clássica inegável do nosso tempo, é para os leitores da Rolling Stone, a melhor canção do Depeche Mode. Foi a mais votada sem a menor concorrência. Composta, gravada e cantada por Martin Gore em acústico, foi Alan Wilder, que desenvolveu todo o seu potencial com uma base electrónica sofisticada que ainda mantém toda a sua épica. Foi o segundo single do álbum Violator 1990." in site dos Depeche Mode

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm
(...)


- John Lennon, em " Imagine"."Canção gravada e lançada em 1971 no álbum "Imagine". Pelo conteúdo da sua letra, é considerada o mellhor Hino pela Paz. Foi eleita pela revista Rolling Stone a 3ª maior música de todos os tempos."

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace

You, you may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one


sábado, 1 de novembro de 2014

Os Melhores Livros de Não-Ficção

Os 100 melhores livros de não-ficção
"A lista saiu no “The Guardian”, um dos principais jornais diários da Inglaterra. Como qualquer outra, a lista a seguir é idiossincrática, o que não é o mesmo que desqualificada. Pelo contrário, trata-se de um levantamento criterioso e respeitável. As obras são sérias. É possível discordar de algumas escolhas, mas, no geral, não há o que discutir. A “Arte Moderna”, de Giulio Carlo Argan, merece ser citado entre os bons livros da área. Foi esquecido. Mas a “História da Arte”, de E. H. Gombrich, permanece como um livro de referência equilibrado. “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”, do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, merece figurar em qualquer lista decente sobre história ou biografia. Assim como “Mao — A História Desconhecida”, de Jung Chang e Jon Holliday. É um dos mais documentos sobre o genocida Mao Tsé-tung. O leitor brasileiro vai dizer: “Como é possível excluir ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, e ‘Casa Grande & Senzala’, de Gilberto Freyre? Há outras omissões, o que é normal em qualquer lista. As listas excluem mais  do que incluem. Se não fosse assim, não seria lista (um recorte). O Jornal Opção e a Revista Bula ( Brasil) comentam os livros — também de modo idiossincrático.
ARTE
Notas Sobre o Camp”, de Susan Sontag (1964)
Guardian: “Sontag sugere que a sensibilidade moderna tem sido moldada pela ética judaica e pela estética homossexual”.
Jornal Opção e Revista Bula: Como tudo, a tese de Sontag é discutível. Mas por que não citar dois livros de Raymond Williams: “Cultura” (Paz e Terra) e “O Campo e a Cidade”? Talvez porque Williamns seja mais denso e menos midiático.
Mitologias, de Roland Barthes (1972)
Guardian: “Barthes examina as coisas que nos cercam neste livro espirituoso sobre a criação do mito contemporâneo”.
Jornal Opção e Revista Bula: no seu exame dos “fatos diversos”, Barthes (Todorov seria um seguidor, numa linha relativamente diferente?) é insuperável. Seu pequeno livro é um clássico.
Orientalismo, de Edward Said (1978)
Guardian: “Said argumenta que as romantizadas representações ocidentais da cultura árabe são políticas e condescendentes.”
Jornal Opção e Revista Bula: O Guardian quer dizer que Said percebeu que ideologizaram a representação da cultura árabe. Mas o jornal não diz que a interpretação de Said limita a amplitude da obra de alguns autores, como Joseph Conrad. Said tem sido muito criticado nos últimos anos.
O Choque do Novo”, de Robert Hughes (1980)
Guardian: “Hughes estuda a história da arte moderna, do cubismo à vanguarda”.
Jornal Opção e Revista Bula: Hughes é um dos maiores críticos de arte de todos os tempos. Mas por qual razão ignorar Carlo Giulio Argan, autor de, entre outros, “Arte Moderna” (Companhia das Letras).
História da Arte”, de Ernst H. Gombrich (1950).
Guardian: “É o livro mais popular de história da arte. Gombrich analisa os problemas técnicos e estéticos enfrentados pelos artistas desde o início dos tempos”.
Jornal Opção e Revista Bula: Minha edição é de 1972, mas, mesmo com o enorme manancial de pesquisas recentes, o livro de Grombrich permanece como aqueles clássicos cheios de vitalidade.
Maneiras de Ver”, de John Berger (1972).
Guardian: “Um estudo das formas como olhamos a arte”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um livro de categoria com a qualidade de John Berger.

BIOGRAFIA
Vidas dos Principais Arquitetos, Pintores e Escultores Italianos, de Giorgio Vasari (1550).
Guardian: “Biografia dos artistas que moldaram a Renascença”.
Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se de um clássico, com os defeitos e virtudes dos livros que foram escritos em cima da hora.
A Vida de Samuel Johnson, de James Boswell (1791).
Guardian: “Boswell baseia-se em seus diários para criar um retrato afetuoso do grande lexicógrafo”.
Jornal Opção e Revista Bula: Boswell era amigo do escritor inglês Samuel Johnson, mas escreveu uma biografia equilibrada. Clássico que se tornou “pai” das outras biografias. Inédito no Brasil.
Os Diários de Samuel Pepys, de Samuel Pepys (1825).
Guardian: “Diário vívido sobre o período da Restauração”.
Jornal Opção e Revista Bula: Clássico que permanece inédito em português. O livro sempre apareceu nas listas do jornalista Paulo Francis.
Eminentes Vitorianos”, de Lytton Strachey (1918).
Guardian: “Com este relato espirituoso e irreverente, Strachey definiu o modelo para a biografia moderna”.
Jornal Opção e Revista Bula: O livro de Strachey tem de fato importância. Mas não caberia, antes, citar a obra de Plutarco? A biografia “Hitler”, de Ian Kershaw, merece citação em qualquer lista séria. Assim como “Churchill”, de Roy Jenkins.
Adeus a Tudo Isso”, de Robert Graves (1929).
Guardian: “Graves conta, nesta autobiografia, a história de sua infância e os primeiros anos de seu casamento. O registro central é sobre a brutalidade e a banalidade da Primeira Guerra Mundial.”
Jornal Opção e Revista Bula: O “Guardian” não diz, mas Graves é um escritor e poeta notável, com amplo conhecimento de história e mitologia.
A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein (1933).
Guardian: “Biografia inovadora de Stein, escrita sob a forma de uma autobiografia de sua amante.”
Jornal Opção e Revista Bula: Gertrude Stein, ao falar de si, conta a história da arte moderna na França. Conta boas histórias de Apollinaire e Picasso. É um excelente retrato da vida cultural de Paris. Há uma ótima tradução no Brasil.
CULTURA
Notas Sobre o Camp”, de Susan Sontag (1964)
Guardian: “Sontag sugere que a sensibilidade moderna tem sido moldada pela ética judaica e pela estética homossexual”.
O Choque do Novo”, de Robert Hughes (1980)
Guardian: “Hughes estuda a história da arte moderna, do cubismo à vanguarda”.
Jornal Opção e Revista Bula: Hughes é um dos maiores críticos de arte de todos os tempos. Mas por qual razão ignorar Carlo Giulio Argan, autor de, entre outros, “Arte Moderna” (Companhia das Letras).
História da Arte”, de Ernst H. Gombrich (1950).
Guardian: “É o livro mais popular de história da arte. Gombrich analisa os problemas técnicos e estéticos enfrentados pelos artistas desde o início dos tempos”.
Jornal Opção e Revista Bula: Minha edição é de 1972, mas, mesmo com o enorme manancial de pesquisas recentes, o livro de Grombrich permanece como aqueles clássicos cheios de vitalidade.
Maneiras de Ver”, de John Berger (1972).
Guardian: “Um estudo das formas como olhamos a arte”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um livro de categoria com a qualidade de John Berger.
(...)

HISTÓRIA
As Histórias de Heródoto” (c400 a.C)
Guardian: “A história começa com o relato de Heródoto sobre a guerra greco-persa”.
Jornal Opção e Revista Bula: Outro clássico indiscutível. Base mesmo de livros superiores sobre o assunto.
História do Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon (1776)
Guardian: “O primeiro historiador moderno do Império Romano voltou a fontes antigas para argumentar que a decadência moral torna a queda dos impérios inevitável.”
Jornal Opção e Revista Bula: Outro clássico do primeiro time. O Brasil ganhou uma tradução excelente, de José Paulo Paes (Companhia das Letras). Pena que seja a versão condensada.
A História da Inglaterra”, de Thomas Babington Macaulay (1848).
Guardian: “Um estudo do historiador Whig preeminente.”
Jornal Opção e Revista Bula: Numa palavra, clássico. Mas por que não citar, por exemplo, “Rumo à Estação Finlândia”, o notável livro de Edmund Wilson? Todo livro fica datado, até os clássicos, mas a obra de Wilson é uma história importante sobre a vaga socialista.
Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt (1963).
Guardian: “Relato de Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann”.
Jornal Opção: O livro da filósofa judia é esplêndido, não resta dúvida. Mas por que não citar “A Destruição dos Judeus Europeus”, de Raul Hilberg?
A Formação da Classe Operária Inglesa”, de E. P. Thompson (1963).
Guardian: “Thompson virou a história de cabeça para baixo, centrando-a sobre a importância política do povo, ao qual a maioria dos historiadores havia tratado como massa amorfa”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico da historiografia inglesa (saiu no Brasil pela Paz e Terra).
Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”, de Dee Brown (1970) .
Guardian: “Um relato comovente do tratamento dos índios americanos pelo governo dos EUA”.
Jornal Opção e Revista Bula: Uma magnífica história dos índios americanos. Mas pode ser incluído entre os grandes clássicos? Talvez não.
Tempos Difíceis: Uma História Oral da Grande Depressão, de Studs Terkel (1970).
Guardian: “Relatos orais da grande Depressão americana”.
Jornal Opção e Revista Bula: Livro não analisado por nossa redação. Pode ser combinado com a leitura de “As Vinhas da Ira”, romance de John Steinbeck? Deve.
Shah of Shaws, de Kapuscinski Ryszard (1982).
Guardian: “O grande repórter polonês conta a história do último xá do Irã.”
Jornal Opção e Revista Bula: Hoje, diz-se que o escritor e jornalista Ryszard costumava inventar fatos, quando a história era pobre. Mas era, sem dúvida, um repórter brilhante. O livro sobre Reza Pahlevi é notável.
A Era dos Extremos — O Breve Século 20, de Eric Hobsbawm (1994)
Guardian: “Hobsbawm registra o fracasso dos capitalistas e comunistas.”
Jornal Opção e Revista Bula: O marxismo mais ou menos ortodoxo não desvaloriza as análises do historiador inglês Eric Hobsbawm. Seu livro é um clássico moderno.
Gostaríamos de Informar que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias”, de Philip Gourevitch (1999)
Guardian: “Gourevitch capta o terror do massacre de Ruanda, e os fracassos da comunidade internacional.”
Jornal Opção e Revista Bula: Um grande livro jornalístico.
Pós-guerra — Uma História da Europa Desde 1945”, de Tony Judt (2005) .
Guardian: “Um relato magistral da história da Europa desde 1945”.
Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se da exposição mais brilhante da história da Europa depois de 1945, passando pela queda do Muro de Berlim e a ruína do socialismo. Um equivalente não marxista (mas não de direita) para o trabalho de Hobsbawm

JORNALISMO
O Jornalista e o Assassino”, de Janet Malcolm (1990)
Guardian: “Uma análise dos dilemas morais do jornalismo”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um livro de qualidade. Mas não tem a mesma força de alguns livros de Gay Talese, Tom Wolfe e, mesmo, do Truman Capote de “A Sangue Frio”. Mas ela tem razão: o jornalismo é tão necessário quanto indefensável.
"O Teste do Ácido de Refresco Elétrico", de Tom Wolfe (1968).
Guardian: “O homem de terno branco segue Ken Kesey e sua banda, Merry Pranksters, nos EUA, inebriados pelo LSD”.
Jornal Opção e Revista Bula: Tom Wolfe, mesmo metido a sabidão, é sempre interessante. Mas, apesar do tema, forte, por que não citar outro livro, “Radical Chique e o Novo Jornalismo”?
Despachos”, de Michael Herr (1977).
Guardian: “Um relato vívido das experiências de Herr da guerra do Vietnã”.
Jornal Opção e Revista Bula: Jornalismo do primeiro time ao tratar de uma guerra estranha e complexa.

LITERATURA
As Vidas dos Poetas, de Samuel Johnson (1781)
Guardian: “Biografias e estudos críticos de poetas do século 18”.
Jornal Opção e Revista Bula: clássico é clássico. Johnson era um faz-tudo: prosador, crítico, biógrafo.
Imagem da África, de Chinua Achebe (1975)
Guardian: “Achebe percebe ‘O Coração das Trevas’ como um romance racista, que priva seus personagens africanos de humanidade”
Jornal Opção e Revista Bula: Do autor, o leitor brasileiro pode ler “O Mundo se Despedaça”. Joseph Conrad, ao contrário do que diz o escritor, não retira a humanidade dos africanos. Mostra, isso sim, que os europeus, ao tentarem supostamente humanizá-los, cometerem toda sorte de violências. A leitura de Chinua Achebe é redutora.
Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim (1976)
Guardian: “Bettelheim afirma que a escuridão dos contos de fadas oferece um meio para as crianças lidarem com seus medos”.
Jornal Opção e Revista Bula: A análise pode ser forçada (às vezes retira o lúdico e o puramente literário), mas não deixa de ser pertinente. Abriu as portas para outros estudos.
Godel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid”, de Douglas Hofstadter (1979)
Guardian: “Uma meditação sobre a mente, música e matemática”.
Jornal Opção e Revista Bula: livro sobre o qual não temos referências técnicas, mas que sabemos ser importante.

LIVROS DE MEMÓRIAS
Confissões, de Jean-Jacques Rousseau (1782)
Guardian: “Rousseau estabelece o modelo de autobiografia moderna, com este relato íntimo da sua própria vida”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um livro ímpar. Mas recomendamos que se leia acompanhado do livro “Os Intelectuais”, de Paul Johnson. Há um capítulo corrosivo sobre Rousseau.
Narrativa da Vida de Frederick Douglass, de Frederick Douglass (1845)
Guardian: “Uma das primeiras vezes em que a voz de um escravo foi ouvida pela sociedade americana”.
Jornal Opção e Revista Bula: “Um clássico americano”, que, salvo engano, não tem tradução brasileira.
De Profundis, de Oscar Wilde (1905)
Guardian: “Encarcerado, Wilde conta a história de seu affair com Alfred Douglas e seu desenvolvimento espiritual”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um livro belíssimo. Mas o leitor deve ter em mente que é a versão de Oscar Wilde. Sugere que, no lugar de seduzir, foi seduzido por Alfred Douglas. Plausível? É, mas sem nuance.
Os Sete Pilares da Sabedoria, de T. E. Lawrence (1922)
Guardian: “Conta as façanhas de Lawrence durante a revolta contra o Império Otomano”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico. Mas a própria vida de Lawrence é mais interessante que seu livro. Vale ver “Lawrence da Arábia”, o belo filme do inglês David Lean.
Minha Vida e Minhas Experiências Com a Verdade, de Mahatma Gandhi (1927)
Guardian: “Um clássico do gênero confessional. Gandhi relata suas primeiras lutas e sua busca apaixonada pela autoconhecimento”.
Jornal Opção e Revista Bula: Goste-se ou não, Gandhi é um clássico.
Homenagem à Catalunha, de George Orwell (1938).
Guardian: “Orwell faz um relato da confusão [ideológica] e das traições na guerra civil”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um relato notável sobre a Guerra Civil Espanhola. Sugerimos, porém, que se leia acompanhado dos livros de Hugh Thomas e Antony Beevor para melhor compreensão da história da batalha que ocorreu na Espanha, de 1936 a 1939, entre a esquerda e a direita. A tradução brasileira é muito boa (Editora Globo).
O Diário de Anne Frank”, de Anne Frank (1947)
Guardian: “Publicado por seu pai, após a guerra, conta a vida da família Frank que se escondeu na Holanda”.
Jornal Opção e Revista Bula: Um documento impressionante sobre a perseguição dos judeus pelo nazismo. Um clássico escrito, muito bem escrito, por uma menina — o que resultou num relato vívido e íntimo do mundo dos judeus que se esconderam e morreram na Holanda.
Fala, Memória”, de Vladimir Nabokov (1951)
Guardian: “Nabokov reflete sobre sua vida antes de se mudar para os EUA em 1940”.
Jornal Opção e Revista Bula: Nabokov era sempre brilhante, mesmo quanto não tinha inteira razão (como na briga com Edmund Wilson por conta de uma tradução de Puchkin). “Fala, Memória” é um de seus livros mais sugestivos. Falta publicar no Brasil sua crítica literária, do primeiro time.
O Homem Morreu”, de Wole Soyinka (1971)
Guardian: “Um relato autobiográfico das poderosas experiências de Soyinka na prisão durante a guerra civil nigeriana”.
Jornal Opção e Revista Bula: O que Soyinka tem de melhor é sua poesia. Mas suas memórias mostram um mundo pouco conhecido de nós, brasileiros. Na Europa, pelo contrário, Soyinka é mais bem publicado.
A Tabela Periódica, de Primo Levi (1975)
Guardian: “Uma visão da vida do autor, incluindo a sua vida nos campos de concentração, como pôde ser visto através do caleidoscópio de química”.
Jornal Opção e Revista Bula: O livro citado é extraordinário. Mas, para uma leitura inicial sobre as histórias de Primo Levi no campo de concentração (e extermínio) de Auschwitz, sugerimos outro livro: “É Isto Um Homem?”. Como José Paulo Paes e Elias Canetti, o magnífico escritor italiano Primo Levi era químico. Curiosamente, depois de muitos anos, na velhice, ele se matou, jogando-se de uma escada.
Bad Blood”, de Lorna Sage (2000).
Guardian: “Sage destrói a fantasia de família. Conta como seus parentes ‘transmitiram’ raiva, tristeza e desejo frustrado de geração em geração”.

Jornal Opção e Revista Bula: Temos boas referências sobre o livro, mas não podemos apresentar indicações positivas ou negativas.(...)
O jornal “The Guardian” estabeleceu um cânone sobre livros de não-ficção que exclui autores e obras de vários países. Do Brasil, por exemplo, não aparece nenhum livro. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, certamente é mais importante que alguns dos livros arrolados, mas não é citado. “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, é respeitado por sociólogos e antropólogos, mas não mereceu nenhuma menção.Os outros autores ignorados: Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Schwarz, Antonio Candido (além de crítico literário, é sociólogo), Wilson Martins (autor de uma seminal “História da Inteligência Brasileira”), Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Darcy Ribeiro." in Acervo da Revista Bula
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